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Representações da África e dos africanos nos séculos XIX e XX

A evolução no campo do marxismo

Mestranda: Maria Cristina Portella Ribeiro – nº 38935


Docente: Isabel Castro Henriques
Mestrado em História de África
Seminário: História de África: sociedades e relações civilizacionais
2008-2009 – 2º Semestre

Introdução
Esta brevíssima investigação responde a uma curiosidade intelectual e também a uma
necessidade imposta pela tese de Mestrado que me proponho a escrever. Como uma das
correntes mais dinâmicas do século XIX, o marxismo influenciou (e influencia) o modo
de pensar de amplos sectores da intelectualidade, das classes médias e, como o seu alvo
natural, da classe trabalhadora. Desta forma, o que pensava o marxismo sobre a África e
os africanos?
Neste trabalho, proponho-me a expor algumas pistas sobre o tema, procurando limitá-lo
ao período cronológico da minha investigação de mestrado, isto é, entre a segunda
metade do século XIX, quando surge o marxismo como pensamento estruturado, até ao
período imediatamente posterior à I Grande Guerra. Evidentemente, as breves citações a
Friedrich Hegel e a um dos seus discípulos, Saint Max, não obedeceram a esta
demarcação temporal, mas justificam-se pelo facto de a filosofia clássica alemã ser uma
das bases (“fontes”, nas palavras de Lenine1) do marxismo.

A visão de Hegel sobre a África


Esta é uma questão bastante polémica, especialmente pela complexidade do trabalho
teórico de um dos mais importantes filósofos alemães do século XIX, Friedrich Hegel.
Até a volumosa obra de Karl Marx e Friedrich Engels sobre a sua Philosophie der
Geschichte (Filosofia da História) e a interpretação dada a esta pelos seus (de Hegel)

1
LENINE, V.I.. As três fontes e as três partes constitutivas do marxismo,
http://www.marxists.org/portugues/lenin/1913/03/tresfont.htm. Acesso em: 28.06.2009.

1
discípulos, intitulada A Ideologia Alemã, é criticada como parcial.2 Na verdade, há
quatro versões da Filosofia da História de Hegel, cada uma delas baseando-se em
palestras dadas pelo filósofo entre 1822 e 1831 e nas transcrições feitas por seus alunos.
É numa dessas versões (que não me propus a identificar por ser tarefa que superaria em
muito o âmbito deste trabalho) que Marx e Engels basearam a sua obra.
Em A Ideologia Alemã, escrita entre 1845 e 1846, os seus autores apontam a forma
como Hegel (1770-1831) e um de seus discípulos, Max Stirner (1806-1856), também
chamado Saint Max, avaliam a capacidade – neste caso a incapacidade – de os “negros”
acederem às ideias abstractas. No capítulo III, do volume I, “The Leipzig Council: Saint
Max”, no item “A. The Spirit (Pure History of Spirits)” do subcapítulo denominado
“The Moderns”. Marx e Engels escrevem:
“O estado [no sentido de “condição”] negróide é concebido como sendo o da ‘criança’
porque, diz Hegel na página 89 da sua Philosophie der Geschichte (Filosofia da
História): ‘A África é o país da infância da história’. ‘Para determinar o espírito
africano (negro), somos obrigados a renunciar completamente à categoria de
universalidade’ (p.90) – ou seja, apesar de a criança ou o negro terem ideias, eles ainda
não têm “a” ideia. ‘Entre os negros, a consciência ainda não atingiu a noção de uma
objectividade sólida, por exemplo Deus, a lei, em que o homem teria a percepção de
sua essência’ (...) ‘a partir do qual resulta que o conhecimento de um ser absoluto está
totalmente ausente. O negro representa o homem natural em toda a sua falta de
repressão’ (p.90). ‘Embora eles estejam conscientes da sua dependência em relação aos
factores naturais’ (às coisas, como diz Stirner), ‘isto, porém, não os conduz à
consciência de um ser superior’ (p.91). Nós encontramos aqui todas as determinações
de Stirner sobre a criança e o negro – dependência das coisas, independência das ideias
e, especialmente, de “a ideia”, “a essência”, “o absoluto” (sagrado), “existência”, etc.”3
De acordo com o historiador senegalês Amady-Aly Dieng, não existiria apenas uma,
mas várias concepções “hegelianas” da África, tendo o filósofo alemão evoluído em sua
análise, chegando a renunciar, a partir de 1927, quando teve acesso a novas fontes, à sua
definição do estado africano como “natural”, no sentido de não-histórico4.

Marx e Engels: a quase-inexistência de África


2
Segundo Amady-Aly Dieng, em seu livro Hegel et l’Afrique noire, « Marx e Engels n’ont pas fait une
critique systématique des idées de Hegel sur l’Afrique noire » (p.17).
3
MARX, Karl, e ENGELS, Friedrich. The German Ideology,
http://www.marxists.org/archive/marx/works/1845/german-ideology/ch03b.htm. Acesso em: 28.06.2009.
4
DIENG, Amady-Aly. Op. cit., p. 80.

2
A maior parte da obra teórica e política – a construção da Associação Internacional dos
Trabalhadores (conhecida posteriormente como I Internacional), em 1864 – de Karl
Marx e Friedrich Engels concentrou-se na Europa, no acompanhamento das lutas
sociais que tiveram como palco os países deste continente e no estudo rigoroso do
desenvolvimento do capitalismo, especialmente na Inglaterra. A África e os africanos –
e, de certa maneira, a Ásia e as Américas – estiveram praticamente ausentes do seu
esforço teórico e militante.
Alguns marxistas, como Paul Lafargue, socialista francês e genro de Marx, teriam
difundido uma visão no mínimo redutora sobre os povos de África e, de certa maneira,
justificado a colonização. Em A Origem das Ideias Abstractas. Inquéritos sobre a
origem da ideia de Justiça e da ideia de Deus, publicada originalmente em alemão em
1898, Lafargue reproduz a ideia corrente naquele período sobre os negros e o papel
civilizador do homem branco:
“Os selvagens e bárbaros são capazes de um número muito maior de operações
intelectuais do que realizam em sua vida diária. Durante centenas de anos, os europeus
transportaram da costa de África para as colónias milhares de selvagens e bárbaros
negros, removidos por homens civilizados por séculos de cultura. No entanto, no final
de um prazo muito curto, eles assimilam os ofícios da civilização. (...) É igualmente
certo que o selvagem é tão estranho aos conceitos abstractos do homem civilizado
quanto às suas artes e ofícios, o que é comprovado pela ausência em sua língua de
termos para ideias gerais.”5
Mas Marx e Engels não escreveram nada tão redutor. A visão bastante disseminada do
pensamento de ambos sobre a África e os africanos pode ser resumida, por oposição, na
concepção marxista da “missão civilizadora” do capital, o que faria supor que a sua
entrada naquele continente seria naturalmente benéfica para os povos que aí viviam.
Seja como for, este estudo mereceria um trabalho exaustivo, que também fugiria ao
âmbito desta modesta investigação.
Mas, vejamos em pequenos exemplos, a forma como a África e os africanos aparecem
em documentos que tiveram a participação desses pensadores. Um dos mais simbólicos
seria a carta dirigida ao presidente dos Estados Unidos da América Abraham Lincoln
pela Associação Internacional dos Trabalhadores, escrita por Marx, datada de 30 de

5
LAFARGUE, Paul. The Origin of Abstract Ideas. Inquiries Into the Origin of the Idea of Justice
and the idea of Goodness, http://www.marxists.org/archive/lafargue/1898/xx/abstract.htm.
Acesso em: 28.06.2009.

3
Dezembro de 1864. Nesta carta, assinada pelo conselho central desta associação, do
qual fazem parte Marx e Engels, a Associação Internacional dos Trabalhadores
cumprimenta Lincoln pela sua reeleição e deixa claro porque o faz, o seu apoio à sua
luta contra a escravidão:
“Se a resistência ao poder dos escravocratas foi a palavra de ordem moderada de vossa
primeira eleição, o grito de guerra triunfal de vossa reeleição é: morte à escravidão! (...)
Os operários da Europa estão convencidos de que, se a guerra de independência
americana inaugurou a nova era de ascensão das classes burguesas, a guerra anti-
escravagista americana abriria uma nova época de ascensão das classes trabalhadoras.
Eles consideram como o anúncio da nova era que o destino tenha nomeado Abraham
Lincoln, o enérgico e corajoso filho da classe trabalhadora, para conduzir o seu país na
incomparável luta pela igualdade de uma raça aprisionada e pela reconstrução de um
mundo social.”6

Delegação portuguesa na I Internacional


No relatório da delegação de trabalhadores portugueses ao Congresso de Haia, realizado
de 2 a 7 de Setembro de 1872, a África aparece na denúncia do parasitismo da burguesia
portuguesa, apoiada no tráfico de escravos e na “cultura do negro”. O Congresso de
Haia foi o quinto da Associação Internacional dos Trabalhadores.
“A indústria manufactureira demonstra a incapacidade do capital e a ignorância e
estupidez do seu proprietário. Nestes ramos da indústria, como em outros, a exploração
pesa principalmente sobre os trabalhadores. O industrial português não pode explorar
por si o material, ele é o tipo perfeito do parasita. A exploração que a classe dominante
exerce hoje em dia é a mesma que ela sempre praticou. Sabe-se o que ela fez na África e
na América enquanto classe conquistadora. Hoje, a fonte da fortuna das grandes
famílias continua a ser o comércio de escravos. A única indústria na qual eles foram
mestres no passado foi a cultura do negro. Muitos comerciantes portugueses têm
propriedades (roças) no Brasil com centenas de escravos. A indústria continua a ostentar
os costumes do comerciante de escravos.”7
6
A Abraham Lincoln, président des États-Unis d'Amérique. Association Internationale des Travailleurs.
Der Social-Demokrat, 30 décembre 1864.
http://www.marxists.org/francais/ait/1864/12/km18641230.htm. Acesso em: 28.06.2009.
7
Report of the Portuguese Federal Council. The Portuguese Workers to the Delegates of the
World Congress at The Hague.The International Workingmen's Association, 1872.
http://www.marxists.org/history/international/iwma/documents/1872/hague-documents/doc5j.htm.
Acesso em: 28.06.2009.

4
O primeiro a assinar o relatório, datado de 15 de Agosto de 1872, em nome do
Concelho Federal de Lisboa, foi o seu secretário, J.C. Nobre-França.

Carta de Engels: o direito das nações à autodeterminação


Em carta a Karl Kautsky, datada de 12 de Setembro de 1882, Friedrich Engels sintetiza
o apoio do proletariado inglês aos projectos colonizadores de seus governantes. Neste
documento, um dos raros a debruçar-se sobre o tema do colonialismo, ele faz uma
diferenciação entre colónias – que considera os territórios ocupados por população
europeia, como o Canadá, o Cabo e a Austrália – e países habitados por uma população
nativa, que são considerados subjugados – como a Índia, Argélia, as possessões
holandesas, portuguesas e espanholas.
“Perguntou-me o que os trabalhadores ingleses pensam sobre a política colonial. Bem,
exactamente o mesmo que pensam sobre política em geral: o mesmo que a burguesia
pensa. Não existem partidos dos trabalhadores aqui, apenas Conservadores e Liberal-
radicais, e os trabalhadores compartilham alegremente o festim do monopólio inglês
sobre o mercado mundial e as suas colónias. Na minha opinião, as colónias
propriamente ditas, ou seja, os países ocupados por uma população europeia, o Canadá,
o Cabo, a Austrália, vão todos tornar-se independentes; por outro lado, os países
habitados por uma população nativa, que são simplesmente subjugados, Índia, Argélia,
as possessões holandesas, portuguesas e espanholas, devem ser assumidas por enquanto
pelo proletariado e conduzidas o mais rapidamente possível para a independência.
Como esse processo vai desenvolver-se é difícil de dizer. (...)”8

De objecto a sujeito
Na Internacional Comunista, conhecida posteriormente como Terceira Internacional,
fundada pelo revolucionário russo Vladimir Ilitch Lenine e demais sociais-democratas
adeptos dos bolcheviques em vários países, no seu 1º Congresso, a 2 de Março de 1919,
a África era nomeada. O “Manifesto da Internacional Comunista aos proletários do
mundo inteiro!”, aprovado neste congresso, afirmava: “Escravos coloniais da África e
Ásia: a hora da ditadura do proletariado na Europa soará para vós como a hora da vossa
libertação”.9

8
Marx-Engels Correspondence 1882. Engels to Karl Kautskt in Vienna.
http://www.marxists.org/archive/marx/works/1882/letters/82_09_12.htm. Acesso em 28.06.2009.
9
I° Congrès de l'I.C. Manifeste de l'Internationale Communiste aux prolétaires du monde entier! Mars
1919. http://www.marxists.org/francais/inter_com/1919/ic1_19190300h.htm. Acesso em 28.06.2009.

5
Mais uma vez, a libertação do jugo colonial, tanto na África como na Ásia, viria de fora,
da Europa, tendo como protagonista a classe operária.
A grande alteração na forma de ver a questão colonial, com a África aí incluída, aparece
no 2º Congresso da Internacional Comunista, realizado em Julho de 1920. As “Teses e
adições sobre as questões nacionais e coloniais”, aprovadas neste congresso, incluem a
elaboração, já adoptada pela ala bolchevique do Partido Social-Democrata Russo antes
da revolução de Outubro de 1917 e bastante desenvolvida por Lenine no livro
Imperialismo, Estágio Superior do Capitalismo, de que a manutenção das colónias em
Ásia e África por parte das potências europeias era um elemento central na dominação
capitalista mundial, nomeadamente através da principal potência capitalista de então, a
Grã-Bretanha. De que forma? Seja pela obtenção de altas taxas de lucro, seja pela
consequente possibilidade de neutralizar o potencial revolucionário das classes
trabalhadoras metropolitanas através de concessões económicas, sociais e políticas a um
sector destas, a denominada aristocracia operária. Estas ideias estavam explícitas em
várias passagens, entre as quais:
“É pela escravidão de centenas de milhões de habitantes da Ásia e da África que o
imperialismo inglês conseguiu manter até o presente o proletariado britânico sob a
dominação burguesa. A mais-valia obtida pela exploração das colónias é um dos apoios
do capitalismo moderno. Quanto mais tempo demorar a supressão desta fonte de lucro,
mais será difícil à classe operária vencer o capitalismo. Graças à possibilidade de
explorar intensamente a mão-de-obra e as fontes naturais de matérias-primas das
colónias, as nações capitalistas da Europa procuraram, não sem sucesso, evitar por seus
meios a bancarrota iminente. O imperialismo europeu teve êxito nos seus próprios
países em fazer concessões sempre maiores à aristocracia operária. Ao mesmo tempo
em que procurava manter as condições de vida nos países dominados num nível muito
baixo, não recuava diante de nenhum sacrifício e consentia em sacrificar a mais-valia
nos seus próprios países, do que as restantes colónias.”10
Mas o mais original neste texto vem a seguir, quando, pela primeira vez num
documento oficial da esquerda comunista, os povos coloniais aparecem, além de
vítimas, também como sujeitos da sua própria libertação do jugo colonial e, por
consequência, da derrubada do próprio capitalismo, ao lado do proletariado europeu. A
revolução proletária e a revolução colonial aparecem juntas pela primeira vez:

10
Thèses et additions sur les questions nationales et coloniales. II° Congrès de l'I.C. Juillet.
1920.http://www.marxists.org/francais/inter_com/1920/ic2_19200700f.htm. Acesso em : 28.06.2009.

6
“A supressão pela revolução proletária do poder colonial da Europa derrubará o
capitalismo europeu. A revolução proletária e a revolução das colónias devem
concorrer, numa certa medida, para a saída vitoriosa da luta. A Internacional Comunista
deve, portanto, alargar o círculo de sua actividade. Ela deve estabelecer relações com as
forças revolucionárias que estão a trabalhar pela destruição do imperialismo nos países
economicamente e politicamente dominados.”11
Mas há mais. Pela primeira vez também num documento aprovado em instâncias
superiores do movimento comunista é apresentada uma crítica duríssima a este próprio
movimento, neste caso a sua predecessora, a Segunda Internacional, e ao seu
eurocentrismo:
“A Segunda Internacional, dirigida por um grupo de políticos e contaminada por
concepções burguesas, não deu nenhuma importância à questão colonial. O mundo só
existia para eles dentro dos limites da Europa. Ela não viu a necessidade de ligar-se ao
movimento revolucionário dos outros continentes. Em lugar de prestar ajuda material e
moral ao movimento revolucionário das colónias, os membros da Segunda Internacional
tornaram-se eles próprios imperialistas.” 12
Para corrigir este comportamento, neste mesmo texto surge uma breve caracterização do
movimento de reacção colonial e a proposta de a Internacional Comunista intervir
nestes países através da formação de partidos comunistas. O movimento colonial, aos
olhos da esquerda comunista, não mais dependeria exclusivamente dos operários das
metrópoles, mas somar-se-ia a estes para lutar pela independência e pelo
estabelecimento do socialismo nos seus próprios países:
“Existem nos países oprimidos dois movimentos que, a cada dia, se separam mais: o
primeiro é o movimento burguês democrático nacionalista que tem um programa de
independência política e de ordem burguesa; o outro é o dos camponeses e
trabalhadores ignorantes e pobres por sua emancipação de toda espécie de exploração.
O primeiro tenta dirigir o segundo e, numa certa medida, é frequentemente bem-
sucedido. Mas a Internacional Comunista e os partidos aderentes devem combater esta
tendência e procurar desenvolver os sentimentos de classe independente nas massas
operárias das colónias. Uma das maiores tarefas para este fim é a formação de partidos
comunistas que organizem os trabalhadores e os camponeses e os conduzam à revolução
e ao estabelecimento da República soviética.”13
11
Idem.
12
Ibidem.
13
Ibidem.

7
Em 1922, no último congresso da Internacional Comunista antes da vitória de Estaline,
com Lenine doente, são apresentadas as “Teses sobre a questão negra”. Pela primeira
vez, o tema da “raça” seria discutido no movimento socialista internacional.
“A penetração e a colonização intensa de regiões habitadas por raças negras coloca o
último grande problema do qual depende o desenvolvimento futuro do capitalismo. O
capitalismo francês admite claramente que o seu imperialismo, após a guerra, só poderá
manter-se com a criação de um império franco-africano, ligado por via terrestre
transariana. Os maníacos financeiros da América, que lá exploram 12 milhões de
negros, empenham-se, agora, a penetrar pacificamente em África. (...) A Internacional
Comunista, que representa os trabalhadores e camponeses revolucionários do mundo
inteiro na sua luta para derrubar o imperialismo, a Internacional Comunista que não é
somente a organização dos trabalhadores brancos da Europa e da América, mais
também dos povos de cor oprimidos do mundo inteiro, considera que é de seu dever
encorajar e ajudar a organização internacional do povo negro em sua luta contra o
inimigo comum. O problema negro tornou-se uma questão vital da revolução mundial.
A Terceira Internacional, que reconheceu as importantes contribuições que podem ser
dadas à revolução proletária pelas populações asiáticas dos países semi-capitalistas,
encara a cooperação dos nossos camaradas negros oprimidos como essencial para a
revolução proletária que destruirá o poder capitalista. É por isso que o 4º Congresso
declara que todos os comunistas devem especialmente aplicar ao problema negro as
‘teses sobre a questão colonial’. 6. a) O 4º Congresso reconhece a necessidade de apoiar
qualquer forma de movimento negro que vise minar e enfraquecer o capitalismo ou o
imperialismo, ou de barrar a sua penetração; b) A Internacional Comunista lutará por
assegurar aos negros a igualdade de raça, a igualdade política e social.”14
Por fim, na sua última conclusão, as “Teses” propunham que a Internacional Comunista
preparasse um congresso ou conferência geral de negros em Moscovo.

Conclusão
Esta breve relação de textos permite-nos entrever um terreno bastante mais complexo
do que o usualmente apresentado sobre as relações entre a África e os marxistas.

14
Thèses sur la question nègre. IV° Congrès Internationale Communiste.
http://www.marxists.org/francais/inter_com/1922/ic4_11.htm. Acesso em : 28.06.2009.

8
Há, evidentemente, uma crítica explícita dos caminhos até então trilhados por uma das
mais importantes organizações que se reivindicavam marxistas na passagem do século
XIX para o século XX, a II Internacional. Mas esta crítica insere-se no campo mesmo
do marxismo: propõe uma explicação materialista para o eurocentrismo e a adesão dos
seus membros aos projectos colonizadores dos respectivos governos imperialistas
europeus.
Seja como for, de Hegel a Lenine, o capitalismo sofre mutações, assim como a situação
africana e a luta no terreno dos povos africanos contra os colonizadores. Vimos como a
África e os africanos passaram de objectos a sujeitos no pensamento marxista. A partir
de quando, e de que forma, o marxismo passou a ser um sujeito em África? São, ambos,
fascinantes temas de investigação.

Bibliografia:

COQUERY-VIDROVITCH. Catherine e MONIOT, Henri, L’Afrique Noire de 1800 à


nos jours, Paris, PUF, 1974.

DIENG, Amady-Aly. Hegel et l’Afrique noire. Hegel était-il raciste?, Dakar,


CODESRIA, 2006.

HENRIQUES, Isabel Castro. Os pilares da diferença: relações Portugal-África: século


XV-XX, Casal de Cambra, Caleidoscópio, 2004.

LAFARGUE, Paul. The Origin of Abstract Ideas. Inquiries Into the Origin of the Idea
of Justice and the idea of Goodness, Lafargue Internet Archive (marxists.org), 2000,
http://www.marxists.org/archive/lafargue/1898/xx/abstract.htm.

MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. The German Ideology, Marx & Engels Internet
Archive (MIA), http://www.marxists.org/archive/marx/works/1845/german-
ideology/ch03b.htm.

M’BOKOLO, Elikia. África Negra. História e Civilizações. Do século XIX aos nossos
dias. Tomo II, Lisboa, Edições Colibri, 2007.

Fontes:

Report of the Portuguese Federal Council.The Portuguese Workers to the Delegates of


the World Congress at The Hague, The International Workingmen’s
Association, 1872,
http://www.marxists.org/history/international/iwma/documents/1872/hague-
documents/doc5j.htm

9
Lettre à A. Lincoln de l’Association Internationale des Travailleurs, Iº
Internationale, Décembre 1864,
http://www.marxists.org/francais/ait/1864/12/km18641230.htm

Engels to Karl Kautsky in Vienna, Marx-Engels Correspondence 1882, Marx and Engels
Internet Archive,
http://www.marxists.org/archive/marx/works/1882/letters/82_09_12.htm

Manifeste de l'Internationale Communiste aux prolétaires du monde entier!, Iº Congrès


de l’I.C., Mars 1919, Marx & Engels Internet Archive (MIA),
http://www.marxists.org/francais/inter_com/1919/ic1_19190300h.htm

Thèses et additions sur les questions nationales et coloniales, II° Congrès de l'I.C.,
Juillet 1920, Marx & Engels Internet Archive (MIA),
http://www.marxists.org/francais/inter_com/1920/ic2_19200700f.htm

Thèses sur la question nègre, IVº Congrès de l’Internationale Communiste, 1922, Marx
& Engels Internet Archive (MIA),
http://www.marxists.org/francais/inter_com/1922/ic4_11.htm

10