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CARTAS DE

AM

R

DE HOMENS NOTÁVEIS

Editado por

ROMANCE !

PROTAGONIZADO S

PELAS PERS ONALIDADE S

MAIS INFLl.

D A

ENTE S

HISTÓF IA

Inspi

ado

livo

Carrie Br^dshaw em

no

de

Sex

and

the City

N O

FILME SEXAND

THE

CITY, Carri e Bradshaw

despertou

o interesse de leitores no mundo

inteiro

ao

recitar para Mr. Big trechos

de uma carta de amor

escrita po r Beethoven.

Um a verdadeira corrida

às livrarias teve início e qual não foi a decepção

daquelas

pessoas

ao descobrirem qu e a obra lida pela

personagem

simplesmente

não existia.

Até

agora.

Cartas de amor de homens notáveis reúne

algumas

das correspondências

mais românticas d a história,

encontradas

e m meio a documentos

pessoais de ícones

como John Keats, David Hume, Napoleão

Honoré de Balzac.

Bonaparte

e

Para alguns

desses

homens

ilustres, o amor

"resume

a existência nesta e e m outra vida" (Lord Byron);

para outros,

é "um a esposa

linda e delicada num

sofá, co m um a bo a lareira, livros e

música" (Charles

Darwin).

O

amor pode queimar como

o calor d o

sol

(Henrique VIII) o u penetrar n o coração

como

uma chuva refrescante

(Gustave

Flaubert). Todas

as nuances da paixão estão neste

livro, da refinada

eloquência d e Osca r Wilde

à singela devoção de

Mozart,

passando

pelo sofrimento

admiravelmente

modern o

d o governador

romano

Plínio, o Jovem, qu e

se refugiava

nas responsabilidades d o poder

para

esquecer

a saudade

da amada esposa,

Calpúrnia.

Essas cartas

mostram que os casos

de amor não

mudaram tanto no s últimos dois

mil anos: paixão,

ciúme, esperança e desejo

estão

representados

aqui, assim como

o prazer de receber o u enviar uma

mensagem

à pessoa

amada.

Editado por

Úrsula Doyle

Romance s

pela s

protagonizado s

mai s

personalidade s

influente s

d a

históri a

Tradução

Doralice

Lim a

BestSe//er

CIP-BRASIL.

CATALOGAÇÃO-NA-FONTE

SINDICATO

NACIONAL DOS EDITORES D E LIVROS, RJ .

Cartas de amor de homens notáveis: romances

protagonizados

C314

pelas personalidades mais influentes da história/editado por

Úrsula

Doyle ; tradução: Doralic e Lima . — Ri o

de Janeiro : BestSe//er, 2010 .

Tradução de: Love letters of great Inclui bibliografia ISBN 978-85-7684-388-7

men

I

.

Cartas de amor. I . Doyle,

Úrsula.

10-1314

CDD: 808.8693543

CDU: 82-6

Texto revisado segundo o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

TÍTULO

ORIGINA L

INGLÊS

Love letters of great

men

Copyright © 2008 by Úrsula

Doyle

Copyright da tradução © 2009 by Editora Best Seiler Ltda.

A

seleção e os comentários são de autoria de Úrsula Doyle.

As cartas que constam desta edição respeitam a

pontuação e a grafia dos documentos

originais

Primeira edição publicada em 2008 por MacMillan, u m selo da Pan MacMillan Ltd .

Capa: Elmo Rosa Editoração eletrônica: Mari Taboada

Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução,

no todo ou em parte, sem autorização prévia por escrito da editora,

sejam quais forem os meios

empregados.

Direitos exclusivos de publicação em língua portuguesa para o adquiridos pela

EDITORA

BEST SELLER

LTDA.

Ru a Argentina , 171. parte, São

Cristóvão

Rio de Janeiro, RJ -

20921-380

Brasil

que se reserva a propriedade literária desta tradução

Impresso no

Brasil

ISBN 978-85-7684-388-7

Seja u m leitor preferencial Reco rd. Cadastre-se e receba informações sobre nossos lançamentos e nossas promoções-

Atendimento e venda direta ao leitor mdireto@record.com.br ou (21) 2585-2002

Â

memória

JSS,JD,AJD

de três grandes

homens:

Sumário

9

Int

odução

13

De Plínio,

o Jovem,

para

a esposa,

Calpúrnia

15

Do Rei Henrique

VIIIpara

Ana

Bolena

 

17

De

William

Congreve

para

a Sra. Arabella

Hunt

20

De Richard

Steele

para

Mary

Scurlock

23

De

George

Farquhar

para

Anne

Oldfield

26

De Alexander

Pope para

Martha

Blount

28

De Alexander

Pope para

Teresa

Blount

 

29

De Alexander

Pope para Lady Mary

Wortley

Montagu

31

De David

Hume

para

Madame

de

Boufflers

33

De Lawrence

Sterne para

Catherine

Fourmantel

35

De Lawrence

Sterne

para

Lady

Percy

38

De Denis

Diderot

para

Sophie

Volland

 

41

De Henry Frederick,

Duque

de Cumberland,

para

Lady

Grosvenor

44

De

Wolfgang Amadeus

Mozart

para

a esposa,

Constance

 

48

Do

Lorde

Nelson

para

Lady Emma

Hamilton

52

De Robert

Burns

para

a Sra. Agnes

Maclehose

55

De Johann

Christoph

Friedrich von Schiller para

Charlotte

von

Lengefeld

58

De Napoleão

Bonaparte

para

a esposa,

Josephine

 

64

De Daniel

Webster para Josephine

Seaton

66

De Ludwig

van Beethoven

para

sua

'Amada

Imortal"

7o

De

William

HazJittpara

Sarah

Walker

74

77

78

85

89

93

96

De Lord

Byron para

Lady

Caroline

Lamb

De Lord

Byron para

a Condessa

Guiccioli

 

De John

Keats para

Fanny

Brawne

De Honoré

de Balzacpara

a Condessa

Ewelina

Hanska

De

Victor

Hugo para

Adele

Foucher

De Nathaniel

Hawthornepara

a esposa,

Sophia

De Benjamin

Disraelipara

MaryAnne

Wyndham

Lewis

104

io8

ni

"9

120

123

De

Charles

Darwin

para

Emma

Wedgwood

De Alfred

de Mussetpara

George

Sand

De Robert

Schumann

para

Clara

Wieck

De Robert

Browning

para

Elizabeth

Barrett

De

Gustave

Flaubert

para

Louise

Colet

De

Gustave

Flaubert

para

George

Sand

De

Walter

Bagehotpara

Elizabeth

Wilson

128

132

137

142

146

151

De Mark

Twain para

Olivia

Langdon

 

De

William

F. Testerman para

a Srta.Jane

Davis

De

Charles

Stewart

Parnellpara

Katharine

O f Shea

De

Oscar

Wilde para

Lorde Alfred

Douglas

 

De Pierre

Curie para

Marie

Sklodovska

(Marie

Curie)

De

G .

ff.

Chesterton

para

Frances

Blogg

Do

Capitão Alfred

Blandpara

a esposa,

Violet

154 Do Sargento-major

de Regimento James Milne para

a esposa,

156

Do

Segundo-tenente

John

Lindsay

Rapoport

para

a

noiva

158 Bibliografia

159 Agradecimentos

Introdução

E

M

NOSSO S

 

DIAS ,

muito s

pensa m

qu e

carta s

d e

amo r

n

ã o

sã o

mai

s

escrita s

e

qu e

o

correi o

eletrônic o

e

as

mensagen s

d e

text o

representa m

a

mort e

d o

romantis -

m

o .

Hoj e

parec e

improváve l

qu e

até

mesm o

o

aman -

te

mai s

apaixonad o

diga ,

com o

o

dramaturg o

Willia m

Congreve ,

qu e

"S ó

t u consegue s domina r minh a

mente ,

e

esta

nã o

se

ocup a

senã o

d e

ti. " Contudo ,

Congrev e

e

r a

u m

géni o

d a literatura .

Po r

outr o

lado ,

o

almirant e

Nelso n

definitivament e nã o

er a

u m

literat o e mesm o

el e

concebe u

"Emm a

é

par a

o

alf a

Lad y

Hamilto n

a

comovent e

e

o

ômeg a

d e

Nelson! " Talve z

expressão :

tenhamo s

n

o s

tornad o

meno s

romântico s

e mai s céticos ,

o u

talvez

aquele s

homen s

fosse m

mai s

desinibido s

d o

qu e

somo s

hoje .

Co m

certeza ,

a

ironia

,

o

espírit o

qu e

presid e

a

noss a

era , quas e

nã o

encontr a

espaç o

nest a

coletânea .

 

Portanto ,

a o

le r

toda s

essas

carta s

d e

amo

r

e

desco -

bri r

as história s

po r

trás

delas ,

somo s

tentado s

a

pensa r

q

u e

nós ,

bárbaro s

modernos ,

perdemo s

a

f é

nã o

s ó

n o

amor ,

ma s

també m

n a

art e

d e

expressá-lo .

Porém ,

na s

carta s

qu e

se

seguem ,

o

qu e

mai s

m e

toco u

nã o

fora m

as

declaraçõe s

elegante s

e

apaixonadas ,

ou ,

pel o

me -

nos ,

nã o

soment e

elas ;

quand o

esbarra m e m

preocupa -

çõe s

mai s

prosaica s

com o

a

confiabilidad e

d o

correio ,

a

necessidad e

d e

roupa s

d e

cam a

limpas ,

as

lembrança s

à

mã e

d a

amad a

o u

a

descriçã o

d e

u m

sonho ,

as

carta s

subitament e

ganha m

vid a

e

seu s

autore s

parece m

mai s

humanos .

Pode-s e

çõe s

rebuscada s

sã o

defende r

a

mai s

par a

idei a

sere m

d e

qu e

vista s

as

declara -

(e m

algun s

casos ,

pel a

posteridade )

d o

qu e

par

a

expressa r

co m

au -

tenticidad e

u m

sentiment o

genuín o

— sã o mai s frut o

da s

convençõe s

d o

qu e

d a

convicção .

E

seri a

razoáve l

cha -

m

a r

est e

livr

o

d e

"Homen s

notáveis :

Faland o

sobr e

s i

mesmo s

desd e

6 l

d.C. "

Co m

certez a

fari a

be m

a

algun s

desse s missivista s se algué m

os chamass e

d e

lad o

e

disses -

s e :

voc ê

nã o

é

o

centr o

d o

universo .

Evidentemente ,

nã o

faz

sentid o

afirma r

qu e

um a

mensage m

d e text o com

o

"N

O BA R VEND O FU T VOLT O

JA H

BJS "

é mai s genuína ,

portant o

mai s romântic a

d o

qu e

um a

declaraçã o

com o

a

d e

Byron :

" O

qu e

sint o

po r

t i

é

mai s

d o

qu e

amor ,

e

nã o

consig o

deixa r

d e

te

amar. "

Assim

,

embor a

esperemo s

qu e

esta coletâne a

agrade ,

emocion e

e

talvez

até

divirt a

os

leitores ,

el a

també m

pod e

servi r par a

lembra r

aos grande s

homen s

d a

atualidad e qu e

nã o

é

pre -

cis o

se r

u m

géni o

literári o

par a

escreve r

um a

carta ,

um a

mensage m

d e

text o

o u

u m

e-mai l d e

amo r

sinceros .

 
 

ÚRSUL A

DOYLE ,

Londres,

 

2008

*

Joh n

Donn e

Ann e

Donn e

Un-done *

John

Donne,

da prisão

Fleet,

em carta

casamento

secreto, em dezembro de

l6oi.

Des-feitos ,

e m tradução

literal .

(JV.

doE.)

à esposa

depois

de seu

I

Plínio,

6ld.C.'U2d.a

o Jovem

PLÍNIO ,

O JOVE M

(Gaiu s Pliniu s

Caeciliu s Secundus )

er a

filh o

d e

u m

proprietári o

rura l

d o

nort e

d a Itália.

Depoi s

d a mort e

d o

pai , fo i criad o pel o

tio , Plínio ,

o Velho ,

au -

t o r d e um a famos a enciclopédi a

d e históri a natural .

O

ti o

morre u

n o

an o

7 9

d.C ,

durant e a erupçã o

d o

Vesúvio .

 

Plíni o

fez

carreir a

com o

advogad o

e servido r

públi -

c

o ,

tend o

sid o

cônsu l

e depoi s

governado r

d e

um a

pro -

vínci a

romana .

El e deixo u

de z

volume s

d e

cartas :

nov e

par a

amigo s

e colega s

e

u m

par a o

imperado r Trajano .

 

q&

q£> qfc

Para

a esposa,

Calpúrnia

N

ã o

acreditará s

n a

saudad e

qu e

sint o

de

ti .

A

principa l

caus a

é

me u

amo

r

e

o

fat o

d e

nã o

costumarmo

s

ficar

se -

parados .

Po r isso , durant e a noit e

m e

acontec e

ficar

acor -

dad o

po r

muit o

tempo ,

pensand o

e m

ti ,

e

de

dia ,

quan -

d

o

cheg a

a

hor a

e m

qu e

costumav a

visitar-te , meu s

pés ,

com o

se

di z

co m

razão ,

m e

leva m até te u

quarto ;

ma s

o

te encontr o

lá e volto ,

trist e e deprimid o com o

u m

amant e

desprezado .

S ó

fic o

livr e

desses

tormento s

quand o

esto u

assoberbad o

d e

trabalh o

n o

tribuna l

e

no s

processo s

do s

amigos .

Avali e

com o

é

a

minh a

vid a

quand o

encontr o

repous o

n o

trabalh o e confort o

n a tristez a e

n a

ansiedade .

Adeus .

Henrique

VIII

1491-1547

HENRIQU E

VII I

estava

casad o

co m

a

primeir a

esposa ,

Catarin a

d e

Aragão ,

quand o

conhece u

An a

Bolena ,

e m

1526 .

A

Igrej a

Católic a

nã o

permiti a

o

divórcio ;

o

rei ,

obcecad

o

po r

Ana

,

qu e

se

recusav a

a

se r

su a

amante

,

fez

o

qu e

pôd e

par a

convence r

o

pap a

a

conceder-lh e

a

anulaçã o

d o

primeir o

casamento .

Diant e

d a

recus a

d o

pontífice ,

Henriqu e

rompe u

relaçõe s

co m

a

Igrej a

Ro -

man a

e

crio u

a

Igrej a

Anglicana ,

d a

qua l

se

torno u

di -

rigent e

supremo .

(El e nã o

m a :

vej a

n a

cart a a segui r

o

tinh a

problema s

d e

autoesti -

present e

qu e

envio u

a Ana. )

Depoi s

d e

sete

ano s

d e

incerteza ,

e m

janeir o

d e

1533 ,

Henriqu e

e

An a

finalment e

se

casaram .

E

m

setembr o

d

o

mesm o

ano ,

a

rainh a

de u

à

lu z

Elizabeth ,

qu e

viri a

a reina r

com o

Elizabet h

I

. E

m

mai o

d e

1536 ,

a

rainh

a

A n a

fo i

presa ,

acusad a

d e

adultéri o

co m

diverso s

ho

-

mens ,

inclusiv e o

própri o

irmão ,

George ,

Viscond e

d e

Rochford .

El a

fo i

condenad a

e

decapitad a

n a

Torr e

d e

Londres .

N

o

mesm o

dia ,

se u

casament o

co m

Henriqu e

f o i

anulado .

Onz e

dia s depois ,

o

re i desposo u Jan e

Sey -

mour .

Da s

seis

afortunada s

esposas

d e

Henrique ,

Jan e

f o i

a

únic a

a

dar-lh e

u m

filho

qu e

vive u

mai s

 

qu e

ele :

Eduard o VI .

 

Para Ana

Bolena

 

Minh a

amant e

e

amiga :

 

M

e

u

coraçã o

e

e u

no s

colocamo s

e m

tuas

mão s

e

suplica -

m

o s

qu e

no s

recomende s

a tuas boas

graças.

Qu e

a

distân -

c

i a

nã o

diminu a a afeição

qu e

no s dedicas ;

isso

aumentari a

noss a

dor ,

o

qu e

seri a muit o

lamentável ,

poi s

a

separaçã o

j á

caus a

possível .

do r

Iss o

suficiente ,

mai s

m e

lembr a

u m

do

qu e

algu m

di a pense i

se r

fato

astronómico ,

qua l

seja,

quant o

mai s

distantes

os

poio s

estão

d o

sol ,

mai s

abrasa -

dor a

é

a temperatura .

O

mesm o

se dá

co m

noss o

amor :

a

ausênci a

no s

distanciou , ma s o fervo r é maio r

pel o

meno s

e

m

mim .

Esper o

o

mesm o

de

t i

e

garant o

que ,

n o

me u

caso,

a angústi a

da

separaçã o

é

tant a

qu e

seri a

intoleráve l

se

e u

nã o

guardass e

firme

esperanç a

e

m

te u

afet o

indis -

solúvel .

Par a

qu e

te

lembre s

de

mi m

e

com o

nã o

poss o

estar contig o

e m pessoa,

mando-t e

o

qu e

mai s se aproxim a

disso*,

me u

retrat o

e

o

brasã o

qu e

j á

conheces ,

aplicad o

e

m

pulseiras ,

desejand o

estar

e u

mesm o

n o

luga r

deles,

quand o

fo r

d o

te u agrado .

Pel a mã o

de

T e u

servo

e

amigo ,

H.R .

 

William

1670-1729

Congreve

WILLIA M

CONGREV E

fo i u m aclamad o

dramaturgo ,

mai s

conhecid o

pel a peç a TheWayof

the World. Arabell a Hunt ,

um a

das

musicista s favorita s

d a cort e

d a rainh a

Mary ,

casou-s e

c

a

o m Jame s Howar d e m

1680 . Sei s mese s

depois ,

ela

pedi u

anulaçã o

d o

casament o

pel a

procedent e

justificativ a de

q

u e Jame s er a um a viúva chamad a Am y

Poulter , qu e

zia passa r po r homem .

Nã o admir a qu e Arabell a nã o

se

fa -

tenh a

tornad o

a

se

casar.

Naquel a

época ,

o

term o

senhor a

er a

u m a maneir a respeitos a d e se dirigi r a um a mulhe r adulta .

Congrev e

també m

nã o

se

casou ,

ma s

mantev e

prolonga -

d

o s

casos

d e

amo r

co m

Ann a

Bracegirdle , um a

atri z par a

que m

escreve u diverso s

papéis ,

e

co m

Henrietta , Duques a

de

Marlborough ,

qu e

lh e

de u

um a filh a

e m

1723.

 

Para

a Sra. Arabella

Hunt

Car a

senhor a

 

Nã o

crês

n o

me u

amor

?

Nã o

pode s

te r

a

pretensã o

de

ser

tão

incrédula .

S e

nã o

acredita s

n a

minh a palavra ,

consult a

meu s

olho s

e

consult a

os

teus.

Po r

mei o

de

teus

olhos

,

verá s

qu e

eles

tê m

encantos ;

no s

meus ,

verás

qu e

m

e u

coraçã o

é

sensível

a eles.

Record a

o

qu e

acontece u

à

noit e

passada :

aquil o

pel o

meno s

fo i

u m

beij o

de

amor .

O

fervor ,

a veemênci a

e

o

calo r

daquel e

beij o

dera m

vo z

ao

deu s

de

que m

ele é filho .

Mas ,

oh !

Su a doçura ,

su a

ter -

n a

suavidad e

expressava m aind a mai s aquel e

deus .

Co m

os

membro s

trémulo s

e

a

alm a

febril ,

m e

deliciei .

Convul -

sões ,

suspiro s e murmúrio s

mostrara m a imens a

desorde m

dentr o

d e

mim ,

desorde m

qu e

o

beij o

fez

aumentar ,

poi

s

aquele s

lábio s

querido s

injetara m e m

me u

coraçã o

e

e

m

minha s

entranha s

u m

venen o

delicios o

e

um a

ruín a

inevitável ,

ma s

encantadora .

 
 

Quant o

nã o

pod e

acontece r

e m

u m

dia !

N

a

noit e

an -

terio r

e u

m e

considerav a

u m

home m

feliz ,

a

que m

nad a

faltava,

co m

a certeza

d a

sorte :

louvad o

pelo s

homen s

sá -

bio

s

e

aplaudid o

pelo s

outros .

Satisfeito ,

o u

melhor ,

en -

cantad o

co m

meu s

amigos ,

entã o

meu s

melhore s

amigos ,

conscient e

de

todo s os prazere s delicado s

e nele s

possuin -

d

o

tudo .

 

M a s

o

amor ,

o

amo r

todo-poderoso ,

parec e

te r

e m

u m

únic o

instant e m e

afastado

prodigiosament e

de

tud o

o

q u e

nã o seja tu a pessoa.

t u

consegue s

domina r

N o

mei o

d a multidão ,

esto u só .

S ó

minh a

mente ,

e

esta

nã o

se

ocup a

senã o

de

ti .

Pareç o

ser

transportad o

contig o

par a

algu m

desert o

estrangeir o

(ah ! Se

assi m fosse

de

fato

transporta -

do!) ,

onde ,

e m

deri a vive r um a

t i abundantement e

provid o

er a de

êxtase ininterrupto .

de

tudo ,

po -

 

O

cenári o

d o

grand e

palc o

d o

mund o

de

repent e

pa

-

rec e

te r sid o

miseravelment e

transformado .

A

nã o

ser

po

r

t

i ,

os

objeto s

qu e

m e

cerca m

são

desprezíveis;

os

encanto s

d o

mund o

inteir o parece m

te r sid o traduzido s

e m

ti .

Des -

sa forma ,

nesse

estado deplorável ,

mas ,

oh ,

tão

prazentei -

r

o ,

minh a alm a só

se

concentr a

e

m

ti ;

el a

vos

contempla ,

admira ,

adora ,

o u

melhor ,

confi a

soment e

e m

ti .

S e

t u

e

a

esperanç a

desertare m

minh a alma ,

o

desesper o

e

o

sofri -

ment o

infinit o serã o

os companheiro s

dela .

 

Richard

1672-1729

Steele

RICHAR D

STEEL E

fo i jornalista ,

escrito r e político .

Co m

s e u

amigo ,

Josep

h

Addison ,

fundo u

a

revist a

Spectator.

Mar y

Scurloc k

fo i

su a

segund a

esposa .

El e

a

conhece u

n o

enterr o

d a primeir a e a cortejo u

co m

apaixonada . A

segund a

cart a aqu i incluíd a

um a

obstinaçã o

fo i escrit a

dua s

semana s

ante s

d o

casamento .

El a

é

divertid a

e

emocio -

nant e

pel a

descriçã o

qu e

o

auto r

faz

d e

s i

mesm o

com o

u

m

home m

completament e

arrancad o

das

preocupaçõe s

d

o

di a

a

di a pel a

lembranç a

d a

mulhe r

amada .

Richar d

e

Mar y

se casara m e m

1707» ma s a uniã o

permanece u

secre -

ta po r

algu m tempo ,

talvez po r um a questã o

d e

decor o — o

q u e

poderi a

ceir a

carta .

explica r a trivialidad e d o

pós-escrit o

O

casament o

fo i

notoriament e

feliz ,

d a

ter -

embor a

às veze s tumultuado ,

e Mar y fo i durant e tod a

a vid a

d o

es -

crito r

su a

"querid a

Prue" . Ante s

e

depoi s

d o

casamento ,

Steel e

escreve u par a a espos a

mai s d e

quatrocenta s

cartas .

E l a

morre u e m

1718.

qfc

cfa

qfr

Para

Mary

Scurlock

Senhora ,

Q u e

linguage m

dev o

usa r par a comunica r

à adoráve l

bel a

os sentimento s de u m coraçã o qu e el a se compra z e m tortu -

rar ?

Long e

de

ti ,

nã o

tenh o

u m

minut o

de

tranquilidade ;

quand o

esto u

contigo ,

t u

m e

tratas co m

tant a

indiferenç a

q

u e

permaneç o

nu m

visão

do s

encanto s

de

estado

qu e

de

nã o

alheamento ,

agravado

poss o

m e

aproximar .

pel a

E m

suma ,

é

precis o

qu e

m e

dês

u m

leque ,

um a

u

ma

luv a qu e

tenha s usado ,

caso

contrári o

nã o

máscar a

o

u

podere i vi -

ver;

b e

o u

te u

então ,

deves

lenç o

quand o

espera r

qu e

e u beij e

m e

senta r junt o

a

tu a mã o

o u

rou -

ti .

És

um a

dádiva

grand e

demai s par a ser conquistad a de

imediato ,

portant o

dev o se r preparad o

aos pouco s

par a qu e

esse present e

pre -

cios o

nã o

m e

deix e

louc o

de

alegria .

Car a

senhorit a Scurlock ,

esto u

cansad o

de

chamar-t e

p o r

esse

nome ,

portanto ,

diga-m e

e m

qu e

dia ,

senhora ,

receberá s

o

nom e

deste

qu e

é

te u

serv o

mai s

obediente ,

devotad o

e

humilde ,

 

RICH .

STEELE

 

Agosto

de 1J0J

(duas

semanas antes do

casamento)

 

Senhora ,

 

N

ã o

h á

n o

mund

o

nad a mai s difíci l

d o

qu e

estar apaixona -

d

o

e

te r

de

cuida

r

d e

negócios .

N o

me u

caso,

todo s os

qu e

fala m

comig o

m e

acha m

e m

falta ; precis o

m e

encarcerar ,

ante s qu e

algué m

 

faça

isso po r

mim .

Hoj e

pel a manhã ,

u m

cavalheir o m e perguntou :

"Ten s

notícia s d e Lisboa? " e e u respondi : "El a é

requintadamen -

te

bela. "

Outr o

queri a

sabe r

quand o

estive

e m

Hampto n

Cour t

po r

último .

Retorqui : "Ser á

n a terça-feir a

d a