Por que Teatro no Ensino Médio?

Joana Abreu

Em seu livro intitulado A linguagem Teatral na Escola: pesquisa, docência e prática pedagógica, o pesquisador Ricardo Japiassu dedica um capítulo inteiro a refletir sobre a importância do ensino de teatro nas escolas. O autor opta por nomear o capítulo com uma pergunta: “Por que teatro na escola?”. O presente artigo pretende dialogar com o capítulo elaborado por Japiassu, bem como, com outros autores e dados, direcionando, no entanto, a pergunta para o contexto do Ensino Médio no Brasil. A fim de pensar a presença do teatro na escola, Japiassu discorre sobre a teatralidade como modalidade da comunicação cênica, abordando termos como espetacularidade, estética, fruição, apreciação, cênico e teatral. Para ele, por ser parte da comunicação cênica e corporal, a teatralidade está presente em todas as esferas da vida social, e o autor a analisa partindo do princípio de que ela pode ser deliberada ou inconsciente ou, ainda, cotidiana ou extracotidiana (Japiassu, 2007, 92).1 O autor discorre ainda sobre o faz-de-conta infantil e sobre sua relação com a comunicação cênica. Embora, muitos dos exemplos do texto se apliquem ao processo de teatro-educação direcionado para o trabalho com crianças, boa parte das reflexões presentes no capítulo se aplica também quando pensamos na educação teatral de adolescentes e jovens do Ensino Médio. As reflexões de Japiassu podem contemplar mais ainda os estudos sobre o teatro no Ensino Médio se acrescentarmos a elas a noção de que em nosso sistema de ensino, quanto mais velho o aluno, menos acesso ele tem à experiência do faz-de-conta e da comunicação corporal consciente. Em nossas escolas, ‘brincar’ só é permitido às crianças e, mesmo assim, até uma certa medida. Para a professora doutora Ingrid Koudela:
Tradicionalmente, nossas escolas são escolas de leitura. Ainda hoje, a partir da pré-escola, a atividade fundamental da criança é aprender a ler e escrever. A criança em idade pré-escolar “brinca”, não se atribuindo às atividades espontâneas a mesma importância e seriedade que caracterizam o ensino primário, onde a criança começa a ter “tarefas” a cumprir. A escola atribui um peso proporcionalmente maior à função de acomodação da inteligência, não

Joana Abreu é atriz, educadora, mestre em Arte Contemporânea pela Universidade de Brasília, professora da licenciatura em Artes Cênicas da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes e professora autora da disciplina Estágio Supervisionado em Artes Cênicas 1, na UAB/UnB.
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Para maiores informações sobre as proposições de Japiassu, ler o texto do capítulo mencionado, que está disponível na pasta de leituras complementares da semana 5 da disciplina ESAC1.

as provas de avaliação do PAS – que são realizadas anualmente pelos alunos. No entanto. Em primeiro lugar.. o que dizer da presença do teatro-educação nesse seguimento do ensino? Embora o MEC não disponibilize dados estatísticos a respeito. ao contrário. de acordo com a Pnad.. Em Brasília (DF). se a política educacional do estado ou município está ligada ao partido político A ou B. a disciplina Teatro.conferindo a mesma dimensão à assimilação. desde 1995. estadual ou municipal. sabemos que são pouquíssimas as escolas de Ensino Médio que oferecem. A situação da escola varia de acordo com fatores como se é rede federal. O que se vê com freqüência é que enquanto as funções intelectuais têm um progresso contínuo. 1984. quando não é submetida a exercícios de coordenação motora[. 2007 in www. a impressão que se tem é a de um retrocesso [.. No Nordeste. 36% dos meninos e meninas de 15 a 17 anos cursam o Ensino Médio. é de 48%. A realidade do Ensino Médio nas várias regiões do país apresenta uma enorme diversidade. no Sul. se está localizada em zona urbana ou rural. Se essa é a situação do Ensino Médio de um modo geral. se é pública ou privada. no Brasil. Isso se deu. Na Região Sudeste.] A atividade artística é periférica ao sistema escolar e lhe é atribuída a característica de “recreação”.1% dos adolescentes entre 15 e 17 anos. esse percentual fica em 58. 29). Esse número cresce um pouco nas grandes capitais. 82. dentro de sua grade curricular. na expressão artística. porque. segundo uma análise da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios). e assim por diante.] (Koudela. 44% desses adolescentes ainda não concluíram o Ensino Fundamental e apenas 48% cursam o Ensino Médio dentro da faixa etária adequada para esse nível. apenas 34% dos adolescentes de 15 a 17 anos freqüentam o Ensino Médio. ao longo de todo o Ensino Médio. essa é uma situação isolada. A média nacional. pensemos agora na situação da maior parte das salas de aula no Ensino Médio brasileiro. Isso fez com que as escolas de Ensino Médio da cidade tivessem que inserir essa disciplina em seus currículos. No Norte. . freqüentam a escola. é importante considerar que..unicef. mas também ao tipo de realidades que é possível encontrar em cada região dentro do próprio Ensino Médio. 55% (Pnad. não somente em relação aos dados estatísticos de freqüência escolar. reduzindo assim o acúmulo de conteúdos e a pressão do vestibular – incluem a disciplina de artes cênicas. Entretanto. Considerando tudo isso. a aprovação da resolução que instituiu o PAS (Programa de Avaliação Seriada) para ingresso dos alunos na Universidade de Brasília modificou um pouco esse panorama.org).8% e. feita pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) em 2007.

lutando contra cadeiras. um número reduzido de escolas que oferecem essa disciplina em nosso país. filosofia etc. Justamente pelo mencionado . de modo geral. pelo menos em parte. até o equilíbrio entre aulas teóricas e práticas. investimos pouco em nossas próprias oportunidades de apreciar e produzir arte. Como a aula de teatro tem a mesma duração que as outras aulas (às vezes 45. chão sujo que dificulta qualquer proposta de trabalho corporal. ou ainda o estabelecimento de relações e parcerias com os outros sujeitos do contexto escolar. Preocupamo-nos pouquíssimo com o desenvolvimento artístico de nossos cidadãos. muitas vezes. se essa lacuna fosse. uma situação como essa seja o primeiro contato de vários alunos com a linguagem teatral. Em nossas escolas. Nelas. o professor de teatro e seus alunos terão. 50 minutos). parte dela se foi nesse ‘aquecimento’ de preparação do espaço de trabalho. Tomemos como referência para nossa reflexão o pequeno grupo de escolas que oferecem a disciplina de teatro no Ensino Médio. a grande maioria delas não dispõe de instalações adequadas para o ensino de teatro. A necessidade de criar espaços para sua disciplina. raramente. está muito longe de ser um estudo de teatro. ministradas nas próprias salas de aula das outras disciplinas ou no pátio da escola. nós professores. Em alguns casos. Embora. mesas. Ainda que ofereça a disciplina. como não criamos oportunidades para que esses mesmos alunos assistam obras teatrais. os alunos têm acesso à produção teatral. Tudo isso se dá. Esse último exemplo talvez simbolize uma necessidade um pouco mais ampla que se apresenta ao professor de teatro no contexto do Ensino Médio. suprida pela escola. em grande parte. antes de tudo que ‘escavar’ seu espaço. Entretanto.havendo. como bem mencionou a professora Ingrid Koudela. Além de negociar com a direção/coordenação da escola e com a equipe de professores. entre outros detalhes. não só não oferecemos a disciplina teatro para os alunos. em seus contextos familiares e comunitários. Essa criação de espaço abrange desde negociações relacionadas ao tempo de aula e às instalações em que essa será ministrada. não raro. Mais ainda. pela desvalorização da educação nas áreas de artes. português. teríamos uma situação diferente. encontramos professores de outras disciplinas que utilizam o teatro como estratégia metodológica para trabalhar conteúdos de história. em grande maioria. o professor de teatro terá melhores resultados se conseguir estabelecer comunicação também com os pais dos alunos. Uma vez que. consideremos a exceção. As aulas são.

Além disso. Dar aula de teatro no ensino formal no Brasil ainda é um exercício de abertura de caminhos. . um semestre ou mesmo um ano para que os primeiros frutos possam ser colhidos. dentro de suas possibilidades. desde que se estabeleça confiança. No caso do teatro. Devido a essas mudanças. múltiplos olhares e produzindo diferentes sons e entonações. inclusive ao pronunciarmos as palavras. cada turma e. a disposição para esses ajustes. No Ensino Médio. em relação ao que está sendo desenvolvido pelo professor. Dificilmente um professor chega a um escola impondo mudanças na estrutura. sabemos que. as turmas do Ensino Médio têm um número grande de alunos. chegando. Ou seja. o fato de haver a pressão do vestibular ou da inserção no mercado de trabalho. em nossas trajetórias como educadores. Sabemos que. em última instância. Isso significa que a atuação desse professor talvez precise de mais de um bimestre. Usamos a comunicação corporal. por parte da comunidade escolar. Um professor cuidadoso está aberto a essas adaptações independente da disciplina que ministra. sem ter que fazer concessões que prejudiquem a integridade da proposta de ensino. talvez se apresente mais fortemente. Tanto no faz-de-conta como nos jogos teatrais e. agrava essa situação. a consciência que o adolescente desenvolve do próprio corpo. emocionais e sociais. uma parte mais ampla da comunidade escolar. a adolescência tem suas características próprias. em alguns casos. o trabalho de educação no e para o teatro que o professor propõe na escola será mais eficiente à medida que for inclusivo. sempre teremos que nos adaptar e adaptar nossas propostas à realidade de cada comunidade. a 50 adolescentes e jovens. É importante considerar ainda que. muitas vezes. numa situação em que atividades com a disciplina de teatro demandem tempo extra-classe dos alunos. Essa possibilidade vem com o tempo e o trabalho. veremos que: No dia a dia. como cada etapa do desenvolvimento do ser humano. que incluem intensas mudanças físicas. nós nos comunicamos usando variados gestos. abrangendo. é comum os pais considerarem esse tempo extra dedicado ao teatro como um ‘prejuízo’ para os estudos das outras disciplinas. de cada um de nossos alunos para que nosso trabalho seja efetivo. por exemplo. Se voltarmos às reflexões de Japiassu. cada escola. os vínculos que estabelece dentro de seu grupo de amigos na escola e o papel que desempenha nesse grupo assumem enorme importância.desconhecimento da linguagem teatral pela comunidade escolar e pela falta de consciência da importância das áreas artísticas na educação.

à medida que aprofundam seu conhecimento da linguagem teatral. são somente algumas possibilidades presentes no trabalho com teatro no Ensino Médio. na representação teatral de aspecto cênico invariante (nos espetáculos teatrais propriamente ditos). entendermos a teatralidade como espetacularidade tipicamente humana – uma espetacularidade que se oferece deliberadamente (intencionalmente) à fruição e à apreciação estéticas (sensoriais)” (Idem. o professor terá que compreender e propor caminhos cuidadosos para o aprofundamento do trabalho. Esse é o modo de comunicação mais usado nas manifestações espetaculares e teatrais. no campo da comunicação corporal. O autor ressalta ainda o fato de que A comunicação corporal ou cênica recorre às muitas possibilidades expressivas de nossos corpos. 95). mas isso não quer dizer. do ponto de vista que interessa aqui. por si só. 2007. Isso implica. pode surgir resistência até para tirar os sapatos para uma atividade. A abordagem do professor em relação a essa ampliação da consciência corporal terá que se construir a partir da sensibilidade da escuta ao aluno. Um exemplo . Essa oportunidade de vivência das negociações de grupo e de experimentação de papéis e pontos de vista vai ao encontro de alguns questionamentos da própria adolescência. a partir das colocações feitas por Ricardo Japiassu. Existem outras que não se esgotariam neste pequeno artigo. Talvez seja esse um dos motivos pelos quais. por natureza. Se. os grupos de adolescentes se mostrem bastante receptivos às propostas das aulas. cujo significado é ‘lugar de onde se vê’. Os pontos mencionados acima. também nos relacionamos pela comunicação corporal. talvez possamos considerar os benefícios de um trabalho abrangente com a teatralidade no Ensino Médio no que diz respeito à consciência corporal dos alunos. em alguns grupos. sabemos que “teatro (theátron) é uma palavra também de origem grega. 93) Ou seja. ainda segundo Japiassu. que se despreze a comunicação verbal (pelas palavras). de onde eles podem ‘ver’ (fruir e apreciar) ações corporais – que uma pessoa recorre ao uso da comunicação corporal ou cênica para se relacionar interativamente com seus interlocutores no cotidiano” (Idem. sejam elas cotidianas ou extracotidianas. De onde podemos refletir que. Por outro lado. imagine então o receio diante da situação de estar intencionalmente exposto aos olhos de todo o seu grupo! Aos poucos. 96). ibidem. a experiência teatral pressupõe relação com o outro e ampliação da compreensão dos papéis desempenhados por cada sujeito envolvido. “por ter em mente o theátron – o lugar ocupado por prováveis observadores.ainda. (Japiassu. de maneira alguma. Pensando nisso. É. a teatralidade se insere.

feita por Japiassu. Outro exemplo ainda é o fato de a arte ser um caminho de expressão do discurso de quem cria e. considerando sempre o contexto e a história de sua comunidade escolar e da comunidade em que esta se insere. Um deles. A valiosa recomendação do autor é que “ao serem focalizadas as manifestações teatrais extracotidianas. os desafios para o professor não são poucos. zambiapunga e tantas outras expressões cênicas populares” (Japiassu. que ainda não foi suficientemente mencionado no âmbito deste trabalho. 2007. Além da busca de soluções para ampliar o acesso dos alunos a performances e montagens teatrais. cavalhada. . 94). indispensáveis no processo de capacitação em artes. a sugestão. marujada. constituir-se em lugar para debater e questionar pontos da vida e da sociedade considerados importantes pelos adolescentes e que contribuirão para sua maneira de atuar no mundo. Certamente. não se desconsidere a teatralidade dos grupos ‘folclóricos’ de terno-de-reis. à atividade metacognitiva (reflexiva) do sujeito sobre suas percepções (atuais e/ou recordadas e/ou imaginadas)” (Japiassu. 2 Para Ricardo Japiassu. algo que se apóia exclusivamente na percepção atualizada (instantânea) dos fenômenos observados/vivenciados. é a escassez ou inexistência de oportunidades para que os alunos exerçam a fruição e a apreciação estéticas2.disso é a oportunidade de que os alunos restabeleçam um espaço de criação dentro da escola. o espaço para a criatividade na escola diminui de forma proporcional ao aumento da faixa etária dos alunos. já a apreciação refere-se à apercepção. cabe a cada professor de teatro no Ensino Médio descobrir os caminhos e conquistas de sua disciplina. de ampliação da noção de teatralidade a partir das manifestações da cultura popular vem a calhar como mais um recurso para o acesso dos alunos ao fenômeno do espetáculo. sendo assim. principalmente considerando que em nosso sistema educacional.108). 2007. Esse recurso varia de cidade para cidade e de região para região. ou seja. mas pode ser mais acessível que o teatro no sentido comumente utilizado para a palavra de ‘peça teatral’. “A fruição deve ser entendida como atividade prazerosa de interação do sujeito com diferentes manifestações espetaculares. Além do que foi levantado acima. para que essas possibilidades se concretizem.

docência e prática pedagógica.org/brazil/pt/media_14931. Jogos teatrais. 1984. Ricardo. Ingrid Dormien.unicef. http://www. Campinas: Papirus Editora.htm . A linguagem Teatral na Escola: pesquisa. Koudela. 2007. São Paulo: Perspectiva.Referências Bibliográficas e sites consultados Japiassu.

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