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Entro na capoeira baixa... saio do capoeirão alto.

E acolá, em paliçadas compactas, formando


arruamentos, arborescem os bambus.

Os bambus! Belos, como um mar suspenso, ondulado e parado. Lindos até nas folhas
lanceoladas, nas espiguetas peludas, nas oblongas glumas... muito poéticos e asiáticos,
rumorejando aos voos do vento.

(...) apenas na hora de ir- me embora é que passarei para ver os meus bambus. Meus?
Nossos...

Porque eles são a base de uma subestória, ainda incompleta.

Guimarães Rosa, São Marcos in Sagarana

Tema:

A biblioteca de bambu

Delimitação do tema :

A biblioteca de bambu é um projeto artístico multimidiático que envolve a


criação/ressignificação de objetos bem como a criação videográfica e artística.

Tem como principal objetivo a criação de uma biblioteca de bambu, a partir da


gravação/inscrição de nomes de obras da literatura mundial em pedaços de bambu. O
principal produto final do projeto é a criação de estantes e prateleiras compostas desses livros
virtuais. Virtuais porque serão evocações, uma vez que estarão representados somente nas
lombadas dos livros expostos na biblioteca, os próprios bambus, sua matéria cilíndrica
servindo de suporte para a re-inscrição dos títulos das obras. Ou seja, um biblioteca onde não
existirão livros como os conhecemos e sim, novos livros, uma nova e outra forma de lidar com
os livros.

A problematização levantada trabalha com a hipótese da inserção da poesia, de caracteres


poéticos em outros suportes, para além do livro, assim como a busca de diálogo entre as artes,
principalmente a literatura, a poesia e as artes visuais.

As linhas conceituais do projeto pretendem trabalhar as relações entre essas linguagens, bem
como alguns de seus conceitos tais como “imagem poética”, apropriação e montagem.
Assim o presente projeto busca tocar nos limiares, intertextos, interseções entre as linguagens;
principalmente entre arte contemporânea, poesia, literatura e vídeo. Discutir teoria com
prática, utilizando os conceitos como elementos disparadores para a criação artística.

Justificativa :

Nestes tempos de pandemia de covid-19, em que a grande parte da humanidade é obrigada


forçosamente a recolher-se em suas casas, a arte e a poesia são mais do que nunca tão
urgentes e necessárias. O recolhimento doméstico, o medo, a introspecção; enfim as
limitações estabelecidas pela pandemia impelem a humanidade olhar e relacionar com mais
empatia para o mundo que a cerca. Somos impelidos a olhar para dentro, ter mais paciência,
buscar uma vivência, no mínimo mais criativa e construtiva.

Estado da pesquisa:

O conceito disparador da biblioteca de bambu surge com a leitura do conto “São Marcos"
de Guimarães Rosa publicado no livro Sagarana. Neste, o personagem principal estabelece
uma relação mais do que poética com a planta em questão, ele estabelece uma relação
artístico-literária com uma moita de bambus, ao valer -se de “um lápis na algibeira" para
realizar uma série de gravações nesses objetos. Essas escritas, grafias, incisões no bambu,
entalhes em baixos relevos revelam uma série de nomes insólitos que, segundo o relato do
personagem, trata-se de uma galeria de reis babilônicos" cuja evocação neste processo de
re-escrita dá-se unicamente pela beleza das palavras.

“Sargon

Assarhaddon

Assurbanípal

Teglattphalasar, Salmanassar

Nabonid , Nabopalassar, Nabucodonosor

Belsazar

Sanekherib”

E era para mim um poema esse rol de reis leoninos, agora despojados da vontade sanhuda é
só representados na poesia. Não pelos cilindros de ouro e pedras, postos sobre as reais comas
riçadas, nem pelas alargadas barbas, entremeadas de fios de ouro. Só, só por causa dos
nomes.

Há neste gesto do personagem um fazer artístico. O que impele esse gravador rústico cujo
suporte não é extraído da natureza a utilizar o bambu como seu “caderno de anotações“?
O que ou quem é o real motivador dessa ação?

Assim, com este trecho do conto ecoando na mente, gravei os nomes dos reis babilônicos
com um estilete de precisão em um pedaço de bambu recolhido do bambuzeiro da casa onde
resido.

A utilização da matéria prima bambu para fins utilitários e decorativos remonta a períodos
remotos. O bambu é originário da China, sendo que sua utilização pode ser datada de .....

No Brasil,

O poeta chinês Huang

Etapas cumpridas/em andamento:

*Mapeamento teórico.

*Levantamento bibliográfico.

*Início da criação do acervo.

*Desenvolvimento de objetos.

Etapas a serem cumpridas:

*Desenvolvimento da criação do acervo.

*Desenvolvimento de objetos.

*Captação, concepção e edição de vídeos.

Objetivos gerais e específicos:

Como mencionado anteriormente, o projeto em andamento “A Biblioteca de Bambu” busca


trabalhar no âmbito das reflexões e práticas interdisciplinares abarcadas pelas relações entre
arte contemporânea e literatura. Dentro da arte contemporânea compreende -se as práticas
do vídeo, da instalação, da arte conceitual, do pensamento escultórico para além da escultura,
do quadro fora do quadro, do objeto encontrado, enfim de algum tipo de incorporação da
inespecificidade do objeto artístico.

No campo da literatura, interessa-nos o pensamento crítico acerca da poesia, a utilização de


conceitos como “citação”, “imagem poética “ além de releituras e apropriações de trechos,
obras, títulos, imagens “sampleadas” de outros autores; bem como práticas criativas que re-
situem os estatutos da poesia à luz da contemporaneidade.

A “biblioteca de bambu” tem entre seus operadores teóricos o conceito de “mixed media"
como um de seus eixos primordiais, uma vez que pretende mesclar a materialidade do objeto
bambu com outras mídias tais como o vídeo e a poesia. Desta forma, uma das principais
intenções do presente projeto é a re- situação de conceitos tais como imagem poética, espaço
literário, poesia expandida; assim como uma possível ampliação do conceito de biblioteca.

Metodologia:

Levantamento de material bibliográfico

Trabalho de campo: extração de bambus, preparo,

Catalogação de títulos, impressão de matrizes gráficas, gravação, registros audiovisuais,


edição e finalização de vídeo.

Referências utilizadas:

BORGES, Jorge Luis. Obras Completas, volume 1. Rio de Janeiro: Editora Globo,

COTRIM, Cecilia. FERREIRA, Glória (orgs.). Escritos de artistas: anos 60/70. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Editora, 2006.

GARRAMUÑO, Florencia. Frutos Estranhos: sobre a inespecificidade na estética


contemporânea. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2014.

HELDER, Herberto. Ou o poema contínuo. Rio de Janeiro: Editora Girafa, 2006.

PERLOFF, Marjorie. A escada de Wittgenstein: A linguagem poética e o estranhamento do


cotidiano. São Paulo: Edusp, 2008.

PERLOFF, Marjorie. O gênio não original: poesia por outros meios no novo século. Belo
Horizonte: Editora UFMG, 2013.

ROSA, João Guimarães. Sagarana. São Paulo: Editora Nova Fronteira, 1984.