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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO

ESCOLA DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

PALOMA LUIZA DA SILVA BEZERRA

A EVOLUÇÃO DA REPRESENTAÇÃO LITERÁRIA DA INFÂNCIA MARGINAL

SÃO PAULO
2019
1

A EVOLUÇÃO DA REPRESENTAÇÃO LITERÁRIA DA INFÂNCIA MARGINAL

Introdução

A formação do Estado brasileiro, tal como pede sua complexidade, ainda hoje é objeto
de análises elaboradas pelos mais diversos ângulos possíveis e que, se bem feitas, não
conseguem escapar de tratar sobre aquilo que, por vezes, parece ser a característica definidora
do Brasil: a desigualdade. Tal questão, tão presente na nossa realidade que já parece ser a ela
intrínseca e para a qual parecemos ainda distantes de encontrar uma solução, é tema marcante
nas manifestações artísticas, que, não raramente, se mostram poderosos mecanismos de
crítica, especialmente a partir do final do século XIX, com o movimento realista. Na música,
por exemplo, temos principalmente o ​rap ​como um gênero de denúncia e, na literatura,
também diversos autores escrevem sobre a situação precária da vida das classes baixas
brasileiras, compondo o que chamamos de literatura marginal.
Neste ensaio pretendo refletir sobre uma representação específica que figura nessa
subárea da manifestação literária: a da criança. Para tanto, apresento aqui a tentativa de
estabelecer um diálogo entre dois contos, a princípio, distantes: “Frio”, de João Antônio,
publicado no livro ​Malagueta, Perus e Bacanaço (1963) e “Roleta-russa”, de Geovani
Martins, que compõe a obra ​O sol na cabeça ​(2018). Apesar das diferenças de contextos e
motivações de cada texto, ambos têm em suas protagonistas um ponto-chave de união; em
termos mais claros, ambos relatam as história de meninos que vivem em situações precárias e
integram as massas das camadas socioeconômicas mais baixas.
Tomando como base a teoria da “dialética da marginalidade”, postulada pelo professor
João Cezar de Castro Rocha (2006), quero demonstrar como essas duas formas diferentes de
representação literária de crianças pobres nos dão um vislumbre importante da decadência da
malandragem e a transição desta para o contexto de marginalidade, já há muito tempo mais
próximo da realidade de clivagem social, violência e miséria da qual fazemos parte, num pólo
ou em outro.

João Antônio: a saga de Nego em “Frio”


2

João Antônio Ferreira Filho, contista e jornalista paulistano, foi pioneiro em sua forma
de retratar os meios marginais da cidade de São Paulo, mais especificamente a partir da
segunda metade do século XX, com a publicação, em 1963, de ​Malagueta, Perus e Bacanaço.​
Vencedor de prêmios e consagrado pela crítica literária como a melhor obra de Antônio, o
livro é composto, ao todo, por nove contos, divididos em três partes: “Contos gerais”,
“Caserna” e “Sinuca”. Tal estrutura aponta, segundo Antonio Candido (1999), “uma espécie
de ​crescendo”1, de modo que o livro parte de histórias mais gerais e afunila-se até chegar no
tema da vida marginal, encerrando com o decadente trio de malandros que intitula a obra e o
conto final. O uso marcante do discurso indireto livre2 e o predomínio de marcas de oralidade
demonstram também a tentativa de Antônio de recriar literariamente o “homem paulistano”3.
No mesmo texto já citado, escrito pela ocasião da morte de João Antônio, em 1996, e
três anos depois editado sob o nome “Na noite enxovalhada”, Candido destaca a habilidade
notável do escritor ao reproduzir, de maneira diversa em cada conto, os falares dos tipos
marginais paulistanos:

(...) ritmo de solavanco nas frases mínimas, naturalidade elaborada da


linguagem coloquial na sequência, emprego eficiente do subentendido —
conferem à prosa de João Antônio uma energia que vai aos poucos cativando
o leitor, (...). (CANDIDO, 1999, p. 86)

No conto “Frio”, que abre a terceira e última parte de ​Malagueta, Perus e Bacanaço,
vemos essas marcas de oralidade ganharem uma dimensão diferente. Considero que é
justamente sua linguagem que o torna um dos textos mais peculiares da obra, especialmente
na forma como ela se reflete em sua estrutura; em certos momentos, o narrador aproxima-se
tanto do protagonista que, caso supressos os verbos na terceira pessoa do singular, facilmente
poderíamos supor a ação de um narrador-personagem.
O enredo acompanha a saga de Nego, menino de dez anos, órfão, “pequeno, feio, preto
e magrelo”4, ao cruzar a cidade de São Paulo, do Brás até Perdizes, durante uma fria
madrugada, levando consigo um pequeno embrulho branco de conteúdo desconhecido,
entregue a ele por seu “mentor”, Paraná. Sem entender direito a gravidade e os motivos da

1
Candido, Antonio. Na noite enxovalhada. ​Revista de Males: ​Revista do Departamento de Teoria
Literária, Campinas, n. 19, p. 84, 1999.
2
​Martin, Vima Lia. A escrita viva de João Antônio. ​Forma Breve. A​ veiro, n. 6, p. 265, 2008.
3
Antônio, 1962, apud MARTIN, 2008, p. 264.
4
Antônio, João. Frio. In: ​Malagueta, Perus e Bacanaço.​ 2. ed. São Paulo: Cosac Naify, 2004. p. 97.
3

tarefa e sem fazer muitas perguntas, Nego confia em Paraná e obedece, seguindo o caminho e
as instruções por ele indicados.
O conto se divide em quatro partes, intercalando a ação presente, da caminhada de
Nego, e o passado, que contextualiza a vida do menino e as pessoas que o cercam. Só depois
que o movimento do conto se inicia, quando Paraná acorda Nego no meio da noite para
cumprir a missão de levar o embrulho em segurança até Perdizes, é que o leitor é devidamente
apresentado a essa personagem malandra, que vive do dinheiro conquistado jogando sinuca e
de outros negócios escusos, arranjados com “fulanos bem vestidos”5 que andam com ele de
vez em quando. Paraná e Nego moram juntos num porão na rua João Teodoro, no Brás, e o
menino sente que deve tudo o que sabe ao homem, inclusive o seu ofício de engraxate. Não há
nenhuma citação sobre uma relação consanguínea entre o homem e o menino; antes, pelo
contrário, o narrador nos leva justamente a supor o contrário, marcando que Paraná é branco.
Como é de se esperar, dado a brevidade do gênero conto, nunca descobrimos como os dois se
conheceram ou como começou sua “parceria”, apesar dos indícios de que ela não é recente,
considerando tudo o que Nego já aprendeu com Paraná e seu conhecimento dos hábitos do
malandro. Sabemos, porém, que os dois não vivem juntos apenas por conveniência de uma ou
ambas as partes: Paraná realmente parece se importar com o menino, que, por sua vez, nutre
respeito e idolatria pelo homem.
Além de Paraná, Nego também convive com Lúcia, uma menina branca mais nova que
ele, com quem conversa, brinca e troca experiências, e o padeiro seu Aluísio, que diverte o
menino e outras crianças com piadas sem-graça; essas duas personagens são as únicas
nomeadas no conto, considerando que nunca nem mesmo chegamos a saber o verdadeiro
nome do protagonista e de seu mentor. Além de Lúcia, seu Aluísio e Paraná, o narrador cita
também um soldado de polícia que dá gorjeta sempre que Nego engraxa seus coturnos; o
resto, para o menino, são passantes apressados da rua João Teodoro, pessoas “afobadas e sem
graça”6. A seguir, na última quebra textual, voltamos ao presente, quando o menino resolve
parar em um bar da Marechal Deodoro às duas da manhã para pedir um copo de leite quente,
a fim de rebater o frio crescente. Em meio a seus devaneios e solilóquios e graças à afinidade
entre o foco narrativo e os pensamentos do menino, pouco a pouco, conseguimos penetrar na

5
Ibid., p. 99.
6
Ibid., p. 100.
4

mente de Nego, ágil, infantil, distraída, sempre retornando à três ideias centrais: o frio,
Paraná, e a frase “cavalo não tem pé”.
Rumo ao ferro-velho em Perdizes, ponto de encontro definido por Paraná, Nego segue
pelas ruas tentando não chamar a atenção de nenhum guarda. Por causa do copo de leite, a
vontade de urinar soma-se às outras opressões que afligem o menino, como o frio, o sono, o
cansaço e a preocupação com o mentor. Chegando ao ferro-velho, Nego avista um cachorro
morto em uma das ruas, mas não se detém a observá-lo; pula o muro sem dificuldade e
começa a chamar por Paraná, tomando cuidado para não ser descoberto por alguém. Sem
resposta, o menino sente o coração apertado e tenta não pensar no pior, visto que a urgência
com que Paraná o acordou no meio da noite só poderia significar algum risco. Sabendo que
precisa acordar cedo no dia seguinte para sair do local sem ser visto por ninguém, como foi
instruído, o menino aperta consigo o embrulho branco, e, cansado, com sono e também já com
fome, abre o casaco e cede à vontade de urinar.

Geovani Martins: o balanço entre infância e violência em “Roleta-russa”

Carioca natural de Bangu, Geovani Martins estreou ano passado como autor publicado
de maneira vibrante, com o livro de contos ​O sol na cabeça​, apontado pela crítica como
expoente de um novo realismo brasileiro. Dos treze textos que compõem a obra, alguns deles
com dedicatórias, dez retratam a realidade das favelas e de tipos marginais do Rio de Janeiro,
realidade esta vivida pelo autor, hoje residente do Vidigal. Dando voz à personagens
cotidianamente silenciadas e oprimidas, que fazem parte da sua própria vivência, Martins
realiza justamente aquilo que Castro Rocha julga como necessário para que as classes baixas
assumam controle de sua própria imagem, deixando de ser mero objeto para se tornarem
autoras de suas histórias.
No terceiro conto da obra de Martins, intitulado “Roleta-russa”, o narrador nos relata a
história de um dia significativo na vida de Paulo, um menino na faixa dos 10-12 anos, filho de
Almir, que, por causa do trabalho como segurança, guarda um revólver calibre .38 no quarto
com banheiro onde os dois moram. Toda manhã, religiosamente, Paulo se aproveita das horas
de sono do pai para poder brincar escondido com a arma, consciente da gravidade de tal
transgressão, mas, ainda assim, incapaz de parar. No dia em questão, Almir sai de casa sem a
5

arma e o menino aproveita para não apenas pegá-la e manuseá-la como de costume, mas para
ir além e sair de casa com o revólver, a fim de mostrá-lo a seus amigos.
Afastando-se da ação inicial, o narrador regride temporalmente e, num ​insight q​ ue
revela muito sobre a dinâmica da relação de Almir e Paulo, começa por citar o momento em
que o homem aceitou o emprego e resolveu ter uma conversa de “homem para homem” com o
filho, que acabara de completar 10 anos, sabendo que seria impossível tentar esconder a arma
de fogo no pequeno espaço em que os dois moram. Criando seu filho sozinho, Almir diz a
todos que prefere ganhar o respeito do menino do que ser temido, embora Paulo não saiba
bem o que sente pelo pai, se é medo, respeito, vergonha ou admiração. O método de criação
adotado por Almir desagrada, em parte, o filho, que muitas vezes preferia apenas apanhar,
como outras crianças, e ser deixado em seu canto; os sermões ministrados por seu pai
chateiam Paulo não só por saber que foi motivo de decepção, mas também por tédio e por sua
confusão de sentimentos nessas horas. Além disso, o segurança não usa de violência física,
mas usa, sem arrependimentos, “de ferramentas como a culpa e o remorso”7 para educar o
menino, o que também constitui uma violência. Essa manipulação, que Almir considera como
uma forma de moldar o caráter do filho, é uma boa indicação da causa dos sentimentos
conflitantes de Paulo, não apenas sobre o pai, mas também a respeito de suas próprias
atitudes, já que o menino não sabe dizer se a adrenalina de manusear a arma na frente do pai
adormecido é boa ou ruim
De volta ao dia da ação do conto, mas ainda momentos antes da situação introdutória,
o narrador relata como Paulo ficou sozinho pela primeira vez com o revólver, numa ocasião
em que Almir decidiu sair sem ele. Imaginando que aquela circunstância inédita era resultado
da confiança de seu pai, o menino se arrepende brevemente de todas as coisas erradas que
sempre faz, mas a excitação com a arma e as possibilidades que se desdobram em sua frente
naquele momento afastam o remorso. Paulo anima-se com a possibilidade de mostrar a arma
aos seus amigos, mas sabe que, àquela hora, todos estariam em suas casas, assistindo ao
desenho japonês na televisão. Enquanto espera o fim do episódio, o menino carrega e
descarrega o revólver e, em certo momento, leva o trinta e oito até seu pênis e começa a fazer
movimentos circulares, que lhe provocam uma ereção. Envergonhado, Paulo apressadamente
suspende a ação e recarrega a arma enquanto canta a música de encerramento do desenho.

7
MARTINS, Geovani. Roleta-russa. In: ​O sol na cabeça:​ contos. São Paulo: Companhia da Letras,
2018. p. 25
6

Voltamos, então, ao momento do início do conto, com os meninos reunidos conversando


sobre o revólver. Começam, em seguida, a brincar de polícia e ladrão com o revólver e Paulo
se sente especial por, dessa vez, todos quererem estar em seu time. Martins, tal como João
Antônio, reproduz em sua escrita as gírias e marcas de oralidade nos diálogos entre as
crianças e mesmo nas palavras do narrador, que usa termos e expressões como “perdia a
linha”8, “ferro”9 e “procurando sarna pra se coçar”10.
Ao longo daquela tarde, em meio à brincadeira e as conversas entre os meninos,
sempre tendo armas como assunto, Paulo se alegra com toda a atenção recebida; era a
primeira vez que sentia que se destacava em algo, e, não sendo particularmente bom no
futebol, nas brigas ou com a bolinha de gude, o revólver fazia com que ele se sentisse único.
Porém, quando vê, no fim da tarde, os meninos mais velhos recolhendo as balizas usadas no
futebol, Paulo se desespera: o pai já devia estar em casa e, pior, dado falta do trinta e oito.
Imaginando que toda a situação tinha sido um teste aplicado por Almir, o menino se ressente
com a própria ingenuidade e volta correndo para casa. Lá chegando, encontra seu pai no
banho e devolve rapidamente a arma à seu lugar, na terceira gaveta da cômoda onde fica a
televisão. Paulo senta-se, decidido a contar toda a verdade para o pai assim que ele saísse do
banheiro, mas, conforme os minutos vão indo e Almir se demora no banho, a convicção do
menino em ser honesto também vai indo embora. O conto se encerra quando Almir abre a
porta do banheiro e com Paulo jurando, “com a mesma verdade das outras vezes”11, que, caso
se safasse, não tornaria a repetir o erro.

Pontos de convergência e divergência: onde Nego e Paulo se encontram e se diferem

As similaridades entre as duas histórias começam já na forma como somos


introduzidos ao enredo, ​in media res​. Desse modo, é preciso que os dois narradores façam
retornos temporais para contextualizar os impulsos que motivaram a ação de cada história. No
caso de “Frio”, o narrador usa quebras textuais para explicar, nas primeiras três vezes, a
dinâmica geral da vida de Nego, num movimento panorâmico de expansão: primeiro,
regressamos ao momento em que Paraná acorda o menino; depois, na segunda quebra, o

8
Ibid., p. 23.
9
Ibid., p. 26.
10
Ibid., p. 27.
11
Ibid., p. 31.
7

narrador descreve a relação do malandro com Nego e sua rotina; na terceira e última vez,
temos uma passagem significativamente curta, onde somos apresentados à Lúcia, ao padeiro e
ao “meganha” que engraxa os coturnos com o menino, ou seja, em suma, as outras pessoas
que fazem parte da vida de Nego. Só na última seção do conto, a mais longa, voltamos ao
tempo presente da história e assim continuamos até o desfecho.
Em “Roleta-russa”, por outro lado, não há nenhuma quebra textual e as passagens
entre presente e passado acontecem de maneira mais sutil. Da ação presente, passamos para
um parágrafo curioso que mostra uma transcendência de Paulo e uma sensação de ​déjà-vu no
momento em que se encontra com seus amigos, amontoados olhando uma revista pornô
surrupiada:

(...) Teve a impressão de estar assistindo a si mesmo de longe, prevendo cada


movimento dos corpos amontoados, cada palavra que escapava de suas
bocas, prevendo até mesmo o cair no chão da revista tão cobiçada,
abandonada frente ao fascínio provocado em todos pela presença do
revólver. (MARTINS, 2018, p. 24)

Esse sentimento particular do menino é explicado pela posse da arma, o epicentro de


seu universo particular. Logo em seguida a esse trecho, temos a primeira menção à Almir e,
enquanto o narrador discorre sobre a relação entre pai e filho, descrevendo o caráter de
ambos, ele também explica a relação do garoto com a arma. Durante essa contextualização, a
história é narrada majoritariamente no presente do indicativo e o narrador a encerra
retomando a ação do conto como se estivesse entrando no meio da conversa das crianças.
Mas, para além dessas técnicas narrativas paralelas, características particulares do
gênero conto, a semelhança principal que aproxima os dois textos encontra-se em sua
temática, como já apontei na introdução. Os dois meninos são pobres, têm aproximadamente a
mesma idade, não possuem nenhuma figura materna e são muito influenciados, especialmente
Nego, pelas figuras masculinas responsáveis por eles. Vale notar que, enquanto sabemos com
todas as letras que o protagonista de “Frio” é negro, magro e mirrado, Martins não revela
nenhuma característica física de Paulo; na verdade, indo mais além, a aparência dos
protagonistas de todos os contos de ​O sol na cabeça é ocultada e deixada a cargo da
imaginação do leitor.
É importante ainda ressaltar as diferenças nas formas como Nego e Paulo se
relacionam, respectivamente, com Paraná e Almir. O primeiro par funciona numa chave de
8

colaboração: o malandro Paraná ensinou ao menino todas as “virações de um moleque”12 e


fornece comida, abrigo e proteção, ainda que de maneira inconstante; o menino, em
contrapartida, respeita e se preocupa com o homem. Já quanto ao segundo par, temos uma
relação um pouco mais complexa, onde manipulação e confusão se misturam, já que Paulo
não sabe bem definir seus sentimentos em relação ao pai e à arma; além disso, sabemos que
brincar com o revólver não é a única coisa errada que o menino faz, e na passagem em que o
narrador cita o desconforto de Paulo quando vê Almir chorando por causa de alguma atitude
sua denota que essas situações não são raras e pontuais. Além disso, se Nego é completa e
absolutamente obediente à Paraná, a característica principal de Paulo, que resulta na atitude
que motiva o enredo do conto, é a oposta, a de desobediência, que representa a quebra da
confiança nele depositada por Almir.

Considerações finais

Os dois contos, embora separados espacial e temporalmente, em termos de enredo e de


publicação, quando comparados, nos mostram a transição da representação da malandragem
para a da marginalidade, um movimento orgânico motivado pelas próprias transformações do
Brasil e de seu pensamento social. A malandragem ganhou a proporção de característica
nacional, sob o nome de “jeitinho brasileiro”; já a marginalidade, concebida como um
espectro social específico onde incluem-se as camadas mais pobres, periféricas, possui um
sentido pejorativo particular: o da criminalidade; os marginais são os criminosos, os que
fogem à norma e à lei. A malandragem de outrora, lúdica, idealizada, não tem mais espaço na
sociedade brasileira e o malandro se vê obrigado a escolher entre virar “otário” ou bandido;
em outros termos, em submeter-se à ordem e abandonar a violência ou fazer dela seu principal
instrumento para atingir seus objetivos.
Uma comparação entre as histórias de Nego e Paulo é relevante, especialmente, na
medida em que demonstra como o tom narrativo dessas representações de infâncias precárias
se modifica com o passar dos anos, sendo de denúncia a perspectiva no primeiro conto e de
normalização da precariedade no segundo. Em “Frio”, a instabilidade da vida de Nego é
destacada sempre que o narrador se afasta dos pensamentos do protagonista e já desde a

12
Antônio, op. cit., p. 97.
9

primeira frase, que denota indignação13, além das diversas vezes em que menciona-se
características físicas da criança, sempre marcadas no diminutivo. Já em “Roleta-russa”,
vemos uma marginalidade mais associada à situação socioeconômica, pois Almir, ainda que
não possa prover muito, não parece deixar o básico faltar em casa, de modo que Paulo não
sofre com a falta de coisas mínimas para a sobrevivência, diferentemente da situação de nosso
protagonista em "Frio". Além disso, a precariedade em que Nego vive também é evidenciada
no fato de que o garoto precisa trabalhar já aos 10 anos, não estuda, muito provavelmente não
sabe ler, e não tem a chance de viver uma infância normal e saudável, na companhia de outras
crianças, com exceção da menina Lúcia. Novamente, quanto ao segundo conto, o contato de
Paulo com a arma é normalizado, não há denúncia, apenas o relato de uma situação
perfeitamente comum no Brasil de hoje, e que tem grandes chances de tornar-se cada vez
mais comum; o revólver causa fascínio, mas não é algo distante da realidade de nenhum dos
meninos da turma de Paulo.
Por fim, é justamente essa normalização no conto de Martins que mostra o movimento
transitório entre malandragem e marginalidade. Um texto como esse, de um autor
contemporâneo, pode apresentar semelhanças com um conto publicado há 56 anos atrás, mas
o ponto de vista narrativo e as interpretações que podemos extrair de “Roleta-russa” e de
outros contos de ​O sol na cabeça ​nos mostram como o contato e a proximidade das classes
pobres com instrumentos de violência já nos parecem absolutamente naturais. Num plano
simplista ao extremo, se a denúncia de João Antônio pretende nos chocar, a de Martins, de
forma bem mais sutil, mostra ao leitor como a violência se tornou um elemento natural na
vida de tantos outros meninos como Paulo.

Referências bibliográficas

ANTÔNIO, João. Frio. In: ​Malagueta, Perus e Bacanaço.​ ​2. ed. São Paulo: Cosac Naify,
2004. p. 95-105.

CANDIDO, Antonio. Na noite enxovalhada. ​Remate de Males​, Campinas, n. 19, 1999. p.


83-88.

​ veiro, n. 6, p. 263-269,
MARTIN, Vima Lia. A escrita viva de João Antônio. ​Forma Breve. A
2008.

13
“O menino tinha só dez anos.” Ibid., p. 95.
10

MARTINS, Geovani. Roleta-russa. In: ​O sol na cabeça: c​ ontos. São Paulo: Companhia das
Letras, 2018. p. 23-31.

ROCHA, João Cezar de Castro. A guerra de relatos no Brasil contemporâneo. Ou: a “dialética
da marginalidade”. ​Revista Letras (UFSM)​ . Santa Maria, v. 28-29, p. 23-70, 2006.