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DEPOSIÇÃO DE RESÍDUOS SÓLIDOS EM


DERIVA NAS MARISMAS NO ESTUÁRIO DA
LAGOA DOS PATOS (RIO GRANDE–RS)

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III Congresso Brasileiro de Oceanografia – CBO’2010
Rio Grande (RS), 17 a 21 de maio de 2010

DEPOSIÇÃO DE RESÍDUOS SÓLIDOS EM DERIVA NAS MARISMAS NO


ESTUÁRIO DA LAGOA DOS PATOS (RIO GRANDE – RS)

Marangoni, J. C.1*; Leal, C. S.2; Costa, C. S. B.1**


1
Lab. Biotecnologia de Halófitas, Instituto de Oceanografia, Universidade Federal do Rio Grande – FURG, CP 424,
*
96201-900 Rio Grande, RS. julianomarangoni@pop.com.br, **costacsb@hotmail.com
2
Curso de Graduação em Oceanologia, Universidade Federal do Rio Grande – FURG, CP 424, 96201-900 Rio
Grande, RS. cadu.leal@gmail.com

RESUMO
A deposição de resíduos sólidos em deriva pode causar a mortalidade das plantas dominantes
nas marismas e conseqüente abertura de brechas. Este estudo teve como objetivo identificar e
quantificar o material em deriva depositado sobre as marismas em uma enseada rasa no
estuário da Lagoa dos Patos. A limpeza das marismas foi realizada em 3 áreas de marisma na
margem leste do Saco da Mangueira (Rio Grande – RS). Foi constatado que durante os
períodos de águas baixas o resíduo sólido em deriva fica retido sobre as marismas inferiores e
nos períodos de águas altas o lixo se deposita sobre as marismas médias. O lixo foi composto
predominantemente por sacolas plásticas, garrafas plásticas e isopor, oriundos da atividade
antrópica urbana.

Palavras chave: marisma, material em deriva, nível de água

INTRODUÇÃO
Marisma é um ecossistema costeiro entremarés vegetado por herbáceas que
contribuem na exportação de matéria orgânica para estuários e área costeira adjacente
(ADAM, 1990). Este ecossistema fornece abrigo e hábitat para várias espécies de animais de
importância econômica para a região estuarina e costeira (COSTA et al., 1997). Vários
trabalhos vêm relatando a degradação destas marismas por atividades antrópicas como o
pastejo por animais domésticos, incêndios, corte da vegetação, deposição de resíduos sólidos
em deriva (COSTA et al., 2000; MARANGONI et al., 2009). A deposição de material em deriva
sobre a vegetação dominante das marismas resulta, na maioria das vezes, na morte das
plantas dominantes e conseqüente abertura de brechas sendo geralmente colonizadas por
plantas oportunistas, incomuns nas áreas naturais não perturbadas (REIDENBAUGH et al.,
1980; BERTNESS, 1999; AZEVEDO, 2000). A partir de 2008, visando atender as
condicionantes da Licença de Instalação (LI nº 337/2008-DL) da BUNGE FERTILIZANTES S/A
no município de Rio Grande (RS), a Fundação Estadual de Proteção Ambiental – RS (FEPAM)
aprovou uma proposta de compensação ambiental que inclui (1) a recuperação de 32 hectares
de marismas na enseada rasa Saco da Mangueira, (2) o plantio de fragmentos de mata nativa
e (3) uma ação educacional nas escolas públicas. Dentro do processo de recuperação das
marismas estão previstos o plantio de Spartina alterniflora e a remoção de resíduos sólidos
depositados sobre a vegetação, desta forma este estudo objetivou identificar e quantificar o lixo
em deriva depositado sobre as marismas no Saco da Mangueira.

MATERIAIS E MÉTODOS
No período de inverno/primavera de 2009 foram efetuadas coletas de resíduos sólidos
nas marismas localizadas na enseada rasa denominada Saco da Mangueira, nas proximidades
da desembocadura do estuário da Lagoa dos Patos (RS) (Fig. 1). A limpeza foi realizada em 3
áreas de marismas (julho – Área 1, agosto – Área 2 e novembro – Área 3). Todo o resíduo
sólido coletado foi pesado e para determinação da composição foram amostrados
aleatoriamente 3 sacos da coleta realizada no mês de agosto (Área 2). Para quantificar o
comprimento de margem e a área de marisma onde foram realizadas as coletas de resíduo
sólido foi utilizada uma imagem de satélite Quickbird (Ano 2003) utilizando o SIG Spring 5.0
(CÂMARA et al., 1996).

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Rio Grande (RS), 17 a 21 de maio de 2010

Figura 1. Localização das áreas de coleta de resíduos sólidos na enseada rasa Saco da
Mangueira (Rio Grande – RS).

RESULTADOS E DISCUSSÃO
Foi coletado 184 kg de resíduos sólidos nas três áreas de trabalho (121 kg – Área 1; 34
kg – Área 2; 29 kg – Área 3). A menor taxa de acúmulo de lixo (157 kg/ha) foi verificada
durante a coleta do mês de julho na Área 1 (Tab. 1). Nesta área a marisma é densamente
vegetada por S. densiflora, espécie dominante nos pisos médios e Scirpus olneyi, indicadora
de pisos inferiores oligohalinos (Tab. 2). Na Área 2, no mês de agosto, foi coletado o dobro
(309 kg/ha) de resíduos sólidos do que na Àrea 1 (Tab. 1). A cobertura vegetal na Área 2 é
dominada por S. densiflora, S. olneyi e S. alterniflora (indicadora de pisos inferiores euhalinos).
A maior quantidade de resíduo sólido foi constatada na Área 3 (322 kg/ha), vegetada
exclusivamente por S. densiflora e S. olneyi (Tab. 1 e 2).

Tabela 1. Descrição da coleta de resíduos sólidos nas marismas do Saco da Mangueira.


Margem Percorrida Área Percorrida Taxa Taxa
(m) (ha) kg/100 m margem kg/ha
Área 1 944 0,77 13 157
Área 2 104 0,11 33 309
Área 3 307 0,09 9 322

Tabela 2. Frequência de ocorrência (%) das plantas de marismas nas áreas de coleta de
resíduos sólidos (Projeto Fitocria II – 2009).
Espécie Área 1 Área 2 Área 3
Spartina alterniflora 14 57 0
Scirpus olneyi 73 71 53
Spartina densiflora 89 100 100
Scirpus maritimus 8 14 0
Sarcocornia ambigua 3 0 0
Fimbristylis spadicea 3 0 0
Rapanea parviflora 0 14 0

Foi possível constatar que durante períodos de águas baixas (Fig. 2) a retenção de
material em deriva ocorre principalmente na marisma inferior ocupada por S. alterniflora. Nos
períodos de águas altas (Fig. 2) os resíduos sólidos ficam retidos na marisma média vegetada
por S. densiflora. Foi verificado que o lixo na margem leste do Saco da Mangueira parece ser
proveniente de atividade antrópica urbana, sendo composto principalmente por sacolas
plásticas, garrafas plásticas e isopor (Fig. 3).

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Diferença do NMLM em relação ao NML (cm)


30

20

10
NML=44,0 cm
0

-10

-20

-30 J F M A M J J A S O N

Período (meses)

Figura 2. Diferença do nível médio mensal de água da Lagoa dos Patos (NMLM) em relação ao
nível médio da Lagoa (NML) para todo o período (janeiro – novembro/2009; NML=44,0 cm)
(PELD – FURG).

Outros *
10%
Poliestireno
“isopor”
29%

Garrafas
plásticas
28%

Sacolas e sacos
plásticos
33%
Figura 3. Composição dos resíduos sólidos (%) coletados na Área 2 (agosto de 2009).
*Outros - espuma, borracha, vidro, lata, tecido, calçado, roupa, papel.

REFERÊNCIAS
ADAM, P. 1990. Saltmarsh Ecology. Cambridge University Press, New York. 461pp.
REIDENBAUGH, T. G; BANTA, W. C. 1980. Origin and effects of Spartina wrack in a Virginia
salt marsh. Gulf Research Reports. 6(4):393-401.
BERTNESS, M. D. 1999. The ecology of Atlantic shorelines. Sinauer Associates, Inc.,
Massachusetts. 417pp.
AZEVEDO, A. M. G. 2000. Hábitats, associações vegetais e fenologia das plantas das
marismas da Ilha da Pólvora, Estuário da Lagoa dos Patos (RS, Brasil). Dissertação de
Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Oceanografia Biológica - FURG, Rio Grande.
102pp.
CÂMARA, G.; SOUZA, R. C. M; FREITAS, U. M; GARRIDO, J. 1996. SPRING: Integrating
remote sensing and GIS by object-oriented data modelling. Computers & Graphics, 20:395–
403.
COSTA, C. S. B.; MARANGONI, J. C. 2000. Impacto Ambiental do asfaltamento da BR101
sobre as marismas de São José do Norte (RS, Brasil): Estado atual e efeitos potenciais. In:
Anais do V Simpósio de Ecossistemas Brasileiros. 10-15 de outubro de 2000. ACIESP. São
Paulo, Vol. 1:268-291. Disponível em:
http://www.peld.furg.br/grp/ccosta/Anais/Costa&Marangoni2000.pdf. Acesso em: 14/03/2007.

AOCEANO – Associação Brasileira de Oceanografia


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MARANGONI, J. C; COSTA, C. S. B. 2009. Diagnóstico ambiental das marismas no estuário da


Lagoa dos Patos – RS. Atlântica. v. 31(1). No Prelo.
http://www.lei.furg.br/atlantica/volfuturo/index.html.
COSTA, C. S. B; SEELIGER, U.; OLIVEIRA, C. P. L.; MAZO, A. M. M. 1997. Distribuição,
funções e valores das marismas e pradarias submersas no Estuário da Lagoa dos Patos (RS,
Brasil). Atlântica., 19:67–85.

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