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Rezando o Legado de
Marcelino Champagnat
Rede Marista (RS, DF, Amazônia)
Província Marista do Rio Grande do Sul

Rezando o Legado de
Marcelino Champagnat
Expediente
Rezando o Legado de Marcelino Champagnat
Província Marista do Rio Grande do Sul
Rede Marista (RS, DF, Amazônia)

Superior Provincial/Presidente – Ir. Inacio Etges

Conselho Provincial/Conselho Administrativo – Ir. Claudiano


Tiecher, Ir. Deivis Alexandre Fischer, Ir. Evilázio Borges Teixeira, Ir.
Lauri Heck, Ir. Odilmar Fachi, Ir. Sandro André Bobrzyk

Grupo de trabalho: Irmãos André Dall’Agnol, Bruno Klein, Clau-


diano Tiecher, Deivis Fischer, Genuíno Benini, Miro Reckziegel,
Sebastião Ferrarini.
Coordenação editorial: Ir. Claudiano Tiecher
Produção: Assessoria de Comunicação Corporativa
Revisão: Ir. Salvador Durante e Conselho Editorial da PMRS
Projeto gráfico: Alessandra Pacheco
Diagramação: Design de Maria
Apresentação

O Instituto dos Irmãos Maristas está rumando para o seu


Bicentenário. É um momento histórico e único. É ao mes-
mo tempo um ponto de chegada e ponto de partida. Como
ponto de chegada, é olhar para o passado com um coração
grato e misericordioso. Olhar de gratidão pelas primeiras
gerações de Irmãos que seguiram as pegadas de Champag-
nat com destemor, pelo testemunho heroico de muitos Ir-
mãos fiéis até o final, inclusive com o martírio. Ao mesmo
tempo um olhar de misericórdia, de perdão pelas omissões,
resistências às inspirações do Espírito e infidelidades tanto
pessoais, quanto institucionais. A atitude recomendável é
de aceitar o passado como foi e partir rumo ao futuro.

Olhando para o futuro, é recomendável que tenhamos


em conta o que o decreto Perfectae Caritatis nos alerta acer-
ca da renovação da Vida Religiosa Consagrada. Recomenda
o documento, termos um olhar muito atento ao “espírito e
à intencionalidade do Fundador” ao iniciar este movimento
na Igreja. Desta base, rumar para um “Novo Começo” para
Despertar o nascer de uma nova aurora do Instituto.

As cartas de nosso Fundador são o que há de mais ge-


nuíno de seu espírito e de suas intencionalidades. Há inú-
meros testemunhos valiosos da vida de nosso Fundador,
mas nada mais inspirador que beber das fontes originárias
de seu próprio punho.

Em formato de roteiros de oração, numa chave de lei-


tura orante, os autores dos subsídios remetem-se ao ícone
clássico do triênio de preparação ao Bicentenário que é a
casa de La Valla que sintetiza de modo inequívoco as três
grandes vertentes de nossa MISSÃO (andar superior da
construção); a VIDA FRATERNA em comunidade (piso tér-
reo); a MÍSTICA (subsolo). Tenhamos a convicção de que a
missão é sustentada pela profecia da fraternidade e esta
por sua vez, tem seu segredo na Mística, na experiência de
intimidade com Jesus Cristo.

Agradeço aos componentes do Grupo de Trabalho es-


pecialmente nomeado para compor este Livro de Orações.
Aos Irmãos André Dall’Agnol, Bruno Klein, Claudiano Tie-
cher, Deivis Fischer, Genuino Benini, Miro Reckziegel e Se-
bastião Ferrarini, nossa gratidão por nos oferecerem estes
subsídios valiosos, que muito contribuirão para voltarmos
às fontes e lá encontrarmos pistas para um novo horizonte
em nossa Província e no Instituto.

Irmãos e leigos/as Maristas de Champagnat, que Maria,


nossa fiel Cuidadora, nos ajude a sermos os protagonistas,
com o Senhor, deste novo amanhecer.

Ir. Inacio Nestor Etges


Provincial
Introdução

A internacionalização do Instituto precipitada pela expul-


são dos Irmãos da França, em 1903, proporcionou diferen-
tes encarnações do carisma nas culturas em que surgiram
as novas fundações de comunidades e obras Maristas. Com
a expansão havia a possibilidade de fragmentar-se a unida-
de do Instituto. O grande elo que assegurou a unidade foi o
patrimônio espiritual herdado de Marcelino Champagnat e
conservado pelos seus discípulos, nas diversas regiões e cul-
turas em que se estabeleceram após a expulsão (C 9).

Nas diferentes regiões e culturas em que o Instituto exer-


ce seu apostolado é dever dos apóstolos maristas manter
vivo o conhecimento do Fundador, dos primeiros Irmãos e
da história do Instituto para conservar, aprofundar e desen-
volver nosso patrimônio espiritual marista (C 164.2).

Assim, a Província Marista do Rio Grande do Sul/Rede


Marista, buscando a unidade com o Instituto e em comu-
nhão de oração com o Legado de Marcelino, designou um
grupo de Irmãos para elaborar subsídios orantes a partir de
algumas Cartas do Pe. Champagnat, à luz da metodologia
de estudo das Cartas.

Rezando as Cartas de Marcelino, busca-se a comunhão


e unidade recomendadas pelas Constituições. Rezando

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este inestimável Patrimônio Espiritual, queremos conhe-
cer melhor nosso Fundador e os Primeiros Irmãos, conser-
var, aprofundar e desenvolver a natureza, o fim e o espírito
do Instituto.

É dever de todo o Marista de Champagnat conservar,


difundir e aprofundar a unidade e comunhão em torno do
patrimônio espiritual herdado, tão vivamente recomenda-
do por Marcelino no seu Testamento Espiritual: “Amem-se
uns aos outros como Jesus Cristo os amou. Que haja entre vo-
cês um só coração e um só espírito”.

O animador da oração pode valer-se do roteiro inteiro


tal qual vem apresentado ou em parte, segundo o tempo
e a natureza do grupo com o qual está rezando. Sugere-
se que conduza a oração com calma, provocando o grupo
para tempos de interiorização, partilha e contextualização
segundo o ritmo e estilo de vida dos presentes.

Desejamos que esta forma de rezar as Cartas nos aju-


de a intensificar nossa comunhão com as pessoas que nos
circundam no dia a dia e para que possamos ser místicos
e profetas em meio às crianças, jovens e adultos de hoje,
como deseja São Marcelino, neste caminho rumo ao Bicen-
tenário de nossa Fundação e na fidelidade criativa do Caris-
ma no novo século.

Grupo de Trabalho
Orientações para
utilização deste livro

Rezando o Legado de Champagnat foi um trabalho reali-


zado por diversas mãos, mentes e corações, que buscaram
uma maneira de enriquecer a oração com escritos do Fun-
dador. Trata de um conjunto de orações elaboradas por um
grupo de Irmãos a partir de temas extraídos das cartas ativas
de Champagnat.
Cada proposta de oração foi composta a partir de uma
carta. Nela, procurou-se identificar um tema que se tornou o
núcleo central daquele momento. São propostas que devem
ser adaptadas de acordo com o grupo, o tempo litúrgico e o
ambiente em que será utilizada.
• A oração inicia com uma proposta de ambientação, que
deve ser adaptada ao tema e ao estilo da comunidade.
• Segue uma introdução, com a situação, o contexto da car-
ta, personagens e lugares, ajudando na compreensão do
texto que será rezado.
• Na sequência apresenta-se o texto completo ou um frag-
mento da carta, dependendo do tamanho dela ou mes-
mo do foco do tema.
• Em seguida, há algumas atitudes, pensamentos e/ou men-
talidade que foram inspirados pelo conteúdo da carta.
Chegou-se a esses elementos em espírito orante, bus-
cando desconstruir/construir a imagem de Champag-
nat, conforme a metodologia proposta pelo Ir. Aureliano
Brambila no Cepam/México.
Algumas propostas de oração contêm a sugestão de tex-
tos que servem como iluminação bíblica, reflexos em nossa
legislação atual, escritos dos Superiores Gerais, documentos
da Igreja e do Instituto. Esses elementos querem nos ajudar a
perceber como os temas presentes no escrito de Champag-
nat ressoam hoje na Igreja e no Instituto.
Sugerem-se, em cada uma das orações, algumas pistas
que podem inspirar a meditação e a interiorização. Tratam
de questões, motivações e extratos de alguns pensamentos.
O animador deve ficar à vontade para conduzir esse momen-
to com as questões que melhor aprouver. Reforça-se a neces-
sidade de deixar tempo para a meditação, com um profundo
silêncio, para contemplar as situações e memórias da vida.
No fim de cada oração, sugere-se alguma prece final, can-
to, de maneira que ajude a comunidade a concluir o momento
coletivamente. Para facilitar a preparação das orações, acom-
panha o livro, um CD com cantos e mantras. As indicações dos
números dos cantos correspondem ao livro Cantando.
Esperamos que tudo o que foi pensado e elaborado com
tanto carinho sirva para melhor rezar o Legado que recebe-
mos de nosso Fundador, no caso do presente livro, por meio
dos seus escritos.
Que o Espírito do Senhor sopre em nós vida e fidelidade!
Sumário
Núm. Pág. no Livro Pág. deste
Tema da carta
Carta das Cartas Livro
1. Sublimidade da Missão Marista 14 49 12
2. Zelo Apostólico 19 58 20
3. Confiança nas provações 30 81 25
4. Missão Fundacional 34 91 33
5. Um apelo à reconciliação fraterna 42 106 39
6. Perfil do Gestor Marista 56 134 45
7. Fundados para a educação dos jovens 59 140 50
8. Espírito de Família 63 151 56
9. Todas as dioceses entram em nossos planos 112 242 63
10. Memória dos que nos precederam
135 285 70
na Missão Marista
11. Cuidar das Pessoas 138 291 78
12. Amor aos Irmãos 163 333 84
13. Alma missionária do Instituto 164 335 91
14. Memórias de Família 180 378 101
15. Diante das dificuldades 183 386 109
16. Discernimento da Vontade de Deus 192 404 117
17. Devoção a Maria 194 409 124
18. Confiança em Deus nas adversidades 197 418 133
19. Discernimento das obras apostólicas 213 449 140
20. Expressar a felicidade aos Irmãos 242 505 147
21. Presença de Deus na Vida e na Eucaristia 247 512 153
22. Acompanhamento Espiritual 249 515 159
23. Cultivo e formação pessoal 318 629 166
24. Diversidade da Missão 320 635 173
25. Espírito Solidário 336 666 180
26. Sensiblidade pastoral 339 672 186

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1. Sublimidade
da Missão Marista

“Como é grande o trabalho que vocês fazem,


como é sublime.
1. Sublimidade
da missão Marista
(Carta 14 – ao Irmão Barthélémy – 21/1/1930)

1. Ambientação
Fotos de crianças, escolas e espaços da missão marista.
Mapa ou foto da cidade de Ampuis.

2. Introdução/situação/contexto
Esta carta é resposta a uma do Irmão Barthélemy, es-
crita em primeiro de janeiro, para desejar ao Fundador um
Feliz Ano-Novo e a alguma confidência ou consulta. Mas
o caráter da carta era também de felicitar o Irmão Barthé-
lémy por sua vida, elogiá-lo por suas virtudes pessoais e
consagrá-lo como modelo e exemplo na educação dos
seus meninos.

Barthélemy Badard (1804-1877), quinto Irmão que ingres-


sou no Instituto, nasceu em La Valla no dia 24 de abril de 1804.
Filho de Jean Mª. Badard e Jeanne Marie Teillard. O pai era um
simples ‘jornaleiro’ e era o sacristão da paróquia de La Valla no
tempo do Pe. Champagnat. A família era bastante pobre.

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O Padre Champagnat mostra a importância da vocação e
da missão marista e anima o Irmão a perseverar na vocação.
O recado para os alunos é um retrato do amor que o Padre
Champagnat sempre demonstrou para com os meninos.

A carta é endereçada ao Irmão Diretor, mas, a certa al-


tura, o Fundador muda o tratamento para o plural, para os
demais Irmãos da comunidade.

3. Texto da Carta
Meu caro Irmão Barthélémy e seu caro colaborador:

Fiquei muito satisfeito de receber notícias suas. Fico satis-


feito de saber que vocês estão com boa saúde. Sei também
que estão com muitos alunos e que, portanto, terão também
muitas cópias de suas virtudes, pois é seguindo estes modelos
que seus alunos se formam. De acordo com os exemplos que
vocês derem é que eles vão pautar o comportamento deles.

Como é grande o trabalho que vocês fazem, como é su-


blime! Vocês estão continuamente em companhia daqueles
com os quais Jesus se comprazia, já que proibia expressa-
mente a seus discípulos de impedir as crianças a se achega-
rem a Ele.

E você, meu caro amigo, não só não impede, mas ainda


faz de tudo para conduzi-las a Jesus. Oh! Que bela recepção
vai ter da parte do divino Mestre, este Mestre generoso, que
não deixa sequer um copo de água fresca sem recompensa.

14 Sublimidade da missão Marista


Digam a seus meninos que Jesus e Maria gostam mui-
to deles todos: dos que são bem comportados porque são
parecidos com Jesus, que é o máximo de bem-comportado;
dos que ainda não são, porque eles serão. Digam que Nossa
Senhora também gosta deles porque Ela é a Mãe de todos
os meninos de nossas escolas. Também digam a eles que eu
os amo, que não subo ao altar sem pensar em vocês e em
seus queridos alunos. Desejaria eu ter a felicidade de ensi-
nar, de consagrar minhas atenções de maneira mais direta
para formar essas crianças delicadas.

Todos os demais estabelecimentos vão mais ou menos


bem. Rezem por mim e por toda a casa.

Tenho a honra de ser seu pai muito dedicado, em Jesus


e Maria,

Champagnat
Superior dos Irmãos Maristas
Notre Dame de l’Hermitage, 21 de janeiro de 1830

4. Atitudes e Mentalidade de Marcelino


• Satisfação: A escola estava com um bom número de
alunos.

• Orgulho: Pelo bom trabalho desempenhado pelos Ir-


mãos. “Como é grande o trabalho que vocês fazem...”

• Animador: Motiva em continuar o trabalho.

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• Pertença/responsável pela obra: “Digam a eles que eu
os amo...”

• Oração: Reza por todos. “não subo ao altar sem pensar


em vocês...”

• Confiança na recompensa eterna: “Que bela recepção


vai ter...”

• Vivência dos Valores do Evangelho: “Vocês estão con-


tinuamente em companhia daqueles com os quais Jesus
se comprazia”. “Um dos que ouviram a João e seguiram a
Jesus, era André, o irmão de Simão Pedro. Encontrou-o e
em seguida a seu irmão, Simão, lhe disse: ‘Encontramos
o Messias – que significa o Ungido’. E ele o conduziu a
Jesus” (Jo 1, 41-42; Jo 5, 1-18).

• Focado na finalidade da Congregação: estar com as


crianças, amá-las e conduzi-las a Jesus.

• Convicção: Irmãos estavam em companhia dos preferi-


dos de Jesus: as crianças.

• Perseverante.

16 Sublimidade da missão Marista


5. Para ajudar a rezar – Interiorização
Champagnat na carta mostra ter a visão global da sua
missão. É objetivo e direto no tratamento, fixando-se so-
mente no essencial. É um dos textos mais significativos do
fundador e, por isso mesmo, um dos mais difíceis de apro-
fundar. A grande simplicidade do texto parece descartar, à
primeira vista, todo e qualquer comentário.

Marcelino Champagnat consagrou toda a sua vida ao


apostolado da educação cristã. É um educador nato. Não é
nenhum teórico da educação. Nessa perspectiva esta carta
reflete fundamentalmente o ideal de sua alma. Não há refe-
rências aos grandes princípios da educação e da vida religio-
sa. Usa do coração para dar as orientações pedagógicas.

A presença junto aos alunos e o tempo, fatores essen-


ciais na educação, aparecem em relevo nessas linhas. Po-
rém, o essencial parece ser mais o paralelismo com Jesus
Cristo, a imitação e a prolongação de seu amor para com as
crianças; poderíamos até falar de «identificação» com Ele.
Aquilo que constitui a missão essencial da vida do Irmão -
«estar continuamente com as crianças e jovens» - constituía
um dos desejos mais íntimos do divino Salvador. Certamen-
te não devemos esquecer que o que faz nascer o desejo de
estar juntos é o AMOR. O amor é, ao mesmo tempo, a alma
e o motor de toda a comunidade, seja familiar ou escolar.

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O Fundador deseja para seus Irmãos educadores uma
identificação com o Mestre divino a quem devem «copiar
traço a traço» (usando uma expressão do próprio Cham-
pagnat numa das instruções durante um retiro). Dessa for-
ma, a vocação do educador religioso encerra esta dupla
identificação (com Cristo e com as crianças/jovens). Essa
identificação com o modelo divino é, sem dúvida, o que
faz com que o Fundador mencione várias vezes, em seus
escritos, essa passagem evangélica.

Qual o sentido que atribuo à minha missão/apostolado?

Quais são as crianças e jovens que estão presentes em


minha oração? Recorde nomes e reze por eles.

Partilhe um aspecto significativo da sua missão junto


às crianças, adolescentes e jovens.

6. Reminiscências bíblicas
• Mt 25,31-46: Parábola do Juízo Final (recompensa para
aqueles que agirem com caridade).

• Mc 10,14: “Deixai que as crianças venham a mim e não


as impeçais, porque delas é o Reino de Deus”.

18 Sublimidade da missão Marista


7. Momento final
Preces espontâneas em sintonia com a Missão Marista

Sugestão de cantos: Hoje Serás Champagnat (183); ou


Champagnat, grande amigo (167); ou: Viva hoje o sonho de
Champagnat (188).

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2. Zelo Apostólico

Veja como o seu trabalho


é precioso diante de Deus.
2. Zelo Apostólico
(Carta 19 – ao Ir. Barthélemy – 3/1/1831)

1. Ambientação
Envelope de carta, Postais de Natal, de Ano-Novo, es-
tampa de família, Manuais de catequese…

2. Introdução/situação/contexto
A carta é resposta aos votos de Feliz Ano-Novo que o
Ir. Barthélemy deve ter enviado ao Pe. Champagnat. Ela
enaltece a missão de educador e faz algumas oportunas
recomendações ao caro Irmão para que cumpra bem o seu
ministério. Champagnat mostra-se como um verdadeiro
pai para os seus Irmãos e que está a par até de como estão
os seus familiares.

3. Carta
Viva Jesus, viva Maria e viva São José! Meu caríssimo Irmão
Barthélemy: Não tenha dúvida que eu considero a todos vocês
como meus queridos filhos em Jesus e Maria e vocês me cha-
mam com o carinhoso nome de pai; por isso trago a todos bem
no fundo de meu coração. Fico muito sensibilizado pelos votos
de felicidade que você formulou para mim, não me esquecerei

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deles. Recomendarei a Deus, em minhas orações, aquele que
formulou para mim tão belos votos. Tomo parte deveras em to-
dos os aborrecimentos que lhe podem causar os contratempos
sofridos por seus colaboradores. Tome muito cuidado com sua
saúde, a fim de que esteja em boas condições para cumprir seus
pesados encargos. Todos os Padres e Irmãos vão bem de saú-
de. Transmitirei a eles seus votos de feliz Ano-Novo. Ânimo, meu
caro amigo, veja como seu trabalho é precioso diante de Deus.
Grandes santos e homens notáveis se ufanavam por estarem
desempenhando uma tarefa tão preciosa aos olhos de Deus e
de Maria. “Deixai vir a mim as criancinhas, pois a elas perten-
ce o céu.” Você tem em mãos o sangue precioso de Jesus Cristo.
Depois de Deus, é a você que seus numerosos alunos ficarão de-
vendo a salvação. Toda a vida deles será o eco daquilo que você
lhes tiver ensinado. Esforce-se, não poupe nada para formar à
virtude seus corações juvenis. Faça ver a eles que nunca serão
felizes sem a prática da virtude, sem a piedade, sem o temor de
Deus; que não há paz para o ímpio. Somente Deus pode dar-
lhes a felicidade, que só para Ele foram criados. Quanto bem
você pode fazer, meu amigo! Seus pais estão de boa saúde. Seu
irmão, que servia o exército, faleceu em Paris, de uma terrível
dor de cabeça. Reze por ele. Os pêsames não lhe servirão para
nada; ele só precisa de suas orações.Teria ainda muito a lhe di-
zer, espero que breve lhe poderei contar tudo de viva voz. Deixo
vocês dois nos Sagrados Corações de Jesus e de Maria, que são
bons lugares! Tenho a honra de ser o pai afetuoso em Jesus e
Maria, Champagnat – Superior dos Irmãos – Notre Dame de
l´Hermitage,3 janeiro de 1831.

22 Zelo Apostólico
4. Atitudes e Mentalidade de Marcelino
• Afetuoso: … “Vocês me chamam com o carinhoso nome
de pai. Fico sensibilizado pelos votos de felicidade que você
formulou para mim”. … “trago a todos bem no fundo do
meu coração”.

• O espírito de família: “Todos os Padres e Irmãos vão


bem de saúde. Transmitirei a eles os seus votos de Feliz
Ano-Novo.”

• Sensibilidade: “Tomo parte deveras em todos os aborre-


cimentos que lhes podem causar contratempos…”.

• Comunhão: “Recomendarei a Deus, em minhas orações,


aquele que formulou para mim tão belos votos”.

• Interesse pela saúde física e espiritual dos Irmãos:


“Tome cuidado com sua saúde a fim de que esteja em boas
condições para cumprir seus pesados encargos”.

• Cuidado pela vida: “Seus pais estão de boa saúde. Seu


Irmão, que servia no exército,faleceu em Paris de uma terrí-
vel dor de cabeça. Reze por ele”.

• Zelo apostólico: “Veja como o seu trabalho é precioso


diante de Deus… Você tem em mãos o sangue precioso de
Jesus Cristo… (as crianças) esforce-se , não poupe nada para
formar à virtude seus corações juvenis”.

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5. Para ajudar a rezar – Interiorização
Champagnat assume sua paternidade para com os Ir-
mãos de bom grado e carinhoso afeto. Mostra que tam-
bém é paternal para com os familiares dos Irmãos. Sabe da
confiança que os Irmãos depositam nele. Marcelino reflete
amor, respeito e carinho por seus Irmãos.

Reze pelos Irmãos que estão passando por dificuldades em


sua missão.

Retomando alguns aspectos dessa carta, interrogamo-nos:

Como podemos ser Champagnat hoje, onde atuamos?

– Temos senso de paternidade, para com as crianças, jo-


vens e aqueles que trabalham conosco na mesma missão?

Faça memória do seu apostolado e reze por alguma pes-


soa ou situação.

Tempo pessoal

Partilha de sentimentos que brotaram a partir desta ora-


ção-reflexão.

6. Momento Final
Canto: Quando encontro um menino (182) ou Amai-vos
como eu vos tenho amado (162).

24 Zelo Apostólico
3. Confiança nas provações

Tranquilizo meus filhos; digo-lhes que nada


temam; que eu compartilharei de todos os
seus dissabores, partilhando até o último
pedaço de pão.
3. Confiança nas provações
(Carta 30 – ao Pe. Jean Cholleton, vigário-geral de Lyon –
agosto e setembro/1833)

1. Ambientação
Fotos de diversos espaços de missão

2. Introdução/situação/contexto
Marcelino escreve ao Pe. Cholleton (Vigário-Geral de
Lyon, encarregado de assuntos da Sociedade de Maria na
arquidiocese) por estar sendo pressionado a fazer a fusão
dos Irmãos Maristas com os Clérigos de Saint-Viateur, do
Pe. Querbes; estes, aprovados pelo governo francês desde
1830. Vemos a causa que motiva a fusão: fracasso nas ges-
tões da autorização legal do Instituto.

O Padre Champagnat ainda não tinha se pronunciado


a favor ou contra a fusão projetada entre sua Congregação
e a do Pe. Querbes. Depois de ter consultado seus Irmãos
sobre o assunto, o fundador expressa ao Vigário-geral, com
grande e comovente simplicidade, os motivos pelos quais
não atendeu a seus pedidos. Relata as diferentes situações

26 Confiança nas provações


que tem enfrentado ao longo dos anos à frente da socie-
dade dos Irmãos. Revela que, para além de todas as difi-
culdades, sempre depositou grande esperança em Maria e
acendrado amor aos Irmãos.

Manchas de água aparecendo no último parágrafo, po-


deriam ser simples gotas de chuva, ou, de acordo com o
Irmão Pierre Zind, um dos grandes estudiosos e pesquisa-
dores da Congregação, gotas de lágrimas derramadas pelo
fundador ao escrever uma carta de teor semelhante.

Com certeza, este é um dos mais notáveis documentos


do Pe. Champagnat. Mesmo sendo um rascunho, é de gran-
de valor para os estudiosos e pesquisadores da personali-
dade espiritual de nosso fundador.

3. Leitura da Carta
Senhor Vigário-Geral:

Ainda não fiz a viagem a Vourles:

1º) porque estive muito assoberbado de serviço; 2º) porque


não estimei que me tivesse sido mandada; 3º) porque não en-
tendi bem de que se tratava; parece-me ter ouvido falar que
o Padre Querbes queria fazer-se marista; nesse caso, seria de-
ver do Pároco de Vourles tomar as primeiras providências. 4º)
nenhum dos meus confrades com os quais conversei aprova
essa viagem; num caso de tanta importância, penso que por
iniciativa própria não compete a mim dar o primeiro passo.

27
Não me atrevo a comentar isso com os Irmãos, tendo em
vista o rebuliço que se deu com os de Millery quando alguém
tocou no assunto. No tempo em que sozinho, após o lamentá-
vel desfecho do caso do Padre Courveille e a deserção do Padre
Terraillon, o senhor me aconselhou que falasse com o Padre
Querbes, para ver se chegaríamos a um acordo. Efetivamente
estive com ele, mas não cheguei a nenhum acordo, como já
tive a honra de dizer-lhe.

Depois de ameaças, as mais terríveis que se possam fazer


a um Padre que se desgasta na saúde e em seus haveres, vi
renascer a calma com a chegada de Dom De Pins. Dentro de
pouco tempo, porém, novos perigos, mais terríveis que os an-
teriores, se armam contra os Pequenos Irmãos de Maria.

Nefasta foi a medida que, a conselho do Padre Superior,


levei a cabo, indo a Epercieux buscar o Padre Courveille! Ó dia
realmente nefasto, capaz de deitar abaixo uma instituição,
caso não estivesse solidamente amparada pelo braço forte da
divina Maria!

Durante uma doença grave e prolongada, estando eu


afogado em dívidas, quero constituir o Padre Terraillon meu
herdeiro universal. O Padre Terraillon recusa minha herança,
dizendo que eu nada tenho, ao mesmo tempo que não para
de bisbilhotar com o Padre Courveille, junto aos Irmãos: “Não
demora que os credores virão expulsar vocês daqui. Quanto a
nós, é só aceitar uma paróquia e largar de vocês”.

Por fim, Deus em sua infinita misericórdia, – ai! que digo?


– talvez em sua justiça, me devolve por fim a saúde. Tranqui-

28 Confiança nas provações


lizo meus filhos; digo-lhes que nada temam, que eu compar-
tilharei de todos os seus dissabores, partilhando até o último
pedaço de pão.

Foi nesta contingência que constatei que nem um nem ou-


tro tinham para com os jovens sentimentos de pai.

Não tenho nenhuma queixa contra o Pároco de Notre


Dame, cujo proceder em nossa casa foi sempre exemplar.

Com o afastamento do Padre Courveille e a saída do Padre


Terraillon, fiquei sozinho; porém, Maria não nos abandona.
Aos poucos vamos pagando as dívidas, outros coirmãos vêm
tomar o lugar dos primeiros. Estou sozinho para pagar os cus-
tos da manutenção deles. Maria nos ajuda, e isso nos basta.

Tenho a honra de ser...


Champagnat

4. Atitudes e Mentalidade de Marcelino


• Franqueza, transparência e simplicidade: “... ainda
não fiz a viagem a Vourles: porque estive muito assober-
bado de serviço (...). O senhor me aconselhou que falasse
com o Padre Querbes, para ver se chegaríamos a um acor-
do. Efetivamente estive com ele, mas não chegamos a ne-
nhum acordo, como já tive a honra de dizer-lhe”.

• Confiança em Deus: “Deus em sua infinita misericórdia, – ai!


que digo? – talvez em sua justiça, me devolve por fim a saúde”.

29
• Confiança “absoluta” em Maria: “...capaz de derrubar
uma instituição, caso não estivesse solidamente ampara-
da pelo braço forte da divina Maria! Maria não nos aban-
donará”. “Maria nos ajuda, e isso nos basta”.

• Carinho, paternidade para com os Irmãos e respon-


sabilidade no trabalho realizado: “Tranquilizo meus fi-
lhos; digo-lhes que nada temam; que eu compartilharei de
todos os seus dissabores, partilhando até o último pedaço
de pão”.

• Autonomia saudável para expor seu ponto de vis-


ta sobre a situação: “Porque não interpretei a questão
como uma ordem”.

• Prudência para não contar a situação para os Irmãos:


“...Não me atrevo a comentar isso com os Irmãos, tendo em
vista o rebuliço que se deu com os de Millery quando al-
guém tocou no assunto”.

• Perguntar e envolver seus coirmãos na decisão: “ne-


nhum dos meus confrades que consultei aprova a viagem
e numa questão de tanta importância, penso que por ini-
ciativa própria não compete a mim dar o primeiro passo”.

• Profunda sensibilidade humana e espiritual: “Foi


nesta contingência que constatei que nem um nem outro
tinham para com os jovens sentimentos de pai. Estou sozi-
nho para pagar os custos da manutenção deles”.

• Equilíbrio em suas opiniões: “Vi, finalmente, com a che-


gada do Bispo De Pins, renascer a paz”.

30 Confiança nas provações


• Habilidade política: “Eu não tenho nenhuma queixa
contra o Sr. Cura de Notre Dame, porque a sua conduta em
nossa casa sempre foi edificante”.

5. Para ajudar a rezar – Interiorização


De acordo com os diferentes acontecimentos e situa-
ções que o Pe. Marcelino teve que enfrentar, podemos com-
preender seu estado psicoespiritual manifestado de manei-
ra muito simples e sincera na carta que escreve a Cholleton.
A carta revela um marco no itinerário humanoespiritual de
nosso fundador, mostrando-nos um Marcelino Champag-
nat profundamente humano e espiritual; um homem de
grande força e sensibilidade. Finalmente podemos dizer
que revela um Marcelino fundamentado sobre a rocha: ab-
soluta confiança em Deus e na proteção de Maria.

• Vale a pena, é necessário gastar as forças físicas e os re-


cursos por um projeto? Que projeto?

• Que requisitos são imprescindíveis para tomar uma de-


cisão e se chegar a um bom termo?

Champagnat não foi um “super-herói”. Pelo contrário,


sua vida foi provada por muitas situações difíceis. A maes-
tria na forma de superar as provações está na capacidade
de colocar tudo nas mãos de Maria e saber que o que so-
mos é graça de Deus. Champagnat demonstrava uma con-
fiança filial, pois mesmo passando por tamanha angústia,
sabia que Maria estava ao seu lado.

31
• Como agimos diante das fragilidades da vida?

Ofereça suas fragilidades ao Senhor e peça que Ele fe-


cunde a sua ação apostólica.

Partilhe o que mais o tocou nesta oração.

6. Aportes bíblicos
• Sl 25,18: Olha para a minha aflição e para a minha dor, e
perdoa todos os meus pecados.

• Is 50, 4-11: Cântico do Servo Sofredor

• Rm 8, 31-39;

• 2Cor 4, 7ss

7. Momento final
Sugestão: Quando encontro um menino (182); ou: Con-
fiai, recorrei (169).

32 Confiança nas provações


4. Missão Fundacional

Comecei, pois, a preparar alguns professo-


res. Dei-lhes o nome de Irmãozinhos de
Maria, convencidíssimo de que este nome
bastaria para atrair muitas pessoas.

33
4. Missão Fundacional
(Carta 34 – ao Rei Luís Filipe – 28/1/1834)

1. Ambientação
Imagem de Champagnat, flores, vela, fotos de família,
diversos espaços de missão.

2. Motivação
Todo compromisso exige de nós esforço e boa vonta-
de. Tudo que seja fácil demais, não tem gosto de vitória.
Como já dizia o poeta, “o sabor da viagem está na travessia”,
é no caminho que fazemos escolhas, criamos convicções,
encontramos pessoas. Tudo é graça, tudo serve para nosso
crescimento.

3. Contexto
Marcelino escreve ao Rei sobre a Sociedade de Irmãos e
situações que a inspirou. Tudo isso a fim de pedir a autori-
zação legal dos Irmãos Maristas.

Esta carta apresenta-se em duas versões. A primeira é


um rascunho, talvez escrita pelo Irmão Francisco. A segun-

34 Missão Fundacional
da foi enviada ao Rei, com as devidas modificações e acrés-
cimos que melhoram o estilo e deixaram o texto mais pre-
ciso em relação à primeira versão.

Há ainda três rascunhos iniciados (PS 68-agosto/1836),


mas não concluídos da carta ao rei Luís Filipe. Das cartas
conservadas, esta é a única que foi escrita e destinada ao rei
pedindo a autorização legal do Instituto.

4. Carta 34 (2.ª Versão)


Majestade:

Nascido no cantão de Saint-Genest-Malifaux, Departamen-


to do Loire, só vim a aprender a ler e escrever com inúmeras di-
ficuldades, por falta de professores competentes. Compreendi
desde então a urgente necessidade de uma instituição que pu-
desse, com menor custo, proporcionar aos meninos da região
rural o grau satisfatório de ensino que os Irmãos das Escolas
Cristãs proporcionam aos meninos carentes das cidades.

Elevado à dignidade sacerdotal em 1816, fui destacado


como coadjutor numa paróquia rural. O que vi com meus
próprios olhos me fez sentir mais vivamente a importância de
pôr em execução, sem demora, o projeto que há muito vinha
acalentando.

Comecei, pois, a preparar alguns professores. Dei-lhes o


nome de Irmãozinhos de Maria, convencidíssimo de que este
nome bastaria para atrair muitas pessoas. O êxito rápido em

35
poucos anos justificou minhas conjecturas e superou as ex-
pectativas. Em 1824, sob a proteção do senhor bispo adminis-
trador da diocese de Lyon, ajudado por aquele Prelado e pelos
homens de bem da região, construí, perto da cidade de Saint-
Chamond, uma casa ampla para nela estabelecer a escola
normal da novel Sociedade.

Setenta e dois membros desta casa já estão empregados


em um número razoável de municípios, sem contar uns qua-
renta noviços muito esforçados que se preparam para seguir
os passos dos primeiros.

Para crescer e prosperar, a recém-nascida instituição, cujos


estatutos seguem em anexo, só precisa da autorização legal.
O zelo que Vossa Majestade consagra ao ensino, me anima a
requerê-la humildemente. Poderei eu desde já, Majestade, ante-
gozar a alegria de consegui-la? Atrevo-me a imaginar que sim.

Os numerosos pedidos que me são feitos de toda a parte,


por diversos prefeitos (sobretudo após a lei de 28 de junho de
1833), a aprovação das autoridades locais, do prefeito Depar-
tamental do Loire e de vários nobres deputados, que tiveram
a gentileza de me prometer proteção, constituem provas evi-
dentes de que meu empreendimento se coaduna com o es-
pírito do governo e com as necessidades e recursos dos mu-
nicípios rurais. Por isso é que nem sequer um instante posso
imaginar que minha solicitação não seja atendida.

Alimento, pois, a fagueira esperança de que este empreen-


dimento criado unicamente com o propósito de beneficiar
meus concidadãos, seja acolhido por Vossa Majestade, sem-

36 Missão Fundacional
pre pronto a favorecer o que é útil. Os Irmãos de Maria, uma
vez que tiverem recebido existência legal outorgada por vossa
real benemerência, ficarão obrigados a dever-lhe, Majesta-
de, eterna gratidão, e se unirão a mim para confessarmo-nos
para sempre de Vossa Real Majestade, súditos muito humil-
des, obedientes e fidelíssimos.

Champagnat

5. Atitudes e Mentalidade de Marcelino


• Preocupação pela educação das crianças.
• Sensível à realidade de seu tempo.
• Confiança em Maria.
• Gratidão pelas conquistas já adquiridas.
• Audácia

6. Constituições
C.2: Sua fé e desejo de cumprir a vontade de Deus reve-
lam-lhe sua missão: “Tornar Jesus Cristo conhecido e ama-
do”. Dizia muitas vezes: “Não posso ver uma criança, sem
sentir o desejo de ensinar-lhe o catecismo, sem desejar
fazer-lhe compreender quanto Jesus Cristo a amou”. Nesse
espírito, fundou nosso Instituto para a educação cristã dos
jovens, particularmente os mais abandonados.

37
7. Iluminação Bíblica
“E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evange-
lho a toda a criatura.” (Mc 16, 16)

8. Para ajudar a rezar – Interiorização


As diversas situações exigem do Pe. Champagnat ati-
tudes firmes e concretas com a intenção de conseguir a
aprovação da Congregação. Tais atitudes nos mostram o
quanto é importante lutar, após um autêntico discerni-
mento, pelos propósitos que temos.

• Como estou vivendo a missão iniciada por Champagnat?

Reze por todas as crianças, adolescentes e jovens aten-


didos em nossas unidades.

Tempo Pessoal.

Partilhe sentimentos que brotaram a partir desta oração.

9. Momento final (preces espontâneas)


Sugestão: Amai-vos como eu vos tenho amado (162).

Oração final: Senhor Deus da vida, nós te agradecemos por


pertencermos à Família Marista. Faze de cada um de nós ver-
dadeiros receptores da tua palavra, a exemplo da família de
Nazaré. Amém.

38 Missão Fundacional
5. Um apelo à
reconciliação fraterna
Não consigo esconder a dor que me
causa seu modo de ver as coisas e não
sei porque você está assim.

39
5. Um apelo à
reconciliação fraterna
(Carta 42 – ao Ir. Cassien – verão de 1834)

1. Ambientação
Imagem da Boa Mae, de Champagnat, fotos dos Irmãos
da comunidade e o desenho de um grande coração.

2. Motivação
No caminho da vida é imprescindível a presença de ami-
gos que nos aceitem, nos confortem, que sejam ombros
nos momentos alegres e difíceis. Os autores bíblicos já se
referiam aos amigos como “pérolas preciosas” ou “tesouro
escondido”. Na vida de Champagnat o zelo por seus ami-
gos, ou melhor, seus Irmãos, crianças e jovens das escolas já
demonstrava o quanto é importante sermos cordiais para
com os Irmãos e amigos.

40 Um apelo à reconciliação fraterna


3. Contexto
O Irmão Cassien (Louis Chomat) e o Irmão Arsênio (Cé-
saire Fayol), antes mesmo de se fazerem Maristas, dirigiam
uma escola, em Sorbiers. Ao se fazerem religiosos, a escola
continuou sob a direção deles, com mais dois Irmãos que
Champagnat lhes deu, como auxiliares.

O Irmão Cassien entrou em crise, vendo que os dois não


eram tão fervorosos como ele imaginava, sendo Maristas.
Foi o que motivou a carta do Padre Champagnat, tão re-
passada de equilíbrio e de compreensão pelas fraquezas
humanas.

4. Texto da Carta
Ao Irmão Cassien.

Que Jesus e Maria sejam seus guias e mestres em tudo! Meu


caro Irmão Cassien, não consigo esconder a dor que me causa
seu modo de ver as coisas e não sei por que você está assim.

Meu caro amigo, tenho consciência de não estar em falta


com você, de nenhum modo. Tomei na devida consideração
as reclamações que você julgou conveniente fazer. De ma-
neira nenhuma pensei eu fazer pouco caso de você, ao man-
dar-lhe os dois Irmãos que destinamos para sua comunidade.
Você estava contente com a escolha. Quem se intrometeu
para alterar essa paz? Quando o Irmão Denis o molestou com
suas importunações, não estive lá de imediato para tratar da

41
transferência dele? E quando você ponderou que preferia dei-
xá-lo ficar, não aceitei seu parecer, embora tivéssemos decidi-
do o contrário?

Então, meu caro Irmão, quais são afinal as razões que


continuam a indispô-lo? Se os membros da Sociedade de Ma-
ria são para você por demais imperfeitos para lhe servirem
de modelo, dirija, meu caro Cassien, dirija seus olhares para
Aquela que pode servir de modelo para perfeitos e imperfeitos
e que a todos tem amor: ama os perfeitos porque reproduzem
as virtudes de seu divino Filho e arrastam os demais para o
bem, sobretudo numa comunidade. Ama também os imper-
feitos, porque foi sobretudo em benefício deles que Ela, Maria,
foi elevada à dignidade de Mãe de Deus!

Por que, meu caro Irmão, voltar a buscar conselhos no Egi-


to? Será que Maria não possui tudo para nos pôr a salvo? Para
que mais tarde eu não fique com remorso de não falar claro,
digo-lhe já, meu caro amigo, e o faço apoiado nas palavras do
profeta, que a ajuda do Egito não passará de um caniço frágil,
que ao se quebrar irá machucar suas mãos. Não tenho medo
de predizer-lhe tal infortúnio, em nome de Jesus e de Maria.

Se você não tiver em muita conta meu parecer, consulte


pessoalmente o Superior da Sociedade de Maria, que acaba
de chegar de Roma, ou consulte o senhor Arcebispo ou o Pa-
dre Cholleton.

Afinal, meu caro Cassien, não faça nada precipitadamente.

Champagnat

42 Um apelo à reconciliação fraterna


5. Atitudes de Marcelino
• Preocupação com os outros, transparência:“...tenho
consciência de não estar em falta com você”.

• Sinceridade: “...não consigo esconder a dor que me cau-


sa seu modo de ver as coisas e não sei por que você está
assim...”. “Para que mais tarde eu não fique com remorso
de não falar claro”.

• Questionador: “Quem se intrometeu para alterar essa paz?”.

• Aconselhamento: “...dirija, meu caro Cassien, seus olha-


res para Aquela que pode servir de modelo para perfeitos
e imperfeitos...”. “Será que Maria não possui tudo para nos
pôr a salvo?”. “... não faça nada precipitadamente”.

6. Interiorização
• Is 36,6: “Você está confiando na ajuda do Egito, mas isso é
o mesmo que usar um caniço como bengala...”.

• Fl 2, 2-3: “Completai a minha alegria, permanecendo uni-


dos. Tende um mesmo amor, uma só alma e os mesmos
pensamentos. Nada façais por espírito de partido ou van-
glória, mas que a humildade vos ensine a considerar os ou-
tros superiores a vós mesmos”.

Qual o meu olhar e atitude, na vida fraterna, em situa-


ções de conflito?

43
Releia a carta pessoalmente e procure fazer memória
de situações de conflito que você vivenciou, peça perdão
e perdoe.

Oração Pessoal.

7. Momento final (preces espontâneas)


Sugestão: Meu coração é para ti (62).

Oração final: Senhor, Deus da vida, mostraste por meio de


teu servo São Marcelino Champagnat que o amor deve guiar
todas as nossas atitudes para com os outros. Ajuda-nos a
olhar para cada pessoa como imagem e semelhança de tua
presença. Amém.

44 Um apelo à reconciliação fraterna


6. Perfil do Gestor Marista

“Falta-nos alguém que supervisione, que anime


e tome a direção geral da casa em minha au-
sência, que atenda aos que vêm e vão; que goste
e sinta a importância e as vantagens de estar no
cargo, um diretor piedoso, preparado, experi-
mentado, prudente, firme e constante.
6. Perfil do Gestor Marista
(Carta 56 – a Dom Gaston de Pins – quaresma de 1835)

1. Ambientação
Palavras escritas: piedoso, preparado, experimentado,
prudente, firme e constante.

2. Introdução/situação/contexto
A razão desta carta é dupla: o Padre Champagnat pede
a Dom Gaston de Pins, bispo de Lyon, que nomeie um
sacerdote para vir auxiliar os padres que atuam no l´Her-
mitage para a assistência religiosa dos Irmãos e, também,
atrair aspirantes maristas para a Sociedade de Maria. É no-
tável observar que Champagnat faz o retrato falado de um
formador que deve auxiliá-lo, e, praticamente, substituí-lo.
Inconscientemente está se retratando a si mesmo. Temos
nesta carta o perfil de um administrador marista.

3. Texto da Carta
Ex.ª Rev.ma: Sua paternal bondade para conosco me traz
aos pés de V. Ex.ª, para expor-lhe minha situação, a fim de que
me ajude, se julgar conveniente. Em nome de Jesus e Maria,

46 Perfil do gestor Marista


todos os nossos Irmãos se unem a mim para lhe fazer esta
breve exposição. Nossa casa aumenta a olhos vistos, todos os
dias se apresentam novos candidatos e chegam novos pedi-
dos. Não me atrevo a rechaçar os que se apresentam, consi-
dero-os mandados por Maria em pessoa. Atualmente somos
perto de duzentos. Vinte e nove estabelecimentos. Quatro mil
alunos frequentam nossas escolas. Sou obrigado a viajar con-
tinuamente para visitá-los. Minha saúde está piorando dia a
dia. O Padre Servant, meu auxiliar, merece elogios. De manhã
à tarde, trancado no quarto, prepara seus sermões, prédicas
e missões; agora mesmo está se preparando para pregar a
Quaresma em Saint-Chamond. O pároco de St.-Pierre, que lhe
solicitou insistentemente sua ajuda, está muito contente com
sua maneira de fazer pregações. Tenho, é certo, Irmãos que
me ajudam nos diversos trabalhos: um bom Mestre de novi-
ços, um Irmão capacitado para dar aulas aos demais, outro
para as aulas aos noviços e um ecônomo. Falta-nos alguém
que supervisione, que anime e tome a direção geral da casa
em minha ausência, que atenda os que vêm e vão; que goste
e sinta a importância e as vantagens de estar no cargo, um
diretor piedoso, preparado, experimentado, prudente, firme
e constante. O Padre Décultieux, coadjutor de Pélussin, reúne
todas essas qualidades. Por várias vezes, manifestou-me mui-
ta estima por nossa casa, quer pelo encaminhamento de can-
didatos para a Congregação, quer pelo empenho que teve na
fundação do estabelecimento de Pélussin. Também me deu a
conhecer pessoalmente sua alegria em se dedicar a uma obra
semelhante, se os superiores permitirem. Foi ele que me encar-
regou de escrever a V. Ex.ª a respeito deste assunto.

47
4. Atitudes e mentalidade de Marcelino
• Espírito de fé: Faz o pedido em nome de Jesus e de Maria.

• Zelo por uma formação sólida: Os 46 postulantes,


que vão ingressar no Noviciado neste ano, precisam de
bons mestres.

• Humildade e senso de entreajuda, não monopoliza,


delega: são 29 unidades para visitar e supervisionar, 4 mil
alunos, mais outras tantas pessoas a serem contatadas e
ouvidas, requerem colaboradores. Champagnat não quer
ser o dono de tudo.

• Senso de limite: Está fragilizado em sua saúde, não pode


fazer tudo, e os poucos auxiliares não dão conta do recado.

• Perspicácia e coragem: Seu auxiliar se ocupa mais com


atividades fora de l’Hermitage, deixando a desejar.

• Clareza: A casa precisa de um Animador que tenha caris-


ma, seja piedoso, preparado, experiente, prudente, firme
e constante.

• Humildade: “Sua paternal bondade para conosco me


traz aos pés de V. Ex.ª...”.

• Colegialidade: “todos os nossos Irmãos se unem a mim


para lhe fazer esta breve exposição...”.

• Organizado: “Tenho Irmãos que me ajudam nos diver-


sos trabalhos...”.

48 Perfil do gestor Marista


5. Para ajudar a rezar - Interiorização
C.120: Reconhecemos a pertença do Instituto a Maria, que
fez tudo entre nós, chamando-a Primeira Superiora. Obede-
cemos a Deus nos seus representantes, do jeito de Maria,
com a disponibilidade total que não é atitude passiva, mas
escuta atenta do Espírito em vista de um compromisso res-
ponsável. Aqueles que nos governam deixam-se guiar pelo
espírito da Serva do Senhor. A seu exemplo, ouvem, refletem
e agem em vista do crescimento espiritual dos Irmãos.

C. 168: A fidelidade à nossa missão exige atenção contínua


aos sinais dos tempos, aos apelos da Igreja e às necessidades
da juventude. Essa atenção facilita-nos a adaptação das estru-
turas e a tomada de decisões corajosas, por vezes, inéditas.

Cada administrador Marista é convidado a reproduzir na


sua vida e missão as atitudes de Marcelino.

Qual dessas atitudes estás te empenhando em vivenciar


neste momento?

Pede as luzes do Espírito Santo para que possas fortalecer


estas atitudes.

Tempo pessoal.

6. Momento final
Recitação do salmo 85(84) ou Canto: Construyenos la casa,
danos tu herencia; guarda a nuestro pueblo, que reine la paz.

49
7. Fundados para
a educação dos jovens
O que vi com meus próprios olhos nessa nova si-
tuação e que afetava à educação dos jovens, me
recordou as dificuldades que tive eu mesmo que
experimentar nessa idade por falta de professores.

50
7. Fundados para
a educação dos jovens
(Carta 59 – a Rainha Maria Amélia – maio de 1835)

1. Ambientação
Imagem de Maria, símbolos que representem a expe-
riência escolar, imagens da missão dos Irmãos junto a crian-
ças e jovens.

2. Introdução/situação/contexto
O Pe. Champagnat havia escrito ao Rei há aproximada-
mente um ano. Ao ver que não houve reação favorável, se
aventura a escrever à Rainha. Está seguro que obterá a sua
intercessão. Maria Amélia escolherá uma saída diplomática,
enviando à solicitude do ministério correspondente o pedi-
do de Champagnat. Não é falta de estima pela obra de Mar-
celino, mas prudência da esposa de um rei que se encontra
cada vez mais debilitado diante do Parlamento e o gabinete
dos ministros. Luís Filipe deve sua coroa ao Parlamento.

51
3. Trechos da carta
Vivam Jesus, Maria e José!

Grande Rainha:

Esta carta tem por finalidade rogar a Vossa Majestade que


interceda junto a Sua Majestade Luis Filipe para que sancione,
mediante Decreto a autorização que seu Conselho concedeu
à Sociedade dos Irmãos Maristas, aprovando seus Estatutos,
incluídos no Manual Geral de Instrução Primária, nº 6, do mês
de abril de 1834.

[...]

Sua grande devoção a Maria, o real afeto de seus ante-


passados à Mãe de Deus, o começo deste mês consagrado a
honrá-la, tudo isso me enche de grande confiança. Todos os
nossos Irmãos unirão sua oração à minha este mês para pedir
pelo êxito desse assunto e a prosperidade de sua casa.

Envio-lhe nossos Estatutos, caso Vossa Majestade quei-


ra conhecê-los, com uma breve relação preliminar sobre as
razões principais que tive para fundar esta Sociedade de Ir-
mãos educadores.

(...) Ordenado sacerdote em 1816, fui enviado a um muni-


cípio do cantão de Saint-Chamond (Loire). O que vi com meus
próprios olhos nessa nova situação e que afetava a educa-
ção dos jovens, me recordou as dificuldades que eu mesmo
tive que experimentar nessa idade por falta de professores.

52 Fundados para a Educação dos Jovens


Apressei-me, pois, a fazer andar o projeto que havia formu-
lado de fundar uma associação de Irmãos educadores para
os municípios rurais, cuja penúria não lhes permite ter Ir-
mãos das Escolas Cristãs. Dei aos membros dessa sociedade
o nome de Maria, persuadido que só esse nome atrairia bom
número de candidatos. Um êxito rápido, apesar da falta de
recursos materiais, justificou minhas conjecturas e superou
minhas esperanças.

[...]

Queira desculpar a confiança que me leva aos pés de Vos-


sa Majestade e aceite a expressão de meus sentimentos de
profundo respeito e inteiro afeto com o qual estarei sempre,
Grande Rainha, à sua disposição como humilde, mui obedien-
te e fiel súdito.

4. Atitudes e Mentalidade de Marcelino


• Insistência diante de algo de que está convicto. No
caso dessa carta, a importância da Sociedade de Irmãos
que havia fundado para a educação dos jovens.

• Clareza do projeto que está empreendendo.

• Busca de estratégias que viabilizem aquilo que acredita.

• Confiança e recurso a Maria, para que ela interceda


por sua obra.

53
• Aprendizagem a partir de sua própria experiência:
“O que vi com meus próprios olhos nessa nova situação
e que afetava a educação dos jovens, me recordou as di-
ficuldades que tive eu mesmo que experimentar nessa
idade por falta de professores”.

5. Constituições
C.4: Dando-nos o nome de Maria, o Padre Champagnat
quis que vivêssemos do seu espírito. Convencido de que
ela tudo fez entre nós, chamava-a Recurso Habitual e Pri-
meira Superiora.

Contemplamos a vida de nossa Mãe e Modelo para im-


pregnar-nos de seu espírito. Suas atitudes de perfeita dis-
cípula de Cristo inspiram e pautam nossa maneira de ser e
de agir.

Havendo Deus dado seu Filho ao mundo por Maria, que-


remos torná-la conhecida e amada como caminho que leva
a Jesus. Atualizamos assim nosso lema: “Tudo a Jesus por
Maria, tudo a Maria para Jesus”.

54 Fundados para a Educação dos Jovens


6. Para ajudar a rezar – Interiorização
• Como buscamos realizar aquilo que acreditamos?

• Qual nossa atitude diante das dificuldades que encon-


tramos?

• De que forma, enquanto Irmãos Maristas, estamos res-


pondendo à nossa missão hoje?

Recorra a Maria confiando-lhe as situações difíceis que


encontramos hoje para realizar a nossa missão.

Tempo Pessoal.

Partilhe a sua experiência de vida escolar/educativa.

7. Momento final
Sugestão: Cortou a rocha (174), Confiai, recorrei (169).

55
8. Espírito de Família

“Os que precisam obedecer que


obedeçam com humildade, e os que
mandam, mandem com mansidão.

56 Espírito de Família
8. Espírito de Família
(Carta 63 – Circular aos Irmãos – 19/1/1836)

1. Ambientação
Imagens de Champagnat reunido com Irmãos; Imagem
de Jesus Cristo e Apóstolos; imagens de Irmãos entre as
crianças/foto da comunidade.

2. Introdução/situação/contexto
A carta tem por finalidade transmitir a todos os votos
de Feliz Ano-Novo. O fervor, o zelo pela instrução e educa-
ção dos meninos e a caridade fraterna, tais são as condições
para que o novo ano seja realmente feliz e produtivo.

O ano de 1836 foi certamente dos mais felizes para a So-


ciedade de Maria, pois foi nesse ano que o Papa Gregório
XVI, mediante o Breve “Omnium Gentium” (Todas as Gen-
tes), autorizou a Sociedade de Maria, 11 de março de 1836,
confiando-lhe a missão da Polinésia. Impossível exprimir o
regozijo do Padre Champagnat ao receber do Padre Colin,
em 11 de abril, a auspiciosa notícia (cf. Vida de M.J.B. Cham-
pagnat, Edição do Bicentenário, p. 190). Esta cópia era para
os Irmãos de St-Didier-sur-Rochefort.

57
3. Texto da Carta-circular
Caríssimos Irmãos nossos:

Sinto no coração a grata satisfação de me lembrar de vo-


cês todos os dias e de no santo altar apresentá-los todos ao
Senhor; especialmente hoje, não consigo resistir à agradável
satisfação de expressar a vocês meus sentimentos de afeto e
de manifestar minha ternura paternal.

Meus queridos e bem-amados, vocês são continuamente o


objeto especial de minha terna solicitude. Todos os meus an-
seios e todos os meus votos têm em mira sua felicidade; isso
certamente vocês já sabem.

Queridos Irmãos, esta felicidade não é a que o mundo pro-


cura e que imagina encontrar nos bens materiais. Desejo e
peço para vocês bens mais consistentes e verdadeiros. Servir
a Deus com fervor, cumprir fielmente os deveres do próprio es-
tado, trabalhar todos os dias para desapegar nosso coração
das criaturas, a fim de entregá-lo a Jesus e a Maria, deixá-lo ao
sabor dos movimentos da graça. É isso que verdadeiramente é
desejável e que quero para vocês.

Sim, caríssimos Irmãos nossos, e filhos de Maria, a glória de


vocês há de consistir em imitar e seguir Jesus Cristo; que o Di-
vino Salvador os cumule de seu espírito; que a sabedoria dele
os dirija em tudo quanto fizerem para sua glória.

Desejo e quero que, a exemplo de Jesus Cristo, nosso divi-


no modelo, vocês dediquem terna afeição aos meninos. Com

58 Espírito de Família
grande zelo repartam-lhes o pão espiritual da religião. Po-
nham todo seu empenho em formá-los à piedade e em gravar
em seus corações juvenis sentimentos de religião, que não se
apagarão nunca.

Que a união e a caridade, de que fala o discípulo bem-ama-


do, reinem sempre entre vocês. Os que precisam obedecer, que
obedeçam com humildade, e os que mandam, mandem com
mansidão. Desse modo, a paz e a alegria do Espírito Santo es-
tarão sempre com vocês. Que o verdadeiro zelo os anime a tra-
balhar em sua própria perfeição, e que a constante fidelidade
à Regra os impulsione a realizar cada dia novos progressos.
Não esqueçam que a exata observância da Regra é o meio
adequado para conseguir a perfeição religiosa.

Coragem, pois, caríssimos Irmãos, os sofrimentos e lutas


desta vida duram apenas um instante. Volvamos frequente-
mente os olhos para o peso imenso de glória que será para
sempre a recompensa. Lembremo-nos que o justo Juiz somen-
te há de coroar quem tiver vencido e perseverado até o fim.

Que Jesus e Maria os guardem sempre!

Temos a honra de ser seu dedicado e afetuoso pai em Jesus


e Maria.

Champagnat, Sup.

OBS.: foi omitido o P.S. no final da carta.

59
4. Atitudes e mentalidade de Marcelino
• Ternura paternal – “...hoje, não consigo resistir à agradá-
vel satisfação de expressar a vocês meus sentimentos de
afeto e de manifestar minha ternura paternal. (...) meus
anseios e votos têm em mira sua felicidade”; “...dedicado
e afetuoso pai em Jesus e Maria”.

• Encorajador e esperançoso – “Coragem, pois, carís-


simos Irmãos, os sofrimentos e lutas desta vida duram
apenas um instante”.

• Fraterno – “Que a união e a caridade, de que fala o dis-


cípulo bem-amado, reinem sempre entre vocês... diga
a seus caros colaboradores quanto eles me são caros e
quanto os amo em Jesus e Maria”.

• Sincero – “É isto que verdadeiramente é desejável e que


quero para vocês”.

• Serviçal – a seu inteiro dispor

• Preocupação – com os Irmãos, alunos – todos estão de


boa saúde.

• Espírito Marial – “Sim, caríssimos Irmãos nossos e filhos


de Maria... quanto os amo em Jesus e Maria”.

• Sabedoria – “Os que precisam obedecer que obe-


deçam com humildade, e os que mandam, mandem
com mansidão”.

60 Espírito de Família
• Discernimento – “... esta felicidade não é a que o mun-
do procura e que imagina encontrar nos bens materiais.
Desejo e peço para vocês bens mais consistentes e ver-
dadeiros”.

• Servo de Deus – “Para viver verdadeiramente a vocação


temos que servir a Deus com fervor”.

• Obediência à Regra – “A exata observância da Regra é


o meio adequado para conseguir a perfeição religiosa”.

5. Para ajudar a rezar – Interiorização


A circular permite-nos perceber um Padre Champagnat
de entrega generosa e total a seus Irmãos e à obra marista,
sentindo-se responsável como um bom pai, da verdadei-
ra felicidade e da realização pessoal dos Irmãos, felicidade
que é alcançada através de uma vida organizada, em união
com Maria e regidos por saudáveis normas que facilitam a
convivência comunitária e a felicidade dos Irmãos. Encon-
tro também um convite para buscar um sentido mais claro
da vida de acordo com as opções que livremente tomamos,
assim sendo terá maior sentido e coerência e, com certeza,
seremos testemunhas para aqueles que compartilham co-
nosco, a quem instruímos e formamos ou com quem temos
um relacionamento mais próximo. Que bom ser um homem
autêntico, com total desapego das coisas passageiras, sem
laços de qualquer tipo que nos limitam o caminho para a
transcendência, que nos “roubam” a paz e a verdadeira feli-
cidade e liberdade.

61
Tempo de reflexão e oração pessoal

Releitura da carta e considerar-se como destinatário. Fa-


zer eco das expressões que mais tocam.

Partilha de sentimentos que brotaram a partir desta oração.

6. Reminiscências bíblicas
• “Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém
a sua vida pelos seus amigos” (Jo 15,13).

• “Finalmente, sede todos de um mesmo sentimento,


compassivos, cheios de amor fraternal, misericordiosos,
humildes” (1Pd 3,8).

• “Irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo suplico


a todos vocês que concordem uns com os outros no que
falam, para que não haja divisões entre vocês, e, sim,
que todos estejam unidos num só pensamento e num
só parecer” (1Cor 1,10).

7. Momento final
Sugestões de cantos: Participar é criar comunhão (66);
ou: Amai-vos como eu vos tenho amado (162); ou: Hino do
Amor (297); ou: Senhor, fazei de mim um instrumento de vos-
sa paz (321).

62 Espírito de Família
9. Todas as dioceses
entram em nossos planos
“É de bom coração que faremos tudo
quanto estiver ao nosso alcance.

63
9. Todas as dioceses entram
em nossos planos
(Carta 112 – a Dom BÉNIGNE TROUSSET D’HÉRICOURT, bispo de
Autun, Saône-et-Loire – maio de 1837)

1. Ambientação
Globo ou o mapa-múndi. Imagens dos Maristas Missio-
nários nas diversas regiões do mundo.

2. Contexto
Em 21 de maio de 1837, Dom Trousset D’Héricourt escri-
via ao Pe. Champagnat: “Numa viagem que acabo de fazer a
Semur-en-Brionnais, pude apreciar o mérito dos Irmãos que
você forma com tanto zelo para a excelente obra da educação
das crianças. Dei-me conta, ao mesmo tempo, da importância
de conservar neste nascente estabelecimento o Irmão atual-
mente encarregado de dirigi-lo. Você sabe muito bem tudo o
que exigem os primeiros anos de uma obra. Tenho a esperan-
ça de que você será bastante complacente para aceder a meu
desejo, que é, por outra parte, o de todas as pessoas que têm
um verdadeiro interesse pela escola que acaba de abrir-se”.
Pela carta número 92 sabemos que tal sujeito trata-se do Ir-
mão de La Croix que estava ameaçado de ser chamado “sous
les drapeaux”, isto é: para o serviço militar (cf. Carta nº 92).

64 Todas as dioceses entram em nossos planos


3. Texto da Carta
O estabelecimento de Semur, que é o primeiro que tivemos
a sorte de abrir na diocese de Vossa Excelência, é muito caro ao
nosso coração. Por nada no mundo consentiríamos em tomar
alguma medida que pudesse prejudicá-lo. Igualmente, o em-
penho que Vossa Excelência demonstra ter para que prospere é
sinal de tanta honra para nossa Sociedade, que faremos todo o
possível para corresponder-lhe.
As circunstâncias adversas em que se encontrou o Irmão
Diretor, urgido a responder ao chamado para o serviço militar,
incerto do que lhe pode acontecer, pois que não tem um prazo
marcado para sua residência no Departamento de Isère, nos
deixaram inquieto quanto ao destino dele. Ficamos com receio
de ter que substituí-lo e mesmo de deixá-lo sair.
Sugeri a ele que escrevesse ao General para informá-lo sobre
a profissão que abraçou em nossa Sociedade e pedir licença para
ficar em nossa casa com a promessa de apresentar-se ao primei-
ro chamado que lhe fosse feito, e comparecer se for intimado.
Contrariamente à minha expectativa, este favor lhe foi con-
cedido. Temos em mãos o documento que o autoriza a fixar
residência no Departamento do Loire, onde está nossa casa
principal e cremos que pode continuar suas funções em Semur,
sendo que é tido como residente em nossa casa, enquanto per-
manecer membro de nossa Instituição. Quando for chamado,
teremos tempo de mandá-lo vir aqui.
Estou muito contente de que assim possa servir aos interes-
ses de Vossa Excelência e fazer prosperar a escola que dirige. Só

65
peço uma coisa: que sejam cumpridas as condições estipuladas
em nosso prospecto.
É de bom coração que faremos tudo quanto estiver ao nosso
alcance para corresponder ao zelo de Vossa Excelência e à be-
nevolência com que honra nossa Sociedade. Todas as dioceses
do mundo entram em nossos planos. Consideraremos dever
nosso acorrer pressurosos em auxílio de nossos bispos respecti-
vos, sempre que nos honrarem com seu convite.
Queira aceitar os sentimentos de profundo respeito e eleva-
da consideração, com os quais tenho a honra de ser, de Vossa
Excelência, mui humilde e obediente servidor,
Champagnat, superior dos Irmãos Maristas.

4. Atitudes de Marcelino
• Gratidão. “Nossa Sociedade sente-se muito honrada pelo
empenho de Vossa Excelência”.

• Lutador que propõe soluções. “Comprometemo-nos de


escrever ao General para informá-lo da profissão que abra-
çou em nossa Sociedade”.

• Verdadeiro e claro ao apresentar o problema. “As cir-


cunstâncias desagradáveis em que se encontrou o Irmão
Diretor, requerido pela convocação ao serviço militar”.

• Zelo apostólico. “Com muito gosto faremos tudo o que


está ao nosso alcance para secundar as obras de seu zelo”.

• Coração sem fronteiras. “Todas as dioceses do mundo


entram em nossos planos”.
66 Todas as dioceses entram em nossos planos
5. Pensamentos de Marcelino
• É preciso na solução de problemas, buscar a “maior gló-
ria de Deus” e “o bem de nossa sociedade”.

• “Consideraremos um dever voar em ajuda de nossos Bis-


pos que nos honram com seus apelos”.

6. Iluminação Bíblica
Lc 14, 28 – 30: “Quem dentre vós, querendo construir
uma torre, não se senta primeiro para calcular a despesa
e ver se tem com que a concluir? Não suceda que, depois
de assentar os alicerces, não a podendo acabar, todos os
que virem comecem a caçoar dele, dizendo: ‘Este homem
começou a construir e não pôde acabar.’”

Lc 14, 27: “Quem não tomar a sua cruz para me seguir


não pode ser meu discípulo”.

7. Reflexos em nossas Constituições


C.10.01. - A consagração religiosa associa-nos de ma-
neira especial à Igreja e a seu mistério. No seio do povo de
Deus, esforçamo-nos por oferecer o testemunho profético
e gozoso de uma vida totalmente dedicada a Deus e aos
homens. E, fiéis ao carisma do Instituto, colaboramos na
pastoral da Igreja local.

67
C.83.01. - Vamos aos jovens lá onde eles estão. Vamos
com ousadia aos ambientes, talvez inexplorados, onde a
espera de Cristo se revela na pobreza material e espiritual.
Em nossos encontros, manifestamos-lhes atenção marcada
pela humildade, simplicidade e esquecimento de si.

C.81.01. - O Padre Champagnat encarna o zelo apostólico


que sabe dar respostas adequadas a problemas concretos.

C.81 - Sente-se chamado a formar religiosos para a


educação cristã dos pequenos camponeses, dos quais nin-
guém se ocupa. Para ele, a missão do Irmão consiste em
ajudar as crianças e os jovens a se tornarem “bons cristãos
e bons cidadãos”. Homem de fé, acredita primeiro na ora-
ção que torna dócil o coração dos alunos. O exemplo e a
presença prolongada são elementos importantes da peda-
gogia Marista que ele assim resume: “Para educar bem as
crianças é preciso demonstrar-lhes amor” (V. 538). Irmãos
Maristas, animados de igual zelo, continuamos o carisma
do Fundador, respondendo aos anseios e às necessidades
dos jovens de hoje.

C.90 - Deus quer que todos os homens sejam salvos pela


Igreja, sacramento universal de salvação. Como ela, nosso
Instituto é missionário, e devemos ter alma missionária, a
exemplo do Padre Champagnat, que afirmava: “Todas as
dioceses do mundo entram em nossos planos”.

68 Todas as dioceses entram em nossos planos


8. Para ajudar a rezar – Interiorização
Marcelino e Dom Trousset entenderam-se muito bem.
Admiro a Marcelino por sua audácia e por ser um homem
de Coração sem fronteiras. “Todas as dioceses do mundo
entram em nossos planos”.

• Qual a minha abertura ao clamor missionário de nosso


Instituto?

Reze pelos Maristas missionários.

Marcelino recorda ao Senhor Bispo a obrigação que tem


o Prefeito de proporcionar tudo que é necessário para o êxi-
to da escola de Semur: “não pedimos nada além do que se
cumpram, com exatidão, as condições de nosso prospecto”.

Reze pelos pastores da Igreja e nossos governantes.

Tempo pessoal.

Partilhe sentimentos que brotaram a partir desta oração.

9. Momento final
Canto: Ide por todo universo o meu Reino anunciar, dizei a
todos os povos que eu vim pra salvar. Quero que todos conhe-
çam a luz da verdade, possam trilhar os caminhos da felicida-
de. /:/ de anunciar minha paz, ide sem olhar para trás! Estarei
convosco e serei Vossa luz na missão! :/

69
10. Memória dos que nos
precederam na Missão Marista
Nós recolheremos o que tivermos semeado. Tal
vida, tal morte! Tal morte, tal eternidade. Deus
nos chamou a sermos santos.

70 Memória dos que nos precederam na Missão Marista


10. Memória dos que
nos precederam
na Missão Marista
(Carta 135 – Circular aos Irmãos – 4/9/1837)

1. Introdução
Nesta Circular anuncia-se a morte do Ir. Dorothée. De-
pois da publicação da Regra de 1837, morreram no Insti-
tuto os Irs. Hilário e Ruperto. O Pe. Champagnat indica aos
Irmãos que será a primeira ocasião em que devem pôr em
prática o prescrito por essa Regra, no seu capítulo XI. Essa
observação do Fundador é totalmente exata se nos recor-
damos de que nenhum dos Irmãos antes mencionados (Hi-
lário e Ruperto) era professo perpétuo. Hilário era professo
temporário, de acordo com a nomenclatura da Regra de
1837; e Ruperto era Noviço. Pelo contrário, nosso Irmão Do-
rothée é professo perpétuo, e, portanto, lhe correspondem
os sufrágios indicados no Capítulo XI, art. 3, números 2 e 3.
A partir de então foi estabelecido o costume de cantar a SAL-
VE-RAINHA, ao terminar a encomendação do defunto.

71
2. Texto da Carta
Meus caríssimos Irmãos:

O Senhor acaba de chamar a si o nosso querido Irmão Do-


rothée. Desde muito tempo uma dor no peito exercitava sua
paciência e aumentava seus méritos, quando uma hemoptise
das mais violentas o obrigou a ficar de cama.

Ele constatava, sem se inquietar, a dissolução de seu orga-


nismo e experimentava o desejo ardente de ir celebrar no céu
com os Anjos e Santos a Assunção da Santíssima Virgem.

Passada a Festa, cessaram completamente os vômitos de


sangue. Nosso querido Irmão aproveitou da trégua que lhe
dava a doença, para se preparar para a hora derradeira. Que
placidez! Que tranquilidade! Que alegria ele deixou transpare-
cer durante esse intervalo, sobretudo no último dia de sua vida!

Foi num sábado, dia 2 de setembro. Já de manhã cedo re-


cebeu a Unção dos Enfermos. Nunca pareceu tão feliz, ocupa-
do como estava inteiramente com o bom Deus. Sua alma só
esperava, por assim dizer, as últimas preces da Igreja, para
levantar voo. Pelas três horas da tarde, foram-lhe aplicadas as
indulgências e, durante a recomendação de sua alma, ador-
meceu tranquilamente no Senhor.

Todos os que presenciaram essa morte lhe têm inveja. To-


dos querem à porfia ficar junto dele. O enterro foi hoje, dia 4 de
setembro, com todas as cerimônias prescritas para um Irmão

72 Memória dos que nos precederam na Missão Marista


professo. Estamos agora avisando a todos para rezarem por
ele as preces marcadas no Cap. XI, art. 3, nº 2 e 3 da Regra.

Sem dúvida, é a primeira vez que vocês cumprem, praze-


rosos, este dever para com um Irmão que nos é tão caro e que
podemos contar no número de nossos intercessores junto à
Mãe de todos nós.

É deste modo, meus caríssimos Irmãos, que nós recolhere-


mos o que tivermos semeado. Tal vida, tal morte! Tal morte, tal
eternidade. Deus nos chamou a sermos santos. Portanto, eu
conjuro vocês a progredirem cada vez mais em seu amor, a por-
fiarem em viver na sua paz, a se esmerar cada qual naquilo que
for de seu dever, a fim de que tudo o que está em vocês, espírito,
alma e corpo, tudo se conserve sem mancha para a vinda de
Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. 1Ts 4 e 5).

Aguardando o prazer da chegada de vocês, eu os abraço


mui afetuosamente nos Sagrados Corações de Jesus e de Maria.

Champagnat

3. Atitudes de Marcelino
• Tranquilidade frente ao fato da morte: “Que placidez!
Que tranquilidade!”

• Oração “...com todas as cerimônias prescritas para um


Irmão professo”.

73
• Desempenha o seu papel de Superior: “Estamos agora
avisando a todos para rezarem por ele as preces marca-
das no Cap. XI, art. 3, no 2 e 3 da Regra”.

• Incentivador: “eu conjuro vocês a progredirem cada vez


mais em seu amor”.

• De sabedoria: “Tal vida, tal morte; tal morte, tal eter-


nidade”.

• Mariana: “Um Irmão que podemos contar entre nossos


intercessores junto à nossa Mãe comum”.

• Sabe aconselhar: “Deus nos chamou a ser santos. Con-


juro-os, pois, que avancem mais e mais em seu amor;
procurem viver em paz”.

• De obediência à regra: “e quero adverti-los a todos a


que ponham em prática por ele, ‘Dorothée’, o que está
assinalado na Regra”.

4. Pensamentos de Marcelino
• O sofrimento para que santifique, é preciso ofere-
cê-lo ao Senhor: “Desde cedo recebeu os últimos sa-
cramentos. Jamais havia estado tão alegre, ocupado
somente com Deus”.

• Todos estão destinados à santidade: “Deus nos cha-


mou a ser santos”.

74 Memória dos que nos precederam na Missão Marista


• Nossa eternidade, feliz ou infeliz, preparamo-la des-
de agora: “Assim será, queridos Irmãos, que recolhe-
remos o que tivermos semeado. Tal vida, tal morte; tal
morte, tal eternidade”.

5. Constituições
C.55: O Irmão moribundo - A comunidade se mostra solí-
cita com o Irmão que chega ao término de sua vida. Todos
o consolam com sua presença e oração. A Eucaristia, rece-
bida como viático, ajuda-o a consumar sua consagração.
O Irmão prova, assim, a felicidade de morrer na família da
Maria. Oramos freqüentemente pelos defuntos do Institu-
to. Sentimo-nos unidos, pela comunhão dos Santos, aos
Irmãos que se acham já na casa do Pai.

C.54: “A comunidade, a exemplo do Fundador, vê no Ir-


mão doente ou sofredor motivo de bênção. Trata de dar-lhe
cuidados e assistência espiritual que seu estado exige.

Por sua vez, o Irmão busca força no Senhor e em Maria.


“Recorda que com seus sofrimentos, unidos aos do Reden-
tor, completa em sua carne o que falta aos padecimentos
de Cristo para a salvação do mundo”.

75
6. Iluminação Bíblica
• Que cada um de vós saiba usar o próprio corpo na santi-
dade e no respeito. ( 1Ts 4,4).

• Porque Deus não nos chamou para a imoralidade, mas


para a santidade (1Ts 4,7).

• Mas nós, porque somos do dia, sejamos sóbrios, vestin-


do-nos da couraça da fé e do amor, e tendo por capace-
te a esperança da salvação (1Ts 5,8).

• Em tudo dai graças; porque esta é a vontade de Deus em


Cristo Jesus para convosco (1Ts 5,18).

7. Para ajudar a rezar – Interiorização

Esta circular põe em evidência a relação tão próxima e


particular que tinha o Padre Champagnat com seus Irmãos,
o cuidado, a preocupação constante por cada um deles, por
sua vocação e orientação para que cada dia se cultivem e
sejam féis ao chamado que Deus lhes tem feito.

Quanto é valioso e importante o acompanhamento e a


proximidade afetiva e carinhosa das pessoas que nos amam
e amamos nos momentos de angústia, além da importân-
cia de confiar-se de verdade na misericórdia do Senhor e
esperar nele, pela fé.

76 Memória dos que nos precederam na Missão Marista


Fazer memória de Irmãos que marcaram a nossa vida e a
caminhada vocacional.

Tempo Pessoal.

Partilhe sentimentos que brotaram a partir desta oração.

8. Momento Final
Pai-Nosso

Canto: Graças dou por esta vida, pelo bem que revelou.
Graças dou pelo futuro e por tudo o que passou. Pelas bên-
çãos derramadas, pela dor, pela aflição, pelas graças revela-
das, graças dou pelo perdão.

77
11. Cuidar das Pessoas

Não posso ausentar-me agora nem por


um momento, enquanto os Irmãos estão
chegando e no curto espaço de tempo em
que estiverem aqui na casa mãe.

78 Cuidar das Pessoas


11. Cuidar das Pessoas
(Carta 138 – ao Pe. Miguel Maria Dutour, Pároco
de Ampuis, Rhône – 25/991837)

1. Ambientação
Música instrumental; Símbolo: Coração

2. Introdução/situação/contexto
O Padre Champagnat, sabendo das intenções do novo
pároco, se mostra interessado em fundar uma escola em
Ampuis. Champagnat pede um espaço de tempo, pois o
pedido chegou nos dias próximos ao retiro e as férias em
l’Hermitage, período em que obrigatoriamente o Padre
Champagnat queria estar todo o tempo com os Irmãos.
Não poderia ir visitar o local, como costumava fazer antes
de mandar os Irmãos. Além disso, o detém a falta de pes-
soas aptas para a fundação e que a casa esteja devidamen-
te apropriada.

79
3. A Carta
Digníssimo senhor Pároco:

Agora que conhecemos oficialmente sua intenção e a da


importante paróquia sabiamente confiada a seus cuidados,
procederemos de acordo com o que sabemos. Desejo muito
travar conhecimento com o senhor e com o simpático senhor
De Pomey. Não posso ausentar-me agora nem por um mo-
mento, enquanto os Irmãos estão chegando e no curto espa-
ço de tempo em que estiverem aqui na casa mãe. Mas, assim
que voltarem para seus estabelecimentos, terei pressa em che-
gar até aí, e colocar-me às suas ordens.

Nosso maior desejo é proporcionar uma instituição sólida


e religiosa aos municípios que nos honrarem com um pedido
de Irmãos. Mas, neste ano é-nos absolutamente impossível
fornecer-lhe Irmãos. Aliás, a esta altura do ano, não haveria
tempo de fazer os reparos necessários à instalação de uma es-
cola mantida pelos Irmãos, num vasto município como esse
que lhe foi confiado.

Queira receber o testemunho de respeitosa consideração


com que tenho a honra de ser, digníssimo senhor Pároco, seu
servo atento,

Champagnat

80 Cuidar das Pessoas


4. Atitudes e Mentalidade de Marcelino
• Cuidado com as pessoas: Pároco, paroquianos, Irmãos...

• Interesse pela solicitação;

• Coerência no ser e atuar;

• Procedimento cauteloso diante do pedido feito;

• Muita atenção e acolhida afetuosa aos Irmãos;

• Convicção e clareza do seu projeto educacional;

• Respeito e obediência à autoridade;

• Humildade, servo atento e agradecido;

• Proporcionar aos alunos uma boa educação com as


mínimas condições necessárias;

• Conhecer a realidade através de visitas à comunidade


local;

• Ser realista com os recursos humanos disponíveis


e necessários para um bom desempenho do trabalho
educacional;

• Proporcionar uma instituição sólida e religiosa a quem


pede Irmãos;

• Marcar presença e formar bem os Irmãos na espirituali-


dade e missão;

• Constituir fraternidade, espírito de família e partilha em


torno ao projeto iniciado.
81
5. Para ajudar a rezar – Interiorização
Percebe-se uma nítida expressão de amor em primeiro
lugar às pessoas, aos Irmãos. O trabalho do ano dos Irmãos
foi intenso e sua preocupação em restabelecer as energias
físicas, partilhar, aprimorar a formação, celebrar e alimentar
a alma, são aspectos prioritários.

Como você ajuda a cuidar de si e dos outros?

Qual o seu olhar para com as pessoas em sua missão?

Champagnat nos ensina a sermos humildes e com espí-


rito de discernimento em nossos projetos, vendo os reais
motivos em abrir novas obras e tendo presente principal-
mente o potencial humano disponível e preparado.

Outra característica destacada é Presença, uma presen-


ça permanente e significativa junto às pessoas: “Não pos-
so ausentar-me agora nem por um momento, enquanto os
Irmãos estão chegando e no curto espaço de tempo em que
estiverem aqui na casa mãe”.

Como sou presença significativa na vida das pessoas?

6. Constituições
“Cada um tem o dever de adquirir os conhecimentos teóri-
cos e práticos necessários às tarefas que o Instituto lhe confia”
(C.85.2).

82 Cuidar das Pessoas


“A vitalidade de nossa família religiosa e a fidelidade a sua
missão dependem, em grande parte, da formação de seus
membros. O Instituto zela para que seja sólida, adaptada à
sua personalidade e cultura” (C.95).

“O retiro anual oferece a cada um ocasião de revitalizar o


espírito de sua consagração” (C.73).

Tempo Pessoal.

Partilhe sentimentos que brotaram a partir desta oração.

7. Momento final (canto à escolha, preces)


Sugestão: Um coração para amar (n. 67)

83
12. Amor aos Irmãos

A saúde deles está em jogo; não poderão


aguentar por muito tempo neste ambiente.

84
12. Amor aos Irmãos
(Carta 163 – ao Pe. François Fleury Moine, pároco
de Perreux, Loire – 12/12/ 1837)

1. Ambientação
Palavras: amor, carinho, compaixão, misericórdia, saúde,
cuidado.

2. Introdução/situação/contexto
O Padre Champagnat recomenda ao pároco que não so-
brecarregue os Irmãos de trabalhos. Já fazia meses que se
tratava da instalação dos Irmãos em Perreux. Finalmente, o
Padre Moine escreveu, com data de 5 de dezembro: “Padre
Superior, seus três Irmãozinhos, Justin, Prosper e Agappe,
aqui chegaram no dia 14 de novembro. A abertura das au-
las foi no dia 21, com Missa, muito entusiasmo e total apro-
vação dos meus paroquianos. São 150 alunos, só duas sa-
las.” Continuando, o pároco cheio de ardor apostólico pede
ao Padre Champagnat que mande um Irmão possuidor de
Diploma (Brevet) para assim poder receber da prefeitura os
subsídios que são da alçada do poder público. Por fim, co-
loca a escola sob a proteção de Nossa Senhora.

85
3. A Carta
Senhor Pároco, recebi com agrado o noticiariozinho que me
mandou sobre a instalação de nossos Irmãos na sua paróquia.
De todo o coração desejo que correspondam plenamente ao
seu zelo e ao de seus paroquianos pela educação da juventude
que lhes é confiada. Tenho pena de vê-los carregados de um tão
grande número de alunos, em compartimentos tão exíguos.
A saúde deles está em jogo; não poderão aguentar por muito
tempo nesse ambiente. Peço-lhe, por favor, não os acabrunhe
desse modo.

Tínhamos combinado que neste ano não receberíamos


senão um número reduzido de alunos, porque o espaço não é
suficientemente amplo. Portanto, impõe-se fazer uma escolha.
Espero que na primeira visita que eu tiver a oportunidade de
lhe fazer, encontrarei as modificações em boa ordem, confor-
me nossos ajustes e que eu não tenha que me arrepender de ter
passado por cima de nossos costumes e de lhe ter mandado Ir-
mãos neste ano, apesar dos motivos que tínhamos para diferir
o envio deles.

Quanto à proposta que o senhor me faz de encarregar o


terceiro Irmão de uma classe, é coisa que nunca permitiremos.
Para abrir uma terceira classe, faz-se mister dispor de mais um
Irmão. A exigência é a mesma para as aulas de adultos que fun-
cionam à tarde. Fiquei muito surpreendido, direi até zangado,
por ter o Irmão Diretor resolvido abrir mais essa sala de aula,
sem nos consultar, sobretudo sabendo quanto lhe custou para

86 Amor aos irmãos


se restabelecer da doença que contraiu num estabelecimento
onde matriculara um número excessivo de alunos.

Escrevo a ele duas palavras para mandá-lo suspender o


funcionamento dessa classe por este ano. Peço-lhe que não
faça admoestações ao Irmão por esse motivo. No ano próxi-
mo, talvez seja possível a gente se entender a respeito.

Fornecemos a planta da nova construção aos nossos Ir-


mãos que estavam indo para Semur recomendando-lhes que
a deixassem na casa do Padre Dubeau, pároco de Roanne. Pro-
vavelmente a deixaram extraviar-se mas poderemos mandar-
lhe outra imediatamente, caso a primeira esteja perdida. Já o
tinha prevenido que não poderia contar, de imediato, com um
Irmão diplomado. Não posso dar-lhe nenhuma informação
precisa a respeito dos procedimentos a seguir para que consi-
ga a remuneração de professor, pois lhe falta o requisito prin-
cipal: Ter um Irmão diplomado.

Queira aceitar os sentimentos de respeito com que tenho


a honra de ser, venerável Pároco, seu servo muito humilde
e obediente,

Champagnat

87
4. Atitudes e Mentalidade de Marcelino
• agradecido por ter recebido o pequeno “Noticiário da
Escola”;

• zelo apostólico... “de todo o coração”;

• compaixão... “pena de ver os Irmãos sobrecarregados”;

• sentimentos fraternos para com a saúde... “A saúde


deles está em jogo”;

• intercede pelos Irmãos, como um pai preocupado com


os seus filhos;

• age e toma decisões em conjunto com o seu conse-


lho... “sem nos consultar... nunca permitiremos”;

• consciente das condições nas quais se encontram os


Irmãos;

• zangado (turmas grandes, o terceiro Irmão ficar libera-


do para uma terceira classe, Classe Vespertina para alu-
nos maiores);

• surpreso (com determinadas atitudes do Diretor, sem


consultar);

• compassivo para com o Irmão Diretor;

• não sobrecarregar os Irmãos com um número eleva-


do de alunos, estando a escola em condições precárias
e sem um 4º- Irmão;

88 Amor aos irmãos


• cumprir o que havia sido previsto (matricular somen-
te o número ideal de meninos);

• mentalidade clara da necessidade de fazer opções –


priorizações: “Portanto, impõe-se fazer uma escolha”;

• trata o assunto direto com o Diretor (o Padre não deve


fazer admoestações ao Irmão).

5. Para ajudar a rezar – Interiorização


A dignidade dos Irmãos foi, para Marcelino, uma de suas
maiores lutas com os párocos e prefeitos: mobília adequa-
da, salário justo, escola com condições e salas adequadas. A
saúde dos Irmãos estava em primeiro lugar, inclusive, antes
do estudo e do trabalho (não convém sobrecarregar os Ir-
mãos). Essa faceta de Marcelino, nem sempre observamos,
pois o descrevemos, quase sempre como um trabalhador
incansável, e dessa forma, não olhamos para o seu cuidado
para com a saúde física, espiritual, psíquica e mental dos
Primeiros Irmãos.

Como cuido da minha vida?

Destaca-se o interesse pelo trabalho dos coirmãos, mas


um interesse cuidadoso e amoroso. Esta carta está carre-
gada de ousadia e coragem para o enfrentamento, por ve-
zes necessário, para mudar determinadas situações que se
apresentam em nosso cotidiano.

89
Como cultivo a sensibilidade e a solidariedade para com
os demais?

Reze por um instante as moções interiores provocadas


pelo texto da carta.

6. Iluminação Bíblica nos inspira:


• “Não oprimirás o trabalhador pobre e necessitado, seja
ele de teus irmãos, ou seja dos estrangeiros que estão na
tua terra e dentro das tuas portas.” (Dt 24,14).

• “Palavras suaves são como favos de mel, doçura para a


alma e saúde para o corpo.” (Pr 16,24).

• “Antes, sede bondosos uns para com os outros, compassi-


vos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus
vos perdoou em Cristo.” (Ef 4,32).

• “Finalmente, sede todos de um mesmo sentimento, com-


passivos, cheios de amor fraternal, misericordiosos, hu-
mildes...” (I Pe 3,8).

Tempo Pessoal.

Partilhe sentimentos que brotaram a partir desta oração.

7. Momento final
Sugestão de canto: Amai-vos como eu vos tenho amado (162).

90 Amor aos irmãos


13 Alma missionária
do Instituto

Tivemos a alegria de receber notícias de nossos


queridos missionários da Polinésia.

91
13. Alma missionária
do Instituto
(Carta 164 – Circular aos Irmãos – 12/12/1837)

1. Ambientação
Fotos/imagens de Irmãos missionários e de locais das
missões maristas.

2. Introdução/situação/contexto
Champagnat se comprazia em dar notícias das Missões.
Nesta Circular, ele reproduz a carta que o Padre Servant es-
creveu de Valparaíso (Chile), onde “La Delphine” (navio) ficou
vários meses ancorado, sofrendo reparos e aguardando os
ventos favoráveis. Os missionários, entre os quais Dom Pom-
pallier, durante esse tempo de espera, ocupavam-se em es-
crever cartas aos amigos da França.

Naquele tempo, a Oceania se dividia em três: Oceania


Ocidental ou Malásia, Oceania Central ou Austrália, Oceania
Oriental ou Polinésia. O território de missão da Sociedade
da Maria foi o da Oceania Ocidental/Polinésia. Entre outras,
compreende as ilhas de Tonga, Futuna, Wallis, Tuvalu, Samoa,
Alofi, Fidji, Tokelau e Nova Zelândia.

92 Alma missionária do Instituto


O Pe. Servant foi um dos oito componentes da primeira
leva de missionários maristas enviados à Oceania, chefiados
por Dom João Batista Pompallier. É um homem muito ativo,
dedica-se a muitas coisas além de ajudar o Pe. Champagnat
em l’Hermitage. Na diocese, atua como um representante da
Sociedade da Maria. Em 1836, em Roma, Pompallier é consa-
grado, como Bispo Titular do Maronée (cidade hoje chamada
de Marogna, localizada na Romênia). De volta à França, faz
os preparativos para as missões. Visita l’Hermitage e benze
a nova capela. Em companhia de quatro Padres maristas e
três Irmãos maristas, parte para a Oceania, em 24 de dezem-
bro de 1836, do porto de Havre, no veleiro Delphine, que os
transportou até Valparaíso, aguardando a oportunidade de
embarcar em algum outro veleiro que rumasse na direção da
Polinésia. Logo nos primeiros dias desse período de espera,
o Pe. Servant escreveu esta carta, noticiando a morte do Pe.
Bret, um dos missionários, falecido durante a travessia atlân-
tica. Depois de tão longa viagem, enfrentando os perigos,
dificuldades e incômodos do mar, chegam em 10 de janeiro
de 1838. Compreende-se a efusão de sentimentos religiosos
contidos no texto desta carta. É de se notar também o gran-
de apreço do Pe. Servant pelo Pe. Champagnat, pela casa de
l’Hermitage e pelos Irmãos, que ele evoca com saudades.

3. Texto da Circular
Caríssimos Irmãos:
Através de uma carta do Padre Servant, tivemos a alegria
de receber notícias de nossos queridos missionários da Poliné-

93
sia. Diz ele coisas que muito interessam a nossa Sociedade. No
momento não podemos dar-lhes senão um apanhado, reser-
vando-nos o momento de dá-la a conhecer a vocês por extenso,
assim que tivermos ocasião.

Valparaíso, 14 de junho de 1837.

Querido Pai e Superior: Aproveito da presente circunstância


para proporcionar-lhe a dita de bendizer a divina Providência
que vela por nós com um carinho todo particular. Já estamos
singrando os mares pelo espaço de seis meses, quando apenas
três ou quatro são suficientes para efetuar a travessia do Havre
até Valparaíso. O senhor ficou sabendo da escala que fizemos
em Santa Cruz de Tenerife. Os ventos contrários nos mantive-
ram parados durante muito tempo no cabo Horn, mas final-
mente estamos nos aproximando das Ilhas que demandamos.
É este o motivo de nossa alegria. Estamos ansiosos por chegar a
essas Ilhas que a vontade de Deus nos manda considerar como
nossa verdadeira Pátria.

É certo que de vez em quando encontramos tribulações, al-


guns de nós contraem doenças, os elementos se opõem à nossa
trajetória, as borrascas, os acidentes causam medo, mas esses
contratempos vistos sob o prisma da vontade de Deus são be-
nignos e leves. Dentre as agruras de que falo, há uma que nos
custou bastante caro. O Padre Bret que tinha começado a ficar
doente quando estávamos por terminar a estadia em Santa
Cruz, foi atacado de febre ao nos fazermos ao largo. Então, re-
dobramos de esforços e fizemos de tudo para restabelecê-lo,
tanto que o mal pareceu retroceder por alguns dias. De repen-

94 Alma missionária do Instituto


te, agravou-se e se tornou mais sério do que nunca. Na segun-
da-feira santa, o Padre se levantou de manhã, por momentos,
como de costume, e disse ao Padre Chanel: “Ah, bem que vejo
que estou chegando ao fim!”.

Não se enganava: na tarde, entrou em agonia, serenamen-


te, e às 7 horas adormeceu na paz do Senhor! Como era admi-
rável sua paciência nos sofrimentos; como sabia calar os incô-
modos que tinha; como se mostrava agradecido por todos os
serviços que lhe eram prestados; com que exatidão tomava os
remédios mesmo os mais desagradáveis ao paladar! Apesar de
tudo, quantas graças Deus nos concede em nossas provações;
como Ele sabe consolar-nos e compensar nossas tribulações!

De vez em quando temos a felicidade de celebrar os santos


mistérios, de receber a santa comunhão, o Pão dos fortes. Oh,
como me sinto feliz em minha vocação! Como é consolador de-
dicar-se à salvação das almas que valem mais do que todos os
bens deste mundo! Parece-me, querido Padre Superior, ver os
Irmãos de l’Hermitage que, por suas orações e ações praticadas
por obediência, exercem como que uma santa pressão sobre
Maria e contribuem por este meio para o benefício das Missões.

Enquanto aguardamos a partida de Valparaíso, que acon-


tecerá quando Deus quiser, estamos ficando na casa da admi-
nistração pertencente aos Missionários do Coração de Jesus
e de Maria. A casa me lembra do lugar de repouso daqueles
bons Irmãos que muito amo, a inclusão de meu nome na lis-
ta colocada na urna representando o Coração da melhor das
mães, aquelas festas em honra da grande protetora da queri-

95
da Sociedade de Maria. Fomos os filhos privilegiados da divina
Providência durante o percurso todo, do Havre a Valparaíso, e
continuamos a ser favorecidos ao entrar nesta cidade....

O que eu deveria dizer de nossa terna Mãe está abaixo de


qualquer expressão. Há uma coisa que lhe peço fazer observar:
é que sábado era um dia privilegiado, o vento estava quase
sempre a nosso favor.

Os Irmãos que vão conosco tiveram, cada qual, suas pro-


vaçõezinhas: O Irmão Michel sofreu muito de dor de dentes;
o Irmão Nizier teve que aguentar dores de cabeça, mas com
referência a doenças, ele foi dos mais beneficiados. Agora, to-
dos eles vão maravilhosamente bem; encarregaram-me de lhe
anunciar que estão contentes para além de tudo o que podem
manifestar. Apresentam ao senhor os sentimentos do mais
humilde respeito e os sentimentos de amizade a cada um dos
Irmãos. O servo dedicado no Coração de Jesus e de Maria. “Ser-
vant, Missionário apostólico”.

No dia 27 de novembro passado, foi celebrado um Ofício so-


lene na Capela de Notre Dame de l’Hermitage em sufrágio do
Padre Bret, falecido no dia 20 de maio de 1837, durante a traves-
sia de Santa Cruz de Tenerife a Valparaíso. Queiram vocês, cada
um por si, fazer o que a Regra prescreve para um Irmão professo
e recomendar a Deus a missão e os missionários da Polinésia.
Abraço-os na caridade de Nosso Senhor Jesus Cristo e de sua
Santíssima Mãe. Com muito afeto,

Champagnat
Notre Dame de l’Hermitage, 12 de dezembro de 1837.

96 Alma missionária do Instituto


4. Atitudes e mentalidade de Marcelino
• Alegria pelas notícias dos missionários

• Confiança em Deus

• Afeição paternal aos Irmãos

• Partilha dos acontecimentos com os Irmãos

• Estima pela missão e pelos missionários

• Consciência da importância da Sociedade de Maria

• Respeito aos falecidos

• Confiança em Deus

• Importância da observância das Regras

5. Iluminação Bíblica
• “Por isso, eu estou enviando profetas, sábios e mestres.
A uns vocês matarão e crucificarão; a outros açoitarão
nas sinagogas de vocês e perseguirão de cidade em ci-
dade” (Mt 23, 34).

• “Reunindo Jesus os doze apóstolos, deu-lhes poder e


autoridade sobre todos os demônios, e para curar enfer-
midades. Enviou-os a pregar o Reino de Deus e a curar
os enfermos...” (Lc. 9, 1-6).

97
• “Porque Cristo enviou-me, não para batizar, mas para
evangelizar; não em sabedoria de palavras, para que a
cruz de Cristo se não faça vã. Porque a palavra da cruz é
loucura para os que perecem; mas para nós, que somos
salvos, é o poder de Deus” (1Cor 1, 17-18).

6. Nossos Documentos
(Projeto da Missão Ad Gentes, Ir. Seán D. Sammon, Superior Geral)

“O projeto de missão Ad Gentes que apresentamos pro-


longa as ações tomadas no Instituto no passado. Precisa-
mos apenas consultar nossas Constituições e Estatutos para
compreender a origem dessa última proposta. O artigo 90
nos lembra que: Como Igreja, nosso Instituto é missioná-
rio, e devemos ter alma missionária, a exemplo do Padre
Champagnat que afirmava: Todas as dioceses do mundo
entram em nossos planos. Nosso Instituto é missionário por
natureza. Lembremo-nos de que Marcelino mesmo dese-
java partir para a Oceania, e que somente a obediência às
orientações do Padre Colin e sua fraca saúde o forçaram a
permanecer na França e não partir para o Pacífico. Desde
o tempo do Fundador até nossos dias a prática de enviar
Irmãos em missão se perpetuou no Instituto.”

7. Para ajudar a rezar – Interiorização


Quanto ao tema da missionariedade do carisma maris-
ta, nossas Constituições lembram que “Deus quer que todos

98 Alma missionária do Instituto


os homens sejam salvos pela Igreja, sacramento universal de
salvação. Como ela, nosso Instituto é missionário, e devemos
ter alma missionária, a exemplo do Padre Champagnat que
afirmava: ‘Todas as dioceses do mundo entram em nossos
planos’ (C. 90). ‘A Província tem o dever de manter o espírito
missionário entre seus membros”. (C. 91.1).

A que se deve a insistência de Champagnat para que


um Instituto de Irmãos ensinantes fizesse parte da nova So-
ciedade? Antes de tudo, queria solucionar o problema da
falta geral de instrução religiosa e formação espiritual de
sua época. O Irmão João Batista cita-o dizendo: “Devemos
ter Irmãos para ensinar o catecismo, ajudar os missionários e
dirigir as escolas”. O sonho de Marcelino era ambicioso: tor-
nar Jesus conhecido e amado pelas crianças, especialmente
as mais abandonadas.

Bochard, um dos três vigários-gerais de Lyon pressiona-


va Champagnat pela união da Congregação Marista com
a dele, isto é, com os Clérigos de St. Viateur. O vigário-ge-
ral empregou meios drásticos para romper a resistência de
Marcelino. Segundo Marcelino Champagnat, o motivo da
recusa foi por se tratar de diferentes carismas. Essas situa-
ções impulsionam o espírito missionário de Marcelino.

Qual foi a resposta de Marcelino? De início, teve dúvidas:


Champagnat chegou a pensar em partir para as missões na
América. Achou que poderia levar consigo os Irmãos na via-
gem pelo Atlântico. Perguntou-lhes o que pensavam a esse
respeito. Qual foi a resposta dos Irmãos? Estariam com ele,
não importa a decisão que tomasse.

99
A estratégia do jovem Padre começou com uma novena
de jejuns e orações. Empreendeu outra peregrinação a La
Louvesc, junto ao túmulo de seu santo predileto, São João
Francisco Régis. Depois, continuou a abrir escolas. Em 1823,
nada menos do que três foram fundadas. Marcelino se con-
solava, sabendo que tinha apoio sólido da parte de algumas
autoridades diocesanas e muitos colegas de sacerdócio. Em
pouco tempo os ventos mudariam decisivamente a seu favor.

• Marcelino enfrentou decepções, doença quase mortal,


manipulações do vigário-geral Bochard, caráter difícil e
encrenqueiro do pároco, saída dos primeiros discípulos.
Deve ter tido grandes recursos interiores para suportar
tantas provações. De acordo com o que você sabe a res-
peito de Marcelino até aqui, quais poderiam ter sido es-
ses recursos interiores? De que maneira o sustentaram?

• De que recursos interiores você se vale para enfrentar os


desafios em sua vida? Na prática, que pode fazer você
para aprofundar esses recursos?

Tempo de reflexão e oração pessoal

Partilha de sentimentos que brotaram a partir desta oração.

8. Momento final
Sugestão: Alma missionária(163); Ou: Vai, vai, missionário
do Senhor (336); Ou: Se calarem a voz dos profetas (95); ou Há
um barco esquecido na praia (205).

100 Alma missionária do Instituto


14. Memórias de Família

Minha querida cunhada, aquele que


você chora e choro também eu, e, se não
lhe deixou muitos bens, deixou a você e a
seus filhos o exemplo de uma vida muito
cristã. É por isso que gosto de me lembrar
que ele era meu irmão.

101
14. Memórias de Família
(Carta 180 – à viúva Maria Champagnat – 16/3/1838)

1. Ambientação
Imagens e fotos de familiares dos Irmãos da Comunidade

2. Introdução
João Bartolomeu Champagnat, nascido a 19 de março
de 1777, era o segundo filho do casal Champagnat-Chirat.
Além disso certamente era o maior dos filhos homens. A
29 de outubro de 1811, casou-se com Maria Clermondon,
filha de Juan Jacobo, de St.Genest-Malifaux. Tiveram 6 fi-
lhos. João Batista e Francisco Régis entraram para os Irmãos
Maristas, o primeiro em 1834 e o segundo em 1839. João
Bartolomeu, como irmão maior, herdou a casa paterna dos
Champagnat. Aí morreu a 20 de janeiro de 1838. Marcelino
se encontrava por essas datas em Paris, atarefado com as
gestões para alcançar a aprovação legal de seu Instituto.

3. Texto da Carta
Paris, 16 de março de 1838, Missões Estrangeiras, Rue du
Bac, 120. Querida cunhada:

102 Memórias de Família


Com muito pesar, não pude estar junto ao meu pranteado
irmão, durante sua doença. Não pensava que fosse mortal. Ti-
nham-me dito que estava indo melhor. Faz apenas alguns dias
que em Paris me deram a notícia. Ofereci e também pedi a ou-
tros Padres que oferecessem o Santo Sacrifício por ele.

Não duvidei sequer um instante de que Deus lhe tenha feito


misericórdia e tenha recebido sua alma na verdadeira paz.

Como é curta esta vida! Como é pouca coisa e de quantas tri-


bulações anda cercada! Faz apenas alguns dias que estávamos
todos reunidos na mesma casa onde você mora e na qual conti-
nuará ainda a morar por alguns dias, se Deus quiser. De treze ou
quatorze que éramos, somente eu é que sobro. Meu Deus, como
é infeliz o homem que não vive segundo vossa lei! Como é cego
aquele que se apega a um bem que larga para nunca mais ver!
Sigamos o que nos diz São Paulo: “Usemos o que Deus nos deu,
segundo a vontade do mesmo Deus sem nos apegar”. Coitados
dos ricos!... O que é que eles têm a mais que nós? Mais tristeza
ao deixar esta vida.

Minha querida cunhada, aquele que você chora e choro


também eu, e, se não lhe deixou muitos bens, deixou a você e
a seus filhos o exemplo de uma vida muito cristã. É por isso que
gosto de me lembrar que ele era meu irmão.

Sempre me lembrarei dele ao celebrar a missa. Será que va-


mos ter que esperar muito para segui-lo no túmulo? O momen-
to já está marcado, você não sabe qual é, nem eu tampouco, e
pouco importa que saibamos. Preparemo-lo por uma vida toda
para Deus e conforme Deus quer. Que nossas enfermidades,

103
nossos sofrimentos sejam para nós outras tantas ocasiões de
nos tornarmos mais agradáveis a Deus!

É com razão que podemos dizer que nossa felicidade está em


nossas mãos, pois que, considerando bem as coisas, não existe
nada que não contribua para nos granjear esta felicidade: os
bens, a saúde, a pobreza, as doenças, os pesares.

Irei fazer-lhe uma visita, assim que voltar de Paris. Por ora,
diga a toda a família que continuo muito unido a vocês.

Diga a Margot que ficarei feliz de conhecê-la e que folgo de


saber que ela será seu arrimo na velhice; aos dois sobrinhos, que
os receberei em l’Hermitage quando quiserem.

A todos vocês, desejo que tenham, já não digo muitas rique-


zas, mas uma boa consciência, um amor acendrado para com
Deus. Que Jesus e Maria sejam o único bem de vocês. Rezem por
mim e para o bom resultado de minhas andanças.

Faz mais de dois meses que estou em Paris, quando pensava


não demorar mais do que um mês. Minhas andanças ainda não
terminaram, é bem possível que ainda esteja aqui por ocasião
da Páscoa. Se Deus me ajudar, espero conseguir o que estou plei-
teando. Gozo de muito boa saúde, não acho demorado o tempo,
e aqui ficaria para o resto de meus dias se fosse vontade de Deus.
O frio apertou bastante em Paris, embora não tenha caído neve.
Chegou-se a vender um balde de água por quinze tostões. Várias
pessoas foram encontradas mortas, enregeladas.

Adeus, meus queridos parentes. Tenho a honra de ser seu


atento e afeiçoado, Champagnat, Superior dos Irmãos Maristas.

104 Memórias de Família


4. Atitudes de Marcelino
• Surpresa pelo falecimento de João Bartolomeu.
“Não pensava que fosse mortal. Tinham-me dito que esta-
va indo melhor. Faz apenas alguns dias que em Paris me
deram a notícia [do seu falecimento]”.

• Pesar e tristeza.
“Com muito pesar, não pude estar junto ao meu pranteado
irmão, durante sua doença. Não pensava que fosse mortal”.
“Minha querida cunhada, aquele que você chora e choro
também eu…”.
• Nostalgia (sentimento).
“Faz apenas alguns dias que estávamos todos reunidos na
mesma casa onde você mora,…”.
“De treze ou quatorze que éramos, somente eu é que sobro”.

• Conformidade diante do inevitável.


“Como é curta esta vida! Como é pouca coisa e de quantas
tribulações anda cercada!”.

• Resignação e orgulho diante da vida exemplar de seu


irmão.
“...se não lhe deixou muitos bens, deixou a você e a seus
filhos o exemplo de uma vida muito cristã. É por isso que
gosto de me lembrar que ele era meu irmão”.

• Carinho para com a família.


“Adeus, meus queridos parentes. Tenho a honra de ser seu
atento e afeiçoado Champagnat”.

105
5. Pensamentos de Marcelino
• O homem justo ganhará os bens eternos.

• A vida é breve, pouca coisa.

• Precisa-se aspirar aos bens do céu, não aos terrenos.

• As situações da vida são meios para ser feliz.

• Nossa vida é de Deus.

6. Frases que mais tocam


“Apenas regresse de Paris, irei visitá-los. Por ora, diga a
toda a família que continuo muito unido a vocês”.

“É com razão que podemos dizer que nossa felicidade


está em nossas mãos, pois que, considerando bem as coisas,
não existe nada que não contribua para nos granjear esta fe-
licidade: os bens, a saúde, a pobreza, as doenças, os pesares”.

7. Em nossas Constituições
C. 56. Nosso amor fraterno estende-se também a cada
uma de nossas famílias. Exprime-se pela acolhida cordial
em nossas comunidades e pela oração, sobretudo por oca-
sião de eventos felizes ou dolorosos. A consagração religio-
sa torna mais profundo e mais delicado o amor que nutri-
mos por nossos familiares.

106 Memórias de Família


8. Reflexão Pessoal
Não é de se estranhar que o Pe. Champagnat mostra-
ra profundo afeto e carinho com seus familiares. Foi muito
unido a sua família de pequeno e viveu em harmonia com
ela. Sendo o benjamim da família, após o falecimento do
irmão menor, os olhos estavam sobre ele. Seu pai lhe ensi-
nava diversos ofícios, passava longos tempos com sua mãe
e sua tia. Possivelmente passava momentos livres com al-
guns de seus irmãos.

• Faça memória de sua família: avós, pais, irmãos, tios, so-


brinhos, etc.

• Compartilhe fotos, histórias ou experiências familiares


edificantes, que o fazem afirmar como Champagnat: “É
por isso que gosto de me lembrar que ele era meu irmão”.

Marcelino viveu num ambiente familiar sadio, com ex-


pressões de carinho. Poderíamos perguntar-nos: de onde
nasce esse manancial de ternura, carinho e dedicação para
com seus Irmãozinhos, ou sua compaixão e amor para com
as crianças e jovens desatendidos?

O Pe. Champagnat apesar de sua vida, desvelos e tra-


balhos, sempre esteve ligado e unido a sua família. O amor
que recebeu de pequeno o devolveu cem vezes mais.

107
9. Momento Final
Canto: Formamos a Família de Maria (187).

10. Informações complementares


Irmãos do Pe. Champagnat
Casada com Bento Arnaud, professor
1. Mariana Champagnat 11/03/1775
em St. Sauveur. Falece em 1817
2. João Bartolomeu 12/03/1777 Falece em 20 de janeiro de 1838

Se casou com o Sr. Lachal. Teve


3 filhos. Não se tem documento
3. Ana Maria 20/02/1779 e morte, mas pela carta que
analisamos se deduz que já estava
morta.

4. João Batista 11/09/1780 Falece em 3/08/1804 aos 23 anos.


Possivelmente falecida durante seu
5. Margarita Rosa 20/02/1782
primeiro ano de vida
6. Margarita Rosa 1º/08/1784 Falece em 15 de abril de 1829
Possivelmente falece antes
7. Ana Maria 25/07/1786
do nascimento de Marcelino
8 João Pedro 26/09/1787 Falece em 1833 em L’Hermitage

9. Marcelino José Bento 20/05/1789

10.José Bento 27/08 - 10/1790 Falece bem pequeno

108 Memórias de Família


15. Diante das dificuldades

“Como vê, querido amigo, sigo em Paris, ven-


do, visitando ora um ora outro, sem saber qual
será o fim de minhas cansativas correrias.

109
15. Diante das dificuldades
(Carta 183 – ao Ir. Antoine – 24/3/1838)

1. Introdução
Esta carta parece ser resposta a uma carta do Ir. Antoine,
porém, com a intenção de que seja comunicada aos Irmãos
do Setor. É curiosa a diferença da data inicial e a do pós-es-
crito. As indicações postais sinalizam a data de 30 de março.
Isso indica que o Pe. Champagnat ou se equivocou ao datar
a carta ou a reteve durante 5 dias. Dada a quantidade de
ocupações que tinha em Paris, a segunda hipótese parece
ser a mais provável.

2. Texto da Carta
Paris, 24 de março de 1838. Missões Estrangeiras, Rue Du Bac,
120. Caríssimo Irmão Antoine, querido Irmão de l’Hermitage:

Você está vendo, meu caro amigo, que continuo em Paris,


em visita ora a um ora a outro, sem saber qual será o término
de minhas correrias desgastantes. Espero, porém, que com o
socorro das orações que se fazem em toda a parte, conseguirei
o objetivo de todas estas andanças.

Ontem falei com o chefe de repartição encarregado de


todos os assuntos relativos às Escolas Primárias. É o senhor

110 Diante das dificuldades


Pillet, o qual me disse que meu processo conseguiu um pare-
cer favorável em todos os Conselhos Universitários, e que no
dia seguinte ele pensava redigir a minuta do Decreto que será
apresentado ao Conselho de Estado e, a seguir, ao Rei para
que o sancione.

O senhor Lachaize, deputado do Loire, disse ao prefeito de


La Valla, atualmente em Paris, que apostaria dez contra um que
eu obteria o decreto. Apesar de tudo isso, meu caro Irmão, estou
perfeitamente persuadido de que as coisas só acontecerão na
medida em que Deus quiser, nem mais nem menos. Mas não
deixo de lado nada que possa favorecer nosso objetivo. Sei que
Deus quer que nos sirvamos dos homens em tais circunstâncias.
Portanto, você está vendo que eu preciso é de orações.

Cumpra juntamente com seus colaboradores, que me são


todos muito caros, cumpra, cumpra por amor de Jesus Cristo,
todos os seus deveres. Reze e faça seus alunos rezar; você bem
sabe quanto Jesus gosta de ser importunado por essas almas
inocentes. Minhas andanças na Capital são particularmente
no interesse delas.

Estou passando muito bem em Paris. Hospedado no Se-


minário das Missões Estrangeiras, onde me encontro muito
a gosto. Eu posso garantir-lhe: Se não soubesse que estaria
fazendo alguma falta em l’Hermitage, pediria para terminar
aqui os meus dias. Sigo o regulamento da casa, tanto quanto
me permitem as saídas. Levanto-me ao toque do sino, assisto
à meditação e aos demais exercícios espirituais, estou presen-
te nas refeições e nos recreios.

111
Estou sumamente edificado com a generosa dedicação
dos que se destinam às missões longínquas. Que amável ca-
ridade reina entre eles! São alegres, mas sem leviandade nem
dissipação. Inquieta-os tudo aquilo que ocasiona atraso na
partida, mas não os desanima.

Há em Paris um núcleo excelente de bons cristãos. Deseja-


ria que nossos camponeses que se julgam bons cristãos, vis-
sem com que respeito o pessoal se comporta na igreja, com
que assiduidade e atenção ouvem os sermões! Sobretudo gos-
taria que presenciassem a piedade e o recolhimento com que
se aproximam da sagrada mesa. Não receiam permanecer na
igreja por duas ou três horas, pois as cerimônias aqui são mui-
to compridas.

É o pessoal mais granfino de Paris que assim procede.

O Irmão Marie Jubin está conseguindo bons resultados.


Atualmente segue as aulas para os surdos-mudos, e eu faço o
mesmo quando posso.

Nem quero lhe contar, meu caro, o que passei de frio nes-
te inverno. O combustível em Paris é caríssimo: um cidadão
comum pode carregar em seus ombros madeira no valor de
quinze francos. Várias pessoas morreram de frio.

Adeus, meu caro amigo; adeus, meu caro Théodose, Henry


Marie e meu amigo cozinheiro. Que Jesus e Maria sejam sua
única herança. Eu sou por toda a vida seu devotado pai em
Jesus e Maria.

112 Diante das dificuldades


Champagnat. P.S. Saudações de muito carinho ao senhor
Pároco e a seu Coadjutor. Passe minha carta aos Irmãos de
Mornant, dizendo-lhes que abraço a todos.

29 de março: Estou chegando do Ministério da Instrução


Pública. Lá me anunciaram que o Decreto da autorização es-
tava pronto e que o Ministro o assinaria talvez amanhã, apre-
sentando-o a seguir ao Conselho de Estado, para depois fazê-
lo assinar pelo Rei. Garantiu que isso não iria demorar.

Queira anunciar isso aos Irmãos de Mornant e de St-Sym-


phorien, recomendando-lhes que continuem suas preces. Dê
esta notícia também ao senhor Pároco, acrescentando que
lhe mando mil recomendações. Estou sempre a lhe pedir que
não me esqueça em suas fervorosas orações. Adeus, caro ami-
go. Penso estar em Lião nos últimos dias da semana santa,
mas não tenho certeza.

3. Atitudes de Marcelino
• Incerteza frente à demora da aprovação do Instituto:
“Como vê, querido amigo, sigo em Paris, vendo, visitando
ora um ora outro, sem saber qual será o fim de minhas can-
sativas correrias”.

• Confiança no poder da oração:


“Espero, não obstante, que, com o auxílio das orações que
se fazem em toda a parte, obterei o fim de todas as minhas
diligências”.

113
• Preocupação e carinho pelo trabalho e apostolado de
seus Irmãos:
“Cumpra, junto com seus colaboradores, aos quais quero
muito, cumpra, por amor a Jesus Cristo, seus deveres; reze
e faça rezar suas crianças”.

• Paz e tranquilidade:
“Gozo de boa saúde em Paris. Estou alojado no Seminário
das Missões Estrangeiras, onde sinto-me completamente à
vontade. Asseguro-lhe que se não soubesse que faço falta
em l’Hermitage, pediria para terminar aqui meus dias”.

• Admiração pela piedade que demonstra um bom


grupo de cristãos:
“Há em Paris um excelente núcleo de bons cristãos. Visse
você com que respeito estão nas igrejas, com que assidui-
dade e atenção assistem às instruções!”

• Otimista frente às adversidades e obstáculos que


se apresentam:
“Acabo de chegar do Ministério da Instrução Pública, onde
me asseguraram que o processo já estava preparado, e que
o ministro o assinaria provavelmente amanhã...”.

4. Pensamentos de Marcelino sobre alguns assuntos


• Devemos usar de todos os meios humanos ao nosso
alcance.

• O que é comum interessa-nos a todos.

114 Diante das dificuldades


• Um bom cristão vale-se da oração e de práticas piedosas.

• Um bom religioso cumpre com os deveres de seu estado.

5. Frases que mais tocam


• “Como vê, querido amigo, sigo em Paris, vendo, visitan-
do ora um ora outro, sem saber qual será o fim de mi-
nhas consativas correrias”.

• “Apesar de tudo isso, estou vivamente persuadido, meu


querido Irmão, que não será senão aquilo que Deus qui-
ser, nem mais nem menos. Não descuido, não obstante,
nenhuma questão que possa favorecer nosso assunto”.

6. Reflexão Pessoal
O tema da legalização do Instituto foi, para Marcelino,
um dos assuntos mais importantes. Foi uma época difícil,
diante da impossibilidade de conseguir a aprovação do Ins-
tituto. Teve que enfrentar pessoas (sacerdotes e políticos)
que não queriam ajudá-lo e que, além disso, interrompiam
o processo. Champagnat mostrou sempre paciência, hu-
mildade e constância no processo que levou vários anos
e que não alcançou êxito. O mais duro provavelmente foi
a incompreensão diante de uma obra que para ele, era da
vontade de Deus.

115
7. Para ajudar a rezar – Interiorização
Como reajo diante de obstáculos que se colocam diante
de mim, impedindo-me ou retardando a concretização de
algum desejo ou meta?

Que posso fazer para crescer em paciência e confiança


em momentos de sombra e incerteza?

Confie, por um momento, as situações conflitantes e so-


bre as quais não tem pleno controle, ao Senhor, à Boa Mãe
e a São Marcelino.

Tempo pessoal.

Partilhe sentimentos que brotaram a partir desta oração.

Leitura do Evangelho do dia ou passagem bíblica.

Pai–Nosso

8. Momento Final
Canto: Sacramento da Comunhão; ou Senhor, quanto
mais caminho (323).

116 Diante das dificuldades


16. Discernimento da
Vontade de Deus
“A escassez de Irmãos e o número de
pedidos já prometidos nos desaconselham,
por ora, erigir outras casas.

117
16. Discernimento da
Vontade de Deus
(Carta 192 – a Dom Louis Jacques Maurice de Bonald.
Bispo de Puy – maio de 1838)

1. Ambientação
Sugestão: uma vela acesa, a Bíblia, algum livro ou do-
cumento de Champagnat, adorno como folhagem ou flores,
outros símbolos que o tema sugere, um papel com o tema
da oração.

2. Conhecendo o contexto
Desde os anos 800, Le Puy foi um grande centro de pere-
grinação mariana. Sobre o Mont-Corneille está instalada a
gigantesca imagem de Nossa Senhora da França. Foi nesse
lugar que, em 1809, Courveille foi curado de sua cegueira.
E em 1812 recebeu a inspiração de fundar os Maristas. Na
Revolução Francesa, o templo foi saqueado e a imagem da
Virgem solenemente queimada. Louis Bonald foi nomeado
bispo de Puy em 1823 e, em 1840, arcebispo de Lyon.

Champagnat foi intuindo e crescendo na expressão “to-


das as dioceses do mundo entram em nossos planos”. Nes-

118 Discernimento da Vontade de Deus


sa carta há o pedido do bispo de Puy, para que Marcelino
assuma uma escolinha. Duas localidades desejavam a pre-
sença dos Pequenos Irmãos de Maria: Tence e Craponne.
Pe. Sallanon, pároco de Craponne, vai l’Hermitage solicitar
Irmãos. Ele queria garantir o prosseguimento da educação
e da catequese que faziam os Irmãos do Sagrado Coração
e que haviam se retirado da Paróquia. Dom Bonald, bispo
da Diocese de Puy, apoiou o pedido. Acontece que o páro-
co de outra paróquia da Diocese, Tence, havia feito, antes,
igual pedido, e Champagnat lhe dava preferência. A argu-
mentação do Bispo muda o parecer do Fundador. Tence só
receberá uma comunidade marista em 1938.

Craponne é cidade e paróquia da Diocese de Puy. O Pá-


roco Jean-Baptiste Sallanon, criou uma escola primária con-
fiada aos Irmãos do Sagrado Coração que deixaram o posto
em 1838. Na iminência de fechar a escola ou de confiá-la a
leigos, a Prefeitura quis confiá-la aos Maristas de Champag-
nat em 1839. O Pároco fez um grande esforço para conse-
guir os Irmãos. Dada a urgência dessa escola e aos apelos
do Bispo, Craponne foi atendida antes de Tence.

Tence era localidade com cerca de 5.700 habitantes na


diocese de Puy. Seu pároco, Jean-François Péala, desejava
ter Irmãos para a escola e seguidamente se comunicou
com Champagnat. Não conseguindo, convidou os Irmãos
do Sagrado Coração, em 1840 e a escola teve um grande
desenvolvimento graças ao seu zelo.

119
3. A carta
Excelência Reverendíssima:

Sua estimada missiva chegou à nossa casa durante a minha


ausência. Por isso, a resposta vai com certo atraso. Há tempo que
alimentamos o desejo de possuir uma escola em sua diocese. Esta-
mos convencidos de que poderia ser muito útil à nossa Congrega-
ção, sobretudo em vista do autêntico testemunho de benevolên-
cia que o senhor nos vem dando. Achamos que é lastimável não
estarmos em condições, neste ano, de atender ao primeiro pedido
que o senhor se digna fazer-nos. Seria ocasião de lhe demonstrar-
mos nossa prontidão em favorecer o zelo verdadeiramente apos-
tólico de V. Ex.ª para com essa diocese que oferece tão rica messe.

A escassez de Irmãos e o número de pedidos já prometidos nos


desaconselham, por ora, erigir outras casas. Antes que o senhor
pároco de Craponne tivesse chegado à nossa casa para solicitar
o envio de Irmãos, o pároco de Tence já nos tinha formulado igual
pedido, várias vezes, para a própria paróquia. Achamos muito
conveniente que seja a vez dele de ser servido. Não esqueceremos
a cidade de Craponne, assim que pudermos implantar nela uma
escola. Temos esperança de realizar este projeto sem demora,
como já demos a entender ao senhor pároco.

Considero-me feliz em ter a oportunidade de apresentar a V.


Ex.ª Rev.ma minha respeitosa homenagem e de lhe protestar total
devotamento com que, para sempre, Senhor Bispo, serei seu servo
muito humilde e obediente.

Champagnat

120 Discernimento da Vontade de Deus


4. Descobrindo o coração de Marcelino
• Acolhedor. Marcelino sempre acolhia com respeito os
pedidos de abertura de uma nova comunidade. Consi-
derava como apelo evangélico para expandir a missão
evangelizadora e educativa. “Ocasião de demonstrar nossa
prontidão em favorecer o seu zelo apostólico”.

• Idealista. “Há tempo alimentamos o desejo de ter uma


escola em sua diocese”. Na quietude de l’Hermitage, os
Pequenos Irmãos de Maria sonham uma presença em
outras dioceses, sobretudo Puy, tão mariana. Mas era pre-
ciso ter os meios para isso, sobretudo, Irmãos.

• Eclesial. As opções de Marcelino estão sempre sinto-


nizadas com a Igreja local, diocese e paróquia. A escola
era um meio de evangelização (catequese), formando
os paroquianos.

• Prudente. Há mais de 20 anos Champagnat vinha for-


mando Irmãos e abrindo comunidades. Foi percebendo
a necessidade de não dar passos apressados. Se os pedi-
dos eram tantos, entretanto havia necessidade de formar
os educadores com base suficiente de espiritualidade,
pedagogia e conteúdo. “A escassez de Irmãos e o número
de pedidos já prometidos nos desaconselham, por ora, erigir
outras casas”.

• Discernente e criterioso. “Achamos muito conveniente


que seja a vez dele de ser servido”. O critério de Champag-
nat de atender aos pedidos conforme ordem de chega-

121
da, teve de ser rompido. Por motivos mais profundos,
Craponne foi atendida antes, caso bem compreendido
pelo Fundador.

5. Para ajudar a rezar - Interiorização


Iluminação Bíblica: 1Cor 2,13-14; Cl 3, 17. Sl 119, 15-18

Marcelino e sua comunidade de l’Hermitage vivem em


profunda vida espiritual. Esta é alimentada pelas obras que
as outras comunidades realizam; pelos Irmãos espalhados
pelas dioceses, paróquias e municípios; pelos alunos aten-
didos, particularmente a parcela dos pobres; pelo trabalho
catequético, evangelizador, que cada um realiza.

Como nossa comunidade participa da missão do Institu-


to nos dias de hoje?

Vários elementos ajudavam a discernir as novas esco-


lhas. O que desejava sempre era que cada nova comuni-
dade contribuísse para a expansão do Reino. Os projetos
eram discernidos na oração, no diálogo e no conhecimento
da realidade.

Com que espírito discernimos os nossos projetos?

Tempo pessoal e partilha da expressão que mais nos in-


terpelou nesta oração. A partir das expressões colocadas,
fazer uma oração coloquial com Deus.

122 Discernimento da Vontade de Deus


6. Momento Final
Sugestões: Cortou a rocha e com seus filhos (174); Eu can-
to louvando Maria (142); Um dia escutei teu chamado (221).

123
17. Devoção a Maria

Sem Maria não somos nada e com


Maria temos tudo, porque Maria
está sempre com seu adorável Filho, ou no
colo ou no coração.

124 Devoção a Maria


17. Devoção a Maria
(Carta 194 – a Dom Pompalier, Vigário Apostólico
da Oceania – 27/5/1838

1. Ambientação
Mala de viagem, pasta, documentos, calçado, pegadas,
estampa de cidade (Paris), navio, imagem de Maria e de
Champagnat.

2. Introdução/situação/contexto
A correspondência entre o Pe. Champagnat e o bispo
missionário, Dom Pompallier, é abundante. São muitas as
cartas, em torno de 10, que os dois amigos trocaram entre
si. Pompalier esteve dois anos no l´Hermitage, trabalhando
com o Pe. Champagnat. Isso explica o tom de confiança que
se percebe nesta carta. Por outro lado, também mostra o
espírito missionário do nosso Fundador. Fez três envios de
Irmãos para a Oceania: em 1836, em 1838 e em 1839.

É curioso observar que o início da carta começa em Paris


e termina no l´Hermitage, onde é posta no correio. Cham-
pagnat voltou de Paris em meados de julho, depois de ter
estado lá desde 18 de maio. Marcelino deixa transparecer
ao amigo bispo quanto isso lhe custou: “O senhor bem
pode imaginar como o tempo me custa passar, afastado
como estou das minhas ocupações”.

125
3. Texto da carta
Paris, 27 de maio de 1838. Missões Estrangeiras, Rue Du
Bac, 120.

Senhor Vigário Apostólico:

É com grande prazer que, sem demora, aproveito um momen-


to de folga para responder à sua amável missiva. Estou em Paris,
como o senhor vê, desde o dia 18 de janeiro, procurando conse-
guir para os Irmãos a autorização que ainda não obtive, mas que
estou cada dia mais esperançoso de conseguir. Parece que tudo
está em ordem, mas as formalidades nunca se encontram com-
pletamente satisfeitas. Quantas andanças dentro de Paris, quan-
tas visitas! Difícil é fazer uma ideia de toda esta correria.

Foi de batina que realizei todas as minhas visitas, todas as via-


gens, sem nunca ter sofrido um insulto nem sequer me chama-
rem de jesuíta! Paris está o máximo de tranquilidade; o comércio
funciona mais ou menos bem. Na Capital há mais prática religio-
sa nas pessoas do que se imagina. O senhor bem pode imaginar
como o tempo me custa a passar, afastado como estou das mi-
nhas ocupações. Mesmo com todo este transtorno que tenho em
Paris, eu me sinto melhor de saúde do que em l’Hermitage.

O Padre Dubois fala muitas vezes do senhor. Poucos dias se


passam sem que ele me diga: “Não esqueça aquela missão”. San-
to homem aquele! Seria preciso multiplicá-lo e fazê-lo viver muito
tempo. Neste tempo, a França está mandando missionários para
todos os países que precisam. Durante minha estada em Paris, vi
partir seis do Seminário das Missões Estrangeiras; outros se estão

126 Devoção a Maria


preparando. Quantos motivos de edificação encontro nesta casa!
A religião não morrerá tão cedo na França, ela possui ainda mui-
ta vitalidade. A obra da Propagação da Fé se desenvolve mais e
mais cada dia. O Padre Mioland foi nomeado bispo de Amiens;
tomou posse ontem. Os Cartuxos nomearam novo superior, é
pena que não me lembre do nome.

Continuamos a receber muitos noviços. Somos atualmente


duzentos e vinte e cinco ou seis (Irmãos). Temos trinta e oito ou
trinta e nove estabelecimentos e setenta pedidos. Sofremos um
verdadeiro assédio por parte daqueles que querem conseguir Ir-
mãos; empregam toda sorte de estratagemas para arrancá-los.
Os que não gozam de alguma influência, servem-se de pessoas
às quais não podemos recusar. Estamos em vésperas de abrir
uma nova casa mãe (noviciado). É possível que a estabeleçamos
no Departamento do Var. O Padre Matricon continua comigo, es-
tou muito contente com ele. Faz-se estimar pelos Irmãos e sabe
julgar com muito acerto. Tenho também o Padre Besson, que
continua muito bom rapaz. O Irmão Francisco é meu braço direi-
to; governa a casa durante minha ausência como se eu estivesse
presente. Todos o acatam sem resistências. Maria mostra visivel-
mente sua proteção sobre l’Hermitage. Como tem força o santo
nome de Maria! Quão felizes somos de nos termos ornamentado
com ele! Há muito que não se falaria mais de nossa Sociedade
sem este nome milagroso. Maria! Eis aí toda a riqueza (ressource)
de nossa Sociedade.

Terminamos a Capela. Está muito bonita, nós a consideramos


infinitamente cara a nosso coração, abençoada que foi por nosso
primeiro missionário e primeiro bispo da Sociedade. A todos esses

127
títulos espero que se acrescentará um terceiro, como consequên-
cia natural: o primeiro que...

O Padre Terraillon continua como pároco de Saint-Chamond.


Penso, contudo, que não vai parar lá por muito tempo. O senhor
Arcebispo manifesta mais do que nunca sua benevolência para
conosco e da mesma maneira o bispo de Belley. Neste ano, come-
çamos o estabelecimento da Grange-Payre. Já começa a prospe-
rar, tendo já matriculado um bom número de alunos.

Maria, sim só Maria é nossa prosperidade; sem Maria não so-


mos nada e com Maria temos tudo, porque Maria está sempre
com seu adorável Filho ou no colo ou no coração. Como pode o
senhor imaginar, é também por Maria que espero conseguir a
autorização que estou pleiteando.

Seja feita a santa, a santíssima vontade de Deus! Ouço o se-


nhor responder: Amém! Que todos os que acompanham V.Ex.ª,
a saber, Irmãos e Confrades respondam o mesmo, e que rezem
por mim, que me recomendo às fervorosas orações deles, sobre-
tudo às suas, Ex.ª Por minha parte, nunca subo ao santo altar,
sem lembrar-me de nossa querida missão e dos que para ela são
enviados. Continue mostrando-se o pai dos que lhe enviamos, do
mesmo modo como procedeu com os primeiros.

Digne-se V. Ex.ª acolher os protestos do meu sincero devota-


mento e dos sentimentos verdadeiramente afetuosos com que,
Ex.mo Vigário Apostólico, tenho a honra de ser, com respeito, seu
servo muito humilde.

Champagnat (...)

128 Devoção a Maria


3. Atitudes e mentalidade de Marcelino
• Constância e tenacidade: “Quantas andanças dentro de
Paris, quantas visitas! Difícil é fazer uma ideia de toda esta
correria!”.
• Observador e cordial: Referindo-se ao Pe. Dubois, reitor
do Seminário onde estava hospedado, Champagnat es-
creve: “Santo homem aquele! Seria preciso multiplicá-lo
e fazê-lo viver muito tempo”. Do jovem Irmão Francisco
diz: “É meu braço direito; governa a casa durante a minha
ausência como se eu estivesse presente. Todos o acatam
sem resistências”.
• Bom-senso e humildade: “Estou desejoso de encontrar
quem me substitua. Reze por mim, eu realmente necessito!”.
• Grande confiança em Maria: “Maria mostra visivelmen-
te sua proteção sobre l´Hermitage”.
• Agradecido e transbordante de amor por Maria: “Sem
Maria não somos nada e com Maria temos tudo, porque
Maria está sempre com seu adorável Filho, ou no colo ou
no coração”.
• Preocupação com o bem-estar dos Irmãos e confiante
persistência: “Estou em Paris… procurando conseguir
para os Irmãos a autorização que ainda não obtive, mas
que estou cada dia mais esperançoso de conseguir”.
• Esperançoso e Otimista: “Estou cada dia mais esperan-
çoso de conseguir a aprovação”.

129
4. Nossas Constituições
C.4: “Dando-nos o nome de Maria, quis que vivêssemos
do seu espírito. Convencido de que ela fez tudo entre nós,
chamava-a de Recurso Habitual e Primeira Superiora. Con-
templamos a vida de nossa Mãe e Modelo para impregnar-
nos do seu espírito. Suas atitudes de perfeita discípula de
Cristo inspiram e pautam nossa maneira de ser e de agir.
Havendo Deus dado seu filho ao mundo por Maria, quere-
mos torná-la conhecida e amada como caminho que leva
a Jesus. Atualizamos assim nosso lema: “Tudo a Jesus por
Maria, tudo a Maria para Jesus.”

5. Para ajudar a rezar - Interiorização


Nesta carta encontramos uma das mais belas referências
a Maria que temos de São Marcelino. Talvez sejam o núcleo
das suas convicções a respeito de Maria. Vamos retomá-las:

“Maria mostra visivelmente sua proteção sobre l´Hermi-


tage. Como tem força o santo nome de Maria! Quão feli-
zes somos de nos termos ornamentado com ele! Há muito
que não se falaria mais de nossa Sociedade sem este nome
milagroso! Maria! está aí toda a riqueza (recurso) de nossa
Sociedade”.

“Maria, sim, só Maria é nossa prosperidade; sem Maria


não somos nada e com Maria temos tudo, porque Maria
está sempre com seu adorável Filho, ou no colo ou no co-

130 Devoção a Maria


ração. Como pode o senhor imaginar, é também por Maria
que espero conseguir a autorização que estou pleiteando”.

Nesta carta encontramos, pela primeira vez, Champag-


nat usando a palavra Recurso, para descrever Maria. Esta é
a única carta que contém a palavra “recurso”: “Marie, voilà
toute la ressource de notre Société”.

Confiamos seguidamente nossos planos, sonhos e preo-


cupações a Maria?

Como maristas somos sinal do rosto mariano da Igreja?

Somos presença de Maria de maneira original, gerando


Jesus na vida da Igreja e de nossa sociedade?

Tempo pessoal

Partilhe sentimentos que brotaram a partir desta oração

6. Momento Final
Oração (Circular Deu-nos o Nome de Maria, Ir. Emili Turú):

Maria,
Aurora dos novos tempos,
dou-te graças porque sempre fizeste tudo entre nós,
E assim continua sendo até o dia de hoje.
Ponho-me confiadamente entre tuas mãos
e me abandono à tua ternura.
Confio-te também cada uma das pessoas que, como eu,

131
se sentem privilegiadas em levar teu nome.
Renovo neste dia minha consagração a ti
e também minha firme vontade de contribuir
na construção de uma Igreja reflexo de teu rosto.
Tu, fonte de nossa renovação,
acompanhas minha fidelidade,
como acompanhaste a dos que nos precederam.
Neste caminho para o bicentenário marista,
e sinto tua presença junto a mim
por isso te agradeço. Amém

Canto: Caminheiro de Maria (165), Confiai, recorrei (169).

132 Devoção a Maria


18. Confiança em Deus
nas adversidades
Não esqueça de dizer a todos os Ir-
mãos quanto eu os amo, quanto sofro por
estar separado.

133
18. Confiança em Deus
nas adversidades
(Carta 197 – ao Ir. Francisco – 23/6/1838)

1. Ambientação
Imagem de Champagnat, caminho, chinelos, flores, ve-
las, fotos de líderes mundiais, como: Gandhi, Madre Teresa,
Dorothy Stang, Dra. Zilda Arns, e/ou outros.

2. Introdução
Cada pessoa traz em si motivações, objetivos, metas,
sonhos. Os sonhos nos colocam em movimento para rea-
lização de tal objetivo. Algumas experiências nos tocam o
coração e nos fazem acordar para a realidade. Foi assim que
Champagnat soube direcionar seus sonhos em prol dos ou-
tros. Vejamos nos fatos de sua vida como isso aconteceu.

3. Contexto
No dizer do Irmão Avit (cf. Abrégé des Annales, p. 251),
o Irmão François teria pedido ao Padre Champagnat que o
livrasse das preocupações da administração. Pode ser ver-

134 Confiança em Deus nas adversidades


dade, tanto que o primeiro assunto em que entra o Funda-
dor, sem preâmbulos, é uma palavra de estímulo, que certa-
mente foi muito bem correspondida pelo Irmão Francisco.

E logo o Padre Champagnat volta às providências que


pensa tomar para conseguir mais uma audiência com o
Ministro da Instrução Pública, Monsieur De Salvandy. Este,
desta vez, acabou de decepcioná-lo, podemos dizer, de ma-
neira mais sombria do que precedentemente.

Sempre novos entraves, novas artimanhas para cozinhar


a questão em banho-maria, Salvandy decididamente não
quer conceder a autorização. Assunto encerrado. Cham-
pagnat não se deixa abater. “Continuo tendo muita con-
fiança em Jesus e Maria. Conseguiremos nosso intento, não
tenho dúvida, só não sei a hora”, escreveu ele.

4. Texto da carta
Meu caríssimo Irmão:

A posição que você ocupa em l’Hermitage não é invejável,


como poderiam pensar alguns. Que é que você estaria fazen-
do aí? Você não está aí de oferecido. Procure simplesmente
cumprir exatamente os deveres, e Deus há de fazer o que você
não puder.

Amanhã viajo para Saint-Pol, para visitar a casa que desti-


nam aos Irmãos, conforme estão pedindo o senhor pároco e o
prefeito. Estamos condenados a pegar esse estabelecimento.

135
Eu esperava me livrar desta, mas não é possível, na condição
em que nos encontramos.

Você está querendo saber, penso eu, em que pé estão nos-


sas gestões. Infelizmente, quase nada sei, ou se prefere, sei de
tudo. O que antes desconfiava que fosse, se mudou em certeza.
Estou muito aborrecido, mas não desanimado, continuo ten-
do muita confiança em Jesus e Maria. Conseguiremos nosso
intento, não tenho dúvida, só não sei a hora. O que mais nos
importa é fazer de nossa parte somente o que Deus quer que
façamos, quero dizer: o que nos for possível. Depois disso, dei-
xar agir a Providência. Deus sabe melhor do que nós o que nos
convém, o que é bom para nós.

Estou muito consciente de que um pouco de espera não nos


será prejudicial. Estou penalizado pela morte do bom Irmão
Fabien e também pelo fato de que o Irmão Justin não se resta-
belece. Deus seja bendito! Que Jesus e Maria o ajudem sempre
mais e mais.

Você está vendo tão bem quanto eu que, em vez de abrir-


mos novas escolas no ano que vem, estaremos obrigados a su-
primir alguma. Não prometa nada a ninguém. Pode receber os
noviços de Marlhes dos quais me falou. Você está vendo como
são importantes os que se livraram do serviço militar; temos
que acolher o que eles rendem ou o que podem render.

Quanto aos consertos na Grange-Payre, atenho-me ao que


Philippe puder fazer, mas gostaria de ver primeiro a parede que
quer demolir. O que me dá o que pensar é que ela estará ainda

136 Confiança em Deus nas adversidades


úmida e, por isso, não é bom ocupar logo a casa. Se não preci-
sasse demolir, seria bem melhor.

Quanto a Marcellin Lachal, não sei o que dizer, pois não


sei bem como foi. Fez ele muito mal de largar o patrão que ti-
nha. Tenho razões plausíveis para escolher o Irmão François
Régis como próximo enviado às Missões. O Irmão Marie Au-
gustin irá a próxima vez. Espere meu retorno a l’Hermitage
para a admissão de Jutier e de Blanchon. Quanto ao meu so-
brinho, é necessário que venha com toda a vontade de seus
pais e com a própria.

Não solte a rédea quanto ao Irmão Marie Théodore, se não


fizer o que deve, quero dizer: confessar-se. Que cada oito dias
pelo menos entregue um bilhete de confissão. De saúde, vou
antes mal que bem, faz alguns dias. As viagens me cansam. Nos
dias de voltar, mandar-lhe-ei uma carta pelo Padre Bati, caso
eu não vá com ele. Ele está em Paris faz uns oito dias. Em todo o
caso penso estar em l’Hermitage dentro de quinze dias.

Não esqueça de dizer a todos os Irmãos quanto eu os amo,


quanto sofro de ficar separado.

Champagnat

5. Constituições
C.31: A pobreza espiritual nos mantém em total depen-
dência do Pai. Manifesta-se pelo recurso ao Superior, pela
aceitação de nossas limitações e da ajuda dos outros.

137
Faz-nos recorrer sem cessar à oração que reanima a co-
ragem e a confiança. Coloca-nos na paz do pobre que se
abandona à Providência divina.

6. Alegrai-vos
Carta Circular aos Consagrados e Consagradas

A nossa memória curta e a nossa experiência fraca im-


pedem-nos muitas vezes de procurar as «terras da alegria»,
onde saborear o reflexo de Deus. Temos mil e um motivos
para viver na alegria. A sua raiz alimenta-se da escuta cren-
te e perseverante da Palavra de Deus. Na escola do Mestre,
escuta-se o «esteja em vós a minha alegria, e a vossa alegria
seja completa» (Jo15, 11), e treinamo-nos com exercícios
de alegria perfeita.

«A tristeza e o medo devem dar lugar à alegria: Alegrai-


vos... exultai... transbordai de alegria – diz o Profeta (Is 66,
10). É um grande convite à alegria. […] Cada cristão, mas
sobretudo nós, somos chamados a levar esta mensagem
de esperança, que dá serenidade e alegria: a consolação de
Deus, a sua ternura para com todos. Mas só o poderemos
fazer, se experimentarmos, nós primeiro, a alegria de ser
consolados por Ele, de ser amados por Ele.» (Alegrai-vos,
Carta Circular aos Consagrados e Consagradas. Do Magis-
tério do Papa Francisco, n.3)

138 Confiança em Deus nas adversidades


7. Para ajudar a rezar
O que você diria sobre o relacionamento entre o Pe.
Champagnat e o Ir. Francisco?

Qual o seu grau de sensibilidade para com as pessoas


que estão em situação sofredora?

Você já visitou alguma entidade social, ONGs, obra so-


cial? Quais suas impressões sobre aquela realidade?

Agradeça a Deus a alegria que sente no cotidiano ao su-


perar uma dificuldade e ao constatar grande misericórdia
de Deus para com você.

Louvor e gratidão pela aprovação legal do Instituto.

Tempo Pessoal e Contemplação.

Preces espontâneas

Refrão: Caminheiro de Maria, Marcelino Champagnat


ensinou ao mundo inteiro a humildade e o amor (165).

8. Momento Final
Oração final: Senhor, Deus da vida, o clamor de muitos
que sofrem não nos pode deixar indiferentes. Temos em
Marcelino Champagnat o exemplo de pessoa sensível às
necessidades dos outros. Ajuda-nos a termos o coração
aberto e disponível para escutar o teu chamado e respon-
dermos com amor à tua proposta. Amém.

139
19. Discernimento das
obras apostólicas

Não podemos, senhor Bispo, continuar neste


estabelecimento de la Côte-Saint-André,
a não ser nas mesmas condições que foram
estipuladas quando foi fundado.

140
19. Discernimento
das obras apostólicas
(Carta 213 – a Dom Filiberto de Buillard, Bispo de
Grenoble, Isere – 19/9/1838)

1. Ambientação
Música instrumental; Várias velas acesas espalhadas pelo
chão da capela; Mapa com as indicações dos locais de nossa
presença Marista.

2. Introdução/situação/contexto
O Padre Champagnat comunica ao Bispo as condições
inaceitáveis propostas por Douillet, para o estabelecimento
de La Côte-Saint-André. Ele queria que os Irmãos alugassem
tudo em condições muito duras. O digno Prelado ficou con-
trariado, pois já contava com mais escolas dirigidas pelos
Irmãos. Agora chega-lhe ao conhecimento o impasse com o
Padre Douillet. “É com muita pena, escreve ele, que assistiria
ao rompimento dos Maristas com o Padre Douillet.”

141
Segundo o Irmão Avit, “O piedoso Fundador fez de-
pois uma viagem para ir encontrar-se com o Padre Ferreol
Douillet, mas não conseguiu dele um abrandamento da-
quelas exigências inaceitáveis. Não só, Douillet continuou
a atrapalhar a administração do Irmão Louis Marie, Diretor
da escola, metendo-se em tudo e exigindo prestação de
contas de tudo. “Concordo, era um padre zeloso, possuído
de ótimas intenções, mas com ideias, diria até egoístas,
das quais não abria mão.” Finalmente, após várias conces-
sões de parte a parte, foi assinado um contrato de aluguel,
válido por 9 anos.

3. Trechos da Carta
Creio que seja do agrado de V. Ex.ª tomar conhecimento
das condições que a ótima pessoa do Padre Douillet nos quer
impor. Vou transcrevê-las palavra por palavra. Pode estar
certo, senhor Padre Superior, que em minhas propostas não
quero deixar-me guiar pelos cálculos que fazem os homens do
mundo; quero atribuir às coisas o justo valor que têm. Omnia
ad majorem D(ei) G(loriam), amen.

(....)

Não podemos, senhor Bispo, continuar nesse estabele-


cimento de la Côte-Saint-André, a não ser nas mesmas con-
dições que foram estipuladas quando foi fundado. Com a
permissão de V. Ex.ª cedemos ao Padre Douillet Irmãos, com
a condição de que tivessem moradia e a mobília por nós es-

142 Discernimento das obras apostólicas


pecificada. Não mantemos nenhum outro estabelecimento em
condições diferentes dessas. Seria contrário à nossa praxe assu-
mir compromissos como esses.

Estamos muitíssimo sentidos por não podermos continuar a


dirigir a escola de La Côte. Conservaremos sempre para com a
pessoa do padre Douillet a estima a que faz jus. Quanto ao que
diz respeito a sua pessoa, Ex.ª, queira considerar nossa Socieda-
de como sendo inteiramente devotada aos interesses de V. Ex.ª
Havemos de considerar-nos honrados de poder trabalhar às
suas ordens para a glória de Deus, em sua importante diocese.

Digne-se V. Ex.ª aceitar os sentimentos da mais sincera vene-


ração, com que temos a honra de ser seu servo muito humildes
e respeitoso.

Champagnat

4. Atitudes e Mentalidade de Marcelino


• Justiça... “quero atribuir às coisas o justo valor que têm”.

• Compadecido... “Estamos muitíssimo sentidos por não


podermos continuar a dirigir a escola”.

• Reconhecimento do trabalho dos irmãos e necessidade


de continuar com as condições estabelecidas na fundação.

• Muito magoado e sentido... “por não poder continuar


em La Côte”.

143
• Devoto aos interesses do Sr. Bispo.

• Honrado em trabalhar na Diocese.

• Humildade em colocar a real situação.

• Respeito para com as autoridades.

• Demonstra abertura para o diálogo e discernimen-


to ao continuar na paróquia nas mesmas condições de
quando foram fundadas,

• Liberdade: a amizade com o Pe. Douillet não o obrigava


a fazer concessões.

5. Para ajudar a rezar – Interiorização


Marcelino está bastante decidido. “Não podemos
mais...”. Apresenta-se muito sincero ao Sr. Bispo, colocando
as verdadeiras intenções injustas do Pe. Douillet. Em seu
coração está um sentimento grande de cuidado para com
os Irmãos. Claramente vemos nesta carta um processo de
discernimento de continuidade ou não de uma obra apos-
tólica. Diversos fatores são levados em conta por Marcelino,
para tal discernimento. Os locais de nossa missão devem
ter condições ideais para a permanência, no âmbito de re-
cursos materiais, estruturais, administrativos e no âmbito
da fecundidade evangélica.

144 Discernimento das obras apostólicas


Como realizamos o discernimento de nossas obras
apostólicas, para decisão de permanência ou não?

A oração em comunidade é o âmbito especial que nos


permite discernir e assumir em comum nossas escolhas.

Há sentido de continuidade de nossa comunidade nes-


te local? Por quê?

Tempo Pessoal.

Partilhe sentimentos que brotaram a partir desta oração.

6. Nossas Constituições
“Ouvimos a voz dos pastores da Igreja e agimos de acor-
do com o Bispo conforme o direito universal, na organiza-
ção das obras apostólicas, e segundo o carisma e o direito
próprio do Instituto.” (C.40.1 - c 678).

“Para erigir uma obra apostólica ou para dela retirar


os Irmãos, os Superiores agem de comum acordo com o
Bispo diocesano, conforme o direito canônico. Quando
de suas visitas às comunidades, o Irmão Provincial en-
tra em contato com os responsáveis pela Igreja local.”
(C.80.1).

145
7. Momento final
Preces espontâneas e Pai-Nosso.

• Todos os estabelecimentos trabalham em unidade...


“nenhum trabalha em condições diferentes”.

Canto: Vejam, eu andei pelas Vilas (97)

146 Discernimento das obras apostólicas


20. Expressar a
felicidade aos Irmãos
Anime muito seus colaboradores.

147
20. Expressar a felicidade
aos Irmãos
(Carta 242 – ao Ir. Dominique, diretor de Charlieu – 14/2/1839)

1. Ambientação
Sugestões: Quadro ou estátua de Champagnat, vela, al-
gumas pedras, folhagem ou flores e outros símbolos que o
tema sugere, folha com a inscrição do tema do dia.

2. Conhecendo o contexto
Charlieu é cidade da região de Roanne com cerca de
5.500 habitantes a 117km de l’Hermitage. A Revolução fez
um grande estrago na educação. Prefeitura e Paróquia con-
cordaram em convidar os Pequenos Irmãos de Maria para
assumir uma escola, em 1824. Era o tempo em que Cham-
pagnat construía l’Hermitage. Não pôde verificar bem as
condições da escola. O diretor, Ir. Dominique, explicava a
situação precária dos Irmãos que só conseguiam sobreviver
graças à ajuda de famílias benfeitoras. Para poder atender
ao crescente número de alunos pobres, Champagnat pede
ajuda a Blaise Aurran. Os Irmãos se retiraram em 1978.

148 Expressar a felicidade aos Irmãos


O Ir. Dominique foi recebido em l’Hermitage em 1824.
Acompanhou Courveille no novo Instituto que desejava
fundar, mas percebendo o fiasco, retornou para Champag-
nat. Trabalhou em seguida em Mornant, Millery, Chavanay
e, em 1833, em Charlieu. Era fiel discípulo de Marcelino, via-
java quase sempre a pé, tinha vida austera e era de pouca
instrução. A comunidade de Charlieu tinha muitas desaven-
ças. Os Irmãos reclamavam do rigor do diretor. Dominique
foi transferido para Pélussin, depois Monsols e, finalmente,
para Blanzy, onde faleceu em 1865. Uma multidão partici-
pou de seus funerais, pois, apesar de suas limitações, era
um excelente religioso e devotado ao trabalho.
O Ir. Dominique se via a braços com muitas dificuldades em
Charlieu, e as autoridades municipais não ajudavam a escola.
A situação foi em parte resolvida com a ajuda de um benfeitor.
Entre outros problemas estava o da habitação dos Irmãos, o
aluguel da casa onde moravam estava com prazo vencido.
O Fundador promete ao Ir. Dominique fazer-lhe uma vi-
sita. Depois disso, não sabemos como os Irmãos puderam
se arranjar. Muitas outras dificuldades foram vencidas pela
paciência e o espírito de luta dos Irmãos, principalmente
por causa da onda de laicização que tomou conta da França
toda, no final de século XIX.
Os colaboradores do Ir. Dominique foram os Irmãos (entre
1833 e 1841): Luís, Ligório, João Batista, Eutímio, Luis, Afrodísio,
Anastácio, sendo, esses quatro últimos no período 1839-1840.
O Ir. Andeol, citado na Carta, foi Noviço em l’Hermitage em
1837. Não se sabe se perseverou.

149
3. Texto da carta
Meu caríssimo Irmão:

Tenho a intenção de ir visitá-lo dentro de poucos dias. Verei


juntamente com você o que de melhor se pode fazer. Enquan-
to isso, junto com seus colaboradores, faça o que for possível.
Maria, nossa Mãe comum, não lhe recusará seu socorro se
você lhe pedir com confiança e perseverança.

Fico muito contente, meu caro Irmão Dominique, de saber


que vocês têm muitos alunos. Levar-lhe-ei um relógio. Já não
sei mais qual foi que você me deu nas férias. Anime muito seus
colaboradores. Transmita muitas saudações amigas de mi-
nha parte ao bom Irmão Andeol.

Em l’Hermitage, tudo vai mais ou menos. Já temos alguns


Irmãos doentes, vindos de nossos estabelecimentos. Juntos re-
zemos por eles para que Deus os ajude a suportar santamente
a situação em que se acham.

Adeus, meu caro Dominique. Que Jesus e Maria estejam


com você. Tenho a honra de ser seu mui humilde servidor.

4. Descobrindo o coração de Marcelino


• Partilha responsabilidades. Champagnat poderia dar
sozinho uma solução para os problemas do Irmão, mas
afirma “Verei juntamente com você o que de melhor se
pode fazer”. Certamente, com isso comprometia mais o
Irmão na busca de solução e o fazia refletir.

150 Expressar a felicidade aos Irmãos


• Promotor do diálogo. No ambiente um tanto tenso em
que vivia a comunidade, o Fundador articula estratégias
de aproximação “junto com seus colaboradores, faça o que
for possível”. “Anime muito seus colaboradores”. Tenta colo-
car o Diretor em diálogo com os companheiros.

• Ilumina o problema com a oração. “Maria, nossa Mãe


comum, não lhe recusará seu socorro”. Convida o Diretor a
entregar-se com confiança no regaço materno, de onde
poderão vir luzes para a questão.

• Sensível. Marcelino procura motivações em situações


aparentemente insignificantes para entusiasmar o Ir-
mão: “Fico muito contente, de saber que vocês têm mui-
tos alunos. Levar-lhe-ei um relógio”. Transmite notícias de
l’Hermitage.

• Solidário. Atitude percebida tanto na relação com o Ir.


Dominique, como com a situação dos Irmãos enfermos.
Desde que um Irmão manifestasse um problema, o Fun-
dador envolvia-se na situação, tomando tempo e pala-
vras para ajudar a pessoa a sair da dificuldade.

5. Para ajudar a rezar - Interiorização


Quando rezamos os salmos, percebemos como a pessoa
está envolvida na situação que apresenta a Deus, seja de
sucesso, alegria, seja de pecado, sofrimento, raiva. A vida
dos Irmãos na primeiras comunidades era cheia de desa-
fios, próprios daquela época e daquela situação. Quase to-
dos iniciavam o trabalho educacional muito jovens e com
151
os costumes de suas regiões rurais. As comunidades for-
madoras de La Valla e l’Hermitage se desdobravam para,
em pouco tempo, imprimir nos jovens o ideal educativo
e catequético. A comunidade acaba sendo uma caixa de
ressonância de todo esse ardor, mas também dos proble-
mas de cada um. Era na oração que se procurava atenuar
essas tensões.

Tempo pessoal.

Partilha.

6. Iluminação bíblica
At 2, 42-47; Tg 5, 7-10; Sl 133

Cada um escreve numa folha uma pequena carta a Mar-


celino Champagnat, relatando algum aspecto de sua co-
munidade, partilhando seja uma alegria, seja um problema
que o aflige. Todos são convidados a expressar uma oração
de louvor ou pedido, a partir do que escreveu.

7. Momento final
Sugestões: Amai-vos como eu vos tenho amado (162);
Feliz o homem que ama o Senhor (274); Companheira Maria,
perfeita harmonia (146).

152 Expressar a felicidade aos Irmãos


21. Presença de Deus na
Vida e na Eucaristia
“Outro bom meio para adquirir as virtu-
des religiosas, caro amigo, é a prática da
santa presença de Deus.

153
21. Presença de Deus
na Vida e na Eucaristia
(Carta 247 – ao Ir. Avit – 10/3/1839)

1. Ambientação
Imagens da Boa Mãe e Champagnat, velas, panos deco-
rativos, Constituições.

2. Motivação
Os Irmãos representavam para Champagnat motivo de
alegria, pois sabia que eles trabalhavam assiduamente pela
difusão do Reino de Deus. A alegria dos Irmãos era sua ale-
gria, a tristeza que os afetassem era sua tristeza também.
Hoje o mundo carece de fraternidade e solidariedade, por
isso vemos a cada instante acontecerem tragédias, corrup-
ção, mentiras, falsidades. Voltemos nossa atenção a Cham-
pagnat e aprendamos dele a sermos fraternos com os nos-
sos, cultivando o amor à Eucaristia.

154 Presença de Deus na vida e na Eucaristia


3. Contexto
Vai aqui um exemplo do empenho do Padre Fundador
em acompanhar a vida espiritual dos Irmãos.

Como o Irmão Basin (carta 144), o Irmão Avit acabava


de fazer profissão, havia apenas cinco meses. “Pélussin foi o
meu primeiro estabelecimento, escreve o próprio Irmão Avit,
nos seus Annales. Meu primeiro Diretor foi o Irmão Pie.”

A carta que vamos ler é resposta do Padre Champagnat.


Primeiro concede as licenças que o Irmão terá pedido e de-
pois passa aos conselhos de ordem espiritual ou princípios
de vida religiosa.

Em suas cartas costumava dar orientações aos Irmãos,


para animá-los na piedade e no exato cumprimento das
obrigações.

4. Texto da carta
V.J.M.

Notre Dame de l’Hermitage, 10 de março de 1839.

Meu caríssimo Irmão Avit:

Recebi suas duas cartas, cada uma em sua respectiva data,


e não as esqueci. Desejaria dar-lhe a resposta seguinte: Con-
cedo-lhe a licença de fazer a santa comunhão, como você
está pedindo.

155
O pensamento da morte e da Paixão de Jesus Cristo é um
meio excelente para rechaçar todo pensamento estranho e
contrário à santa virtude. Outro bom meio para adquirir as
virtudes religiosas, como você bem sabe, caro amigo, é a prá-
tica da santa presença de Deus, recomendada por todos os
mestres da vida espiritual. Embora seja apenas um conselho
para as pessoas do mundo, para os religiosos é um preceito.
Exercite-se, pois, nesta prática, durante o resto da quaresma.

Deixo-o, meu caro Irmão, nos Sagrados Corações de Jesus


e de Maria, e sou seu mui devotado servidor,

Champagnat

5. Atitudes de Marcelino
• Recordação dos Irmãos, carinho, afeto... – “Não as
esqueci...”.

• Conceder o pedido solicitado; bondade... – “Conce-


do-lhe a licença...”.

• Reconhecimento das boas intenções do Ir. Avit –


“Como você está pedindo...”.

• Valorização da Eucaristia – “...fazer a Santa Comu-


nhão...”.

• Orientações espirituais para o Irmão – “Exercite-se,


pois, nesta prática, durante o resto da quaresma”.

156 Presença de Deus na vida e na Eucaristia


• Homem que vive na Presença de Deus.

• Serviçal – “Sou seu mui devotado servidor”.

6. Interiorização
“A exemplo do Fundador, vivemos na presença de Deus
e haurimos nosso dinamismo nos mistérios do Presépio, da
Cruz e do Altar.” (C.7)

“O Padre Champagnat, vivendo na presença de Deus,


atingiu o estado de oração perfeita, mesmo em meio às
ocupações mais absorventes. Recorria sem cessar a Deus.
“Nunca”, dizia, “ousaria empreender algo sem o haver de-
moradamente recomendado a Deus”. (C.68)

“Certos da ternura do Pai, perseveramos na meditação


com fé e coragem, apesar das dificuldades que nela pode-
mos encontrar. Destinamos-lhe, cada dia, ao menos meia
hora e a prolongamos, durante o dia, pelo exercício da pre-
sença de Deus.” (C.71)

Oração Pessoal.

Sugestão: exposição do Santíssimo, adoração e/ou Rito


da Comunhão.

Música: Mistério

157
7. Salmo 127
R. Ó Senhor, construí a nossa casa, velai por vosso povo.

Se o Senhor Deus não edificar a casa, em vão trabalham os


construtores. Se o Senhor não proteger a cidade, não adianta
nada os guardas ficarem vigiando. R.

Não adianta trabalhar demais para ganhar o pão, levan-


tando cedo e deitando tarde, pois é Deus quem dá o sustento
aos que ele ama, mesmo quando estão dormindo. R.

Os filhos são um presente do Senhor; eles são uma verda-


deira bênção. Os filhos que o homem tem na sua mocidade
são como flechas nas mãos de um soldado. R.

Feliz o homem que tem muitas dessas flechas! Ele não será
derrotado quando enfrentar os seus inimigos no tribunal. R.

8. Momento final
Canto: Hoje serás Champagnat (183)

Oração final:

Senhor, Deus da vida, mostraste por meio de teu servo


São Marcelino Champagnat que o amor deve guiar todas as
nossas atitudes para com os outros. Ajuda-nos a olhar para
cada pessoa como imagem e semelhança de tua presença.
Amém.

158 Presença de Deus na vida e na Eucaristia


22. Acompanhamento
Espiritual

“Quanto maiores forem suas carências, mais


interessada estará Ela em correr em seu auxílio.

159
22. Acompanhamento
Espiritual
(Carta 249– ao Ir. Marie-Laurent – 8/4/1838)

1. Ambientação
Toalha estendida no chão, com a estátua de Champag-
nat no meio.

2. Conhecendo o contexto
A localidade de Saint-Pol, na região de Pas-de-Calais, tinha
na época 3.800 habitantes. Os Irmãos chegaram em outubro
de 1838, compondo a comunidade o Diretor, Ir. Jean-Baptiste,
e os Irmãos Maire Laurent e Africain. A comunidade foi fecha-
da em 1907.

Izieux está localizada bem próxima de l’Hermitage e Gran-


ge Payre. Provavelmente não havia Irmãos morando lá. Roches
de Condrieux é vila de Isère a 46 km de Lyon. Os Irmãos aí se
instalaram em fins de 1838. Chambon é cidade do Departa-
mento de Loire. Os Irmãos foram solicitados em 1838, mas se
instalaram ali somente em 1852.

160 Acompanhamento Espiritual


Bordeaux é importante cidade na fachada atlântica fran-
cesa. Colin pressionou muito Champagnat para que enviasse
um Irmão para ajudar (na sacristia) o Pe. Marista Chanut. Ele
resistiu, considerando que não era um trabalho dentro do ca-
risma dos Pequenos Irmãos de Maria. Grenoble é importante
cidade no Departamento de Isère, para onde iam muitos Ir-
mãos se submeter a exames para conseguir o brevê para exer-
cer a profissão de professor.
As Missões da Oceania são obra dos Padres Maristas e dos
Pequenos Irmãos de Maria, para onde partiu a primeira equi-
pe em outubro de 1836, dela fazendo parte os Irmãos Marie-
Nizier e Michel.
Marie-Laurent nasceu em 1819 e entrou no noviciado de
l’Hermitage em 1834, fez os primeiros votos em 1835, aos 16
anos, e os perpétuos em 1838. Nessa data vamos encontrá-lo
em Saint-Pol. É de lá que ele escreve a Champagnat partilhan-
do suas dificuldades. Deve ter abandonado o Instituto em
1839.
Como muitas outras cartas, esta trata de assuntos de dire-
ção espiritual. É dirigida ao Irmão que lecionava na então re-
cém-fundada escola de Saint-Pol. O Padre Champagnat tenta
salvar aquela vocação periclitante, sem consistência.
Com a maior discrição, guardando absoluto anonimato, o
Padre recomenda o caso às orações da comunidade de l’Her-
mitage. Ao Irmão em crise vocacional aconselha que siga as
orientações de um santo confessor. Inspira confiança dando-
lhe notícias alentadoras dos coirmãos, das Missões e por fim
confia o Irmão à materna proteção da Boa Mãe.

161
3. Texto da carta
J.M.J. - N. D. de l’Hermitage sur Saint Chamond, Loire, 8 de abril
de 1839.

Meu caríssimo Irmão:

Sua carta, meu caríssimo amigo, desperta particularmente mi-


nha compaixão. Desde que a recebi, não mais celebro a missa sem
recomendá-lo Àquele no qual ninguém põe em vão a esperança,
Aquele que pode fazer com que superemos os maiores obstáculos.

Nunca desespere de sua salvação, ela está em boas mãos: Ma-


ria! Não é Maria seu refúgio, sua Boa Mãe?! Quanto maiores fo-
rem suas carências, mais interessada estará Ela em correr em seu
auxílio.

Sem dizer o seu nome, nós estamos começando uma novena


por você. Ainda hoje, Festa da Anunciação, vou rezar a Santa Mis-
sa nesta intenção. Continue a abrir-se sem receio a seu confessor
que, não tenho dúvidas, é um santo sacerdote.

Continuamos a receber muitos noviços, vindos de todas as


regiões. Após a fundação de Saint-Pol, fizemos mais duas, seria
melhor dizer: arrancaram-nos Irmãos para dois estabelecimen-
tos, Izieux e Les Roches de Condrieu. Estou de saída para ir visi-
tar o local que o município do Chambon nos oferece. Tivemos
alguns doentes que, agora já estão curados ou em convales-
cença. O Irmão Peimen faleceu, vítima de varíola. Comunique
a notícia ao Irmão Jean-Baptiste, para que faça cumprir o que
prescreve a Regra.

162 Acompanhamento Espiritual


Estamos também fazendo orações em favor da Missão da
Oceania, pelos membros da Sociedade que lá trabalham e para
aqueles que tencionamos mandar para lá. Estamos em vésperas
de mandar Irmãos para Bordeaux. Nos estabelecimentos, como
na casa mãe, tudo continua a caminhar como de costume.

Os inspetores das escolas departamentais em que estão nos-


sos Irmãos não são hostis. Maria, nossa Boa Mãe, cuida muito
bem de nós! Ela bem sabe que nós somos gente fraca, bem fraca
para suportar uma luta. Em Grenoble conseguimos cinco Diplo-
mas: Irmão Denis, Antoine Régis, Gabriel, Prosper e Sylvestre. Não
mandamos nenhum outro Irmão para prestar exames alhures. O
Ir. Jean-Chrisostôme continua doente, em perigo. Não esperamos
que escape com vida. Reze por ele. Eu tenho dó de ver morrer; e
quem não tem? Um meio de suavizar o último instante é pensar
nele muitas vezes. Memorare novissima! Adeus, caríssimo Irmão
Marie-Laurent, deixo-o entre os braços de Maria, nossa Boa Mãe.

Mil saudações ao caríssimo Irmão Diretor e ao Irmão Africain.


Tenho a honra de ser todo seu nos Sagrados Corações de Jesus e
de Maria. – Champagnat.

P.S. Diga também ao caro Irmão Jean-Baptiste que não pode-


remos mandar Irmãos, senão em 1841. Antes não. Não nos é pos-
sível, pois já temos compromissos demais.

4. Descobrindo o coração de Marcelino


• Afetuoso. Champagnat utiliza uma linguagem carinho-
sa para com o Irmão que passa por sérios problemas
pessoais/vocacionais: “Sua carta, amigo, desperta par-

163
ticularmente minha compaixão”. Incluir alguém na sua
oração, com certeza é tê-lo também no coração.

• Animador. “Nunca desespere... Quanto maiores forem


suas carências”. Champagnat era ao mesmo tempo rea-
lista e otimista. Tinha o dom de invocar coisas simples
para motivar os jovens em sua vocação e missão.

• Compassivo. Acolhe com carinho o jovem Irmão desa-


nimado. Diz que a comunidade de l’Hermitage rezará
por ele, dá notícias alvissareiras do Instituto; demonstra
confiança nele. Dispensa tempo e tinta para valorizar o
Irmão, imprimir confiança e ânimo.

• Compreensivo. Num tempo com resquícios de janse-


nismo, Champagnat é benevolente na direção espiritual
e na confissão. O povo e os Irmãos tinham apreço por
ele e se abriam confiadamente.

• Paternal. Acolhe o filho pródigo, insinuando-lhe que


pertence a uma grande família; que partilha dores e ale-
grias. Convida-o a sair de si e ter uma visão mais ampla
da missão e do grupo ao qual pertence.

5. Para ajudar a rezar - Interiorização


O jovem Irmão estava a centenas de quilômetros de sua
terra, de sua família, de l’Hermitage. Isso tudo, mais as dificul-
dades pessoais, trouxeram-lhe desânimo. O Fundador o au-
xilia a refletir e discernir propondo: continuar com a direção

164 Acompanhamento Espiritual


espiritual, não se desesperar, saber que está sendo acompa-
nhado por muitos Irmãos, sentir-se membro de uma família
(Pequenos Irmãos de Maria) que está fazendo tanto bem em
tantas partes do mundo, transmitir notícias à comunidade.
Tudo para valorizar o Irmão e sentir-se amado.

Rezar pelas vocações, Irmãos e formandos, aqueles que


estão passando por dificuldades... Apresente ao Senhor
suas dificuldades.

Numa folha de papel escrever uma pequena carta a


Marcelino, contando alguma dificuldade pessoal em sua
vida consagrada, comunitária, apostólica... Colocar a folha
sobre a toalha, ao redor da estátua de Marcelino.

Tempo pessoal e partilha.

6. Iluminação bíblica
1Pe 3, 8-9; Hb 13, 1. Sl 103, 8-11. Ef. 4, 30-32

7. Momento Final
Canto: Tu me conheces quando estou sentado (40);
Sonda-me (38); Ave, Maria, Mãe do Salvador (152).

165
23. Cultivo e formação pessoal

Capriche para não deixar para depois esta


obra de sua santificação

166
23. Cultivo e formação
pessoal
(Carta 318 – Circular aos Irmãos – 4/2/1840)

1. Ambientação
Símbolos que representem o nosso cultivo e formação
pessoal.

2. Introdução/situação/contexto
Esta circular foi escrita há menos de um mês da anterior
(313), devido ao adiamento das conferências anuais. Isso se
deu porque os Irmãos haviam reclamado que não haviam
tido tempo para preparar os estudos. Na Circular aos Ir-
mãos (313), há as outras orientações acerca dos conteúdos
que vão ser tratados. As comunidades são agrupadas por
proximidade para essas conferências.

Estava prestes a embarcar para a Oceania mais um gru-


po de missionários, o quarto grupo, que acabou embarcan-
do dia 12 de fevereiro de 1840.

167
3. Texto da Circular
Caríssimos Irmãos:

O Senhor acaba de chamar a si o nosso querido Irmão Pas-


cal, preso ao leito de dor, fazia vários meses, atacado por grave
enfermidade. Cheio de esperança na misericórdia divina e na
proteção da Santíssima Virgem, munido dos socorros da reli-
gião e ardendo no desejo de se reunir a seu Deus, terminou a
peregrinação terrestre quinta-feira, aos 30 de janeiro, pronun-
ciando os santos nomes de Jesus e de Maria, e depois de nos
ter constantemente edificado por sua paciência e resignação.

Temos fundados motivos para crer que sua morte foi pre-
ciosa diante de Deus; mas, caríssimos Irmãos, vocês sabem
que a gente precisa estar muito puro aos olhos do soberano
Juiz para ser admitido na assembleia dos santos. Portanto,
logo que puderem, procurem desempenhar para com nosso
bom Irmão seus deveres de caridade prescritos para qualquer
um de nossos caros falecidos, em particular as orações indica-
das em nossa santa Regra para os Irmãos Professos.

Alguns de nossos caros Irmãos nos fizeram observar que


suas muitas ocupações durante o inverno não lhes havia per-
mitido preparar suficientemente os temas da conferência;
acresce também a isso que eu estou praticamente na impos-
sibilidade de assistir a essa conferência, por isso achamos me-
lhor adiar para a Páscoa a apresentação das tarefas.

Assim, conforme nossa última Circular, a conferência se


efetuará em Lyon, no dia 6 de maio de 1840, para os Irmãos

168 Cultivo e formação pessoal


das escolas de Genas, de Saint-Symphorien-d’Ozon e será pre-
sidida por nosso caro Irmão primeiro Assistente. No caso de
ele não poder estar, o Irmão Louis Bernardin o substituirá. Em
Valbenoîte, será na segunda-feira, dia 27 de abril, para os Ir-
mãos dos estabelecimentos de Valbenoîte, Sury e Terrenoire,
Irmão Liguory.

Parece que alguns julgaram que as disciplinas da conferên-


cia só diziam respeito aos Irmãos designados. Pedimos-lhes
que se desiludam. A redação francesa, a análise sintática e o
problema de aritmética devem ser feitos por todos os Irmãos
de cada escola. Embora os temas indicados, para as lições a
serem tomadas oralmente, tenham sido indicados para al-
guns Irmãos, os demais devem também estudá-los, de modo
a estarem preparados para responder às perguntas feitas pelo
presidente.

Caríssimos Irmãos, continuemos a rezar de modo parti-


cular por nossa interessante Missão da Polinésia, a fim de que
Deus faça triunfar a verdadeira fé e confunda a heresia nessas
vastas regiões confiadas à Sociedade de Maria.

Recomendamos particularmente os dois Padres Pezant e


Tripe e os caros Irmãos Claude-Marie e Amon, que estarão de
partida do Porto de Brest, no início do mês, em demanda da
Nova Zelândia. Esta última partida se deve à generosidade do
governo que ofereceu aos nossos missionários quatro lugares
gratuitos a bordo da corveta “L’Aube”. Hoje soubemos que es-
tão muito aceitos no navio, que os Padres terão a facilidade
de celebrar todos os dias a Santa Missa e que, estando em

169
companhia de um neozelandês, poderão começar a aprender
a língua do País.

Que a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus


e a comunicação do Espírito Santo estejam sempre com vocês.

Sou com todo o afeto em Jesus e Maria, mui dedicado pai,

Champagnat

N.D. de l’Hermitage, 4 de fevereiro de 1840.

P.S. Aguardamos, mas em vão, notícias do Irmão Jean


Chrysostome e uma cópia da contabilidade de vocês, e nada
nos chega.

Seu retiro, meu caro Irmão Diretor, ainda não foi feito, e
creio que isso é do seu interesse pessoal. Capriche para não
deixar para depois esta obra de sua santificação. Aproveite da
primeira ocasião que se apresentar.

Todo seu...

4. Atitudes e Mentalidade de Marcelino


• Flexibilidade diante das necessidades: “[...] por isso
achamos melhor adiar para a Páscoa a apresentação das
tarefas”.

• Clareza nas orientações: “Parece que alguns julgaram


que as disciplinas da conferência só diziam respeito a alguns
Irmãos designados. Peço que se desiludam. [...] os demais

170 Cultivo e formação pessoal


também devem estudá-los, de modo a estarem preparados
para responder às perguntas feitas pelo presidente”.

• Estima pelas missões: “[...] continuemos a rezar de modo


particular por nossa interessante missão da Polinésia [...].
recomendamos particularmente os dois Padres Pezant
e Tripe e os Irmãos Claude-Marie e Amon, que estarão de
partida [...]”.

• Amor à Trindade: “Que a graça de Nosso Senhor Jesus


Cristo, o amor de Deus e a comunicação do Espírito Santo
estejam sempre com vocês”.

• Perplexidade com certas situações: “Aguardamos, mas


em vão, notícias do Irmão...”.

• Franqueza e objetividade: “Capriche para não deixar


para depois esta obra de sua santificação”.

5. Para ajudar a rezar – Interiorização


Quais os tempos de formação que eu cultivo como con-
sagrado marista?

Como alimento minha consagração?

Tempo pessoal.

171
6. Momento final: preces
Senhor, para que busquemos ser fiéis ao Teu chamado,
pedimos.

Todos: Dá-nos tua graça, Senhor.

Para que dediquemos tempo para o nosso cultivo como


consagrados a Ti, pedimos.

Para que nossa Instituição ofereça os meios para o de-


senvolvimento das pessoas, pedimos.

Para que continuemos a impulsionar o espírito missio-


nário, pedimos.

172 Cultivo e formação pessoal


24. Diversidade da Missão

Para que se ocupem da direção do esta-


belecimento de surdos-mudos.

173
24. Diversidade da Missão
(Carta 320 – ao Sr. José Maria de Gerando, Presidente do Instituto
de Surdos-Mudos de Paris – 14/2/1840)

1. Ambientação
Fotos de diversos espaços de missão.

2. Introdução/situação/contexto
Durante o primeiro trimestre de 1838, a cidade de St.-E-
tienne manifesta ao Padre Champagnat sua intenção de
confiar aos Irmãos uma Instituição destinada à educação
dos surdos-mudos da localidade. Marcelino deseja formar
seus Irmãos para esse apostolado, totalmente pertinente
à finalidade da sua Congregação. Quando esteve em Paris,
aproveitou para solicitar matrícula gratuita no Instituto Na-
cional de Surdos-mudos (para dois Irmãos). Em 1840, obte-
ve os lugares solicitados, mas a cidade de St.-Etienne com
todo esse processo contratou outro grupo religioso para
atender os meninos surdos-mudos.

174 Diversidade da Missão


3. Texto da Carta
Senhor Barão:

O pedido oficial que a cidade de Saint-Etienne acaba de


me dirigir para conseguir alguns de nossos Irmãos, para que se
ocupem da direção do estabelecimento de surdos-mudos, me
leva a também solicitar a matrícula de dois Irmãos nossos no
estabelecimento modelo do mesmo gênero, situado em Paris.

Há quase um ano que o senhor Diretor dessa tão útil e in-


teressante casa me honrou com uma carta, na qual solicitava
da parte do Ministro, se eu continuava interessado em man-
dar formar alguém. A dificuldade de encontrar candidatos e
a falta de um pedido explícito e oficial da parte da cidade de
Saint-Etienne me deixaram indeciso.

Hoje essas dificuldades desapareceram e por isso me decidi


a pedir-lhe que solicite, em meu nome, a admissão gratuita
de dois de nossos Irmãos. O senhor conhece melhor do que eu
todo o valor dessa obra de beneficência. A cidade de Saint-E-
tienne lhe guardará sempre uma gratidão imensa pelo favor
que o senhor nos terá concedido, em nome dela. Eu lhe ficarei
muito grato por esta demonstração de interesse de sua parte,
por uma associação que insistentemente se recomenda à sua
benevolência e a seu crédito poderoso.

Tenho a honra de ser...

Champagnat

175
4. Atitudes e Mentalidade de Marcelino
• Atencioso ao pedido oficial... “O pedido oficial que a ci-
dade de Saint-Etienne acaba de me dirigir...”.

• Sensível às diferentes necessidades... “Irmãos para diri-


gir o estabelecimento dos surdos-mudos”.

• Humildade... “O Senhor conhece melhor do que eu todo o


valor dessa obra de beneficência”.

• Reconhecimento de outras grandes obras... “...me leva


a solicitar a matrícula de dois Irmãos nossos no estabeleci-
mento modelo do mesmo gênero...”.

• Agradecido... “Eu lhe ficarei muito grato por esta demons-


tração de interesse de sua parte....”.

• Respeito aos Irmãos. “A dificuldade de encontrar


candidatos...”.

• Decidido, empreendedor e audacioso “... Por isso me de-


cidi a pedir-lhe que solicite, em meu nome, a admissão gra-
tuita de dois de nossos Irmãos...”.

• Franqueza: “A dificuldade de encontrar candidatos e a fal-


ta de um pedido explícito e oficial [...] me deixaram indeciso”.

• Insistência quando percebe a necessidade: “Hoje essas


dificuldades desapareceram e por isso me decidi a pedir-lhe...”

• Todos os desatendidos (surdos-mudos) estão no co-


ração de Champagnat.

176 Diversidade da Missão


• Investimento na formação dos Irmãos: “[...] solicitar a
matrícula de dois Irmãos nossos no estabelecimento...”.

• Formação adequada ao apostolado que os Irmãos


vão desenvolver: “para que se ocupem da direção do es-
tabelecimento de surdos-mudos... matrícula no estabeleci-
mento modelo do mesmo gênero...”.

• A missão do Instituto é plural dentro do contexto da


educação.

• A finalidade do Instituto é atender as crianças e jo-


vens, independente da sua condição.

5. Reflexos na Legislação Marista atual


“Sua fé e desejo de cumprir a vontade de Deus reve-
lam-lhe sua missão: “Fazer conhecer e amar Jesus Cristo”.
Dizia muitas vezes: “Não posso ver uma criança, sem sentir
o desejo de ensinar-lhe o catecismo, sem desejar fazer-lhe
compreender quanto Jesus Cristo a amou”. Nesse espírito,
fundou nosso Instituto para a educação cristã dos jovens,
particularmente os mais abandonados.” (C.2)

“Engajados em instituições escolares ou em outras es-


truturas de educação, dedicamo-nos, pelo Reino, a serviço
da pessoa humana.” (C.85)

“Vamos aos jovens lá onde eles estão. Vamos com ou-


sadia aos ambientes, talvez inexplorados, onde a espera de
Cristo se revela na pobreza material e espiritual.” (C.83)

177
“O Padre Champagnat encarna zelo apostólico que sabe
dar respostas adequadas a problemas concretos.” (C.81)

6. Para ajudar a rezar – Interiorização


Marcelino está aberto às mais diversas formas de apos-
tolado e missão. O Instituto nasce com o intuito de atender
as crianças e jovens em qualquer situação, ajudando-os
desde a perspectiva da educação. Educação, já para Mar-
celino Champagnat, tem um sentido amplo. Compreende
também orfanato, trabalho com os surdos-mudos e outras
ambiências, atendendo os mais marginalizados e abando-
nados da sociedade.

Hoje, quais seriam os rostos que clamam por um abraço,


por uma atenção especial, por um carinho, por uma presen-
ça Marista?

Tempo Pessoal.

Vemos grandes desafios na educação, o que requer cria-


tividade em nossos campos de missão. A missão nasce das
necessidades que percebemos. Através das crianças e jo-
vens, Deus continua a nos falar, chamando Irmãos e Leigos
que respondam a seus apelos.

Quais os novos sujeitos emergentes que clamam por


nossa presença?

178 Diversidade da Missão


Nos dias de hoje, como estamos sensíveis às pessoas
que necessitam de inclusão (Irmãos, estudantes, educado-
res, colaboradores, etc.)?

Louve pela acolhida que realizamos a essas pessoas.

• Partilhe sentimentos que brotaram a partir desta oração.

7. Momento final
Canto: Um coração, uma missão (185).

179
25. Espírito Solidário

Como é muito mais fácil fazer o bem


em estabelecimentos desta natureza.

180
25. Espírito Solidário
(Carta 336– ao Pe. Jean-Marie Mathias Debelay – 2/5/1840)

1. Ambientação
Vela acesa, livros, revistas, fotografias de nossas casas.

2. Conhecendo o contexto
A abertura dessa comunidade teve muitas tratativas
entre os anos de 1837 a 1840. Na data de18 de outubro
de 1837, com o pedido de Dom Devie, foi concretizado o
projeto.

O Pe. Jean-Marie Debelay era Pároco de Nantua. Além


dos pedidos por correspondência, Debelay encontrou-se
pessoalmente com Champagnat, em Lyon. Champagnat
aceitou o pedido na condição de que a escola fosse gra-
tuita e comunal. Mais tarde Debelay foi nomeado bispo
de Troyes.

Dom Devie era o bispo da Diocese de Belley, Departa-


mento de Ain, em cuja região se situava Nantua. A peque-
na cidade, com cerca de três mil habitantes, fica a 88 km
de Lyon.

181
3. Texto da Carta
Senhor Pároco:

O senhor encontrou o modo certo de conseguir Irmãos,


com garantia e prontidão: Garantir a fonte de pagamento
da escola e torná-la gratuita. Como é muito mais fácil fazer
o bem em estabelecimentos desta natureza, damos sempre
a preferência a estes e mantemos o princípio de favorecê-los
de uma maneira toda especial. Desejo ardentemente que o
senhor possa entender-se com o vice-prefeito departamental,
e também com o prefeito municipal. Sabemos por experiência
que as coisas andam sempre melhor quando as escolas são
apreciadas pelas autoridades civis, e temos o costume de só
iniciá-las depois de conseguir seu parecer favorável. Não du-
vido que o senhor faça tudo o que depender do senhor para
agir em conformidade com o vice-prefeito departamental e o
prefeito municipal e fazer que se interessem por sua obra.

Então, estamos entendidos: Estando pronto o local, garanti-


dos os recursos para o mobiliário e confirmada a gratuidade da
escola, nós lhe mandaremos os Irmãos na próxima Festa de To-
dos os Santos. Mandarei visitar a sua casa no decorrer do verão
e entraremos em acordo para a confecção do mobiliário.

Receba meus protestos de respeitosa dedicação com que, etc.

182 Espírito Solidário


4. Descobrindo o coração de Marcelino
• Claro e objetivo. O Fundador não era só coração quan-
do acolhia um pedido de fundação de uma escola. A ra-
zão lhe dizia que era importante prever e garantir tudo
para seu bom funcionamento: espaço físico, mobiliário,
salários, etc. “Estando pronto o local, garantidos os recursos
para o mobiliário e confirmada a gratuidade da escola...”.

• Sintonizante: O sucesso de uma escola estava mais ga-


rantido quando havia trabalho conjunto, conjugação
de esforços entre todos: paróquia, prefeitura, Irmãos e
comunidade. Devia ser um elemento de união e não de
discórdia. “Sabemos por experiência que as coisas an-
dam sempre melhor quando as escolas são apreciadas
pelas autoridades civis”.

• Fiel ao projeto original. Champagnat escreve essa car-


ta um mês antes de falecer, 23 anos depois da fundação.
“Garantir a fonte de pagamento da escola e torná-la gra-
tuita”. Esses critérios se consolidaram. Os Irmãos traba-
lhavam sem serem proprietários, e, como todo o mundo,
eram assalariados. Estavam mais disponíveis para a mis-
são. “É muito mais fácil fazer o bem em estabelecimentos
desta natureza”.

183
5. XXI Capítulo Geral
Como religiosos não ordenados, temos a obrigação es-
pecial de ser a consciência da Igreja. Vivendo verdadeira-
mente o nosso modo de vida, colocando-nos em situações
e lugares difíceis para outros, trabalhando para responder
a novas necessidades, recentemente identificadas, e para
as quais os recursos institucionais são inexistentes, recor-
damos à Igreja a sua verdadeira natureza. Com efeito, pelo
nosso sentido da hospitalidade, pela compaixão que mani-
festamos pelos outros, pela nossa preocupação em relação
aos abandonados, pela nossa presença junto aos margina-
lizados, damos a conhecer e a amar o Senhor Ressuscitado
a nosso mundo de hoje e recordamos à Igreja o que ela de-
veria ser, aspirar a ser e o que deve ser (Atas do XXI Capítulo
Geral, p. 194).

6.Para ajudar a rezar - Interiorização


Nossas obras, meios de evangelização, estão sempre
inseridas num contexto geográfico, histórico e eclesial. É a
partir dessa situação que vivemos e trabalhamos na cons-
trução do Reino. Nossas obras, nosso saber, nossas capaci-
dades devem estar a serviço de... Em nosso caso, sobretudo
das crianças e jovens. A vida deles será, sobretudo, influen-
ciada pela pessoa de cada Irmão, pelo convívio, pelo que
comunica com a sabedoria de seu coração.

184 Espírito Solidário


Qual o meu comprometimento no cuidado com os mais
vulneráveis?

Tempo pessoal.

Partilha.

Recordar e rezar nossas obras, pessoas, situações (Cen-


tros Sociais, Colégios, Universidade, Irmãos, professores/as,
leigos/leigas, colaboradores...)

7. Iluminação bíblica
Mt 5, 37; Cl 3,9; Pv 22, 6; Pv 31, 26; Mt 19,14

8. Momento Final
Canto: Quando encontro um menino (182); Boa Mãe
(126); Quero ouvir teu apelo, Senhor.

185
26. Sensiblidade pastoral

Lastimamos muito em não


podermos acudir a todas as necessi-
dades e não podermos atender a tantos
pedidos que nos chegam.

186
26. Sensibilidade pastoral
(Carta 339 – ao Padre Pierre Bernard Hugony,
Pároco de Prés- Saint-Gervais, Paris, Seine – 3/5/1840)

1. Ambientação
Figuras de situações diversas que sinalizem/recordem ne-
cessidades de crianças e jovens no mundo contemporâneo;
fotos de Irmãos em meio às crianças e jovens na missão.

2. Introdução/situação/contexto
A carta do Pe. Hugony possivelmente trata de um pedido
de Irmãos para o subúrbio parisiense. Não possuímos cópia
da carta, mas seguramente nela o pároco de Saint-Gervais
pintava um quadro de necessidades da juventude operária
do subúrbio de Paris. Esse tipo de realidade o Pe. Champag-
nat não conhecia muito bem. Nota-se na carta uma reação
de nosso Fundador diante da descoberta dessa realidade.
No entanto, as circunstâncias não lhe permitiram contribuir
com o pedido do Padre Hugony. O quarto parágrafo, dado
que é a última carta de Marcelino, soa como uma espécie
de testamento apostólico que Marcelino deixa a seu Insti-
tuto para que atenda a esse tipo de necessidade.

187
3. Texto da carta
Senhor Pároco:

Muito grandes são as necessidades de sua paróquia, o


quadro que delas o senhor nos traça atinge nosso íntimo e nos
entristece profundamente, mas apesar de toda a boa vontade
que tivéssemos para acudir a seu zelo, encontramo-nos na im-
possibilidade de o fazer neste momento.

Os compromissos que contraímos com vários municípios,


faz muito tempo, esgotaram nossas reservas de pessoal, mui-
to além do que se podia prever. Embora o mal talvez não seja
tão medonho em nossas regiões, há muitas paróquias em que
o zelo dos pastores tem muita necessidade de ser amparado
pela influência de uma escola cristã e religiosa, para impedir
que o contágio do mal se generalize. Lastimamos muito em
não podermos acudir a todas as necessidades e não poder-
mos atender a tantos pedidos que nos chegam!

Por outro lado, senhor Pároco, para ser viável um estabele-


cimento tão afastado e, por isso mesmo, sujeito a outras gran-
des despesas, precisaria ter reservas que sua carta não parece
mencionar.

Digne-se o bom Deus proporcionar a seu zelo os recursos


para realizar obra tão importante e necessária e, a nós, o meio
de corrermos em auxílio de seus caridosos projetos.

Tenho a honra, etc.

Champagnat

188 Sensibilidade pastoral


4. Atitudes e Mentalidade de Marcelino
• o projeto não deve ficar reduzido a um ou outro lu-
gar, deve chegar aonde há necessidade de contribuir na
formação de crianças e jovens;

• abertura e sensibilidade diante dos clamores que vai


percebendo à sua volta;

• desejo de oferecer respostas às necessidades que se


apresentam;

• consciência das limitações institucionais.

5. Para ajudar a rezar – Interiorização


Da Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, n. 49. O
Papa Francisco nos diz:

“Saiamos, saiamos para oferecer a todos a vida de Jesus


Cristo! Repito aqui, para toda a Igreja, aquilo que muitas ve-
zes disse aos sacerdotes e aos leigos de Buenos Aires: prefi-
ro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído
pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a
comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não que-
ro uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba
presa num emaranhado de obsessões e procedimentos. Se
alguma coisa nos deve santamente inquietar e preocupar
a nossa consciência é que haja tantos irmãos nossos que
vivem sem a força, a luz e a consolação da amizade com Je-

189
sus Cristo, sem uma comunidade de fé que os acolha, sem
um horizonte de sentido e de vida. Mais do que o temor de
falhar, espero que nos mova o medo de nos encerrarmos
nas estruturas que nos dão uma falsa proteção, nas normas
que nos transformam em juízes implacáveis, nos hábitos
em que nos sentimos tranquilos, enquanto lá fora há uma
multidão faminta, e Jesus repete-nos sem cessar: ‘Dai-lhes
vós mesmos de comer’ (Mc 6, 37)”.

Questões:

• Que situações da realidade contemporânea tocam o


meu coração?
• Como procuro responder aos apelos que surgem da
missão como consagrado marista?
• Que situações emergentes clamam pela nossa pre-
sença?
• Reze pelas situações que clamam pela nossa presen-
ça e não podemos atender.

Tempo Pessoal.

Partilha dos sentimentos que brotaram a partir desta


oração.

6. Momento final
Cantos: Alma missionária (163); Eis-me aqui, Senhor (203);
Vou evangelizar.

190 Sensibilidade pastoral


Rede Marista
RS | DF | Amazônia

Rua Irmão José Otão, 11


Bom Fim – Porto Alegre - RS
51 3314 0300 – maristas.org.br