Você está na página 1de 101

CULTURA, CULTURA BRASILEIRA, EDUCAÇÃO

Rosa Lydia Teixeira Corrêa

Curitiba
2008
Para Evelio e Thiago que ficaram privados de minha companhia nas horas de
recolhimento para a elaboração deste trabalho, o meu carinho.
Rosa Lydia Teixeira Corrêa,
é natural do estado Pará. Graduada em Pedagogia pela Universidade Federal do Pará, é
Mestre em Educação pela Universidade Estadual de Campinas e Doutora em História
Econômica pela Universidade de São Paulo. Atualmente é professora do Programa de
Mestrado em Educação da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, onde atua por
meio da Linha de Pesquisa História e Políticas da Educação. Tem livros e artigos
publicados na área de História da Educação.

SUMÁRIO
Apresentação
Capítulo 01
Cultura
Capitulo 02
Cultura brasileira
Capitulo 03
Etnias e cultura no Brasil
Capítulo 04
Diversidade cultural brasileira
Capitulo 05
Cultura e educação
Capitulo 06
Cultura e religiosidade
Conclusão

APRESENTAÇÃO

A proposta contida neste livro resulta de estudos que venho realizando nos
últimos cinco anos no que considero sejam dois campos inter-relacionados: o ensino e a
pesquisa no processo de formação de professores em nível de pós-graduação stricto
sensu. A história cultural tem me permitido enveredar pelo caminho da cultura escolar
em distintas formas de manifestação, quer por meio daquilo que vem sendo produzido
no campo da História da Educação, quer de meus próprios estudos. O entendimento da
cultura escolar, não se faz a meu ver sem a devida compreensão do significado do termo
cultura, idéia que pressupõe amplitude maior em relação à de cultura escolar,
imprescindível para a compreensão desta. Por isso, foi no percurso desse entendimento
que comecei a trilhar o caminho que ora me proponho a sistematizar neste livro.
Quando a oportunidade de enfocar a questão da cultura e seus nexos com a realidade
brasileira se torna imperativo ao estudo que propicia a formação para atuação
profissional em Ensino Religioso.
Essa interconexão se faz necessária levando em conta os fundamentos que
subjazem o Ensino Religioso desde a Lei de Diretrizes e Bases da Educação 9394/96
que no artigo 33 determina:

O Ensino Religioso, de matrícula facultativa, é parte integrante da formação básica do


cidadão e constitui disciplina dos horários normais das escolas públicas de educação
básica, assegurando o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil, vedadas
quaisquer formas de proselitismo (República Federativa do Brasil, Lei 9475 22 de julho
de 1997, que dá nova redação ao art. 33 da Lei 9394/96 de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional).

O conteúdo desse texto é particularmente substancial a abordagem e organização do


Ensino Religioso no Brasil. A idéia de diversidade cultural religiosa é nuclear à
compreensão desse tipo de ensino em sociedade como a nossa. O fenômeno religioso
faz parte de qualquer cultura é dentro desta, como manifestação ampla e, ao mesmo
tempo singular, deve ser estudado. Por isso um estudo ainda que preliminar de cultura
torna-se um imperativo. Justamente pelo fato de que ele permitirá o exercício da
transversalidade necessário ao entendimento daquele fenômeno em diferentes
manifestações sociais.
Composto de seis capítulos, este material está assim estruturado: no primeiro
capítulo abordo o conceito de cultura partindo de alguns significados com vistas a fazer
a opção por apenas que subsidiará a idéia de cultura como questão central no decorrer
do texto. Destaque deve ser dado aos mitos e símbolos como expressões culturais. O
segundo capítulo trata da cultura brasileira considerando a opção conceitual feita no
primeiro capitulo e suas singulares manifestações que marcam as especificidades
culturais de cada região do país, permitindo não falar de cultura brasileira. Neste sentido
problematiza-se esta compreensão. No terceiro capítulo as etnias ganham um lugar de
abordagem, onde se procura destacar suas contribuições à “cultura brasileira”, pelos
diferentes matizes que trazem a esta por meio do folclore, religião, comida, hábitos,
linguagem, entre outros. O quarto capitulo tem o propósito, em estrita relação com o
terceiro, bem como levando em conta as particularidades desta sociedade naquilo que
conserva de suas origens, de tratar da diversidade cultural brasileira, atentando para
categorias de analise tais como: singularidade, multiplicidade, como necessários para o
entendimento da idéia de diversidade. O quinto capítulo traz contribuições para
reflexões sobre a relação entre educação, destacadamente a escolar e os saberes em
relação ás necessidades sócio culturais e diversidade, discutindo diversidade sob
diferentes manifestações. No sexto capítulo finalmente abordamos a relação entre
cultura e religiosidade, mostrando diferentes formas de expressão de religiosidade e
pensando-a como não exclusivamente vinculada à religião. A cada um dos capítulos
segue-se um rol de sugestão de atividades que procura considerar as possibilidades do
professor quer no uso de textos de livros, jornais, revistas, filmes, fotografias, obras de
arte, entre outros..
Rosa Lydia Teixeira Corrêa

Plano de Ensino

Ementa
Aborda a cultura brasileira, tomando como ponto partida uma compreensão de cultura para entender as
diferentes manifestações culturais e seus desdobramentos existentes no Brasil. Destaca a religião
como um desses desdobramentos para estabelecer relação com a educação.

Objetivo Geral: Análise da cultura e cultura brasileira destacando suas múltiplas manifestações, levando
em conta as especificidades locais e regionais do Brasil, bem como a importância dessas
manifestações para o processo educacional escolar no estudo do fenômeno religioso em particular.

Objetivos específicos: 1. Analise critica de diferentes conceitos de cultura a fim de que os alunos possam
fazer uma opção conceitual, considerando o caráter antropológico/fenomenológico da abordagem a
ser realizada na disciplina; 2. Apreender o caráter simbólico e concreto da cultura e o seu significado
social, político, econômico e subjetivo; 3. Problematizar a idéia de cultura brasileira em face da
multiplicidade de manifestações culturais existentes no Brasil; 4. Promover a articulação analítica
entre cultura e educação, destacadamente a escolar, tendo por base experiências dos alunos e o
cenário cultural proveniente dos estudos feitos nas unidades temáticas anteriores; 5. Estimular a
produção de materiais impressos e digitais sobre cultura a partir das particularidades regionais em
relação com o nacional.

Conteúdo Programático
Unidade Temática - 1. Diferentes conceitos de cultura - aspectos gerais - Analise critica de diferentes
conceitos de cultura a fim de que os alunos possam fazer uma opção conceitual, considerando o
caráter antropológico/fenomenológico da abordagem a ser realizada na disciplina. Destaque deve ser
dado ao caráter simbólico e mítico da cultura.

Unidade Temática – 2. Cultura Brasileira – problematização da idéia de cultura brasileira em face da


multiplicidade de manifestações culturais existentes no Brasil. Destacar o que concorre para a
multiplicidade entendida também como diversidade cultural. Em destaque as diferentes etnias.

Unidade Temática – 3. Cultura e religiosidade – análise critica da religiosidade como dimensão


expressiva da cultura visando apreender seu significado simbólico e subjetivo e diferentes modos de
manifestação.

Unidade Temática – 4. Cultura e educação - Promover a articulação analítica entre cultura e educação,
destacadamente a escolar, tendo por base experiências dos alunos e o cenário de compreensão
cultural proveniente dos estudos feitos nas unidades temáticas anteriores;

Metodologia e estratégias de aprendizagem


As aulas serão desenvolvidas à distância sob o formato de tele aulas, onde serão contempladas as quatro
unidades temáticas previstas para esta disciplina. Feitas as exposições serão realizadas atividades de
aprendizagem visando rever conceitos e articulá-los à vida cotidiana.

Avaliação - a avaliação tem por finalidade promover a aprendizagem, por essa razão após cada tele aula
os alunos realizarão atividades com vistas a sistematização dos conhecimentos estudados para a sua
melhor compreensão. Essas atividades serão realizadas individualmente e em equipe, embora o
estudo deva ser realizado sobremaneira de modo não coletivo. A auto-avaliação é importante a fim
de que o aluno possa dimensionar seus avanços e dificuldades

Bibliografia Básica
LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar, 2007.

SANTOS, Jorge Luis. O que é Cultura. São Paulo: Brasiliense, 1987.


VILHENA, Maria Ângela. Ritos: expressões e propriedades. São Paulo: Paulinas, 2005.

Bibliografia complementar
BRANDÃO, Carlos Rodrigues. A Educação como Cultura. Campinas, SP: Mercado das Letras, 2002.

GEERTZ, C. As interpretações das culturas. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1989.

__________. O Saber local: novos caminhos sobre a antropologia interpretativa. Rio de Janeiro: Editora
Guanabara, 1989.

SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. RJ: São
Paulo: Editora Record, 2001.

AZEVEDO, Fernando de. A cultura brasileira: introdução ao estudo da cultura no Brasil. Rio de
Janeiro: IBGE, 1943. 535 p.
Capítulo 01
Sobre Cultura

Neste capitulo me proponho abordar o conceito de cultura, tomando-o na acepção que a entende
como teia de significados. Para tanto há que considerar algumas acepções usuais do termo
cultura, a fim de melhor situar a opção conceitual que está sendo feita. Em seguida estritamente
articulada a opção conceitual faço uma apreciação dos símbolos como expressões culturais, bem
como o que na cultura situamos no âmbito de tradições culturais, chamado atenção para que
muitas tradições são criadas justamente para permanecerem como marcas culturais e ou
singularidades de certas culturas. Os ritos como manifestações culturais são formas tácitas das
diferentes sociedades expressarem de modo consciente ou inconscientemente modos de viver
modos de viver próprios.

O entendimento de cultura é importante para as interpretações que serão feitas nos


capítulos posteriores.
Vale dizer que a palavra cultura encontra diferentes acepções. Uma delas diz
respeito a conhecimento, saber elaborado, erudição da qual uma pessoa é portadora. Em
tempos idos poder-se-ia dizer que uma pessoa culta era uma celebridade, pelo cabedal
de conhecimentos que possuía. Esta acepção traz ao termo cultura uma limitação muito
grande, ao mesmo tempo em que, como aspecto da vida social retira de sujeitos e
grupos a possibilidade de serem cultos. Neste sentido tais pessoas estariam desprovidas
de certo privilégio e conseqüente status social.
Cultura, por outro lado, também é compreendida como arte em geral e sua
produção (pinturas em tela, gravuras, exposições daí demandadas, a música, os festivais
de música, a literatura, por exemplo), bem como as manifestações folclóricas de modo
geral. Essas diferentes acepções trazem para esse termo a dificuldade de lidar com esse
assunto. Por isso, torna-se importante aqui que demarquemos o nosso lugar, ou seja, o
posicionamento que adotaremos no decorrer deste trabalho a fim de que possamos
tornar nossa proposição de abordagem mais bem circunstanciada.
A compreensão aqui adotada não se constitui numa única por considerar que tanto a
antropologia, que encontra na etnografia1 sua ferramenta mais acaba enquanto método
de estudo, quanto o materialismo histórico têm suas contribuições a dar nesse sentido.

a interpretação antropológica não deve ser vista com uma operação exata entretanto ela
não pode ser lida e entendida fora das exigências do rigor científico; é preciso buscar na
cultura categorias de análise para procurar entendê-la por dentro (p. ?);

Todavia a etnografia não será motivo de apreciação neste trabalho. Vale ressaltar
antes de tudo que, em primeiro lugar estudaremos o que é cultura e, posteriormente seu
aspecto simbólico, como necessários às reflexões que serão nos próximos capítulos. É
nesta perspectiva e guiado por este olhar que foi pensada a elaboração deste texto.
Entendo que a cultura encontra sua explicação mais singular nessa perspectiva.
Suas particularidades só podem ser vistas, embora possa parecer redundante, a partir e
dentro dela mesma. São os seus próprios sinais que a explicitam. Razão pela qual
tomarei em todo este trabalho a definição de Geertz (1989), na sua apreensão semiótica
para quem o homem é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu
(p. 40). Teia essa que, segundo ele, precisa ser analisada, interpretada no sentido de
procurar os múltiplos significados que ela comporta. Neste sentido, sua interpretação
permite desvendá-la em termos dos componentes desses significados. Poderíamos dizer
com esse autor que o caráter semiótico de compreensão da cultura se traduz em signos,
particularidades próprias de cada manifestação cultural.
Por outro lado, o materialismo histórico aqui trazido do por meios dos trabalhos
de Hobsbawn (1984) e Williams (1992), me fazem ir além de fronteiras para muitos
consideradas inconciliáveis.
Dadas às particularidades que os símbolos contêm, Geertz nos estimula a pensar

1 Estudo e descrição dos povos, considerando raça, língua, religião.


que a cultura é ao mesmo tempo aparente e não aparente. Ou seja, ela está à vista e ao
mesmo tempo não. Dai o imperativo de decifrá-la pela interpretação quer em sua forma
explícita quer não. E é por isso que interpreta-la é um exercício denso, meticuloso e
requer o necessário auxílio teórico.
Avançando um pouco mais naquilo que esse autor pode nos contribuir para
entendermos cultura nos valemos de mais uma definição desse termo, desta feita mais
detalhada por esmiuçar um pouco mais a idéia posta acima de teia de significados sob o
olhar semiótico. Nesse sentido temos:
(....) sistemas entrelaçados de signos interpretáveis (o que eu chamaria símbolos ......), a
cultura não é um poder, algo ao qual podem ser atribuídos casualmente os
acontecimentos sociais, os comportamentos, as instituições ou os processos; ela é um
contexto , algo dentro do qual eles podem ser descritos de forma inteligível
(...).(GEERTZ, 1989, p. 10).

Ao não admitir o caráter casual da cultura, esse autor assinala sua historicidade e
intencionalidade. Assim, a cultura é um processo cumulativo resultante de toda a
experiência histórica das gerações anteriores. Este processo limita ou estimula a ação
criativa do homem (LARAIA, 2007, p.49). No processo de criativo humano a cultura
tanto pode ser perpetuada como recriada. Não seria demais dizer com Brandão que

Tudo aquilo que criamos a partir do que nos é dado, quando tomamos as coisas da
natureza e as recriamos como os objetos e os utensílios da vida social representa uma
das múltiplas dimensões daquilo que, em uma outra, chamamos cultura (2002, p. 22).

Admito com Geertz que ela não é um poder mas que por outro lado tem o poder.
O poder de conter, simbolizar e traduzir formas de viver socialmente construídas e
valorizadas. A antropologia tem demonstrado que muitas atividades atribuídas às
mulheres em uma cultura podem ser atribuídas aos homens em outras (LARAIA, 2007,
p.19). Para esse autor as diferenças são explicadas pela história cultural de cada grupo.
A cultura tem o poder de enraizamento do sujeito em modos de vida, em modos
ser que o sujeita às práticas, comportamentos: a tipos de alimentos, modos de vestir.
Gafanhotos e cobras são iguarias alimentares na china. No Brasil pensar em comê-los
causa repulsa. A carne de vaca é proibida aos hindus, da mesma forma que a de porco é
interditada aos mulçumanos (LARAIA, 2007, p.15)
A importância do que cada aspecto da cultura tem para o grupo social e sujeitos
nele inserido acha-se estritamente vinculado ao significado que a cultura tem para eles,
eis o seu sentido mais profundo: a macarronada tem um sentido, e por isso, um
significado peculiar para os italianos e somente para eles, do mesmo modo que o pato
no tucupi para os paraenses. Ainda que afirmemos estar imersos em uma cultura que
não que é a nossa de origem, mesmo assim não fazemos parte dela, não nascemos nela
mesmo que tenhamos aprendido a língua nela falada. Neste aspecto Geertz (1989) fala
da dimensão enigmática da cultura por que esta expressão a dimensão enigmática de
homem. Diz ele:

... aprendemos isso quando chegamos a um país estranho, com tradições imensamente
estranhas e, o que é mais, mesmo que se tenha um domínio total do idioma do país. Nós
não compreendemos o povo (e não por não compreender o que eles falam entre si). Não
nos podemos situar entre eles (grifo no original, p. 10).

Avançando um pouco mais sobre cultura diríamos que ela representa o próprio
significado do existir humano. Ela se confunde com esse existir, na medida em que ela o
significa, o marca enquanto como seu criador, mas também como o sentido ou os
sentidos do seu existir. Essa dimensão quase que metafísica da cultura, que talvez
explicite um pouco a dificuldade e controvertida de defini-la não me permitem deixar de
fora o trecho a seguir de Brandão que, como ser, se projeta na tentativa de decifrá-la:

Carrego na antevisão de um qualquer dia, amanhã, a minha morte, assim como levo pela
vida afora a experiência humana da Vida, e minha vida na memória carregada de nomes
e de cenas, de cenários e símbolos, de palavras e frases. De tessituras sempre inacabadas
onde se entrelaçam gestos e seus arremedos de sensibilidades, sentidos e de significados
gravados nos genes que me habitam, no corpo que eu habito e, imagino no espírito onde
acredito que esteja a parte mais etéria e – quem sabe? – imortal de uma pessoa chamada
Carlos.

O que quero chamar atenção dessa passagem é a presumível tentativa do autor de


traduzir o significado dos efeitos da cultura sobre o homem. Um exemplo bastante
comum do significado humano da cultura é língua no seu sentido nativo. Ela é a sua
referência porque o seu maior símbolo, a sua maior representação. Que alegria sentimos
quando depois de estarmos há mais de vinte dias, meses ou até anos num país de língua
diferente da nossa, encontramos alguém de cuja língua partilhamos e pudemos falar sob
coisas que embora não comuns, nos permitem exercita-la. Este já é um exercício de
significado e sentido. É um alento.
Mas a cultura como escrita inteligível de sinais, signos, símbolos como bem
assinalou anteriormente Geertz, palavras diferentes para um mesmo significado que são
modos de tradução e, por essa razão, de expressão que incorporam a singularidade de
grupos sociais, comunidades, enfim de sociedades, cujos conteúdos em múltiplas
possibilidades que as fazem próprias, por que cada uma delas possui suas
particularidades. Assim é possível então haver semelhanças culturais, mas jamais
culturas idênticas.
A cultura expressa diferentes linguagens daí a importância de fazer sua leitura desde
a perspectiva semiótica. Estas podem estar ou não explicitas. Elas incorporam as
diferenças de vestir, de comer, de acreditar, de morar, de rezar e de simbolizar essas
diferenças.
Por esta razão dedicaremos um item específico a apreciação dos signos ou símbolos.

Os simbolos
Neste trabalho estamos tomando os símbolos na mesma acepção d e sugnos. Assim,
a variedade de culturas denota a também variedades de símbolos, signos que expressam
essa variedade. Como vimos adiante, a cultura, segundo a idéia de teia de significados,
se constitui num entrelaçamento de simbolos interpenetráveis. Justamente por haver
uma gama de realizações que a simbolizam, bem como os significados e sentidos que
expressam. Símbolos se relacionam mutuamente digamos assim ou se quisermos, são
partes de uma mesma moeda. Mas avencemos um pouco mais na tentativa de entender
melhor esse assunto.
Em Santos (2003), numa linguagem bastante oportuna o signo é uma coisa que
representa outra coisa: seu objeto (p.58). A bandeira de cada país é um objeto ou uma
materialização da pátria, do país que ela simboliza. O signo é a representação contida no
objeto não o objeto em si. Tal representação é feita pelos signos contidos nele, no caso
do Brasil: as cores, as estrelas representado os diferentes estados da federação, entre
outros. Para aquele autor, um signo

só pode funcionar como signo se carregar esse poder de representar, substituir uma
coisa diferente dele. Ora, o signo não é o objeto. Ele apenas está no lugar do objeto.
Portanto, ele só pode representar esse objeto de um certo modo e numa certa
capacidade. Por exemplo: a palavra casa, a pintura de uma casa, o desenho de uma
casa, a maquete de uma casa, fotografia de uma casa, o esboço de uma casa, um filme
de uma casa, a planta baixa de uma casa, a maquete de uma casa, ou mesmo o seu olhar
para uma casa, são todos signos do objeto casa. Não são a própria casa, nem a idéia
geral que temos de casa. (....) (SANTOS, 2003, p. 58).

Mas este trecho nos parece tão importante quanto a definição de cultura.
Vejamos por que. Se o simbolo é a representação de algo por meio de um objeto, então
ele pode ser considerado como uma das expressões mais acabadas da cultura. Um iglu
por seu estilo arquitetônico nos remete a cultura dos esquimós. Já os palácios .......... nos
indicam algo referente a cultura japonesa. No mesmo sentido a oca como moradia
indígena, ou a palafita como casa dos ribeirinhos amazônidas.
Ferreira (1986), na mesma linha de Santos diz que símbolo é aquilo que por
natureza evoca, representa, ou substitui num determinado contexto algo abstrato ou
ausente (p. 1586). Desse modo os símbolos ou signos trazem à tona também a
possibilidade de rememorarmos elementos de nossa criação que é humana.
Os símbolos que representam em termos culturais épocas, períodos distintos da
humanidade nas diferentes modos e ser e viver do homem. Há certos símbolos que
permanecem por longos e longos tempos, como é o caso das bandeiras que podem ser
substituídas em um país se houver mudança drástica de regime político. Assim como
aqueles que passam a simbolizar especificamente uma época como é o caso da
arquitetura. Talvez ela seja uma das expressões culturais que traduzem por um lado a
dinamicidade da cultura como, por outro, sua validade em uma época. Quando
visitamos centros antigos de cidades brasileiras fundadas no período colonial,
constamos por meio do estilo arquitetônico daquela época, não só um estilo específico,
mas podemos abstrair valores sobre como morar e por que morar. Do mesmo modo
quando podemos contrastar esses estilos com mais modernos e contemporâneos.
Sem dúvida são os símbolos que mais expressam as particularidades e diferenças
existentes em nosso planeta em todos os sentidos, desde a língua com sua simbologia
mais marcante por meio de como ela é grafada. Sem dúvida os japoneses sentirão a
mesma dificuldade de aprender nossa língua como certamente sentiremos em relação à
deles. Este é um entendimento valido não só para a grafia da língua como para a fala.
Catedrais, bandeiras, flores, modos de vestir, comidas, palácios, igrejas e suas
arquiteturas, são formas simbólicas de representações culturais de países, cidades, enfim
de povos. Cada um deles comporta um significado específico para o povo, sociedade na
qual está inserida.
Podemos dizer também que os símbolos são os vestígios que, no processo de
humanização, o homem vai deixando no tempo como resultado das transformações que
ele vai imprimindo no mundo. São suas marcas, pois só ele entre todos os animais cria,
produz cultura.

Tal como a natureza onde vivemos e de quem somos parte, também a cultura não é
exterior a nós. A diferença está em que o “mundo da natureza” nos antecede, enquanto o
“mundo da cultura” necessita de nós para ser criado, para que ele, agindo como um
criador sobre os seus criadores, nos recrie a cada instante como seres humanos. Isto é,
como seres da vida capazes de emergirem dela e darem a ela os seus nomes
(BRANDÃO, 2002, p. 22)

Esta passagem de Brandão nos faz avançar para além da idéia de símbolo como
representação ou se quisermos de sua materialização para a do valor simbólico da
cultura. Diz ele:

Todos os bichos comem cru, fresco ou apodrecido. Nós criamos escolhas e processamos
o cru para ser também o cozido, o assado, o frito, e assim por diante. Aprendemos com
o tempo – cada cultura humana faz isto segundo os seus termos e de acordo com os
padrões de sua própria lógica de sentir, do pensar e do agir – a lidar com os alimentos
naturais como entidades de um profundo valor simbólico. Assim, em um almoço entre
amigos comemos a comida quente e boa à volta da mesa, enquanto trocamos entre nós
as mensagens. Sentimentos, evocações, idéias e valores de vida que nos dizemos uns
aos outros através do que comemos (2002, p.20).

Com este pensamento sou provocada a dizer que a cultura não é homogênea.
Não é uma produção democrática em seu sentido geral. Ela está relacionada ao tipo de
segmento ou grupo social do qual provém. Ela denota diferenças nas criações humanas.
As diferenças assim como aproximam também distanciam, subjugam, servem como
elementos de discriminação preconceituosa. Daí a necessidade daquele entendimento da
cultura dentro dela mesmo como disse anteriormente. A cultura e sua dimensão
simbólica são geradas de acordo com as possibilidades e necessidades de cada grupo
social. Desse modo, as trocas simbólicas, por exemplo, de valores, costumes, tradições
são singulares a certos grupos sociais mesmo dentro de uma mesma sociedade. Não
podemos ser ingênuos e, por assim dizer, românticos em achar que a cultura enquanto
produção/criação/elaboração humana é consenso. Embora não façamos aqui uma
apreciação especifica sobre cultura popular, vale a penas referir um trecho de Canclini
(1983).

(....). O enfoque mais fecundo é aquele que entende a cultura como um instrumento
voltado para a compreensão, reprodução e transformação do sistema social, através do
qual é elaborada e construída a hegemonia de cada classe. De acordo com esta
perspectiva, trataremos de ver as culturas das classes populares como resultado de uma
apropriação desigual do capital cultural, a elaboração específica das suas condições de
vida e a interação conflituosa com os setores hegemônicos (p. 12-13).

Essa passagem é elucidativa não só para reafirmamos a idéia sobre a não


homogeneidade da cultura, como também de sua distribuição. Os símbolos ou signos
são oportunos nesse sentido. Há aspectos da cultura que são, diríamos consenso social.
Todos indistintamente aceitam embora em sua origem enquanto produção social não
tenha sido gerada por todos num sentido bastante democrático. É caso da bandeira de
um país. De modo geral seus idealizadores estão inseridos em grupos políticos bastante
restritos, no entanto acabamos por abraçá-la como símbolo maior da Pátria.
Provavelmente a modo mais democrático de expressar a cultura em termos de uma
simbologia seja por meio da comida. De modo geral aquelas que são típicas. Sua
apreciação atravessa segmentos sociais diferenciados ainda que sua composição
apresente variações de sabores.
Diante disso podemos pensar que há elementos da cultura que estão na base da
sociedade e por isso são de todos, digamos assim. De maneira geral os símbolos pátrios,
a arquitetura por meio de monumentos de praças públicas, edifícios escolares, maneiras
de uso do espaço público para lazer e para circulação, modos de vestir. Este aspecto está
intimamente vinculado à moda. Ela tornou-se até certo ponto universal com a
globalização. A qualidade do tecido pode variar em muito os estilos de vestir, por
exemplo, na contemporaneidade, mas este estilo atravessa diferentes classes sociais e
países. Trata-se de uma questão vinculada a um fenômeno universal de cultura. Aqui o
sentido democrático é ainda mais amplo. 2

Sobre a tradição cultural


De modo geral temos a idéia de que não vivemos imersos numa cultura e que ela

2 Raymond Williams em seu livro cultura, embora desde a perspectiva de um referencial bem diferente do aqui abordado sobre
cultura. A estuda desde uma abordagem bem ampla. Entende-a como sistema de significados de produção de vida global. Caminha
na lógica de entendimento da cultura como produção material humana. Vale a pena conferir.
se constitui apenas em questão de tradição e que tradição tem a ver exclusivamente com
o passado. Muitas vezes tendemos a desprezar as tradições, deixando de valorizá-las por
entendermos ou termos sido acostumados a vinculá-la a conservadorismo no sentido
pejorativo do termo quando usada na acepção de algo ultrapassado. Vamos falar disso
neste subitem por que estaremos mais adiante tratando de cultura e educação.
A tradição aqui entendida diz respeito ao que às práticas sociais que
permanecem. Geralmente são significativamente manifestadas por meio de rituais. O
ritual do casamento católico segue a tradição da noiva de vestida de branco. Neste
sentido ele é um retrato de um tipo de manifestação cultural religiosa da Igreja católica.
O quimono é uma veste que simboliza a tradição oriental japonesa. Ele é usado em
cerimônias, rituais, como o do chá, por exemplo.
De modo geral tendemos a relacionar tradição apenas ao folclore por meio de
danças típicas regionais ou de grupos étnicos específicos. As formaturas talvez
representem uma das tradições mais conservadas e praticadas em nossa cultura quando
do término de cursos de diferentes níveis. Embora tenha escrito sobre as tradições e sua
invenção desde uma perspectiva teórica diferente daquela que estamos usando neste
livro. Ousaremos, em sã consciência sobre o que estamos fazendo, dizer que Hobsbawn
(1984), escreveu uma das mais elucidativas páginas sobre o que denominou de Invenção
das Tradições. Para ele há tradições inventadas. Significa dizer que elas são criadas para
permanecerem no seio da cultura por muito tempo tal como foram criadas na sua
origem. Ele utiliza o termo “Tradição Inventada” em sentido amplo, para designar tanto
aquelas criadas e instituídas com o fito de permanecerem por muito tempo, quanto par
as que foram criadas e são difíceis de serem localizadas no tempo. Ele define tradição
inventada como:

Um conjunto de práticas normalmente reguladas por regras tácita ou abertamente


aceitas; tais práticas, de natureza ritual ou simbólica, visam inculcar certos valores e
normas de comportamento através da repetição, o que implica, automaticamente; uma
continuidade em relação ao passado. Aliás, sempre que possível, tenta-se estabelecer
continuidade com o passado histórico apropriado. Exemplo notável é escolha deliberada
de estilo gótico quando da reconstrução da sede do Parlamento Britânico no século XIX.
(...) (p. 10).

Um exemplo bem oportuno que ele dá é o do uso da toga pelos magistrados. Não
só os magistrados usam togas. Os advogados também fazem uso da toga quando se
apresentam em tribunais em defesa de um réu, em sessão pública. Além de simbolizar a
tradição do poder supremo da justiça, ela também traduz poder e saber que poucos na
sociedade possuem. Aqui a cultura enquanto produção humana tem o um de seus
diferenciais. Ela tem visibilidade aqui e ali e, ao mês o tempo está em toda parte de
algum modo como obra substancial da humanidade, com suas idas e vindas, sua
nuances, demarcando este ou aquele grupo social, suas práticas, enfim, suas realizações.
Nessa perspectiva vamos encontrar as becas de formaturas, especialmente nas
Universidades pelo mundo afora. O cerimonial pode variar. Dependendo do país ele é
ou menos descontraído. Mas o certo é que ela faz parte da tradição universitária desde a
criação das Universidades no período medieval.
A tradição do casamento católico nas culturas ocidentais. É uma tradição
inventada. Feita para ficar, permanecer. Há, sabemos toda uma simbologia em torno
dele. A noiva chama mais atenção com o seu tradicional vestido brando, simbolizando
pureza, embora este aspecto já não tão prevalente. No ritual do casamento a troca de
alianças além de simbolizar a união, confere o status de efetivamente comprometido ou
casado ao par que dele participa. A aliança é símbolo de impedimento de relação
amorosa, como também significa fronteira a ações que devem ou não ser praticadas por
quem a possui. De modo geral as mulheres tendem a ser as mais penalizadas e a
carregá-las por mais tempo.
A tradição também carrega sua força na oralidade por meio da linguagem
cotidiana que, para Hoggart (1973), não morreu completamente e permanece presente
entre nós, nos usos dos aforismos, dos mitos e das superstições. Para ele, estes
constituem uma espécie de consolação: depois da tempestade a bonança (p. 36). Vamos
nos deter nos mitos e nas superstições que acredito sejam os mais populares. Esse autor
considera que mitos e superstições operam em dois mundos. Os das coisas que dão sorte
e o das que dão azar. Entrar com pé direito em um ambiente onde se busca um emprego
dá sorte. Dá azar colocar a bolsa no chão. Dá azar também, passar por debaixo de uma
escada, quebrar espelho. Assim como a noiva não pode ver o noivo no dia do
casamento. Nem o noivo vê-la vestida de branco antes da cerimônia. No mundo das
superstições, comer manga e tomar leite pode matar e por ai afora.

Os ritos
Os ritos também são formas visíveis digamos assim, expressão de manifestação
cultura. Talvez seja por meio deles que a tradição mais revele. Os ritos podem ser
entendidos como espécies de lugares, com formas e modos específicos de
acontecimentos onde são desenvolvidas ações com valor, significado e por isso sentido.
Eles devem ser datados. Para Vilhena (2005),

o rito é entendido também como ação ordenada. Como toda ação está orientada para a
consecução de um objetivo, para uma finalidade, assim também nos ritos estão contidas
destinações que podem ser mais ou menos conscientes ou inconscientes, explícitas ou
implícitas (p. 21).

A cerimônia de colação de grau a que me referi anteriormente é uma tradição,


mas também é um ritual e dos mais majestosos. Ao mesmo tempo em que é um ritual de
conclusão e glorificação de uma etapa, simboliza ao mesmo tempo um instante de
pretensa passagem para vida profissional. Ele enseja emoções, tal como o casamento:

O rito age sobre os seres humanos por sua capacidade de emocionar; o rito coloca-se em
movimento, corpo e espírito, graças á coalizão de meios que provoca [....] Explora o
registro simbólico e o conhecimento reservado ou “profundo”[...] Conjuga linguagens: a
sua própria, mas também a música, a dança, o gesto (BALANDIER, 1997, Apud,
Vilhena, 2005, P. 21-22).

Os ritos simbolizam conquistas, realizações, nem sempre fáceis de serem


atingidas, daí provocarem emoções. Principalmente para populações de reduzido poder
aquisitivo. No mesmo patamar de importância estão os ritos de passagem. Eles
representam a possibilidade de concretização de algum sonho, tanto por parte das
pessoas que estão próximas, como do próprio indivíduo que está sendo iniciado.
Podemos considerar como rituais de iniciação festas de quinze anos, por meio do baile
de debutantes. Elas permanecem fazendo parte da tradição de inserção do jovem na vida
social, ainda que hoje a vida social de grande parte deles até essa idade já se tenha
iniciado prematuramente. O vestibular, assim como o exame da ordem dos advogados, o
batizado, em momentos distintos consubstancia-se em rituais que denotam a exigência
de preparação do sujeito para viver uma etapa posterior importante de sua vida.
Significa que tendo se submetido a eles e auferido sucesso, cumpridas, portanto suas
exigências o sujeito está apto para seguir em frente, fazendo parte dos comuns.
O cumprimento dos rituais está determinado social e hierarquicamente. Quem a
ele é submetido tem que submeter-se em igual proporção às funções e papeis daqueles
que os legitimam. As cerimônias de casamento são dirigidas por pastores ou sacerdotes
em cujo tempo de realização os nubentes são inseridos. Eles legitimam o ritual. Embora
longo, o trecho de Vilhena (2205), a seguir é bastante elucidativo:
Durante um ritual, é comum que nem todos os envolvidos desempenhem os mesmos
papéis e funções. Existem palavras que somente podem ser proferidas por algumas
pessoas e gestos que são realizados por determinados participantes e vetados a outros. O
mesmo se dá com utilização de determinados objetos que fazem parte dos rituais.
Algumas pessoas podem manuseá-los, outras são proibidas de tocá-los ou mesmo de vê-
los. Há aqueles que presidem os rituais e as que deles participam de maneira
subordinada. É o grupo que estabelece e dá conhecer essas regras, chamadas
prescrições, rubricas ou, conforme o caso, interdições. Dessas regras costuma fazer
parte a determinação prévia da seqüência de ações particulares que fazem parte do
ritual. Existe, assim, uma ordem de ações internas aos ritos (p. 23).

No caso de uma cerimônia de colação formatura/colação de grau e, em


conformidade com o nível de ensino, o diretor da escola ou reitor são os únicos que
podem conceder o grau aos formandos. O anel, um chapéu, um canudo são símbolos
que nas mãos dessas autoridades substanciam o ritual por serem o seu próprio conteúdo.
A participação nos rituais requer uma indumentária própria. E ela não pode ser qualquer
uma. Não pode ser a do dia a dia. Ela tem que ser diferente, por que guarda seu caráter
de solenidade e por que não dizer de austeridade. Há todo um ambiente externo que
precisa ser preparado para que o ritual faça sentido: flores, toalhas, cortinas, espaço,
tempo, ordem, linguagem, (linguagem discurso), comportamento, enfim uma gama de
requisitos para que o ritual seja considerado como tal.
Por fim feitas essas breves apreciações obre cultura e os diferentes modos por
meio dos quais ela se torna, digamos, concreta e adquire visibilidade expressando dessa
maneira formas de traduzir as realizações humanas na sociedade, entendo ter cumprido
os propósitos indicados para este capítulo.

A leitura da cultura em seu sentido genérico levando em conta um conceito chave


possibilita entendê-la com uma perspectiva que contribui para um interpreta-la sob uma
ótica orientadora de compreensão. Permite ver que existem diferentes acepções de
cultura, vinculada, por exemplo, a conhecimento, aquele sujeito é culto. Mais que neste
trabalho contribui para o entendimento posterior da cultura Brasileira, como um
amaranhado de significados e sentidos que se entrecruzam na sociedade brasileira por
meio de usos, de costumes, enfim de práticas múltiplas desenvolvidas pelo homem que
vive nessa sociedade. A cultura é uma perspectiva de análise importante para o
entendimento das práticas religiosas e da religiosidade em qualquer sociedade. As
modificações que o homem imprime na natureza levando em suas necessidades de
sobrevivência são produções culturais, bem como comportamentos, atitudes. Por isso a
cultura é reveladora de múltiplos sentidos e, por assim dizer de significados. Hoje esse
entendimento torna-se importante porque não dá para explicar as ações humanas
somente como decorrentes de motivações econômicas exclusivamnet. A produção
cultural humana se vincula também à sua necessidade de transcender, quer por meio das
artes, da música, da literatura, do artesanato, da necessidade de aproximação de uma
dimensão superior, da poesia, enfim das muitas obras que realiza, na tentativa de dar
conta da sua condição de ser inacabado

Referenciais:
BALANDIER, Georges. A Desordem: elogio e movimento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997.
BRANDÃO, Carlos Rodrigues. A Educação como Cultura. Campinas, SP: Mercado das Letras, 2002.
CANCLINI, Nestor Garcia. As culturas populares no capitalismo. São Paulo: Brasiliense, 1983.
GEERTZ, C. As interpretações das culturas. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1989.
HOGGART, Richard. As utilizações da Cultura. Lisboa: Editorial Presença, 1973.
LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.
SANTOS, Jorge Luis. O que é Cultura. São Paulo: Brasiliense, 1987.
VILHENA, Maria Ângela. Ritos: expressões e propriedades. São Paulo: Paulinas, 2005.
.

Atividades
Indicações culturais

arte música
arquitetura

ritos religião

símbolos
tradição
literatura

O termo cultura pela variedade conceitual que abraça pode ser descrita de modo visual
por meio de imagens. A primeira delas é a que embasa este trabalho, qual seja teia de
significados tecida pelo homem. Essa teia é feita de materialidades e não materialidade.
Nesta dimensão estão os sentidos e os significados, os valores. Na oura aquilo que é
vivo palpável. Que pode ser observado, mas também apropriado quer pela
intelectualidade (a mensagem contida em um livro, quer pelo organismo por meio de
uma iguaria culinária). São modos embora diferentes, de objetivação da cultura no
processo de imersão que nos encontramos em relação a ela. Por isso a imagem acima
me pareceu a mais oportuna para essa objetivação. Ela é uma tentativa de aproximação
de um amaranhado de sentidos e significados traduzidos por uma infinidade de obras
humanas no amplo sentido do termo.

Atividade de auto-avaliação
Nas questões de 1 a 4 marque as sentenças com verdadeiro (V) ou falso (F).
1) Em relação à cultura
( V ) Faz parte da cultura universitária o uso de becas de formaturas, especialmente nas
Universidades pelo mundo afora. O cerimonial pode variar. Dependendo do país ele é
ou menos descontraído. Mas o certo é que ela faz parte da tradição universitária desde a
criação das Universidades no período medieval.
( V ) “Tal como a natureza onde vivemos e de quem somos parte, também a cultura não
é exterior a nós. A diferença está em que o “mundo da natureza” nos antecede, enquanto
o “mundo da cultura” necessita de nós para ser criado, para que ele, agindo como um
criador sobre os seus criadores, nos recrie a cada instante como seres humanos. (...)”.
( F ) Podemos dizer que a cultura não tem poder de conter, simbolizar e traduzir formas
de viver socialmente construídas e valorizadas.
É correta a alternativa
a. FVF
b. VFV
c. VVF

2) Cultura e ritos
( V ) Os ritos podem ser entendidos como espécies de lugares, com formas e modos
específicos de acontecimentos onde são desenvolvidas ações com valor, significado e
por isso sentido.
( V ) O rito é entendido também como ação ordenada. Como toda ação que está
orientada para a consecução de um objetivo, para uma finalidade.
( F ) Os ritos do casamento, do batismo e da comunhão são formas de aproximação de
todas as pessoas indistintamente da divindade maior que é Deus.

É correta a alternativa:
a. VFV
b. VVF
c. VFV

3) Os princípios que norteiam a cultura podem assim ser resumidos:


( V ) Significado, sentido, dimensão simbólica, interpenetração de elementos.
( F ) Homogeneidade, classe social, sentido.
( F ) Interesses comuns, praticas, significado.
É correta a alternativa:
a. VFF
b. FFV
c. FFV

4. Em relação a cultura brasileira é correto afirmar:


( F ). É marcada pela não religiosidade
( F ) Homogeneidade, significado, classe social.
( V ) As crendices fazem parte de sua composição

A seqüência correta de respostas é:


a. VFV
b.FFV
c. FVF

5. Os símbolos culturais
( V) A cultura e sua dimensão simbólica são geradas de acordo com as possibilidades e
necessidades de cada grupo social.
( F ) Se o símbolo não é a representação de algo por meio de um objeto, então ele pode
ser considerado como uma das expressões mais acabadas da cultura. Um iglu por seu
estilo arquitetônico nos remete a cultura dos esquimós
( V ) Os símbolos que mais expressam as particularidades e diferenças existentes em
nosso planeta em todos os sentidos, desde a língua com sua simbologia mais marcante
por meio de como ela é grafada.

A seqüência correta de respostas é:


a. VFF
b. FVV
c. VFV

Questão para Reflexão


Após a leitura do capítulo sobre cultura retire cinco palavras que considera
relevante para entender esse termo. Feito isso, elabore seu próprio conceito de cultura e
problematize, levante indagações sobre o seu significado na relação de transformação
racional entre homem e natureza.

Atividade de aplicação
No livro da Laraia sobre cultura encontramos várias idéias que nos fazem
entender cultura e suas diferenciações no mundo. Procure encontrá-las e vinculá-las às
experiências que possui e foram adquiridas no seu cotidiano. Do texto de Geertz
podemos, ainda no mesmo entendimento anterior, retirar um trecho que exemplifica
bem as particularidades da cultura. Ele diz que uma pisadela de olho entre duas pessoas
tem um sentido para elas dentro de uma situação, significando um tipo de comunicação
especial que traduz certa cumplicidade entre ambas. Entretanto ela pode não ter o
mesmo sentido e não possuir importância entre pessoas que não partilhem uma
convivência que permita a elas realizarem trocas simbólicas como essa. O exercício de
práticas culturais também aproxima as pessoas, as identifica com esta ou aquela
sociedade, com este ou aquele grupo. Procure das exemplos nesse sentido levando em
conta as experiências que você possui.
Capítulo 02
Cultura brasileira

Neste capítulo o propósito se situa dentro daquilo dentro do que o próprio título do
capítulo indica. Aborda a cultura brasileira estabelecendo sua relação com o entendimento de
cultura contido no capítulo anterior, portanto em articulação com a perspectiva semiótica de
Geertz de signos com diferentes significados simbolizados genericamente falando por meio da
idéia de teia de múltiplos sentidos.
Falar sobre cultura brasileira não se constitui tarefa fácil, assim como conceituá-la.
Assim à primeira vista me parece oportuno esclarecer que usarei o termo cultura no singular
para me referir á cultura brasileira ainda que ela seja composta de uma magnífica multiplicidade
de realizações da gente brasileira, ou seja, dos sujeitos viventes no Brasil quer pelo fato de aqui
terem nascidos, quer por terem adotado esse país como uma terra para viver. Não o termo povo
brasieliro, como cunhou Ribeiro (....), porque já indicamos no primeiro capítulo que cultura
comporta sentidos e significados diferentes para cada grupo ou segmento de classe social. Há
diferenciações culturais quer de produção, quer de apropriação e uso.
Assim é na perspectiva de teia de significados usada por Geertz e explicitada no
capítulo anterior que estarei me reportando a cultura brasileira. Nessa compreensão, portanto, o
olhar semiótico permite entendê-la sob diferentes matizes, representados por símbolos, enfim,
signos sob os quais se manifesta em nosso meio social.
Multicultura é palavra que entendo ser a mais apropriada quando se deseja abordar
cultura brasileira. Ela indica para uma composição de uma infinidade de culturas que se
interpenetram. Interpenetrar exclui a idéia de sobreposição e chama de entrelaçamento na
compreensão de teia, de emaranhados, de cruzamentos. Estes, digamos aspectos, traduzidos por
estas palavras e que podem nos dar a dimensão do que seja multicultura, são podem
exclusivamente ser interpretados como entrelaçamentos que existem, pelo fato de terem sido
criados na sociedade. Esta é uma questão verdadeira. Mas também e principalmente ela é
caracterizada pela pelas formas e modos de apreensão que os sujeitos sociais vão fazendo no
uso da produção/criação cultural existente na sociedade. Por exemplo; quando a macarronada
como parte da culinária italiana é inserida na culinária nordestina ou nortista, ao ser introduzida
nesses universos passa a fazer parte destes e, na medida em que ela é freqüentemente saboreada,
passa a integrar as iguarias culinárias existentes nessas regiões como resultante de um processo
de assimilação e, por assim dizer, de apropriação. Um exemplo típico nessa alinha de raciocínio
e a pizza. Prato da culinária tipicamente italiana como a macarronada, certamente ela é uma das
iguarias que mais têm tem sofrido adaptações desde que os imigrantes italianos para cá as
trouxeram. Um exemplo bastante peculiar vem no Pará/Belém com a criação da Pizza com
recheio de jambú3, camarão e mussarela. Aqui temos tanto a composição italiana com o queijo
e a massa quanto a regional com ocamarão e o jambú. Desse modo, poderemos dizer então que
existem significados e sentidos que se entrecruzam tanto na composição objetiva do prato,
quanto do que dessa comida se pode usufruir quando ela for degustada (sabores, odores, a
própria estética). A essa prática podemos denominar de processo de interculturalidade. O que há
de comum é uma matriz que une diferentes grupos sociais, cujos costumes são diferentes, mas
que agregaram algo que passa a fazer sentido para um grupo na medida em que introduz

3 Planta comestível da Amazônia considerada afrodisíaca que na tradição local compõe um prato típico regional: o pato no tucupi.
elementos seus.
Mas passemos a pensar sobre alguns aspectos que consideramos centrais e que por isso
são fundamentais na definição, caracterização e compreensão de uma cultura e da cultura
brasileira.

Língua e linguagem
A língua é, sem dúvida, a matriz de qualquer cultura. Ela traduz seu significado
pelo fato de traduzir a obra humana em sentido bem amplo. Ela é talvez o referencial
mais forte da identidade de uma pessoa, pois a vincula e um país no sentido de
pertencimento e de possibilidades de tradução de coisas que lhe fazem sentido e que
para ele, por conseguinte têm significado. Ela nos permite falar um pouco de identidade
cultural, questão ainda bem problematizada no campo das Ciências Sociais como nos
indica Cuche (1999). E é neste autor que vou buscar uma contribuição para pensarmos
sobre a relação língua e identidade cultural. No sentido de aproximarmos esta daquela.
Para ele

a questão da identidade cultural remete, em um primeiro momento, à quista mais


abrangente da identidade social, da qual é um dos componentes. Para psicologia social,
a identidade é um isntrumento que permite pensar a articulação do psicológico e do
social em um indivíduo. Ela exprime a resultante das diversas interações entre o
indivíduo e seu ambiente social, próximo ou distante. A identidade social de um
indivíduo se caracteriza pelo conjunto de suas vinculações em um sistema social:
vinculação a uma classe sexual; a uma classe de idade, a uma classe social, a uma
nação, etc. A identidade permite que o indivíduo se localize em um sistema social e seja
localizado socialmente (Cuche, 1999, p. 177).

A língua se vincula a identidade cultural pelo sentimento de pertencimento a


uma cultura, neste caso a cultura brasileira, cultura esta onde se fala a língua
portuguesa. Ainda que essa língua seja igualmente falada em outros países, como
Portugal, Moçambique, Angola, o sentido de seu uso no Brasil tem suas
particularidades. Elas vão desde a pronúncia ao uso de termos que são particularmente
nossos. Assim, a identidade cultural não está sendo entendida como uma questão que
diga respeito a penas o indivíduo. Nesta abordagem ela se refere a grupos sociais. Ainda
com esse autor temos:

(....) Todo grupo é dotado de uma identidade que corresponde à sua definição social,
definição que permite situá-lo no conjunto social. A identidade social é ao mesmo
tempo inclusão e exclusão: ela identifica o grupo (são membros do grupo os que são
idênticos sob um certo ponto de vista). Nessa perspectiva, a identidade cultural aparece
como uma modalidade de categorização da distinção nós/eles, baseada na diferença
cultural (Cuche, 1999, p. 177).
Com efeito, a língua não é uma questão exclusivamente individual, mas
fundamentalmente grupal por que é social. Neste caso ela inclui aqueles que falam a
língua portuguesa num país chamado Brasil. Mais do que isso: um país dividido
geograficamente em cinco regiões, cada uma delas com suas idiossincrasias
caracterizadas também pelo uso da língua portuguesa. Quando falo de uso estou me
referindo à linguagem e, nestes termos às variações lingüísticas. É comum no universo
da língua portuguesa como certamente de outras línguas, o uso de termos diferentes para
definir um mesmo objeto. Por exemplo, na região norte denomina-se fio para o barbante
no sul e sudeste do país. Outro exemplo nesse sentido pode ser dado com Laraia (2007,
p. 16): o ato de parir é denominado “descansar”. Esta mesma palavra é utilizada no
sul do país, para se referir à morte (fulano descansou, isto é, morreu).
A língua é o elemento mor da cultura de qualquer povo. As pessoas que vivem
experiências imigratórias sentem bem isso na pele. Muitas delas levam muitos anos para
aprender falar regularmente outra língua. Muitas nem conseguem. Este é na maioria das
vezes um fenômeno inconsciente. Até porque o a idéia de pertencimento a certa cultura
não é fácil de ser construído. Pode levar décadas. Geertz nos fala que por mais que
aprendamos a falar a língua, tenhamos algumas informações sobre a cultura, não
pertencemos a ela. Trata-se de uma situação que eu chamaria de exigência de imersão.
De estar profundamente enraizado em certo espaço e tempo e saber e compreender o
que é próprio deles. Bourdieu (1983) chamou isso de habitus para definir a incorporação
pelas pessoas de elementos da cultura e que as caracteriza como sendo este ou aquele
indivíduo. Como

o produto do trabalho de inculcação e de apropriação necessário que esses produtos da


história coletiva, que são as estruturas objetivas (por exemplo da língua, da economia,
etc. ), consigam reproduzir-se sob a forma de disposições duráveis, em todos os
organismos (que podemos, se quisermos, chamar de indivíduos) duravelmente
submetidos aos mesmos condicionamentos, colocados, portanto, nas mesmas condições,
portanto, nas mesmas condições materiais de existência (Bourdieu, 1983, p. 78-9).

Este ou aquele por sua vez resulta das possibilidades que a este são propiciadas
de inserção cultural, mediadas pelas condições objetivas e por alguns traços de
personalidade que permitem aos sujeitos avançar em diferentes direções na criação tanto
de oportunidades culturais (universo da produção) quanto da apropriação. Neste aspecto
também podemos falar de enriquecimento cultural dentro das muitas acepções nas quais
se insere o termo cultura.
Ainda que nós brasileiros desde o nosso processo colonizador tenhamos nos
desenvolvido nas bases da língua portuguesa que não é efetivamente nossa língua
nativa, pois a nossa é o tupi guarani, mas ela é a matriz de todos os nossos referenciais,
de toda nossa produção social. Fomos nela colonizados e foi nela que aprendemos a nos
identificar como brasileiros. A propósito quando nos referimos a enriquecimento
cultural.

O enriquecimento cultural pode ocorrer através do conhecimento de grandes obras


literárias, que enriquecem a língua, o que se fala e o que se escreve. Tal leitura pode
propiciar uma viagem a outras terras, outros continentes sem sair do lugar, contatando-
se com outras culturas, outros modos de vida que também podem influenciar motivar e
transformar quem lê. Ir a um concerto de Beethoven pode ser uma experiência cultural
relevante para aquele que tem a condição de assistir (MESADRI, 2008, p. 88).

A linguagem que acompanha o uso da língua possui suas múltiplas


manifestações. As diferentes linguagens também se manifestam por meio dos símbolos.
Os símbolos pátrios, a moda, a culinária, a religião, a música. Ela contém também um
poder que é simbólico.

O poder simbólico como poder de constituir o dado pela enunciação, de fazer ver e crer,
de confirmar ou de transformar a visão do mundo e, deste modo a acção sobre o mundo,
portanto o mundo; poder quase mágico que permite obter o equivalente daquilo que é
obtido pela força (física ou econômica), graças ao efeito específico de mobilização, só
se exerce se for reconhecido, quer dizer, ignorado como arbitrário. (...). (BOURDIEU,
1989, p. 14)

Língua e linguagem como parte da cultura, têm seus aspectos dominantes, por
meio da prevalência quer de uso, por exemplo, da língua quanto da linguagem culta,
consideradas rebuscadas. Elas, no processo histórico estão vinculadas à condição de
classe social em sociedades desiguais como o Brasil. Seus usos se vinculam a espaços,
lugares específicos. A escola é um deles, o campo da produção levando em conta a
hierarquia nele existente também. Elas estabelecem diferenciações se não
exclusivamente do ponto vista econômico. Mas de escolarização. Deste modo, a escola
é um dos lugares, senão o lugar supremo, como verei adiante, de promoção não só de
linguagens específicas por meio dos conhecimentos nela veiculados, como da tentativa
cada vez mais ferrenha do uso correto da língua padrão. Os tempos pós-modernos que o
digam. Os processos de comunicação por meio de uso de e-mails, tem posto
sobremaneira em cheque o uso correto da língua assim como tem promovido a criação
de novas linguagens. A linguagem virtual por meio dos blogs também é um produto
bem interessante de comunicação na cultura virtualizada. Neste sentimos podemos dizer
que temos novos elementos compondo o sistema simbólico da comunicação.
A introdução de novos elementos no sistema simbólico de comunicação por
meio da internet traz também novas possibilidades não só de acesso e por isso de
participação de um número maior de pessoas de diferentes classes sociais no sistema de
comunicação, como por essa razão, torna-o mais democrático.
A riqueza da língua portuguesa como componente central dessa cultura como da
cultura de modo geral se é um fator de unificação da cultura é também por outro lado,
de diferenciação social como já disse anteriormente.

Música, culinária, moda, artefatos e arquitetura


As diferenças culturais no Brasil, por seu turno são marcantes. Não só no uso da
língua em cada região e nos seus lugares mais longínquos, mas por meio da religião e de
suas diferentes manifestações como teremos oportunidade de ver mais adiante. Na
música a expressão de diferenciação cultural também se faz presente de uma maneira
muito rica e profícua. Hoje é mais visível, digamos assim, constatar esse aspecto. A
música sertaneja, que pode ser comum aos Estados de São Paulo e Goiás, por exemplo,
não é para os do norte e nordeste do Brasil. No nordeste o frevo e o forró são ritmos que
marcam sobremaneira essa região. No norte mais recentemente temos a introdução do
ritmo chamado brega. Ele advém como o forró e o frevo, por exemplo, das camadas
populares. E que são desfrutados enquanto elementos da cultura de maneira comum
pelos diferentes extratos sociais. É o caso de frevo por ocasião do carnaval, bem como a
lambada, quando em tempos recentes tornou-se moda, invadindo os salões das elites.
A culinária é reveladora de uma das múltiplas faces da cultura brasileira. Ela ao
mesmo tempo em que é regional é também nacional. A macarronada, iguaria típica da
culinária italiana é saboreada em todas as regiões. A feijoada, mistura de feijão com
carne-seca, carnes de porco salgadas, lingüiça, etc., já nem sabemos de que região
específica provém. Tem origem nos tempos da escravidão com o aproveitamento pelos
escravos de sobras de comidas das mesas dos senhores. A maniçoba, o pato no tucupi, o
tacacá, expressam sabores típicos da região norte do Brasil. O pato no tucupi tem sua
estreita relação com o Círio de Nazaré, dando substancia alimentar ao lado profano
dessa festa religiosa, todos os anos celebrada na capital paraense no mês de outubro. Ele
não pode faltar à mesa. A maniçoba, o tacacá e o tucupi têm uma composição em
comum: ingredientes retirados da macaxeira. 4No Rio de Janeiro recebe o nome de
aipim e em outras regiões de mandioca. Aqui esse aspecto da cultura brasileira, em
especial da cultura do povo nortista brasileiro, está assentado na tradição da cultura
indígena. Neste sentido, o peso da imposição cultural trazida pelo colonizador português
não foi capaz de dizimar semelhante manifestação. É um aspecto da cultura que
permanece atravessando sucessivas gerações.
O buriti fortemente usado na região nordeste, em especial do estado do
maranhão, se constitui numa marca daquela região. Nesta perspectiva está o pequi.
Iguaria nativa da região do cerrado é um fruto com o qual são preparados saborosos
pratos. Do mesmo modo, está o açaí que do Pará ganha o mundo com recentes
descobertas da ciência sobre o seu potencial no combate aos radicais livres. Neste
sentido, é possível falar sobre um caráter internacional de um aspecto da cultura
nacional, como tantos no mundo globalizado.
O mundo globalizado traz á tona o imperativo sobre a necessidade de falarmos
sobre a idéia de uma cultura exclusiva do ponto de vista tanto de sua produção quanto
de seu uso. É provocativo, por outro lado, em termos de indagarmos sobre a foto da real
existência de uma cultura brasileira em tempos de globalização. Ortiz (1996) refere que
os homens de negócio costumam dizer que “o mundo está vez mais idêntico”(p. 169).
Para eles

as necessidades e desejos humanos estariam irremediavelmente homogeneizados (....).


Automóveis, cimento, seguros de vida, produtos farmacêuticos, semicondutores,
bebidas e cigarros seriam a expressão monolítica desse processo avassalador (....) (p.
169).

Diríamos que não. Nessa mesma direção esse autor afirma que embora os
homens de negócios tenham assim pensado em princípio, logo tiveram que rever suas
posições em decorrência de exigências culturais ás quais foram obrigados a adequar

4 Tubérculo produzido na raiz do arbusto chamado maniva de onde é extraído o tucupi e o amido. Da massa de aipim ou mandioca
é fabricada a farinha.
seus produtos. Fala sobre o caso da adequação pela Coca-cola que teve de reduzir o
tamanho da garrafa em atenção às exigências das geladeiras dos espanhóis. Há por
assim dizer necessidades particulares da cultura que não podem no processo global ser
homogeneizadas. Nesta perspectiva entra em jogo a questão do significado do que cada
produção cultural representa para cada sociedade em particular em termos de criação. A
cultura por não ser reduzir apenas ao pertencimento.
Penso que a homogeneização pode ser visível em tempos de globalização por
meio da moda. Embora ela tenha aspectos particulares, como os relacionados a
adaptação da costura às características físicas das mulheres nos diferentes países há um
padrão que tem sido comum em termos de tecidos e também de estilo, com destaque
para a prevalência de um padrão jovem de moda. Este talvez tenha sido um dos aspectos
da cultura mais abalados em escala mundial em termos de interferir nos costumes da
vida local.
Não especificamente a moda, mas no âmbito da vestimenta, da indumentária
própria de uma cultura, aquela que resiste a tradição, como por exemplo, o quimono
japonês. No Brasil temos particularidades tais como, a bombástica gaúcha, tipa
indumentária tradicional dos homens do sul, resiste ao tempo. A vestimenta caipira
ainda localizada nas festas juninas pelo Brasil afora indica ser uma tentativa de
manutenção cultural que se mantém vinculada ao folclore, à tradição do matuto.
Os artefatos, neste caso expresso pelo artesanato, provavelmente são os que mais
visibilidade dão á cultura nacional e local. No Brasil as variações dentro cada região são
grandes e a circulação dos mesmos já não se restringe aos seus locais de produção. As
possibilidades de mobilidade por meio de diferentes vias de transporte facilitam a
aquisição pelos diferentes segmentos sociais. O artesanato nordestino é rico em
expressões que vão desde as rendas cearenses e pernambucanas à manutenção do
artesanato de mestre Vitalino. O retirante tornou-se marca do homem nordestino e, por
assim dizer dessa cultura e da cultura brasileira, que abandona sua terra ante o
sofrimento causado pela seca em busca de dias melhores. Neste caso trata-se
fundamentalmente do abandono da cultura local e de seus significados para o retirante.
Na mesma perspectiva está à rede como simbologia da cultura indígena que
integra os costumes de diferentes grupos sociais desta feita não mais exclusivamente nas
regiões norte e nordeste, mas nas demais quando incorporada às praticas de veraneio
nos centros de lazer destinados para esse fim. A posse do artefato pelos diferentes
grupos sociais e talvez muito mais para os grupos que detém médio e maior poder
aquisitivo guardam, além de um significado histórico, também educacional. A tradição
aqui tem alguns valores importantes.

Tradição e artes surgem, assim, como esferas específicas da cultura, congregando um


conjunto de valores que orientam a conduta, canalizando as aspirações, o pensamento e
vontade dos homens. A tradição procura paralisar a história, invocando a memória
coletiva, como instituição privilegiada de autoridade – “os costumes existem desde
sempre”. As artes contemplam a sociedade de uma outra maneira. Elas sublinham a
existência de um universo culto, “superior”, habitado pela educação, sentimento e
fruição artística (...). (ORTIZ, 1996, p. 183).

Nesse sentido podemos sem sombra de dúvida também falar de artesanato


popular no caso da rede que tem suas raízes indígenas, em igual sentido da arte
marajoara em barro imitando igaçabas/urnas indígenas, da cuia como recipiente para
tomar o tacacá, da cuia feita para tomar o chimarrão. Do tambor ao mesmo tempo como
artefato e instrumento intimamente vinculado á cultura africana e sobre a qual
discorrerei adiante, ele integra a música sob diferentes aspectos.
A arquitetura é um componente importante da cultura brasileira que nacional
quer local. Penso que um de seus indicadores mais interessantes são aqueles traços
marcantes vinculados á tradição colonizadora presentes em numerosos templos da Igreja
católica desde o período colonial. Neste sentido temos desde as capelas jesuítas
edificadas ás margens de rios pelo Brasil afora, até os majestosos templos edificados,
por exemplo, nas cidades históricas mineiras a aqueles existentes nas capitais, como Rio
de Janeiro, Recife, Belém, São Luis, entre outras. Há também as fortificações que
caracterizam a arquitetura de segurança e por isso de defesa do território localizada em
pontos estratégicos do Brasil. Essa arquitetura nos remete a um período histórico
peculiar da cultura brasileira que permanece entre nós como patrimônio.
Presentes na cultura moderna arquitetônica brasileira estão as obras de Oscar
Niemeyer, em Brasília sobremaneira, Rio de Janeiro, Curitiba, São Paulo, Belo
Horizonte. Vale dizer que embora existam obras desse arquiteto em outros países ele é o
artífice dessa expressão cultural brasileira pelo estilo que criou aqui e que o tornou
reconhecido mundialmente.
As palafitas amazonidas são características de uma cultura regional local
indicadora de moradias de segmentos sociais menos favorecidos economicamente e que
podem ser encontradas tanto nas periferias de grandes centros urbanos como Manaus e
Belém, por exemplo, como em terras ocupadas pelos chamados povos da floresta.
A arquitetura de barro ou pau a pique é ainda largamente utilizada por
populações residentes às margens das rodovias, nas regiões norte e nordeste
principalmente, ou por grupos de pequenos agricultores que, nessas regiões não
possuem condições de construir edificações com materiais melhores do que aqueles.
Por fim e, além disso, a arquitetura tem suas simbologias importantes, quais
sejam: os prédios dos três poderes em Brasília, bem como catedral. Eles não são
exclusivamente representantes de um estilo arquitetônico moderno. São
concomitantemente representações de estado e de poder, tanto eclesial, no caso a
catedral, como de símbolo de poder político, em se tratando dos três poderes.

Neste capítulo tratei da cultura brasileira. Ela foi definida sob as bases do entendimento de
Geertz, como teia de significados, numa abordagem semiótica. Neste sentido cabe falar de sua
manifestação simbólica. Ela é caracteristicamente marcada pelo caráter multi e intercultural. A
língua é entendida como sua dimensão fundamental, a língua portuguesa que juntamente com a
linguagem promove diferenciações culturais no interior da grande cultura. Além disso,
contempla outros aspectos da manifestação cultural brasileira, na tentativa de construir modos
objetivos de explicitá-la, tais como: a música, a dança, a culinária, artefatos e arquitetura. Na
Constituição Brasileira de 1988, na Seção II, Art. 215, cultura é destacada em uma acepção bem
mais restrita em relação a vimos até aqui. Este, no entanto não deixa de ser um entendimento. o
Etaso no fundo está preocupado assegurar que os cidadãos possam se manifestar livremente
numa sociedade de direitos. Por isso assegura naquele artigo: “O Estado garantirá o pleno
exercício dos direitos culturais e acesso às fontes de cultura nacional, e apoiará e incentivará a
valorização e a difusão das manifestações culturais.” Mesmo sendo nesse entendimento o que
está subjacente é o elemento de realização humano social, particularmente vinculado à
sociedade brasileira.

Referências:
BOUDIERU. Pierre. Sociologia. São Paulo: Ática, 1983.
CUCHE, Denys. A noção de cultura nas ciências Sociais. Bauru: EDUSC, 1999.
GEERTZ, C. As interpretações das culturas. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1989.
LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar, 2007.

MESADRI, Fernando E. Políticas Educacionais: a trajetória de estudantes para o


acesso à educação superior. Dissertação de Mestrado; Programa de Mestrado em
Educação, Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Mimeog, 2008.

ORTIZ, Renato. Mundialização e cultura. São Paulo, Brasiliense, 1996.

Atividades
Indicações culturais
Aquarela do Brasil
Gravação: João Gilberto
Composição: Ary Barroso
Consultar no site: http://letras.terra.com.br/joao-gilberto/100377/

Sinópse
Em “A Aquarela do Brasil” Ari Barroso retratou o Brasil dos anos de 1930. Exalta o
que nele era então marcante e deveria ser valorizado. Clama de certo modo, segundo as
aspirações de intelectuais da época pela valorização do que è nosso, das nossas coisas.
Do nosso povo, da alegria, da musicam, das contribuições do negro à nossa cultura.
Chama atenção para a mistura religiosa entre, outros. Assim, procure nessa canção
outros elementos que possam ser somados a esses, levando em conta a atualidade
diversa da cultura brasileira. Feito isso estabeleça conexão com a idéia

Atividade de auto-avaliação

Nas questões de 1 a 4 marque as sentenças com verdadeiro (V) ou falso (F).


1. A cultura brasileira
( F ) A cultura braseira de origem africana desde a colonização é complexa pela
extensão territorial do Brasil e pelos costumes que manifesta.
( V ) As palafitas amazonidas são características de uma cultura regional local
indicadora de moradias de segmentos sociais menos favorecidos economicamente e que
podem ser encontradas tanto nas periferias de grandes centros urbanos como Manaus e
Belém, por exemplo, como em terras ocupadas pelos chamados povos da floresta.
( V ) O artesanato nordestino é rico em expressões que vão desde as rendas cearenses e
pernambucanas à manutenção do artesanato de mestre Vitalino. O retirante tornou-se
marca do homem nordestino e, por assim dizer dessa cultura e da cultura brasileira, que
abandona sua terra ante o sofrimento causado pela seca em busca de dias melhores de
vida.
Está a alternativa:
a. VFV
b. VVF
c. FVV

2. A cultura brasileira pode ser relacionada a uma teia de significados por que:
( V ) Pelo fato de ser múltipla e conter uma multiplicidade de outros elementos que a
tornam ainda mais particulares em se tratando da cultura de cada uma das regiões do
Brasil em Particular. Cada composição cultural tem sentidos diferenciados para as suas
comunidades.
( F ) Por ser diversa em etnias variadas que têm interesses específicos e que fragmentam
em demasiado essa cultura contribuindo em longo prazo para que ela se torne
excessivamente pulverizada.
( V ) Significados e sentidos explicitam o modo de ser de cada cultura. São ao mesmo
tempo particulares e coletivos, regionais e nacionais, podendo ser exemplificados por
meio de festas religiosas, costumes, culinárias entre outras expressões.
Levando-se em conta a seqüência de respostas a correta é:
a. FFV
b. VFV
c. FFV
3. São princípios que norteiam uma leitura cultural do Brasil:
( F ) Multiplicidade, diversidade, homogeneização e pluralidade.
( F ) Pluralidade, singularidade, diferenciação, homogeneização.
( V ) Multiplicidade, diversidade, singularidade e variação.

Levando-se em conta a seqüência de respostas a correta é:


a. FFV
b. VFV
c. FFV

4). Sobre o caráter simbólico da cultura brasileira


( V ) A rede é um símbolo da cultura indígena que integra os costumes de diferentes
grupos sociais mais exclusivamente das regiões norte e nordeste, mas nas demais
quando incorporada às praticas de veraneio nos centros de lazer destinados para esse
fim.
( F ) A riqueza da língua portuguesa como componente central d a nossa cultura como
da cultura não é um de unificação da cultura, levando-se em conta a diferenciação social
no seu uso.
( F ) A cultura brasileira é bem diversa. Essa diversidade encontra sentido também por
meio da língua portuguesa e, principalmente da linguagem que são modos de
manifestação homogênea do povo brasileiro.
.
Levando-se em conta a seqüência de respostas a correta é:
a. FVF
b. VFV
c. VFF

5. Assinale as alternativas corretas em relação a cultura brasileira


( F ) Há a predominância das culturas indígenas e negra no norte e nordeste do Brasil.
( F ) Pluralidade, multiplicidade, variação e homogeneidade.
( V ) Vários são os simbolismos da cultura brasileira devido a multiplicidade de
elementos existentes em sua composição
Levando-se em conta a seqüência de respostas a correta é:
a. FVF
b. VFV
c. FFV

Questão para Reflexão


Após a leitura do capítulo sobre cultura brasileira retire cinco palavras que
considera relevante para entender esse termo. Feito isso, elabore seu próprio conceito de
cultura brasileira e o problematize levando em conta a origem escravocrata de nossa
sociedade.

Atividade de aplicação
A cultura brasileira possui muitos matizes que a tornam rica de possibilidades de
estudo, mas ao mesmo tempo difícil de ser apreendida numa possibilidade de síntese.
Por isso, de posse daquele conceito de cultura brasileira elaborado por você crie um
painel fotográfico onde suas idéias podem ser traduzidas e divulgadas.
Capítulo 03
Etnias e cultura no Brasil

A sociedade brasileira é marcada sobremaneira por sua múltipla cultura. Isso faz dela
não só um lugar onde se manifestam variedades de expressões culturais, como também um
cenário de possibilidades de realizações de trocas infindas. É nesta linha de raciocino que
procurei explorar a relação entre etnias e cultura no Brasil. As etnias no Brasil devem ser
abordadas de um lado, como decorrentes do processo de colonização na relação índios os
portugueses e, mais tarde a partir da entrada de outros grupos como os africanos, os alemães, os
italianos, os japoneses e os árabes. Destes serão abordados neste capítulo, os índios, os negros,
os italianos e os japoneses. Justifica-se pela prevalência de contribuições à nossa cultura, bem
como pelos limites deste texto. Os chineses, os espanhóis também estão presentes em nossa
sociedade e por assim dizer em nossa cultura, mas não de um ponto de vista expressivo como os
grupos acima indicados, por isso eles e outros que tenham ficado fora desta apreciação não estão
sendo objeto de atenção neste trabalho.

Índios e portugueses no processo colonizador um pouco de história e o que restou


Mas aquele cenário tem sua origem com o descobrimento do Brasil por Portugal.
Ele trouxe não só a imposição de outra cultura sobre a existente, no caso a indígena,
como a prevalência de outra, a colonizadora. A cultura indígena, portanto nossa cultura
nativa representada pela língua Tupi Guarani, foi imperiosamente afetada pela
descoberta do Brasil pelos Portugueses em 1500. Considerada manifestação de
selvageria por parte do descobridor, a cultura imposta pela educação jesuíta tem a
finalidade de tirá-los da condição de bestialidade que o tornaria avessos aos
ensinamentos divinos (DAHER, 20001, p. 44).
Os trechos a seguir nos dão alguma idéia sobre o que compunha a cultura
indígena em sua maioria suprimida no processo de colonização portuguesa.

Contai-me o mal de hum destes [índios] e ho mal de um philosopho romano. Hum


destes, muito bestial, sua bem-aventurança he matare ter nomes, e este hé sua gloria por
que mais fazem. Ha lei natural nam a guardão porque se comem; sam muito luxuriosos,
muito mentirosos, nenhum cousa aborresem por má, e nehuma louva(m) or boa; tem
credito em seus feiticeiros [...]. (Apud DAHER, 2001, p. 50)5

5 Manoel da Nóbrega, Diálogo sobre a conversão do gentio in Serafim Leite. Cartas dos primeiros
O trecho acima é elucidativo quanto a aspectos da cultura indígena. A
antropofagia, as guerras entre tribos, o estado de vida natural, a mercê do tempo e do
cotidiano. A religiosidade. Além disso, em contraposição a estes dados da cultura o
trecho traz a critica contundente à tradição do gentio. Eram maus costumes que
precisavam ser desfeitos pela educação jesuíta. Esta foi feita de modo louvável desde a
infância e por meio da língua tupi. Como matriz da cultura os jesuítas bem se
apropriaram dela para incutir seus propósitos religiosos nos índios do Brasil.

Primeiramente o gentio se deve sujeitar e fazê-lo viver como criaturas racionais,


fazendo-lhe guardar a lei natural [....]
A lei, que lhes hão-de dar, é defender-lhes comer carne humana e guerrear sem licença
do governador; fazer-lhes ter uma só mulher, vestirem-se pois têm muito algodão, ao
menos depois de cristão, tirar-lhes os feiticeiros, mantê-los em justiça entre si e para
com os cristãos, faze-los viver quietos sem se mudarem para outra parte, se for entre
cristãos, tendo terras repartidas que lhes bastem, e com estes Padres da Companhia para
os doutrinarem. (Idem, p. 51)6.

A lei natural é alei de Deus á qual devem ser submetidos todos os índios.
Novamente o combate à antropofagia ao costume de viverem nus e conviverem com
mais de uma mulher, a feitiçaria são dados da cultura que precisariam ser suprimidos
como foram.
Dizimar uma cultura, no entanto nem sempre é uma tarefa simples. O processo
de reeducação é lento e demorado. Há idas e vindas. É difícil de desfazer de habitus
antigos para incorporar outros e novos. Segundo Daher (2201), Anchieta em Carta ao
padre Geral Diogo Laines, escrita em São Vicente, em 30 de julho de 1561, diz:

Jesuítas do Brasil, São Paulo, Comissão do V Centenário da cidade de São Paulo, 1954, vol. II, p. 319.
Conf. DAHER, Andréa. A conversão do gentio ou a educação como constância. In: Brasil 500 anos:
tópicas em história da educação. VIDAL, Diana G.; HILSDORF, Maria L. (Orgs.). São Paulo: Editora da
Universidade de São Paulo, 2001.
6 Carta ao padre Manuel Torres, da Bahia , em 8 de maio de 1558, texto conhecido
como Plano Civilizador. Conf. DAHER, Andréa. A conversão do gentio ou a educação como
constância. In: Brasil 500 anos: tópicas em história da educação. VIDAL, Diana G.; HILSDORF, Maria
L. (Orgs.). São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2001.
Quando os visitamos por suas aldeias [...] recebem-nos [....] sem ter nenhum respeito à
salvação de suas almas ou doutrinas de seus filhos, totalmente metidos em seus antigos
diabólicos costumes. Exceto o comer carne humana, que parece está um tanto
desaraigado entre eles, que já ensinamos. Verdade é ainda fazem grandes festas de
matança na matança de seus inimigos, eles e seus filhos, etiam os que sabiam ler e
escrever, bebendo grandes vinhos, como antes costumavam e, senão os comem, dão-nos
a comer a outros seus parentes que de diversas outras partes vêm e são convocados para
as festas.7

O conteúdo desse trecho nos leva a pensar sobre o fato de que o processo de
imposição cultural portuguesa sobre a cultura indígena, não foi fácil. Apesar de a
história ter nos testemunhado que essa imposição não se deu sem conflitos de ambas as
partes, ela, contudo não foi capaz de dizimar por completo a cultura indígena. Mesmo
tendo provocado a extinção de muitas tribos e consequentemente de comunidades
indígenas, o processo colonizador embora as tenha fortemente impactado, muitas tribos
permaneceram.

O atual estado de preservação das culturas e línguas indígenas é conseqüência direta da


história do contato das diferentes sociedades indígenas com os europeus que
dominavam o território brasileiro desde 1500. Os primeiros contatos se deram no litoral
e só aos poucos houve um movimento de interiorização por parte dos europeus.(
http://www.funai.gov.br/).

Desse processo, a sobrevivência de muitas tribos indígenas não tem se


constituído em algo simples. Hoje sobrevivem poucas tribos em relação a um número
aproximado de 1 a 10 milhões de indígenas segundo da FUNAI8.

Hoje no Brasil, vivem cerca de 460 mil índios, distribuídos entre 225 sociedades
indígenas, que perfazem cerca de 0,25% da população brasileira. Cabe esclarecer que

7 José de Anchieta, Correspondência ativa e passiva, pp. 1723-185. In: DAHER,


Andréa. A conversão do gentio ou a educação como constância. In: Brasil 500 anos:
tópicas em história da educação. VIDAL, Diana G.; HILSDORF, Maria L. (Orgs.). São
Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2001.
8 Fundação Nacional do Índio.
este dado populacional considera tão-somente aqueles indígenas que vivem em aldeias,
havendo estimativas de que, além destes, há entre 100 e 190 mil vivendo fora das terras
indígenas, inclusive em áreas urbanas. Há também 63 referências de índios ainda não-
contatados, além de existirem grupos que estão requerendo o reconhecimento de sua
condição indígena junto ao órgão federal indigenista. ( http://www.funai.gov.br/).

Desse trecho destaque deve ser dado para o percentual de índios existentes em
relação ao total da população brasileira. Esses 0,25% estão distribuídos em diferentes
etnias ao longo do território brasileiro. Na tabela a seguir podemos entender melhor:

Estado Etnia População


Acre Amawáka, Arara, Ashaninka, Deni, Jaminawa, Katukina, Kaxinawá, 9. 868
Kulina, Manxinéri, Nawa, Nukuini, Poyanawa, Shanenawa, Yawanáwa.
Alagoas Cocal, Jeripancó, Kariri-Xocó, Karapotó,Tingui-Botó, Wassú, Xucuru- 5.993
Kariri.
Amapá Galibi, Galibi-Marworno, Karipuna, palikur, Wayampi, Wayána-Apalai. 4.950
Amazonas Arapáso, Aripuná, Banavá-Jafi, Barasána, Baré, Deni, Desana, Himarimã, 83.966
Hixkaryana, Isse, Jarawara, Juma, Juriti, Kaixana, Kambeba, kanamari,
Kanamanti, Karapanã, Karipuna, Kawixi, katukina, Katwena, Kaxarari,
Kaxinawa, Kayusana, Kobema, Kokama,Korubo, Kulina, Maku, Marimum,
Marubo, Matis, Mayaiâna, Mawé, Mayá, Mayoruna, Miranha, Miriti,
Munduruku, Mura, Parintintin, Paumari, Pirahã, Pira-Tapuya, Sateré-
Mawe, Suriana, Tariana, Tenharin, Torá, Tukano, Tukuna, Tuyúca,
Waimiri-Atroari, Waiwái, Wanana, Warekena, Wayampi, Xeréu,
Yamamadi, Yanomami, Zuruahã.
Bahia Arikosé, Atikum, Botocudo, Kaimbé, Kantaruré, Kariri, Kariri-Barra, 16.715
Pankararé, Pankararú, Pataxo,
PataxóHã Hã Hãe, Tupinambá, Tuxá, Xucuru-Kariri.
Ceará Jenipapo, Kalabassa, kanindé, kariri, Pitaguari, Potiguara, Tabajara, 5.365
Tapeba, Tremembé.
Espírito Guarani [M’ byá], Tupiniquim. 1.700
Santo
Goiás Ava-canoeiro, Karajá, Tapuya. 346
Maranhão Awa, Guaja, Guajajara, kanela, krikati, Timbira [gavião]. 18.371
Mato Apiaká, Arara, Aweti, Bakairi, Bororó, Cinta Larga, Enawene-Nave, 25.123
Grosso Hahaintsú, Ikpeng, Trantxe, Juruna, Klapato, Kamayura, Karajá, Katitaulu,
Kayabi, Kayapó, Kreen-Akarôre, Kuikuro, Matipu, Mehináko,Metu ktire,
Manduruku, Munku, Nafukuá, Nambikwara, Naraveite, Paraná, Pareci,
Parintintin, Rikbaktsa, Suya, tpayuna, Tapirapé, Terena, Trumai, Umutina,
Waura, Xavante, Xiquitano, Yawalapiti, Zoro.
Mato Atikum, Guaray [Kaiwa e Nhandéwa], Guatór, Kadiwéu, Kamba, 32.519
Grosso do Kinikinawa. Ofaié, Terena, Xiquitano.
Sul
Minas Atikum, Kaxixó, Krenak, Maxakali, Pankararu, Pataxó, Tembé, Xakriaba,, 7.338
Gerais Xucuru-kariri.
Pará Amanayé, Anambé, Apiaká, Arara, Araweté, Assurini, Atikum, Guajá, 20.185
Guarani, Himarimã, Hixkaryána, Juruna, karafawyána, Karaja´, katwena,
Kaxuyanakayabi, kayapó, Kreen-Akarôre, Kuruáya, Mawayâna,
Munduruku, Paiakanã, Surui, Tembé,, Timbira, Tiriyó, Turiwara, Wai-Wai,
Waiãpi, Wayana-Apalai, Xeréu, Xipaya, Zo’e.
Paraíba Potiguara 7.575
Paraná Guarani [M’ bya e Nhandewa], kaingang, Xeta. 10.375
Pernambu Atikum, Fulni-ô, Kambiwa, kapinawa, Pankararú, Truká, Tuxa, 23.526
co Xawra.
Rio de Guarani 330
Janeiro
Rio Guarani, Guarani Mbya, kaingang 13.448
Grande do
Sul
Rondônia Aikaná, Ajuru, Amondawa, Arara, Arikapu, Ariken, Aruá, Cinta 6.314
Larga, gavião, jabuti, kanoê, Karipuna, karitina, kaxarari, Koiaiá,
Kujubim, Makurán, Mekén, Mutun, Nambikwara, pakaaniva,
Paumelenho, Sakirabian, Surui, Tupari, Uru Eu Wau Wau, Urubu,
Urupá.
Roraima Ingaricô, Macuxi, Patamona, Taurepano, Waimiri-Atroari, 30.715
Wapixana, Wawai, Yanomami, Ye’kuana.
Santa Guarani, Guarani Mbya, Guarani Nhandeya, kaingang, Xokleng. 5.651
Catarina
São Paulo Guarani, Gurani M’ bya, Guarani Nhandeya, Kaingang, Krenak. 2.716
Sergipe Xocó 310
Tocantins Apinaye, Guarani, Javae, Karajá, Kraho, Tapirape, Xerente 7.193

composta com dados obtidos da FUNAI, obtidos em


http://www.funai.gov.br/projetos/Plano_editorial/Pdf/Legisl/capitulo-01.pdf, acesso em
16/03/2008.

O quadro nos permite uma visibilidade interessante em termos do número de


tribos e respectivas etnias existentes no Brasil. Contribui para a constatação de elas não
se encontram exclusivamente nos estados do Pará, Amazonas e Mato Grosso como a
primeira vista pode parecer. Eles estão praticamente em todo o Brasil de norte a sul.
Da cultura indígena convivemos com artefatos como cestos, colares de sementes
e principalmente alimentos tais como a mandioca e derivados, sendo o mais comum a
farinha e o artesanato de barro, inspirado nas urnas funerárias, presentes em vários sítios
arqueológicos existentes no Brasil. Canto e dança indígenas não tiveram no Brasil a
repercussão que teve músicas e danças afro, como verei adiante.
Na cultura brasileira o índio tem seu dia, 19 de abril, instituído por Getúlio
Vargas no ano de 1943, por meio do Decreto Lei nº 5.540 de 02 junho. Território e
culturas indígenas são considerados patrimônio cultural no âmbito de Programas
Nacionais de Direitos Humanos, por meio de políticas públicas visando à defesa, e
preservação da cultura indígena no universo dos direitos conquistados por esses povos.
Não seria demais referir a seguir algumas ações governamentais listadas no Plano de
ação 2002, relativo ao PNDH na gestão de Fernando Henrique Cardoso:

- Formular e implementar políticas de proteção e promoção dos direitos dos povos


indígenas, em substituição a políticas integracionistas e assistencialistas; - Apoiar a
revisão do Estatuto do Índio (Lei nº 6.001/73), com vistas à rápida aprovação do projeto
de lei do Estatuto das Sociedades Indígenas, bem como a promover a ratificação da
Convenção nº 169 da OIT, sobre Povos Indígenas e Tribais em Países Independentes; -
Assegurar a efetiva participação dos povos indígenas, de suas organizações e do órgão
indigenista federal no processo de formulação e implementação de políticas públicas de
proteção e promoção dos direitos indígenas; - Assegurar o direito dos povos indígenas
às terras que tradicionalmente ocupam, às reservadas e às de domínio; - Demarcar e
regularizar as terras indígenas tradicionalmente ocupadas, as reservadas e as de domínio
que ainda não foram demarcadas e regularizadas; - Divulgar medidas sobre a
regularização de terras indígenas, especialmente para os municípios brasileiros
localizados nessas regiões, de modo a aumentar o grau de confiança e estabilidade nas
relações entre os povos indígenas e a sociedade envolvente; - Garantir aos povos
indígenas assistência na área da saúde, com a implementação de programas de saúde
diferenciados, considerando as especificidades dessa população e priorizando ações na
área de medicina preventiva e segurança alimentar; - Assegurar aos povos indígenas
uma educação escolar diferenciada, respeitando o seu universo sócio-cultural, e
viabilizar apoio aos estudantes indígenas do ensino fundamental, de segundo grau e de
nível universitário; - Implementar políticas de proteção e gestão das terras indígenas,
com a implantação de sistemas de vigilância permanente dessas terras e de seu entorno,
a promoção de parcerias com a Polícia Federal, o IBAMA e as Secretarias Estaduais de
Meio Ambiente, e a capacitação de servidores e membros das comunidades indígenas.
- Viabilizar programas e ações na área de etno-desenvolvimento voltados para a
ocupação sustentável de espaços estratégicos no interior das terras indígenas, tais como
áreas desocupadas por invasores e/ou áreas de ingresso de madeireiros e garimpeiros.

O processo de colonização foi tenaz sobre a cultura indígena. Na verdade se


constata que pouco dela restou quando pensamos no conjunto da produção cultural
brasileira em relação, por exemplo, a outras etnias que chegaram mesmo no período da
colonização ao Brasil como é o caso dos negros, como verei a seguir. As medidas acima
indicadas são, em sua maioria, grandes intenções que demonstra o quanto continuamos
a dever a esses povos cujas terras ocupamos como herdeiros dos descobridores. Do
contrário o estado brasileiro não precisaria se manifestar responsável por tantas
garantias.
É importante destacar que os povos indígenas, em decorrência também da
consolidação democrática estão mais organizados, ainda que sob tutela do estado. Foi
preciso de um lado que se apropriassem de ferramentas da cultura moderna considerada
civilizada, tais como a telefonia celular, a televisão, câmeras de vídeo, entre outras para
poder fazer frente às adversidades propiciadas ela necessidade de sobrevivência no
mundo dos “brancos”. De outro lado, a conservação e preservação do patrimônio
cultural como as danças e a música têm sido feita também de modo organizado através
da criação no universo de fomento de cultura. Isso tem sido feito segundo exigências da
Constituição Federal de 1988, em gravações de discos que devem ter a sua divulgação
realizada e ampliada no âmbito dos processos educacionais escolares. Na medida em
este for ampliando seu universo de compreensão da cultura indígena para além das
comemorações bizarras do dia 19 de abril onde as crianças em sua maioria apenas
pintam o rosto e põem penas cabeça, o entendimento, consciência e valorização dessa
cultura tende a ser fortalecido gradativamente pela sociedade.

O negro, marcas de uma contribuição cultural


A etnia negra é sem sombra de dúvida aquela que historicamente mais
contribuições têm trazido à cultura brasileira. Introduzidos no Brasil desde o ano de
1853, na condição de escravos fundamental para o trabalho de exploração e cultivo
agrícola, no processo de colonização, desde então as adversidades foram as marcas de
milhares deles em aqui chegando. O mecanismo de introdução no negro na nova cultura
também se dá, embora diferente do índio, sob forma de dominação e quiçá certamente
uma das mais persas se não a maior delas, por meio do trafico. O negro é mercadoria,
Torna mais uma dentro do universo do capitalismo em sua fase mercantil. O trafico é
um mecanismo vil, em se tratando de objetos, quiçá de pessoas. Ele se deu
fundamentalmente me nome do trabalho gerador de mais valia, acumulação e
degradação da condição humana.

O trabalho que deveria ser o elemento de distinção e diferenciação na sociedade,


embora unindo os homens na colaboração, na ação comum, torna-se, no sistema
escravista, dissociador e aviltante. A sociedade não se organiza em termos de
cooperação, mas de espoliação. Por isso, para o branco, o trabalho, principalmente o
trabalho manual era visto como obrigação no negro, de escravo. “Trabalho é pra negro”.
(COSTA, 1998, p. 15).

Desse ponto de vista, trabalho e cultura brasileira têm na história as marcas das
relações escravocratas. Se cultura também significa construção/elaboração/criação
humana como legado á posteridade, essas marcas perpassam e permanecem por muitos
séculos na sociedade. Hoje conviemos ainda como muitos modos de trabalho e relações
escravas: o trabalho infantil, o trabalho em condições desumanas, o pagamento indevido
de horas trabalhadas, entre outros. Por isso considero importante retomar aqui um pouco
de história, a fim de que possamos entender o legado cultural propriamente dito. As
condições objetivas determinaram formas e modus vivendi dos escravos como
estratégias de resistência e de convivência com as situações sobre maneiras adversas
com as quais se defrontavam principalmente nas fazendas de café. Foram muitas dessas
estratégias que resultaram em legados culturais importantes para a posteridade social
brasileira.
O negro foi, em algumas regiões, a mão-de-obra exclusiva desde os primórdios da
colônia. Durante todo esse período a história do trabalho é, sobretudo, a história do
escravo. Primeiro nos canaviais, mais tarde nas minas de ouro, nas cidades ou nas
fazendas, era ele o grande instrumento do trabalho. Derrubando matas, roçando
plantações, nas catas de ouro, nos engenhos, na estiva, carregando sacos de mercadorias
ou passageiros.o escravo foi figura familiar na paisagem colonial. Foi mais do que mão-
de-obra, foi sinal de abastança. Época houve em que a importância do cidadão era
avaliada pelo séqüito de escravos que o acompanhava à rua. A legislação e o costume
consagravam esse significado. Concediam-se datas e sesmarias a quem tivesse certo
número de pretos. A posse de escravos conferia distinção social: ele representava o
capital investido, a possibilidade de produzir.(idem.)

Aquelas formas de resistência foram extravasadas de diferentes modos pelos


negros escravos: por meio do canto, da dança, da comida, da religião, enfim de práticas
que foram adequando às condições nas quais viviam. Das práticas religiosas
permanecem legados como: as festas de Iemanjá considerada a Orixá mais conhecida do
Brasil. Na Igreja católica em Alguns estados da região norte do Brasil é representada
por Nossa Senhora da Conceição e no sul por Nossa Senhora dos Navegantes.
Vinculada ao mar, para ela são realizados rituais de oferendas de flores e solicitações de
bênçãos onde as ofertas são levadas ao mar por barcos ou diretamente colocadas na
praia. No Rio de Janeiro esse ritual se confunde com as festas de comemoração de
chegada do ano novo.
Talvez não tão popular como Iemanjá o orixá Oxalá (Divino Espírito Santo e
Nosso Senhor do Bom Fim). Ganhou popularidade em letra de música popular
brasileira, assim como Iansã, Santa Bárbara na Igreja Católica, uma figura feminina,
forte e guerreira expressada também em letra de música por Clara Nunes que
manifestou em uma das estofes dos versos da canção “A Deusa dos Orixás”:

Na terra dos orixás, o amor se dividia


Entre um deus que era de paz
E outro deus que combatia
Como a luta só termina quando existe um vencedor
Yansã virou rainha da coroa de Xangô
Vale dizer que a relação com Santos Católicos se explica pela necessidade que
tiveram os escravos de encobrir suas práticas religiosas. Essa relação pode ser
considerada como uma estratégia de resistência aos imperativos de dominação cultural
próprios da situação à qual os escravos foram submetidos. Para Santana (2008), o
legado africano deve ser entendido como um conjunto de saberes traduzidos em
situação diáspora pelos grupos étnicos africanos, no período de tráfico escravo, e hoje
chamadas de culturas afro-brasileiras (p. 14).
Outras práticas substanciam também o legado africano como nos assevera
Santana (2008), por meio de: ebós nas encruzilhadas; fontes de águas sagradas; pés de
árvores sagrados; mitos de iemanjá; pipocas distribuídas nas festas de São Roque e são
Lázaro (Idem). A distribuição de bombons para crianças no dia de São Cosme e São
Damião. As irmandades tiveram papel social importante principalmente depois da
libertação. Muitas delas abrigaram escola. Neste sentido podemos referir a Irmandade
de São Benedito em Campinas, São Paulo, que criou o Colégio São Benedito que
chegou ater 422, na primeira década do século XX.9
Nascido na irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e São Benedito
está o Maracatu, dança antes conhecida como “Nação”, apresenta o cortejo Real, à
semelhança das homenagens ao Rei do Congo. As igrejas de Olinda, Pernambuco e
Recife tiveram suas apresentações em suas proximidades.
Além das contribuições já indicadas de modo breve, os negros têm nos legado
no campo da música realizações culturais indeléveis, tais como o samba e o frevo. Diz-
se que este nasceu atrelado à Capoeira espécie de luta e dança ao mesmo tempo,
significando uma forma de dispersão aos momentos de encontro dos negros quando
reunidos para a prática da capoeira que era proibida.
O samba é uma das mais populares contribuições do legado afro à história
cultural brasileira, provavelmente só suplantado pela feijoada. Esta tem adeptos nos
diferentes segmentos sociais e regiões do Brasil. O samba é afeito apenas às camadas
populares e parte da classe média, preferencialmente em algumas regiões do Brasil,
entre as quais podemos citar o norte e nordeste, e parte do sudeste, neste em especial o
Rio de Janeiro tido o berço do Samba.
Simpatias para o mal olhado, o amor, o sucesso nos negócios, para atrair bons
fluidos, bem como as a rezas, benzedeiras e infinitos remédios caseiros são outras
expressões de modos de fazer e de viver imersos na cultura afro-brasileira.

9 Cfr. PEREIRA, José Galdino. Colégio São Benedito: a escola na construção da cidadania. In: Memórias da Educação: Campinas,
1850-1960. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, Centro de Memória - UNICAMP, 1999.
É importante frisar que a cultura afro-brasileira é parte integrante da cultura
brasileira e se confunde, por assim dizer, com ela. Digamos que é ponto de partida e de
chagada no atual estágio em essa sociedade se encontra. É de lamentar que em razão
daquelas bases escravocratas antes indicadas se tenha que considerar os afro-brasileiros
minoria: prevenir e combater a intolerância religiosa, inclusive no que diz respeito a
religiões minoritárias e a cultos afro-brasileiros, como medida a ser adotada por meio
de ação do governo editada no ano de 2002, como integrante de medidas humanitárias e
de cidadania. Nessa mesma direção se compromete o estado em:

Apoiar programas voltados para a sensibilização em questões de gênero e violência


doméstica e sexual praticada contra mulheres na formação dos futuros profissionais da
área de saúde, dos operadores do direito e dos policiais civis e militares, com ênfase na
proteção dos direitos de mulheres afrodescendentes e indígenas.

Para finalizar essa breve apreciação chamo atenção para a simbologia de rituais
importantes. Os realizados nas escadarias do Senhor do Bom Fim na Bahia, os rituais de
Orixás e de Eguns da Nação Ijexá no Rio Grande do Sul, muito pouco conhecido no
restante do país, provavelmente por se veicular que no sul do Brasil estão
exclusivamente os brancos de origem italiana e alemã.

Os italianos segundo o ideal de fazer a América


Os italianos vieram para o Brasil em grande número, na segunda metade do
século XIX. Com eles trouxeram experiências de várias naturezas. Do mesmo modo que
os negros a finalidade básica de suas vindas foi o trabalho na agricultura. Alias, aqui
aportaram para substituir aqueles no trabalho nas lavouras de café nas grandes fazendas.
Embora não tenham vindo efetivamente como escravos, os italianos originários
destacadamente do norte da Itália pretendiam ser tratados pelos fazendeiros como
aqueles. Essas preensões que em muitos casos se efetivaram, como muitas outras,
fizeram com esses imigrantes criassem também modos de sobreviver com mais
dignidade. Entre esses modos estão às associações de socorro mútuo, as associações de
italianos.
As exigências para fazer parte dessas associações pareciam ser restritivas,
principalmente considerando o requisito de apresentação através de um sócio. Em
contrapartida, esta é uma condição que pode ser dada tanto por laços afetivos quanto de
parentesco ou mesmo como decorrente de uma atitude de solidariedade gerada pela
condição de ser imigrante italiano. Fazer parte dessas associações o requisito maior era
de cunho moral
Para esse requisito foram previstos no estatuto, do Circolo Italiano Uniti de
Campinas, por exemplo, meios de controle exercidos pelos censores cujas atribuições:
“incrementar a sociedade propondo sócios de reconhecida idoneidade” (Cap. III, art.
5º- estatuto da Associação Circolo Itani Uniti de Campinas).
Provavelmente a moralidade tenha se tornado um mecanismo dentro de uma
estratégia maior, constituída pela criação do Circolo, para fazerem-se reconhecer pela
sociedade local. Podemos entender estratégia no sentido que lhe atribui Bourdieu, como
resultante do “habitus que produz práticas individuais e coletivas, produz história,
portanto, em conformidade com os esquemas engendrados pela história” (BOURDIEU,
1983, p. 76). Em se tratando de imigrantes sejam eles italianos como de outras
nacionalidades, o habitus é dado pelas próprias condições de emigrar bem como pelas
exigências que o processo de acomodação e de assimilação cultural vão impondo ao
imigrante na nova pátria, por isso, na nova cultura. Processos estes nem sempre
salutares para o estrangeiro. Concomitantemente, e isto nos parece mais importante,
àquilo que poderíamos chamar de herança trazida pelos imigrantes italianos e que
fizeram com que emigrassem, ou seja, as condições adversas em seu país. Ainda na
compreensão de Bourdieu (1983), podemos chamar de conjuntura a relação dialética
entre as causas da imigração (as razões pelas quais os grupos emigraram) quanto às
maneiras pelas quais eles vão se organizando nos locais para os quais emigraram e que
são as práticas que esses grupos aqui desenvolveram. No caso específico do Circolo,
representa uma ação. Diz aquele autor que a conjuntura é conjunção necessária das
disposições e de um acontecimento objetivo (idem).
Em se tratando da moralidade, talvez ela seja marca de uma época em que
valores como honestidade, esforço, coragem, vergonha, brio, caracterizavam condutas,
faziam parte dos costumes socialmente válidos e que no caso dos estrangeiros referia-se,
quando cultivado e defendido, a uma nacionalidade. Neste sentido, aparece como defesa
de uma nação representada fora de seu seio, como passaporte para a consolidação das
condições de convivência e de credibilidade na sociedade campineira. Sobre a
imaginação moral Geertz (........) nos diz que escrever sobre ela
é "tentar penetrar de alguma maneira neste amaranhado de implicações hermenêuticas,
localizar com alguma precisão as instabilidades de pensamento e de sentimento que ele
produz, e colocá-la numa moldura social. Tais esforços não são suficientes para desfazer
os nós do amaranhado, nem para remover as instabilidades" (p. 71).
Geertz nos instiga a pensar então, que interpretar a moralidade também na
perspectiva dos imigrantes italianos, requer que tentemos desvendar ou desamarrar os
nós de um amaranhado hermenêutico dado pela dimensão do religioso, do sagrado,
considerando que não seria possível fazê-lo fora de um contorno social. Por isso, é
preciso que tomemos em conta a influência que a religião, fundamentalmente a católica,
exercia sobre os imigrantes italianos. Ela já compunha um conjunto de elementos da
cultura de origem ao mesmo tempo em que irá servir como fator de valorização da
conduta do imigrante na sociedade brasileira.
A influência da religião na cultura de origem pode ser dimensionada, por
exemplo, através de um guia10 elaborado na Itália de comum acordo com o governo
brasileiro e que visava integrar o imigrante na sociedade brasileira através da
apropriação fácil e rápida do idioma nacional. Interessa-nos particularmente neste
momento, a referência utilizada para essa orientação e seu respectivo conteúdo
constante da primeira parte do método Facile distribuído em seis exercícios contendo
frases com grafia em português e sua respectiva pronúncia nessa língua, seguida da
grafia em italiano. Para este exemplo, estaremos nos utilizando somente de alguns
trechos constantes de dois exercícios. Assim vejamos:

"Deos que do ceo nos ajude e nos envie bons conselhos.


Déus che du séu nus agiúde e nus envie bons conselhos.
Dio che dal cielo ci aiuti e ci mandi buoni consegli.

Abençoado seja Deos, nosso senhor!


Abensoádu ségia Déus, nóssu Segniòr!
Benedetto sia Dio, nostro Signore!
Um bom cristão é muito mais honesto e trabalhador.
bom cristón é muitu máis onéstu e trabagliador.

10 METODO FACILE TEORICO-PRATICO per imparare senza maestro la lingua portoghese. Manuale Indispensabile per
l'emigrante che si rega al Brasile. O guia foi organizado pelo prof. Carlo Del Rosso em Milão e data de 1892. Faz parte de acordo
firmado com o governo brasileiro. Ressalte-se ainda, que foi dedicado a Antonio da Silva Prado. Acha-se organizado em dez partes,
cujo objetivo é "uma apropriação fácil da língua brasileira falada".
buon cristiano è molto più onesto e lavatore."11

"Não deixai-nos cahir na tentação de não ir na igreja todos os domingos.


ou deisciáisnu cais na tentasson de non ir na igrégia túdus us domingus.
Non lasciatesi cadere nella tentazione di non andare in chiesa tutte le doniche.
Eu quero ser sempre um moço bom, religioso, obidiente e trabalhador.
un bom móssu, religiósu, obidiente e tragliador.
un bom giovane, religioso, obbdiente e laborioso."

Observe-se que valores como bondade, honestidade e ser trabalhador acham-se


vinculados ao exercício religioso, para o que concorre ir à igreja aos domingos. Deixar
de praticar ação de ir à igreja, pode significar a propensão de incorrer no perigo de
tornar-se desonesto, desobediente e sem vontade de trabalhar. Por isso, o vicio da
embriaguez, a desocupação, enfim, qualquer deslize que pudesse ter cometido um
imigrante ou viesse a cometer, o impossibilitaria de fazer parte daqueles que
notoriamente deveriam representar aquela nacionalidade.
Por outro lado, considerando a mentalidade escravocrata reinante na sociedade
brasileira não se torna surpreendente imaginar que o italiano, também imigrante europeu
tivesse que criar, e por que não, mecanismos de defesa, digamos assim, numa terra cujas
elites dirigentes os via como os redentores da civilidade e da raça. Assim sendo, seria
possível então falar de mentalidades locais versus mentalidades dirigentes? Avançando
um pouco mais nessa reflexão utilizar-nos-emos de dois exemplos que consideramos
esclarecedores: para o primeiro recorreremos ao romance “O Cortiço” através de uma
passagem em que João Romão, um personagem central da trama de Aluísio Azevedo
assim se dirige aos italianos num instante de profundas reflexões sobre sua vida:

“protestou contra os galos de uma alfaiate, que se divertia a fazê-los brigar, no meio de
uma grande roda entusiasmada e barulhenta. Vituperou os italianos, porque estes, na
alegre independência do Domingo, tinham à porta da casa uma esterqueira de cascas de
melancia e laranja, que eles comiam tagarelando, assentados sobre a janela e a calçada.
Quero isto limpo! Bramava furioso. Está pior que um chiqueiro de porcos ! Apre!

11 Método Facile, exercicício II, p. 26.


Tomara que a febre amarela os lamba a todos! Maldita raça de carcamanos! Hão de
trazer-me isto asseado ou vai tudo para o olho da rua! Aqui mando eu.”(AZEVEDO,
1985, pp. 106-107- grifos meus)

Trento (1989) entende essa questão não como uma simples expressão de
mentalidade, mas como ódio de classe já que difícil de conter. Contudo, ambos acham-
se nas bases sociais, ou seja, não faziam parte dos que definiam concretamente os rumos
do Brasil da época.
A mentalidade dirigente pode ser traduzida através de uma passagem de Ianni
(....) que considera que
os "imigrantes europeus vindos para o Brasil no século XIX, foram escolhidos a dedo
para branquear o país. Era necessário branquear o país que estava muito mulato, muito
negro. (...). Havia uma preocupação de eliminar ou reduzir a presença visível do negro e
do mulato e por isso é que não se continuou a trazer negros da África como
trabalhadores livres. Foi por isso que não se trouxe, e inicialmente se cogitou disso,
chineses que estavam disponíveis, por que eram amarelos (p. 14).

Assim, as desavenças entre nacionais e italianos, que têm como ponto de partida
o fato de serem sujos e barulhentos é antes a negação de uma etnia. A etnia que ora
impõe sua cultura e ora quer misturá-la com a nacional. Neste sentido então,
imaginamos que esses conflitos ultrapassam a condição de classe social. O imigrante ao
instalar-se na cidade não se constitui apenas numa referência étnica diferente, mas vem
disputar com o nacional tanto o espaço urbano quanto o trabalho e a cultura. Assim, ao
mesmo tempo em que imigrantes italianos estruturam-se através de uma organização,
outros menos privilegiados economicamente vendem sua força de trabalho utilizando-se
de dispositivos que a cidade oferece. Vejamos alguns exemplos:
"COZINHEIRA
Quem precisar de uma cozinheira italiana ou para lavar e engomar, pode dirigir-se à
quarta casa acima da Ponte Preta."12
"AMA DE LEITE
Quem precisa de uma ama de leite, italiana dirija-se à fazenda do senhor João Franco,

12 Jornal Diário de Campinas, 25/08/1888.


nos Valinhos, a Santana Turim"13
"ALUGA-SE
Um casal sem filhos, italianos sendo o homem pedreiro e a mulher sabendo cozinhar,
podendo ser para este ou outro município. Quem precisar dirija-se à Quarta casa
passando a ponte Preta".14
"ATTENÇÃO
Oferece-se um casal italiano, sendo o homem habilitado para a cozinha e a mulher para
engoma, costura e atualmente poderá ser de ama por ter um menino de 10 dias".15
"CRIADA
Precisa-se de uma, sabendo cozinhar e mais serviços domesticos.
Prefere-se estrangeira. Tratar na Andrade Neves, Segunda casa, em seguida da de n.
6."16

ou,
"CRIADA
Precisa-se de uma boa criada preferindo-se alemã ou italiana. Para tratar no largo de
Santa Cruz n. 21."17
"CRIADA
Precisa-se de uma criada branca, prefere-se estrangeira. Rua Francisco Glicério, esquina
do General Osório, no armazem."18

O trabalho doméstico e o educativo, também são registros de formas de


convivência social individual do imigrante que, no conjunto, compõem um processo de
enfrentamento de uma nova ordem social e cultural que constitui uma fatia da história
da imigração de cuja análise têm sido excluídos. Por outro lado na medida em que esses
trabalhadores foram se integrando à sociedade brasileira foram, sem dúvida deixando as
marcas de sua cultura.
Contudo, esses dados também nos permitem verificar a existência de uma teia de
interesses em torno desse tipo de atividade que pode ser representada como vimos, pelo
imigrante que vende sua força de trabalho, pelo capitalista tendo à frente a Sociedade
Promotora da Imigração, no exemplo abaixo e por agenciadores nos subseqüentes:

13 Idem, 11/08/1888.
14 Idem, 20/09/1888.
15 Idem, 25/01/1889.
16 Idem, 29/08/1889.
17 Idem, 20/11/1889.
18 Idem, 22/01/1890.
"Duas mil criadas - Attendendo as difficuldades com que nas cidades da provincia se
luta para obter criadas para o serviço domestico, resolveu a Sociedade Promotora da
Immigração mandar vir da Europa duas mil criadas solteiras, sendo 1.000 italianas e
1.000 alemãs.
Conforme o exito desta primeira experiência decidirá a Sociedade Promotora mandar
vir ou não maior numero de criadas”19.
“Serviço domestico - Tratam na corte alguns capitalistas de mandar vir da Europa
criadas para o serviço domestico, a exemplo do que ultimamente resolveu a Sociedade
Promotora da Immigração desta provincia”.20

Note-se que se trata de iniciativa de capitalistas, representada pela Sociedade


Promotora da Imigração que, segundo Trento (1989), configurou a "expressão de
interesses agrários, a qual, nos primeiros três anos de vida promoveu a introdução de
17.856 famílias num total de 101.396 pessoas". A venda de mão-de-obra por
agenciadores pode ser identificada nos anúncios abaixo:
"AGÊNCIA DE LOCAÇÃO
Silvino Ribeiro tem 80 colhedores de café, criados a criadas para todo serviço
doméstico...",21

ou ainda,

"LOCAÇÃO DE SERVIÇOS
47 13 DE Maio 47
Telephone 24
N'esta agência há para alugar 3 criadas solteiras, italianas, para serviços domésticos, um
perfeito cozinheiro afiançado, um jardineiro...".(Diário de Campinas, 1897)

Posto isso, nos parece que apenas procedemos a uma elementar aproximação
daquilo que consubstanciaram conseqüências, uma extensão das políticas imigratórias
para o Brasil e para o Estado de São Paulo em particular. Não foi apenas em função e
através do café que lucros foram obtidos com a imigração. Os centros urbanos para os

19 Idem, /12/1888.
20 Idem, 21/12/1888.
21 Diário de Campinas, 9/07/1889.
quais imigrantes certamente se dirigiram, guardam na memória muitos dos interesses a
que serviram aqueles que vieram para fazer a América. Muitos deles venderam a força
de trabalho que possuíam, que significava uma possibilidade melhor do que as
existentes em seus países de origem. Na Itália, por exemplo, as oportunidades de
atividade produtiva no período da grande imigração eram ínfimas, principalmente para o
camponês do norte.
Não seria demais chamar atenção para o fato de que estamos falando de grupos,
segmentos sociais de imigrantes diferenciados: de um lado aquele que procura incluir-se
socialmente através de estratégias coletivas, presidindo associações e promovendo
eventos. São também comerciantes e profissionais liberais que se fazem conhecer na
sociedade por intermédio da imprensa e das relações que vão estabelecendo com a
cidade de modo geral. De outro, aqueles que anonimamente vão compondo um processo
nada idílico de convívio sócio-cultural.
Assim, conviver, sobreviver, aparece como algo difícil de ser obtido mesmo para
aqueles em nome dos quais presumivelmente possa ter sido criada uma associação. Isso
nos leva a pensar no que escreveu Cenni (1975) quando se referiu à criação das
sociedades italianas,
"as origens de quase todas as sociedades italianas que se formaram no Brasil são
bastante parecidas: certo dia um emigrado, ou um número pequeno deles, resolve
convocar uma assembléia mais ou menos numerosa, são estabelecidas as linhas gerais,
quase sempre assistencial ou recreativa, é escolhido um nome e trata-se de juntar
dinheiro para realizar aquilo que sempre constituiu a principal aspiração dêstes grêmios:
a sede própria" (p.247).

Consideramos simplista demais afirmar que a criação das associações de mútuo


socorro se deu quase que em decorrência de certos impulsos. Dadas as condições de
emigração e de permanência nos espaços para os quais os imigrantes se destinaram, e se
esses espaços eram urbanos a competitividade tornava-se ainda maior e as adversidades
a enfrentar maiores ainda. Construir uma sede social englobava conjunto de elementos
tais como: a nacionalidade, o trabalho, a sobrevivência, a credibilidade, a concorrência,
o socorro mútuo, mas também a assimilação que faziam parte, figurativamente falando,
de uma intensa batalha numa nova ordem social.
Por outro lado, há que se pensar no que pode ter representado as associações pra
aqueles imigrantes. A edificação de das sedes dessas organizações pôde simbolizar não
só o espaço de congraçamento, mas também de referência de nacionalidade e de
respeitabilidade pela sociedade local. Assim discorrendo, é impossível não nos
lembrarmos de Hegel quando se refere aos monumentos, enfim às edificações como
expressões da cultura que é o próprio espírito do povo. Neste caso, sabemos, não se trata
do povo mas de sujeitos que pretendem sair do anonimato para integrarem-se
efetivamente na urbanidade e deixarem, como deixaram para a posteridade, mais que
um monumento uma obra arquitetônica até hoje integrante da vida social onde foram
edificadas.
Em síntese da cultura italiana temos a contribuição não só do trabalho
propriamente dito, mas também da culinária (macarronada, pizza e massas em geral),
como de outros modos de produzir alimentos, os chamados embutidos, o vinho entre
outros.

Os japoneses
Podemos dizer que as etnias, negra, italiana e japonesa têm em comum o fato de
terem contribuído à cultura brasileira com o trabalho, principalmente no cultivo da terra.
Ainda que em situações diferentes principalmente em relação ao negro, cada uma delas
é certo possui modus vivendi que, de algum modo concorre para enriquecer, somar à
cultura brasileira.
Os japoneses ingressaram no Brasil, a partir do tratado da Amizade Brasil/Japão
de 1895. A chegada dos primeiros imigrantes deu-se em 1908. Os primeiros Núcleos
Coloniais datam de 1913. Suas vindas acompanharam a ideologia do desenvolvimento
nacional, calcado de um lado na industrialização e de outro na compreensão de que ela
deveria ser nacional. Aparentemente contraditório já que se tratava de nacionalizar o
Brasil, de fazê-lo caminhar com os próprios pés.
Mas a inserção dessa etnia em solo brasileiro também não se deu sem conflitos,
de diferentes naturezas.

Também foram destacadas as dificuldades enfrentadas pelos imigrantes japoneses


durante a Segunda Guerra quando o Brasil se alinhou ao bloco oposto ao do Japão.
Proibição ao ensino e uso da língua estrangeira (fig.3), restrições às reuniões e viagens
para outras cidades, congelamento dos bens foram alguns desses problemas. Com o fim
da guerra, a comunidade nipo-brasileira passou a viver outro drama decorrente do
conflito entre aqui eles que acreditavam e duvidavam da derrota japonesa.
(http://www.nihonsite.com/muse/difi/dificuld.cfm)

Os japoneses se fixaram em diferentes regiões do Brasil. Com destaque para São


Paulo, Pará, Paraná e Rio de Janeiro. Nessas regiões, dedicaram-se a agricultura como
principal fonte de renda e de sustento. Dedicaram-se sobremaneira agricultura no ramo
das hortaliças e do cultivo da uva e de bananas e de do mate. Na zona urbana tem-se
dedicado ao comércio e às finanças. Certamente é a etnia que mais tem contribuído para
o desenvolvimento do pelo brasileiro do gosto pelos legumes. Na cultura japonesa tudo
se aproveita, por exemplo, come-se da folha ao tubérculo, no caso da cenoura, da
beterraba, da uva e assim por diante. Constituíram-se de modo mais autônomo digamos,
assim, em relação às duas etnias anteriores. Destacadamente em relação aos negros. Não
vieram como os italianos, substituir o trabalho escravo.
Além de contribuições no campo da produção agrícola, os japoneses têm
registrado atuação no que concerne às lutas marciais. O Judô é a mais popular e tem
concorrido para formar equipes de muito sucesso em âmbito esportivo. O Taicondô, luta
marcial que também tem tido adeptos cada vez mais crescentes com visibilidade em
competições mundiais.
Por fim, apesar de encontrarmos comunidades japonesas onde em seu interior é
falada a língua materna, o que há vinte anos atrás se poderia caracterizar como grupo
social fechado, inclusive pela proibição de casamentos fora da etnia, hoje se pode dizer
que essa barreira foi vencida pela imensa mistura com outras etnias. Isso concorre para
o estabelecimento de uma convivência social mais democrática e fecunda. Com
possibilidades de trocas culturais ainda mais ricas.

O conhecimento sobre as diferentes etnias se faz necessário como imperativo de leitura social.
Imaginemos um ônibus lotado, ou um aglomerado de pessoas nas ruas. A mistura racial está
presente em todos os rostos e com ela estão condutas, comportamentos, costumes, religião,
religiosidade, enfim modos de ser e de viver que em muito se diferenciam, mas que também
possuem algo em comum: o uso da língua, onde a maioria da linguagem é comum, mas que
encontra diferenciações em decorrência da origem regional, do grupo étnico em cujo uso de
duas línguas faz com que o português soe carregado, a exemplo: corgo para córrego, porrta para
porta. Penso que a cultura tem um sentido de transversalidade, ou seja, a idéia de teia de Geertz
demonstra bem essa compreensão. Ainda que estejamos vivemos um intenso processo de
globalização econômica e cultural os homens fazem cultura segundo suas necessidade imediatas
e cotidianas também e principalmente. A riqueza cultural está na troca e a sociedade brasileira
certamente vive um de seus momentos mais significativos nesse sentido. É só olharmos para as
associações, as cooperativas, nos mais longínquos lugares.

Referenciais:
A. AZEVEDO, A. O Cortiço. São Paulo: Ática, 1985.
CENNI, Franco. Italianos no Brasil. São Paulo: Martins, 1975.
COSTA, Emília Viotti da. Da Senzala à colônia. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1998.
DAHER, Andréa. A conversão do gentio ou a educação como constância. In: Brasil 500 anos: tópicas em
história da educação. VIDAL, Diana G.; HILSDORF, Maria L. (Orgs.). São Paulo: Editora da
Universidade de São Paulo, 2001.
BRASIL. Ministério da Justiça. Portal do Cidadão. Disponível em:
http://www.funai.gov.br/projetos/Plano_editorial/Pdf/Legisl/capitulo-01.pdf, acesso em 16/03/2008.
GEERTEZ, C. O Saber local: novos ensaios sobre antropologia interpretativa. Petrópolis: Rio de Janeiro:
Vozes, 1997.
IANNI, O. Aspectos Políticos e Econômicos da Imigração Italiana.
SANTANA, Marise de. O legado Africano às Culturas Brasileiras. In: Diálogo. Revista de Ensino
Religioso. AnoXIII, n. 49, Fevereiro, 2008.
TRENTO, Angelo. Do outro lado do Atlântico: um século de imigração italiana no Brasil. São Paulo:
Nobel, 1989.

Atividades
Indicações culturais
Filme: A Missão

Sinopse:
Em “A Missão” estão contemplados modos de imposição cultural feitos aos indígenas
no processo de colonização brasileira pelas missões jesuítas em nome modo estado
Português. Como resultado que somos dessa imposição cultural á cultura nativa isso nos
torna responsáveis pelo fomento constante á preservação dessa cultura que estão na
origem de nossa sociedade e que muito dela resiste em sobreviver.

Atividade de auto-avaliação
Nas questões a seguir, marque as sentenças com verdadeiro (V) ou falso (F).
1) Em relação a cultura brasileira e etnias
( V ) O descobrimento do Brasil por Portugal trouxe a imposição da cultura portuguesa
sobre a existente, no caso a indígena, constituindo numa forma de dominação. A cultura
indígena, portanto nossa cultura nativa representada pela língua Tupi Guarani, foi
imperiosamente afetada pela descoberta do Brasil pelos Portugueses em 1500.
( V ) O negro é integrante fundamental da cultura brasileira. “O negro foi, em algumas
regiões, a mão-de-obra exclusiva desde os primórdios da colônia. Durante todo esse
período a história do trabalho é, sobretudo, a história do escravo. Primeiro nos
canaviais, mais tarde nas minas de ouro, nas cidades ou nas fazendas, era ele o grande
instrumento do trabalho. Derrubando matas, roçando plantações, nas catas de ouro, nos
engenhos, na estiva, carregando sacos de mercadorias ou passageiros.o escravo foi
figura familiar na paisagem colonial. Foi mais do que mão-de-obra, foi sinal de
abastança.(....).”
( F ) As etnias que aqui se instalaram depois do descobrimento o fizeram de modo
simples e fácil. Do ponto vista dos imigrantes italianos, ao mesmo tempo em que uns
estruturam-se através de organizações, outros menos privilegiados economicamente
venderam sua força de trabalho utilizando-se de dispositivos que a cidade oferecia.
.
Apenas uma seqüência está correta:
a. FVV
b. VFV
c. VVF

2) Contribuições da etnia à cultura brasileira


(V ) Para o imigrante italiano a moral já compunha um conjunto de elementos da cultura
de origem ao mesmo tempo em que iria servir como fator de valorização da conduta do
imigrante na sociedade brasileira.
( F ) Os cultos de iemanjá e babalorixás são próprios da cultura indígena e largamente
disseminados na sociedade brasileira.
( V ) O trabalho foi para os imigrantes italianos o elemento central à criação de formas
de sobrevivência na cultura brasileira. Em decorrência dele inseriram modos de
produção cultural incorporados à nossa cultura.
Apenas uma seqüência está correta:
a. VFV
b. FVV
c. FFV

3) Os princípios que norteiam uma leitura às contribuições étnicas á cultura brasileira


podem assim indicados:
( F ) Trabalho, agricultura, religiosidade, cooperação.
( F ) Trabalho, religião, costumes, interesses comuns.
( V ) Trabalho, religião, costumes, tradições.
e interesses comuns.

Apenas uma seqüência está correta:


a. FVF
b. FVV
c. FFV
4) Quanto as etnias propriamente ditas:
( V ) Os índios ao contrário do que imaginamos representam, 0,25% da população
brasileira e estão distribuídos em diferentes grupos étnicos por essas regiões de norte a
sul do Brasil.
( F ) Os japoneses trouxeram contribuições importantes ao trabalho ao inserirem-se na
agricultura, comércio e educação.
( F ) Os negros se constituem no grupo étnico de maior penetração na sociedade
brasileira depois dos italianos, sendo apenas superados apenas pelos indígenas.

Apenas uma seqüência está correta:


a. FVF
b. VFF
c. FFV

5. É correto dizer em relação as etnias


( V ) As etnias com seus diferentes costumes e modos de ser, de viver e de fazer têm
deixado um legado importante à cultura brasileira, na medida em que a cada dia novos
elementos são introduzidos em todos os campos de realização.
( V) A cultura indígena, matriz de nossa cultura ainda que tenha sofrido importante
processo de degradação se mantém de modo organizado como também sobrevive de
maneira assistemática.
( F ) Tem como característica: a religião, o trabalho e o sincretismo.

Apenas uma seqüência está correta:


a. FVF
b. VFF
c. VVF

Questão para Reflexão


Geertz (1989, p. 9) fez a seguinte afirmação: a cultura é pública porque seu
significado o é. Comente em relação à contribuição das diferentes etnias à cultura
brasileira.
Atividade de aplicação
A cultura alemã em virtude dos limites deste trabalho e de ter se centrado mais
na Região Sul do Brasil, pouca visibilidade criou no conjunto da sociedade brasileira.
Entretanto, tem suas praticas que estão presentes destacadamente naquela região. Quais
delas podem ser elencadas? Qual delas tem mais expressão no cenário da cultura local.
Capítulo 04
Cultura e Diversidade

O termo diversidade adquire significado de complexidade singular justamente pela gama de


elementos que comporta. Esses elementos são nucleares à expressão e produção humanas do
ponto de vista cultural. Tanto pode incorporar a produção de bens materiais, como dizer respeito
à condição em que certos sujeitos vivem e atuam em sociedade e que se vinculam à condição
física, étnica, sexual, de gênero, de religiosidade, por exemplo.
A temática da diversidade por outro lado é ainda pouco estudada. Há dificuldade de definição.
Ora as compreensões dizem respeito à idéia de multiculturas, sem haver precisão sobre esse
significado, ora sobre etnias, genro, sexualidade e raça, e finalmente incorporando também
questão lingüística. Parece haver, diante disso, uma complexidade de elementos na composição
daquilo que consideramos como cultura diversa. Além disso há também a questão á própria
produção humana em sentido bastante genérico.
Desse modo, a diversidade se manifesta como o cenário sobre o qual processos educativos
formais devem ser desenvolvidos e sobre os quais a escola hoje mais do que ontem não pode
descurar-se. Assim, olhá-la não se constitui uma necessidade imposta pela chamada pós-
modernidade, mas uma conseqüência do que se convencionou denominar de modernidade em
cujo processo sujeitos gradativamente construíram modos de produção e de expressão que lhes
atribuíram mais visibilidade nas sociedades das quais são integrantes. No Brasil, o que podemos
denominar de fenômeno da diversidade passa adquirir dimensões sem precedentes,
principalmente nas últimas décadas do século XX. Sua dimensão continental e distribuição
geográfica regional bastante diferenciada propiciaram um substancial e qualitativo
desenvolvimento tecnológico no sudeste e centro sul. Por outro lado, não deixa de compor um
universo comum por aquilo que o país representa em termos de uma composição cultural que
podemos denominar de clássica no que pese ao cultivo de certas tradições culturais,
provenientes tanto dos processos históricos imigratórios (carnaval, culinária, religião,
expressões artísticas, cooperativismo), como de manifestações já existentes em se tratando das
heranças indígenas. Avançando para além dessa espécie de convencionalidade cultural, os
movimentos sociais que podem ser compreendidos como um dos resultados da efetivação do
Estado de direito tem permitido, como em outros países, a certos segmentos sociais
conquistarem lugar e posição social na medida em que têm direitos garantidos, como é o caso de
negros, índios e homossexuais. Lugar e posição social significam atendimento a direitos básicos
tais como: o acesso à educação escolar, à saúde, ainda que de modo particularizado, como é o
caso dos índios, por exemplo, mas que dada à natureza e especificidade do grupo (BRASIL,
CONSTITUIÇÃO FEDERAL de 1888, Art. 209, § 2º), entendemos não devesse ser diferente.
Por isso, o propósito deste capítulo é o de abordar a questão da cultura e da diversidade cultural
como necessárias em relação de interlocução, ou seja, de interconexão. Em uma sociedade
como Brasileira torna-se impossível falar de cultura pelo fato de não haver uma só. Há uma
variedade que se interpenetra. Razão pela qual a diversidade que origina a multiplicidade de
elementos culturais precisa ser olhada.
Cultura e diversidade
Parece consenso no pensamento antropológico brasileiro o fato de que no Brasil
há uma cultura diversa não sendo, por essa razão, possível falar de uma única e singular
cultura22. Não é sem razão. Num sentido clássico quando referimos sobre a diversidade
da cultura brasileira, logo nos remetemos à influência indígena que sobreviveu à
imposição cultural colonizadora portuguesa; a africana por meio dos negros escravos e,
fechando essa composição, aos imigrantes europeus (alemães, italianos, poloneses e
japoneses) que, por sua vez definem modus vivendi próprios de grupos que possuem
particularidades que podem ser traduzidas em costumes alimentares, práticas e ritos
religiosos, músicas, danças, vestimentas, língua, por exemplo. Assim, esse sentido já se
configura na tradição conceitual antropológica como cultura. Entretanto, na atualidade,
ele parece não ser suficiente para traduzir a idéia de diversidade cultural justamente
porque o termo diverso tal como o traduz Ferreira (1986, p. 602), significa “diferença,
dessemelhança, dissimilitude, divergência, contradição, oposição”. Esta acepção ao
mesmo tempo em que engloba a diversidade acima indicada, também é suficientemente
abrangente para incorporar elementos não propriamente convencionais quando se trata
de opção sexual e gênero, quando questões referentes às antigas minorias são trazidas à
baila no seio social e ganham relevo pela importância social que passaram a adquirir na
sociedade contemporânea.
Desse modo, trata-se de um entendimento que se aproxima do que expressou
Willians (1992), ao tratar de cultura em dois sentidos:

Nos (i) sentidos antropológico e sociológico, como “modo de vida global” distinto, dentro do
qual percebe-se, hoje, um “sistema de significações” bem definido não só como essencial, mas
como essencialemnte envolvido em todas as formas de atividade social e, (ii) o sentifdo mais
especializado, ainda que também mais comum, de cultura como “atividades artísticas e
intelectuais”, embora estas, devido à ênfase em um sistema de significações geral, sejam agora
definidas de maneira muito mais ampla, de modo a incluir não apenas as artes e as formas de
produção intelectual tradicionais , mas também todas as “práticas significativas” – desde a
linguagem, passando pelas artes e filosofia, até o jornalismo, moda a publicidade - que agora
constituem esse campo complexo e necessariamente extenso.

22 Ver nesse sentido a obra de Alfredo Bosi “Dialética da colonização”. São Paulo; Companhia das Letras, 1992.
Destacadamente o primeiro sentido representado pela idéia de modo de vida
global distinto dentro de um sistema de significações envolvendo todas as formas de
atividade social nos é oportuno para refletir sobre a diversidade cultural brasileira.
Cenário cultural que se manifesta desafiador e exigente quando se trata de requerer para
o professor no exercício da docência o domínio de saberes que o permita apreendê-la no
seu labor cotidiano. Ela faz parte de um contexto social que não é uma abstração
sociológica, nem um horizonte longínquo ou situado “fora” da escola. É, ao mesmo
tempo, individual e coletivo e concreto.
A idéia de sistema de significados é própria a diferentes grupos sociais pela
natureza subjetiva a diferentes práticas, representações, modos simbólicos sob ou a
partir dos quais diferentes grupos sociais e/ou sujeitos estabelecem convívios sociais e
produzem. No processo de convivência direta ou indireta os significados dimensionam
sentidos explicativos às suas existências. Assim os significados também são múltiplos e
complexos daí o sentido de sistemas. Um amaranhado de realizações que, por se
situarem fundamentalmente desde um nível subjetivo ultrapassam a própria aparência
simbólica das práticas, dos ritos que não são mais do que manifestações exteriores de
uma interioridade que precisa ser dada a conhecer a outrem.
Desse modo, o entendimento de sistema de significados torna-se, ao mesmo
tempo, princípio fundamente à compreensão da diversidade cultural em decorrência da
multiplicidade de elementos que lhe é constitutiva.
Por isso, entender as diversas culturas implica ultrapassar padrões de leitura
exclusivos da própria cultura para compreender o ser em relação, estender o campo de
visão para outros modos de fazer religião, a exemplo. Bem como a religiosidade. Tais
modos configuram também imagens que são múltiplas e seus sentidos variados. Poder-
se acercar delas, experimentá-las, contemplá-las, porém jamais penetrá-las para além
das aparências. Por isso, as práticas culturais só são inteligíveis no universo da própria
cultura.
Os sistemas de representações simbólicos estão inseridos em processos e
contextos sócio-históricos específicos, nos quais eles são produzidos e, acham-se por
assim dizer, situados no âmbito daquela multiplicidade.
Com efeito, cabe sem dúvida falar sobre produção cultural (WILLIANS, 1992),
e sua decomposição em suas possibilidades de produção material, por meio de artefatos,
mas concomitantemente de produção simbólica, gerada quer por artefatos, quer de
manifestações por meio de comportamentos, música, dança e religião, práticas
costumeiras cotidianas e sua articulação com certos rituais, a exemplo, a cerimônia de
chá para os japoneses e seus descendentes. Tais manifestações sem dúvida têm como
conseqüência a promoção de relações sociais de cultura (WILLIANS, 1992), gerando
também novas relações de produção cultural quando as experiências culturais se
interconectam. Um exemplo já bastante comum são as feiras de artesanato e/ou de
comidas típicas (regionais e internacionais, promovidas por migrantes e imigrantes), que
viraram lugar comum em centros urbanos. Em processos de relações como esses, além
de trocas simbólicas interculturais, também há, certamente, apropriação. Nesse sentido,
a compreensão de diversidade não encerra em si mesma, não é estanque, mas se nutre
também de outros referenciais culturais, dai sua complexidade.
A diversidade cultural é um tema de especial relevância porque permite-nos
também refletir sobre a inclusão de culturas que têm sido historicamente excluídas de
direitos e que é, ao mesmo tempo, necessária para a construção de uma escola
democrática e, por essa razão, mais inclusiva. Ao mesmo tempo em que se manifesta
como um imperativo, é conseqüência salutar de progressivas mudanças que expressam
ambivalentemente conquistas, mas também recuos, razão pela qual faz-se necessário ao
universo educativo escolar abrir-se para à convivência com as diferentes expressões
culturais e estimular movimentos de afirmação da identidade cultural dos diferentes
grupos existentes no Brasil.
Nessa perspectiva, os desafios da reflexão contemporânea circundam uma
situação irremediavelmente pluralista, onde um tipo de racionalização fechada cedeu
espaço à outra de diferente natureza, mais flexível, cuja pretensão é fornecer descrições
ou explicações abrangentes e totalizantes do mundo e da vida, fato este que proporciona
a possibilidade de manifestações de muitos processos de hibridização cultural. Estes
processos podem ser definidos por meio de várias linguagens que se interpenetram (o
hip hop), cuja matriz serve de base para composições musicais que contém narrativas de
denuncias de violências e de segregação de grupos que encontram nessa forma de
comunicação, um meio de serem ouvidos e, ao mesmo tempo, constituírem-se em
protagonistas e participarem de modo ativo de manifestações culturais de seu tempo.
A compreensão sobre a diversidade e, conseqüentemente, o respeito a ela pode
ser traduzida como o passar de uma visão refratária para outra onde valores são
redefinidos de modo a deixar emergir modos de ser e de fazer próprios não dominantes
principalmente do ponto de vista econômico, aspecto que não pode ser descurado nas
interpretações sobre diversidade.
Uma apreciação sobre cultura e diversidade requer que nos remetamos à idéia de
diversidade estritamente conectada a multiculturalismo, principalmente em sociedades
como o Brasil quando é possível falar de muitas culturas que, em si são plurais porque
guardam singularidades devida ao componente regional, as etnias e suas contribuições.
Neste sentido, práticas e crenças religiosas, artefatos, música, dança, vinculadas por
grupos étnicos, ou mesmo modus vivendi das tradicionalmente chamadas minorias, se
constituem em culturas que, por sua vez, contém particularidades que as tornam plural
desde sua interiorização. Por isso essa é uma questão não simples de ser incorporada
pela escola, por exemplo, que tem a tradição de lidar com um padrão homogêneo de
cultura. Este não pode deixar de ser analisado fora das relações de dominação e de
imposição cultural fartamente postos na literatura educacional, bem como sobre sua
validade pretensamente universal dentro de nossa sociedade.
Olhar a diversidade significa em sociedades desiguais como a nossa, mirar os
diferentes segmentos de classe social. Isso é fundamental porque é um requisito
necessário para os modos de inserção social que são criados por aqueles que desejam
participar mais ativamente do mundo múltiplo no qual vivem. A diversidade se encontra
em modos de fazer e viver dos grupos sociais. Cada um desses grupos possui em seu
interior maneiras de viver e formas de produzir objetos culturais.
A diversidade cultural, além disso, pode ser também caracterizada por diferentes
elementos, tais como: a genética e suas variações entre grupos e classes, as línguas, as
linguagens e os modos como estão distribuídas nas diferentes regiões no mundo e
dentro dos países e, como já indicamos anteriormente a gama de indivíduos, seus
comportamentos em um contexto histórico comum.
Cultura, diversidade e globalização
No mundo atual são muitos os desafios a serem enfrentados pelos povos no
interior de seus espaços geográficos é em tempos do que Ortiz (1994) chamou de
desterritorialização da cultura. Ainda que a cultura seja diversa em seu interior, e o
Brasil é um exemplo disso, essa diversidade também é invadida por elementos de outras
culturas que se manifestam em decorrência do processo de globalização. São entradas
de costumes, de valores, de práticas comerciais, de práticas de fabricação, de línguas
diferenciadas, enfim de produtos que deixam de ser exclusivos de um território e que
têm também os meios de comunicação como os seus principais veículos de transmissão.
Já há mais de dez anos esse autor indicava o que considerou os sinais de
desterritorialização da cultura e que hoje vemos consolidados em nosso espaço
geográfico:
São vários os sinais de desterritorialização da cultura. Um carro esporte Mazda é
desenhado na Califórnia, financiado por Tóquio, o protótipo é criado em Worthing
(Inglaterra) e a montagem é feita nos Estados Unidos e México, usando componentes
eletrônicos inventados em Nova Jérsei, fabricados no Japão. O “Ford-Fiesta” é montado
em Valência (Espanha), mas os vidros vêm do Canadá; o carburador da Itália; os
radiadores da Áustria; os cilindros as baterias e a ignição da Inglaterra; o pistão da
Alemanha; e o eixo de transmissão da França. (...). As roupas japonesas, consumidas no
mercado americano, São fabricadas em Hong Kong, Taiwan, Coréia do Sul e
Cingapura; já a indústria de confecção norte-americana quando inscreve em seus
produtos “made in USA”, esquece de mencionar que eles foram produzidos no México,
Caribe, ou Filipinas. (ORTIZ, 1994, p. 108)
Observa-se que desse mundo diverso participam outros mecanismos que são
culturais e que não estão diretamente incluídos naqueles elementos indicados
anteriormente como característicos da diversidade cultural, mas são produzidos no seu
interior em relações sócio-econômicas específicas. Ainda Para Ortiz (1994),
O movimento de desterritorialização não se consubstancia apenas na realização de
produtos compostos, ele está na base da formação de uma cultura internacional-popular
cujo fulcro é o mercado consumidor. Projetando-se para além das fronteiras nacionais,
esse tipo de cultura caracteriza uma sociedade global de consumo, modo dominante da
modernidade-mundo. (....). (p. 111).

Além da desterritoriazação da produção e da ênfase na cultura do consumo, a


cultura globalizada tende a suprimir línguas pela imposição de uma dominante, advinda
de um centro hegemônico. Outra questão sob ameaça é a diversidade lingüística, de
conteúdo rico pela gama de variações que comporta acha-se sob ameaça pela imposição
de padrões homogêneos de uso da língua. As relações entre línguas se dão também em
bases da supremacia econômica e política. Neste sentido numa relação hierárquica cuja
imposição pode ser feita de maneira aparentemente natural por meio da rede mundial de
computadores, de onde certos termos vão sendo cotidianamente incorporados pelos
indivíduos e passam a ter validade universal.
Há que ficar a preocupação com preservação com as particularidades das
culturas em meio a tantas manifestações. Estas tornam uma cultura robusta, mas podem
perder-se se a elas não for dado o devido valor. A cultura indígena no Brasil, pede
socorro há muitos anos. Interesses econômicos têm sido enfrentados no sentido de não
despojarem tribos indígenas de seus territórios ainda que o estado venha se
comprometendo com suas garantias há muito tempo.
Se estou entendendo cultura como produção humana que se manifesta
socialmente de modos simbólicos diferenciados num cenário de múltiplas realizações, a
tecnologia como produção certamente se insere no conjunto de produções humanas que
historicamente vem sendo aperfeiçoada embasada no vertiginoso avanço científico
desde a modernidade. A produção e fomento ao uso da tecnologia têm sido feitos com
fins não exclusivamente econômicos, mas principalmente sociais, com o fito de facilitar
a vida social em diferentes aspectos. A condição econômica de cada cultura tem
determinado sua maior ou menor propagação nas diferentes culturas e, com certeza seus
usos.
O avanço tecnológico dentro da lógica global que nele encontra um dos seus
mecanismos de funcionamento mais eficientes, impõe para as diferentes culturas
necessidades não convencionais. O acesso à informação é uma delas. Se até os anos de
1980 do século XX a informação era adquirida via jornais, rádio e televisão. Hoje a
televisão e a internet têm supremacia. Mas o acesso à internet ainda precisa ser
democratizado em países como o Brasil. O acesso acha-se intimamente vinculado á
condição de classe social. Assim,
O ato da comunicação está no cerne da globalização e da sustentação da diversidade
cultural. É na comunicação que o indivíduo expressa sua identidade, opiniões e
intenções, e as confronta com outros indivíduos oriundos de contextos culturais
distintos. Como bem expressa Hoyos,(10) «no ato comunicativo se entretecem a
diversidade de perspectivas, origem do multiculturalismo, e a perspectiva de cada qual,
fundamento vivencial de identidade pessoal, para (...) chegar ao acordo fundador da
ciência e da sociedade, a saber: que dando razões e motivos se estabelecem consensos e
dissensos».(TAKAHASHI, 2004).
Por outro lado o acesso à internet o não restringe somente a uma questão de
classe social e de condição econômica. Se para ver televisão e ouvir rádio não há
necessidade de educação escolar, com a internet esse tipo de educação passa as ser um
imperativo. A aqui a cultura torna-se um requisito não enquanto criação humana, mas
como um dado externo ao qual os indivíduos que vivem no Brasil, principalmente os de
segmentos economicamente menos favorecido, precisam a auferir como condição para
conectarem-se com o mundo.
No universo da diversidade a educação escolar se faz uma exigência por uma
série de razões. A primeira delas diz respeito à própria alfabetização. Aqui ela se
manifesta em três sentidos: o de aprendizado da leitura e da escrita, o do adomínio das
ferramentas/equipamentos que permitem o acesso à rede mundial de comtputadores e, a
leitura crítica dos conteúdos veiculados nos diferentes sitos. A segunda razão: a
educação escolar permite minimamente o acesso a esses meios enquanto possibilidade
de o indivíduo pagar pelo equipamento para tê-lo em casa ou poder pagar para acessá-lo
em lugares destinados para esse fim. Essas posibilidades são indicadas pelas condições
objetivas econômico-financeiras propiciadas pela sua participação no mundo do
trabalho. As políticas de acesso à informação são muito mais complexas do que à
primeira vista possam parecer.
Por fim, penso que o cuidado com a diversidade traz nas entrelinhas um
problema que é fundamental e, ao mesmo tempo o coloca-a sob visibilidade: de um lado
o problema da diferença, historicamente camuflado e, de outro o perigo da excessiva
pulverização de interesses de grupos na direção da lógica da individualização que pode
em longo prazo estimular práticas tribais onde o coletivo se perde em nome da intensa
necessidade de atender interesses de pequenos grupos. A universidade de negro é uma
conquista. Mas pode também ser um retrocesso na medida em pode se tornar um espaço
onde só negros transitam por sentirem-se sempre e eternamente discriminados.

Olhar, fazer uma leitura da diversidade se constitui um exercício novo do ponto de vista cultural
sob a abrangência que ela se manifesta e pode ser lida. O potencial da leitura certamente será
dado pelas possibilidades do olhar de quem lê. Essa leitura requer abertura para o novo que, ao
mesmo tempo é velho em muitos aspectos. Novo enquanto, por exemplo, decorrentes do
processo de globalização: as novas linguagens, os novos comportamentos; o volume de
informações disponíveis na rede, a inserção cada vez mais acentuada da mulher no mundo do
trabalho e as conseqüência que isso traz para a a família em termos de revolução de costumes. O
velho expresso nas etnias indígenas, e negras com suas infinitas contribuições à cultura
brasileira que a idéia de diversidade traz à tona contraditoriamente como novas. Certamente a
diversidade se manifesta com mais destaque em tempos considerados pós-modernos, também
pela necessidade de sobrevivência nos conturbados espaços urbanos onde a criatividade vale
também como condição para a conquista de um lugar ao sol.

Referenciais:
BRASIL, Constituição da República Federativa do Brasil: promulgada em 5 de outubro de 1988. São
Paulo: Saraiva, 2000.
BOSI, Alfredo. Dialética da colonização. São Paulo; Companhia das Letras, 1992.
FERREIRA, A. B. de H. Novo Dicionário da Lngua Portuguêsa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
ORTIZ, Renato. Mundialização e cultura. São Paulo, Brasiliense, 1996.
TAKAHASHI, T. Diversidade Cultural e Direito a Comunicação.In: Pensar Ibero América. Revista de
Cultura on-line, n. 6, maio de 2004.
HOBSBAWM, Eric, RANGES, Terence. A invenção das tradições. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984.
LINHARES, Célia; LEAL, Maria Cristina (Org.). Formação de professores: uma crítica à razão e à
política hegemônicas. Rio de Janiero: DPA, 2002.
McLaren, Peter Multiculturalismo revolucionário:pedagogia do dissenso para o novo milênio. Porto
Alegre: Artes Médicas, Sul, 2000.
WILLIAMS, R. Cultura. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1992.

Atividades
Indicações culturais
Filme: A Fuga das galinhas.
Ver, biblioteca, www. gper.com.br

Sinopse:
Em “A Fuga das Galinhas” aborda-se o sentido do coletivo e do grupo por meio das
diversidades individuais em relação ao grupo. Trata-se por assim dizer de uma
discussão sobre a natureza de cada um e como ela se manifesta no grupo e é por esse
coletivo, o grupo, gerida. Nesta perspectiva é possível fazer uma analogia entre essa
forma de diversidade e a diversidade cultural, por exemplo, em nossa sociedade. Onde
historicamente tem se lidado com uma ideologia de cultura homogênea apresentado
hoje o imperativo de olhar essa cultura sob a ótica da diversidade.

Atividade de auto-avaliação

Nas questões a, b, c, d a seguir, marque as sentenças com verdadeiro (V) ou falso (F).

1) Sobre a idéia de diversidade


( V ) A temática da diversidade é ainda pouco estudada. Há dificuldade de definição.
Ora as compreensões dizem respeito à idéia de multiculturas, sem haver precisão sobre
esse significado, ora sobre etnias, genro, sexualidade e raça, e finalmente incorporando
também a linguagem. Parece haver uma complexidade de elementos na composição
daquilo que consideramos como cultura diversa. Além disso há também a questão á
própria produção humana em sentido bastante genérico.
( F ) a diversidade se manifesta como o cenário sobre o qual processos educativos
formais devem ser desenvolvidos e sobre os quais a escola hoje mais do que ontem não
pode descurar-se. Assim, olhá-la não se constitui uma necessidade imposta pela
chamada pós-modernidade, mas uma conseqüência do que se convencionou denominar
de modernidade em cujo processo sujeitos gradativamente construíram modos de
produção e de expressão que lhes atribuíram mais visibilidade nas sociedades das quais
são integrantes. No Brasil, o que podemos denominar de fenômeno da diversidade passa
adquirir dimensões sem precedentes, principalmente nas últimas décadas do século
XIX.
( F ) A diversidade tanto pode incorporar a produção de bens materiais, como dizer
respeito à condição em que certos sujeitos vivem e atuam em sociedade e que se
vinculam à condição física.
Está correta a seqüência seguir:
a.VFV
b. FVF
c. VFF
2) Cultura e diversidade
( V ) Ainda que a cultura seja diversa em seu interior, e o Brasil é um exemplo disso,
essa diversidade também é invadida por elementos de outras culturas que se manifestam
em decorrência do processo de globalização. São entradas de costumes, de valores, de
práticas comerciais, de práticas de fabricação, de línguas diferenciadas, enfim de
produtos que deixam de ser exclusivos de um território e que têm também os meios de
comunicação como os seus principais veículos de transmissão. A esse fenômeno
também se chama de desterritorialização da cultura.
( F ) A cultura indígena no Brasil vem sendo destacadamente atendida há muitos anos.
Interesses econômicos têm sido enfrentados no sentido de não despojarem tribos
indígenas de seus territórios ainda que o estado venha se comprometendo com suas
garantias há muito tempo.
( V ) Olhar a diversidade significa em sociedades desiguais como a nossa, mirar os
diferentes segmentos de classe social. Isso é fundamental porque é um requisito
necessário para os modos de inserção social que são criados por aqueles que desejam
participar mais ativamente do mundo múltiplo no qual vivem. A diversidade se encontra
em modos de fazer e viver dos grupos sociais. Cada um desses grupos possui em seu
interior maneiras de viver e formas de produzir objetos culturais

Está correta a seqüência seguir:


a. VFV
b. FVF
c. VFV
d. FVV

3) Cultura, diversidade e globalização


( V ). Há que haver a preocupação com a preservação das particularidades das culturas
em meio a tantas manifestações. Estas tornam uma cultura robusta, mas podem perder-
se se a elas não for dado o devido valor.
( F ). O movimento de desterritorialização se consubstancia apenas na realização de
produtos compostos, ele não está na base da formação de uma cultura internacional-
popular cujo fulcro é o mercado consumidor. Projetando-se para além das fronteiras
nacionais, esse tipo de cultura caracteriza uma sociedade global de consumo, modo
dominante da modernidade-mundo.
( V ) A diversidade cultural é um tema de especial relevância porque permite-nos
também refletir sobre a inclusão de culturas que têm sido historicamente excluídas de
direitos e que é, ao mesmo tempo, necessária para a construção de uma escola
democrática e, por essa razão, mais inclusiva;
Está correta a seqüência seguir:
Está correta a seqüência seguir:
a. FVV
b. FVF
c. VFV

4) Cultura e tecnologia
( V ). O avanço tecnológico dentro da lógica global que nele encontra um dos seus
mecanismos de funcionamento mais eficientes, impõe para as diferentes culturas
necessidades não convencionais. O acesso à informação é uma delas. Se até os anos de
1980 do século XX a informação era adquirida via jornais, rádio e televisão. Hoje a
televisão e a internet têm supremacia
( V ) A cultura é entendida como produção humana que se manifesta socialmente de
modos simbólicos diferenciados num cenário de múltiplas realizações, a tecnologia
como produção certamente se insere no conjunto de produções humanas que
historicamente vem sendo aperfeiçoada embasada no vertiginoso avanço científico
desde a modernidade.
( V ) No universo da diversidade a educação escolar se faz uma exigência por uma série
de razões. A primeira delas diz respeito à própria alfabetização. Aqui ela se manifesta
em três sentidos: o de aprendizado da leitura e da escrita, o do domínio de
ferramentas/equipamentos que permitem o acesso à rede mundial de computadores e, a
leitura crítica dos conteúdos veiculados nos diferentes sitios.

Está correta a seqüência seguir:


a. FVV
b. VVV
c. FVF

5. Sobre a diversidade
(F) A diversidade pode ser entendida apenas como a contribuição de diferentes etnias á
cultura.
(V) A diversidade pode ser entendida como um dos modos de exemplificar a idéia de
teia de significados considerando suas possibilidades de contribuição á cultura
brasileira.
(V) O processo de globalização traz importantes contribuições á cultura, embora haja o
perigo de imposição.

Está correta a seqüência seguir:


a. FVV
b. VFF
c. FVF

Questão para Reflexão


Após a leitura do capítulo relacione a idéia de desterritorialização de Ortiz, com
a de diversidade cultural no Brasil contemporâneo.
Atividade de aplicação
A diversidade cultural é um fenômeno decorrente de uma série de fatores não só
relacionados a etnia, sexo, gênero, nacionalidade, mas também a outros fatores que, tais
como a língua e linguagens por exemplo que compõem uma complexa teia de
significados múltiplos para as diferentes culturas. A diversidade leva à compreensão de
muitas culturas. Se por um lado a homogeneização cultural é um problema pela
supremacia de culturas dominantes, por outro a diversidade cultural pode ser um
problema. Caracterize modos de homogeneização cultural versus modos de diversidade
cultural, destacando as implicações de ambas.
Capítulo 05
Cultura e Educação

A educação é uma prática social que, não só simboliza como torna concreta uma dimensão
eminentemente humana através de seu caráter histórico que sintetiza o próprio devir do existir
do homem tanto sob sua forma sistemática como assistemática. Por ser uma prática humano-
social acha-se intrinsecamente disseminada na sociedade. Por isso é imprescindível enquanto
elemento caracterizador de múltiplos modus vivendi de diferentes povos.
Por ser uma prática social historicamente construída cujo propósito é a formação do
sujeito visa incutir hábitos e desenvolver condutas, valores, socialmente aceitos em certa cultura
de acordo com o momento histórico vivido e necessidades existentes.
Assim, as características humano-sociais determinam e exigem modos diferenciados de
educação de vida para cada povo e, por assim dizer, de cada cultura. De modo amplo, uma
sociedade caracteriza-se pelas experiências, práticas educativas que transmite às gerações
posteriores seus valores, costumes, tradições, hábitos que fazem com que sua cultura seja
mantida ou modificada dependendo por isso, de como se desenvolve historicamente cada grupo.
Esses grupos podem ser exemplificados pela família, a igreja, os grupos de amigos, a vizinhança
entre outros.
Importa destacar que nenhuma sociedade é culturalmente superior ou inferior a outra.
Há a existência de grupos socialmente diferentes. Por isso, cada cultura só pode ser
compreendida a partir e dentro dela.
Observe-se que esta é uma compreensão bastante ampla de educação já que não se
restringe a um tipo específico, mas a educação de modo geral. Neste sentido, para Brandão
(1989), existem tipos diferenciados de educação na medida em que estes se acham estritamente
vinculados a um tipo particular de cultura. Assim, existirão tantos tipos de educação quanto
forem os de cultura. Mas é não é só isso. Estamos nos educando a todo instante considerando
que, a educação encontra-se difusa nas relações e práticas sociais exercitadas pelos diferentes
grupos sociais.
Por outro lado, para Saviani (1986), correlacionando educação a cultura, distingue três
tipos:
educação escolar", "educação difusa" e "educação popular". A Educação escolar corresponde à
cultura erudita. Rege-se por padrões eruditos, sua finalidade é formar o homem "culto" no
sentido erudito da palavra, seu conteúdo e sua forma são eruditos; é enfim, o principal meio de
difusão da "cultura erudita. Aquilo que estamos chamando, na falta de uma expressão mais
adequada, de “educação difusa”, corresponde à “cultura popular”. (1986, p. 82).

Relaciona educação difusa à cultura de massa para o que participam decisivamente os meios de
comunicação de massa. Esse autor vincula ainda, educação popular à cultura popular por sua
característica animista, realista e prática (SAVIANI, 1986, p. 81-2).
O que chama atenção na definição de Saviani é a relação que estabelece entre educação
e cultura. É diferente daquela defendida por Brandão. Nesta ela é própria de certo grupo,
significando, por assim dizer, aquilo que o caracteriza que o torna peculiar. Em Saviani a cultura
tem também fins mercadológicos, ou seja, vincula-se estreitamente á idéias e valores, enfim,
interesses que se deseja sejam veiculados por entre um contingente amorfo de indivíduos
(1986).
Freire (1987), diferentemente de Saviani e avançando para uma compreensão mais abrangente
de educação, entende-a como sinônimo de conscientização. Valores, atitudes, comportamentos
só serão válidos se estiverem correlacionados à libertação que significa a tomada de consciência
do sujeito sobre o seu estar aqui e agora no mundo que o rodeia. Deve, pois significar
instrumento de libertação na sua relação com e mundo, para poder assim interferir sobre ele.
Quer em seu sentido formal quanto informal por achar-se disseminada na sociedade, a educação
se presta a certo tipo de serviço no sentido tanto de libertar como de oprimir pessoas. Eis aqui
seu caráter político. A educação informal e a formal estão disseminadas na sociedade por meio
de diferentes instituições e é por estas que realiza sua função política tendo como protagonistas
diferentes sujeitos sociais. Entre estas instituições está a Igreja que, enquanto tal, e, por sua
natureza cumpre uma finalidade doutrinária do ponto de vista social. Esta finalidade é diferente
da educação que se desenvolve no interior da escola.
De um modo ou outra as pessoas são educadas no interior da sociedade. No entanto no modo
escolar é preciso direcionamento, finalidade definida pelo estado principalmente. Ele tem o
papel e função de ofertar educação para a maioria da população, neste particular da sociedade
brasileira. O estado cumpre uma função ideológica importante como definidor de um projeto
social por meio da educação escolar. Esse papel e função devem estar estritamente relacionados
com as aspirações sociais quando se trata de formato de estado democrático.
Considerando a questão do Estado, é preciso compreender por um lado, como a educação
escolar tem sido propiciada à grande parcela da população brasileira correlatamente ao fato de
que ela pode tornar-se instrumento de libertação levando em conta a realidade educacional do
país historicamente construída. Quando falamos sobre os negros no capitulo III e o modo como
eles foram introduzidos no Brasil, aquele entendimento contribui sobremaneira para
entendermos a relação entre estado e sociedade no Brasil. A sociedade brasileira, de bases
escravocratas, pouco têm contribuído por meio de Estado com a maioria da sua população no
campo educacional. O analfabetismo que é histórico. Embora hoje tenhamos reduzido o
analfabetismo entre jovens de entre 15 a 18 anos para o percentual de 13%, este ainda se revela
um problema a ser resolvido. Trata-se de indivíduos jovens que poucas chances têm de inserção
no mundo do trabalho. Estarão sem dúvida às margens do processo produtivo. A educação
escola não tem sido ao longo da história do Brasil uma questão de eminente preocupação social.
Desse modo poucas têm sido as possibilidades de acesso á cultura, que como conhecimento
sistematizado, quer como arte, por exemplo.
A escolarização é uma exigência que está posta na base da formação do homem moderno.
Correspondentemente a essa exigência a escola tem sido o espaço institucionalizado responsável
pela formação sistemática de sucessivas gerações, onde professores interagindo com os
estudantes e outros atores interferem de algum modo na formação de indivíduos. Fator
fundamental para a compreensão de transformações nas diferentes sociedades e culturas e, nesse
universo, no mundo do trabalho. É evidente que o impacto do ensino escolarizado sobre esse
mundo, não se limita à variáveis econômicas, pois a escolarização está, mais do que nunca, no
coração do processo de renovação social no seu sentido mais amplo por meio da distribuição de
conhecimentos na sociedade.
A sociedade atual cada vez mais exige dos diferentes profissionais, o domínio de saberes que os
possibilite responder às suas múltiplas demandas. É justamente neste aspecto, ou seja, suas
múltiplas demandas, que incide a questão da diversidade e sua relação com a cultura e os
saberes, termos esses que serão mais bem analisados em itens posteriores.
Para tanto me parece importante estruturar uma concepção educativa escolar cujo entendimento
reside na importância de o aluno apreender novos conhecimentos que dêem conta de
compreender e traduzir aquela diversidade em sua especificidade e natureza para que o ato
educativo possa dar-se em consonância com os requisitos da diversidade cultural. Esse é sem
dúvida um grande desafio que tem sido posto para a escola brasileira, fundamentalmente em
nível básico que, nas grandes capitais recebe migrantes de diferentes regiões na medida em que,
essas capitais como grandes centros tiveram intensificado a urbanização, a indústria, bem como
os serviços de diferentes naturezas. Há que se falar também de diferentes linguagens que
acessam o terreno escolar no processo de escolarização de sujeitos que, por essa razão,
ultrapassam o âmbito meramente lingüístico para abarcar o entendimento de cultura em seu
complexo significado.
A educação escolar tem papel fundamental no sentido de promover interpretações das diferentes
manifestações simbólicas, ao fomentar o exercício educativo consubstanciado no respeito à
diversidade.
Por isso, a educação aberta à diversidade cultural não emerge por razões pedagógicas
exclusivamente, mas por motivos sociais, políticos e ideológicos 25. Nas últimas décadas, tem
crescido no Brasil a consciência sobre ser a realidade brasileira formada por matizes de novos
cidadãos brasileiros que a partir de movimentos articulados (negros, indígenas, feministas, sem
terras, homossexuais, mulheres, etc.), buscam fazer-se conhecer e reconhecer como parte
substantiva de uma diversidade múltipla e de características próprias.
Assim, tanto as produções como as trocas culturais são eivadas de significado, razão pela qual,
os significados culturais nos remetem também ao domínio do simbólico que, por “pertencer” ao
universo subjetivo, desafia a escola a ultrapassar o âmbito das condições objetivas e
interconectar aquele a estas.

Saberes Escolares
Os saberes escolares se consubstanciam em conhecimentos que são considerados
importantes de serem apreendidos pelos alunos. Na tradição escolar formal eles têm
natureza diferente. Podem advir de disciplinas, mas também de praticas, experiências
vivenciadas pelos alunos na escola, razão pela qual estão vinculados ao currículo formal
e ao oculto.
Os saberes escolares como articulados à idéia de disciplinas escolares são
também adotados neste trabalho. São saberes que correspondem aos diversos campos de
conhecimento, aos saberes de que dispõe a nossa sociedade, tais como se encontram
hoje integrados nas universidades sob a forma de disciplinas, no interior das faculdades
e de cursos distintos (Tardif, 2002, p. 38). Mas também são saberes difusos que
tradicionalmente estiveram fora da cultura dominante e que hoje a perspectiva de
diversidade tenta incorporar aos currículos escolares. Por exemplo:

O estudo da História e das culturas africanas e afro-brasileiras na escola favorece o


conhecimento de nossa diversidade social, mas, ao mesmo tempo, aponta os conflitos
subjacentes ao modelo educacional, que até o momento se recusava a considerá-las

25 Refere-se nesse sentido a idéias.


como um fator constitutivo da sociedade brasileira.(...) (PEREIRA, 2008, p. 8)

Os saberes escolares destinam-se a propósitos específicos, por meio de práticas


orquestradas para esse fim. Visam à formação de condutas e à orientação para um fazer,
levando em conta a formação social que se espera em longo prazo. No conjunto de um
ideário de formação fazem parte da grade curricular e adquirem um sentido maior, o da
formação em certo tempo e espaço históricos, na medida em que incluem
comportamentos, hábitos, atitudes e a necessidade de aprendizagem de certas práticas
de finalidade educativa formal. A transmissão de saberes escolares tem como pano de
fundo, concepções pedagógicas que se traduzem por meio de diferentes teorias que
buscam explicar a maneira através da qual o sujeito apropria-se do conhecimento, tendo
como preocupação central o entendimento sobre como aprendemos, no processo de
ensino/aprendizagem na escola. Tais concepções podem variar ao acompanharem, no
tempo, exigências sócio-históricas. Os saberes escolares são também analisados como
integrantes da cultura escolar, na dimensão da especificidade da escola no que se refere
àquilo que ela se propõe e realiza no processo formador ao longo do tempo. Neste
sentido, os saberes como constitutivos da cultura escolar são entendidos como teorias,
idéias, rituais, hábitos, práticas, formas de fazer e pensar, mentalidades e
comportamentos, que estão presentes na escola por estarem na sociedade, fazem parte
de sua tradição e vão sendo repassados ao longo do tempo26.
As relações escolares no seu conjunto acham-se mediadas por diferentes saberes
que se tornam mais ou menos explícitos de acordo com as finalidades educativas da
escola. Os saberes emanados das disciplinas talvez sejam aqueles que mais adquirem
visibilidade no interior da cultura escolar uma vez que incorporam as finalidades
educativas da escola por meio das possibilidades de apropriação pelos alunos dos
conhecimentos daí emanados. Os saberes precisam ser vinculados cada vez mais à
cultura e suas múltiplas manifestações. Estarem, portanto vinculados à vida.

26 Ver nesse sentido Antonio Viñao, Fracassan las reformas educativas? La respuesta de um historiador. In: Educação no Brasil.
SBHE: Autores Associados, 2000.
Por outro lado, os saberes dos professores não podem ser separados de todas as
dimensões do ensino, pois é sempre o saber de alguém que ensina alguma coisa no
intuito de concretizar um objetivo. O saber docente é um saber plural e implica um
processo coletivo. Esse saber media a prática educativa que mobiliza diversos saberes
que podem ser denominados de pedagógicos, apresentando concepções epistemológicas
sobre a relação que os alunos estabelecem com o conhecimento. Os saberes de um
professor são uma realidade sócio materializada por meio de sua formação, dos
programas e suas práticas coletivas.
O saber docente é resultante da experiência pessoal e profissional, conseqüência
da vivência dos professores, produto da atuação na escola e da formação acadêmica.
Este sincretismo de experiências orienta à construção da identidade do professor.
Importa destacar que o saber docente por integrar a cultura escolar, talvez seja um dos
seus constitutivos mais tradicionais, pois são eles que significam o existir também das
disciplinas escolares.
Os saberes são compartilhados por grupos de profissionais que possuem uma
formação comum, trabalham em uma mesma organização e estão sujeitos, por causa da
estrutura coletiva de seu trabalho cotidiano, a condicionamentos e recursos
comparáveis, entre os quais programas, matérias a serem ensinadas, regras do
estabelecimento, etc. Desse ponto de vista, as representações ou práticas de um
professor específico, por mais originais que sejam, ganham sentido somente quando
colocadas em destaque em relação a essa situação coletiva de trabalho (TARDIF, 2002,
12).
Os saberes que integram o conjunto dos saberes escolares são provenientes de
diversas fontes e são produzidos socialmente. Contudo, essa fontes, em se tratando do
Brasil têm originado saberes dominantes próprios de grupos econômica e politicamente
dominantes. Quando os saberes provem de conhecimentos sistematizados acumulados
por meio da ciência, a dificuldade escolar está em conectá-los à vida. Afinal eles se
originam dai. Diz-nos Pereira (2008), em relação à necessidade de abordagens das
culturas africanas e afro-brasileiras na escola, que há desafios a enfrentar por parte dos
educadores:
Ao enfrentar tal questão os educadores se deparam com um grande desafio que decorre
da necessidade de se desfazer os equívocos que deturparam as culturas de origem
africana nas áreas onde se desenvolveram relações de trabalho escravo. O desafio
decorre, ainda, da urgência de se analisar os esquemas de violência que perpassam as
relações entre os diferentes grupos da sociedade brasileira, de se estudar e de vivenciar
as culturas africanas e afrodescendentes como realidades dialéticas, dispostas no jogo
social, permeadas por contradições e em constante processo de reinterpretação de si
mesmas. (p. 10)

Com efeito, a cultura escolar precisa então saber incorporar novos saberes à sua
cultura. Ela que entendo ser composta por uma complexidade geral e outra específica.
Da primeira, fazem parte práticas, saberes, normas, materiais, comportamentos e,
vinculados a estes, modos de ser, de pensar, valores, a organização e dinâmica interna
da escola, rituais, a arquitetura que, além do aspecto estético, dimensiona o uso do
espaço pelos alunos e professores. Da segunda, fazem parte os saberes oriundos das
disciplinas ou os conhecimentos que devem ser ensinados pelos professores que
também possuem saberes vinculados estritamente ao campo pedagógico e que orientam
e dinamiza esse fazer. Por outro lado, eles também estão de posse de saberes próprios às
suas áreas de conhecimento que se interrelacionam com outros de caráter profissional e
socialmente construídos.
Tardif (2000), nos alerta para as fontes diferenciadas das quais provém os
saberes dos professores, entre as quais as do próprio sistema de ensino. Mas, da cultura
escolar também faz parte seu modo de gestão que indica, por sua vez, a maneira de ser
da escola ao longo do tempo e que sofre modificações e demarca sua singularidade
conforme os sujeitos que a toma nas mãos. A cultura escolar seria uma síntese de algo
que permanece e que dura, algo as sucessivas reformas não conseguem aranhar, que
sobrevive as novidades e são sedimentadas com o tempo. (VIÑAO, A. 1996,28-29). O
perigo está no fato de ela poder tornar-se rígida em relação a abertura para o novo, neste
particular a diversidade cultural. A escola tem uma tradição homogeneizadora em
relação aos sujeitos que adentram seus espaços. Ela assim foi organizada para que
pudesse melhor funcionar. Nesse sentido a educação ai veiculada cumpriria melhor sua
função de condução de grupos em maior escala e menor tempo.
A apreensão da diversidade pela escola deve ser feita por seus educadores, entre
eles os professores, justamente pelo fato de que a cultura é um produto histórico com
certa autonomia para gerar formas de pensar e agir próprios que interferem no cotidiano
das comunidades promovendo a identidade destes espaços. Desse modo, a dinâmica
social impõe à escola brasileira, nas últimas décadas o imperativo de incorporar à sua
cultura esta outra diversidade. Assim, ela requer uma formação de professores que
englobe saberes cuja natureza permita a compreensão dessa diversidade, já que são eles
os principais protagonistas da efetivação de qualquer projeto educativo escolar. Essa
compreensão envolve, entre outros, que os professores conheçam o conceito e o
desenvolvimento das estruturas de significações, inclusive no campo religioso a fim de
que compreendam os elementos e categorias básicas da linguagem das estruturas dessa
diversidade. Para tanto é indispensável que o professor seja formado nos diferentes
códigos culturais das diferentes estruturas de significações e desenvolva por meio destes
códigos o diálogo e a capacidade de compreender e se aproximar de um panorama
plurireligioso.
MacLaren (2000) trabalha com a idéia de hibridização de discursiva para
discutir sobre a necessidade de que a escola incorpore múltiplas linguagens, o que
requer reinterpretar culturas, já que elas estão a abarcar novos elementos que sintetizam
sua própria dinâmica e renovação. As múltiplas linguagens podem, a nosso ver, ser
relacionadas com uma perspectiva de totalidade levando-se em conta que os diferentes
sujeitos sociais são “resultados” sociais, políticos, históricos, geográficos, psicológicos,
por exemplo, mas sem perder de vista as particularidades culturais locais. Por outro
lado, muitas dessas culturas por muito tempo estiveram caladas, suprimidas por formas
de culturas dominantes e por isso sobrepujantes. A linguagem hibrida é uma
necessidade que se impõe seja incorporada aos diferentes saberes que compõem a
formação de professores. Os processos migratórios internos, em se tratando do Brasil
têm muito a nos ensinar nesse sentido. Embora façamos parte de um mesmo país,
vivemos em regiões, locais onde o modus vivendi das pessoas tende a ser
substancialmente diferente uns dos outros, sem descurar de aspectos de ordem física.
Outra questão, se refere à linguagem e as diferenciações que apresenta de região para
região quando, por exemplo, se trata de nomear um mesmo objeto de maneira diferente.
Há também a linguagem da subjetividade (emoções, sentimentos), que tende a ser mais
compartilhada por grupos cujas práticas de sociabilidade são constantes e diferentes
daqueles que há muito incorporam comportamentos acentuadamente individualizados
nos grandes centros urbanos. Esta não se trata de uma questão de cunho exclusivamente
sociológico, mas psicológico e antropológico já que consubstancia práticas carregadas
de significados que aproximam ou distanciam pessoas no chamado processo
civilizatório urbano. Estamos falando novamente de relações sociais de cultura no
sentido proposto por Willians (1992) e anteriormente já abordado.
Eis uma possibilidade de romper gradativamente com uma cultura escolar que
impõe aos alunos, uma cultura rígida, homogênea em grande medida separada do
universo social mais amplo que tem muito pouco a ver, geralmente, com a realidade
familiar e social dos alunos. Isso traz para o campo da educação, uma série e desafios,
tais como: o respeito à diversidade cultural e religiosa e o redimensionamento das
práticas educativas, a fim de adequá-las às recentes demandas por uma escola mais
democrática e inclusiva e plural. Para atuação responsável diante da diversidade cultural
nacional é importante que o docente tenha consciência do pensar e refletir sobre este
contexto característico de uma sociedade como a brasileira de modo criativo e não de
mera reprodução de situações alheias aos cenários deste país (ALARCÃO, 2003, 41).
Diante disso, torna-se necessário falar de formação e a estamos associando a um
conceito referente a alguma atividade, sempre que se trata de formar para algo. Assim, a
formação pode ser entendida como uma função social de transmissão e, ao mesmo
tempo, de apreensão de saberes, de saber fazer ou do saber-ser que se exerce em
benefício do sistema socioeconômico, ou da cultura dominante. A formação pode
também ser entendida como um processo de desenvolvimento e de estruturação da
pessoa que se realiza com o duplo efeito de maturação interna e de possibilidades de
aprendizagem, de experiências dos sujeitos (GARCIA, C. 2002,18-19). Ela também
pode se dar no sentido de ampliar o olhar dos sujeitos para questões que estão que não
se enquadram nos moldes convencionais.
A formação pode adotar diferentes aspectos conforme se considere o ponto de
vista o objeto (a formação que se oferece, organizada exteriormente ao sujeito), ou do
sujeito (a formação que se ativa como iniciativa pessoal). Formar-se nada mais é senão
um trabalho sobre si mesmo, livremente imaginado, desejado e procurado, realizado
através de meios que são oferecidos ou que o próprio sujeito procura.
Em se tratando de professores, o processo de formação é constituído por fases,
princípios éticos, filosóficos, didáticos e pedagógicos comuns. Um aspecto que não
pode ser esquecido é o de integrar a formação de professores a processos de mudanças,
inovação e desenvolvimento curricular (GARCIA, C., 2002, 26-27). Exigência hoje
posta para o trato com a diversidade cultural.
Trata-se da formação profissional que prepara para o exercício de um ofício que
lida com problemas complexos, particularmente pelo fato de essa formação visar um
fazer voltado para o humano, como o ensino. Implicando domínio cognitivo de
situações dinâmicas, gerenciamento de pessoas, autonomia e responsabilidade nas
decisões, adaptabilidade e adequação sem erros a um contexto específico.
Por outro lado, as relações entre pesquisa e formação foram e continuam sendo
objeto de debates, cuja permanência e vivacidade ilustram seu caráter problemático.
Esses debates são freqüentemente centrados na natureza dos saberes que devem ser
dominados, transmitidos e adquiridos no quadro da formação e do exercício
profissional. Dizem respeito, sobretudo a articulação entre saberes oriundos da prática e
saberes científicos.
Seria ilusório pensar, por fim, que as instituições de formação são unicamente a
expressão de concepções epistemológicas ou o lugar de aplicação de teorias da
aprendizagem e da socialização: elas resultam também de interações sociais que
apresentam desafios às vezes muito distantes de questões teóricas/epistemológicas.
Seria igualmente ilusório considerar que o conjunto dos atores (formadores,
pesquisadores, responsáveis institucionais...) compartilham de modo homogêneo
epistemologias e teorias.
Tenho pensado também sobre o fato de que se tornou lugar comum não só na
literatura educacional, principalmente nos anos oitenta e parte dos noventa do século
XX, o fato de que a escola precisa adequar os conteúdos que ensina por meio das
diferentes disciplinas do currículo à realidade do aluno. Virou jargão, como tantos
outros. Somos adeptos da idéia de que precisamos significar certos termos. Nesse caso,
torna-se necessário precisar o que entendemos por realidade do aluno, ou para sermos
mais precisos já que estamos falando de diversidade, dizer que precisamos
primeiramente por o sujeito da oração no plural, ou seja, os alunos. Eles são muitos e,
mais do que isso, representam uma diversidade que, a cada ano prossegue e ingressa na
escola em cuja relação pedagógica são chamados a assimilar conteúdos no mesmo
espaço, tempo, ritmo e formato pedagógico. Neste sentido, a escola não inovou. Ela
continua sendo uma instituição onde a relação ensino aprendizagem segue sendo
realizada, grosso modo, segundo os moldes do entendimento simultâneo.
Mas voltemos a questão sobre o entendimento do termo realidade dos alunos
(usando desta feita o sujeito no plural). A expressão realidade cujo significado pode ser
entendido como o que é real, visível, objetivo, aquilo que é vivido, entre outros, ainda
assim torna-se bastante amplo a ponto de dificultar um recorte de abordagem conceitual
que permita-nos articulá-lo a um conteúdo e/ou conhecimento escolar do qual os alunos
possam apropriar-se com significado, ou seja, com sentido de vida, de existência.
Por outro lado, há também uma questão que nos parece óbvia, a de que o
conhecimento escolar diz respeito à vida dos sujeitos. Ele existe e se interpõe às nossas
existências cotidianas, porém não de um modo criterioso, crítico e, por essa razão,
submetido a crivos teóricos da cientificidade. Talvez seja este um entendimento que
tenha historicamente dificultado a compreensão de que realidade dos alunos e conteúdo
escolar são duas coisas absolutamente distintas e incompatíveis.
A idéia de cultura de abarca a de realidade, mas que por outro lado pode
restringi-la pela vinculação possível de ser feita a partir do conceito de sistema de
significados. Traz para os sujeitos a necessidade de realizações que lhes façam sentido.
Quando estudamos um conteúdo de geografia vinculado ao impacto da construção de
hidrelétricas para o ecossistema e para populações ribeirinhas residentes às margens de
rios podemos tratar sobre as vantagens trazidas pelo potencial energético gerado pela
usina, como do abandono forçado de muitos aspectos de uma cultura. Isso por meio do
deslocamento populacional para outro espaço geográfico. Nesse sentido estamos
lidando com dois níveis ou tipos de significado diferenciados para os sujeitos
envolvidos. Obviamente que esse assunto está intimamente relacionado à vida, pelo fato
de dizer respeito a uma produção cultural (casas e arquitetura, templos religiosos,
relações comerciais, espaços de encontro de grupos, festividades ligadas ou não às
práticas religiosas). Neste caso, ainda que não façamos parte deste grupo o objeto de
estudo e o modo como ele foi abordado, tem significado existêncial, mesmo sendo esse
um exemplo bastante genérico.
Outro aspecto a considerar vinculado ao sistema de significados e sua relação
com a diversidade cultural está na problemática do preconceito racial. È comum
vincularmos o preconceito racial apenas ao negro, obviamente ele não se restringe
apenas a essa etnia. Talvez essa vinculação seja feita devido ao processo histórico de
sua inserção particularmente em nossa sociedade. O preconceito racial não pode ser
estudado sem a conexão com a escravidão e com a problemática da inferioridade racial,
razão explicativa para a prática escrava em relação ao negro. Em outro sentido, há
substanciais contribuições trazidos pela cultura negra, cujo sistema de significados pode
ser traduzido, pela religião, canto, dança, vestuário, alimentos, linguagem, pintura.
Lidar com o entendimento da diversidade cultural não é tarefa fácil quando se
trata de trazê-la para a escola. Em primeiro lugar há a necessária exigência pedagógica
de identificarmos quem são nossos interlocutores, o que requer estratégias específicas a
fim de que a seleção de conteúdos e o trato pedagógico seja elaborado em conformidade
com a diversidade que se constitui na identidade do grupo. Esse exercício requer o
domínio de certos saberes por parte do professor (a): saberes de ordem sociológica,
geográfica, política, pedagógicos, filosóficos/epistemológicos, só para citar alguns.
Sem dúvida a aparente redescoberta da cultura como categoria chave na relação
ensino/aprendizagem, se manifesta como um dos caminhos contemporânes possível de
incluir na escola grupos sociais cujas culturas dela estiveram ausentes. Neste caso, não
se trata de simplesmente incluir e fazer parte de, mas do significado tácito e simbólico
que essa manifestação de grupo tem em termos daquilo que sua cultura representa para
ela.

Cultura e educação acham-se intimamente relacionadas. A educação opera sobre a cultura e esta
não se reproduz sem aquela. A cultura retrata a sociedade e suas particularidades e a educação
cuida por meio de processos formais e não formais de garantir a permanência da cultura. Uma e
outras se consubstanciam em praticas sociais historicamente construídas. Em cada uma delas há
uma composição de saberes variados dos quais a educação depende para fazer sentido no
processo de interlocução que a sociedade realiza com os seus indivíduos visando sua
conservação, perspectivas e renovação. Cada cultura tem um projeto social a se disseminado. A
educação escolar tem papel preponderante no processo de disseminação desse projeto. Ele é
antes de nada político pelas intencionalidades demarcadas que abarca. Nesse universo a
educação para a diversidade na diversidade é relevante não só enquanto projeto civilizatório,
mas principalmente como resposta á prementes necessidades humanas.

Referenciais
ALARCÃO, Isabel. Professores reflexivos em uma escola reflexiva. São Paulo: Cortez, 2003.
BRZEZINSKI, Iria. Pedagogia, pedagogos e formação de professores. Campinas: Papirus, 2000.
GARCIA, Carlos M. Formação de professores. Para uma mudança educativa (2002). Porto: Porto
Editora, (1986).
McLaren, Peter Multiculturalismo revolucionário:pedagogia do dissenso para o novo milênio. Porto
Alegre: Artes Médicas, Sul, 2000.
PEREIRA, EDMILSON DE Almeida. valores culturais afrodescendentes na escola. In: Diálogo.Revsita
de Ensino religioso, Ano XIII, n. 49, fevereiro de 2008.
TARDIF, Maurice. Saberes docentes e formação profissional. Petrópolis: Vozes, 2002.
TARDIF, Maurice; LESSARD, Claude. O trabalho docente. Elementos para uma teoria da docência
como profissão de interações humanas. Petrópolis: Vozes, 2005.
VIÑAO, Antonio. Fracasan las reformas educativas? Las respuestas de um historiador. In: Sociedade
brasileira de História da Educação (2001). Educação no Brasil. História e historiografia. Campinas:
Editora Autores Associados. pp. 21-52.

Atividades
Indicações culturais
“......Nós estamos convencidos, portanto, que os senhores desejam o bem para nós e
agradecemos de todo coração.
Mas aqueles que são sábios reconhecem que diferentes nações têm concepções
diferentes das coisas e, sendo assim, os senhores são ficarão ofendidos ao saber que a
vossa idéia de educação não é mesma que a nossa.
Muitos dos nossos bravos guerreiros foram formados nas escolas do Norte e aprenderam
toda a vossa ciência. Mas, quando eles voltaram para nós, eles eram maus corredores,
ignorantes da vida da vida da floresta e incapazes de suportarem o frio e a fome. Não
sabiam como caçar o veado, matar o inimigo e construir uma cabana, e falavam a nossa
língua muito mal. Eles eram, portanto, totalmente inúteis. Não serviam como guerreiros,
como caçadores ou como conselheiros.
Ficamos extremamente agradecidos pela vossa oferta e, embora não possamos aceita-la
para mostrar a nossa gratidão oferecemos aos nobres senhores de Virgínia que nos
enviem alguns dos seus jovens, que lhes ensinaremos tudo o que sabemos e faremos,
deles, homens”(In: Brandão, 1989, p. 8-9).

Comentário:
Essa carta publicada no livro “O que é Educação” de Carlos Rodrigues Brandão, é uma
resposta dos Índios das Seis Nações dentro do tratado de paz assinado na Virginia e
Maryland, onde os governantes destes estados se comprometeram a dar educação aos
índios que fossem enviados às suas escolas. Depois dos índios terem regressado às suas
tribos vindos das escolas dos brancos, os chefes enviaram essa carta em agradecimento
e recusa. O que ela nos demonstra é que educação e cultura estão intimamente
relacionadas e que a educação só faz sentido se feita dentro e para sua própria cultura.
ela deve estar conectada aos “sinais” manifestados pela cultura de seu tempo.

Atividade de auto-avaliação
Nas questões a, b, c, d a seguir, marque as sentenças com verdadeiro (V) ou falso (F).
1) A educação
( F ) É uma pratica social que independe das relações humanas e ocorre de modo formal
e informal.
( F ) Quer em seu sentido formal quanto informal por achar-se disseminada na
sociedade, a educação se presta a certo tipo de serviço no sentido tanto de libertar como
de oprimir pessoas. Eis aqui seu caráter político. A educação informal e a formal estão
disseminadas na sociedade por meio de diferentes instituições e é por estas que realiza
sua função política tendo como protagonistas diferentes sujeitos sociais. Entre estas
instituições está a Igreja que, enquanto tal, e, por sua natureza cumpre uma finalidade
doutrinária do ponto de vista social. Esta finalidade é diferente da educação que se
desenvolve no interior da escola.
(V) De um modo ou outra as pessoas são educadas no interior da sociedade. No entanto
no modo escolar é preciso direcionamento, finalidade definida pelo estado
principalmente. Ele tem o papel e função de ofertar educação para a maioria da
população, neste particular da sociedade brasileira. O estado cumpre uma função
ideológica importante como definidor de um projeto social por meio da educação
escolar. Esse papel e função devem estar estritamente relacionados com as aspirações
sociais quando se trata de formato de estado democrático.

Está correta a seqüência:


a. VFF
b.FFV
c.VFV

2). Educação e diversidade cultural


( V ) Lidar com o entendimento da diversidade cultural não é tarefa fácil quando se trata
de trazê-la para a escola. Em primeiro lugar há a necessária exigência pedagógica de
identificarmos quem são nossos interlocutores, o que requer estratégias específicas a fim
de que a seleção de conteúdos e o trato pedagógico seja elaborado em conformidade
com a diversidade que se constitui na identidade do grupo. Esse exercício requer o
domínio de certos saberes por parte do professor (a): saberes de ordem sociológica,
geográfica, política, pedagógicos, filosóficos/epistemológicos.
( F ) O conhecimento escolar diz respeito à vida dos sujeitos. Ele existe e não se
interpõe às nossas existências cotidianas, porém não de um modo criterioso, crítico e,
por essa razão, submetido a crivos teóricos da cientificidade. Talvez seja este um
entendimento que tenha historicamente dificultado a compreensão de que realidade dos
alunos e conteúdo escolar são duas coisas absolutamente distintas e incompatíveis.
( V ) MacLaren (2000) trabalha com a idéia de hibridização de discursiva para discutir
sobre a necessidade de que a escola incorpore múltiplas linguagens, o que requer
reinterpretar culturas, já que elas estão a abarcar novos elementos que sintetizam sua
própria dinâmica e renovação.

Está correta a seqüência:


a.FFV
b. FVF
c. VFV

3) Diversidade cultural saberes escolares


( V ) Os saberes que integram o conjunto dos saberes escolares são provenientes de
diversas fontes e são produzidos socialmente. Contudo, essa fontes, em se tratando do
Brasil têm originado saberes dominantes próprios de grupos econômica e politicamente
dominantes. Quando os saberes provem de conhecimentos sistematizados acumulados
por meio da ciência, a dificuldade escolar está em conectá-los à vida.
( V ) Há, sem dúvida possibilidade de romper gradativamente com uma cultura escolar
que impõe aos alunos, uma cultura rígida, homogênea em grande medida separada do
universo social mais amplo que tem muito pouco a ver, geralmente, com a realidade
familiar e social dos mesmos. Isso traz para o campo da educação, uma série e desafios,
tais como: o respeito à diversidade cultural e religiosa e o redimensionamento das
práticas educativas, a fim de adequá-las às recentes demandas por uma escola mais
democrática e inclusiva e plural. Enfim impõe a necessidade de a escola lidar com
outros saberes vindos da diversidade.
( F ) O saber docente é resultante da experiência exclusivamente profissional,
conseqüência da vivência dos professores, produto da atuação na escola e da formação
acadêmica. Este sincretismo de experiências orienta à construção da identidade do
professor. Importa destacar que o saber docente por integrar a cultura escolar, talvez
seja um dos seus constitutivos mais tradicionais, pois são eles que significam o existir
também das disciplinas escolares.

Está correta a seqüência:


a. VFF
b.VVF
c. FVF

4. Sobre a educação e a escola


( V ) Prática social e histórica que se desenvolve na levando-se em conta as diferentes
sociedades e seus respectivos valores.
( V ) A educação escolar tem encontrado na diversidade um de seus maiores desafios.
Há que lidar com novos saberes, novas linguagens, outros modos de ser dos sujeitos que
adentram a escola.
(F ) Frente a diversidade cultural se faz necessário que a escola esteja organizada e
funcione segundo padrões comuns de conhecimentos.

Está correta a seqüência:


a. VVF
b. FFV
c. VFF

5. Cultura escolar
( V ) A diversidade traz a necessidade de romper gradativamente com uma cultura
escolar que impõe aos alunos, uma cultura rígida, homogênea em grande medida
separada do universo social mais amplo que tem muito pouco a ver, geralmente, com a
realidade familiar e social dos alunos.
( F) A idéia de cultura escolar também abarca a de realidade, mas que por outro lado
pode restringi-la pela vinculação possível de ser feita a partir do conceito de sistema de
significados. Traz para os sujeitos a necessidade de realizações que lhes façam sentido.
( F ) Normas e praticas que sintetizam uma teia de relações desenvolvidas dentro e no
interior da instituição escolar.

Está correta a seqüência:


a. VFF
b. FFV
c. VVF

Questão de reflexão
A apreensão da diversidade pela escola deve ser feita por seus educadores, entre eles os
professores, justamente pelo fato de que a cultura é um produto histórico com certa
autonomia para gerar formas de pensar e agir próprios que interferem no cotidiano das
comunidades promovendo a identidade destes espaços. Desse modo, a dinâmica social
impõe à escola brasileira, nas últimas décadas o imperativo de incorporar à sua cultura
esta outra diversidade. Que considerações você faz sobre este trecho?

Atividade de aplicação
Na escola na qual trabalha realize uma atividade visando estabelecer mudanças
quanto às suas atividades curriculares: elabore um questionário com dois campos: um
visando saber quem são os seus alunos, de onde provém (se migraram ou não), origem
étnica entre outros dados que considerar relevante saber; 2ª. em aspectos sobre a
linguagem saber que termos eles consideram novos em suas convivências lingüísticas,
caso provenham de outras regiões do Brasil. Faça uma pesquisa para incorporara outros
termos e os relacione á cultura e a diversidade .
Capítulo 06
Cultura e Religiosidade

A religiosidade é uma das características mais marcantes do povo brasileiro. Ela se


manifesta de múltiplas maneiras como decorrência de um lado das diferentes religiões
praticadas na sociedade brasileira e, de outro, como parte do modo de ser de muitos indivíduos
ainda que não professem uma religião em especial. Assim, o propósito aqui é o de fazer uma
breve apreciação nesse sentido. a religiosidade se constituí numa forma de expressão social.

Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados


individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos
diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem: I. as formas de
expressão; II. os modos de criar, fazer, e viver. (....) (BRASIL, CONSTITUIÇÃO FEDERAL,
1988, Art. 216).

Dessa perspectiva podemos inferir que a religiosidade por ser uma manifestação cultural
de natureza imaterial é considerada como patrimônio cultural. Ela diz respeito à identidade de
grupos formadores da sociedade brasileira, objetivada por meio de diferentes formas de
expressão. Por isso poderíamos também dizer que a religiosidade presente em nossa sociedade
faz com que os sujeitos que as tem como princípio de vida, passem a cultivá-la por meio de
diferentes modos de criar, fazer e viver. Significa falar então que a religiosidade pode ser
exteriorizada por meio de diferentes práticas.
Uma pessoa poder ter religiosidade sem, no entanto, adotar como pratica uma religião em
especial, como pode assim o ser estando estritamente vinculada a uma religião. A religiosidade
pode então diante disso se manifestar de varias maneiras. Por significar um modo de
transcendência, a religiosidade é uma característica bastante comum de ser presenciada em
sujeitos na sociedade. Ela tem dimensão simbólica importante na dimensão da transcendência e
se processa por meio de diferentes mecanismo.

Dimensão simbólica da religiosidade


A dimensão simbólica da religiosidade certamente encontra nas praticas
religiosas vinculadas à religião o seu sentido estruturante. Aqui os símbolos dão uma
espécie de legitimidade às praticas. Eles estão socialmente reconhecidos, por estarem
instituídos. Para Geertz (1989),

os símbolos sagrados funcionam para sintetizar o ethos de um povo – o tom, o caráter, e


a qualidade de sua vida, seu estilo e disposições morais e estéticos - e sua visão de
mundo – o quadro de que fazem de que são as coisas na sua simples atualidade, nas suas
idéias mais abrangentes sobre ordem. Na crença e na prática religiosa, o ethos de um
grupo torna-se intelectualmente razoável porque demonstra representar um tipo de vida
idealmente adaptado ao estado de coisas atual que a visão de mundo descreve, enquanto
essa visão de mundo torna-se emocionalmente convincente por ser para acomodar tal
tipo de vida. (...). (p. 66-67)

Desse modo os símbolos sagrados atribuem uma legitimidade às praticas


religiosas. Essas práticas traduzem a conformação dos indivíduos praticantes ao seu
grupo social no estrito sentido do cumprimento disciplinar de uma tarefa. Por que ela se
faz segundo comportamentos ordenados e inevitavelmente aceitos pela sociedade. Eles
permitem a expressão do dever cumprido. Do exercício da conduta moral impecável.
Daí o vestir-se especialmente para o exercício religioso. A roupa de domingo, do sábado
à noite é cuidadosamente reservada para a ida a igreja: a missa ou o culto. Por isso para
Geertz (1989, p. 67), os símbolos religiosos formulam uma congruência básica entre
um estilo de vida particular e uma metafísica específica (implícita no mais das vezes) e,
ao fazê-lo, sustentam cada uma delas com a autoridade emprestada do outro.
Tudo indica que os símbolos religiosos legitimam a ação do exercício da
religiosidade. Em Geertz os símbolos não são meras representações materiais da
divindade e/ou o ser superior a ser venerado. Muito mais do que isso, por essa razão
entende símbolo pelo significado, ou seja, pela concepção. Neste sentido esse autor não
lida com a noção, digamos, de representação exterior, mas da interioridade, o conceito
que faz com que a prática neste caso exista. Sua razão explicativa e não sua
representação simplesmente.
Nesse sentido, as práticas de rituais religiosos, potenciais reveladores da
religiosidade não são em si símbolos da religiosidade, mas o entendimento que as
pessoas têm sobre esse exercício. As manifestações simbólicas podem se realizadas por
meio de praticas religiosas institucionalizadas demonstrativas da religiosidade de grupos
sócias. Elas variam de acordo com a religião. No catolicismo a religiosidade pode ser
manifestada pela participação do católico nas missas que se constituem em rituais
centrais à manifestação da fé católica, provavelmente pelo estado graça que provoque
no individua que dela participa. O casamento também é um modo de expressão da
religiosidade, mesmo tendo sido muitas vezes ritual de demonstração de opulência por
parte das elites e banalizado pelas tantas vezes que indivíduo pode dele participar.
A religiosidade se torna mais visível certamente por parte de grupos sociais de
origem sócio-econômica menos favorecida. Por meio das festas dos santos que têm um
significado importante na vida cotidiana dessas pessoas. os santos, representações
fundamentais do catolicismo popular, são seres dotados de poderes sobrenaturais e capazes
de interferir na vida e na natureza.( JORGE, 1998, p. 66). O lugar que os santos coupam na
vida daqueles que neles acreditam naifesta de modo ambìguo.

Os santos ficam no céu, mas isso não significa que estejam separados dos homens. É por
meio das imagens, de que o catolicismo o catoliscismo populat tanto gosta , que os santos se
fazem presentes na terra. A identificação da iamgem com o santo no céu é taõ forte que o
deveoto chega a infringir punições as estátuas quando seus pedidos não são atendidos ou
quando demoram vê-lo. Santo Antônio, o santo padreoeiro do casamento, bem sabe como
sufrem as suas imagens..... (idem, p. 67)

É comum encontrar em casas urbanas, com menos, e em rurais com mais freqüência,
oratórios ou pequenos altares feitos de madeira num canto reservado da casa. Os oratórios,
ainda de caráter particular, doméstico, no entanto se revestem também de caráter coletivo
porque a família se reune ao seu redor. Muistas vezes estão presentes, amigos e convidados
para tomar parte da devoção. (JORGE, 1998, p. 68, grifo no original). sobre esles esse autor
ainda diz o seguinte:

No meio popular, os oratóriso domésticos são normalmente colocados num canto da parede,
tendo no centro a imagem do santo padroeiro e outros quadros de santos . Já nas cedes das
fazendas, lugares, portanto mais afastados. O ratório doméstico é mutio mais amplo e normal
mente possui um andar onde o padre vem celebrara a Missa de vez em quando.(Idem, p 68-
9).

Aos santos27 se venera como se fosse a Deus. Coroas e fitas enfeitam as imagens,
aparentemente como maneiras de melhor exteriorizar a fé. O oratório e o altar são espaços do
sagrado, do transcendente por que materializam de certo modo a oportunidade de
aproximação do ser menor com Deus. A religiosidade se expressa ao deitar e ao levantar. A
festa ao santo padroeiro é oportunidade de veneração. Tempo e espaço são dedicados á
devoção, nestes, o trabalho torna-se secundário. Por ser uma dádiva divina, reserva tempo
para a veneração que é grantia de sobrevivência duradoura.
Outros modos de expressão da religiosidade podem ser depreendidos dos grandes
rituais católicos, como as festas das padroeiras. Elas arregimentam um grande número de
fiéis. O Círio de Nazaré, realizado em homenagem à nossa Senhora de Nazaré, a padroeira
dos paraenses é um testemunho interessante da religiosidade e da força que ela contém.
Dentro desse majestoso ritual que se desenvolve sobre a forma de procissão,

27 Voltarei a falar sobre os santos mais adiantes quando me referir às festas.


milhares de pessoas caminham sob forte sol a calor pelas ruas de Belém durante mais de
quatro horas, uma vez por ano, a cada segundo domingo do mês de outubro. Na procissão, a
corda que ciunda a Berlinda onde a imagem da santa é carregada centenas de pessoas se
anomtoam praticamente sendo levadas umas pelas outras em agradecimento por graças
alcançadas. É a exaustão máxima da expressão de uma reverência por meio da doação do
corpo na su aplenitude. Os pés descalços são a simbologia de uma doação e de um
sentimento de humildade que só na quele espaço pode ser traduzido. É por isso que comungo
com Geertz (1989) da ideía de que o simbolo é mais do que a representação contida no
objeto. Ele é a concepção, o significado do símbolo. Siginifica dizer ser sua razão
explicativa. Para ele, os atos culturais, a construção, apreensão e utilização de formas
simbólicas, são aconteciemtnos sociais como quaisque outros; são tão públicos como o
casamento e tão observáveis como a agricultura. (p. 68).
No Círio de Nazaré areligiosidade também é manifestada por meio d e objetos,
outros simbolos, que sinifcam a retribuição objeiva a um favor ou graça alcançada. Se
traduzem em miniaturas de casas, barcos, partes do corpo em cera, enfim tudo na vida
cotidiana teve importância e que precisava da ajuda divina para se tronar realidade ou se
constituia num problema
A sociedade humana é, assim, concebida como parte do universo e como participe
privilegiada da vida divina, devendo-lhe imitar o modo de ser. Deus se revelou como
trindade, Deus trino: Pai, Filho e Espírito Santo, Três pessoas em um só Deus. A
Trindade põe a ordem perfeita: há diversidade de pessoas, diversidade que não impede a
unidade da Trindade. Pai, Filho e Espírito Santo são igualmente Deus, embora
diferentes como pessoas. As pessoas se relacionam entre si, com funções diferentes: as
funções não diminuem o estado de divindade, mas operam, uma diferença. Ao Pai se
atribui a criação. Ao Filho a salvação. Ao Espírito Santo A dinâmica da vivência da
santidade. A diversidade de funções colabora para unidade da ordem divina. Deus
criando o mundo, o cria segundo sua imagem e semelhança; o cria, pois na ordem, em
que há diversidades de funções, de posições, mas unidade do todo. A criatura se vê e se
tem como imagem impressa de Deus, tendo nele o modelo de relação, o modelo de ser-
com os outros. (PAIVA, 2003, p. 49)

A festa à padreoeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida também é acontecimento


para grandes peregrinações em torno da Basilica Nacional. Areligiosida se manifesta
também em imagens que são adquiridas a cada ano como simbologia de renovação,
concomitantemnte a outros objetos que simbolizam e, por asisim dizer significam a condição
de devoto.
São Sebastião, Senhor do Bom fim, Nossa Senhora dos Navegantes, Nossa
Senhora da Conceição. Menino Jesus de Praga são divindades às quais se reverencia de
tempo em tempo em renovação da fé ante a necessidade mortal de aproximação de
quem tem o destino do ser inacabado nas mãos.
Enquanto permanece dentro do nomos socialmente estabelecido, o indivíduo participa
de um ser universal que também consigna lugar aos fenômenos do sofrimento e da
morte. Quando o indivíduo está em sintonia com os ritmos das forças cósmicas, seu
próprio ser está em harmonia com a ordem fundamental de todo ser - uma ordem que,
por definição, inclui e, assim, legitima os ciclos do nascimento, da decadência e da
regeneração. Conseqüentemente, a decadência e a morte do indivíduo são legítimas
mediante sua "colocação no âmbito da ordem mais ampla dos ciclos cósmicos"
(BERGER, 1985: 73 ).

A religiosidade pela fé católica tem sido ideologicamente dominante desde o


descobrimento do Brasil, mas outras maifestaçõe religiosas institucionalizadas são palcos
para esse modo de ser do Brasileiro. As religiões protestantes por meio dos cultos como
espaço simbólico de representação, a religiosidade é demonstrada não pela adesão às
exigências ao modo de vestir, como tornar a religião um ethos de vida. Consubstancia-se em
modo de vida que ultrapassa o modus operandi cotidiano.

A perspectiva religiosa difere da perspectiva do senso comum (...) por que se move além das
realidades da vida cotidiana em direção a outras mais amplas, que as corrigem e completam,
e sua procupação definidora não é a ção sobre essas realidades mais amplas, mas sua
aceitação, a fé nelas. Ela difere da perspectiva científica pelo fato de questionar as realidades
da vida cotidiana não a partir de um ceticismo institucionalizado que dissolve o “dado” do
muma aspiral de hipóteses probabilísticas, mas em termos do que é necessário para torná-las
verdades mais amplas, não hipotéticas. Em vez de desligamento, sua plavra de ordem é
compromisso, em vez de analise , o encontro.(.....). (GEERTZ, 1989, p. 82)

Os ofícios são manifestações de devoção e de religiosidade aos Santos. Entre estão


os ofícios a Nossa Senhora. Passarei, a seguir, a apresentar um oficio que foi escrito no
Século XV ao qual tive acesso por meio de:
http://www.religiosidadepopular.uaivip.com.br/artigos.htm que consta de um depoimento:
segue a divisão da oração do breviário antigo nas horas de Matinas, Prima, Tércia,
Sexta, Nôa, Vésperas e Completas. Mas enquanto a oração do breviário é rezada
parceladamente de manhã, ao meio-dia, de tarde e de noite, o ofício popular de Nossa
Senhora é rezado de uma só vez, por exemplo, nas igrejas paroquiais todo sábado à
tarde. Beatos e missionários ensinavam ao povo a rezar o ofício todos os dias, como
consta nos benditos da tradição oral do povo pobre na área rural. [Frei Ibiapino
deixou/Dois pés de árvore plantado: O terço na boca da noite. O ofício de madrugada.
(Petrolândia/PE/1972). Santa Beata deixou/Um pé de árvore plantado. Reze o terço na
boca da noite.O ofício de madrugada. (Itinga/MG/1975). O frei Altino deixou. Nos pés
da Virgem Maria.O terço à boca da noite. Salve Rainha meio-dia. O frei Altino deixou
Tres pés de árvore plantada.O terço à boca da noite. Ofício de madrugada.
(Araçuai/MG/1979)
As festas juninas são dedicadas a vários santos: São João, São Pedro, São
Marçal, Santo Antônio. Eles estão vinculados ao casamento, ao batizado, à sorte e são
cantados em verso e prosa, digamos assim. Vejamos a seguir a letra de uma música
dedicada a São João, São Pedro e Santo Antônio.

Eu pedi numa oração


Ao querido São João
Que me desse um matrimônio
São João disse que não!
São João disse que não!
Isto é lá com Santo Antônio!
Eu pedi numa oração
Ao querido São João
Que me desse um matrimônio
Matrimônio! Matrimônio!
Isto é lá com Santo Antônio!

Implorei a São João


Desse ao menos um cartão
Que eu levava a Santo Antônio
São João ficou zangado
São João só dá cartão
Com direito a batizado
Implorei a São João
Desse ao menos um cartão
Que eu levava a Santo Antônio
Matrimônio! Matrimônio!
Isso é lá com Santo Antônio!

São João não me atendendo


A São Pedro fui correndo
Nos portões do paraíso
Disse o velho num sorriso:
Minha gente, eu sou chaveiro!
Nunca fui casamenteiro!
São João não me atendendo
A São Pedro fui correndo
Nos portões do paraíso
Matrimônio! Matrimônio!
Isso é lá com Santo Antônio

Adoutrina espírita, como o própro nome anuncia, não é uma religião tem suas
práticas institucionalizadas em ritaus como a palestra que dá subsídio ao passe e os trabahos
de intercâmbio em mesas, desenvolvido por médiuns habilitados na doutrina. A religiosidade
além de poder ser manifestada nessas condições deve atender ao requitivo de não ingestão de
carne vermelha, cafeina e bebidas alcoólicas.

A religião nunca é apenas metafísica. Em todos os povos as formas, os veículos e os objetos


de culto são rodeados por uma aura de profunda seriedade moral. E todo lugar, o sagrado
contém em si mesmo um sentido de obigação intrinseca: ele não apenas encoraja a devoção
como a exige; não apenas induz a aceitação intelectual como reforça o compromisso
emocinal. Formulado como mana, como Brahma, ou como a Santíssima Trindade, aquilo
que é colocado à parte, como além do mundano, é considerado, inevitávelmente, como tendo
implicações de grande alcance para a orientação da conduta humana.(GEERTZ, 1989, p. 93
- grifos no original)

Na religiões a religiosidade se confunde com determinação para a pratica do ritual


religioso, sendo mais difícil, entendo, abstrair o estado de religiosidade. A institucionalização
pode retirar da religiosodade seu componente de espontaneidade, de liberdade para cultuar.
Penso ser nessa condições que a religiosidade brasileira se torna diversa, também. Ela é
diversa porque diversa é a cultura. Desse modo ela tem suas idiosincrasias. A religiosidade
independe da instituição, podemos desenvolvê-la conforme as escolhas que vamos fazendo
ao longo da vida. Essas escolhas tem a ver com as crenças, no sentido lato do termo, com as
coisas nas quais vamos acreditando. Ela vai se constituindo de um modo até certo ponto
espontâneo porque fora de tutela. Ela pressupõe liberdade de expressão, autonomia.
Nesse sentido a religiosidade pode dar vazão à prática de experiências místicas
pela busca de bem estar. Nos tempos atuais temos presenciado várias dessas formas de
manifestação de religiosidade. Os incensos, as velas que ganharam cores e cheiro são
usadas para perfumar ambientes com o intuito de atrair bons fluidos.

O misticismo no seu sentido amplo e genérico, e sociologicamente considerado, é uma


criação marginal da institucionalização do discurso e do rito religioso. O processo de
institucionalização do discurso e do rito religioso. O processo de institucionalização e
racionalização expropria indivíduos e grupos que recriam relações com sagrado de
modo, direto, recomeçando, assim, o processo originário da religião. É um retorno às
fontes. Como quase sempre a espoliação é um ato de poder religioso, que acompanha o
poder político, o misticismo tem seu tem seu campo predileto nas camadas dominadas.
Á medida que as camadas dominadas aumentam, o misticismo coletivo tende a
acompanhar esse aumento (....) (MENDONÇA, 1984, p.17)

Por outro lado, a prática do esoterismo também é via para manifestação da


religiosidade. Ela se confunde com o sobrenatural ao ser meio de possibilidades de
prever o futuro. Nesse sentido tem o potencial de antecipar o que, por outras vias levaria
mais tempo. O futuro no seu decurso natural do cotidiano e processo de cotidianidade.
Essa prática no fundo estimula, cultiva ilusões. A previsão de que no futuro a moça
casará, que ganhar-se-á um bom dinheiro, que a vida melhorará, está a crença em um
alento, numa força superior que está a olhar pelo ser que busca, ora numa certa condição
de desprotegido, ora de esperançado. Por outro lado, também pode causar desalentos: a
descoberta do marido que trai, uma pessoa querida que morrerá, a perda do trabalho, são
alguns dos perigos que podem mostrara a fragilidade de certas práticas místicas.
A oração, independente da crença ou religião é um dos modos certamente mais
populares de manifestação da religiosidade. Ela atravessa os diferentes segmentos
sociais. Hoje está sendo reconhecida por parte de cientistas como fator de cura e
prevenção de doenças. Como fomento ao exercício da religiosidade possibilita estados
de plena meditação e de recolhimento, por isso contribui para a cura. Por meio dela é
possível apreender o indivíduo em plena demonstração de sua incompletude, de sua
fragilidade, ao invocar a força e poder superior, uma espécie de socorro, de ajuda,
principalmente nas intempéries da vida. Mas por meio da oração também se agradece
por muitas coisas, inclusive pela vida e as conquistas nela auferidas. Se ora pelo sono,
mas também no despertar e pelo despertar.
A religiosidade é certamente a expressão maior de sentimento inconsciente de
incompletude humana. Ela de algum modo se manifesta, para aqueles que crêem em
uma força superior seja ele Deus ou um ser não claramente entendido. Ela pode estar ou
não, como já dissemos, vinculada ou não à religião.
Outros modos de manifestação da religiosidade são encontrados no catolicismo
popular por meio de diferentes meios, quais sejam: promessas, novenas, alianças, e
consagrações, como nos esclarece Mendonça (1998). Apoiando-me nesse autor
explicitarei em que consiste cada uma delas.
Nas promessas os fiéis estabelecem uma relação de proximidade com Deus por
meio dos Santos. Se já o santo de devoção ou aquele que eles entendam seja o mais
adequado ao tipo de pedido a ser feito. Nesse sentido, o santo está próximo ao trono de
Deus e pode influenciá-lo. O rigor no cumprimento das promessas permite a inferência
de que o fiel vai à exaustão pelo merecimento da graça alcançada.

Daí o rigor com que as com as promessas são feitas e cumpridas causando até mesmo
estranheza, sobretudo as de caráter penitencial; longas e fatigantes caminhadas até o
santuário, capela ou oratório, onde se venera o santo; jejuns abstinências e outros atos
penosos; ofertas de esmolas, com conseqüente privação às vezes até do necessário;
construções ou ajudas para construções de Igrejas ou outros locais de culto; práticas de
caridade e, especialmente, obras de misericórdia. (....) (MENDONÇA, 1998, p. 67).

As novenas em grande medida estão vinculadas às promessas e também


traduzem o caráter de devoção e pedido de ajuda ou de agradecimento por uma graça
alcançada. As novenas segundo aquele autor são práticas do catolicismo popular que
têm finalidade de pedidos materiais e espirituais. Podem ser feitas para pedir chuva, boa
colheita, como práticas comumente encontradas no Nordeste do Brasil. Similar a este
tipo de pratica religiosa, é a indígena, quando a tribo canta e dana pedindo ao Deus da
chuva que faça chover.
As alianças, embora pouco conhecidas sob essa denominação são muito
praticadas. Elas se dão pela devoção do fiel a um santo. O santo protetor. Do tipo, “meu
protetor padim Padre Cícero”. Difere da promessa, segundo Mendonça (1998), pois
enquanto esta é ligada a uma necessidade determinada por parte do fiel, a aliança é
permanente (p. 68).
As consagrações por sua vez são feitas aos santos, mas Mendonça (1998),
considera que no Brasil são de modo geral feitas à Nossa senhora. Quando a criança é
consagrada a Nossa Senhora, significa que além da mãe terrena ela tem uma no céu
(Cfr. obra citada, p. 68).
Existem outras tantas formas de manifestação de religiosidade presentes na
cultura brasileira. Elas se vinculam sobremaneira ao catolicismo pela forma dominante
como foi implantado no Brasil desde a colonização. As festas dos santos são outros
modos onde o sagrado estabelece conexão estreita com o religioso. A eles são dedicados
dias específicos e têm lugar especial no só no calendário comum como no católico. A
homenagem ao santo não se faz exclusivamente no dia a ele dedicado. Às vezes sua
festa inicia dez dias antes e culmina no dia dedicado a ele. A festa de São Sebastião, por
exemplo, segue esse modelo. Realizada no interior da região norte do Brasil, na cidade
de Cachoeira do Ararí, tem início com a chegada do mastro à cidade que simboliza o
mesmo ao qual o santo foi amarrado quando prisioneiro, flechado e morto. O mastro é
fixado na frente da igreja matriz, sendo um carregado por homens e outro por mulheres.
Vale dizer que essa tradição remonta há muitos anos. Até mais ou menos meados dos
anos noventa do século XIX, o mastro era conduzido apenas por homens. A abertura da
festa se dá com fogos de artifícios ao raiar do dia e alvorada com músicas em louvor ao
santo. Durante os dez dias são celebradas novenas e missas na igreja matriz da cidade.
Culmina no dia 20 de janeiro de cada ano, com muitas celebrações religiosas e profanas:
missas, batizados, corrida de cavalos, premiações, bingo, leilões e a derrubada dos
mastros. Nos seis meses que antecedem á festa a imagem do santo faz uma espécie de
peregrinação por várias fazendas. A cada dia pernoita em uma delas. Essa prática visa
arrecadar dinheiro para a festa. Interessante notar que é feita simbolicamente pelo
próprio santo. A chegada do santo nas casas é feita de ladainha, rezada em latim e
acompanha de música tocada pelos foliões que possuem instrumentos como viola,
triângulo e tambor. Aliás, este anuncia ao longe a chegada do santo. Como parte das
honras da casa à noite serve o jantar antecedido pela folia em volta da mesa, da qual as
facas devem ser retiradas.
Merecem referências as festas de Padre Cícero em Juazeiro no estado do ceará,
do Senhor do Bom fim na Bahia, entre outros.
A religiosidade presente na sociedade brasileira sem dúvida também é
manifestada por meio do candomblé. Entendida por Ferreira (1986) como a religião dos
negros iorubas da Bahia, ou qualquer uma das grandes festas dos orixás. As praticas do
candomblé são realizadas em terreiros que geralmente possuem um amplo salão com
um altar ao fundo onde podem ser encontrados tanto imagens de santos, como de orixás.
Estas de modo geral são entremeadas por velas e cuias ou cântaros com oferendas aos
orixás. Nos quintais dos terreiros também se espalham oferendas entre árvores e
arbustos. Os rituais são compostos por mulheres e homens vestidos de branco. Homens
tocam tambores e junto ás mulheres em rodas cantam evocando suas entidades
protetoras. Neste caso os rituais são feitos também na presença de público que assiste
sentado em cadeiras no salão e que depois é atendido pelos orixás que foram recebidos
por participantes (médiuns), durante o rito de canto e dança.
A religiosidade como prática é uma manifestação simbólica da interioridade que
se projeta na materialidade. Vilhena (2005) nos ajuda a pensar novamente:

(....), o simbólico é uma expressão e fala que se dirige ao ser humano por inteiro: aos
sentidos, à percepção, às emoções, à razão, à subjetividade e à objetividade humana.
Somos corpo vivo(soma), dotado de sentidos, no qual se apresentam em dinamismo (al
lado do logos) o eros (vida e paixão), o pathos (afetividade e sensibilidade) e o daiamon
(voz que brota da interioridade cada ser humano). O simbólico possui uma dimensão
dinâmica que estimula a mente á atividade, convoca a memória e a criatividade ao
exercício de imaginação, á busca do que subjaz ao imediatamente perceptível. é aquilo
pelo qual se conhece uma realidade que dele próprio difere, constituindo não uma
dimensão atenuada de conhecimento, mas uma extensão da amplitude da cognição
humana.(VILHENA, 2005, p. 60)
É importante para finalizar, que essa autora nos permite pensar que a
religiosidade ao conter um caráter intrinsecamente simbólico representado por
diferentes práticas, estejam articuladas á alguma instituição ou não, ela é desdobrada por
meio de diferentes rituais. Do mais simples ao mais complexo, ou seja, desde o devoto
colocar-se de joelhos diante de um altar de imagens à prática de peregrinação, por
exemplo, no Caminho de Santiago de Compostela na Espanha.

O estudo religiosidade e sua articulação com a cultura se torna importante não só pela tradição
dessa relação, mas principalmente pelo fato de podermos retomar o entendimento de que a
religiosidade se manifesta independente da religião, embora na tradição de nossa cultura ela
esteja a ela vinculada por meio de diferentes ações humanas. A religiosidade, portanto,
independe da instituição Igreja vinculada a uma religião em particular. A conexão sobremaneira
da religiosidade à religião católica, se deve, como vimos, à tradição católica do Brasil desde a
sua colonização. Por outro lado as etnias negras e índia, por exemplo, deixam em nossa cultura
marcas de religiosidade. Esta se faz presente de diferentes modos em nossa cultura, ela
estabelece uma intrínseca relação com o cotidiano das pessoas. Certamente significa
possibilidade de fortalecimento do ser humano ante o difícil desafio de sobreviver.

Referenciais:
BRASIL, Constituição da República Federativa do Brasil: promulgada em 5 de outubro de 1988. São
Paulo: Saraiva, 2000.
FRREIRA. Sérgio Buarque de H. Novo Dicionário da Língua Portuguêsa. Rio de Janeiro: Nova
fronterira, 1986.
GEERTZ, C. As interpretações das culturas. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1989.
JORGE, J. Simões. Cultura religiosa: o homem eo fenômeno religioso. São Paulo: Edições Loyola, 1998.
MENDONÇA, Antônio G. A volta do Sagrado Selvagem: misticismo e êxtase no protestantismo no
Brasil. In: Religiosodade popular e misticismo no Brasil. São Paulo; edições Paulinas, 1984.
PAIVA, José Maria de. Religiosidade e Cultura Brasileira. In: Revista Diálogo Educacional.. Curitiba, vl.
4, n. 9 , maio/ago. 2003.
http://www.religiosidadepopular.uaivip.com.br/artigos.htm, acesso em 17/03/2008.
VILHENA, M.A. Ritos: Expressões e propriedades. São Paulo: Paulinas, 2005.
Atividades
Indicações culturais
Texto:
“O amanhã” de autoria de João Sérgio, gravada por Simone.
Gravação no CD intitulado “Pedaço de Mim”

Comentário
A letra da música acima é profícua quanto à possibilidade de estabelecer relações com a
idéia de religiosidade e cultura. Ela contém elementos de misticismo e de crendices
próprios de nossa cultura. Há, por outro lado, uma mistura de astrologia, quiromancia,
com a crença em Deus, traduzindo ambivalências da condição humana.

Atividade de auto-avaliação
Nas questões a, b, c e d a seguir, marque as sentenças com verdadeiro (V) ou falso (F).

1).Quanto a religiosidade:
( F ) Requerer certas práticas especificamente religiosas católicas.
(V) A religiosidade pode estar vinculada na sua origem à institucionalização do sagrado
pelo indivíduo que depois dele se desvincula praticando sua religiosidade de maneira
autônoma.
(V) A religiosidade é certamente a expressão maior de sentimento inconsciente de
incompletude humana. Ela de algum modo se manifesta, para aqueles que crêem em
uma força superior seja ele Deus ou um ser não claramente entendido. Ela pode estar ou
não vinculada à religião.

Está correta a seqüência:


a. VFV
b. VVF
c. FVV
2). São formas ou modos de manifestação da religiosidade
( F ) Canto, ritos e símbolos.
( V ) Manifestações religiosas, tais como: festas de santos, festas juninas, procissões.
(V) Promessas, consagrações, alianças e novenas.

Está correta a seqüência:


a. FVV
b.VVF
c. VFV

3) Nas religiões:
(F) A religiosidade está sempre presente no ser humano.
(V) Nas religiões a religiosidade se confunde com determinação para a pratica do ritual
religioso, sendo mais difícil, abstrair o estado de religiosidade.
(F) Religiosidade e religião se confundem.

Está correta a seqüência:


a. FVV
b.VVF
c. FVF

4) O misticismo
(V) O misticismo no seu sentido amplo e genérico, e sociologicamente considerado, é
uma criação marginal da institucionalização do discurso e do rito religioso. O processo
de institucionalização do discurso e do rito religioso. O processo de institucionalização
e racionalização expropria indivíduos e grupos que recriam relações com sagrado de
modo, direto, recomeçando, assim, o processo originário da religião. É um retorno às
fontes. Como quase sempre a espoliação é um ato de poder religioso, que acompanha o
poder político, o misticismo tem seu tem seu campo predileto nas camadas dominadas.
Á medida que as camadas dominadas aumentam, o misticismo coletivo tende a
acompanhar esse aumento.
(F) O misticismo independe de classe social e é praticado principalmente por pessoas
intelectualmente desenvolvidas.
(V) A prática do esoterismo também é via para manifestação da religiosidade. Ela se
confunde com o sobrenatural ao ser meio de possibilidades de prever o futuro. Nesse
sentido tem o potencial de antecipar o que, por outras vias levaria mais tempo. O futuro
no seu decurso natural (....).

Está correta a seqüência:


a. FVV
b.VVF
c. VFV

5. Cultura e religião são manifestadas exclusivamente por meio de:


( F ) rezas, festas profanas e ritos.
(F) A religiosidade é uma condição para a prática da religião e manifestação da cultura
religiosa num grupo social.
( V ) Misticismo e prática religiosa são manifestações de religiosidade e de cultura.

Está correta a seqüência:


a. FFV
b.VVF
c. VFV

Questão para Reflexão


Após a leitura do capítulo acima estabeleça relação entre cultura e religiosidade
destacando pelo menos três idéias que sintetizam essa relação.

Atividade de aplicação
Levando em conta o que foi abordado neste capítulo sobre cultura e
religiosidade faça juntamente com seus alunos em seu município e região um
levantamento e registro de diferentes práticas que configuram-s em ações que
expressam formas de religiosidade. Organize um banco de dados.
Faça o mesmo exercício com as festas Juninas. Organize entrevistas para serem
feitas por seus alunos, com pessoas da comunidade dos bairros e onde eles residem, a
fim de compor uma memória sobre os santos homenageados nessas festas, inclusive
resgatando canções típicas da época.
Conclusão

A cultura além de ser lida sob muitos prismas, concebê-la como produção
humana é um desafio inacabado pelas infinitas possibilidades de interpretação dadas
pela produção humana. Esta produção que por ser humana, envolve suas dimensões
materiais e não materiais. Vimos isso quando discorremos sobre as tradições reveladas
por meio de práticas que permanecem ou que são reinventadas como a finalidade de
ficarem, ou até mesmo de inconscientemente, se perpetuarem na sociedade. Quando nos
referimos aos símbolos que, de algum modo visam a demonstrar a materialidade da
cultura. A religiosidade em grande medida se materializa em rezas, orações, práticas,
rituais. Certamente é uma das mais significativas formas de cultura sob sua face
imaterial. Ela tem a ver com devoção, fé, crença, aspectos estritamente relacionadas a
interioridade do sujeito.
Por isso me parece cada mais vez oportuno conceituar cultura no termo indicado
por Geertz como teia de significados. Essa compreensão nos permite pensar também em
cultura duplamente, ou seja, como produção material e imaterial humana, como me
referi acima. Um complexus de realizações que na sociedade se entrelaçam numa
infinidade de inter-relações somente explicadas pelos sentidos das obras humanas para e
em cada sociedade e grupo social em particular. Significados e sentidos que traduzem
subjetividades de pessoas, indivíduos na relação que estabelecem com o universo do
qual participam.
Sentido e significado permitem entender os porquês dessas produções e não
simplesmente o fato delas existirem. O que significa ou o que entendo seja para mim
participar de uma procissão religiosa em Juazeiro no Ceará, torna-se digamos mais
substancial do que simplesmente descrever a procissão como um dado daquela cultura.
É preciso apreendê-la no universo do que ela é para o devoto, do porque ele dedica
horas a fio de seu tempo para aquela prática exclusivamente em estado de contrição.
Assim, foi nessa perspectiva que discorri sobre cultura nas relações que entendi
serem pertinentes de serem com ela estabelecidas nos seis capítulos que compõem o
livro. Importa destacar que eles se constituem em apenas um recorte que me foi possível
fazer ante as interfaces que cada assunto de capítulo permite entre si. Justamente por se
resumirem em cultura.
Cultura é ao mesmo tempo um assunto novo a antigo. Antigo enquanto prática
humano social cuja definição remonta ao século XIX e novo como compreensão a ser
retomada não só no campo da história, mas também da educação. Neste de modo
bastante reduzido, sendo muito mais adotado por antropólogos que estudam práticas
educativas em sociedades indígenas ou grupos populares e historiadores da educação
nos domínios da história cultural. Desse modo, a tradição educacional, principalmente
escolar não tem o costume de lidar com o conceito de cultura para estruturar sua
concepção educativa e compor os currículos escolares.
O distanciamento entre educação e vida significa, a meu ver, o próprio fosso
existente entre ação escolar e cultura. A educação escolar tem lidado com conteúdos
escolares de maneira ideal como se eles não tivessem sido originados da própria cultura,
ou seja, do mundo onde as pessoas vivem. Daí o distanciamento entre escola e vida. Por
isso a escola se tornou um ente metafísico para grande parte dos alunos. Penso que isso
se explica pelo desvalor histórico construído em relação à cultura nativa. Por cultura
nativa entendo a cultura na qual o sujeito nasceu. Nosso processo colonizador foi tão
tenaz com os nossos índios, com os negros que depois vieram que construímos
concomitantemente uma cultura de valorização do que vem de fora. Por isso são tantos
os modelos que chegam à escola, mas que deles, os professores, os alunos não se
apropriam. Há por isso uma relação muito mecânica com a escola e com o que ela
ensina. Não há significado, por que os conteúdos, as práticas enfim estão distantes da
cultura. Porque não há sentido para os sujeitos por ser inviável relacionar, na maioria
das vezes o conhecimento escolar á vida. Acostumamos-nos ouvir em eventos de
educação que temos que adequar os conteúdos escolares à realidade e necessidades dos
alunos. Há algo mais mecânico do que isso? Sabemos que o conhecimento escolar de
um olhar mais criterioso do homem sobre realidade, sobre o que ele produz. Aqui reside
somente a diferença, ou seja, o saber que está na sociedade enquanto uma gama infinita
de realizações humanas e essas mesmas realizações vistas pelo prisma da ciência,
portanto da sistematicidade. O desafio para nós está em o que consideramos como ponto
de partida e de chegada. Se a cultura em seu estado bruto ou ela de modo lapidado
estudado, refletido pela ciência como meio de explicar e entender nossas próprias
realizações. Este é o sentido deste livro. Como professores nós temos mais do que o
dever de criar condições para que aluno faça a passagem do “senso comum à
consciência filosófica”. Penso que os estudos sobre religiosidade que estão no cerne de
qualquer cultura propiciam também o estudo da dimensão simbólica da cultura, suas
tradições religiosas e não, a idéia de diversidade contida nas práticas e nas crenças. As
contribuições étnicas para a expressão dessa característica da condição humana
largamente presente na sociedade brasileira.
Por fim entendo que precisamos acordar para o fato de que educação e cultura
são duas faces de uma mesma moeda. Sentidos e utilidades de ambas se interpenetram e
por isso se significam.

Bibliografia comentada
LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar, 2007
Este é um texto que chamaria de pequeno grande livro. Ele contém uma apreciação bem
articulada e simples de cultura. Trabalha com exemplos que podem ser retirados do
cotidiano para definir cultura. Organizado em duas partes traz na primeira um resumido
histórico sobre o conceito de cultura do iluminismo à contemporaneidade. na segunda
parte analisa a relação entre cultura e sociedade por meio de sua influência no
comportamento social. É um livro síntese, fundamental para quem deseja saber de
cultura de um ponto de vista mais sistematizado e didático.

BRANDÃO, Carlos Rodrigues. A Educação como Cultura. Campinas, SP: Mercado das
Letras, 2002.
Este é mais um dos grandes trabalhos de Carlos Rodrigues Brandão. De leitura ao
mesmo tempo densa e fácil pela simplicidade como expõe suas idéias sobre cultura e
educação, ele nos leva aos meandros dessa imbricada relação. Divido em sete capítulos
o livro está articulado da compreensão de cultura aos relatos de experiências que o
exercício de antropólogo lhe permitiu fazer basicamente no campo da educação, campo
pelo qual transita de maneira bastante peculiar e com muita propriedade. Ele nos instiga
a fazer educação escolar, educação popular a partir e com os instrumentos culturais que
os sujeitos possuem daí o seu significado e sentido. É uma obra imprescindível para
educadores, contém um pouco de história na experiência educativa com grupos
populares nos anos 80 do século XX. Nas entrelinhas ele indica caminhos sobre como
ser e fazer educação escolar. Justamente pelo fato de que educação e cultura estão
imbricadas.

GEERTZ, C. As interpretações das culturas. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1989.


As interpretações das culturas é uma obra densa e por essa razão desafiadora. Traz um
entendimento de cultura da perspectiva da semiótica como teia de significados tecidos
pelo homem. Significados particulares a cada cultura, a cada sociedade. A cultura tem
um peso importante sobre a definição de homem. Sua leitura desde a ótica religiosa é
um modo de entender a complexidade humana demarcada por símbolos inteligíveis
desde sua concepção e não da mera representação material. Da cultura faz parte a
ideologia por estar na base da sociedade fazendo criticas aos próprios modos
ideológicos de pensar a ideologia. Ler a primeira parte é fundamental para quem deseja
saber sobre cultura desde bases empíricas.

Glossário
Cultura: significados, sentidos expressados por meio de diferentes realizações humanas.
Cultura brasileira: diferentes manifestações provenientes de uma coletividade, de grupos
sociais, comunidades de uso geral (comum a todos) ou de significado e sentido
particular a cada uma dessas manifestações. O caracteriza de modo geral ou particular a
sociedade brasileira.

Símbolo: o que expressa em sentido e significado a cultura.

Religiosidade: modo de ser, estado permanente ou não do sujeito que se expressa por
meio de diferentes praticas de caráter transcendente.
Resultado
Capítulo 1
1.c; 2. b; 3. a; 4.b; 5. c

Capítulo 2
1. c; 2. b; 3. c; 4. c; 5. c

Capítulo 3
1.c; 2. a; 3. c; 4. b; 5.c

Capítulo 4
1.c; 2.c; 3. c; 4. b; 5. a

Capítulo 5
1.b; 2. c; 3. b; 4. a; 5. a

Capítulo 6
1. c; 2. a; 3. c; 4. c; 5. a