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Gestão de Talentos em Foco

De instrutor a facilitador

Benjamin Peres (benjamin@gsmd.com.br), Consultor T&D da GS&MD –


Gouvêa de Souza

Dados da ABTD (2009) mostram que cada vez mais se investe em treinamento
no Brasil. Para se ter uma idéia, em 2003 o investimento médio anual era de
R$ 1.272,00 por pessoa, valor que chegou em 2008 a R$ 1.603,00. Isso é
reflexo da nova mentalidade das empresas, que entendem que seus
colaboradores são seus principais e mais valiosos bens; e dos avanços
tecnológicos que estão a todo o momento trazendo novas e melhores formas
de desempenhar nossas rotinas de trabalho. É incontestável que vivemos em
uma época de crescimento do desenvolvimento de pessoas e que isso é um
diferencial competitivo para as empresas no mercado.
Sob essa nova mentalidade, as empresas e os perfis de colaboradores
mudaram. Com os treinamentos não foi diferente. Em meio a tantas
transformações, a função do instrutor de treinamento não poderia ficar ilesa.
Um novo termo aparece para definir as novas competências e
responsabilidades deste profissional: FACILITADOR.
O (antigo) instrutor normalmente era detentor de conhecimentos específicos
com foco técnico, pouco conhecimento prático e não aportava grande know-
how em ferramentas pedagógicas. Em contrapartida, os novos modelos de
treinamento demandam mais interatividade entre o facilitador, os participantes
e as suas realidades de trabalho. Dessa forma, o “novo” instrutor, agora
chamado de facilitador, deve ter conhecimento e foco prático dos assuntos com
os quais trabalha em sala de aula e ser especialista em metodologias, didática
e condução de grupos.
Outro ponto de mudança inerente ao perfil desses novos profissionais é a
estratégia de transmissão de conteúdo. Os treinamentos embasados em telas
de power point, com o famoso “instrutor passa tela” (que fazia do evento um
grande monólogo expositivo lendo o material projetado) ou o “instrutor sabe
tudo” (que nem telas utilizava e levava o treinamento apenas com o gogó)
foram deixados para trás. O facilitador, hoje, não é necessariamente o provedor
central dos conhecimentos, e sim um intermediador entre o conteúdo e o
aprendiz que, por meio de suas habilidades e ferramentas, transmite, facilita e
constrói o conhecimento junto com o aprendiz.
O que permeia essa e outras mudanças no papel do facilitador é o rompimento
do antigo paradigma de educação, que entendia o aprendiz como desprovido
de qualquer conhecimento ou experiência, e o tratava como um “vaso vazio” a
ser preenchido. Agora o facilitador enxerga os aprendizes como pessoas
diferentes, com múltiplas experiências e culturas que precisam ser levadas em
consideração.
A evidência desse antigo entendimento do aprendiz é a origem do termo
ALUNO. O debate que gira em torno dessa palavra tem duas vertentes. A
primeira entende a palavra “a-luno” como “sem luz”; e a segunda explica que a
etimologia da palavra “aluno” é “criança de peito”, “lactante”, “desnutrido” etc.
Ambas nos remetem à idéia de que o aprendiz está desprovido de experiências
prévias.
Se os aprendizes são diferentes e aprendem de formas diferentes, seria
impossível conceber um treinamento que se sustentasse em apenas um
formato de aprendizagem. Explorar diferentes maneiras de transmissão de
conteúdos é outra marca registrada do novo facilitador que, se percebe que um
assunto não foi apropriado pela turma, não se limita em voltar telas, reler textos
e explicar novamente. Em vez disso, utiliza suas habilidades para transmitir as
mensagens relevantes do conteúdo trabalhado.
A diferenciação do que é um conteúdo e o que é uma mensagem é outro ponto
importante a ser destacado. O conteúdo pelo conteúdo não agrega e tampouco
constrói algo na formação do aprendiz. Apresentar, discutir e construir junto
com a turma um significado para os conteúdos apresentados é outra função do
facilitador – e é isso que chamamos de mensagem. Como exemplo disso,
imagine um instrutor que em seu treinamento de um novo aparelho de celular
se limita a apresentar apenas as características deste aparelho: tem quatro
milímetros de espessura e pesa 150 gramas. E daí? Isso não garante que o
vendedor apresentará ao seu cliente o produto como “portátil e leve”.
Investir para melhorar o desempenho dos facilitadores é garantir
aprendizagem, alinhamento estratégico e eficiência operacional a todos os
colaboradores. E é isso que está fazendo a Telefônica, que, preocupada com a
formação de seus teleoperadores, não só reestruturou todo o material de
treinamento para este público como preparou um Programa de Formação de
Facilitadores para todos que treinam esse público. Nas entrelinhas desse
projeto, a preocupação da empresa vai além dos materiais, conteúdos,
metodologias e alinhamentos necessários para a aplicação do treinamento e
abrange a forma como todos os materiais estão sendo explorados.
O bom facilitador é aquele que está preparado para desenvolver o treinamento
independentemente de recursos técnicos e materiais de apoio. Portanto, fique
de olho no desempenho de seus profissionais de treinamento, pois muitas
vezes a falta dos resultados esperados pode ser consequência da forma como
o treinamento esta sendo aplicado. Afinal, você tem instrutores ou
facilitadores?