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Introdução

Introdução

A
EBO (Escola Bíblica de Obreiros) é um evento anual em formato de conferência, promovido
pela Igreja Evangélica Assembleia de Deus em Rio Negrinho - SC, através da Escola
Teológica ETADRIN. Ela visa abordar temas atuais com o objetivo de capacitar seus
membros (sem distinção de cargos eclesiásticos) para a labuta na seara do Senhor, promovendo, em
cada crente, uma visão de Reino em conformidade com o que é expresso nas Sagradas Escrituras.

Este ano, a conferência trabalhará o tema “Renovação da Mente”. Um assunto tão oportuno em
nossa atualidade, onde o número de crentes mundanos e igrejas hibridas, de evangelhos inofensivos
com pregações de autoajuda e nenhuma renúncia, tem crescido constantemente. Renovar a mente
é preciso, necessário e urgente.

Bons estudos!

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Palavra do Presidente

Palavra do Presidente

G
ostaria de lhe dar as boas-vindas à nossa EBO 2019 e desejar que esse tempo, em que
estivermos juntos, seja um período de aprendizado superintenso, de dedicação ao estudo
da inerrante Palavra de Deus e de grande confraternização. Que você possa, ainda mais,
compreender o significado de uma Escola Bíblia, que há décadas vem contribuindo para a
atualização bíblica-teológica da Igreja do Senhor Jesus, valorizando a oportunidade que nosso
Divino Mestre nos concedeu de participar dessa imersão nas Sagradas Escrituras.
Nossa coordenação, encabeçada pelo Professor e Especialista em Teologia, Robson Rodrigues
Pinto, com sua equipe altamente qualificada, estará sempre à disposição para dirimir quaisquer
dúvidas, bem como lhe proporcionar um excelente atendimento.

Um grande e fraterno abraço de seu conservo em Cristo Jesus,

Pastor Edésio Gonçalves


Presidente da IEADRN

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Sumário

Sumário

Introdução ....................................................................................................................................................... 1
Palavra do Presidente .................................................................................................................................... 2

Capítulo 1
Uma Mente Corrompida ............................................................................................................................... 4

Capítulo 2
Uma Mente de Fé ............................................................................................................................................ 8

Capítulo 3
Uma Mente Transformada .......................................................................................................................... 12

Referências Bibliográficas ........................................................................................................................... 16


Capítulo 1

UMA MENTE
CORROMPIDA
“Além do mais, visto que desprezaram o conhecimento de Deus,
ele os entregou a uma disposição mental reprovável,
para praticarem o que não deviam. (Rm 1.28)”

U
ma renovação da mente passa, inevitavelmente, pelo reconhecimento da corrupção dela.
Há uma frase de um autor desconhecido que diz: “Ninguém é tão mau até tentar se tornar
bom”. O que isso representa para nós? Ao passo que conhecemos a lei, identificamos em
nós a incapacidade de cumpri-la. É basicamente isso que Paulo fala em Romanos 7.7,8 “[...] sem lei,
o pecado está morto”.
A corrupção da mente nos leva a práticas impulsionadas por nossos desejos que são
descentralizados de Cristo por conta da queda. Assim, a humanidade opta por justificar seu
comportamento deplorável em vez de rejeitá-lo (Rm 1.32).
Pensando nisso, Paulo inicia sua carta aos Romanos com uma argumentação inquestionável:
“O Evangelho é O poder de Deus para salvação da humanidade” (Rm 1.16; tradução livre). Paulo faz
uma profunda análise da condição humana. Todos – gentios (Rm 1.18-32) e judeus (Rm 2.1-3.8) –
estão sob o juízo de Deus. Gentios rejeitaram a revelação natural do Senhor, enquanto judeus, a
revelação especial.
No decorrer deste capítulo, analisaremos a argumentação de Paulo aos romanos em contraste
com nossa realidade atual.

1. Idólatras Voluntariosos (Rm 1.18-32):


Nos tempos de Paulo já há uma grande manifestação de pensamentos filosóficos. Os estoicos,
em especial, creditavam à razão a submissão das paixões – aqui referindo-se ao centro dos desejos.
Alguns ouvintes antigos (já que as cartas eram lidas e, costumeiramente, várias vezes) devem ter
percebido a ironia de Paulo, uma vez que, para eles, as paixões tornavam as pessoas irracionais,
como animais. Esses pensadores costumavam comparar a animais irracionais aqueles que eram
governados pelas paixões, e não pelo intelecto ou pela virtude.

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Uma Mente Corrompida

Hernandes Dias Lopes, acertadamente, analisa Paulo rejeitando a ideia de que o problema
da humanidade está na falta de conhecimento de Deus. Desta forma, diz ele:

“O problema do homem não é a ignorância da verdade de Deus, mas abafar e sufocar essa verdade. Não
é o desconhecimento involuntário da verdade de Deus, mas a rejeição consciente dessa verdade. Deus
se revelou ao homem, mas ele sufocou esse conhecimento, banindo Deus deliberadamente da sua vida.”

O apóstolo, então, chega à conclusão de que, voluntariamente, o homem, quer gentio, quer
judeu, deixa a verdade de Deus de lado para viver uma vida de acordo com seus interesses. Assim,
não adora o Criador mas a coisa criada (v. 25).
Craig Keener observa que a palavra “fútil”, utilizada por Paulo no versículo 21, por exemplo,
era uma designação judaica comum para ídolos, ou associada a eles. O apóstolo repete a mesma
terminologia de Salmos 94.11 e observa que seus pensamentos se tornaram em nada, assim como os
ídolos que nada são (1Co 8.4). Então, voluntariamente, nos tornamos idólatras ao rejeitar a verdade
de Deus e nos dobrarmos à futilidade de nossos desejos.

2. Entregues aos próprios desejos:


A referência a “entregar” dá continuidade ao interesse de Paulo pelo conhecimento e pela
verdade. Assim como os seres humanos não julgaram adequado, ou não aprovaram (usando
δοκιμάζω), a ideia de manter o verdadeiro conhecimento de Deus em seu raciocínio (cf. Rm 1.21),
Deus os entregou a uma mente inadequada, ou reprovável (ἀδόκιμον νοῦν), para fazer coisas
inadequadas.
O adjetivo ἀδόκιμος pode se referir a algo testado e tido como inadequado ou, por extensão,
a algo inútil ou desqualificado. Essa mente fracassada contrasta com a mente renovada à qual Paulo
se referirá mais adiante, que testará ou avaliará (δοκιμάζω) as coisas a fim de identificar o que é
bom e, portanto, que diz respeito à vontade de Deus (Rm 12.2). Em outras palavras, aqueles que não
discerniram Deus corretamente se tornaram moralmente incapazes de discernir entre o certo e o
errado, ao passo que aqueles cuja mente é renovada em Cristo experimentaram esse discernimento.
Mark A. Seifrid analisa a expressão “substituir a glória de Deus” (Rm 1.23) como uma
descrição proposital da idolatria baseada nas acusações bíblicas contra Israel (Sl 106.20; Jr 2.11) e
afirma, acertadamente, que a linguagem utilizada por Paulo destaca que a rejeição da verdade de
Deus é inerente à idolatria.

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Uma Mente Corrompida

Craig Keener, em seu Comentário Bíblico do Novo Testamento, avalia uma “lista de vícios”
comuns a escritores antigos (gregos, romanos, judeus; cf. tb. Lv 18). Mas, ao contrário da idolatria e
da homossexualidade (Rm 1.18-27), pecados como voracidade, inveja, calúnia, arrogância e
ignorância também ocorrem nas listas judaicas como alguns dos pecados que o povo judeu também
cometia. Para Paulo, alguém pode até escarnecer da idolatria e rejeitar o homossexualismo, mas
ainda estar sob o domínio da “lista de vícios” (Rm 1.28-31). Lawrence O. Richards observa:

“Como é fácil, até para os melhores entre nós, ceder à maledicência, calúnia ou ostentação. O fato é que
a descrição de Paulo sobre os caminhos do pecador é suficientemente ampla para incluir a todos. Como
então podemos julgar, nós que fazemos ‘o mesmo?’”

Podemos entender de Paulo que o mesmo acontece conosco, ao rejeitarmos as verdades de


Deus. Somos entregues aos nossos desejos corrompidos. Ainda que rejeitemos uma coisa ou outra,
como, principalmente, o homossexualismo, estamos mergulhados em nossas paixões.
Diz-se que os cretenses amaldiçoavam os exércitos inimigos com preces para que “se
deleitassem em seus caminhos perversos”, de modo a escolherem para si aquilo que “beira a
destruição”.

3. Necessidades Imediatas:
Vemos que voluntariamente nos corrompemos e, por conta da futilidade de nossos desejos
nos tornamos idólatras. Mas, do que estamos realmente falando?
Vejamos. A pregação contemporânea tem apresentado uma visão distorcida da queda e,
consequentemente, do pecado, do homem e da salvação. A visão bíblica de que o homem está morto
em seus delitos e pecados e vive prisioneiro da carne, do mundo e do diabo não é mais proclamada
na maioria dos púlpitos, ou pelo menos com a ênfase que deveria. Tais pregações mostram que o
homem tem algumas necessidades imediatas e temporais; não está, de fato, perdido. Frases de
efeitos e pensamentos “filosóficos” em torno da possibilidade de alcançar os objetivos pessoais
através de esforços próprios, confissões positivas ou da política da retribuição, têm feito muitos
crentes abandonarem a verdade de Deus e se lançarem no lamaçal que outrora fora tirado (Sl 40.2).
Jonathan Edwards, um famoso pregador do século XVIII, faz uma importante distinção entre
emoções, convicções e afeições. Ele afirma: “A verdadeira religião, em grande parte, consiste em
afeições santas.”. É importante observar nossas afeições, ou seja, aquilo que nos afeta e nos
impulsiona a fazer o que fazemos. Nas palavras de Gerald R. McDermott, ecoando o próprio
Jonathan Edwards, “as afeições são as motivações mais fortes do ser humano, que no fundo
determinam tudo o que a pessoa é e faz”. Tais afeições não geram somente amor, mas também
pensamentos e ações.
A grande pergunta é: O que tem, de fato, nos afetado? Infelizmente muitos, ao se depararem
com tal questionamento, não darão a devida importância ou a lançarão para aqueles que, segundo
sua visão, estão perdidos em seus delitos. Porém, na maioria dos casos, este está tão perdido quanto
aquele a qual acusou.
Paulo, ao defender a ressurreição de Cristo aos Coríntios, declara: “Se esperamos em Cristo só
nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens. (1Co 15.19)”. A ênfase cristã na ressurreição é

7
Uma Mente Corrompida

particularmente significativa em vista do fato de que nenhuma esperança foi oferecida pelo
paganismo da antiguidade, ou pelas misteriosas religiões do oriente. A ressurreição de Cristo foi
proclamada como evidência da efetividade de sua morte ao providenciar nossa salvação e como
evidência de que algum dia o crente também ressuscitará. Porém, o que vemos em nossos dias, é
uma busca desenfreada por necessidades imediatas. Se não conseguimos, nos frustramos; se
conseguimos, nos esquecemos. Devemos ter cuidado como que tem nos afetado: se o amor a Deus
ou o amor aos nossos interesses.
O profeta Isaías, ao expor a condição do povo de sua época, diz: “Porque o Senhor disse: Pois
que este povo se aproxima de mim, e com a sua boca, e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se
afasta para longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi
instruído; (Is 29.13, grifo do autor)”. Da mesma forma, Jeremias o faz: “Plantaste-os, e eles se arraigaram;
crescem, dão também fruto; chegado estás à sua boca, porém longe dos seus rins. (Jr 12.2, grifo do autor)”.
Duas palavras aqui chamam a atenção:

 Coração (‫לֵ ב‬, “lev”);


 Rim (‫כִּ לְ יָה‬, “kyliah”);

No hebraico antigo, por causa da limitação do idioma, não havia palavras abstratas (força,
amor, poder, conquista, etc.), apenas concretas (boi, coração, pé, etc.) e, para se referir a algo
abstrato, faziam alusões a objetos, inclusive órgãos, como é o caso do nosso exemplo, para
comunicação. Assim, o coração está normalmente relacionado ao pensamento (‫)לֵ ב‬, órgão que
impulsiona; enquanto o rim, um órgão mais escondido, normalmente relacionado aos desejos mais
secretos (‫)כִּ לְ יָה‬. Desta forma, tanto o coração (desejos mais aparentes), quanto os rins (desejos mais
secretos) estão nos impulsionando em nossas práticas diárias. O que está em seu coração e em seus
rins? O que está em seus pensamentos aparentes e os mais secretos?
Podemos ter o Senhor em nossos lábios, louvando-O e anunciando-O, mas ter nossos ser
totalmente corrompido, fazendo-nos buscar nEle os nossos interesses. Nas palavras de John Piper,
em Dinheiro, Sexo e Poder, “pecado não é, necessariamente, aquilo que fazemos, mas aquilo que
nos define”.
Tudo que for verdadeiro, diz Paulo aos Filipenses, tudo o que for nobre, tudo o que for
correto, tudo o que for puro, tudo o que for amável, tudo o que for de boa fama, se houver algo de
excelente ou digno de louvor, nessas coisas estejam o vosso coração (Fp 4.8). Sabe onde você
encontra isso? Apenas em Deus!
Se a rejeição da verdade divina resulta em mentes corrompidas; o oposto da mente
corrompida é a fé (Rm 1.16,17), ou seja, a aceitação da verdade divina.

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Capítulo 2

UMA MENTE
DE FÉ
“Pois o amor de Cristo nos constrange,
porque estamos convencidos de que um morreu por todos;
logo, todos morreram. (2Co 5.14)”

F
rases como: “Ele podia segurar o universo na palma da Sua mão, mas abdicou disso para
flutuar no ventre de uma virgem” ou, “o Criador das estrelas preferiu morrer por você, a
viver sem você”, ou ainda, “Ele escolheu os cravos” parecem nos levar a um grau de
sentimentalismo, de emocionalismo. Max Lucado aos escrevê-las, em seus livros, parece nos
tencionar a reviver essa suma bíblica e teológica da morte expiatória de Cristo. Porém, o que muitas
vezes assusta, é que tais frases ou, semelhantes a essas, possam ser utilizadas para uma vida
desregrada, descompromissada e voltada ao próprio “eu”. N. T. Wright em Como Deus se Tornou
Rei, nos leva a uma riqueza que muitas vezes esquecemos. O evangelho não é da manjedoura para
a cruz, há uma vida que foi vivida. Jesus não somente morreu para nos livrar da culpa, mas,
também, viveu. É muito fácil morrer como Jesus se você viveu como Ele a vida toda.

1. Porque Deus amou o mundo (Jo 3.16):


A conversa mais famosa da Bíblia que nos encanta todas as vezes que a lemos. Um fariseu,
um mestre em Israel, se admira com as maravilhas que Jesus faz e afirma: “Mestre, sabemos que
ensinas da parte de Deus, pois ninguém pode realizar os sinais miraculosos que estás fazendo, se
Deus não estiver com ele. (João 3.2)”. Em resposta, Jesus lança uma frase que o deixa confuso: “Digo-
lhe a verdade: Ninguém pode ver o Reino de Deus, se não nascer de novo. (João 3.3, grifo do autor)”.
Examine a expressão estrategicamente selecionada – de novo. A língua grega oferece duas
opções para de novo.
1. πάλιν (Palin): que significa a repetição de um ato; refazer o que foi feito antes.
2. ἄνωθεν (Anothen): que também descreve um ato repetido, mas exige que a fonte original o
repita. De acordo com o dicionário Strong, significa “do alto, de um lugar mais alto, coisas
que vêm do céu ou de Deus”. Em outras palavras, aquele que fez o trabalho da primeira vez
o faz novamente. Esta é a palavra que Jesus escolhe
9
Uma Mente de Fé

Aquele que o fez pela primeira vez deve fazê-lo novamente. O Criador original recria sua
criação. Este é o ato que Jesus descreve.
Nascer: Deus faz o esforço;
De novo: Deus restaura a beleza.

Max Lucado, em seu Best Seller “3:16, a mensagem de Deus para a vida eterna”, escreve:

“Uma exposição de 28 palavras de esperança: começando com Deus, terminando com a vida
e encorajando-nos a fazer o mesmo. Conciso o suficiente para ser escrito em um guardanapo
ou memorizado em um instante, porém, sólido o suficiente para superar dois mil anos de
tempestades e dúvidas. Se você não sabe nada da Bíblia, comece por aqui. Se você sabe tudo
da Bíblia, volte para este texto. Todos nós precisamos do lembrete. A essência do problema
humano é o coração do ser humano. E o tratamento de Deus está prescrito em João 3:16.
Ele ama.
Ele se deu.
Nós cremos.
Nós vivemos”

Esperaríamos ações motivadas pela raiva de Deus. Um Deus que castiga o mundo, o recicla,
o abandona. Mas um Deus que ama o mundo? Um mundo, como vimos no capítulo anterior,
motivado por suas ganâncias, egocêntrico e que rouba nossas esperanças? Deus ama tanto o mundo
que deu suas: Declarações? Regras? Sentenças? Ordens? Não, a declaração de João 3.16, e que é
difícil de entender, é que Deus deu o “Seu filho... O Seu filho Unigênito”.
Esta é a mensagem pela qual Deus escolheu salvar o mundo. Nas palavras do apóstolo dos
gentios, Paulo: “[..] agradou a Deus salvar aqueles que crêem por meio da loucura da pregação.
(1Cor 1.21)”.

2. A colisão dos reinos:


Um grande princípio que precisamos entender é que não somos vítimas das trevas, a amamos
(Jo 3.19).
Alexandre Milhoranza, um teólogo do século presente, em uma de suas exposições, sobre o
“pode não pode” e as verdadeiras questões da vida cristã, declara:

“Posso usar bermuda na igreja? Posso usar biquíni na praia? Posso tocar de chinelo? Devo dar o
dízimo do bruto ou do líquido? Posso ouvir tal música? Com quem eu devo namorar? Creio que estas
perguntas não sejam e nem definem o alvo da vida cristã. Ao invés de se fazer este tipo de pergunta,
creio que a Bíblia nos direciona para outras questões, tais como: Meu relacionamento com Deus sofreu
algum abalo após um período de angústia profunda? Meu amor por Deus continua o mesmo após
tantos meses de desemprego? Minha fé no Senhor continua firme após a traição que eu sofri? Deus
continua sendo soberano em minha vida mesmo após um longo período de doença? A alegria da minha
vida continua sendo Deus apesar das tribulações pelas quais eu passo? O que mudou em minha relação
com Deus depois que eu passei por essa crise financeira? Após o último conflito pessoal, você ficou

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Uma Mente de Fé

magoado suficiente para ter rancor dessa pessoa? Como você respondeu à última ofensa que recebeu?
Como você mostra que Deus está presente neste mundo no seu trabalho? Quantos "sapos você engole"
para que Cristo seja visto em você e não você mesmo? Creio que a Bíblia está mais interessada em que
façamos estes tipos de perguntas do que as primeiras.”

Note que o tempo todo estamos em conflito. O conflito entre reinos. O reino de Deus e o
nosso reino. Os questionamentos que fazemos, muitas vezes, podem definir o que realmente somos.
Deus amou o mundo e, a partir deste amor, Seu reino se instala em nós. Durante nosso processo de
santificação, que terminará somente naquele dia (Ef 4.13), nosso ego constantemente é confrontado.
Vejamos: Como olharíamos para o texto de Marcos 9.1?:

“E lhes disse: ‘Garanto-lhes que alguns dos que aqui estão de modo nenhum experimentarão a morte,
antes de verem o Reino de Deus vindo com poder’”.

Para começar, dizem os críticos, isso nunca aconteceu!


É claro que não – se você pensar que Jesus tinha em mente um golpe militar ou o fim do
mundo. E é claro que não – se, com a mesma mente crítica, você colocar a ressurreição entre
parênteses como um tipo de mitologia eclesiástica autojustificativa posterior.
Em um mundo de barbáries, de verdades líquidas, o conflito entre o nosso reino e o reino de
Deus acaba por eliminar o nosso antigo “eu” para que nos ternemos, nEle, novas criaturas e, assim,
vivermos, de fato, o Reino de Deus, ou seja, o domínio dEle sobre nossas vidas e, consequentemente,
no mundo em que nós vivemos.

3. O amor de Cristo nos constrange:


Deus nos amou, gerou em nós um conflito de interesses – antes dos nossos, os dEle. Agora,
em uma análise dessa ação divina, Paulo exclama:
“Pois o amor de Cristo nos constrange, porque estamos convencidos de que um morreu por todos; logo,
todos morreram. (2Co 5.14)”.

O termo utilizado por Paulo para “constrange” é “συνέχει (sinékei)” que, segundo o Léxico
Grego do Novo Testamento, diz respeito ao ato de constranger, impelir, instar, pressionar ou nos
prender para que venhamos agir. Não é um termo utilizado como se devêssemos um favor a alguém
e, por conta disso, somos impelidos a praticar certas ações. Não! O termo se refere a alguém que é
controlado ou dominado por algo ou alguém e que parte a exercer funções que, sem esse controle,
não o faria.
O texto de 1 Pedro 2.13, por exemplo, diz que devemos nos sujeitar às autoridades
constituídas, seja ao rei, como autoridade “suprema” por causa do Senhor. O termo supremo
(ὑπερέχοντι - iperékonti) diz respeito a algo ou alguém que é superior, que está acima e sobrepuja
aos demais. Note que essa soberania, para Pedro, é entendida sob a soberania maior, o Senhor.
Somos “constrangidos” ou “dominados”, pelo Senhor, a nos submeter às autoridades.

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Uma Mente de Fé

Assim, parece ficar claro o pensamento de Paulo quando escreve em Efésios 3.18,19. Que
possamos compreender e, além disso, conhecer o amor de Cristo que excede todo conhecimento.
Esse amor nos leva à uma nova realidade, onde passamos não mais viver para nossos interesses,
nossos desejos, nosso reino, mas, acima de tudo, Cristo viver em nós pelo amor desprendido do Pai.

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Capítulo 3

UMA MENTE
TRANSFORMADA
“Todos os que criam
mantinham-se unidos e
tinham tudo em comum. (At 2.44)”

M
uitos tem domesticado Jesus, domando-o de acordo com seus interesses. Embora uma
afirmação forte, esta é a triste realidade de muitas igrejas do século XXI. Iniciamos nossa
jornada falando da queda e, partimos, então, à ação divina em resgate da humanidade. A
partir daí, uma nova perspectiva surge; agora, com nossa mente transformada, nossas intenções,
aparentes ou ocultas, são moldadas pelo amor divino onde, Jesus, ao se fazer carne, viver, morrer e
ressuscitar, domina nossas ações ou, nas palavras de Paulo, nos constrange a viver segundo a nova
natureza em Cristo.
É aí que os imperativos do Novo Testamento aparecem. Não há mais como, a partir da nova
vida, viver como outrora vivíamos. Assim, transformemo-nos, pela renovação de nossa mente, para
que sejamos capazes de experimentar, de fato, e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de
Deus (Rm 12.2).

1. Transformado versus Conformado:


É importantíssimo observar o apóstolo Tomé, tido como o apóstolo incrédulo. Talvez mereça
esse título. Mas, observando o relato de João, sobre a aparição de Cristo a esse, o impelindo a tocar
em suas feridas, este exclama: “Senhor meu e Deus meu (Jo 20.28)”. É bem verdade que parece haver
uma repreensão do Senhor à Tomé: “Porque me viu, você creu? Felizes os que não viram e creram".
(Jo 20.29)”. Mas repare na frase do apóstolo que muitas vezes passa despercebida por nós.
Ao exclamar a palavra “Senhor”, Tomé está evidenciando sua voluntária submissão ao
Mestre. O texto não deixa claro se ele realmente tocou nas feridas de Jesus, mas sua declaração ecoa
até os dias de hoje. Jesus Cristo é o Rei dos reis e Senhor dos senhores (Ap 19.16).
Isto significa que Tomé não foi apenas convencido, conformado, mas, de fato, transformado
ao assumir o senhorio de Mestre. Lucas registra que Tomé estava sempre com os demais discípulos
e apóstolos, perseverando em oração (At 1.13,14) e, antigas tradições cristãs apontam este apóstolo
13
Uma Mente Transformada

pregando o evangelho na Índia e na Síria.


Quando assumimos o senhorio de Cristo, assumimos a mordomia cristã. Um mordomo é
aquele que cuida, zela e protege os interesses de seu senhor. Por isso o apóstolo Paulo, ao escrever
aos romanos, destaca firmemente a diferença de alguém transformado para alguém conformado.
Não nos moldamos mais aos padrões desse mundo, mas, diante da renovação da mente, somos
transformados, de modo a vivenciar uma unidade diante da diversidade. Somos um corpo, como
muitos membros, atuando de formas diferentes mas com um mesmo objetivo, pois, neste único
corpo há uma cabeça que controla todos os movimentos e, essa cabeça, é o próprio Cristo (Rm 12).

2. Disposição em Servir:
O livro “Envisionar, metas e valores para a igreja que faz história”, da CIADESCP
(Convenção da Igrejas Evangélicas Assembleia de Deus de Santa Catarina e Sudoeste do Paraná),
faz uma importante observação:
“O hedonismo faz parte da cultura de nossos dias. É como se a busca de prazer tivesse se transformado
numa espécie de vício coletivo. Pessoas correm o tempo todo atrás de formas de autorrealização. É a
geração de indivíduos voltados para si, a serviço dos próprios interesses numa espécie de mundo
particular. Esse mundo particular é uma verdadeira ilha fictícia, uma terra de fantasias, em que a
maioria das pessoas tenta construir um universo que gire em torno do próprio ego.”

Infelizmente, muitas pessoas têm feito da fé um trampolim para realizações pessoais. Mas
não é isso que as Escrituras Sagradas nos orientam. Tiago deixa claro que a consequência da fé são
os atos de misericórdia, ou, como se lê, as obras (Tg 1.1-26).
A igreja não é uma prateleira de supermercado onde pegamos o que precisamos e,
simplesmente, vamos para casa cuidar de nossos afazeres. Precisamos ter a consciência – e isso
somente pela renovação da mente em Cristo – de que somos como um “centro de treinamento”,
onde as pessoas são recrutadas, formadas e enviadas para servir a Deus, pois surge uma nova
disposição em cada ser.
Quem é o maior (ecoa Lucas as palavras do Mestre) o que está à mesa ou o que serve? Jesus,
ao responder a este questionamento, que ele mesmo fez, declara: “Não é o que está à mesa? Mas eu
estou entre vocês como quem serve. (Lc 22.27)”. Ora, se o Senhor se fez servo, diz João, foi para dar
o exemplo para que, também nós venhamos servir (Jo 13.13-16).
Estão contados os dias em que poucos estarão sobrecarregados de atividades enquanto
muitos apenas assistirão ao empenho alheio.

3. A essência do diaconato:
A igreja do Senhor foi dotada de dons especiais; estes, para um bem servir em meio a uma
sociedade corrupta e hedonista. Russel N. Champlim, em sua enciclopédia, indica que esses dons
(do grego Charisma) são gratuitamente conferidos para a obra do ministério (1Co 12.4, 9, 28, 30, 31).
Logo, a busca pelos dons deveria ser uma constante para todo crente; porém, não é isso que temos
visto atualmente.

14
Uma Mente Transformada

Há uma máxima que circula em nossos dias que diz: “Quanto mais talentos demonstrarmos
ter, mais de nós será cobrado. Assim, nos limitemos às nossas funções primárias.”. Parece que este
mesmo pensamento penetrou na mente de muitos crentes. “Se buscarmos os dons espirituais e
alcançarmos essa graça, seremos devidamente cobrados por sua correta e constante utilização e,
assim, perderemos nossas comodidades”.
Mas todo salvo foi chamado a ser servo (Gl 5.13). E o que isso significa? A nova natureza em
Cristo nos leva, automaticamente, a uma nova disposição onde há uma auto renúncia e um
comprometimento com o todo da criação divina. Esse todo inclui seres e coisas.
A palavra que melhor define o serviço cristão é “diaconia” que traz o sentido de serviço
espiritual, embora, muitas vezes, seja indicação de ministrações físicas aos enfermos e necessitados.
Segundo o Dicionário Brasileiro do Globo, serviço significa “o ato ou efeito de servir, trabalhar ou
função de quem serve”, podendo também ser definido como a disposição, capacidade e poder,
concedido por Deus, para servir e prestar assistência prática a alguém, sendo esta a verdadeira fé
em ação a serviço da igreja local, da comunidade e da sociedade.
Vale ressaltar que o termo grego (Diakonia), que aparece cerca de 33 vezes no Novo
Testamento, refere-se a uma pessoa que oferece o seu serviço como cristão, mais especificamente
como um garçom (Jo 2.5, 9), capacitando-o a reconhecer onde algo deve ser feito e colocar-se à
disposição para o serviço cristão (Lc 10.40; At 1.16, 25; 6.1, 4; 11.29; 12.25; 20.24; 21.9).
O serviço cristão, que leva a uma autêntica comunhão (Koinonia) não é, de fato, para
qualquer um. O verdadeiro diácono (seja membro, auxiliares, diáconos, presbíteros, evangelistas,
missionários e pastores) é todo aquele que possui a mente de Cristo (1Co 2.16), que passou pelo
novo nascimento, que teve sua mente transformada e, consequentemente, afeições aprimoradas. A
diaconia não é somente o serviço do diácono, mas de todo crente no Senhor e Salvador Jesus Cristo.

Que Deus abençoe a todos em Cristo Jesus

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Referências Bibliográficas

Referências Bibliográficas

ANTIGO TESTAMENTO INTERLINEAR HEBRAICO-PORTUGUÊS: Volume 3 Profetas


Posteriores. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2017.

BEALE, G. K. Você se Torna Aquilo que Adora: Uma teologia bíblica da idolatria. Ed. Vida Nova,
São Paulo, SP, 2014.

BÍBLIA, Português. Leitura Perfeita NVI. Nova Versão Internacional. Rio de Janeiro, RJ: Thomas
Nelson Brasil, 2018.

CHAMPLIM, Russel Normann. O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. Ed.
Hagnos, São Paulo, SP, 2015.

COMENTÁRIO DO USO DO ANTIGO TESTAMENTO NO NOVO TESTAMENTO/


Organizado por G. K. Beale e D. A. Carson; tradução de C. E. S. Lopes, F. Medeiros, R. Malkomes e
V. Kroker. - São Paulo: Vida Nova, 2014.

DICIONÁRIO BÍBLICO STRONG: Léxico Hebraico, Aramaico e Grego de Strong. Barueri:


Sociedade Bíblica do Brasil, 2002.

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