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CAPA

HYAGO ÁTILLA SOUSA DOS SANTOS


MARIA EDINA MARQUES FERREIRA
FRANCISCA EDIVANIA BARROS GONÇALVES
MARILHIA PAULA DA SILVA

REFORMAS EDUCACIONAIS,
MOVIMENTOS SOCIAIS E NOVAS
POSSIBILIDADES NO CAMPO DE
PESQUISA EM HISTORIA

CRATO
EDSON SOARES MARTINS
2018
COORDENAÇÃO EDITORIAL: EDSON SOARES MARTINS
CONSELHO EDITORIAL: EDSON SOARES MARTINS (URCA), FRANCISCO DE FREITAS
LEITE (URCA), NEWTON DE CASTRO (URCA), RIDALVO FELIX DE ARAUJO
(UFMG)

PREPARAÇÃO DE TEXTO E DIAGRAMAÇÃO: ATELIÊ EDITORIAL DO NETLLI


REVISÃO FINAL DE TEXTO: HYAGO ÁTILLA SOUSA DOS SANTOS

FICHA CATALOGRÁFICA

S2373 SANTOS, HYAGO ÁTILLA SOUSA DOS ET AL.


REFORMAS EDUCACIONAIS, MOVIMENTOS SOCIAIS E NOVAS POSSIBILIDADES NO
CAMPO DE PESQUISA EM HISTÓRIA / HYAGO ÁTILLA SOUSA DOS SANTOS; MARIA
EDINA MARQUES FERREIRA; FRANCISCA EDIVANIA BARROS GONÇALVES; MARILHIA
PAULA DA SILVA. – CRATO: EDSON SOARES MARTINS, 2018.

231P. 14 CM

ISBN 978-85-920819-5-9
1. REFORMAS EDUCACIONAIS; 2. MOVIMENTO ESTUDANTIL; 3. PESQUISA EM
HISTÓRIA; I. SANTOS, HYAGO ÁTILLA SOUSA DOS. II. TÍTULO.

CDD: 981
CDU: 94 (81)

ATELIÊ DE EDITORIAL DO NETLLI


UNIVERSIDADE REGIONAL DO CARIRI
R. CEL ANTONIO LUÍS,1611,PIMENTA.
CRATO, CEARÁ. 63100-000
35

SOBRE CHUPA-CABRA E LOBISOMEM:


REPRESENTAÇÕES E IMAGINÁRIOS NO
QUADRO MISTÉRIO DO PROGRAMA
BARRA PESADA
Gustavo Marques de Sousa, Universidade Estadual do Ceará – UECE,
gusmarquestavo@gmail.com

O Barra Pesada, segundo Morales (2014), foi exibido pela primeira vez na
década de 1990 pela TV Jangadeiro, na época vinculada a Rede Bandeirantes de
Televisão (BAND) e hoje afiliada ao Sistema Brasileiro de Televisão (SBT). É um
noticiário policial, que segue uma linha sensacionalista e de linguagem popular,
“responsável por cobrir as notícias relacionadas à segurança pública e aos bastidores
policiais no Estado do Ceará” (MORALES, 2014, p. 56). Esse tipo de telejornal
geralmente tem foco em “seres humanos simples, anônimos, que figuram uma posição
diferente das celebridades na sociedade brasileira” (idem. p. 41).
Meireles (2014) fala das características desse tipo de jornal. Eles montam
narrativas audiovisuais a partir da articulação de imagens, falas e sons. Eles têm um
apresentador num estúdio falando diretamente para uma câmera onde se cria uma
atmosfera com os seguintes elementos:
[...] falas, músicas, imagens; cenário moderno; uso de uma linguagem
coloquial, e, muitas vezes, chocante; apelo emocional; busca pelo
espetacular; longa duração das reportagens; repetição de cenas; presença de
um apresentador-animador; uso da teledramaturgia; enunciações baseadas
em múltiplos depoimentos e discursos emitidos por diferentes sujeitos
envolvidos nas histórias; tudo isso constitui a arquitetura primária de um
telejornal. (MEIRELES, 2014, p. 34)

O quadro Mistério foi criado em 2012 e integrou a programação desse noticiário


e trouxe assuntos referentes ao mundo fantástico, ufologia, espiritualidade, etc28.
Fazendo coberturas de acontecimentos fantásticos ou sobrenaturais que intrigam a
população por desafiar a realidade. Realidade versus fantasia, verdade versus mentira,

28
SISTEMA JANGADEIRO. "Lobisomem" ataca animais e leva pânico a agricultores. Disponível
em: < https://www.youtube.com/watch?v=DmuskYBEAfk >. Acesso em: 08 de jul. 2017.
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lenda versus fato. A análise que proponho nesse artigo é de 4 vídeos desse quadro, que
foram ao ar em 2012.
Iremos apreciar esses vídeos como fontes históricas e verificar, a partir deles,
como os moradores compreendem os acontecimentos, de quais formas os dão
significados e como o telejornal se apropria disso. Depois de exibidas as reportagens, os
vídeos foram disponibilizados no Youtube, o que me proporciona facilidade de acesso.
As narrativas: A primeira é sobre ataques a pequenos animais, no distrito de
Jaibaras, em Sobral-CE, distante aproximadamente 230km de Fortaleza-CE. Os
moradores desse lugar relatam que um ser metade homem e metade bicho rondava a
vizinhança, assustava as pessoas, atacou e comeu animais domésticos, atribuíram essas
ocorrências ao lobisomem. A segunda é dividida em três vídeos. Os fatos se desdobram
na cidade de Barbalha-CE, no Cariri cearense.
Nas construções das narrativas dessas reportagens, especificamente, é
interessante observar desde a vinheta do quadro que dá um tom assustador, o corte para
fala dos entrevistados, cenas de filmes de lobisomem, imagens dos animais atacados
[até mesmo dos ferimentos], do repórter em primeiro plano, o som ao fundo que cria um
clima de horror e outras cenas que contribuem para criar essa mesma atmosfera.
Nos sítios Lagoa, Mata dos Araçás e redondezas [em Barbalha], animais foram
vítimas de ataques e um bicho que não foi identificado pela população foi
responsabilizado. Diferente do primeiro vídeo, nenhum animal foi devorado. No texto
do rodapé do videotape, o programa, responsabiliza o chupa-cabra por tais investidas. A
narrativa se divide em duas partes e uma terceira matéria foi realizada porque os
episódios voltaram a acontecer.
Sobre a lenda do lobisomem, no Brasil, essas narrativas chegaram na memória
do colonizador e até hoje perduram. São tantas e em várias partes do mundo,
diferenciam-se pelas peculiaridades regionais e por ganhar novos personagens, espaços
e novas percepções. A ideia é de que o lobisomem, palavra de origem germânica, seja
um ser fantástico metade homem e metade lobo (DE SOUSA, 2013). “Você acredita em
lobisomem?”29 pergunta, Nonato Albuquerque, o apresentador do programa Barra
Pesada, antes de chamar a matéria na qual anunciava que os moradores tinham medo de
sair à noite por conta de ataques feitos a animais de pequeno porte por um ser metade
homem e metade cachorro.

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SISTEMA JANGADEIRO. "Lobisomem" ataca animais e leva pânico a agricultores. Disponível
em: < https://www.youtube.com/watch?v=DmuskYBEAfk >. Acesso em: 08 de jul. 2017.
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Algumas pessoas tiveram contato com tais avejões, viram, encontram-se ou seus
bichos foram vitimados, segundo os moradores procurados pela reportagem. A equipe
jornalística comenta que alguns desses moradores não quiseram comentar os
acontecimentos. Alguns dos narradores não viram, eles reproduzem o que outras
pessoas viram. Para dar credibilidade e legitimar as suas falas citam os nomes e até
parentescos dando um tom de proximidade e intimidade com os fatos. Maria das
Graças, dona de casa, uma das colaboradoras, conta:

[...] várias pessoas viram, inclusive a primeira pessoa que viu foi
Cleide, minha vizinha. E com bem uns oito dias a mais quem viu foi
meu filho. [...] Essa semana também, a Simone, é uma senhora, né.
Não é uma senhora que fala mentirinha, é uma senhora que fala a
verdade, diz que viu e não entende o que era aqui. Viu e disse que era
a coisa mais feia do mundo.30

Alguns desses sujeitos relatam os acontecimentos e quando perguntam o que


acham que realmente está atacando, referem-se ao que a população diz que é,
assombração, mas SE distanciando disso, ressalvam que não é algo sobrenatural.
Acreditam que pode ser algum bicho silvestre. As falas ainda contam do medo de sair à
noite dos habitantes. Para tentar desvendar os casos, em Barbalha, os moradores
estavam fazendo mutirões para procurar o ser que ronda. Na tentativa de evitar novos
casos os moradores também reforçam as cercas e as trancas das portas de casa.
Os que contam suas experiências de encontro com a criatura não deixam claro o
que viram. Os relatos dão conta da insegurança e do prejuízo pela perca do animal, a
carne do bicho era perdida. Os donos não comiam com medo de algum tipo de
contaminação. Falam do medo da experiência, fato que sempre ocorre pela noite, que
impede que eles circulem pelas redondezas por conta do temor de encontrar a besta.
Caracterizam-na como: “uma coisa estranha. [...] como se fosse assim, um
porco”31 . Outro diz: “ele é grandão. Do tamanho de um jumento, pretozão, [...] e
feio!”32. Uma entrevistada conta a descrição feita pelo filho: “uma coisa muito feia,
muito cabeludo, os braços invertidos assim pra trás e o joelho de trás pra frente. [...]

30
Idem.
31
SISTEMA JANGADEIRO. Mistério: animais vêm sendo atacados por bicho estranho 2. Disponível
em: < https://www.youtube.com/watch?v=RyfX_TdKsRQ>. Acesso em: 08 de jul. 2017.
32
SISTEMA JANGADEIRO. "Lobisomem" ataca animais e leva pânico a agricultores. Disponível
em: < https://www.youtube.com/watch?v=DmuskYBEAfk >. Acesso em: 08 de jul. 2017.
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metade gente e metade bicho”33. Nos casos apresentados não é possível identificar a
origem da besta e como teve seu destino selado ou de onde tenha aparecido o
alienígena.
Especialista deram pareceres dos casos. No caso de Sobral, a equipe procurou
um ufólogo que disse que não se tratava de algo sobrenatural, “cabuloso”, como
chamou, e sim de uma criatura extraterrestre, mas não a especificou. Dos de Barbalha,
foram até a secretaria de saúde desse município. Entrevistaram um veterinário que disse
que achava que se tratava de um animal doméstico, como um cachorro faminto, e não
de um animal silvestre. Outro funcionário advertiu para que a população não comesse a
carne dos animais abatidos.
Em Sobral, os ataques foram atribuídos pelos jornalistas ao lobisomem. O título
da matéria no Youtube já denuncia: "Lobisomem" ataca animais e leva pânico a
agricultores. Lá, alguns animais foram devorados. Em Barbalha, atribuíram ao chupa-
cabra, uma criatura extraterrestre. Os animais foram atacados nas partes do pescoço e
entre a barriga e as patas, mas não devorados. A partir dos depoimentos dos
colaboradores deram significado.
Podemos notar o uso de representações que são conflitantes. De acordo com
grupos e interesses dão significados aos acontecimentos. O telejornal fala em
assombrações, o ufólogo diz que é coisa de outro mundo, a população ora acredita
nisso, ora não e os funcionários municipais cogitam que os ataques vieram de outros
animais. Temos a representação como ferramenta teórica para analisar nosso objeto.
Através da aplicação dessa noção podemos notar que as reportagens do quadro Mistério
dão representações que torna sensível a presença dos seres em questão, a partir dos
relatos, na vida social dos indivíduos.

[...] a representação como dando a ver uma coisa ausente, o que supõe
uma distinção radical entre aquilo que representa e aquilo que é
representado; por outro, a representação como exibição de uma
presença, como apresentação pública de algo ou de alguém. No
primeiro sentido, a representação é instrumento de um conhecimento
mediato, que faz ver um objeto ausente através da sua substituição por
uma “imagem” capaz de reconstitui-lo em memória e de figurá-lo tal
como ele é. (CHARTIER, 1990, p. 20)

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SISTEMA JANGADEIRO. Mistério: animais vêm sendo atacados por bicho estranho 2. Disponível
em: < https://www.youtube.com/watch?v=RyfX_TdKsRQ>. Acesso em: 08 de jul. 2017.
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As representações possibilitam ver os “modos como uma determinada realidade


é pensada, construída, dada a ler” (CHARTIER, 1998, p. 23). Um conjunto dessas
representações coletivas que os homens construíram e compartilham para dar sentido ao
mundo configura a categoria de imaginário. Perceba, não estou tratando o assunto nos
planos da abstração. As lendas sobre essas assombrações a pesar de seus elementos
fantásticos, estão localizadas numa construção social, dotada de símbolos e ideias que
dão sentido as experiências humanas.
Segundo Pesavento (2005), o imaginário é “histórico e datado [...] comporta
crenças, mitos, ideologias, conceitos e valores, é construtor de identidades e exclusões,
hierarquiza, divide, aponta semelhanças e diferenças no social. Ele é um saber-fazer que
organiza o mundo, produzindo coesão ou conflito” (p. 43). Os imaginários são passíveis
de datação, mas o que chama atenção é como representações que vogaram na Idade
Média, em são difundidas e ressignificadas em pleno século XXI. Configurando um
tempo dilatado, em que os imaginários conseguem ganhar novos sentidos e conservar
outros.
Ao longo dos anos o trabalho de folcloristas foi colher, geralmente através da
oralidade, e compilar aspectos de lendas e manifestações culturais mais variadas. A
partir disso é interessante pensar que representações sobre licantropia e contatos
extraterrestres estão presentes nesses trabalhos. O que sem esforço você também pode
notar a repetição de saberes nas falas dos entrevistados e também dos repórteres do
programa Barra Pesada. São vários elementos que montam o imaginário sobre cada
avejão que tratei nessa pesquisa.
Segundo Franchini (2011), a partir de narrativas orais, o chupa-cabra é o
primeiro ente do folclore brasileiro que tem origem extraterreste. Ele é um alienígena
feroz vindo de um planeta que ninguém sabe qual é. Suas características são: olhos
vermelhos, ferocidade, costas cheias de espinhos e três dedos com unhas afiadas. O
chupa-cabra se alimenta do sangue, através da sugção de cabras e animais de pequeno
porte como galinha e cachorro. Pouco se sabe desse ser, as narrativas sobre ele estão se
configurando dentro do imaginário brasileiro. O que autor chama atenção é que o
folclore não está engessado, novos seres e novas histórias.
Outro ser que figurou pelo imaginário no Brasil foi o chupa-chupa, que
aterrorizou a cidade de Colares, no Pará. A pesquisadora, Albuquerque (2015), diz que
por volta da década de 1970, em um posto médico, pacientes relatavam que luzes vindas
do céu estavam queimando suas peles, atribuíram esses fatos a extraterrestres. Essa
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ocorrência mobilizou a aeronáutica, a impressa, médicos e pesquisadores. Essas


aparições trouxeram a cidade notoriedade, e influenciou aspectos como turismo,
economia e religião. O imaginário sobre E.T. tornou esse lugar em ponto turístico e
lugar onde interessados em fazer contatos com alienígenas podem frequentar.
Já a lenda do lobisomem está ligada a licantropia, que Segundo De Sousa, “é
uma palavra vinda do grego e diz respeito à transformação, geralmente procedida de
uma maldição, de um ser humano em lobo, dando origem a um ser lendário que é
especulado de várias formas pelo imaginário popular” (2013, p. 58). A partir de um
encantamento, o indivíduo tem o corpo tomado por pelos, perde os sentimentos
característicos de humanidade e ganha um temperamento animalesco. Em Câmara
Cascudo (2002), podemos conferir um acervo de informações que enriquecem com
detalhes essa lenda. Achei explicações em Geografia dos Mitos Brasileiros que nos
contam como um ser humano pode ser vítima de licantropia ou se tornar
voluntariamente um lobisomem.
Os romanos já falavam que gente poderia mudar sua aparência e deixa-la
parecida com a de um animal através de uma mutação misteriosa. É um mito universal.
Em qualquer localidade podemos ouvir variações de lendas sobre lobisomens. Para ser
lobisomem espontaneamente, existe um ritual em que aquele que se propõe fazer deve
seguir um método minucioso. O resultado pode ser revertido ao raiar do sol. Acaba
quase sendo uma receita para virar lobisomem.
E involuntariamente são os casos em que sobre o homem cai uma praga. É
amaldiçoado geralmente como castigo por maus feitos ou é o sétimo filho, irmão de seis
mulheres. Esses casos em que as pessoas são vítimas são irreversíveis, devem esperar o
encantamento acabar. Homens pálidos, “amarelos”, tuberculosos, esses também pela
crença popular sofrem dessas mutações bizarras.
O lobisomem tem uma força muito grande e, para matá-lo ou desencantá-lo,
aquele que se dispuser tem que conhecer um pouco da lenda que envolve a licantropia,
não é de qualquer forma e nem com qualquer objeto. Com tiro, “só se a bala estiver
metida em cera de vela de altar onde se acha celebrado três missas da noite de Natal”
(CASCUDO, 2002, p. 187). Mas é preciso ficar atento, “desencantado, o Lobisomem
fará todos os esforços para matar quem teve a coragem de enfrentá-lo e, enfrentando-o,
identificá-lo” (idem).
O primeiro entrevistado do vídeo de Jaibaras, em Sobral diz: “Ah, é porque eu
tenho uma criança pagã. Aquela coisa toda, eu vou ficar com medo do lobisomem. Aí a
41

pessoa fica com medo. Quem não tem medo de coisa ruim, né?”34. Em Medeiros
(2006), quando compilou informações sobre a lenda dessa assombração, diz: “O
lobisomem prefere atacar crianças que ainda não foram batizadas” (MEDEIROS, 2006,
p. 53). Essas lendas, com o tempo e resignações, como instrumento moralizador social a
partir de preceitos da fé cristã.
Após a metamorfose, o bicho sai à procura de alimento, em busca de carne
humana, de preferência a de pagãos, e outros bichos, fazendo arruaça e assustando o
povo da vizinhança. Segundo Priore, “no Brasil permaneceu a justificativa do castigo
por ligações sexuais incestuosas, consistindo sua sina em chupar sangue de criança de
peito e de animaizinhos novos” (2010, p. 107). Existem patologias que se confundem o
folclore, a licantropia clínica, trata-se de um distúrbio mental onde o portador acredita
que muda sua fisionomia para de um animal (DE SOUSA, 2013).
Montando um breve levantamento historiográfico, no período da Inquisição nos
séculos XVI e XVII, em um momento de perseguição às práticas de bruxaria e rituais
pagãos, nos é posto por Carlo Ginzburg (1988), em sua obra Os andarilhos do bem, a
postura em relação aos lobisomens lituanos em Jügensburg, o mito sobre esses seres
foram “demonizados”, já que como as bruxas, os lobisomens cometiam a diabrura de
comer carne humana, preferindo as crianças pagãs. Notamos como a Igreja
desempenhava sua posição, trazendo as pessoas para suas práticas através das suas
construções dogmáticas.
Tomando referência em Darnton (1986), vemos em O grande massacre dos
gatos a ligação direta entre antropofagia e o mito dos seres híbridos em questão. Em
tempo de forte crise social e econômica na Idade Média pessoas cometiam canibalismo,
o que deu margem para que fossem evidenciadas as lendas sobre lobisomem. O autor
também conta que era possível às metamorfoses pelas fases da lua e mais, algumas
pessoas sofriam de com patologias mentais acreditando se transformar nessas feras.
Na obra História do medo no ocidente, de Delumeau (2009), podemos conferir
sobre o papel dos lobos, que na Idade Média, colocou-se em dúvida a natureza do lobo.
São animais ferozes que depois das guerras iam para os campos devastados e se
fartavam com restos humanos dos combatentes. Pareciam que não eram lobos naturais,
eram sanguinários, excelentes caçadores, atacavam rebanhos e aves. Aos poucos foram
aparecendo como animais temidos pela população e que supuseram serem feras

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SISTEMA JANGADEIRO. "Lobisomem" ataca animais e leva pânico a agricultores. Disponível
em: < https://www.youtube.com/watch?v=DmuskYBEAfk >. Acesso em: 08 de jul. 2017.
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místicas. Acreditou-se que esses fossem homens transformados, poderiam ser soldados
e ainda feiticeiros.
Ainda no campo historiográfico trazido por Delumeau, percebemos as tentativas
da Igreja em aliviar as tensões das pessoas e livrar os seus seguidores das bestas
satânicas que adoravam comer crianças e mulheres grávidas. Relatos e documentos
investigados pelo escritor indicavam que o monstro, que perambulava e assustava o
povo no campo, parecesse com o lobo com traços humanos.
O intelectual e folclorista do Cariri, José Figueiredo Filho, fala que na década de
1960, “O lobisomem está totalmente desmoralizado no sul do Ceará” (1962, p. 22). As
narrativas sobre ele é algo do passado e já não amedronta mais nem as crianças.
Considerando esse pensamento do autor de Folclore no Cariri, datado de 1962, é
curioso, após 50 anos, como relatos sobre aparições continuam sendo narrados.
Ganhando novos personagens, novos lugares e outros significados.

REFERÊNCIAS

ALBURQUERQUE, Maria Betânia B. Narrativas orais sobre religiosidade e saberes


escolares no município de Colares (PA). História Oral, v. 18, n. 2, p. 179-206, jul./dez.
2015.

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Brasília: J. Olympio,


INL, 1976.

______. Geografia dos mitos brasileiros. São Paulo: Global, 2002.

CHARTIER, Roger. A História Cultural. Entre práticas e representações. Rio de


Janeiro: Bertrand Brasil, 1990.

DARNTON, Robert. O grande massacre de gatos, e os outros episódios da história


cultural francesa. Rio de Janeiro: Graal, 1986.

DE SOUSA, G. M. 2013. Licantropia nos percalços da História. Miguilim. Crato, nº 2,


p. 57-67, 2013.

DELUMEAU, Jean. História do medo no ocidente 1300 – 1800: uma cidade sitiada.
São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

FIGUEREDO FILHO, José. O Folclore no Cariri. Fortaleza: Imprensa Universitária


do Ceará, 1962.

FRANCHINI. A. S. As 100 Melhores Lendas Do Folclore Brasileiro. Porto Alegre:


LPM, 2011.
43

GINZBURG, Carlo. Os Andarilhos do Bem, feitiçarias e cultos agrários nos séculos


XVI e XVII. São Paulo: Cia das Letras, 1988.

MEDEIROS, Elita de. Imaginários em diálogo: A lenda do lobisomem em uma


perspectiva bakhtiniana como resgate de narrativas folclóricas. 2006. 149 f. Monografia.
Universidade do Sul de Santa Catarina – UNISUL.

MORALES, Luciana Pinho. Cenários da violência: análise estético-narrativa do


telejornal policial barra pesada. Dissertação: UFC, 2014.

PESAVENTO, Sandra Jatahy. História & História Cultural. Belo Horizonte:


Autêntica, 2005.

PRIORE, Mary Del. Esquecidos por Deus: monstros no mundo europeu e ibero-
americano (séculos XVI – XVIII). São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

FONTES

SISTEMA JANGADEIRO. "Lobisomem" ataca animais e leva pânico a


agricultores. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=DmuskYBEAfk >.
Acesso em: 08 de jul. 2017.

SISTEMA JANGADEIRO. Mistério: animais vêm sendo atacados por bicho


estranho 1. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=J9BnLxG6YZc >.
Acesso em: 08 de jul. 2017.

SISTEMA JANGADEIRO. Mistério: animais vêm sendo atacados por bicho


estranho 2. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=RyfX_TdKsRQ>.
Acesso em: 08 de jul. 2017.

SISTEMA JANGADEIRO. "Chupa-cabra" volta a atacar em Barbalha. Disponível


em: < https://www.youtube.com/watch?v=k1i2Hzeq5z0>. Acesso em: 08 de jul. 2017.