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CURSO JUIZADOS ESPECIAIS CRIMINAIS

LEI 9099/95

MÓDULO I -

1 - ORIGEM CONSTITUCIONAL

Os juizados especiais criminais têm origem no


artigo 98, I, CF.

2 - PRINCÍPIOS DA LEI 9099/95

A Lei 9099/95 estabelece em seu artigo 2o. os


princípios e critérios que devem reger sua aplicação, com a criação de um novo modelo de
justiça.
São os seguintes os princípios:

a) Simplicidade;

b) Economia Processual;

c) Oralidade;

d) Celeridade;

e) Informalidade.

Além disso a lei sob comento estabelece como


critério orientador de sua aplicação os objetivos principais da "conciliação e da transação",
o que significa a adoção de um novo paradigma chamado na doutrina de "Justiça
Consensuada".
Esse modelo de "Justiça Consensuada" também
é marcado pelo privilégio da aplicação de pena não privativa de liberdade
(descarcerização, desprisionização).

Outro critério desse modelo é o destaque dado


à vítima no que tange à reparação dos danos sofridos, sendo considerada essa característica
como uma redescoberta do papel da vítima no processo penal. (ver artigo 62, "in fine" da
Lei 9099/95).

3 - CONCEITO DE INFRAÇÃO DE MENOR POTENCIAL OFENSIVO

A Constituição Federal, ao autorizar a criação


dos Juizados Especiais Criminais para o processo e julgamento das infrações penais de
menor potencial ofensivo, deixou ao legislador ordinário a missão de definir em que
consistiriam estas.

Em um primeiro momento, a Lei 9099/95


incumbiu-se desse mister, estabelecendo o conceito em seu artigo 61 e elegendo como
infrações de menor potencial ofensivo:

a) As contravenções penais

b) Os crimes a que a lei comine pena máxima não superior a um ano, excetuados os casos
em que a lei preveja procedimento especial.

PRIMEIRA POLÊMICA: A primeira questão surgida acerca do conceito de infração de


menor potencial foi saber se todas as contravenções penais seriam abrangidas ou se seriam
excluídas aquelas que tivessem procedimento especial. A conclusão da doutrina e da
jurisprudência não tardou em firmar que todas as contravenções penais seriam
abrangidas pela Lei 9099/95, uma vez que tratam-se sempre de infrações de menor monta,
independentemente do procedimento adotado.

SEGUNDA POLÊMICA : Quando a questão parecia pacificada eis que surge a Lei
10.259/01, que dispõe acerca dos Juizados Especiais Cíveis e Criminais na esfera da Justiça
Federal. Mencionada lei em seu artigo 2o., Parágrafo Único, traz uma nova conceituação de
infração penal de menor potencial ofensivo.
Para a referida norma seriam infrações de
menor potencial:

- Os crimes a que a lei comine pena máxima não superior a dois anos, ou multa.

OBS. Obviamente a Lei 10.259/01 não faz menção às contravenções penais porque estas
não são de competência da Justiça Federal, cabendo seu processo e julgamento
exclusivamente às Justiças Estaduais.

Com a entrada em vigor da nova lei supra


mencionada, surgiram duas interpretações acerca do conceito de infrações penais de menor
potencial ofensivo:

a) Haveria agora dois conceitos, um válido para a Justiça Estadual e outro válido para a
Justiça Federal;

b) O novo conceito da Lei dos Juizados Especiais Federais seria aplicado à Justiça Estadual
também, ampliando consideravelmente o rol de infrações consideradas de menor potencial.
Com a nova conceituação exposta pela Lei dos Juizados Especiais Federais passariam a ser
consideradas infrações de menor potencial:
- Todas as contravenções penais;

- Todos os crimes com pena máxima não superior a dois anos, ou multa,
independentemente do procedimento especial ou comum.

OBS. O legislador teria incidido em impropriedade ao mencionar crimes apenados com


multa, pois estes na verdade seriam contravenções.

A doutrina e a jurisprudência praticamente


unânimes convergiram para a segunda solução, inclusive apontando o disparate causado
pela aplicação de critérios diferenciados pelas Justiças Estadual e Federal, infringindo o
Princípio Constitucional da Igualdade.

Ex1 - Desacato a um Policial Federal - TC


Desacato a um Policial Civil - Auto de Prisão em Flagrante.

Ex2 - Abuso de Autoridade cometido por um policial federal - TC (Transação Penal).


Abuso de Autoridade cometido por um policial civil - Processo na forma da Lei
4898/65.
Ocorre que a questão teve solução legislativa com a promulgação da Lei 11.313, de
28 de Junho de 2006, a qual adotou a redação da Lei 10.259/01 para o artigo 61 da Lei
9099/95. Atualmente já não há mais diferença legal entre os conceitos de infração penal nos
Juizados Especiais Criminais Federais e Estaduais.

OBSERVAÇÃO IMPORTANTE: Houve grande polêmica sobre a aplicabilidade ou não da


Lei 9099/95 no âmbito da Justiça Militar. A questão foi solucionada definitivamente pela
Lei 9839/99 que acrescentou o art. 90-A à lei, dispondo que "As disposições desta lei não
se aplicam no âmbito da Justiça Militar".

OBSERVAÇÃO IMPORTANTE: A Lei 9099/95 também tem sua aplicação vedada nos
casos de violência doméstica ou familiar contra a mulher por força do art. 41 da Lei
11.340/06.

NOVIDADE: Ver o novo artigo 94 do Estatuto do Idoso (Lei 10.741/03) – estabelece a


aplicação da Lei 9099/95 para os crimes ali previstos apenados até 04 (quatro) anos.

DUAS QUESTÕES IMPORTANTES:


a)Um crime apenado com o máximo de dois anos, em havendo causa de aumento de pena,
deixa de ser considerado de menor potencial?

Sim. Por exemplo: O crime de Lesões


Corporais Culposas, previsto no CTB, seria de menor potencial, considerando o máximo de
um ano. Entretanto, se cometido por pessoa sem habilitação, o aumento lhe retiraria tal
característica.

b) Em caso de concurso de vários crimes, todos de menor potencial, sendo que a somatória
das penas no concurso material ou o aumento do concurso formal ultrapassarem o máximo
de dois anos, como ficaria a situação?

Duas posições:

b.1 - Os crimes seriam considerados separadamente, não perdendo a característica de


infrações de menor potencial.

b.2 - Deveria ser considerada a pena somada ou aumentada respectivamente pelos


concursos material ou formal e se ultrapassasse o máximo previsto, perderia a característica
do menor potencial. (Matéria hoje sumulada: Súmulas 723 STF e 243, STJ).

4 - INVESTIGAÇÃO CRIMINAL NA LEI 9099/95: TERMO CIRCUNSTANCIADO,


INQUÉRITO POLICIAL E PRISÃO EM FLAGRANTE.

Antes do advento da Lei 9099/95 a forma


básica e praticamente exclusiva de investigação criminal era o Inquérito Policial. Este
poderia ser prescindível em certos casos, desde que presentes peças de informação
suficientes para fundamentar uma acusação ou mesmo por outros procedimentos de
autoridades administrativas autorizadas a praticarem investigações criminais (art. 4o.,
Parágrafo Único, CPP). Entretanto, na prática, era extremamente raro que se deixasse de
lançar mão do Inquérito Policial na investigação criminal.

A Lei 9099/95 apresenta o chamado "Termo


Circunstanciado" como um substitutivo do Inquérito Policial para a apuração das infrações
penais de menor potencial ofensivo. (art. 69 da Lei 9099/95).

QUESTÃO 1 - O QUE É O TERMO CIRCUNSTANCIADO?

O Termo Circunstanciado é um registro


sucinto, mas abrangente, no qual se procura resumir os fatos que deverão ser submetidos à
apreciação do Judiciário. Ele é aplicável tão somente em casos de infrações de menor
potencial, visando empreender maior informalidade e celeridade ao procedimento (substitui
então nestes casos o Inquérito Policial e a Prisão em Flagrante).
OBSERVAÇÃO: No Termo Circunstanciado há uma mudança terminológica, pois o
suspeito do cometimento de infração penal não é mais chamado de "indiciado", mas sim de
"autor do fato".

QUESTÃO 2 - É POSSÍVEL A PRISÃO EM FLAGRANTE EM INFRAÇÕES DE


MENOR POTENCIAL?

Em regra a prisão em flagrante não é possível,


devendo o autor do fato assumir simplesmente o compromisso de comparecer no JEC, sem
sequer necessidade de recolher fiança.
Entretanto, excepcionalmente pode haver
lavratura de auto de prisão em flagrante em casos de infrações de menor potencial ofensivo:

a) A prisão em flagrante é vedada pelo Parágrafo Único do art. 69 da Lei 9099/95 em dois
casos:

- Apresentação imediata do autor do fato ao JEC;


- Assunção pelo autor do fato do compromisso de comparecer ao JEC.

Assim sendo, se não houver possibilidade de apresentação imediata ao JEC e se o autor do


fato negar-se a assumir o compromisso de comparecimento, poderá ser lavrado auto de
prisão em flagrante normalmente.

b) Também devem-se considerar os casos em que o compromisso assumido pelo autor não
seja válido ou revestido de seriedade (Ex. indivíduo bêbado ou que não assume seriamente
o compromisso, agindo jocosamente).

QUESTÃO 3 - PODE HAVER INQUÉRITO POLICIAL PARA A APURAÇÃO DE


INFRAÇÃO DE MENOR POTENCIAL OFENSIVO?

Em regra não. Entretanto, excepcionalmente,


quando a complexidade do caso não comportar sua solução pelo procedimento mais
informal, necessitando de maiores investigações, poderá ser instaurado um inquérito
policial. Isso pode ser realizado fundamentadamente pela Autoridade Policial ou mesmo
posteriormente à elaboração e envio de um Termo Circunstanciado ao JEC, quando o
Ministério Público pode solicitar o retorno à Delegacia para instauração de Inquérito
Policial para melhor apuração dos fatos, visando a formação de sua "oppinio delicti". (ver
art. 77, § 2o. da Lei 9099/95).

QUESTÃO 4 - O EXAME DE CORPO DE DELITO E A MATERIALIDADE PARA O


OFERECIMENTO DA DENÚNCIA NOS CRIMES DE MENOR POTENCIAL
Nos termos do art. 77, § 1o., para fins de
oferecimento da denúncia poderá o exame de corpo de delito ser substituído por boletim
médico ou prova equivalente.
Entretanto, é preciso atentar que tal norma não
revoga o art. 158 do CPP, que estabelece a imprescindibilidade do exame de corpo de delito
nas infrações que deixem vestígios. Apenas tal exame poderá ser prescindível no momento
da formulação e recebimento da denúncia. Posteriormente, porém, deverá ser
providenciada sua juntada aos autos, sob pena de ter-se por não comprovada no processo a
materialidade da infração.

QUESTÃO 5 - QUAL O CONCEITO DE AUTORIDADE POLICIAL NA LEI 9099/95?

A questão é saber se quando a Lei 9099/95 fala


em "Autoridade Policial", refere-se especificamente ao Delegado de Polícia de Carreira ou
simplesmente a qualquer agente que exerça o poder de polícia (ex. Policiais Militares em
geral e outros).
Poderia um simples Policial Militar, sem
formação jurídica, elaborar um Termo Circunstanciado e encaminhá-lo diretamente ao
JEC?
A orientação doutrinária dominante é no
sentido de que poderia com vistas à informalidade e celeridade preconizadas pela
sistemática da Lei 9099/95. Aliás, com base nessa doutrina já existe orientação do
Conselho Superior da Magistratura.

Entretanto, duas observações devem ser feitas a


respeito do caso, uma de ordem prática e outra de ordem legal - constitucional:

1 - A observação de ordem prática refere-se à deficiência da formação do Policial Militar,


normalmente inabilitado juridicamente para uma devida tipificação de condutas
diferenciando infrações de menor potencial ofensivo de outras. Como poderia, por
exemplo, um Policial Militar sem formação jurídica adequada, diferenciar corretamente um
caso de furto de um caso de exercício arbitrário das próprias razões?

2 - Quanto ao óbice legal - constitucional a tal orientação é necessário notar que o "Termo
Circunstanciado" é um procedimento simplificado, mas não deixa de ser ato de "Polícia
Judiciária". Tal função é constitucionalmente reservada às Polícias Civis, sob a presidência
de Delegados de Polícia de Carreira, Bacharéis em Direito (Art. 144, § 4o., CF). Às Polícias
Militares são reservadas somente as funções de policiamento ostensivo - preventivo (Art.
144, § 5o., CF), de modo que a orientação de elaboração de TCs. pelos PMs. seria uma
afronta à ordem constitucional vigente.

MÓDULO II -
FASE PROCESSUAL
1 - AUDIÊNCIA PRELIMINAR

Elaborado o Termo Circunstanciado na fase


policial, este é encaminhado ao JEC, onde será realizada a Audiência Preliminar, na qual
visa-se à aplicação dos institutos da Lei 9099/95 para solução dos casos de infrações
consideradas de menor potencial ofensivo.

a) Art. 70 da Lei 9099/95 - prevê que caso estejam presentes autor do fato e vítima, mas,
por qualquer motivo, não for possível a realização da audiência preliminar, será designada
data próxima, da qual sairão todos cientes.

OBS. Aqui se verifica a aplicação dos princípios da celeridade, economia processual e


simplicidade que orientam a lei.

b) Art. 71 - Determina que na falta do comparecimento de qualquer dos envolvidos será


providenciada sua intimação para outra data.

OBS. Há autores (Mirabete) que defendem que se a ausência injustificada for do autor do
fato, deverá então o Promotor efetuar a denúncia oral e a vítima oferecer queixa ou
representação se for o caso, porque estaria prejudicada a conciliação.

ESTA NÃO É A MELHOR ORIENTAÇÃO

PORQUE:

1 - Em primeiro lugar no momento da audiência preliminar normalmente não se terá


elementos para saber se a ausência foi ou não injustificada;

2 - Além disso, o compromisso assumido quando do TC não supre a intimação nesse caso,
não havendo qualquer ressalva na redação do art. 71 (Obs. Na verdade o art. 71 fala em
"ausência de qualquer dos envolvidos");

3 - O principal objetivo da Lei 9099/95 é a CONCILIAÇÃO , não podendo ser este


objetivo abandonado face ao primeiro obstáculo;

4 - Se, devidamente intimado na forma do art. 71, voltar o autor do fato a não comparecer,
então poderá concluir-se pela impossibilidade de conciliação, esgotados os esforços
determinados pela lei para sua realização.

OBS. IMPORTANTE: No entanto, tem predominado na doutrina o entendimento de


Mirabete, considerando-se que a norma do art. 71 refere-se somente aos casos em que o
caso seja encaminhado de imediato ao Jec.
c) Art. 72 - QUEM DEVERÁ ESTAR PRESENTE NA AUDIÊNCIA PRELIMINAR?
-Juiz;
-Promotor;
-Autor do fato;
-Vítima;
-Responsável Civil (Ex. Empresa de Ônibus p/ composição civil);
-Advogados.

1A. PROVIDÊNCIA:

O juiz esclarece sobre a possibilidade de:


- Composição civil dos danos;
- Aceitação de proposta de aplicação imediata de pena não privativa de liberdade.

Na realidade, a Audiência Preliminar se


compõe de três fases:

1a. - Composição Civil dos Danos;


2a. - Transação Penal;
3a. - Oferecimento oral da denúncia ou queixa.

OBS.1 - Segundo o art. 73 a conciliação pode ser conduzida pelo Juiz ou por conciliador
sob sua orientação.

OBS. 2 - Art. 73, Parágrafo Único:


O conciliador deve ser:

a) Preferencialmente Bacharel em direito;

b) Não pode exercer função na Administração da Justiça Criminal (Ex. Oficial de Justiça,
Policial, escrevente etc.).

OBS. 3 - Não há previsão do chamado "Juiz Leigo" nos Juizados Especiais Criminais,
somente nos Juizados Especiais Cíveis. O "Juiz Leigo" difere do conciliador pelas
seguintes características:

- Não basta ser bacharel em direito (no caso do conciliador nem é imprescindível, sendo
apenas preferível que seja), é preciso que seja um "Advogado" com mais de cinco anos de
experiência (art. 7o. da Lei 9099/95);

- Os "Juízes Leigos" ficam impedidos de exercer a advocacia perante os Juizados


Especiais enquanto estiverem no desempenho de suas funções (art. 7o, Parágrafo Único), o
que não é previsto aos conciliadores acaso sejam também advogados (logicamente não
poderão estes também numa mesma causa exercerem as duas funções);
- Os "Juizes Leigos" podem presidir audiências e orientar os conciliadores ou realizarem
pessoalmente e independentemente a conciliação sem a necessidade de orientação do Juiz
Togado, ao qual ficará reservada nesses casos, somente a homologação por sentença da
conciliação (ver arts. 21 e 22 da Lei 9099/95).

d) Art. 74 - HAVENDO COMPOSIÇÃO CIVIL DOS DANOS

1- Se houver composição dos danos civis:

a) Reduz a termo a composição;

b) O juiz homologa por sentença irrecorrível;

Obs. Não é previsto recurso, mas sempre pode caber o Mandado de Segurança para a
Turma Recursal.

c) Esta sentença serve como título executivo judicial no Juízo Cível competente.

Obs. Embora haja esta característica de executabilidade da sentença homologatória da


composição civil de danos, ela não implica em confissão de culpa na seara penal.

2 - Se o crime depende de representação ou é de ação penal privada, a composição dos


danos civis importa em "renúncia" ao direito de queixa ou representação (art. 74, Parágrafo
Único).

OBS.1 - A renúncia ao direito de queixa não é novidade no ordenamento processual penal


(arts. 49, 50 e 57, CPP), sendo a previsão da lei apenas mais um meio legal.

A figura da Lei 9099/95, no que diz respeito à


renúncia ao direito de queixa quando da composição civil configura uma exceção à regra
geral do art. 104, Parágrafo Único do Código Penal, de que não importa em renúncia o
recebimento pelo ofendido de indenização pelo dano causado pelo crime.

OBS. 2 - RENÚNCIA AO DIREITO DE REPRESENTAÇÃO

Já a renúncia ao direito de representação não


encontra previsão no CPP nem no CP. Apenas há a "retratação" prevista no art. 25, CPP,
mesmo assim só até antes de oferecida a denúncia.
Isso gerou controvérsia doutrinária, havendo
interessante artigo de VITOR EDUARDO RIOS GONÇALVES (Boletim IBCCrim 46/8),
versando sobre o tema e apontando posições que negaram a existência de renúncia à
representação, mas concluindo o autor pela existência em face da previsão legal do art. 74,
Parágrafo Único da Lei 9099/95.
Certamente essas posições que negam a
evidência da renúncia do direito a representação prevista na Lei 9099/95 fazem parte de
uma ótica equivocada da lei. Ela não pode ser analisada com vistas ao ordenamento
comum. Seus institutos são novos, pretendem inovar e revolucionar e, por isso, só podem
ser vistos com um novo olhar. A tentativa de interpretar e criticar os dispositivos da Lei
9099/95 com vistas ao ordenamento comum e à tradição do Direito Penal e Processual
Penal Pátrios, somente deturpará e inviabilizará sua adequada aplicação.

3 - Se o crime for de ação penal pública incondicionada, mesmo havendo composição civil
partir-se-á para a outra fase da audiência, qual seja, a da "Transação Penal"

EXEMPLO:

Figure-se um caso de infração ao art. 66 do


Código de Defesa do Consumidor:

"Fazer afirmação falsa ou enganosa, ou omitir


informação relevante sobre a natureza, característica, qualidade, quantidade, segurança,
desempenho, durabilidade, preço ou garantia de produtos ou serviços."
"Pena: Detenção de 3 meses a um ano e multa".

É crime de menor potencial de ação penal


pública. Pode causar prejuízo ao consumidor. Realizada a composição civil nestes casos,
mesmo assim parte-se para a transação penal. É lógico que a boa vontade do autor do fato
em indenizar à vítima deverá ser levada em conta beneficamente pelo Ministério Público
para a formulação da proposta de transação penal, diferentemente daquele infrator que
recalcitra em reparar o dano provado por sua conduta ilegal.

NÃO HAVENDO COMPOSIÇÃO CIVIL DOS DANOS

1 - CRIME DE AÇÃO PENAL PÚBLICA CONDICIONADA

Não havendo a composição é dada a


oportunidade para representação da vítima.

Duas situações podem ocorrer:

a) A vítima não representa - Aguardam-se os seis meses do prazo decadencial (art. 38,
CPP), pois o não oferecimento da representação na Audiência Preliminar não opera a
decadência (Art. 75, Parágrafo Único da Lei 9099/95).
b) A vítima representa:

b.1 - Reduz a termo a representação;


b.2 - Passa o Ministério Público para a fase de transação penal.

2 - CRIME DE AÇÃO PENAL PÚBLICA INCONDICIONADA

Não havendo a composição e mesmo havendo,


passa-se normalmente para a segunda fase, que é a da Transação Penal.

3 - CRIME DE AÇÃO PENAL PRIVADA

Pela lei salta-se do art. 74 para o art. 77, § 3o.,


não havendo previsão de transação penal entre querelante e querelado.
Não havendo a composição, parte-se para a
queixa oral.

TRANSAÇÃO PENAL NA AÇÃO PENAL PRIVADA (UMA QUESTÃO


CONTROVERSA)

Ada Pelegrini Grinover entende que a


transação penal poderia ser exercida pelo querelante também por analogia aoart. 76.
Ela apresenta conclusão da "Comissão de
Estudos da Escola Nacional da Magistratura":
11a. Conclusão: "O disposto no art. 76 abrange
os casos de ação penal privada."
Ada aponta que a não previsão da transação
para o querelante advém de uma visão tradicional da vítima no processo penal, que procura
afasta-la do interesse na pena.
Essa visão, contudo, vem se alterando nos
novos estudos sobre a vítima (Ver neste sentido: Antonio Scarance Fernandes, "O papela da
vítima no Processo Penal"). (Ver em contrário a orientação da Procuradoria Geral da
Justiça/SP, datada de 27.06.01).

2 - TRANSAÇÃO PENAL - ART. 76

A transação penal é uma grande inovação no


ordenamento processual. Relativisa o "Princípio da Obrigatoriedade , criando a chamada
"Oportunidade ou Discricionariedade regrada ou regulada".
Tem inspiração num instituto Norte -
Americano denominado "Plea Bargaining", mas difere dele porque nos Estados Unidos o
Promotor pode dispor livremente da ação penal e no Brasil (Lei 9099/95) ele está atrelado a
uma série de condições.

OBS. - Antes de ofertar a transação o Ministério Público deve aferir se não é caso de
ARQUIVAMENTO.

EM QUE CONSISTE A TRANSAÇÃO?

É a proposta de aplicação imediata de pena


restritiva de direitos ou multa, de maneira a evitar o processo e não contar para
reincidência, apenas registrando-se para fins de não obtenção da medida no prazo de cinco
(5) anos. (Vide art. 76, §§ 4o. e 6o.)

OBSERVAÇÃO IMPORTANTE DE ORDEM PRÁTICA: Há uma grande deficiência no


controle desse registro de transações penais firmadas por autores em casos da Lei 9099/95.
O registro resume-se a cada comarca, não havendo um banco de dados nem sequer a nível
estadual, muito menos nacional.

Se a proposta é aceita é homologada pelo Juiz e


põe-se fim à discussão.
Se a proposta não é aceita, o Promotor oferece
a denúncia oral (art. 77).

QUESTÃO 1 - EM QUALQUER CASO PODE HAVER TRANSAÇÃO PENAL EM


INFRAÇÕES PENAIS ABRANGIDAS PELA LEI 9099/95?

Não. É necessário que esteja o caso concreto de


acordo com os requisitos do art. 76, § 2o., I, II e III.

QUESTÃO 2 - CABE RECURSO DA SENTENÇA HOMOLOGATÓRIA DA


TRANSAÇÃO?

Cabe apelação nos termos do art. 76, § 5o. c/c


art. 82 da Lei 9099/95.

QUESTÃO 3 - A COMPOSIÇÃO CIVIL DE DANOSHOMOLOGADA É TÍTULO


EXECUTIVO JUDICIAL. E A TRANSAÇÃO PENAL HOMOLOGADA?

Não é. Não importa reconhecimento de culpa e


nem tem efeitos civis, devendo ser intentada ação reparatória de danos no Juízo Cível (art.
76, § 6o.).
QUESTÃO 4 - TEMA POLÊMICO: A "PENA ACORDADA NA TRANSAÇÃO" É
PENA OU NÃO?

Existem controvérsias, mas a conclusão é de


que, embora não haja definição de culpa e seja aceita, constitui-se numa pena "sui generis".

QUESTÃO 5 - E SE O AUTOR DO FATO NÃO CUMPRE O ACORDO


TRANSACIONADO?

Discute-se se seria o caso de mera execução do


acordo ou de retomar o andamento do processo.

OBSERVAÇÃO IMPORTANTE: Absolutamente inadmissível em qualquer hipótese seria


a conversão em pena privativa de liberdade (seja da multa ou da pena restritiva de direitos,
mesmo em face do disposto no art. 43, § 4o., CP), porque tal proceder violaria o
contraditório, ampla defesa e devido processo legal que não podem ser minimizados
quando se trata de privação de liberdade. Os critérios mais elásticos nessa área previstos
pela Lei 9099/95, somente podem ser aplicados sem infração constitucional às penas
acordadas de multa ou restritivas de direitos, jamais privativas de liberdade, ainda que
indiretamente aplicadas.

Parece interessante dividir a questão em duas


situações:

a) Casos em que a pena acordada é apenas de multa :

O único caminho viável seria a sua execução


como dívida de valor nos termos do art. 51, CP ( Hoje pacífico que a execução fica a cargo
da Procuradoria do Estado).

Obs. A pena de multa, em nenhum caso pode ser convertida em prisão desde a nova
redação dada ao art. 51, CP que inclusive revogou o art. 85 da Lei 9099/95 que previa a
possibilidade de conversão da pena de multa em privativa de liberdade.

b) Casos de aplicação de penas restritivas de direitos:

Três soluções são apresentadas pela doutrina:

b.1 - Retomada do processo (Posição Predominante no STF)

Defende-se que a Lei 9099/95 pressupõe para a


devida aplicação de seus institutos o verdadeiro consenso entre as partes, o qual ficaria
totalmente prejudicado quando o autor do fato não cumpre sua parte do acordo, de modo
que tal proceder justificaria a retomada do processo em seus trâmites normais (Ver neste
sentido Luiz Paulo Sirvinskas - Boletim IBCCrim 62/13).

b.2 - Execução da pena restritiva de direitos

b.3 - Conversão da pena restritiva de direitos em privativa de liberdade por aplicação do art.
43, § 4o., CP.

A conclusão a que tem chegado finalmente a


melhor doutrina é de que nenhum desses caminhos é viável:

- Não poderia o processo ser retomado porque há uma lacuna legal, pois o legislador não
previu tal solução e sua adoção pelos operadores do direito se faria sem respaldo legal.

- A execução da pena restritiva de direitos seria difícil e também careceria de uma


regulamentação até mesmo quanto à legitimidade ativa para sua promoção.

- Como já visto a conversão em privativa de liberdade seria absolutamente inconstitucional


e fugiria dos objetivos da Lei 9099/95 que se restringe à aplicação consensuada de penas
não privativas de liberdade. A conversão afrontaria princípios constitucionais de forma
reflexa ou indireta (Devido Processo legal, contraditório e ampla defesa), cuja relativização
somente é admissível nos casos de aplicações acordadas de penas não privativas de
liberdade.

Portanto o caso de descumprimento da pena


restritiva de direitos acordada fica sem solução até que o legislador a apresente, sendo, em
nossa opinião a melhor solução, a previsão da possibilidade de retomada do processo.

QUESTÃO 6 - A TRANSAÇÃO PENAL É UM DIREITO DO AUTOR DO FATO OU


UMA FACULDADE DO MINISTÉRIO PÚBLICO?

A posição que vem se firmando é que é um


"Direito Público Subjetivo" do autor do fato, desde que satisfeitos os requisitos legais (art.
76, § 2o., I, II e III da Lei 9099/95).

O Ministério Público, para não propor a


transação tem de fundamentar sua manifestação, não podendo agir por capricho. (OBS. A
fundamentação das manifestações do Ministério Público tem sido defendida como
imprescindível por aplicação analógica do art. 93, IX, CF e por aplicação direta do art. 129,
VIII, CF e art. 43, III da Lei Orgânica do MP - Lei 8625/93.).

QUESTÃO 7 - MAS O QUE FAZER SE O MINISTÉRIO PÚBLICO NÃO OFERTA A


PROPOSTA SEM FUNDAMENTAÇÃO?
Preconizam-se duas soluções na doutrina e
jurisprudência:

a) Aplicação analógica do art. 28, CPP. (Súmula 696 – STF, de 24.09.03)

b) O Juiz poderia suprir a atuação do Ministério Público, formulando de ofício à proposta.

A solução que tem prevalecido na doutrina é a


da letra "b" supra, embora criticada, especialmente por setores do Ministério Público, como
uma flagrante usurpação de função institucional daquele órgão. Como já se viu, a
jurisprudência não tem seguido essa orientação doutrinária, havendo já súmula do STF
acerca da aplicação analógica do art. 28, CPP.

QUESTÃO 8 - COMO SE RESOLVE O CASO EM QUE O ADVOGADO E O AUTOR


DO FATO DISCORDAM QUANTO À ACEITAÇÃO OU NÃO DA PROPOSTA DE
TRANSAÇÃO PENAL?

Segundo Ada Pelegrini Grinover: " Se houver


conflito entre a vontade do autor do fato e de seu advogado, deve prevalecer a do primeiro,
desde que devidamente esclarecido das conseqüências da aceitação."

Note-se que a solução preconizada na doutrina


para este caso difere daquela normalmente defendida em situações de divergência entre
causídicos e clientes, prevalecendo o entendimento do advogado devido a seus
conhecimentos técnicos (Ex. em casos de interposição ou não de recursos). No caso da Lei
9099/95 a solução é diferente porque o que mais importa é a obtenção do consenso entre o
autor e a vítima, sendo tal condição absolutamente subjetiva, pessoal, de maneira que a
decisão final deve caber sempre ao autor do fato, desde que devidamente esclarecido sobre
todas as conseqüências de seu atuar.

QUESTÃO 9 - A SENTENÇA QUE HOMOLOGA A TRANSAÇÃO É APELÁVEL E


COMO FICA AQUELA QUE NEGA A HOMOLOGAÇÃO?

Essa decisão é interlocutória, pois não põe fim


ao processo. No entanto, não cabe Recurso em Sentido Estrito, seja por falta de previsão
desse recurso na Lei 9099/95, seja porque o rol do art. 581, CPP é taxativo.
Segundo Ada Pellegrini Grinover, pode caber
Mandado de Segurança ou "Habeas Corpus". (Obs. Em nossa opinião o mais correto seria o
"Habeas Corpus", seja por parte do MP em favor do autor do fato, seja por parte do
advogado).

3 - DENÚNCIA OU QUEIXA ORAIS


Não sendo possíveis a composição civil ou a
transação por falta de conciliação ou de condições legais, passa-se ao chamado
"Procedimento Sumaríssimo" da Lei 9099/95 (art. 77 a 83).
Nele a denúncia ou queixa são formuladas na
própria audiência e oralmente.

OBS.1 - No entanto, se o acusador vislumbrar necessidade de diligências imprescindíveis,


poderá requere-las. Também se o caso for complexo pode mandar para o Juízo Comum,
requisitar Inquérito Policial etc (art. 77, § 2o.) .

OBS. 2 - O § 2o. do art. 77 menciona a opção supra somente ao Ministério Público, mas,
logicamente, se o caso for de ação penal privada também caberá essa escolha ao querelante.

OBS. 3 - A denúncia ou queixa é elaborada com base no Termo Circunstanciado e não


precisa de laudo de exame de corpo de delito, bastando o "Boletim Médico". No entanto, o
laudo não é definitivamente dispensável, devendo ser providenciado posteriormente para
que a materialidade se tenha por comprovada (Obs. Situação semelhante ao caso da Lei de
Tóxicos quanto ao chamado auto de constatação provisório).

4- SUSPENSÃO CONDICIONAL DO PROCESSO (ART. 89 da Lei 9099/95).

A Suspensão Condicional do Processo ou o


chamado "Sursis Processual" consiste na possibilidade de o Ministério Público, dentro de
certas condições, ofertar ao acusado a oportunidade de ter o processo suspenso por dois a
quatro anos e após este período de prova, ter extinta sua punibilidade desde que cumpridas
as obrigações impostas.

QUESTÃO 1 - EM QUE DIFERE A SUSPENSÃO CONDICIONAL DO PROCESSO


DO SURSIS PREVISTO NO CÓDIGO PENAL (ART. 77, CP)?

Na Suspensão Condicional do Processo o


acusado não vai discutir em juízo sua responsabilidade penal. Findo o período de prova, ele
tem extinta sua punibilidade, sem constar qualquer antecedente criminal. Por isso a
denominação dada pela doutrina de "Sursis Processual", pois o que fica suspenso é o
"processo".
No Sursis ou Suspensão Condicional da Pena,
tratado no Código Penal (art.77, CP), suspende-se a execução de uma pena imposta a um
condenado. Após o período de prova ele também obtém a extinção de sua punibilidade, mas
não deixa de contar com uma condenação.

QUESTÃO 2 - EM DIFERE A SUSPENSÃO CONDICIONAL DO PROCESSO


BRASILEIRA DA PROBATION ANGLO SAXÔNICA?
É que na "Probation" o acusado admite a culpa
e juiz o sentencia, apenas deixando de haver o processo para comprovar sua culpabilidade e
aplicando-se a suspensão da "sentença condenatória".
Na Suspensão Condicional do Processo
Brasileira não há admissão de culpa, nem sentença condenatória. Ela é mais aproximada do
chamado "nolo contendere".

QUESTÃO 3 - EM QUE INFRAÇÕES PENAIS CABE A SUSPENSÃO CONDICIONAL


DO PROCESSO?

Ela é cabível em relação às infrações com pena


mínima cominada igual ou inferior a um ano. Abrange, portanto, todos as infrações
consideradas de menor potencial e até mesmo aquelas denominadas pela doutrina como de
"médio potencial ofensivo". Além disso, não há o requisito de que sejam infrações de
processo comum, podendo abranger os crimes de processo especial (Ex. Lei 6368/76, Lei
4898/65 etc.).

Obs. Ver também os casos de “multa alternativa” (dicção legal: “ou multa”), ainda que seja
prevista pena mínima maior do que 1 ano. Nesses casos tem a doutrina dominante (Ver Ada
Pelegrini, Antonio Magalhães Gomes Filho, Antonio Scarance Fernandes e Luiz Flávio
Gomes – Juizados Especiais Criminais; e Gabriel Bertin de Almeida – Artigo: O cabimento
da suspensão condicional do processo nos casos em que a pena de multa é alternativa à
privação da liberdade – Boletim IBCCrim 183, fev., 2008, p. 11 – 12) e a jurisprudência
apontado para a possibilidade também da suspensão condicional do processo (ver decisão
importante unânime do STF: HC 83.923-6, 2ª. Turma, rel. Min. Cezar Peluso, j. 07.08.07).

QUESTÃO 4 - QUAL O MOMENTO DE OFERECIMENTO PELO MINISTÉRIO


PÚBLICO DA PROPOSTA DE SUSPENSÃO CONDICIONAL DO PROCESSO?

É o momento da denúncia . Diz o art. 89 que o


Ministério Público "ao oferecer a denúncia, poderá propor a suspensão do processo por dois
a quatro anos".
Há entendimento, porém, de que o Promotor
poderia ofertar a denúncia e solicitar informações necessárias a formar sua convicção
quanto ao direito do acusado de ter o processo suspenso, podendo ofertar sua proposta
oportunamente, sempre que não tiver tais informes completos no momento de formulação
da denúncia. O mais correto, porém, parece ser o requerimento das diligências necessárias
à ampla elucidação do Promotor e após a devida deliberação sobre a formulação da
denúncia e oferta ou não da proposta.
QUESTÃO 5 - O TEXTO DO ART. 89 DIZ QUE O PROMOTOR "PODERÁ" FAZER A
PROPOSTA. ELE PODE DEIXAR DE FAZER A PROPOSTA
DISCRICIONARIAMENTE?

Embora haja entendimentos de que sim, a


melhor orientação é a de que, satisfeitos os requisitos legais a proposta torna-se um "Direito
Público Subjetivo" do Acusado, "devendo" ser formulada, sob pena de sua correção
mediante "Habeas Corpus".
Aqui surge o mesmo problema quanto à
legitimidade do Juiz em ofertar a proposta na inércia do Ministério Público. Prevalece, na
doutrina, o entendimento de que o Juiz deve fazer a proposta nestes casos.Entretanto, na
Jurisprudência o tema é sumulado, apontando para a aplicação analógica do art. 28, CPP
(vide Súmula 696, STF, de 24.09.03).

QUESTÃO 6 - QUAIS SÃO OS REQUISITOS PARA A SUSPENSÃO CONDICIONAL


DO PROCESSO?

a) Não estar sendo processado por outro crime;


b) Não ter sido condenado por outro crime;
c) Requisitos do art. 77, CP.

Obs. 1 - Condenação anterior a pena de multa não impede a concessão da suspensão do


processo, tal qual ocorre com o sursis penal (art. 77, § 1o. , CP).

Obs. 2 - Se a lei fala em condenação anterior por "crime", a condenação anterior por
contravenção não impede o benefício.

Obs. 3 - A lei fala em "crime", não distinguindo o doloso do culposo, de modo que a
condenação por ambos impede o benefício. Nisso difere frontalmente do sursis penal que
somente considera impedido o condenado reincidente em crime doloso.

Obs. 4 - Seria de perguntar se uma condenação muito antiga impediria o benefício, já que a
lei não fala em tempo. Entende-se (Ada Pelegrini Grinover) que se deve levar em conta o
disposto no art. 64, I, CP, desconsiderando-se condenações há mais de cinco anos.

Obs. 5 - O requisito de não estar sendo processado por outro crime, segundo alguns autores
seria infringente do Princípio Constitucional da Presunção de inocência.

QUESTÃO 7 - ACEITA A PROPOSTA, O QUE FAZ O JUIZ?

Recebe a denúncia e submete o acusado ao


período de prova, mediante certas condições (vide art. 89, § 1o., I a IV e § 2o.).

Obs. 1 - A lei diz que o juiz "poderá" suspender o processo. É claro que se entender e
fundamentar que não é caso de suspensão, ela poderá não suspender. Mas, se o caso
obedecer estritamente os requisitos legais ele "deverá" suspender o processo, pois nasce um
"Direito Público Subjetivo do Réu". Não obstante, há entendimento de que a suspensão seja
uma faculdade do Juiz.

Obs. 2 - Recursos cabíveis:

- Se o juiz indefere a suspensão - "Habeas Corpus".

- Se o juiz defere a suspensão - Apelação, por ser decisão com força de definitiva (art. 593,
II, CP aplicado subsidiariamente, nos termos do art. 92 da Lei 9099/95).

Obs. 3 - Casos de Revogação:

- Revogação Obrigatória - art. 89, § 3o.


- Revogação Facultativa - art. 89, § 4o.

Observe-se que nestes casos parte da doutrina também defende ser inconstitucional, por
violação do Princípio da Presunção de Inocência, os casos de revogação devido ao
transcorrer de outro processo por crime (obrigatória) ou contravenção (facultativa).

Obs. 4 - Suspende-se também o prazo prescricional durante a suspensão do processo (ver


art. 89, § 6o.).
Obs. 5 - Se o prazo de suspensão (período de prova) transcorrer sem revogação a
conseqüência é a extinção da punibilidade (art. 89, § 5o.).

QUESTÃO 8 - O QUE OCORRE SE O ACUSADO NÃO ACEITA A PROPOSTA?

O processo segue em seus ulteriores termos


(art.89, § 7o.).

Obs. 1 - Em caso de conflito entre a vontade do acusado e a do defensor, deve prevalecer a


do primeiro.

QUESTÃO 9 - PODE O QUERELANTE OFERECER A PROPOSTA DE SUSPENSÃO


DO PROCESSO NA AÇÃO PENAL PRIVADA?

Embora a lei não mencione o querelante, mas


apenas o Ministério Público, o entendimento dominante é de que poderá também o
querelante ofertar a proposta na ação penal privada. (Ver posição em contrário da
Procuradoria Geral da Justiça/SP de 27.06.01).

TEMAS COMPLEMENTARES
1 - REPRESENTAÇÃO NOS CRIMES DE LESÕES CORPORAIS CULPOSAS E
LESÕES CORPORAIS LEVES (ART. 88). VER O CASO DA VIOLÊNCIA
DOMÉSTICA OU FAMILIAR CONTRA A MULHER (NESTE CASO NÃO SE
APLICAM OS DISPOSITIVOS DA LEI 9099/95 – VER A QUESTÃO DA AÇÃO
PENAL NOS CASOS DE LESÕES LEVES NESSAS CIRCUNSTÂNCIAS).

2 - PROCEDIMENTO SUMARÍSSIMO (ARTS. 77 A 83) - ALGUMAS INOVAÇÕES


COM RELAÇÃO AOS PROCEDIMENTOS TRADICIONAIS.

- ART. 78 - CITAÇÃO NA AUDIÊNCIA COM CÓPIA DA DENÚNCIA OU QUEIXA E


DESIGNAÇÃO DE DIA E HORA DA AUDIÊNCIA COM NOTIFICAÇÃO IMEDIATA
DAS PARTES.

- ART. 79 - POSSIBILIDADE DE TENTATIVA DE COMPOSIÇÃO E TRANSAÇÃO


NO INÍCIO DA AUDIÊNCIA DE INSTRUÇÃO.

- ART. 81 - ANTES DE RECEBER A DENÚNCIA HÁ UMA DEFESA PRÉVIA DO


ADVOGADO, VISANDO SEU NÃO RECEBIMENTO. DEPOIS, DESDE QUE
RECEBIDA, SÃO OUVIDAS A VÍTIMA, TESTEMUNHAS DE ACUSAÇÃO E
DEFESA E SOMENTE DEPOIS É INTERROGADO O RÉU (DIFERENTE DO
PROCESSO TRADICIONAL EM QUE O PRIMEIRO ATO É O INTERROGATÓRIO
DO RÉU).

- ART. 82 - CABE APELAÇÃO DA DECISÃO QUE REJEITA A DENÚNCIA OU


QUEIXA. DIFERE DO PROCESSO TRADICIONAL EM QUE NESTES CASOS É
PREVISTO O RECURSO EM SENTIDO ESTRITO (ART. 581, I, CPP).
JULGAMENTO DOS RECURSOS POR
TURMAS DE TRÊS JUÍZES DO 1O. GRAU DE JURISDIÇÃO (TURMAS
RECURSAIS).
A APELAÇÃO DEVE SER POR PETIÇÃO
ESCRITA, JÁ COM AS RAZÕES. DIFERENTE DO PROCEDIMENTO
TRADICIONAL, EM QUE SE PODE INTERPOR A APELAÇÃO E DEPOIS
APRESENTAR AS RAZÕES EM SEPARADO (CINCO DIAS PARA APELAR E OITO
PARA OFERECER AS RAZÕES - CPP, ARTS. 593 "CAPUT" 600).

- ART. 83, § 2O. - OS EMBARGOS DE DECLARAÇÃO SUSPENDEM E NÃO


INTERROMPEM OS PRAZOS PARA OUTROS RECURSOS. NO PROCEDIMENTO
TRADICIONAL A PRAXE É A APLICAÇÃO DO SISTEMA DO CPC, COM A
INTERRUPÇÃO DOS PRAZOS PARA OUTROS RECURSOS, MAIS RESPEITOSA DO
"PRINCÍPIO DA INTEGRALIDADE DOS PRAZOS".

3 - A APLICAÇÃO DOS ARTS. 90 E 91 DA LEI 9099/95 - NORMAS DE TRANSIÇÃO.

4 - APLICAÇÃO DAS NORMAS DA LEI 9099/95 À LEI AMBIENTAL - VER ARTS.


27 E 28 DA LEI 9605/95.
5 - APLICAÇÃO DA LEI 9099/95 AO CTB - CRIMES QUE SÃO DE MENOR
POTENCIAL E OUTROS, EMBORA NÃO ASSIM CONSIDERADOS, MAS QUE
PERMITEM APLICAÇÃO DOS INSTITUTOS DA LEI 9099/95 - ART. 291,
PARÁGRAFO ÚNICO, CTB. (VER PROBLEMA QUANTO AO RACHA E
EMBRIAGUEZ E O ART. 88 DA LEI 9099/95, SOMENTE APLICÁVEL À LESÃO
CULPOSA NO TRÂNSITO).

6 – ARTIGO 69, § ÚNICO, “IN FINE” – MEDIDA CAUTELAR DE AFASTAMENTO


DO LAR – ACRESCENTADA PELA LEI 10.455/02.

7- RECURSOS NO JECRIM:

-APELAÇÃO

-EMBARGOS DE DECLARAÇÃO

-HABEAS CORPUS

-MANDADO DE SEGURANÇA

Obs1. HC contra decisão de Turma Recursal era julgado diretamente pelo STF, inclusive
conforme Súmula 690 STF. No entanto, esse entendimento já foi revisto pelo próprio STF,
conforme Informativos 437 e 438 STF e agora a competência é reconhecida como sendo
dos Tribunais de Justiça respectivos.
.
Obs. 2 – Recursos Extraordinário e Especial – Não cabe Recurso Especial no JECrim
(STJ, art. 105, III, CF). Cabe Recurso Extraordinário no Jecrim (STF, art. 102, III, CF).

Obs. 3 – Recurso Ordinário (art. 102, II, “a” e “b”, CF – STF) e (art. 105, II, “a”, “b” e “c”
– STJ) – não cabe no Jecrim.