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Brasil reduz mortes no

trânsito, mas está


longe da meta para
2020
Estados que fazem mais fiscalização conseguem reduzir uso de
álcool

Publicado em 18/09/2018 - 20:09

Por Pedro Rafael Vilela - Repórter da Agência Brasil Brasília

As mortes por acidentes de trânsito no país estão em queda. Um


levantamento inédito do Ministério da Saúde divulgado hoje (18),
que marca o início da Semana Nacional do Trânsito, aponta que,
em seis anos, houve uma redução de 27,4% dos óbitos nas capitais
do país. Em 2010, foram registrados 7.952 óbitos, contra 5.773 em
2016, o que representa uma diminuição de 2,1 mil mortes no
período. Apesar da redução, o país segue longe da meta
estabelecida pela Organização das Nações Unidas (ONU), que prevê
redução de 50% no número de vítimas em 10 anos, contados a
partir de 2011.

Além disso, considerando todas as cidades do Brasil, não apenas as


capitais, foram registradas 37.345 mortes de trânsito em 2016, que
é o último ano com dados disponíveis no Sistema de Informações
sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde. O número é 14,8%
menor do que o registrado, por exemplo, em 2014, quando
ocorreram 43.870 óbitos no trânsito brasileiro. A meta do país, em
2020, é não ultrapassar o número de 19 mil vítimas fatais por ano.
“Esse número de 37 mil vidas perdidas em acidentes por ano é
superior à população de muitas cidades brasileiras. Infelizmente,
quando boa parte da população pensa em trânsito, o que vem à
mente são os congestionamentos e chamada indústria da multa,
mas o que temos é uma indústria da dor e da morte”, afirma
Renato Campestrini, advogado, especialista em trânsito e gerente
técnico do Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV).
Além das mortes, 600 mil pessoas ficam com sequelas permanentes
todos os anos em decorrência de acidentes de trânsito.

Relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS) mostra que o


Brasil aparece em quinto lugar entre os países recordistas em
mortes no trânsito, atrás somente da Índia, China, Estados Unidos
e Rússia. Além desses, Irã, México, Indonésia, África do Sul e Egito
estão entre os países de trânsito mais violento do planeta. Juntas,
essas dez nações são responsáveis por 62% das 1,2 milhão de
mortes por acidente no trânsito que ocorrem no mundo todos os
anos. Além dos mortos, acidentes de trânsito resultam em mais de
50 milhões de feridos a cada ano.

No Brasil, mais de 60% dos leitos hospitalares do Si///stema Único


de Saúde (SUS) são ocupados por vítimas por acidente de trânsito.
Nos centros cirúrgicos do país, 50% da ocupação também são por
vítimas de acidentes rodoviários. Segundo o Observatório de
Segurança Viária, os acidentes no trânsito resultam em custos
anuais de R$ 52 bilhões.

Dez anos da Lei Seca


A redução dos óbitos pode estar relacionada às ações de
fiscalização após a Lei Seca, que neste ano completou 10 anos de
vigência. Além de mudar os hábitos dos brasileiros, a lei trouxe um
maior rigor na punição e no bolso de quem a desobedece, com
regras mais severas para quem misturar bebida com direção.

A diretora do Departamento de Vigilância de Doenças e Agravos


não Transmissíveis e Promoção da Saúde do Ministério da Saúde,
Maria de Fátima Marinho, avalia que a diminuição das mortes no
trânsito mostra que o brasileiro tem mudado, aos poucos, as
atitudes, prezando cada vez mais pela segurança.

“Houve um aprimoramento da legislação, aumento na fiscalização


e alguns programas estratégicos, como o Vida no Trânsito. No
entanto, o número de óbitos e internações ainda preocupa,
especialmente os de motociclistas. Precisamos avançar na
mobilidade segura para reduzir esses números”, enfatizou Maria de
Fátima Marinho.

Fiscalização reduz mortes


Um estudo recente do Observatório de Segurança Viária mostrou
que só há eficácia da Lei Seca nos estados que realizam o maior
número de blitz de fiscalização. No Brasil, a taxa média nacional
de fiscalização é de um em cada 500 veículos da frota total do
país, enquanto em países como Portugal e Espanha, essa média é
de um a cada cinco veículos da frota. Na França, essa taxa é ainda
melhor: um a cada três veículos do país são fiscalizados em blitz.

“Os estados que têm mais fiscalização, têm menos acidentes


relacionados à combinação entre álcool e direção. Quando ele tem
a sensação de que a fiscalização está presente, acaba sendo mais
prudente”, explica Renato Campestrini. Entre as unidades da
federação analisadas, Pernambuco, Ceará, Alagoas, Amazonas, Rio
de Janeiro, Bahia e Paraíba conseguiram reduzir para menos de 9%
o número de motoristas flagrados em operações da Lei Seca. Esses
mesmos estados são, pelas estatísticas, os que realizam o maior
número de fiscalizações.

Semana do Trânsito
O tema da Semana Nacional de Trânsito de 2018 é Nós somos o
trânsito. Prevista no Código Brasileiro de Trânsito (CBT) e
organizada anualmente entre os dias 18 e 25 de setembro, a
semana busca conscientizar condutores de veículos e motocicletas
a respeitarem a legislação e ajudar a construir um ambiente viário
mais seguro. Segundo o Registro Nacional de Infrações de Trânsito,
do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), entre as cinco
principais infrações cometidas por motoristas e motociclistas estão
excesso de velocidade, falta de cinto de segurança e avanço de
sinal vermelho.
“Cerca de 95% dos acidentes são causados por falha humana ou
falha mecânica por falta de manutenção, o que também não deixa
de ser uma falha humana do condutor. É preciso mudar, de fato, a
cultura no trânsito”, afirma Campestrini, do Observatório de
Segurança Viária. Segundo o especialista, além de reforçar a
fiscalização no trânsito, com a realização de um maior número de
fiscalizações, o país precisa avançar na formação dos seus
condutores.

“A moto é, reconhecidamente, um dos veículos que causam o


maior número de vítimas fatais no trânsito, mas, para tirar a
habilitação, o motociclista faz a prova em circuito fechado, em
primeira marcha, e apenas com o funcionamento do freio traseiro.
Isso precisa ser revisto”, exemplifica.
Maio amarelo: Contextualizando as
estatísticas de acidentes de trânsito
no Brasil
Dados oficiais suscitam questões sobre a imprudência dos condutores e a
necessidade de maior fiscalização dos órgãos competentes

há 1 ano por Ana Luísa Azevedo, Andressa Contarato, Danielle Sanches


O alto índice de mortos e feridos em acidentes em vias públicas em
todo o mundo aponta para um quadro complexo da sociedade atual,
suscitando questões sobre o papel do Estado e dos cidadãos na
segurança do trânsito, e o impacto na economia e na saúde pública.
Alvo de uma campanha internacional de mobilização da sociedade civil
e de agentes públicos, denominada Maio Amarelo, o tema também
apresenta desafios no Brasil. Nesse sentido, a FGV DAPP apresenta
nesta publicação uma análise que evidencia os dados públicos
disponíveis sobre a segurança viária no país.

É necessário destacar que os dados oficiais sobre o tema são


fundamentais para contextualização do problema, permitindo a
visualização de ações necessárias para redução dos número de casos
no país. A ferramenta DataCrime, elaborada pela FGV DAPP, por
exemplo, disponibiliza informações sobre mortes em acidentes de
trânsito, considerando dados consolidados pelo Fórum Brasileiro de
Segurança Pública e os dados gerados pelo Sistema de Informações
sobre Mortalidade do Ministério da Saúde (SIM/MS). Entretanto, a
análise mostra que nem todos estados disponibilizam os dados de
forma regular e que diversas informações não permitem identificar o
cenário atual devido à defasagem dos números.

As estatísticas de trânsito no Brasil

Dados do Ministério da Saúde sinalizam que houve no ano de 2015


(dados mais recentes disponíveis) 38.651 mortes em vias públicas,
patamar que coloca o Brasil na quinta colocação entre os países com o
maior número de vítimas de trânsito[1]. Os números apontam para um
quadro complexo, suscitando questões sobre o papel do Estado e dos
cidadãos na segurança do trânsito, e o impacto na economia e na saúde
pública.

Em abril de 2018, entrou em vigor no Brasil uma lei federal [2] que
prevê o endurecimento das punições em acidentes de trânsito com
vítimas no caso de envolvimento de motoristas que estavam sob
influência do álcool ou de qualquer outra substância psicoativa que
determine dependência. Sabe-se que as mortes no trânsito podem
estar relacionadas à um conjunto de fatores, que englobam desde a
desorganização do trânsito, as más condições dos veículos e das
estradas, até o comportamento dos usuários e a pouca punição
conferida aos infratores [3].

No país, o estado que contabilizou a maior taxa de vítimas fatais no


trânsito, em 2015, foi o Piauí com 36,62 mortes por 100 mil habitantes,
seguido pelo estado do Tocantins, com uma taxa de 36,10, e o de
Roraima, com uma taxa de 32,83 por 100 mil habitantes.

Figura 1 – Mortes por acidentes de trânsito por UF por 100 mil


habitantes no ano de 2015

Fonte: DATASUS. Elaboração: FGV DAPP.


Nota: Disponível em: http://www2.datasus.gov.br/DATASUS/.
<acessado em: 22.02.18>

Conforme Noronha e Morais (2011) destacam é importante que se


considere as diferentes categorias de veículos e a proporção de
crescimento da frota ao longo do tempo. Os acidentes que envolvem
motocicletas, em especial, provocam, comparativamente a outros
veículos, um maior número de acidentes [4]. Segundo estes autores, os
acidentes com motocicleta tendem a envolver um número maior de
vítimas por conta de fatores como a proteção inadequada do usuário,
uma maior vulnerabilidade de seus ocupantes devido às características
do veículo e o comportamento inadequado dos motoristas no
perímetro urbano.

Ao se observarem os valores referentes às taxas de automóveis,


caminhões e motocicletas, por 100 mil habitantes, verifica-se que no
Brasil o maior quantitativo de veículos está concentrado na frota de
automóveis, como se pode notar no gráfico a seguir.

Gráfico 1 – Evolução temporal da frota de veículos no Brasil, por taxa de


100 mil habitantes

Fonte: DENATRAN, Sistema SIF, Relatório de Frotas. Elaboração: FGV


DAPP. Disponível em:
http://www.automotivebusiness.com.br/abinteligencia/pdf/R_Frota_
Circulante_2017.pdf, acessado em: 23/02/18.

No entanto, quando se considera a variação temporal da frota de


veículos, nota-se um crescimento significativo na frota de motocicletas
circulantes nos estados brasileiros, como indica o gráfico 2 a seguir.

Gráfico 2 – Variação temporal da frota de veículos no Brasil, ano base


2010
Fonte: DENATRAN, Sistema SIF, Relatório de Frotas. Elaboração: FGV
DAPP.
Nota: Disponível em:
http://www.automotivebusiness.com.br/abinteligencia/pdf/R_Frota_
Circulante_2017.pdf, acessado em: 23/02/18.

A partir dos dados do SUS, é possível identificar, no gráfico 3, que as


vítimas fatais de acidentes de trânsito são, em sua maioria, masculina,
com 82,38%, enquanto a população feminina representa 17,62% desse
universo.

Gráfico 3 – Percentual de homens e mulheres vítimas fatais de acidentes


de trânsito
Fonte: DATASUS. Elaboração: FGV DAPP.
Nota: Disponível em: http://www2.datasus.gov.br/DATASUS/.
<acessado em: 22.02.18>

Quando se observa, no gráfico 4, a pirâmide etária do percentual de


vítimas fatais de acidentes de trânsito, verifica-se que a maior parte
das vítimas possuem entre 20 a 49 anos, tanto para o sexo masculino
(61,86%), como feminino (47,64%).

Gráfico 4 – Pirâmide etária do percentual de vítimas fatais de acidentes


de trânsito – 2015
Fonte: DATASUS. Elaboração: FGV DAPP.
Nota: Disponível em: http://www2.datasus.gov.br/DATASUS/.
<acessado em: 23.01.18>

Impacto econômico dos acidentes de trânsito

Relatório sobre segurança viária, publicado pela Ambev [5], indica que
os gastos com óbitos e feridos por acidentes de trânsito no Brasil, em
2015, foi de R$ 19 bilhões, o que representa um valor superior à
arrecadação do estado do Mato Grosso em 2016 (R$ 16 bilhões), por
exemplo. De acordo com relatório do Ipea, publicado em 2015, o
impacto econômico causado pelos acidentes de trânsito, apenas em
rodovias federais, no Sistema Único de Saúde foi perto de R$ 1 bilhão
para o ano de 2014 [6].

É importante ressaltar que o atendimento na rede pública de saúde


devido aos acidentes de trânsito onera não apenas o atendimento
emergencial, mas também um acompanhamento prolongado dos
acidentados no que tange às sequelas e aos tratamentos prolongados.
Observando-se os dados do Ministério da Saúde referentes ao
diagnóstico de sequelas ocasionadas por acidentes de trânsito no
Brasil, verificou-se que o estado do Tocantins figura no primeiro lugar
entre os Estados com dados disponíveis entre os anos de 2015 e 2017,
com maior número de sequelas provocadas por acidentes de trânsito,
conforme indica o gráfico 5 a seguir. Nesse sentido, ressalta-se que a
questão da segurança viária é um tema muito importante para este
estado. O Rio de Janeiro vigorou, no ano de 2017, em segundo lugar,
com 21,82 pessoas lesionadas por 100 mil habitantes.

Gráfico 5 – Sequelas causadas por acidentes de trânsito por UF – por


taxa de 100 mil habitantes

Fonte: DATASUS. Elaboração: FGV DAPP..


Nota: Disponível em: http://www2.datasus.gov.br/DATASUS/.
<acessado em: 22.02.18>

Um olhar sobre o Rio de Janeiro

O interesse de analisar as estatísticas de trânsito no estado do Rio de


Janeiro se refere à disponibilidade de dados, para o ano de 2017,
relativos às mortes e lesões no trânsito produzidas pelo Instituto de
Segurança Pública do Rio de Janeiro (ISP). Deste modo, essas
informações estaduais complementam os dados do SUS de sequela,
permitindo contextualizar os acidentes de trânsito no estado.

Vale ressaltar que as informações do SUS sobre mortes e lesões no


trânsito no Brasil só estão disponíveis até o ano de 2015. Importante
esclarecer que as lesões de acidentes de trânsito não geram,
necessariamente, sequelas em suas vítimas.E que os dados de sequelas
estão atualizados até o ano de 2017.

O gráfico a seguir indica o crescimento significativo da série histórica


das sequelas provocadas por acidentes de trânsito no estado do Rio de
Janeiro, chamando atenção para compreensão da forma que ocorrem
esses eventos. Entende-se que quanto maior a gravidade dos acidentes
maior a possibilidade de geração de sequelas nas suas vítimas.
Gráfico 6 – Evolução, por taxa de 100 mil habitantes, de sequelas
provocadas por acidentes relacionadas a trânsito

Fonte: DATASUS. Elaboração: FGV DAPP.


Nota: Disponível em: http://www2.datasus.gov.br/DATASUS/.
<acessado em: 20.04.18>

Quando se observam informações do Ministério da Saúde a respeito do


número de mortes de trânsito no estado fluminense, nota-se que
algumas cidades do interior vigoram como as que possuem as maiores
taxas de acidentes. Os municípios da Região dos Lagos, como Araruama
e Cabo Frio, têm as piores taxas de sequelas decorrentes de acidentes
de trânsito do estado do Rio de Janeiro, entre os anos de 2015 a 2017.

Gráfico 7 – Sequelas causadas por acidentes de trânsito por municípios


do RJ – taxa por 100 mil habitantes

Fonte: DATASUS. Elaboração: FGV DAPP.


Nota: Os dados do Sistema Único de Saúde (SUS) ainda podem sofrer
alterações. Disponível em: http://www2.datasus.gov.br/DATASUS/.
<acessado em: 22.02.18>

É importante destacar que os dados do Departamento de Trânsito do


estado do Rio de Janeiro (Detran) referentes às três maiores
incidências de infrações mostram que a condução acima do limite
máximo de velocidade e também o avanço de sinal vermelho ou de
parada obrigatória são as categorias mais recorrentes. Esses números
apontam para a necessidade de maior regulação e fiscalização em vias
públicas urbanas ou fora do perímetro urbano.

Gráfico 8 – Taxa de infrações no estado do Rio de Janeiro de trânsito no


ano de 2017 por 1 mil habitantes

Fonte: DETRAN. Elaboração: FGV DAPP.


Nota: Disponível em: http://www.detran.rj.gov.br/. <acessado em:
23.01.18>
De acordo com os dados divulgados pelo ISP sobre mortes no trânsito
[7], os municípios do Rio de Janeiro que constam com maiores taxas de
vítimas no ano de 2017 foram: São José de Ubá, Sapucaia, Laje do
Muriaé, Piraí e São Sebastião do Alto, todas cidades com população
abaixo de 20 mil habitantes. Quando ponderamos o número de
acidentes pela taxa populacional, essas ficam acima de municípios
como Rio de Janeiro (71ª posição, 0,98 por taxa), Niterói (69ª posição,
1,04 por taxa), São Gonçalo (61ª posição, 1,24 por taxa), dentre outros
que possuem grande quantitativo populacional e uma maior frota de
veículos.

Figura 2 – Homicídios decorrentes de acidentes de trânsito por


municípios do estado do Rio de Janeiro – por 10 mil habitantes no ano
de 2017

Fonte: Instituto de Segurança Pública. Elaboração: FGV DAPP.


Nota: Disponível em: http://www.isp.rj.gov.br/. <acessado em:
23.01.18>

Uma das hipóteses para as altas taxas de mortes em decorrência de


acidentes de trânsito nas cidades pequenas é que no seu entorno
encontram-se algumas importantes rodovias do estado, como a BR-393
(antiga Rio-Bahia) no caso de Sapucaia, a rodovia RJ-116 (importante
via de ligação para o norte fluminense), no de São José de Ubá passa a
RJ-141, que atravessa o município de Piraí e é asfaltada em apenas 6
quilômetros do total de 36 km.

Como se pode observar no mapa a seguir, esses municípios estão


circunscritos a áreas com diferentes vias estaduais e federais, o que
pode estar relacionado ao número de acidentes nestas localidades.
Uma outra hipótese a ser mencionada é a falta de infraestrutura de
fiscalização de tais cidades [8].

Mapa 1 – Municípios do RJ com maior taxa de acidentes no trânsito – por


10 mil habitantes para o ano 2017
Fonte: Instituto de Segurança Pública e DNIT. Elaboração: FGV DAPP.
Nota: Disponível em: http://www.isp.rj.gov.br/ e
http://www.dnit.gov.br/ <acessado em: 23.01.18>

Ao observarem-se as taxas referentes à evolução temporal de lesão


corporal culposa de trânsito confrontadas com as de homicídio culposo
de trânsito, entre os anos de 2003 à 2017 no estado do Rio de Janeiro,
nota-se que a partir de 2009 há uma constante queda de ambas taxas.
Este dado pode ter influência da implementação da Lei n° 11.705/08,
também conhecida como Lei Seca de Trânsito [9], que tornou mais
severa a fiscalização e punição para os condutores que dirigem sob o
efeito do álcool. No entanto, destaca-se um aumento no ano de 2017,
podendo haver uma tendência de crescimento contínuo nos anos
posteriores ou apenas representar um aumento pontual.

Gráfico 9 – Série histórica de lesão corporal culposa de trânsito e


homicídio culposo de trânsito no Rio de Janeiro – 2003 a 2017

Fonte: Instituto de Segurança Pública. Elaboração: FGV DAPP.


Nota: Disponível em: http://www.isp.rj.gov.br/. <acessado em:
23.01.18>

Reflexões sobre as estatísticas de trânsito no Brasil


Destaca-se a importância de dados cada vez mais consistentes que
permitam contextualizar o quantitativo de pessoas vitimadas por
acidentes de trânsito no Brasil. Nem todos os estados podem contar,
como o Rio de Janeiro [10], com dados atualizados sobre vítimas no
trânsito. Em nível nacional, a base mais completa é a composta pelas
estatísticas do Sistema Único de Saúde, no entanto, elas só estão
disponíveis até o ano de 2015. Os dados disponibilizados pelos estados
sobre suas estatísticas criminais de mortes no trânsito, apesar de
serem mais recentes [11], possuem muitos dados não informados [12].

Na ferramenta DataCrime, elaborada pela FGV DAPP é possível


visualizar esta discrepância entre os dados do sistema de saúde e os
dados provenientes dos registros de ocorrência policiais. Deste modo,
há a necessidade da disponibilidade de informações mais atualizadas e
consistentes para o melhor planejamento e monitoramento de políticas
públicas voltadas para redução de mortes no trânsito. Além disso, o
uso de outras fontes, como as divulgadas pelos departamentos de
trânsito estaduais, contribuem para que se possa cruzar um número
cada vez maior de informações a fim de se contextualizar melhor esta
problemática.

Figura 3 – Comparação entre as estatísticas de Saúde e de Segurança


Fonte: FGV DAPP, DataCrime.
Disponível em: http://dapp.fgv.br/seguranca-e-
cidadania/datacrime/#crimes. Acessado em: 27/04/18.

Importante ressaltar que já há um direcionamento [13], por parte da


Organização Mundial da Saúde (OMS), para comprometimento dos
países membros, como o Brasil, na introdução de ações que visem a
redução das mortes por acidentes de trânsito. De acordo com a ONU
[14], os acidentes de trânsito constituem a 9ª causa de mortes em todo
mundo.

Uma questão indicada pela OMS diz respeito à velocidade do veículo no


momento do acidente. Ainda de acordo com a OMS [15], uma em cada
três mortes por acidentes de trânsito em todo mundo é ocasionada por
velocidade excessiva ou inapropriada. O relatório Managing Speed
(Gerenciando a Velocidade, em tradução livre) [16] indica que uma
redução de 5% na velocidade média pode resultar em uma redução de
30% das colisões fatais. O estudo ressalta que quanto maior a
velocidade do veículo, maior o risco de lesões e mortes para os
pedestres.

Fonte: OMS, Relatório sobre Segurança Viária, 2017. Elaboração: FGV


DAPP.

Esta relação entre a velocidade do veículo e a distância de frenagem,


indicada no relatório da OMS, evidencia que a gravidade do acidente
tem influência direta na velocidade do veículo no momento da batida.
Quanto maior a velocidade do veículo maior será a distância necessária
para que ele pare.
Neste sentido, deve-se considerar que a necessidade de políticas
públicas que visem a redução de acidentes de trânsito não está restrita
apenas ao Brasil, de modo que é interessante estar atento ao que vem
sendo discutido internacionalmente e quais soluções vêm sendo
implementadas com bons resultados. Tais ações envolvem desde
medidas punitivas para condutores que estão alcoolizados e/ou em
excesso de velocidade, um maior controle sobre a fiscalização da
concessão de licenças para condução de veículos, até uma preocupação
com estradas mais seguras, redução dos limites permitidos de
velocidade e o uso de tecnologias instaladas nos carros e nas vias para
coibir irregularidades e proteger mais as vítimas caso ocorram
colisões. Por fim, um aspecto que merece atenção, refere-se à
necessidade da população estar consciente da sua responsabilidade
tanto como pedestre, como na condução de um veículo. Com esta
conscientização e maior rigor na fiscalização dos motoristas com
carteiras suspensas, ou que estejam cometendo infrações de trânsito,
muitos acidentes poderiam ser evitados.

Notas Metodológicas

As taxas calculadas foram feitas através da seguinte equação: Taxa =


número de pessoas com uma característica Total da população alvo* C,
onde C é uma constante, para a padronização das casas decimais. Por
exemplo, 100, 10.000, 100.000 …

O cálculo da população teve como denominador os dados referentes às


fontes: IBGE e ISP, porém é importante ressaltar que quando se
utilizou usar a população provinda da fonte IBGE numa visualização,
todos os cálculos foram baseados nesta fonte.

Para a variação percentual, foi utilizado o seguinte cálculo: Variação =(


t1t0- 1) * 100. Este cômputo dedica-se a observar o quanto cresceu ou
o quanto decresceu a quantidade de um objeto de estudo ao longo de
tempo.

Notas

[1] Disponível em: https://nacoesunidas.org/acidentes-de-transito-


matam-125-milhao-de-pessoas-no-mundo-por-ano/>. Acesso em:
23/02/18.
[2] Lei nº 13.546, de 19 de dezembro de 2017. Disponível em:
<https://presrepublica.jusbrasil.com.br/legislacao/533537587/lei-
13546-17>. Acesso em: 19/04/18.
[3] NORONHA, Cláudia Karine Carmo de; e, MORAIS, Eronice Ribeiro
de. Ocorrência de óbitos por acidentes de motocicletas em Teresina,
estado do Piauí, Brasil. In: Revista Pan-Amazônica de Saúde, vol. 2, n. 4,
2011. p. 11.
[4] NORONHA, Cláudia Karine Carmo de; e, MORAIS, Eronice Ribeiro
de. Ocorrência de óbitos por acidentes de motocicletas em Teresina,
estado do Piauí, Brasil. In: Revista Pan-Amazônica de Saúde, vol. 2, n. 4,
2011. p. 11.
[5] AMBEV, Retrato da Segurança Viária 2017, disponível em:
https://www.ambev.com.br/conteudo/uploads/2017/09/Retrato-da-
Seguran%C3%A7a-Vi%C3%A1ria_Ambev_2017.pdf, acessado em:
22/02/2018. Ver também: Escola Nacional de Seguros. Portal
Acidentologia: Dados, estatísticas e cenários do trânsito brasileiro.
Disponível em: http://acidentologia.funenseg.org.br/#/method/.
Acessado em: 27/04/18.
[6] MASSAÚ, Guilherme Camargo e DA ROSA, Rosana Gomes. Acidentes
de Trânsito e Direito à Saúde: prevenção de vidas e economia pública.
In: Revista Dir. Sanitária, São Paulo, v. 17, n.2, 2016. pp.: 42.
[7] As vítimas de crimes de trânsito são contabilizadas pelo ISP a partir
dos títulos homicídio culposo de trânsito e lesão corporal culposa de
trânsito.
[8] Informações disponibilizadas pelo Departamento Nacional de
Infraestrutura de Transportes (DNIT).
[9] OLIVEIRA, Natália; CONTADOR, Claudio; RODRIGUES, Caroline;
SILVA, Pedro e COUTO, Juliana. A Lei Seca, impactos econômicos e a
contribuição do seguro, 2016. In: CPES, Escola Nacional de Seguros.
Disponível em: <http://cpes.org/wp-content/uploads/2017/12/Lei-
seca-dez2017-1.pdf>. Acessado em: 07/05/18.
[10] O Instituto de Segurança Pública disponibiliza mensalmente em
seu site institucional os dados sobre vítimas de crimes de trânsito.
[11] O 11º Anuário Brasileiro de Segurança Pública apresenta dados
sobre trânsito (tabela 10) para o ano de 2016. Disponível em:
<http://www.forumseguranca.org.br/atividades/anuario/>. Acesso
em: 29/01/18.
[12] Nem todos os Estados enviam informações, além disso há também
números que apresentam variações muito grandes com o que é
disponibilizado pelo SUS. Isto pode ser devido a um envio parcial de
dados.
[13] Foi lançada pela ONU em 2011, a Década de Ação pela Segurança
no Trânsito (2011-2020). O objetivo é que governos de todo mundo se
comprometam com medidas visando a prevenção dos acidentes de
trânsito.
[14] Dados disponíveis em
<https://nacoesunidas.org/campanha/seguranca-transito/>. Acesso
em: 24/01/18.
[15] Disponível em: <https://nacoesunidas.org/oms-recomenda-
limite-de-50kmh-para-reduzir-mortes-no-transito-velocidade-alta-
causa-um-terco-de-obitos-por-acidentes/>. Acesso em: 24/01/18.
[16] WHO, Managing Speed, 2017. Disponível em:
<http://www.who.int/roadsafety/week/2017/en/>. Acesso em:
24/01/18.