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Anais do III Simpósio Internacional sobre Caprinos e Ovinos de Corte

João Pessoa, Paraíba, Brasil, 05 a 10 de novembro de 2007

PESQUISA DE LENTIVÍRUS DE PEQUENOS RUMINANTES NO


ARQUIPÉLAGO DE FERNANDO DE NORONHA

PRISCILLA BARTOLOMEU DE ARAÚJO (1),SÉRGIO ALVES DO NASCIMENTO (2), ROBERTO SOARES DE


CASTRO (3), MARIA CRISTINA DE OLIVEIRA CARDOSO COELHO (4) ELTON CÉSAR BEZERRA RAMOS (1),
FERNANDO JORGE RODRIGUES MAGALHÃES (1), DANIELA DA SILVA PEREIRA (1).

1
Discente de graduação em Medicina Veterinária e bolsista do Programa de Educação Tutorial. UFRPE, Universidade Federal Rural de
Pernambuco. R. Dom Manoel Medeiros, s/n - Dois Irmãos. CEP: 52171-900 - Recife-PE
2
Biologo – Departamento de Medicina Veterinária da Universidade Federal Rural de Pernambuco, UFRPE. R. Dom Manoel Medeiros, s/n - Dois
Irmãos. CEP: 52171-900 - Recife-PE
3
Professor Associado do Departamento de Medicina Veterinária da Universidade Federal Rural de Pernambuco. R. Dom Manoel Medeiros, s/n -
Dois Irmãos. CEP: 52171-900 - Recife-PE
4
Professor Adjunto do Departamento de Medicina Veterinária da Universidade Federal Rural de Pernambuco. R. Dom Manoel Medeiros, s/n -
Dois Irmãos. CEP: 52171-900 - Recife-PE

RESUMO: Os Lentivírus de Pequenos Ruminantes (LVPR) estão distribuídos praticamente em todo o mundo e são
responsáveis por grandes prejuízos à caprino-ovinocultura, sobretudo em regiões onde esta é praticada de forma
intensiva. Trata-se de uma doença crônica, que apresenta como sinais clínicos mastite, pneumonia, emagrecimento,
artrite e encefalite e muitas vezes passa despercebida, trazendo prejuízos, sobretudo para atividade leiteira. Neste
trabalho investigou-se a ocorrência dos LVPR no rebanho caprino-ovino do Distrito Estadual de Fernando de
Noronha. Foram testados 195 animais de cinco propriedades distribuídas na ilha. Para diagnóstico utilizou-se o teste
de imunodifusão em gel de agarose (IDGA). Com base nos resultados verificou-se a sorologia negativa para LVPR
em todos os animais testados. Tal resultado pode ser atribuído ao regime semi-extensivo sob o qual os animais são
criados, à utilização de animais sem definição de raça, à não introdução de raças exóticas, por a finalidade da criação
ser a produção de carne, baixa tecnificação e isolamento da ilha.

PALAVRAS-CHAVE
CAEV,caprino, Maedi , ovino, sorologia, Visna.

SEARCHING FOR SMALL RUMINANTS LENTIVIRUS IN FERNANDO DE NORONHA ARCHIPELAGO

ABSTRACT: The Small Ruminants Lentivirus (SRLV) is almost world-wide distributed causing important economical
losts, mainly in countries where the ovine and caprine industries are well developed. The disease is characterized by
mastitis, pneumonia, weight lost, arthritis ande encephlitis. This paper describs a serological survey to SRLV in
Distrito Estadual de Fernando de Noronha. It were examined 195 serum samples from 192 sheep and three goats in
five flocks using the Agar gel imunodiffusion test (AGID). All tested animals were negative for SRLV antibodies. This
may be due to the extensive manegement practices adopted, the use of local breed, the low level of techniques used
and the island isolation.

KEYWORDS
CAEV, Maedi, goat, sheep, serology, Visna.

INTRODUÇÃO
Os vírus da Artrite-Encefalite Caprina (CAEV) e Maedi-Visna (MVV) pertencem à família Retroviridae e são
conhecidos como Lentivírus de Pequenos Ruminantes (LVPR). Eles possuem semelhanças genéticas, morfológicas e
patológicas, relacionando-se antigenicamente. A infecção por LVPR é persistente de evolução crônica com artrite,
encefalite, mastite, emagrecimento e pneumonia. A ocorrência dos sinais varia de acordo com idade, raça, fatores
ambientais e condições de higiene. A infecção se dá basicamente através da ingestão de colostro e leite de animais
doentes, apesar dos vírus estarem presentes em todas as secreções (Callado et al., 2001).
A Artrite Encefalite Caprina (CAE) tem sido observada mundialmente, sobretudo em regiões que praticam a
caprinocultura leiteira intensiva (Crawford et al.,1981). No Brasil vários estudos demonstraram a presença da infecção
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por LVPR em animais de vários estados. O arquipélago de Fernando de Noronha, embora geograficamente mais
próximo do Rio Grande do Norte, é um distrito do estado de Pernambuco, onde Saraiva Neto (1993) verificou uma
prevalência de 17,6%; já no Rio grande do Norte foi observada uma prevalência de 11% de infecção pelo CAEV
(Silva et al., 2005).
O levantamento epidemiológico é o primeiro passo para implantação de medidas de controle, assim, o presente
trabalho busca investigar a ocorrência de LVPR no rebanho caprino e ovino do Distrito Estadual de Fernando de
Noronha.

MATERIAL E MÉTODOS
Foram estudadas 192 amostras de soro de ovino e três amostras de soro caprino de cinco dos 9 criatórios da
ilha de Fernando de Noronha. Uma característica do sistema de produção local é que os animais são criados em pasto
comum, sendo recolhidos para os respectivos criatórios. Assim, a ilha constitui uma única unidade epidemiológica.
Além disso, para efeito deste estudo, consideraram-se caprinos e ovinos como susceptíveis à infecção por LVPR, e
que essa virose é transmitida entre indivíduos de ambas as espécies, conforme recentemente demonstrado (Shah et al.,
2004).
Para escolha dos animais não houve distinção de sexo, idade ou raça, tendo sido realizadas coletas de sangue
de todos os animais de cada propriedade visitada. O sangue foi coletado utilizando-se de tubos à vácuo. Após a
retração do coágulo realizou-se a centrifugação para obtenção do soro. Este foi armazenado em criotubos e congelado
a – 20° C. Para transporte do material ao continente o mesmo foi acondicionado em caixas térmicas contendo baterias
de gelo reciclável para manutenção da refrigeração.
O soro foi processado no Laboratório de Virologia do Departamento de Medicina Veterinária da Universidade Federal
Rural de Pernambuco. A sorologia para detecção dos LVPR foi realizada pelo método de Imunodifusão em Gel de
Agarose (IDGA), que consiste na detecção de linhas de precipitação nos casos positivos, decorrentes da reação
antígeno-anticorpo, utilizando o kit comercial (Biovetech, Brasil).

RESULTADOS E DISCUSSÃO
No presente trabalho, não foi observado nenhum resultado positivo nos soros testados para LVPR,
contrariamente às observações feitas no continente pernambucano, onde a soroprevalência de LVPR encontrada em
caprinos foi de 5,2% a 17,6% (Oliveira et al.,2001; Saraiva Neto, 1994) e em ovinos de 1,07% a 3,8% (Costa et al.,
2007;Oliveira et al., 2003).O número de amostras testadas (195) originárias de animais representativos da população
da ilha, é suficiente para detecção, com 90% de confiança, de uma doença que ocorra com prevalência de 1%
(Hancock et al.,1988). A população caprina e ovina da ilha de Fernando de Noronha foi formada a partir da introdução
de animais originários do continente africano, onde não há registro de LVPR em animais nativos.
As maiores prevalências de LVPR relatadas são em criações intensivas. Em países onde é praticada a
caprinocultura intensiva foi observada uma prevalência igual ou superior a 74% (Callado et al., 2001). Na Suíça
observou-se uma prevalência média de 83%, com manifestação dos sinais clínicos em 33% dos casos. Na França um
levantamento epidemiológico verificou que 70% dos criatórios apresentavam infecção (Franke, 1998). Em regiões
onde a criação é extensiva, como na maioria das criações do Nordeste brasileiro, a prevalência tende a ser baixa ou
nula (Castro e Melo, 2001), semelhante ao que ocorre na ilha de Fernando de Noronha, onde os animais também são
criados sob regime extensivo.
A ocorrência dos LVPR é observada principalmente nos rebanhos leiteiros formados através da importação de
raças exóticas, como a Anglo Nubiana, Saanen, Parda Alpina e Toggenburg e seus cruzamentos. Um levantamento
realizado em animais sem definição de raça não revelou casos positivos para a CAE (Castro et al., 1994). Em países
que praticam a criação extensiva não foi detectada a presença do vírus em raças nativas, foram observados apenas
alguns casos positivos nos animais importados (Franke, 1998). Nos rebanhos estudados em Fernando de Noronha a
principal finalidade da criação é a produção de carne, sendo os animais utilizados sem definição racial, praticamente
não existindo a introdução de raças exóticas, justificando-se assim a não-ocorrência dos LVPR nas propriedades
visitadas.
Em ilhas, como a Inglaterra e a Nova Zelândia foi verificada uma menor ocorrência das lentiviroses de
pequenos ruminantes: 9,5% e 8,3%, respectivamente (Franke, 1998). Tal fato é atribuído à maior possibilidade de
controle da infecção, bem como pelo isolamento da ilha, assim como ocorre na ilha de Fernando de Noronha.

CONCLUSÕES
Com base nos resultados verificou-se que a ilha de Fernando de Noronha é livre de LVPR, ou apresenta
prevalência inferior a 1%. Isto pode ser atribuído a fatores como regime de criação semi-extensivo, utilização
de animais sem padrão racial definido, por quase não existir a introdução de raças exóticas, por a finalidade da
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criação ser a produção de carne, baixa tecnificação e isolamento da ilha.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. CASTRO, R.S. Evidência sorológica de infecção pelo vírus da Artrite-Encefalite caprina em caprinos leiteiros do
Estado de Pernambuco. Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia, v. 46, n. 5, p. 571-572,
1994.
2. COSTA, L.S.P., LIMA, P.P., CALLADO, A.K.C., NASCIMENTO, S.A., CASTRO, R.S. Lentivírus de pequenos
ruminantes em ovinos Santa Inês: isolamento, identificação pela PCR e inquérito sorológico no estado de
Pernambuco. Arquivos do Instituto Biológico. São Paulo, v.74, n.1, p.11-16, jan./mar., 2007.

3. CRAWFORD, T.B.; ADAMS, D.S. Caprine arthritis-encephalitis: clinical features and presence of antibody in
selected goat populations. Journal of the American Veterinary Medical Association. v.178, p.713, 1981.
4. FRANKE, C.R. Uma virose emergente ameaça o rebanho caprino nacional: Artrite-Encefalite Caprina (CAE).
Revista Bahia Agrícola, V.2, n.3, 1998.
5. HANCOCK, D.D.; BLODGETT, D.; GAY, C.C. The collection and submission of samples for laboratory testing.
Veterinary clinics of North America: Food Animal Pratice. v.4, n.1, march, 1988.
6. OLIVEIRA, M.M.M.; CASTRO, R.S.; CARNEIRO, K.L.; NASCIMENTO,S.A.; C ALLADO, A.K.C.; A
LENCAR, C.A.; F ALCÃO, L.S.P.C.A. Anticorpos contra Lentivírus de Pequenos Ruminantes (LVPR) em
caprinos e ovinos sem raça definida (SRD) e ovinos crioulos em abatedouros no Estado de Pernambuco. In:
CONGRESSO LATINO AMERICANO DE BUIATRIA, 11. 2003, Salvador, BA. Resumos. Salvador, 2003.
p.1663-1666,1993.
7. SARAIVA NETO, A.O. Soroprevalência da Artrite Encefalite Caprina em plantéis caprinos leiteiros no
Estado de Pernambuco. Recife - PE, 1993. 70p. Dissertação (Mestrado em medicina Veterinária Preventiva) -
Faculdade de Medicina Veterinária, Universidade Federal Rural de Pernambuco, 1993.
8. SHAH,C.; HUDER, J.B.; BÖNI, J.; SCHÖNMANN, M.; MÜHLHERR, J.; LUTZ, H.; SCHÜPBACH, J.;
phylogenetic analysis and reclassification of carpine and ovine lentiviruses base don 104 new iolates: evidence
for regular sheep-to-goat transmission and world propagation throught liverstock trade. Virology, v.319, p.12-
26,2004.
9. SILVA, J.S.; CASTRO, R.S.; MELO, C.B.; FEIJÓ, F.M.C. Infecção pelo vírus da artrite encefalite caprina no Rio
Grande do Norte. Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia, v.57, n.6, p.726-731, 2005.