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DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO DE MINAS GERAIS

EXMO. SR. DR. DES. PRESIDENTE DO EGRÉGIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA


DO ESTADO DE MINAS GERAIS

HABEAS CORPUS
Paciente: Jonatas Paulo de Jesus Lopes
Autoridade Coatora: EXMO. JUÍZA DA 2ª VARA DE TÓXICOS
Número na Origem: 0024.18.123352-9

A DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO DE MINAS GERAIS, no


exercício de sua autonomia preconizada no §2º do art. 134 da Constituição da República
Federativa do Brasil e no uso de sua competência legal prevista no art. 4º da Lei
Complementar Federal 80/94 e nos arts. 4º e 5º da Lei Complementar Estadual 65/03,
por seu Órgão de Execução infra assinado, patrocinando os interesses de seu assistido
JONATAS PAULO DE JESUS LOPES, nascido em 10 de junho de 1993, filho de
Vilmar Jose Mendes Lopes e Patrícia Silva de Jesus Lopes, residente na rua Limeira,
200, bairro Piratininga, em BH-MG, impetra, com esteio no art. 5º, inciso LXVIII da
Constituição da República c/c 647 do Código de Processo Penal, a presente ORDEM
DE HABEAS CORPUS, com pedido liminar, pelos fatos e fundamentos a seguir
aduzidos.

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1)BREVE SÍNTESE

O paciente foi preso em flagrante delito pela suposta prática da conduta trazida
no art. 33 da Lei 11343/06.

Em audiência de custódia a sua prisão em flagrante foi convertida em


preventiva, conforme decisão de fls. 21.

2) DO CONSTRANGIMENTO ILEGAL: DA AUSÊNCIA DOS REQUISITOS


PARA A DECRETAÇÃO DA CUSTÓDIA PREVENTIVA

Primeiramente vale observar que a decisão que decretou a prisão preventiva do


autuado carece de fundamentação hábil.

Observe que a decisão acima mencionada, em suma, fundou o decreto de prisão


preventiva em apontamentos criminais precedentes pelo autuado carregado e na
gravidade do delito que lhe é atribuído.

Ocorre que eventuais apontamentos criminais constante na CAC do paciente não


constitui fundamento hábil para afastar a concessão da sua liberdade, já que
insuficientes para elidir o seu estado de inocência em face da ausência de qualquer
decisão condenatória transitada em julgado.

Por outro lado, a simples existência de eventual apontamento não conduz à


conclusão de que, uma vez solto, o paciente incidirá em outras práticas delitivas, já que
nos autos não há qualquer circunstância ou dado fático concreto que evidencie tal
situação.

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Já no que tange à gravidade abstrata do crime, outro argumento trazido pelo


magistrado primevo para a manutenção da segregação cautelar preventiva, observe que
o Supremo Tribunal Federal, a respeito do tema, possui entendimento firme no sentido
de que a gravidade do delito, por si só, não constitui fundamento para a decretação da
prisão cautelar:

“HABEAS CORPUS. CONSTITUCIONAL. PROCESSUAL


PENAL. PRISÃO PREVENTIVA. RÉUS PRONUNCIADOS
POR HOMICÍDIO TRIPLAMENTE QUALIFICADO E POR
TENTATIVA DE OCULTAÇÃO DE CADÁVER. AUSÊNCIA
DE FUNDAMENTAÇÃO CAUTELAR IDÔNEA PARA
PRISÃO PREVENTIVA: OCORRÊNCIA. PRECEDENTES.
HABEAS CORPUS DEFERIDO. 1. A JURISPRUDÊNCIA
PREDOMINANTE DESTE SUPREMO TRIBUNAL
AFASTA A PRISÃO PREVENTIVA QUE SE FUNDA NA
GRAVIDADE ABSTRATA OU CONCRETA DO DELITO
IMPUTADO, DEFINIDO OU NÃO COMO HEDIONDO. 2.
HABEAS CORPUS DEFERIDO.”(HC 92737 / SP - SÃO
PAULO - RELATORA MINISTRA CARMEM LÚCIA –
11.12.2007)

Bem, vale lembrar que a preventiva é medida extrema e somente encontra lastro
no periculum libertatis e no fumus comissi delicti. E não é possível, no caso, observar a
presença do periculum libertatis.

Ora, a liberdade do paciente não importará qualquer ameaça para a ordem


pública ou mesmo para a ordem econômica, ainda mais que a quantidade de droga
apreendida não é de grande monta, ou seja, cerca de 169g. (cento e sessenta e nove
gramas).

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Ademais, não há como fundamentar tal segregação com base na conveniência da


instrução criminal já que não há um indício sequer de ter o paciente tentado ameaçar
testemunhas ou por outro modo tentado impedir o normal andamento do feito.

Destaque-se, ademais, que autuado é hipossuficiente em termos financeiros


e possui residência fixa, conforme se extrai do comprovante de residência ora
juntado.

Igualmente, possui um histórico de exercício em atividades regulares no


mercado formal de trabalho, conforme se colhe de sua CTPS ora juntada e,
atualmente, presta serviços como lavador de veículos no Centro Automotivo Três
Irmãos, conforme se colhe da declaração ora juntada. Tudo isso, elide qualquer
risco de fuga e de inaplicabilidade da lei penal.

Outrossim é primário, conforme se colhe da CAC de fls. 20 – na origem.

Portanto, uma vez ausentes os requisitos legais previstos no art. 312 do Código
de Processo Penal, em sua atual redação trazida pela lei 12403/11, o cerceamento da
liberdade do paciente não mais pode subsistir.

Importa, ainda, pontuar que mesmo se, ao final do processo, o paciente


restar condenado, a sua pena poderá ser, inclusive, substituída por pena restritiva
de direitos, já que a sua conduta poderá se adequar ao tipo trazido no parágrafo 4 o
do art .33 da lei 11343/06.

Nessa monta, se verifica que a medida cautelar ora suportada atualmente se


revela mais gravosa que a sanção penal a lhe ser imposta eventual e futuramente, o
que traduz uma frontal agressão ao princípio da proporcionalidade e, pois, da

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necessidade e da adequação da medida cautelar, conforme previsto no art. 282,


incisos I e II do CPP, em sua nova redação.

Destarte, demonstrada a inocorrência dos requisitos necessários para a


manutenção da presente medida cautelar, necessária se faz a revogação da custódia
preventiva do paciente ou mesmo a sua substituição por uma das medidas cautelares
previstas no art. 319 do CPP, tudo para que a necessidade e adequação preconizadas no
art. 282 do CPP sejam atendidas e cesse o constrangimento ilegal por ele suportado.

3) DOS PEDIDOS

Ante o exposto pede-se:

1) constatada a ausência do periculum libertatis, requer seja concedida a ordem de


habeas corpus, liminarmente, para que seja revogada a prisão do paciente;
2) na eventualidade e, liminarmente, que seja a sua liberdade condicionada às
medidas cautelares previstas no art. 319 do CPP, tudo para que a necessidade e
adequação preconizadas no art. 282 do CPP sejam atendidas;
3) a concessão, ao final e em definitivo, da ordem pleiteada liminarmente, após
regular processamento deste writ;
4) que sejam observadas as prerrogativas funcionais dos membros da Defensoria
Pública, notadamente a concessão de prazo em dobro, intimação pessoal
mediante entrega dos autos e prescindibilidade de apresentação de procuração.

Nestes termos,
pede deferimento.
Belo Horizonte, 22 de novembro de 2018.

Ana Paula Nacif de Sousa


Defensora Pública
MADEP 0459