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31/03/2020 A «uberização» do cinema | AbrilAbril

OPINIÃO | CINEMA

A «uberização» do cinema
Tiago Baptista

POR TIAGO BAPTISTA SEGUNDA, 30 DE MARÇO DE 2020

Substituir a exibição em sala pela difusão em plataformas próprias de


«conteúdos», seja na Internet seja nos serviços de televisão por cabo, tem
vindo a ser uma tendência que, neste momento, se transforma em norma.

A curta-metragem «Menina» (15 minutos), de Simão Cayatte, é um dos lmes disponíveis


na «quarentena ciné la». A poucos anos do m do regime fascista em Portugal, uma jovem
«fada do lar» da classe média confronta-se com a dupla vida do seu cônjuge.

O
encerramento das salas de cinema provocado pela pandemia do Covid-19 é
uma situação inédita. As respostas do setor foram igualmente inéditas.
Alguns realizadores, produtores e distribuidores, e até exibidores e
festivais, optaram por partilhar os seus filmes direta e gratuitamente como forma
de manter o contacto com o público e, mais importante, como gesto de

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solidariedade dirigido a todos aqueles que, com o isolamento voluntário primeiro, e


as medidas do estado de emergência depois, se isolaram em suas casas.

Foi o caso, entre nós, da Medeia Filmes, da Terratreme Filmes, da Agência da Curta
Metragem, do IndieJúnior Allianz, ou a Zero em Comportamento, bem como de
pelo menos uma trintena de realizadores (lista em atualização no À Pala de Walsh;
seleção comentada pelo Cineclube de Viseu).

Muitas cinematecas fizeram o mesmo, ora recordando que já tinham várias


centenas de horas de imagens disponíveis em linha (ver a lista compilada pela
Federação Internacional dos Arquivos de Filmes; ou o exemplo da Cinemateca
Portuguesa), ora criando canais novos para partilhar temporariamente filmes
recentemente digitalizados (como a Cineteca di Bologna, ou a Filmoteca Española).

Estes exemplos não se limitam ao cinema. Vários museus, bibliotecas e também


teatros (como, entre nós, o Museu Nacional de Arte Antiga ou o Teatro Nacional D.
Maria II) partilharam as suas coleções e os seus espectáculos, em emissões em
direto ou através dos seus arquivos de gravações.

O acesso fácil a estes «conteúdos» culturais que nos


«Substituir a entram em casa pela janela do computador é um
exibição em sala gesto importante que deve recordar a todos que a
pela difusão em cultura, também ela, é um «bem essencial». Mas não
plataformas pode fazer esquecer as enormes dificuldades que os
próprias de setores das artes, dos espectáculos e do património
«conteúdos», seja enfrentam já, continuarão a enfrentar enquanto durar
na Internet seja a pandemia, e não desaparecerão quando tiver início
nos serviços de a dificílima retoma destas e de tantas outras

televisão por cabo, atividades.

tem vindo a ser Regressemos ao exemplo do cinema. Com as


uma tendência limitações ao funcionamento dos cinemas e as
que, neste limitações de circulação de pessoas, as produtoras
momento, se não podem continuar as rodagens e a pós-produção
transforma em de filmes que tinham agendadas, os distribuidores
norma» não têm a quem vender os seus catálogos e os
exibidores não conseguem mostrar os filmes que
compraram. A situação afeta todos conforme a sua
dimensão, volume de negócio e número de trabalhadores. Será que os exibidores
independentes que fecharam agora conseguirão voltar a abrir portas? Será que as
produtoras terão a liquidez suficiente para pagar salários até poderem retomar a
sua atividade? E será que os pequenos exibidores e distribuidores que não falirem
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entretanto conseguirão resistir às regras que as grandes empresas em situação de


monopólio e de concentração vertical desreguladas imporão a todos quando as
salas voltarem a abrir?

Na verdade, as grandes empresas que concentram os vários setores, desde as


comunicações e a televisão por cabo, às cadeias de exibição e à fatia de leão da
distribuição, conseguem adaptar-se com alguma facilidade às novas regras do jogo.
No caso das plataformas de video-on-demand (VOD), o panorama é ainda mais
animador: algumas diversificam a oferta, aumentam os períodos de oferta
promocional e diminuem a largura de banda para compensar o aumento da
procura; vários blockbusters recentes veem drasticamente antecipado o hiato entre
a estreia em sala e a sua difusão em VOD; outros filmes estrearão primeiro, ou
muito provavelmente apenas, em VOD (contornando a lei ou forçando a aprovação
de legislação especial que o permita).

Estas respostas em estado de emergência não fazem


« nda esta mais do que tornar clara a posição hegemónica das
pandemia, plataformas VOD e das grandes distribuidoras e uma
arriscamo-nos a das direções preferidas do seu «modelo de negócio»
que o cinema seja nos últimos anos. Substituir a exibição em sala pela
maioritariamente difusão em plataformas próprias de «conteúdos», seja
on-demand, na Internet seja nos serviços de televisão por cabo,
trazido pela tem vindo a ser uma tendência que, neste momento,
Internet ou pela se transforma em norma. Coloca-se, pois, a questão:

televisão; com quando reabrirem as salas, quem terá a força


suficiente para dizer que as regras do jogo em vigor
sugestões
durante o estado de emergência não deverão
personalizadas
continuar a aplicar-se? Será o mesmo Estado que
adaptadas ao
nunca regulou o setor da distribuição?
nosso «gosto»;
Provavelmente, não.
dispensando-nos
cada vez mais a Assim, a solidariedade de quem disponibiliza o seu
ida (mais cara, trabalho gratuitamente pode transformar-se no

menos cómoda) à «período experimental» que nos oferece uma


plataforma VOD antes de começar a cobrar as suas
sala escura;
mensalidades. Estaremos todos a contribuir para
ultrapassando
«testar» em massa, mais depressa, e sem outra opção
todos os
—ainda que com as melhores das intenções— a
intermediários e
machadada final na exibição e distribuição
degradando as independentes pelo VOD e a grande distribuição,
condições de

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trabalho de quem imposta por quem sempre ditou todas as regras do


não tiver sido setor do cinema e do audiovisual?
entretanto posto Este tem que ser o momento, também, para
em lay o experimentar outras soluções e preparar a retoma da
“simpli cado” ou atividade em condições que não sejam as que acabei
sumariamente de descrever. Não vale a pena, por exemplo,
despedido» diabolizar a tecnologia em si mesma. Neste período
de exceção, vários exibidores independentes na
Europa e nos EUA têm tentado chegar diretamente aos seus espectadores,
partilhando com eles os filmes que não chegaram a estrear ou que tinham acabado
de estrear (veja-se o exemplo de Bacurau, de Kleber Mendonça Filho, na iniciativa
Kino Marquee), pagando o preço de um bilhete normal, evitando transferir os seus
catálogos para as plataformas VOD mais populares e com maior peso no mercado, e
gerando receita para a sala e não só para o distribuidor.

De outro modo, finda esta pandemia, arriscamo-nos a que o cinema seja


maioritariamente on-demand, trazido pela Internet ou pela televisão; com
sugestões personalizadas adaptadas ao nosso «gosto»; dispensando-nos cada vez
mais a ida (mais cara, menos cómoda) à sala escura; ultrapassando todos os
intermediários e degradando as condições de trabalho de quem não tiver sido
entretanto posto em lay off «simplificado» ou sumariamente despedido.

O tempo da pandemia tem que ser, assim, além do tempo das medidas excecionais
que protejam todos os trabalhadores e as empresas mais frágeis — e que são as que
mais contribuem para a diversidade do cinema que vemos—, o tempo em que se
prepara a luta contra a futura, mas evitável, «uberização» do cinema.

O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AE90)

TÓPICO

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/ CC BY-SA 2.0

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