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22/11/2018 O Estado contra as mães: relato de um júri de chacina - Diplomatique

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NECROPOLÍTICA

O Estado contra as mães:


relato de um júri de
chacina
ACERVO ONLINE | SÃO PAULO

por Camila Vedovello

novembro 15, 2018

Imagem por Reprodução: Mães de Maio

Todas as retóricas que se construíram em torno da gura do


acusado enquanto um policial que atuava na guerra às
drogas de maneira rme, ao mesmo tempo em que era um
bom pai e cidadão, encobriram, aos poucos, os cerca de oito
processos, com mais de vinte mortes

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Oito horas da manhã do dia 30 de outubro de 2018, Débora avisa por


mensagem que logo as mães estarão no Fórum Criminal de Brás Cubas.
Às nove da manhã, ao chegar ao Fórum, encontro já a postos as Mães
Mogianas, as Mães de Maio e as Mães em Luto da Zona Leste,
estendendo suas faixas com o rosto de seus lhos e pedidos de justiça
estampados. São em sua maioria mulheres, exceto seu Francisco,[1] pai
de um rapaz desaparecido nos crimes de maio de 2006. Elas distribuem
pan etos, se apoiam e estão ansiosas. Proferem palavras de ordem,
mostram umas às outras os rostos de seus lhos nas faixas.

O ser mãe é, nesse momento, um ato político, performático, legitimador


da busca de justiça e da possibilidade de garantir que seus lhos sejam
passíveis de luto e de dor. Judith Butler relaciona a possibilidade de luto
de uma pessoa ao reconhecimento dessa vida.[2] Nesse sentido,
reconhecer o lho, estampar seus rostos em camisas e faixas, é
enquadrá-los enquanto sujeitos e torná-los vidas enlutadas, e é também
politizar suas mortes. Adriana Vianna e Juliana Farias apontam essas
práticas enquanto dinâmicas de enfrentamento ao Estado e
compartilhamento de afetos e solidariedade entre esses familiares, que
se tornam protagonistas de lutas sociais a partir de uma perda
irreparável.[3]

Nesse dia as mães estavam juntas pois, às 13 horas, teria início o


primeiro julgamento de um ex-policial militar, acusado de uma série de
processos – cerca de oito – onde constam mais de vinte mortes em
chacinas ocorridas na cidade de Mogi das Cruzes entre os anos de 2013
e 2015. Há indícios de que todos esses massacres foram praticados por
um grupo de extermínio, e segundo o Ministério Público de São Paulo, o
ex-PM participava dele.

Por volta das 11 horas da manhã três policiais militares saíram por um
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Por volta das 11 horas da manhã, três policiais militares saíram por um
dos portões do Fórum, passaram pelas mães e pararam em frente às
faixas, observaram e retornaram ao prédio por outro portão de acesso.
Uma das mães questionou para as outras a razão de terem feito isso.

Esse primeiro movimento dos PMs foi um prenúncio de como seria o


júri, que julgaria a autoria da morte de Matheus, 16 anos, de Felipe,
amigo do ex-PM, e de duas tentativas de homicídio. Havia senhas
reservadas para os familiares das vítimas, mas as outras mães tiveram
que entrar a la para pegar senha e, assim, assistir ao júri. Por volta do
meio dia, os familiares do ex-PM chegaram. Um dos seus irmãos furou a
la das mães, gerando confusão e indignação.

No horário marcado para início do júri, foi informado que as

testemunhas de acusação seriam todas ouvidas em sigilo. Assim, as mães


teriam que esperar do lado de fora pelo testemunho de seis pessoas. Os
advogados de defesa pediram para que os jornalistas se retirassem do
local. Uma das testemunhas, ao sair, relatou a um repórter que havia
uma série de policiais militares dentro do tribunal do júri e, que,
portanto, não entendia como uma testemunha seria protegida dessa
forma.

Do lado de fora, as mães, que esperavam no sol, resolveram se sentar em


uma mureta e no chão, embaixo de uma cobertura do local. Funcionários
do Fórum e PMs presentes, no entanto, se dirigiram a elas dizendo que
não poderiam esperar sentadas. As mães resolveram reclamar com a
imprensa que fazia a cobertura do evento, sobre o impedimento de se
sentarem. Após este momento, os funcionários do Fórum e os policiais
militares pararam de questioná-las. Durante o mesmo período de tempo,
familiares do ex-PM caram dentro do Fórum, na sombra.

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Somente por volta das 16h30 houve a liberação para entrar no tribunal. A
partir desse momento, as mães, os repórteres e outras pessoas que
estavam lá puderam acompanhar as testemunhas de defesa, assim como
o andamento do julgamento.

Das quatro testemunhas de defesa, três eram policiais militares. A


primeira a dar seu relato foi a esposa do ex-PM que, entre choros e falas
sobre seu lho sentir falta do pai, declarava que o acusado era um
policial muito combatente. Os três policiais que testemunharam em
seguida utilizaram-se de falas que reiteravam a ideia do combate. Falas
como era um policial ativo, não era um policial vagabundo que gastava
gasolina à toa, era um policial prendedor. Seus depoimentos apareceram
para quali car o ex-PM como um bom policial, que seria para essas
testemunhas aquele que sai às ruas e prende. Assim, estar engajado nas
políticas de encarceramento em massa, serviu como um roteiro que
transformou, aos poucos, para o júri, o réu em um herói
incompreendido.

Corroborando com esse roteiro desenhado para a defesa, o réu


engendrou seu discurso construindo a imagem de um bom pai de família
e um sujeito que tinha como maior alvo o combate ao crime de trá co.
Desse modo, a fala da defesa do ex-OM o inseriu na gura do herói, do
cidadão de bem, bom pai de família que trava a guerra às drogas.

Todas essas retóricas que se construíram em torno da gura do acusado


enquanto um policial que atuava na guerra às drogas de maneira rme,
ao mesmo tempo em que era um bom pai e cidadão, encobriram, aos
poucos, os cerca de oito processos, com mais de vinte mortes, como
sendo de sua autoria. Os assassinatos dos jovens periféricos de Mogi nas

chacinas ocorridas ao longo de dois anos foram se empalidecendo


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quando as cores do policial de bem foram se tornando mais fortes no


imaginário do júri.

O promotor, ao tratar do caso, mostrou que os exames balísticos


provaram que o réu era o autor dos assassinatos pelos quais estava
sendo julgado. Além disso, elencou e ressaltou o nome das vítimas do
réu, chegando a ler nome por nome, de todos os processos, tentando
trazer à tona a pessoalidade dos mortos.

Ao mesmo tempo em que fez isso, o promotor também trouxe ao debate


a participação do ex-PM em grupo de extermínio, mas o fez inserindo os
jovens mortos dentro do que conhecemos como sujeição criminal,[4] ou
seja, um processo social que acopla o crime aos sujeitos, fazendo com
que se tenha uma expectativa negativa em relação a esses indivíduos,
como se o crime, ao invés de uma ação, fosse parte da subjetividade das
pessoas que em algum momento os cometem.

Essa sujeição criminal dos jovens chacinados entre 2013 e 2015 se deu a
partir do momento em que o promotor, ao relatar que o acusado era
integrante de um grupo de extermínio, delineou que os ataques desse

grupo se davam contra tra cantes, usuários e bandidos, criando assim,


arquétipos sobre quem seriam os jovens mortos, auxiliando nessa
construção do ex-PM enquanto um herói incompreendido.

O réu se declarou inocente, e para contestar as provas, acabou por


acusar a Polícia Civil de forjá-las para incriminá-lo, relatando que um
policial da Garra havia dito a ele que seria preso para acalmar a
sociedade e o governo, que queriam uma resposta rápida. Nenhuma das
graves acusações feitas pelo ex-PM foram fundamentadas ou provadas e,
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apesar de todas as provas contradizerem sua inocência, o apelo ao


imaginário bandido bom é bandido morto atualmente aceitável em nossa
sociedade, e com a construção de um estereótipo dos jovens durante o
julgamento, os assassinatos foram tacitamente aceitos e, na madrugada
do dia 31 de outubro, o ex-PMfoi absolvido desse processo.

A mãe de Matheus recebeu de outra mãe ativista a notícia via whatsapp.


Todo o processo desse tribunal do júri evidenciou como o aparelho
jurídico-estatal se estabeleceu, naquele momento, para tentar minar o
ânimo das mães, tentando romper com uma possível correlação de
forças que elas tentam estabelecer diante do Estado.

As diversas ações e práticas vivenciadas nesse júri – desde o medo

evidenciado de que arrancariam ou colocariam fogo em suas faixas,


passando pelas horas debaixo do sol, por uma construção narrativa
dentro do júri de que, de alguma forma, seus lhos eram nóias, bandidos,
tra cantes, usuários[5] e que os grupos de extermínio agiam contra
esses – demonstrou como o Estado se coloca contra as mães e sua luta,
desvelando como funciona a necropolítica[6] dentro do Judiciário, ou
seja, como são gerenciadas e estabelecidas políticas do fazer morrer
sobre determinadas populações.

O ex-PM ainda é réu em diversos outros processos, cabe sabermos como


os próximos julgamentos se darão, tendo em vista que serão realizados já
sob a liderança de João Dória no governo de São Paulo e Jair Bolsonaro,
na presidência, duas guras que declararam, respectivamente, que
policiais que cometem homicídios tenham os melhores advogados
criminalistas e que se acabe com a ilicitude dos homicídios realizados
pela polícia. Débora, em uma de suas falas, durante a espera do júri,
colocou que a gente precisa discutir a pena de morte no Brasil. É
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necessário, pensar, como tem se estabelecido essa pena de morte, esse


necropoder, através da letalidade policial, de um aparelho jurídico-
estatal que se utiliza amplamente da sujeição criminal para determinar
aqueles que podem morrer sem que seus assassinos sejam vistos e
julgados como tais.

*Camila Vedovello é doutoranda em Sociologia pelo Programa de Pós-


Graduação em Sociologia do Instituto de Filoso a e Ciências Humanas–
IFCH da Unicamp. É integrante dos grupos de estudos Problemática
Urbana e Ambiental, liderado pela professora doutora Arlete Moysés
Rodrigues e Polcrim – Laboratório de Estudos sobre Política e
Criminologia, liderado pelo professor doutor Frederico Normanha
Ribeiro de Almeida, ambos certi cados pelo CNPq.

[1] Ao longo do dia, mais três homens, que eram ou pais de vítimas ou
companheiros de mães de vítimas, chegaram para acompanhar o júri.

[2] BUTLER, Judith. Quadros de guerra. Quando a vida é passível de luto?


Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.

[3] VIANNA, Adriana; FARIAS, Juliana. A guerra das mães: dor e política
em situações de violência institucional. Cad. Pagu, Campinas, n.37, p.79-
116, dez. 2011.

[4] MISSE, Michel. Sujeição criminal. In: Lima, Renato S; Ratton, J. L.;
Azevedo, Rodrigo G. Crime, polícia e justiça no Brasil. São Paulo:

Contexto, 2014. p.204-212.

[5] Todas essas palavras foram utilizadas durante o júri, seja pelos
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advogados de defesa, testemunhas de defesa ou mesmo o promotor.

[6] MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: n-1 edições, 2018.

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