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A arte sacra e sua significação para a

religiosidade sorocabana*
Michel Farah Valverde
Rosenilton Silva de Oliveira**

Resumo: O presente artigo tem dois intuitos fundamentais: investigar o fenômeno religioso
a partir da representação artística, pensando a própria arte como forma cultural mediadora
que comunica a experiência do sagrado, e entender, a partir do conhecimento histórico e
prático das tradições católicas locais, a religiosidade sorocabana e a inter-relação que há
entre a visão de mundo estimulada pela fé e a produção da imaginária. As expressões re-
ligiosas investigadas são: a tradicional Festa do Divino e a devoção mariana em Sorocaba,
propriamente nas invocações de Nossa Senhora da Ponte e Nossa Senhora Aparecida (“Apa-
recidinha”).
Palavras-chave: Arte sacra, religiosidade, representação, sagrado, Sorocaba.

Abstract: This article has two fundamental purposes: to investigate the religious phenom-
enon dating from the artistic representation, thinking of art itself as a cultural mediator figure
that communicates the sacred experience, and to understand from historical and practical
knowledge of the local catholic traditions, the religiousness of Sorocaba’s population and the
inter-relation that exists between world vision stimulated by faith and imaginary production.
The studied religious expressions are the traditional Divine Celebration and Sorocaba’s mari-
ana devotion, properly from the invocation of Nossa Senhora da Ponte and Nossa Senhora
Aparecida (“Aparecidinha”).
Key-words: Sacred art, religiousness, representation, sacred, Sorocaba.

Introdução houve o tombamento do acervo. Posteriormente, o


Museu foi transferido do edifício Santo Antônio, lugar
Chamarei de religiosidade a nossa capacidade onde estavam guardados os objetos, para as galerias
para captar a dimensão sacra do mundo. da Catedral, e ficou sob a coordenação do seu co-
(Vilém Flusser) fundador José Carlos Guariglia. Na década de 1980,
o comendador Luiz Almeida Marins assumiu a dire-
O interesse em relacionar arte sacra e religiosida- toria e nela permaneceu até o seu falecimento, em
de nasceu da nossa estada como pesquisadores no 1998. O Museu passou a ser administrado pelo filho
Museu Arquidiocesano de Arte Sacra de Sorocaba do comendador, professor Marcos de Afonso Marins,
“Com. Luiz Almeida Marins” (MADAS-LAM). Circuns- que permanece até o presente momento. O acervo
tancialmente, o Museu encontra-se fechado à visita- conta com mais de 350 peças, entre imagens, objetos
ção pública, por causa das condições museológicas de culto e objetos pessoais de dom Aguirre, o primei-
inadequadas. Numa parceria entre a Arquidiocese de ro bispo da diocese de Sorocaba, além dos registros
Sorocaba e a Fundação Dom Aguirre, a Universidade históricos e de uma biblioteca modesta.
de Sorocaba (UNISO) assumirá a administração per-
Em razão do contato com o material religioso,
manente do seu acervo sacro. Ainda em 2006 está tanto documental quanto iconográfico, ficou clara a
prevista a sua reabertura, em lugar mais apropriado. importância e urgência de refletir sobre a pertinência
O segundo bispo diocesano, dom José Melhado do mobiliário sacro na vida pastoral da Igreja e na
Campos, preocupado em preservar o patrimônio re- vivência religiosa particular da comunidade soroca-
ligioso local, incentivou a coleta e a catalogação das bana. Vemos com clareza que os objetos dispostos
obras, distribuídas pelas igrejas da cidade, e, com a no MADAS-LAM não podem ser considerados pro-
ajuda do monsenhor Jamil Nassif Abib, os trabalhos duções isoladas, à margem da trajetória cultural do
persistiram até 1970, quando então foi organizado e povo sorocabano de ontem e de hoje, pois não são

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peças e arquivos independentes do desenrolar histó- Divino, liturgia oficial desde a vinda dos portugue-
rico, nem da chancelaria pastoralista. ses ao Brasil. Essa festividade serve-nos como âncora
Para tanto, gostaríamos de tecer uma base teórica para aludir aos temas fundamentais do nosso intento,
que fundamente a leitura pretendida e conduza tam- principalmente por dois fatores: a composição ritual
bém a uma reflexão de caráter radical e totalizante de vários símbolos e o movimento popular dos “ban-
sobre as linguagens em questão. Serão utilizados, no deireiros do Divino”. Essas particularidades ajudarão
decorrer do texto, conceitos provenientes das ciên- a ilustrar melhor os objetivos específicos descritos
cias sociais e da religião, e da semiótica; todavia a anteriormente. Trata-se de uma festa oficial da Igre-
abordagem do problema dar-se-á pelo método filosó- ja (Pentecostes) que assimilou características éticas e
fico. Para que a proposta deste artigo não se reduza culturais nas localidades onde era celebrada, e tais
a um proselitismo, tampouco encerre um discurso condimentos (a pomba, a coroa etc.) receberam um
prosaico, a filosofia é a possibilidade de estabelecer valor representativo rutilante, remissivo à proposta
uma investigação de procedência universal, e então religiosa.
averiguar com rigor científico o nosso objeto. Uma Não há o interesse em construir uma historiogra-
aproximação frutífera entre a arte e a religiosidade fia das referências mencionadas, apenas partir da
exige uma consideração preliminar sobre o fenôme- sua presença para refletir a importância da leitura
no da cultura como processo simbólico, apoiado na e compreensão simbólica que o ser humano faz da
antropologia filosófica proposta pelo pensador ale- sua realidade (Homo symbolicum), com destaque na
mão Ernst Cassirer. Aliados à noção de símbolo, o interação com uma possível existência sobrenatural
sociólogo Peter Berger e o historiador da religião Mir- (Homo religius), e de que modo essas perspectivas se
cea Eliade fornecem referenciais basilares ao discor- relacionam com o exercício da transcendência e a
rer sobre a experiência do sagrado realizada pelo ser transformação da natureza em cultura motivada pela
humano enquanto “ser-no-mundo”. Tal face da vida aspiração ética da crença e pela experiência estética
humana, a nosso ver, antecede a experiência religio- do sagrado.
sa na medida em que o sagrado vincula-se à própria
condição de admiração (thaumástein), à qual o ser O ser humano e a cultura: a ação
humano se entrega diante dos mistérios inquietantes. simbólica
A religiosidade tem na sua natureza a vontade de pre-
servar, na realidade vivida, o gozo daquilo que é bom Ao se falar em arte sacra e religiosidade, ficam
e salutar, do que se apresenta como sentido profundo em evidência duas condições encerradas na experi-
da existência. O conceito de transcendência também ência humana diante de um mistério que conduz os
é indispensável para a compreensão dessa dinâmica. indivíduos e as comunidades à emissão de juízos e
Somente a partir de tal construto serão resguardados atribuição de sentido. Afirmando que o ser humano
os produtos culturais mencionados como foco da se depara com algo divergente da sua trivialidade, e
pesquisa: a arte sacra, aqui delimitada apenas a ima- estabelece a partir de então alguma espécie de víncu-
ginária, e a religiosidade católica. A contigüidade en- lo, pode-se constatar a abertura do ser humano para o
tre ambas se dá pela mediação que a imaginária pro- mundo e este como possível de ser cognoscível pelo
picia ao(à) religioso(a) na sua experiência do sagrado. primeiro. Em outras palavras, ser humano e mundo
Em decorrência da amplitude de manifestações não são coisas unívocas, mas estão em profunda
religiosas católicas existentes na Igreja de Sorocaba, relação. O ser humano, enquanto “ser-no-mundo”,
delimitaremos nosso campo empírico à devoção ma- defronta-se com fenômenos alheios — propiciados
riana, especificamente nas denominações de Nossa pelo meio natural e pela socialização — e sente-se
Senhora da Ponte, padroeira da diocese, e de Nos- impelido a interpretar aquilo que o acomete e causa
sa Senhora Aparecida, conhecida como “Aparecidi- admiração. A interpretação do real e a confecção de
nha”, cuja imagem, segunda do Brasil com esse tí- signos articulados no entorno do logos1 são próprios
tulo, é trasladada duas vezes ao ano, reunindo fiéis do humano. Com isso, estipulamos a proposição fun-
sorocabanos e da região. A motivação em escolher damental norteadora da proposta desta investigação:
a devoção mariana deu-se ao constatar a presença o ser humano como agente de significação. Nesse
de dezoito paróquias na diocese dedicadas a Maria, contexto, acreditamos que a cultura é o fenômeno
além do número de imagens, estandartes e outros primordial do entendimento deste enunciado.
objetos artísticos marianos localizados entre os bens A dificuldade inicial que se encontra quando se
contidos no acervo do Museu. propõe discutir cultura é a própria definição, haja
Outra forma de religiosidade do catolicismo rele- vista que esse conceito está saturado de definições.
vante no decorrer da pesquisa é a tradicional Festa do Dada a impossibilidade de discorrer sobre a religio-

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sidade com propriedade sem apresentar uma base Por isso a importância das mais variadas naturezas
epistemológica para o referido conceito, este texto de sistema que interagem e dialogam, como os mi-
fará uso das formulações de Abraham Moles e Iuri tos, religião, artes, linguagem. E para compreender-
Lotman, pois esses autores definem cultura de forma mos esse procedimento, Lotman utiliza o conceito de
plástica, o que possibilita uma aproximação com a semiosfera, entendido como o espaço habitado por
discussão deste escrito. signos em rotação, para compreender o movimento
Em Moles, a cultura se dá na esfera individual e cultural em continuidade.2 O ser humano relacio-
coletiva, transparecendo sob a tutela intelectual ma- na-se com diversos sistemas de signos no território
terializada em bens concretos e abstratos, geradora cultural em que está inserido, e é próprio da cultura
de um quadro de conhecimento que permanece esta- promover esses encontros dialógicos.
bilizada no meio cultural. Nessa linha, tem-se a me- Sendo a cultura um espaço privilegiado de repre-
mória de mundo, que é a participação conquistada sentações e o ser humano o sujeito dessas, tanto no
pelos indivíduos membros desse meio, os quais pro- âmbito da existência individual quanto coletiva, po-
jetam uma tela referencial no contato com o exterior. demos dela extrair um diferencial que elucubra a ver-
A partir de tal proposta, a cultura adquire novo status dadeira natureza humana: a ação simbólica.
ao receber a contribuição de espíritos criadores, per- O filósofo alemão Ernst Cassirer propõe-se a con-
tencentes ao grupo social. ceber uma filosofia da cultura, e como intróito ques-
A cultura no sentido amplo de um meio resulta da ativi-
tiona o vigor das teorias até então cunhadas para o
dade de indivíduos criadores que nela vivem, mas, ao conhecimento do ser humano. Para este pensador, há
mesmo tempo, as modalidades de criação destes são uma crise de tal conhecimento que não pode ser sa-
condicionadas pelos conceitos, palavras e formas que nada pela univocidade da abordagem científica.
recebem de seu meio; há, portanto, interação perma-
nente entre a cultura e o meio que a sustenta, por inter- Não podemos descobrir a natureza do ser humano da
médio de criadores que provocam uma evolução: daí mesma maneira pela qual podemos desvendar a natu-
uma sociodinâmica da cultura. (Moles, 1975, p. 59) reza das coisas físicas. Estas podem ser descritas em
termos de suas propriedades objetivas, mas o ser hu-
Essas considerações levam a refletir sobre a cul- mano só pode ser descrito e definido em termos de sua
tura como conjunto unificado de sistemas onde há consciência, fato que origina um problema inteiramen-
inter-relação entre seus signos. Isto é: as pessoas re- te novo, insolúvel por nossos métodos usuais de inves-
lacionam-se com diversos sistemas de signos, pois a tigação. (Cassirer, 1972, p. 21)
cultura promove esses encontros; assim, ao se pensar A máxima socrática “conhece-te a ti mesmo” vol-
em cultura, inclui-se a diversidade de códigos reinan- ve o olhar humano para si e inicia uma travessia an-
tes na sua história tipológica-estrutural. tropológica de auto-indagação. Ao longo do percurso
O semioticista Iuri Lotman, precursor na fundação filosófico, a pergunta “que é o ser humano” desper-
da Escola de Tártu-Moscou para o estudo semiótico tou inúmeras visões, algumas delas exponenciais até
cultural, postula a cultura como texto, de maneira a a atualidade. Desde Heráclito, que já vinculava o
julgar insuficiente um único código para ler, na tota- enigma do cosmo ao conhecimento de si, passando
lidade, a fala do texto cultural. Diz: por Sócrates e os clássicos gregos, os medievalistas
(Agostinho, Tomás de Aquino), os modernos (Descar-
Uma das particularidades distintivas e, ao mesmo tem- tes, Montaigne, Pascal, Espinosa, Diderot, Kant) até
po, uma das dificuldades principais no estudo dos có-
a teoria da evolução de Darwin, que ao lado de Co-
digos culturais é o fato de eles se apresentarem como
estruturas de grande complexidade, relativamente às
pérnico e Galileu revoluciona o mundo humano ao
línguas naturais sobre as quais os sistemas de cultura se destronar o ser humano do “centro do universo e da
constroem. (Lotman, 1979, p. 33) vida”, houve a elaboração de uma gama de informa-
ções altamente esclarecedoras. No entanto Cassirer
Sendo a cultura concebida como conjunto de in- aponta a insuficiência dessas filosofias no que concer-
formações não-hereditárias, que as diversas coletivi- ne a um conhecimento profundo da cultura humana,
dades da sociedade humana conservam ou transmi- e o faz por dois motivos gerais: as muitas teorias so-
tem, e tais informações decorrem dos sistemas varia- bre o ser humano não chegaram a um denominador
dos que são modelizantes — conferem estruturação à comum, ou seja, falta uma articulação dos saberes
linguagem natural — isso nos leva a focalizar a cultu- que conduza à resposta de caráter universal; a análise
ra enquanto processo e não como produto. empírica do ser humano se manteve presa apenas aos

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fatos provenientes à atividade cultural (aos produtos, de estabelecer conceitos fixos sem um crivo metódi-
exacerbando o processo de significação como um co de uma problematização mais apurada, abster-se-
todo). O método empírico, conteúdo concomitante à á da discussão própria a respeito das definições de
epistemologia moderna, é, no veredicto de Cassirer, arte e religião. Bastará uma conceituação que sirva
nulo. A grande novidade para conhecer a natureza de plataforma ao nosso intento.
humana subjaz às investigações precedentes:
O ser humano, por assim dizer, descobriu um novo Representação do sagrado: imaginária
método de adaptar-se ao meio. Entre o sistema recep- e cristianismo
tor e o sistema de reação, que se encontram em todas
as espécies animais, encontramos no ser humano um Desde tempos remotos, o ser humano selou a sua
terceiro elo, que podemos descrever como o sistema participação como sujeito cultural através dos múl-
simbólico. Esta nova aquisição transforma toda a vida tiplos sinais deixados ao legado histórico e civiliza-
humana. Em confronto com os outros animais, o ser cional, aos quais atribui-se o nome de arte. Aquém
humano não vive apenas numa realidade mais vasta; de uma discussão rigorosa sobre o problema artístico
vive, por assim dizer, uma nova dimensão da realidade. e estético, surgem evidências que remetem a pelo
(Cassirer, 1972, p. 49) menos três pareceres básicos de entendimento so-
A ação simbólica, conforme Cassirer, faz com que bre arte: materialização da forma e da cor, visando
o ser humano ultrapasse as fronteiras da vida orgânica a harmonia entre todas as partes de um composto,5
e promova um estado diferenciado da existência, para subjetividade externalizada como produção de be-
além da simples ação/reação: as respostas dadas aos leza,6 signos procedentes de uma visão de mundo.7
estímulos não se limitam à sobrevivência ou à adapta- Independente das dissidências, a arte é, sem dúvida,
ção natural, mas mergulham pelas entranhas do mun- forma simbólica por excelência:
do humano do sentido, da poiésis3 do ser. Exatamen-
Como as demais formas simbólicas, a arte não é a mera
te pela interferência simbólica que o referido autor
reprodução de uma realidade dada, já pronta. É um dos
salienta nas múltiplas formas artificiais (linguagem, caminhos que conduz à visão objetiva das coisas e da
mito, arte, religião, ciência) uma espécie de “chave vida humana. Não é imitação, mas descobrimento da
hermenêutica” para compreender o ser humano na realidade. (Cassirer, p. 227-228)
sua totalidade. Nesse ínterim, o conceito de razão dei-
xa a primazia na determinação da essência humana: Toda arte, embora guarde certa função mimética,
acaba contendo em si a representação do real. Pela
Razão é um termo muito pouco adequado para abran- percepção e imaginação, o ser humano inventa um
ger as formas da vida cultural do ser humano em toda estado novo que o remete a outro estágio existencial.
a sua riqueza e variedade. Mas todas essas formas são A realidade “mostra-se” de maneira mais comple-
simbólicas. Portanto, em lugar de definir o ser humano ta e admirável. Isso acontece com todos os objetos
como um animal rationale, deveríamos defini-lo como artísticos, desde as pinturas do Paleolítico, onde os
um animal symbolicum. Desse modo, podemos desig-
animais eram descritos numa acepção mágica, até as
nar sua diferença específica, e podemos compreender
o novo caminho aberto ao ser humano: o da civilização artes da abstração, com Kandinsky, Mondrian, Male-
(Cassirer, 1972, p. 51). vich e outros.8 As aspirações humanas, em todos os
níveis, foram representadas pela arte nas suas varia-
O símbolo, sendo um signo arbitrário,4 exerce in- das classificações. O medo, a esperança, os desejos
fluência no modo de conceber as singularidades cul- mais recônditos, as angústias e paixões têm expressão
turais. Por isso a cultura torna-se o espaço de troca concreta nos objetos artísticos, bem como a vontade
sígnica e de significações, além de deslindar a atua- de comunhão espiritual jaz subjugada pelos trâmites
ção do Homo symbolicum. O ser humano “envolveu- da Modernidade.9 A arte como canal místico e reavi-
se de tal maneira em formas lingüísticas, em imagens vamento espiritual é o chamariz da problemática da
artísticas, em símbolos míticos ou em ritos religiosos representação do sagrado que será abordada a seguir,
que não pode ver, nem conhecer coisa alguma se- com ênfase na imaginária católica.
não pela interposição desse meio artificial” (Cassirer, Quando acrescentamos a dimensão “sacra” à arte,
1972, p. 50). qualquer que seja, ela assume conotação religiosa, em-
Baseado nessa intervenção simbólica, interessa bora não haja hegemonia de uma religião sobre o sagra-
para os fins propostos refletir sobre dois produtos do. O sagrado, como experiência humana, é fruto de
culturais específicos: arte e religião, nos particulares uma espécie de “arrebatamento existencial”, divergen-
discriminados na introdução. Dada a complexidade te das ocorrências naturais (porém não excludentes).

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Para Peter Berger, o sagrado se manifesta como Com a paz da Igreja e a conversão constantiniana co-
algo fora do ser humano, da sua realidade (às vezes meça a arte propriamente dita, cujas bases serão deter-
caracterizado como um poder infinitamente superior), minantes para os séculos seguintes. Os grandes exigem
ao mesmo tempo que o insere num mundo especial, uma arte nobre e elevada, à altura do seu refinamento,
o inclui, o envolve. Ele, por sua vez, cunha artifícios e agora os artistas trabalham para a exaltação da nova
fé sem sofrer coerções. (Besançon, 1997, p. 180)
com o intuito de preservar essa vivência especial e
que sirva de elo permanente com o sobrenatural. Ber- Segundo Besançon, as imagens e os cultos das
ger define assim o sagrado: imagens experimentam uma extraordinária difusão
nos séculos VI e VII.
Por sagrado entende-se, aqui, uma qualidade de poder
misterioso e temeroso, distinto do ser humano e todavia No final do século VI, os imperadores não ape-
relacionado com ele, que se acredita residir em certos nas encorajam uma veneração das imagens religiosas
objetos da experiência. Essa qualidade pode ser atri- análoga àquela das imagens imperiais, como permi-
buída a objetos naturais e artificiais, a animais, ou a tem ao Cristo e à Virgem instalar-se no espaço antes
seres humanos, ou às objetivações da cultura humana. ocupado por suas imagens, e, desse modo, receber o
(Berger, 1985, p. 39) culto francamente pagão que suas imagens haviam
As observações de Berger legitimam a arte como recebido (Ibidem, p.186).
manancial da experiência sacra. A dimensão sagrada As representações originais são a de Cristo e de
do “ser-no-mundo” impele para além da factualidade, Maria rodeados de anjos e, posteriormente, a de san-
e devido a isso a arte sacra conduz ao sobrenatural, tos mártires. Eram representados, também, os misté-
entendido como condição acima da contingência e a rios da fé descritos na Bíblia, como a Ascensão, e a
sua superação; em virtude dessa função mediadora, própria imagem do Redentor ganhou várias fisiono-
adquire força simbólica que ultrapassa a conjunção mias até o retrato convencional.
única e individual e passa a propiciar uma cosmovi- Não obstante, o chamado Ciclo da Iconoclastia11
são, enraizada nas práticas ritualísticas e nas inferên- contestou com veemência a introdução de imagens
cias morais. na ascese religiosa e no uso devocional dos fiéis. Isso
Contudo, historicamente o cristianismo foi o cen- se deve em muito à herança judaica e às orientações
tro de uma polêmica que perdura até a atualidade e recebidas dos profetas acerca dos males da idolatria
ainda divide opiniões quanto ao veredicto nos seus e do perigo de pecar contra o “Deus verdadeiro”.12 A
diversos segmentos: a questão da imagem. Pode a Bíblia contém descrições das atitudes de prevenção
imagem representar o sagrado? É sabido que a reli- ao culto idolátrico.13
gião cristã adotou, já nos séculos iniciais do seu ad- Em paralelo à proibição bíblica, o gênio helênico,
vento, a prática da veneração de imagens religiosas através da filosofia, protocolou críticas à representa-
à sua liturgia e à oração pessoal dos seus fiéis, possi- ção visual dos seus deuses, principalmente por Pla-
bilitando uma extensão dos seus dogmas e crenças, tão. Besançon situa os gregos no que denomina Ciclo
novo bálsamo para a fé. Isso, porém, não deixou de Antigo da Iconoclastia:
sofrer severas retaliações intelectuais e políticas.
Ora, justo na época em que a arte grega se afirma,
As tradições teológica e filosófica dividiram-se se desenvolve e caminha para sua perfeição, uma
quanto à possibilidade de retratar-se o Divino.10 Nos fração igualmente religiosa do helenismo, a filosofia,
primórdios do cristianismo, o uso de símbolos foi as- começa a refletir sobre essa representação, avalia o
similado como uma prática significativa. Ora cons- grau de acordo ou desacordo em que ela se encontra
tituindo códigos secretos, ora caracterizando expli-
com relação ao conceito cívico do divino e com as
citamente a doutrina nascente, os primeiros cristãos
formas tradicionais de representá-lo. Abre-se, assim,
partilhavam de um repertório sígnico altamente figu-
por iniciativa da filosofia, um ciclo que, subseqüen-
rativo da identidade desta minoria. A partir do século
temente, será caracterizado como “iconoclasta” (Be-
II, surgem os símbolos propriamente cristãos, inclu-
sançon, pp. 9-10).
sive as primeiras imagens de Cristo, mas somente no
século IV, com o acordo que se convencionou cha- O legado deixado pela filosofia clássica causou
mar de “Edito de Milão” promulgado pelo imperador estigmas irreversíveis ao percurso da imaginária. De
Constantino, o cristianismo, condecorado religião acordo com o antropólogo Gilbert Durand, toda re-
oficial de Roma, pôde personificar a produção da ação iconoclasta pauta-se por questões ontológicas
imaginária e da arte sacra em geral, e o culto com escoradas nas idéias lógicas sistematizadas, e que
objetos sagrados. O pesquisador Alain Besançon co- conferiram, de forma geral, uma visão dualista das
menta tal guinada: coisas. O “terceiro excluído” aristotélico forneceu

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base para as interpretações mais radicais e seletivas cia” do catolicismo, que situa Deus como o único Ser
do real em vista do alcance da verdade de tudo o que digno de receber adoração? Pensamos que seja emer-
fosse posto à mercê da razão humana: gencial o aprofundamento daquilo que concebemos
O método da verdade, oriundo do socratismo e como experiência religiosa para não incorrermos em
baseado na lógica binária (com apenas dois valores: reducionismos, nem fomentarmos falsos axiomas.
um falso e um verdadeiro), uniu-se desde o início a
esse iconoclasmo religioso, tornando-se, com a he- A experiência religiosa
rança de Sócrates, primeiramente, e Platão e Aristóte-
les em seguida, o único processo eficaz para a busca O ser humano, a medida que percebe sua exis-
da verdade (Durand, 1998, p. 9). tência na terra, busca mecanismos para torná-la sig-
nificativa. Em outras palavras: o ser humano, por ser
O princípio da exclusão de um terceiro condena
dotado de inteligência e sentimentos, ao se dar conta
a atitude representativa pelas formas artísticas, e to- que está vivo, inicia um processo de valorização des-
dos os tipos de imagens religiosas seriam deturpações sa vida e, quando se depara com eventos inéditos,
grotescas da imagem e natureza de Deus. Isto posto, entraves que dificultam a vivência cotidiana, busca
percebe-se que “a imagem, que não pode ser redu- formas de superá-los. Nessa tentativa manifesta uma
zida a um argumento “verdadeiro” ou “falso” formal, grande característica da idiossincrasia do ser racio-
passa a ser desvalorizada, incerta e ambígua, tor- nal: a capacidade de transcendência.
nando-se impossível extrair pela sua percepção (sua
“visão”) uma única proposta “verdadeira” ou “falsa” O ser humano é capaz de transcender para con-
formal (Durand, p.10). Essa prescrição torna-se válida seguir sobreviver no ambiente em que está inserido.
também na representação dos santos, tomados como Nas palavras de L. Boff: “Transcendência, fundamen-
ídolos para os quais não se deve prestar culto. talmente, é essa capacidade de romper todos os li-
mites, superar e violar interditos, projetar-se sempre
Em contrapartida, surgiram teologias da imagem mais além.” (Boff, 2000, p. 31). Nesse processo de
que combateram a negação da imaginária religiosa.14 quebra da realidade (ou descontinuidade), o ser hu-
O pensamento exponencial que faz apologia à repre- mano sempre cria algo para além do real, “ele cria
sentação imagética pertence a são João Damasceno, símbolos, cria projeções, cria sonhos, porque ele vê
do século VIII: a exemplo da encarnação do Verbo (a o real transfigurado” (Idem, p. 62), por isso o ser hu-
Imagem de Deus), diz ele, é aceitável toda e qual- mano é, ao mesmo tempo, desagregador (dia-bóli-
quer imagem que testemunhe a experiência religiosa co) e congregador (sim-bólico) da realidade, busca a
e seja um canal de manifestação do sagrado. Jesus todo instante desconstruir a realidade tal como ela se
Cristo, então, ao se fazer ser humano, torna autênti- apresenta, para construí-la novamente com um novo
ca a produção artística de imagens sacras, conforme significado.
observa Durand: Ao passo que ressignifica as experiências vividas,
Graças à encarnação do Cristo em face da antiga tra- atribui valores simbólicos, de tal forma que o ordi-
dição iconoclasta do monoteísmo judeu, estava criada nário (o contínuo) é apelidado de profano, enquanto
uma das primeiras reabilitações das imagens no Oci- tudo aquilo que torna possível e eficaz a vida na terra
dente cristão. Pois, à imagem do Cristo, a imagem con- é chamado de sagrado.
creta da santidade de Deus, logo acrescentar-se-ia a ve- À medida que o ser humano transcende os limi-
neração das imagens de todas as pessoas santas (aque- tes do cotidiano, reveste essa ação de uma impor-
las que tivessem atingido uma certa semelhança com tância indescritível. Noutras palavras: pelo processo
Deus), da Virgem Maria, mãe de Cristo (théotokos, “a
da transcendência o ser humano percebe o sagrado,
mãe de Deus”), seguida pelas do precursor João Batista,
dos apóstolos e, por último, de todos os santos... (p. 17) ocorre a hierofania. O sagrado não se apresenta em
detrimento das ações humanas, pelo contrário, ele se
A defesa de Damasceno e as demais ainda se mos- manifesta por si mesmo e o ser humano religioso15 é
tram precárias na resolução de questões emergentes capaz de reconhecê-lo através de determinadas ativi-
da problemática levantada, principalmente no con- dades, as quais também assumem dimensão sagrada.
texto contemporâneo. Afinal, o uso devocional das Esses conceitos — sagrado e profano — aqui utiliza-
imagens não pode constituir uma relação idolátrica, dos conservam o mesmo significado empregado por
advertida com severidade em diversas passagens bí- Mircea Eliade, qual seja: “o sagrado e o profano são
blicas? A religiosidade não deturpa a finalidade das duas modalidades de ser no Mundo, duas situações
imagens e dos símbolos religiosos ao incorporá-los existenciais assumidas pelo ser humano ao longo da
nos seus ritos? O culto às imagens destoa da “essên- sua história” (Eliade, 1992, p. 20).

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À medida que o ser humano constrói sua existên- Quando isso ocorre, tem-se um ato misterioso: “a
cia, há uma força interna, denominada por L. Boff de manifestação de algo de ordem diferente — de uma
desejo, a qual conduz o ser humano na busca de uma realidade que não pertence ao nosso mundo — em
experiência mais imediata e ao mesmo tempo mais objetos que fazem parte integrante do nosso mundo
profunda. Isso ocorre quando, pelo processo da re- natural, profano” (Eliade, p. 17). Dessa forma, o ob-
presentação, suas atividades são sacralizadas. Embo- jeto alvo da hierofania deixa de ser, simplesmente,
ra a transcendência não seja propriedade das institui- o objeto em si, pois revela algo que está além dele,
ções religiosas, mas algo inerente ao ser humano, é torna-se puramente hierofania, já não é mais um ob-
através da ligação com uma religião que ela se torna jeto qualquer, é o próprio sagrado. Nessa categoria
mais fecunda e a hierofania é conhecida. inscrevem-se as imagens sacras.
Pelo exposto, infere-se, necessariamente, a impos- Como é sabido, a Igreja Católica serve-se das ima-
sibilidade de o ser humano viver numa atmosfera pu- gens na sua prática religiosa justamente porque elas
ramente profana. A todo instante ele busca formas de não são puramente imagens, mas o ganz andere (o sa-
sacralizar o espaço em que se encontra inserido. De grado) que é percebido pelo ser humano religioso. B.
acordo com M. Eliade, para o ser humano religioso Latour, seguindo essa conceituação eliadiana, afirma:
o espaço não é homogêneo, apresenta rupturas onde
é possível afirmar que um local é mais importante O que a iconografia tentou realizar em incontáveis
proezas artísticas é o exato oposto de dirigir o olhar
que outro, ruptura que nem sempre (ou quase nunca)
para o modelo distante: ao contrário, desprenderam-
ocorre de forma geométrica, empírica; mas sim de se esforços incríveis para defletir o olhar habitual do
forma significativa, da mesma forma que a sacraliza- espectador e atrair sua atenção para o estado presente,
ção do espaço em alguns casos pode ser transitória, o único de que se pode afirmar que oferece salvação
como se dá no caso das procissões e romarias. (Latour, 2005).
A manifestação do sagrado funda, ontologicamente, o Nessa perspectiva, quando se fala de representa-
mundo. Na extensão homogênea e infinita onde não é ção do sagrado, refere-se à percepção, pelo ser hu-
possível nenhum ponto de referência, e onde, portanto, mano, do próprio sagrado que se manifesta em de-
nenhuma orientação pode efetuar-se, a hierofania reve- terminados objetos, dando-lhe novo significado. Em
la um “ponto fixo, absoluto”, um Centro [...] é por essa outras palavras, o objeto sacro, nesse caso a imagem,
razão que o ser humano religioso sempre se esforça
re-apresenta (torna evidente de novo, embora de uma
para estabelecer-se no “Centro do Mundo”. Para viver
no mundo, é preciso fundá-lo. (Eliade, p. 26)
maneira nova) a hierofania outrora experimentada,
possibilitando uma nova experiência de transcendên-
Essa fundação ocorre através da hierofania, pois, cia, uma nova significação da realidade.
quando o ser humano dá-se conta do espaço sagra- Por isso é o ser humano, e não as instituições,
do, “funda” aí sua morada, isto é, o espaço seleciona- quem percebe na imagem o sagrado, haja vista que
do é onde se dará a teofania, encontro com o divino. a transcendência é inerente ao ser humano. A Igreja
E a partir do momento em que é possível o primeiro apenas reconhece essa sacralidade e assume a sua
contato com o sagrado, e percebendo nesse processo tutela justamente porque o ser humano, embora vi-
a fundação do mundo, pois “o sagrado é o real por vendo o imediato e o limitado, deseja o infinito, o
excelência” (Eliade, p. 31), o ser humano se vê na ilimitado, conservando-se, sempre, numa atitude de
obrigação de dar continuidade à obra do(s) deus(es) abertura . É essa disposição que possibilita a trans-
de criar o universo. cendência, a qual traz em seu bojo o desejo. Desejo
Conforme já sinalizado, é nesse ponto que as re- por aquilo que está além da factualidade da vida e,
ligiões possuem um papel primordial, visto que elas numa atitude ousada, as religiões identificam o obje-
congregam as diversas hierofanias e teofanias, con- to do desejo humano com o sagrado. Noutras pala-
duzindo de tal forma a experiência humana que são vras: com Deus. L. Boff concorda com essa asserção:
capazes de ritualizá-la, ou seja, possibilitar a sua re-
petição. Entretanto, é digno frisar que essa repetição [...] eles invocam o nome de Deus no sentido mais ori-
ritual equivale a uma nova transcendência, isto é, a ginário da palavra Deus, que, em sânscrito, significa a
realidade que brilha e que ilumina. Nessa perspectiva,
uma re-criação, re-novação da experiência vivida.
Deus tem pleno sentido. Deus só tem sentido existen-
Por isso o ser humano, naquele espaço sagrado, ex- cial se for resposta à busca radical do ser humano por
perimenta o divino de uma maneira nova. luz e por caminho a partir da experiência de escuridão
A hierofania dá-se, também, através dos objetos. e de errância. (Boff, 2000, p. 69)

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Emerge, nesse ponto, um novo significado da pa- sagrado/divino) torna-se especial, separado. Da mes-
lavra religiosidade, a qual serve para descrever esse ma forma, o tempo onde se deu essa manifestação
movimento humano de descobrimento e repetição sacra torna-se sagrado (e eternizado), passando a mo-
do sagrado (vivência circular da hierofania). ver-se de maneira não mais retilínea, mas cíclica (por
Assim, religiosidade é a capacidade que o ser exemplo: tempo litúrgico, onde o ano é composto
humano possui de experimentar o sagrado na con- pelos ciclos do Natal, Páscoa e Comum), temos uma
cretude da vida, isto é, a dimensão sacra do mun- eterna repetição/renovação.
do. Entendendo o sagrado não como algo puramente Concernente ao tempo sagrado, é mister dedicar
desvinculado do devir histórico, mas também como algumas linhas, para que se possa compreender com
um rompimento da cadeia lógica da percepção habi- maior propriedade a religiosidade popular. Assim
tual da realidade. Apresenta-se como popular a reli- como, para o ser humano religioso, o espaço não
giosidade que nasce das experiências com o sagrado é homogêneo, ou seja, apresenta rupturas, dá-se da
vividas pelo povo, as quais, após um tempo, dada a mesma forma com o tempo, o qual pode ser dividido
sua expressividade, são reconhecidas pelos dirigen- em sagrado e profano. E esse ser humano religioso
tes da Igreja. consegue mover-se nessas duas dimensões temporais
São inúmeros os estudos sobre a religiosidade po- através dos ritos, enuncia M. Eliade: “Participar reli-
pular católica, entretanto a tipologia apresentada pelo giosamente de uma festa implica a saída da duração
sociólogo Pedro de Assis Ribeiro de Oliveira16 oferece temporal ordinária e a reintegração do Tempo mítico
uma maior objetividade e uma visão globalizada da ritualizado pela própria festa” (Eliade, 1992, p. 64).
mesma. O autor divide em quatro eixos os elementos Retomando o que foi dito acima, o objeto é consi-
essenciais do catolicismo: a)evangélico (bíblico); b) derado de arte quando, entre outras coisas, é capaz de
sacramental (sacramento); c) devocional (manifesta- transcender os limites para o qual foi criado e, conce-
ções espontâneas e particulares da fé); d) protetora bendo o ser humano como um ser capaz de transcen-
(predileção por um santo em especial). der, tem-se um ser humano capaz de, na concretude
Os dois primeiros itens constituem o catolicismo da vida, entrar em contato com o sagrado, tornando
oficial, o qual dirige o culto e orienta a vivência dos o local e o momento desse encontro consigo mes-
valores da religião; enquanto os últimos formam o ca- mo, com Deus e com o outro, também sagrado. As
tolicismo popular, que são incrementos na vivência manifestações religiosas, bem como a produção de
desses valores. As manifestações religiosas tidas como imagens, são formas encontradas por esse ser huma-
populares nascem desse segundo grupo (devocional no, para reviver e, ao mesmo tempo, experienciar, de
e protetor) para preencher uma lacuna deixada, em maneira nova, o encontro com o sagrado (divino).
alguns aspectos, entre o catolicismo oficial e o cato- É lícito frisar que a produção de imagens em mo-
licismo popular. Em nenhum momento uma vertente mento algum se confunde com idolatria, tendo em
tenta suplantar ou sobrepor a outra, pelo contrário, as vista a finalidade máxima da sua criação: não para
duas tornam mais fecunda a prática religiosa à medi- ser efetivada como adorno, inserida em princípios
da que são vivenciadas harmoniosamente. utilitários, tampouco para eximir o ser humano do
Alhures foi dito que a transcendência é parte seu estado transcendente, impondo-lhe recursos de
constituinte do ser humano e não necessariamente catequização ideológica, e sim na condição de es-
da Igreja. Pois bem, na Igreja Católica essa vertente tabelecer uma intermitência pontifical de cunho
fica mais evidente através do fenômeno denominado simbólico. É o que fica evidente nas religiosidades
liturgia paralela, que são manifestações autênticas de estudadas, tanto na Festa do Divino, especialmente
fé, cujos rituais nascem justamente do meio popular e nas tradicionais visitas aos lares realizadas por um
não da hierarquia da Igreja (do catolicismo oficial). São grupo de cristãos denominados “bandeireiros do Di-
exemplos disso as procissões, romarias, novenas etc. vino”, como na padroeira da cidade, Nossa Senhora
da Ponte e, principalmente, na romaria de Apareci-
É importante ressaltar que a liturgia paralela não
dinha, uma das maiores concentrações de devotos
se apresenta como uma manifestação individual de
de Nossa Senhora da Aparecida, que ocorre desde o
devoção, mas como uma vivência coletiva, o que
século XVIII.
permite a sua repetição inovadora, pois passa pela
dimensão da sacralização do tempo e do espaço. No Para elucidar e fundamentar as teorias aqui expos-
lugar onde se dá a experiência com o sagrado, esse tas, seguem dois exemplos pertinentes, os quais foram
espaço é também sacralizado, isto é, o local onde alvo de pesquisa de campo e entrevista com teólogos,
acontece o fenômeno da hierofania (manifestação do filósofos e outras autoridades no assunto, além da in-

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terpelação aleatória (embora metodológica) de alguns • Capitão do mastro: pessoa responsável pelo mastro
fiéis durante as manifestações religiosas. Os exemplos e pelo hasteamento da bandeira durante a novena.
que ora se apresentam, a tradicional festa do Divino
Espírito Santo e a devoção mariana, foram eleitos por- • Mordomos: são quatro. São os servidores do “im-
que servem, prontamente, para demonstrar os con- perador”, e durante as procissões formavam uma
ceitos em questão, além de reunirem elementos tanto espécie de cordão de isolamento em torno das
do catolicismo oficial quanto do catolicismo popular insígnias do Divino.
e porque é grande a concorrência dos fiéis nessas fes- Hoje, essas personagens não mais existem, porém
tas religiosas em Sorocaba. Outrossim, tais manifes- nota-se a existência de um grupo de cristãos deno-
tações, na sua ocorrência, utilizam imagens sacras. minado “bandeireiros do Divino” (ou foliões), os
A Festa do Divino é uma solenidade da Igreja Ca- quais, desde o domingo de Páscoa até a véspera do
tólica que remonta ao nascimento do cristianismo, domingo de Pentecostes, percorrem as casa dos fiéis
pois trata da comemoração da vinda do Espírito Santo da paróquia levando consigo a bandeira do Divino,
sob os discípulos de Cristo e, por extensão, do “nasci- rezando e cantando.
mento” da própria religião cristã. Assim sendo, ela é Claramente, percebe-se que a festa navega entre
devidamente regulamentada pelo magistério oficial, “a doutrina e os costumes religiosos do povo” (Ma-
o qual lhe assegura sua autenticidade e obrigatorie- rins, 1987), sendo que, aqui, buscam os sentimentos
dade. Tal festa ocorre cinqüenta dias após a Páscoa da devoção e fé que, se traduzem por manifestações
(daí deriva o seu nome: Pentecostes = cinqüenta dias de profundo cunho de piedade, e acolá, o encontro
depois da Páscoa). Biblicamente, lembra o período da Palavra, que faz encher o coração de amor. Seria
em que Cristo ficou com os apóstolos após a ressur- um erro grotesco supor que essas manifestações reli-
reição. Quando ele se eleva aos céus, o Espírito Santo giosas possam ser encaradas de forma teatral ou até
é enviado conforme prometido.17 mesmo folclórica, o que se observa é justamente o
No Brasil, essa festa vem no bojo da colonização processo de sacralização do tempo, conforme pro-
portuguesa e, com o passar do tempo, assume algu- posto por Eliade e brevemente já explanado. Aquela
mas características peculiares. Aqui, foram reprodu- experiência de transcendência que outrora os após-
zidas algumas ações dessas festas, conforme ocorria tolos viveram com a hierofania do Divino Espírito é,
na Corte portuguesa, onde o rei era o festeiro (pessoa todo ano, revivida pelos fiéis na festa de Pentecostes.
responsável pela organização da festa). No Brasil, Não se trata de outra celebração ou uma nova in-
não havendo rei, substituiu-se pelo imperador. Em- vocação do Espírito Santo, mas é a mesma experi-
bora alguns símbolos sejam universais no festejo do ência, embora atualizada. Da mesma forma, quando
Divino, tais como a pomba e a bandeira, a festa assu- os bandeireiros visitam uma residência, aquele lar é
me, sempre, traços da população local. Em Sorocaba, sacralizado temporariamente, pois, no momento em
conforme atesta o livro do tombo da catedral e as que as insígnias sagradas adentram o recinto, ocorre
inúmeras notícias da imprensa local, até meados dos a hierofania, a família sente-se como no primeiro e
anos 1990 transitavam as seguintes figuras: único cenáculo. 19
• Imperador: é o festeiro responsável pela festa, traz É interessante notar que os bandeireiros não entram
como símbolo o cetro. Como “imperador”, ele na casa, eles ficam diante da porta e entregam a ban-
tem os seus vassalos e a sua “casa imperial”.18 deira a um representante da família, o qual, entrando,
reza com a família e conduz a bandeira por todos os
• Aio da coroa: é um dos componentes do grupo.
cômodos da casa. Nesse ínterim, os demais ficam do
De absoluta confiança do “imperador” e por isso
lado de fora, intercedendo. Quando a visita termina,
guardião da “coroa”, a qual é levada numa salva
aquela família une-se aos bandeireiros e dirigem-se
durante as procissões.
a outra casa, onde o gesto se repete. O comenda-
• Alferes da bandeira: é o encarregado da guarda dor Luiz Almeida Marins, sob esse gesto, escreveu:
da “bandeira do Divino”. A bandeira é verme- O povo, na sua simplicidade, guarda e mantém seus há-
lha e possui estampada a figura de uma pomba bitos religiosos dentro de um quadro de muito respeito
(símbolo do Espírito Santo) além de sete raios (os e veneração; e o devotamento leva à preocupação de
sete dons do Espírito Santo). Durante as visitas, os uma vida séria e piedosa. Observa-se a convicção e a
moradores atam fitas coloridas no mastro, teste- fé que envolvem as manifestações religiosas do povo
munhando graças recebidas. simples, como a procissão, a reza, as caminhadas etc.
(Marins, 1987).

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Até aqui, demonstrou-se, apenas, a religiosidade so nas virtudes, com o que mesmo a sociedade civil
popular à luz de alguns conceitos anteriormente ex- ganhará o seu maior galardão, a paz na justiça e na
postos. Falta apresentar de que forma ocorre a relação caridade. (Carta de petição, 1960).
dos objetos de arte (no caso, as imagens sacras) na Quanto ao título “Senhora da Ponte”, surge uma
vivência da religiosidade. Para tanto, segue-se a ex- série de controvérsias sobre sua procedência. A ver-
posição e análise da devoção mariana em Sorocaba. são oficial conta que a invocação deriva da cidade de
Ponte de Lima (Portugal), diocese de Braga. A maioria
Arte sacra e religiosidade sorocabana: a dos documentos disponíveis ratifica essa informação.
Outras fontes atribuem ao topônimo a relação com a
devoção mariana ponte do rio Sorocaba, mesmo esta ficando distante
Por meio da fundamentação teórica apresentada, do local onde se encontrava a capela. Tal incógnita é
segue-se a observação crítica da realidade sorocaba- apreciada por Luiz Almeida Marins:
na, no que concerne à religiosidade manifestada atra-
vés da devoção mariana. Dentre as leituras possíveis Monsenhor Castanho analisa apresentando três hipóte-
ses: a primeira, que a imagem teria sido trazida pela fa-
de ser realizadas no âmbito da temática abordada, o
mília fundadora, já com esse nome; uma segunda, que
nosso trabalho caracteriza-se por duas interpretações: teria sido atribuído esse nome em virtude da existência
a arte sacra como mediação e como representação, da ponte do rio Sorocaba, embora ele mesmo achasse
no sentido estrito de tornar algo presente. esta a mais difícil de aceitação, dizendo que a capela
ficava muito distante do rio Sorocaba, logo, da pon-
Nossa Senhora da Ponte te. E a terceira lembrava a interpretação mística de frei
Agostinho de Jesus, de 1709, sentindo Nossa Senhora
A primeira curiosidade que chama a atenção na a ponte que liga o céu à terra, e talvez numa reverên-
história sorocabana é o fato de a padroeira da cida- cia devocional a Nossa Senhora da Escada, invocação
de sempre ter sido Nossa Senhora da Ponte. Desde a também existente, que quer recordar o fato evangélico
construção da primeira matriz, em 1660, sob a ad- da Apresentação de Nossa Senhora no Templo, quando
ministração dos padres beneditinos, até o estabeleci- menina, subindo uma escada (Marins, 1994, p.73).
mento da nova matriz, no século XVIII, a Senhora da A última hipótese levantada desperta nossa aten-
Ponte foi venerada. A imagem, que atualmente está ção. O misticismo desenvolvido por frei Agostinho
na igreja catedral da cidade, foi trazida de Portugal, supera a narrativa histórica da mãe de Cristo, desloca
em 1771, e restaurada no ano de 2005.20 a figura mariana da classificação como personagem
Outra marca interessante é a constatação da ori- e a coloca no posto de intercessora, presença viva
ginalidade do título “Senhora da Ponte” para a pa- para os cristãos católicos e mediadora das realida-
droeira de Sorocaba. Trata-se da única invocação no des humana e divina. Talvez essa piedade possa não
Brasil, e isso, certamente, é por demais significativo encontrar nenhuma justificativa do ponto de vista da
no processo cultural e religioso, especificamente, no origem do título, mas é de suma importância na ca-
qual a fé do povo sorocabano solidificou parte da sua racterização da religiosidade sorocabana. Por si mes-
identidade. O trecho do texto da petição enviada ao mo, Maria desfruta de prestígio perene entre a co-
papa João XXIII, solicitando a declaração de Nossa munidade católica; não bastasse isso, por ser aquela
Senhora da Ponte como padroeira de Sorocaba e da que foi o canal da graça do milagre de Deus, na en-
diocese, salienta com veracidade o quanto foi repre- carnação, e receber do Filho o encargo de proteger o
sentativa a eleição de Maria como padroeira, mãe e “discípulo amado”21 e o acompanhar à sua morada,
protetora da cidade: no imaginário religioso sorocabano, a mãe de deus
adota também a “Terra Rasgada” por filha, a cidade e
E assim, Santíssimo Padre, parece-nos que a decretação todos os seus. A imagem portuguesa, para a diocese,
do patronado de Maria Santíssima nesta cidade e dio- é a presença simbólica do sagrado e a certeza da sal-
cese, sob o vocábulo “da Ponte”, ao mesmo tempo tão vaguarda e da comunhão santificadora do povo com
popular pelo símbolo concreto e tão elevantado pela
o Divino. A petição traz um registro que traduz com
idéia piedosa e teológica que significa, não só coloca
na fronte da Rainha dos Céus uma gema preciosa, se-
fidelidade a motivação resoluta:
gundo os poderes confiados a Vossa Santidade sobre o [...] a diocese [...] há trinta e cinco anos, desde que
mesmo céu, mas também aumentará entre os fiéis cató- esta foi criada, os olhos de todos os diocesanos se vol-
licos desta diocese os filiais sentimentos de amor para tam para a catedral, donde devem partir todas as belas
com a Virgem Santíssma, traduzidos em atos piedosos iniciativas e exemplos do solene culto festivo e da pie-
de adoração e serviço do Criador e Redentor, progres- dosa vida cristã [...] em cujo altar-mor se entroniza a

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Rainha e Senhora, única ponte entre o céu ofendido e Nossa Senhora “Aparecidinha”
a terra pecadora. Os diocesanos aprenderam a armar a
“Senhora da Ponte” nas ocasiões memoráveis em que, Em 1758, foi erigida uma capela dedicada a Nossa
[...] celebraram em famosos congressos as glórias do Senhora Aparecida, num bairro rural distante quinze
Senhor e da Igreja, aos pés da imagem querida e sacros- quilômetros do centro de Sorocaba. Reza a lenda que
santa. (Carta de petição, 1960) — diz-se lenda pela falta de documentos comproba-
tórios —, onde hoje se encontra a Igreja, havia uma
A Igreja Católica incentiva os atos devocionais aos
árvore onde os tropeiros depositaram uma imagem
santos e acredita na correspondência destes para com
de Nossa Senhora Aparecida, e todas as vezes que
aqueles que os invocam.22 O motivo maior é a iden-
por ali passavam pediam as bênçãos da “Mãe Apare-
tificação dos santos com o próprio Cristo e sua san-
cida”. Conta-se, ainda, que, no tempo da Guerra do
tidade. Os discípulos fiéis constituem uma “ponte”
Paraguai, os que se escondiam nas matas da Apare-
visível para as pessoas desejosas de pautarem-se por
cida não eram recrutados; e quando havia períodos
um horizonte sobrenatural. Maria é a ponte por exce-
de seca na cidade, os fiéis iam “buscar” a imagem,
lência e sua maternidade ainda transmite às pessoas
então chovia.
uma sensação de conforto e proteção perpétua. Ter
Maria por padroeira é ter uma intervenção assegura- De acordo com o historiador sorocabano Aluísio
da e a permanência da virtuosidade divina no cerne de Almeida, em 1900, devido a um surto de febre
da humanidade militante. amarela, foi organizada uma grande romaria e a ima-
gem foi trazida até a catedral, onde o povo, junta-
No Breve Praecipuo,23 em resposta ao pedido de
mente com o pároco, invocaram a proteção da Mãe
elevação de Nossa Senhora da Ponte padroeira da
de Deus e a epidemia cessou. Até esse período, as
diocese de Sorocaba, o papa João XXIII reitera essa
romarias ocorriam esporadicamente. Depois, foram
súmula e atesta, ao declarar o patronado, a significa-
fixados os meses de janeiro e julho para a realização
ção para o povo sorocabano e sua religiosidade:
das mesmas. Em 1992, dom José Lambert, então bis-
O clero e o povo fiel da cidade e diocese de Sorocaba, po diocesano, elevou a capela à categoria de Santuá-
nos territórios do Brasil, demonstram que a SS. Virgem rio Diocesano de Nossa Senhora Aparecida.
Maria, chamada “da Ponte”, cuja famosa imagem se Apesar do desenvolvimento urbano e da grande
conserva num templo aí construído, é venerada com distância a ser percorrida (cerca de quinze quilôme-
singular afeto de piedade. Coisa esta que muitíssimo tros), é grande o concurso de fiéis nas romarias, tanto
aprovamos, visto como a Mãe de Deus tão pura foi
constituída proteção seguríssima para os mortais que
na primeira (em janeiro), para trazer a imagem para
padecem na viagem da vida terrena, de sorte a pode- a catedral, quanto na segunda (em julho), para levar
rem chegar à meta, que é a pátria celeste. De fato, de tal a imagem de volta para o Santuário. Na edição de
modo aquela devoção marial se apegou aos corações 2005, houve cerca de cem mil romeiros. Esse breve
dos habitantes daquela cidade e região, que tiveram por relato serve para situar tal evento religioso na discus-
sua peculiar defensora a Mãe de Deus, assinalada sobre são proposta.24
aquele nome. Com o que movido, o venerável irmão O ser humano religioso é capaz de explorar a re-
José Carlos de Aguirre, bispo de Sorocaba, significando alidade de tal forma a ponto de resignificá-la e, no
também os desejos do rebanho entregue ao seus cuida-
tocante à romaria de Aparecidinha, é o que ocorre.
do, requereu-nos que declarássemos Nossa Senhora da
Ponte, assim chamada, padroeira celeste da sua diocese É possível inferir que os tropeiros, ao passarem pelo
e cidade episcopal. [...] Portanto, precedendo consulta local, experienciaram o sagrado, no local foi posta a
da Sagrada Congregação dos Ritos, com certa ciência imagem,25que serviu para marcar o “centro-do-mun-
e madura deliberação, e pela plenitude de nosso poder do”, pois ali ocorreu uma hierofania, e pela presença
apostólico, por força destas letras, e de maneira perpé- da mesma o local tornou-se sagrado. Tanto é verda-
tua, constituímos e declaramos a BEM AVENTURADA deira a asserção que nos momentos decisivos a popu-
VIRGEM MARIA, popularmente chamada NOSSA SE- lação para lá acorria a fim de vivenciar, novamente,
NHORA DA PONTE, celeste padroeira principal junto aquele contato primeiro com o sagrado, transcenden-
de Deus de toda a diocese sorocabana e de sua cidade do, para ser capaz de enfrentar, outra vez, a realidade
episcopal, acrescidas todas as honras e privilégios litúr- agora resignificada.
gicos que segundo os ritos competem aos padroeiros
principais dos lugares, nada obstando em contrário. Da mesma forma, a hierofania é tão forte, no caso
(papa João XXIII, 1960) da Aparecidinha, que, quando a imagem se desloca,
sacraliza todo o espaço por onde passa,26 embora seja

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uma sacralização espacial temporária. Percebe-se que imagem não seja o divino e na maioria das vezes re-
a romaria estabelece uma ponte entre a catedral e o presente um santo, no caso em questão Maria, acre-
santuário e, como esses dois espaços são dedicados à dita-se que, pela intercessão desse santo (homem/
mesma santa, temos um continum na hierofania. En- mulher como nós) Deus socorre aqueles que criou
quanto aquela é dedicada à Senhora da Ponte, neste à sua semelhança,31 tornando-se semelhantes a eles32
se invoca a Senhora Aparecida. Voltando ao que foi para resgatá-los.
explicitado sob o título “Ponte”, aqui fica evidente
que se tem um único sagrado, pois toda vez que a
cidade carecia da presença, da proteção do divino,
Conclusão
era estabelecida a “ponte” com aquele que “aparece” A pesquisa foi conduzida de modo a obtermos três
e “vem” em socorro do seu povo. considerações finais, a saber: da relação entre arte
O sagrado manifesta-se em lugares muitas vezes sacra e religiosidade; da realidade religiosa católica
insólitos, privilegiando-os, justamente para eviden- sorocabana, no diferencial da devoção mariana e no
ciar a sua importância e diferença com o entorno conhecimento das tradições populares como a Festa
— no caso do santuário, isso fica mais claro, visto do Divino; e da significação do acervo sacro para a
que o mesmo foi construído num bairro periférico e, Igreja e o povo sorocabano.
na época, de difícil acesso.27 Nesse processo, há três A arte sacra, em união com a religiosidade, ex-
conceitos interligados: ponte, aparecida e romaria. pressa a vida espiritual do ser humano que, ao longo
Com relação à romaria, ela é uma caminhada que dos séculos, representou o seu anseio pela experi-
mentação e resguardo do sagrado, tido como forma
tem sentido de sacrifício, de veneração, de tributo,
ontológica e existencial de provar uma dimensão
de honra e louvor. Por isso se reza e se canta, o que
peculiar que impele o “ser-no-mundo” a sobrepujar
quer dizer que, para o ser humano religioso, não é
a condição finita em que está encerrado. A atitude
lícito “ver a romaria passar”, “recrear-se andando”,
humana da transcendência permite o protesto contra
“passear”, ou “ouvir a música”, tudo isso é distorção.
a realidade e a natureza passageira dos indivíduos. É
Ela é uma oportunidade de gratidão e petição, de de-
nesse momento que o Homo symbolicum age sobre o
monstração de fé, obediência e amor não só pessoal, determinismo biológico e o reconfigura, imprimindo
mas da comunidade que a promove. E também não novo significado ao seu caráter acabado. A arte sacra,
deixa de ser um testemunho comunitário e um con- fruto dessa inquietação e da admiração do mistério
vite àqueles que se encontram afastados de Deus: há insondável da vida, é o produto cultural que atesta o
um convite implícito: “Venham conosco”. movimento antropológico de atribuir sentido a tudo o
Já se viu que, sob o título “Ponte”, reporta-se ao que se apresenta e remete ao sobrenatural.
sentido de ligação entre Deus e o ser humano. Ora, Defendemos, assim, a compreensão segura da
por meio da Aparecida o Divino se manifesta entre o arte sacra pela sua verossimilhança religiosa. So-
povo:28 na impossibilidade de o povo elevar-se, Deus mente aproximando a arte sacra da experiência reli-
rebaixa-se, pela mesma Ponte agora transfigurada (ou giosa do ser humano (e a cultura tem a propriedade
invocada) com Aparecida.29 Dessa forma, quando de promover encontros entre as linguagens simbóli-
ocorrem, as romarias têm dois movimentos duplos, cas) pode-se intuir a complexa semiose alçada pelo
isto é: na primeira (do santuário à catedral), o povo Homo religius na tentativa de captação do sacro na
acompanha o divino que “vem”; na segunda (da cate- concretude do ex-sistir. Esse aspecto, reforçado por
dral ao santuário), o ser humano dirige-se, através da Latour, demonstra que as imagens não são relatos ou
Ponte, ao local sagrado e experimenta ao divino. fotocópias, tampouco a descrição simplória do além-
Nas duas romarias, a única imagem conduzida é mundo. O ponto fulcral é o reflexo da peregrinação
a de Nossa Senhora Aparecida, e nesse trajeto, além humana e de como o ser humano almeja e deseja
de sacralizar toda a cidade, invocando a proteção aquilo que, para ele, está presente , próximo e possí-
do divino, revive-se aquela hierofania primeira. É vel de vivenciar.
interessante notar que o fundamento dessas ativida- Especulando a religiosidade sorocabana, demo-
des religiosas é, no limite, subjetivo. Entretanto, pela nos conta do paradoxo entre o crescente movimento
presença da imagem sacra, esse fundamento torna-se devocional, sobretudo popular (liturgia paralela) e a
palpável. velocidade da urbanização do município e os entra-
Não existe romaria sem andor,30 ou seja, o divino ves para o curso religioso. Foram levantadas evidên-
caminha com o povo, sacralizando-o ao mesmo tem- cias bastante interessantes para o nosso estudo. Em
po que sacraliza o espaço por onde passa. Embora a síntese, tratam-se das seguintes:

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23
• Tanto nas visitas da bandeira do Divino quan- te. Fica evidente o caráter mediático da religião,
to nas romarias, em especial aquela dedicada a estendida a todos os âmbitos deste quadro refe-
Aparecidinha, percebemos o que Mircea deno- rencial.
mina sacralização do espaço, haja vista que não
são apenas homens e mulheres caminhantes, Os pontos levantados devem conduzir a atenção
mas pessoas portadoras de um “mistério reve- para a importância de um Museu de Arte Sacra. De
lado e que se revela presente”. Essa comunhão acordo com os documentos da Pontifícia Comissão
espiritual tem caráter simbólico na medida em para os Bens Culturais da Igreja, o acervo religioso,
que confere unidade entre os elementos huma- nas mais variadas espécies (imagens, fotos, mobiliá-
nos (contingente) e divinos (eternidade). rios etc.), deve ser conservado e estar acessível para a
comunidade religiosa. Os museus “não são depósitos
• O uso de objetos simbólicos é uma constante de achados inanimados, mas viveiros perenes, nos
nas manifestações católicas de religiosidade. Na quais se transmitem no tempo o gênio e a espiritu-
Festa do Divino, o repertório sígnico reporta-nos alidade da comunidade dos crentes” (João Paulo II,
para o sagrado (bandeira, pomba), ao mesmo 1997, p.15). Os bens culturais são a história viva e
tempo que traz presente a realidade humana, a vida atual do povo católico, e devem ser preserva-
culturalmente localizada e assimilada pela tradi- dos tanto pelo que registram quanto pelo que podem
ção festeira (coroa, bastão); a imaginária e sua acrescentar à ação pastoral do presente.
utilização cultual traduz essa semiose.
De fato, ainda que tantas peças já não desenvolvam
• Um fato observável em Sorocaba é a inconstân- uma função eclesial específica, continuam, no entan-
cia de uma religiosidade popular que interfira to, transmitindo uma mensagem que as comunidades
na vida da cidade de modo efetivo, fato que em cristãs, de épocas longínquas, quiseram entregar às
muito se deve ao processo de secularização e gerações sucessivas. (Pontifícia Comissão para os Bens
Culturais da Igreja, 2001, p. 12)
ao estremecimento da identidade cultural local.
Consideramos uma exceção a romaria a Apare- A motivação maior do museu de arte sacra, e isso
cidinha, movimento religioso de massa que em é válido para Sorocaba e todas as demais dioceses,
2006 reuniu, aproximadamente, cento e vinte mil consiste em permitir que o povo católico entre em
pessoas33 (não cabe a nossa pesquisa discorrer contato com a arte sacra e, exercendo a sua religio-
sobre o problema da massificação no contexto sidade, possa beneficiar-se de uma experiência de fé
religioso). Quanto ao Divino, as visitas não dei- através da beleza:
xam de acontecer, embora em algumas regiões
seja realmente notória a participação ativa de de- Neste sentido, o museu eclesiástico converte-se num
votos (sobretudo em algumas paróquias da zona lugar da humanidade e num lugar religioso. Na medi-
da em que o ser humano contemporâneo beneficia-se
norte da cidade34); contudo, parece-nos que, no
do passado, projeta-se no futuro. Na medida em que o
passado, essa devoção era mais participativa, e crente encontra a sua própria história, desfruta da arte,
os rituais populares mais significativos (a bênção vive santamente, anuncia o “Deus omnia in omnibus”.
e distribuição das roscas, por exemplo). (Pontifícia Comissão para os Bens Culturais da Igreja,
2001, p. 75)
• A imagem de Maria goza de um alto valor simbó-
lico. A figura mariana, entre os cristãos, é exaltada A finalidade última da pesquisa consiste em fri-
não simplesmente como testemunho de fé, mas sar o valor da arte sacra para Sorocaba como uma
enquanto índice de um porvir. Interessa-nos, par- concretização material da fé e expressão genuína da
ticularmente, a consideração feita pelo historia- sua cultura, preservação da história, da memória e do
dor sorocabano Aluísio de Almeida, referindo-se itinerário dos seus cidadãos, e suscitar a consciência
ao título de Nossa Senhora da Ponte, aquém das de que um museu dessa natureza não é um “depósito
justificativas e precedentes, que o termo “Ponte” de velharias” e sim parte ativa da vivência religiosa
tecia um vínculo terreno com a existência celes- do povo.

Ciberteologia - Revista de Teologia & Cultura - Ano II, n. 7


24
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25
Notas A partir de Abraão, o Deus “Iahweh” passa a ser
concebido como o único Senhor, e todo o resto
*
Este artigo foi lido e apreciado pelos professores frutos do seu ato criador. Desse modo, o alerta
doutores Paulo Celso da Silva e Nancy R. Kaplan dos profetas foi indispensável para preservar essa
e pelo diretor do Museu Arquidiocesano de Arte verdade de fé.
Sacra MADAS-LAM, professor Marcos de Afonso 13
Cf. Ex 20,25ss.
Marins. 14
Cf. BESANÇON, A. Op. cit.
**
Os autores são bacharéis e licenciados em Filosofia pela 15
Entende-se por ser humano religioso não
Universidade de Sorocaba – UNISO. Contatos: M. F. simplesmente aquele que confessa uma doutrina,
Valverde (michanael@yahoo.com.br) e R .S.de Oliveira mas a pessoa que consegue projetar-se para além do
(roseniltonoliveira@yahoo.com.br). vivido, isto é, através da transcendência consegue
1
Na história da filosofia, muitas são as definições de perceber a dimensão sacra do mundo.
logos. Aristóteles descreve-o como a atividade de 16
Para uma leitura complementar da teoria de Pedro de Assis
dar sentido. Ribeiro de Oliveira, ver P. A. R. de Oliveira, “Religiosidade
2
Cf. LOTMAN, Iuri. Acerca de la semiosfera. Valencia, popular na América Latina”, Revista Eclesiástica Brasileira,
Episteme, 1985. v. 32, fasc. 126, jun./1972.
3
Aqui usado como movimento humano criador. 17
Confira: Mt 28,1ss; Mc 16,1ss; Lc 24,36-50; At
4
Cf. PEIRCE, C. S. Semiótica. 3. ed. São Paulo, 1,6-11.2,1-4.
Perspectiva, 2003. 18
A “casa imperial” consistia numa barraca em forma
5
Para uma melhor compreensão desta perspectiva, cf. Herbert de coroa onde durante as noites da novena eram
Read, A educação pela arte, São Paulo, Martins Fontes, depositadas as insígnias do Divino e, no dia de
2001. Pentecostes, eram abençoadas e distribuídas, em
6
As concepções estéticas de Kant e Hegel apresentam sinal de partilha e união, as “roscas do Divino”.
elementos interessantes a serem usados como 19
Local onde se deu a descida do Espírito Santo sob
adjuntos nesta compreensão. os apóstolos, conforme At 2,1-4.
7
Cf. MUKAROVSKÝ, Jan. Escritos sobre estética e 20
Esta é a segunda imagem de Nossa Senhora da
semiótica da arte. Lisboa, Estampa, 1997. Ponte. A original, trazida pelo fundador da cidade,
8
A arte moderna, sobretudo as artes visuais, trazem Baltazar Fernandes, encontra-se no Museu de Arte
contidas a busca pela reconciliação com o sentido Sacra de São Paulo.
da vida, a apresentação do inapresentável; almeja 21
Jo 19,25-27. De acordo com a teologia católica,
a forma pura, a purificação da “sujeira” do mundo o “discípulo que ele amava” faz menção a todos
decaído. As obras de E. Gombrich e Giulio Argan aqueles que aderiram ao Cristo e seu anúncio.
são subsídios sugeridos para o aprofundamento 22
A chamada “comunhão dos santos”, prescrita na
desta questão. doutrina católica, postula a existência de uma
9
Cf. JANSON, H. W. & JANSON,, Anthony F. Iniciação à história única Igreja, porém em três estados: Igreja militante
da arte. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996. (terrena), Igreja padecente (purgatório) e Igreja
10
A primeira crítica histórica é designada ao retrato triunfante (celeste). Pela graça de Deus, todas elas
de Deus. O Divino, neste caso, não se confunde têm uma ligação espiritual, e isso possibilita a
com o sagrado. O Divino seria o “Algo Outro” pelo intercessão pelos que pedem.
qual a existência humana se torna mais plena; o 23
Carta da Sagrada Congregação para os Ritos,
sagrado é um modo de ser no mundo que permite Vaticano.
a experiência desse “Outro” e que revela a sua 24
Aprofundamentos podem ser feitos em Aluísio de
presença na realidade humana. Almeida, História de Sorocaba, Sorocaba, I. H.
11
Historicamente, os iconoclastas aparecem em G. G., 1969. Para uma pesquisa mais completa,
várias etapas, denominadas, por Alain Besançon, convém consultar os livros do tombo da catedral
ciclos: iniciam na Antigüidade e prosseguem até o e o santuário, embora a maioria das informações
advento da Modernidade, com Calvino, os filósofos sobre a romaria e a devoção de “Aparecidinha”
empiristas e toda a contribuição direta e indireta da esteja na tradição oral.
razão científica. Serão elucidados apenas alguns 25
No santuário erigido no local, encontra-se uma
pontos sobre o assunto. As obras de Besançon e G. imagem fac-símile da imagem de Nossa Senhora
Durand consultadas são de inestimável valia para Aparecida original, conservada no Santuário
uma apuração crítica. Cf. referências. Nacional em Aparecida, São Paulo.
12
No Antigo Testamento, a idolatria referia-se a 26
Impressiona os observadores a quantidade de
elementos da natureza tomados como divindades. casas e indústrias enfeitadas ao longo da romaria,

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26
bem como as inúmeras demonstrações de caridade
(distribuição de água e alimentos).
27
Hoje, existe uma rodovia que liga o bairro ao
centro, mas a romaria ocorre seguindo o trajeto
original, isto é, uma estrada vicinal.
28
Ex 3,6-10.
29
Convém frisar que Maria não é o Deus, como bem
exprime a teologia católica: ela, simplesmente,
reporta a ele.
30
Padiola portátil e ornamentada sobre a qual se
conduzem as imagens nas procissões.
31
Gn 1,26-27.
32
Jo 1,1-14.
33
Número fornecido pelo atual reitor do santuário,
padre Marcos Ribeiro de Carvalho.
34
Serviram de fonte as paróquias Nossa Senhora
de Fátima e São José Operário, duas das maiores
paróquias da zona norte de Sorocaba.

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