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Interferência e Difração

Interferência: superposição de ondas. (construtiva, destrutiva e intermediária)

Difração: curvatura e espalhamento da onda após contornar um obstáculo. (Esta curvatura


pode ser mais ou menos acentuada, dependendo da forma e das dimensões do obstáculo a
ser transpassado.)

Os fenômenos de interferência, difração e polarização só podem ser explicados evocando a


natureza ondulatória da luz.

Princípio de Huygens

Existe um princípio empírico − o chamado Princípio de Huygens (ou de Huygens-Fresnel)


− que é muito útil para a explicação de fenômenos que envolvam ondas. Segundo este
princípio, proposto por Huygens no séc. XVII,

cada ponto de uma frente de ondas é um centro emissor de ondas esféricas (no espaço e
circulares no plano) com a mesma freqüência da fonte original.

Assim, as frentes de onda são o resultado da superposição de “ondículas”, tal como ilustra a
figura 1 para uma situação geral (do lado esquerdo) e para o caso particular da onda plana
(do lado direito).

Figura 1

Nesta figura, AB é uma frente de onda num determinado instante, t. A frente de onda num
instante posterior t+∆t pode ser vista como a superfície envoltória de todas as ondículas
originadas em cada ponto da frente AB. O Princípio de Huygens pode ser visualizado num
tanque de ondas (fig. 2). Com um agitador produzem-se ondas planas no tanque no qual foi
colocado uma barreira, que tem a largura do recipiente, com uma fenda muito estreita.

1
Apesar da existência da barreira, surgem ondas do outro lado. A onda que aparece do lado
direito da barreira pode ser vista como a ondícula produzida pelo ponto da frente de onda
plana incidente que não encontra qualquer obstáculo à sua frente. Mas a abertura na
barreira tem de ser muito estreita para que, do lado direito, as ondas sejam circulares!

Figura 2

a << λ

É muito importante que a abertura a seja estreita (a deve ser menor do que λ). Se assim não
fosse, do lado direito do obstáculo a onda já não seria circular.

Interferência: experiência da fenda dupla de Young

Vimos, na aula, que as ondas podem se interferir (sobrepor), sendo a perturbação resultante
dessa interferência, a soma das perturbações devidas a cada onda. Historicamente, foi
precisamente o fenômeno da interferência que serviu para demonstrar inequivocamente o
caráter ondulatório da luz. Consideremos que uma onda plana incide num anteparo onde há
dois pequenos orifícios. De acordo com o princípio de Huygens, cada um dos orifícios é
uma fonte de ondas esféricas (de fato, circulares, em duas dimensões). A experiência pode
ser feita num tanque de ondas e o resultado é o que se mostra na fig. 3.

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Figura 3

As ondículas geradas em cada um dos orifícios vão sobrepor-se, por vezes


construtivamente, por vezes destrutivamente. A experiência foi feita por Young, em 1801,
que fez incidir luz numa fenda dupla (experiência de Young). A fig. 4 mostra as ondículas
geradas em cada fenda estreita, representando, as curvas azuis contínuas, as “cristas” das
onda e as curvas vermelhas tracejadas as suas “depressões” ou “vales”. Vai haver direções
de máxima interferência construtiva e direções de total interferência destrutiva alternadas
(indicadas por “claro” (máximo de intensidade luminosa) e “escuro” (mínimo de
intensidade luminosa) na fig. 4). Mas para se ter este padrão é necessário que a luz (ou a
onda) seja coerente, o que significa que ela deva atingir os orifícios com a mesma fase e
freqüência. No caso da figura 4, a onda incidente é plana e paralela à barreira então os
pontos da frente de onda em A e B estão na mesma fase.

Figura 4
mín m=+1

máx m=+1

mín m=0

O máx m=0

mín m=0

máx m=-1

mín m=-1
vale
alvo
Figura 4

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Colocado um alvo a uma grande distância, D, das fendas, o resultado vai ser o
aparecimento no alvo de “figuras de interferência” que, no caso da luz, será uma seqüência
de zonas claras e escuras. Por grande distância queremos significar D >> d. A fig. 4
mostra que na direção que passa pelo ponto médio dos orifícios, a interferência é
construtiva (ponto O no alvo). Em suma, espera-se que o padrão de interferência num alvo
seja uma seqüência de zonas claras e escuras de acordo com o esquema da fig. 5 abaixo (o
ponto O é o centro da imagem no alvo).

Figura 5

Vejamos como explicar quantitativamente esta seqüência de claros e escuros. Na fig. 6, os


pontos A e B são os orifícios que geram as ondas esféricas de Huygens e O é o ponto no
alvo onde sabemos ocorrer interferência construtiva (zona clara). A fig. 6 não está,
evidentemente, em escala, pois o alvo está muito afastado da barreira com os dois orifícios
(repetimos: D >> d).

Figura 6

Designamos por P um ponto do alvo onde a interferência é construtiva e por L1 e L2 as


distâncias percorridas pelos raios que partem de A e de B e atingem P. Haverá interferência
construtiva se a diferença entre estes dois comprimentos − segmento BC na figura − for
zero ou igual a um múltiplo inteiro de um comprimento de onda:

L1 − L2 = mλ , m = 0,±1,±2,... (1)

4
aparecendo um máximo de intensidade luminosa. Este critério impõe, de imediato, que O
seja um ponto com interferência construtiva (m = 0). Insistimos no fato de o lado esquerdo
da Fig. 6 não estar em escala: de fato, as linhas AP e BP na realidade são praticamente
paralelas. O ângulo θ é, portanto, muito pequeno: θ ≈ 0. O triângulo APC é isósceles: os
ângulos internos nos vértices A e C são iguais, sendo estes ângulos muito próximos de 90º.
Assim, é boa aproximação considerar que o triângulo ABC é retângulo em C como se
mostra na parte direita da Fig. 6. Note-se que o ângulo θ nesse triângulo é igual ao ângulo
que a direção do ponto P, relativamente ao ponto médio dos orifícios A e B, faz com a
direção horizontal. O segmento B C = L1 − L2 é um cateto desse triângulo, tendo-se

B C = L1 − L2 = d senθ . (2)

Combinando com a expressão (1), obtém-se

d senθ = mλ m = 0,±1,±2,... (condição de máximo), (3)

onde o número m é a ordem dos máximos. O máximo central em θ = 0 (m = 0) é o máximo


de ordem zero. O primeiro máximo de qualquer dos lados deste, com m = ± 1 é o máximo
de primeira ordem, e assim por diante. O sinal “+” indica se o máximo está acima do ponto
O e o “-”, abaixo.
A posição de um mínimo de intensidade luminosa, ou seja, de um ponto onde a
interferência seja destrutiva, é determinada usando um raciocínio análogo ao seguido para
encontrar a posição dos máximos. Há um mínimo quando as distâncias L1 e L2 diferem de
meio comprimento de onda ou de um número inteiro de comprimentos de onda mais meio
comprimento de onda, o que matematicamente se exprime por

λ 2m + 1
d senθ = mλ + = λ m = 0,±1,±2,... (condição de mínimo). (4)
2 2

Voltando novamente ao lado esquerdo da fig.6, e dado que θ é um ângulo pequeno


(o seno tem praticamente o mesmo valor da tangente), conclui-se que
y
senθ ≈ tan θ = max (5)
D

onde ymax é a ordenada do ponto P onde há um máximo de intensidade. Das expressões (3)
e (5) obtém-se, finalmente,

λD
y max = m m = 0,±1,±2,.... (6)
d

Esta expressão indica-nos onde estão os pontos sobre o alvo para os quais a interferência é
construtiva. A posição no alvo é dada pela coordenada y, sendo o ponto O escolhido para
origem (ver fig. 6). Analogamente, com as duas eqs. (4) e (5), encontramos que os pontos
sobre o alvo para os quais a interferência é destrutiva estão localizados em

5
 1  λD
y min =  m +  m = 0,±1,±2,.... (7)
 2 d

onde ymin é a ordenada do ponto P onde há um mínimo de intensidade.


A separação entre dois máximos (ou mínimos) consecutivos próximos ao centro da
figura é:

λD
∆y = (8)
d

[note que dois máximos (ou mínimos) consecutivos correspondem a dois valores
seqüenciais de m na expressão (6) (ou na expressão (7))].

A Fig. 7 é uma imagem real de três casos de interferência de luz por duas fendas
separadas de distâncias diferentes. Este padrão de faixas claras e escuras projetado numa
tela é chamado franjas de interferência (máximo de intensidade = franja clara e mínimo de
intensidade = franja escura). Na figura, da esquerda para a direita, separação entre duas
franjas claras (ou escuras) consecutivas, ∆y, aumenta a medida que a separação entre as
fendas, d, diminui.

Figura 7

E se em vez de duas fendas tivermos muitas fendas? A condição de máximo


continua a ser a mesma. Mostra-se que, se tivermos N+1 fendas (igualmente espaçadas) a
condição de máximo ainda é a condição (3) com ambos os membros multiplicados por um
mesmo fator N: do ponto de vista teórico chega-se, portanto à expressão (6) para a posição
dos máximos. Do ponto de vista prático, os máximos são muito mais nítidos e as franjas
claras muito mais estreitas: quando há superposição de muitas ondas em fase o efeito é
maior do que quando só há duas. Por outro lado, quando há pequenas diferenças de fase
entre muitas ondas os cancelamentos que ocorrem são maiores e o resultado é a amplitude
tornar-se nula. Se o número de fendas for muito grande temos uma rede de difração e no
alvo obtém-se uma seqüência de riscas. A medição experimental de ∆y fica muito mais
facilitada como se pode inferir da fig. 8 que representa o mesmo que a fig. 7 mas agora para
várias fendas.

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Figura 8

Difração por uma fenda

Todos já devem ter percebido de que não existe uma fronteira nítida entre luz e
sombra, o que se deve a efeitos de difração. De fato, se olharmos atentamente para a
sombra projetada por um objeto quando é iluminado, mesmo que os seus contornos sejam
muito bem definidos, veremos sempre uma zona de penumbra entre a parte de sombra e a
parte iluminada.
A fig. 9 mostra uma caixa onde se abriu numa face uma fenda de largura a. Como
essa face da caixa é iluminada com uma fonte de luz distante, o feixe de luz pode ser
considerado de raios paralelos. Na face oposta observa-se uma mancha iluminada que tem
exatamente a dimensão da fenda e, à primeira vista, não se notam efeitos de difração.

Figura 9

Na Fig. 10 mostra-se a imagem de um tanque de ondas no caso da abertura na


barreira ser grande. A onda que se propaga do lado direito da barreira, quase não se difrata.
De fato, só se irá observar nitidamente a difração quando a fenda tiver uma dimensão da
ordem de grandeza do comprimento de onda.

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Figura 10

O fato de o som e certas radiações eletromagnéticas de grande comprimento de onda


(como as ondas de rádio, por exemplo) contornarem obstáculos macroscópicos e se
espalharem tem a sua origem na difração. No caso da Fig. 9, as ondas eletromagnéticas não
se espalham ao entrarem na caixa porque a dimensão da fresta é muito maior do que o
comprimento de onda da luz visível que está sendo usada. Se o tamanho da fresta
diminuísse a zona iluminada também diminuía. Contudo, nunca iríamos conseguir
“apanhar” um raio de luz! A dada altura, a luz, se encontrasse uma fresta do tamanho do
seu próprio comprimento de onda, sofreria difração, ou seja, espalhar-se-ia.
A Fig. 11 mostra um tanque de ondas onde foram geradas ondas planas que se
propagam da esquerda para a direita, indo encontrar uma barreira onde existe uma pequena
fresta. A situação é diferente da representada na Fig. 2 (onde a fenda tinha dimensão
desprezível) ou na Fig. 10 (onde a fenda é grande). A figura mostra que há direções onde
existe interferência destrutiva.

Figura 11

Se a experiência for feita com luz, tal como no caso da Fig. 12, mas tendo a fenda largura
a ~ λ , o resultado é o aparecimento de uma seqüência de zonas claras e de zonas escuras,
sendo certo que, em frente da fenda, e como seria de esperar, há um máximo de intensidade
luminosa. A Fig. 12 mostra o padrão de iluminação que se obtém num alvo. O máximo

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central é o de maior intensidade, mas existem outros máximos, de um e do outro lado do
máximo central, com intensidades que vão diminuindo gradualmente.

a a

Figura 12

Vamos mais abaixo fazer o estudo pormenorizado da difração por uma fenda para
mostrar que a separação entre o primeiro mínimo e o centro da imagem é λD / a , sendo D
a distância da fenda ao alvo. Na montagem de Young falávamos em interferência de ondas
e agora utilizamos predominantemente o termo difração. De fato, há quem não distinga os
dois termos, isto é, os utilize indistintamente para descrever o mesmo fenômeno. Contudo,
se há distinção, ela reside no número de ondas que se superpõem. No caso da experiência
de Young fala-se preferencialmente em interferência porque só há duas ondas em
superposição. Mas já quando há muitas fendas e muitas ondas superpondo-se utiliza-se
preferivelmente o termo difração. De resto, acima foi introduzido o termo “rede de
difração”. O fenômeno a que se refere a Fig. 11 é apropriadamente designado por difração
já que o padrão observado num alvo (Fig. 12) é descrito convenientemente, como veremos
em seguida, como uma superposição de muitas ondas (ou melhor, ondículas de Huygens).
A Fig. 13 mostra ondas planas incidindo numa barreira onde existe uma fenda de
largura a. Podemos imaginar nessa fenda um número N arbitrariamente elevado de pontos
que são fonte de ondículas de Huygens e, sem perda de generalidade, podemos considerar
que N é um número par. No caso da Fig. 13 representamos 10 pontos para concretizar as
idéias. A linha que passa pelo centro da fenda, que intercepta o alvo no ponto O, divide
esses pontos em dois grupos: de 1 a N/2 e de N/2+1 a N (em concreto, de 1 a 5, e de 6 a
10).

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a/2

Figura 13

Ora, a superposição das ondas geradas nos pontos 1 e N/2+1 (ponto 6 na Fig. 13) é igual ao
que estudamos na experiência de Young. Supõe-se que o alvo está muito longe da fenda (D
>> a) e que, portanto, os dois raios que partem dos pontos 1 e 6 para o ponto P são
paralelos. Esta aproximação decorre de θ ≈ 0) (a Fig. 13 não está em escala!). Vejamos
qual é a localização do ponto P que queremos que seja o ponto onde se dá a primeira
interferência destrutiva acima do ponto O. A condição de interferência destrutiva é que a
diferença dos caminhos ópticos dos raios que saem de 1 e 6, que designamos por l, seja um
meio-comprimento de onda:

λ
l= (condição de mínimo). (9)
2
Esta é a condição para o primeiro mínimo. Por outro lado, o comprimento l é dado por

a
l= senθ (10)
2

pois l é o comprimento de um cateto do triângulo retângulo cuja hipotenusa mede a/2. Das
eqs. (9) e (10) vem
λ a
= senθ
2 2

λ
senθ = . (11)
a
Se dividirmos a fenda em 4 grupos, e não em dois, e raciocinarmos de maneira análoga,
encontramos que na tela haverá uma franja escura quando:

senθ = . (12)
a
Da mesma forma, podemos dividir a fenda em 6 grupos, e mostrar que a franja escura
aparece no alvo quando

10

senθ = .
a
Portanto, a condição geral para interferência destrutiva é

λ
senθ = m m = ±1,±2,±3,... (13)
a

A equação (13) dá os valores de θ para os quais se forma no alvo uma franja escura.
Voltando a fig. 13 e dado que θ é pequeno tem-se:

x
senθ ≈ tanθ = . (14)
D

Combinando as equações (13) e (14) obtém-se

λD
x min = m m = ±1,±2,±3,... (15)
a

onde xmin é a ordenada do ponto P onde há uma franja escura.


A separação entre os dois primeiros mínimos de ambos os lados do máximo central é
2λD/a (separação entre os dois mínimos mais próximos de O) mas a separação entre outros
dois mínimos quaisquer adjacentes é somente λD/a .
Fizemos a análise para os pontos 1 e 6. Mas esta mesma análise repete-se para os
pontos 2 e 7, 3 e 7, etc. todos separados da mesma distância a/2. Os mínimos voltam a
ocorrer nos mesmos pontos dados pela expressão (13). Está assim justificada a figura de
difração na Fig. 12.

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