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1) Na forma atual, o referido projeto de lei não adiciona instrumentos ou normas jurídicas

diferentes daqueles já vigentes atualmente 1. Apresentarei, de forma breve, os dispositivos


jurídicos que se equiparam às normas transitórias:
2) Quanto ao art. 6º, que estabelece que as consequências da pandemia não terão efeitos
jurídicos retroativos, esta demonstra-se uma regra desnecessária justamente porque não há
sentido lógico em assumir a possibilidade retroação dos efeitos jurídicos de um fato
superveniente. Conforme disposto no próprio art. 393 do CC, quando se prevê que devedor
não responde pelos prejuízos resultantes de caso fortuito ou força maior, estabelece-se
necessariamente a ocorrência de um fato superveniente, fora de alcance da influência das
partes, que impeça o adimplemento da obrigação a partir dele. Assim, como exemplo,
inadimplementos que ocorreram antes do fato fortuito ou de força maior que impediu o
cumprimento de determinada obrigação não estão sujeitos aos mesmos efeitos jurídicos
daquelas decorrentes de situações imprevisíveis.
a) Já em relação ao art. 7º, que estabelece a exclusão de certos elementos como fatos
imprevisíveis, verifica-se que os fatores excluídos são uma conclusão lógica das
operações contratuais, uma vez que há a construção e divulgação anual de índices
de inflação e há uma expectativa relevante quanto à variações cambiais,
desvalorização monetária ou mesmo possíveis políticas de substituição do padrão
monetário. Dessa forma é impossível, por exemplo, alegar o mero aumento da
inflação ou a desvalorização monetária, quando em taxas e situações normais,
como razões suficientes para revisão, resolução e resilição contratuais. Inclusive,
este é um entendimento cediço de diversas cortes brasileiras, incluindo o STJ 2.

1 À exceção do art. 1º do PL, que se mostra útil e necessário para definir o marco temporal para definir o
termo inicial dos acontecimentos decorrentes da pandemia do coronavírus.
2 2. “Consoante jurisprudência desta Corte, a desvalorização súbita da moeda brasileira ocorrida em janeiro
de 1999 configura onerosidade excessiva a afetar a capacidade de o consumidor adimplir suas obrigações
contratuais, mas, diante da previsibilidade de modificação da política cambial, a significativa valorização do
dólar norte-americano deve ser suportada por ambos os contratantes de forma equitativa. Precedentes. 3.
Agravo regimental não provido.” STJ. AgRg no REsp 716702 / RS. rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva. 3º Turma.
Julgado em: 13/05/2014. DJ: 02/06/2014.