Cena Lusófona

n.º 12 Dezembro 2010
ISSN 1645-9873

Rua António José de Almeida n.º 2, 3000 - 040 COIMBRA Portugal telef. (+351) 239 836 679 | teatro@cenalusofona.pt | www.cenalusofona.pt

distribuição gratuita

FESTLUSO e Encontro Internacional sobre Políticas de Intercâmbio
ano Portugal-Brasil ano Brasil-Portugal

2012

Márcio Meirelles

entrevista

Elias Macovela

rostos da cena

Colecção Cena Lusófona
As Virgens Loucas
de ANTÓNIO AURÉLIO GONÇALVES Cabo Verde

editorial
“Em matéria de promoção da língua portuguesa, existe um fosso aprofundado entre o discurso público, onde estas questões são tipicamente apresentadas em tons emotivos e assumidas como de vital importância, e a prática quotidiana e o conhecimento da realidade”. A frase é de Rui Machete e António Luís Vicente, no livro “Língua e cultura na política externa portuguesa: o caso dos Estados Unidos da América” (ver apresentação da obra, pág. 15). O texto do protocolo assinado em Novembro entre o Ministério da Cultura e o Ministério dos Negócios Estrangeiros frustrou as expectativas dos agentes culturais, que continuam sem reconhecer no Estado um parceiro empenhado em potenciar os esforços que fazem para internacionalizar o seu trabalho. Na melhor das hipóteses, as estratégias e os objectivos da política cultural externa portuguesa continuam a não ser compreendidos pelos artistas que deles deviam ser agentes principais. As respostas (e as não-respostas) que obtivemos às questões que levantámos sobre os preparativos do “Ano de Portugal no Brasil” e do “Ano do Brasil em Portugal” (duas iniciativas da maior importância no aprofundamento dos laços de intercâmbio) são mais um exemplo da forma de trabalhar, fechada sobre elas próprias, que as instituições públicas portuguesas continuam a adoptar neste domínio. A um ano de distância, não há modelo de funcionamento, nem orçamento definido, nem responsáveis nomeados, nem diálogo com a sociedade civil que opera no terreno. A continuar assim, dois cenários é possível antever para a iniciativa 2012 Ano do Brasil em Portugal e Ano de Portugal no Brasil: um novo adiamento anunciando que afinal não estavam reunidas as condições (estes projectos estiveram agendados para 2010 e 2011, respectivamente); ou a definição apressada de um programa, feito no interior dos gabinetes, para cumprir calendário. Em qualquer dos casos, é legítimo temer que esta seja (mais) uma oportunidade perdida. O desenlace não tem de ser este. Como bem sublinham Rui Machete e António Luís Vicente, há na sociedade civil instituições interessadas em contribuir para o sucesso das acções desenvolvidas pelo Estado. Instituições que querem ser parceiras e que podem ajudar a dar substância, sustentabilidade e sentido às políticas públicas na área da internacionalização cultural. No campo específico do intercâmbio cultural entre os países de língua portuguesa, a Cena Lusófona assume-se como um desses parceiros. Quando, em Dezembro de 2009, organizámos o I Encontro Internacional sobre Políticas de Intercâmbio (EIPI), pretendemos precisamente discutir, com outros agentes culturais e com instituições públicas dos diversos países, as formas concretas de que tal parceria poderia revestir-se. A segunda edição do EIPI, acolhida pelo FESTLUSO (Piauí, Brasil) no passado mês de Novembro, reiterou essa disponibilidade por parte de mais de vinte estruturas de criação e programação de Portugal, do Brasil, de Angola, de Cabo Verde, da Galiza. As conclusões, publicadas nesta edição, são claras quanto ao interesse manifestado em participar da discussão e da definição de políticas e, neste momento específico, em aproveitar a oportunidade do “Ano Brasil/Portugal” para o desenvolvimento das relações de intercâmbio cultural, quer ao nível bilateral, quer – como parece fazer sentido – no contexto da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. O protocolo assinado com a Secretaria de Estado da Cultura da Bahia e os projectos que pretende levar a cabo com a Cooperativa Cultural Brasileira são outros dois exemplos da forma como a Cena Lusófona continua a encarar as relações e as iniciativas de intercâmbio: com instituições e agentes concretos e conhecedores do terreno, de uma forma sustentada e estruturada a médio e a longo prazo. Esta atitude tem produzido resultados visíveis e continuará seguramente a dar frutos, mas será muito mais eficaz se – como é desejável – for acompanhada por uma regular interlocução com as instituições oficiais e enquadrada por políticas claras e estáveis, que não se fiquem pelo efeito mediático e pelo cíclico anúncio dos “grandes eventos”.

Teatro do Imaginário Angolar
de FERNANDO DE MACEDO São Tomé e Príncipe

Supernova

de ABEL NEVES Portugal

As Mortes de Lucas Mateus
de LEITE DE VASCONCELOS Moçambique

Teatro I e II

obra dramatúrgica de JOSÉ MENA ABRANTES (dois volumes) Angola

Mar me quer Teatro

de MIA COUTO e NATÁLIA LUIZA Portugal / Moçambique obra completa de NAUM ALVES DE SOUZA Brasil

Revista setepalcos

(esgotados números 0, 1 e 2) N.º 3 – Setepalcos especial sobre TEATRO BRASILEIRO N.º 4 – Setepalcos especial sobre TEATRO GALEGO N.º 5 – Setepalcos especial sobre RUY DUARTE DE CARVALHO N.º 6 – Setepalcos especial sobre TEATRO EM CABO VERDE

Floripes Negra Soia

Floripes na Ilha do Príncipe, em Portugal e no mundo de AUGUSTO BAPTISTA Álbum Fotográfico / Reportagem / Ensaio

dois documentários sobre contadores de histórias nas ilhas de Príncipe e S. Tomé de IVO M. FERREIRA DVD
AVEIRO

Livraria da Universidade de Aveiro
Campus Universitário 3810-193 Aveiro (+351) 234 370 200 BRAGA

LISBOA

Livraria do Teatro Nacional D. Maria II
Praça D. Pedro V 1100-201 Lisboa (+351) 213 250 860

BRASILIA

Livraria Cultura

Livraria Barata

Theatro Circo

Avenida da Liberdade, 697 4710-251 Braga (+351) 253 203 800

Av. de Roma, 11 A 1000-047 Lisboa (+351) 218 428 350

Casapark Shopping Center SGCV Sul, Lote 22 4 – A Zona Industrial, Guará CEP 71215 100 Brasília, DF Tel.: (55) 61 3410 4033 PORTO ALEGRE

Livraria Ler Devagar

Livraria Cultura

100ª Página

AV. Central, 118-120 4710-229 Braga (+351) 253 267 647 COIMBRA

Rua Rodrigues Faria, 103, Edifício G03, LX Factory 1300-501 Lisboa (+351) 213 259 992

Livraria Escolar Editora
Edifício Caleidoscópio Jardim do Campo Grande 1700-089 Lisboa (+351) 217 575 055

Bourbon Shopping Country Avenida Túlio de Rose, 80, Loja 302 CEP 91340 110 Porto Alegre, RS Tel.: (+55) 51 3028 4033 RECIFE

Teatro Académico de Gil Vicente
Praça da República 3000-343 Coimbra (+351) 239 855 630 3000-097 Coimbra (+351) 239 718 238 ÉVORA

Livraria Cultura

Livraria Portugal

Teatro da Cerca de S. Bernardo

Rua do Carmo, 70-74 1200-094 Lisboa (+351)213 474 982 PORTO

Paço Alfândega Rua Madre de Deus, s/n CEP 50030 110 Recife, PE Tel.: (+55) 81 2102 4033 SÃO PAULO

Teatro Nacional São João
Praça Batalha 4000-102 Porto (+351)223 401 900 VISEU

Livraria Cultura

Teatro Garcia de Resende

Praça Joaquim António de Aguiar 7000-510 Évora (+351) 266 703 112

Conjunto Nacional Avenida Paulista, 2073 CEP 01311 940 São Paulo, SP Tel.: (+55) 11 3170 4033

Livraria Cultura

Livraria Nazareth & Filho
Praça do Giraldo, 64 7001-901 Évora (+351) 266 702 221 GUARDA

Teatro Viriato

Largo Mouzinho de Albuquerque Apartado 1057 3511-901 Viseu (+351) 232 480 110 BRASIL BELO HORIZONTE

Shopping Villa Lobos Avenida das Nações Unidas, 4777 CEP 05477 000 São Paulo, SP Tel.: (+55) 11 3024 3599 ESPANHA VIGO

Casa Véritas Editora, Lda
Rua Marquês de Pombal, 55 6300-728 Guarda (+351) 271 222 105

Libreria Andel

Livraria da Travessa

Rua Paraíba 1419 Savassi CEP 30130-141 Belo Horizonte, MG (+55) 31 3223 8092

Rua Pintor Lugris, 10 36211 Vigo, Galiza (+34) 986 239 000

edições.cena
A Cena Lusófona é uma estrutura financiada por:

cenaberta ficha técnica
Director António Augusto

Barros | Coordenação e Fotografia Augusto Baptista | Redacção Augusto Baptista, Patrícia Almeida, Pedro Rodrigues, Sandra Nogueira | Concepção gráfica Ana Rosa Assunção | ISSN 1645-9873 | N.º 12 distribuição gratuita | Tiragem 2500 exemplares | Impressão Tipografia Ediliber | Propriedade Cena Lusófona, Associação Portuguesa para o Intercâmbio Teatral, Rua António José de Almeida, n.º 2, 3000 - 040 COIMBRA, PORTUGAL | Telef. (+351) 239 836 679 | teatro@ cenalusofona.pt | www.cenalusofona.pt IMAGEM DA CAPA: "Hotel Komarca", Grupo Teatral HenriqueArtes (Angola) © Margareth Leite

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Dezembro 2010

A Cena no Café
A Cena Lusófona organizou no bar do Teatro da Cerca de São Bernardo, em Coimbra, mais duas sessões de A Cena no Café: a apresentação pública de “Soia”, DVD com os documentários de Ivo M. Ferreira (13 de Dezembro); a apresentação do livro “Escritos sobre teatro”, de Kwame Kondé (15 de Dezembro).

Narração oral: uma longa viagem
DR

Teatro em Cabo Verde
Francisco Fragoso, médico, dramaturgo, encenador, esteve no bar do Teatro da Cerca de São Bernardo, a 15 de Dezembro, para apresentar “Escritos sobre Teatro”, obra que reúne textos por si produzidos sob o pseudónimo de Kwame Kondé. O autor realçou dois momentos na história do teatro em Cabo Verde: o aparecimento do Korda Kaoberdi (primeiro grupo a internacionalizar-se, com a presença no FITEI, em 1982) e a edição da peça “Vai-te Treinando Desde Já”, de João Cleofas Martins (Nhô Djunga), que fez questão de homenagear nesta sessão. A peça foi escrita nos anos 40 do século XX mas só seria publicada em 2004, graças ao investigador Mesquitela Lima. Para Fragoso, trata-se de “uma peça de importância universal, ao nível de 'A Balada do Fantoche Lusitano', de Peter Weiss". A participação do Korda Kaoberdi no FITEI – momento alto na história do grupo – acabou, paradoxalmente, por acelerar o seu fim: “Quando regressámos, fiquei com a noção de já ter feito o máximo. Podíamos fazer mais, mas só com condições diferentes. Teríamos de ter um espaço, por exemplo. Foram tantas as dificuldades que acabei por fazer outras escolhas”. Não guarda ressentimentos nem desencantos com o país: “Uma coisa é o povo, outra coisa é a sociedade – são dois conceitos diferentes. O povo é algo transcendente e a sociedade é uma criação dos homens”. Aprofunda a análise, referencia dois projectos de sociedade, o seu lugar no Mundo. “Há dois projectos de sociedade: a que é edificada no ter e a que é edificada no ser. A que é edificada no ter não pode atingir culturas privilegiadas. Não estou de acordo com este modelo de sociedade”. Questionado sobre a realidade contemporânea do teatro, em Cabo Verde e em Portugal, Fragoso socorre-se dos ensinamentos da Medicina: “Aprendemos o que é o diagnóstico diferencial. Os políticos são os médicos dos sintomas, não das causas”. Pedro Rodrigues, produtor da Cena Lusófona, classificou “Escritos sobre Teatro” um "documento importantíssimo para a história do teatro no pais”, assinalando a “feliz coincidência” de ter sido publicado no mesmo ano em que a Cena Lusófona dedicou um número especial da setepalcos ao teatro cabo-verdiano. O livro foi publicado pela Artiletra, editora cabo-verdiana com 20 anos de existência, que não dispõe em Portugal de um circuito regular de distribuição. No quadro deste lançamento, o Teatro da Cerca de São Bernardo fez um acordo com a editora, passando a ter disponível na sua livraria alguns dos 20 títulos publicados até ao momento, incluindo “Escritos sobre Teatro”. Patrícia Almeida
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Ivo M. Ferreira, na apresentação do filme, e António Augusto Barros

O DVD sobre os narradores orais em São Tomé e Príncipe, “Soia”, do realizador Ivo M. Ferreira, foi apresentado dia 13 de Dezembro em Coimbra, e assinala, no dizer de António Augusto Barros, presidente da Cena Lusófona, “o início de uma longa viagem” pela lusofonia. Na apresentação dos filmes, Ivo Ferreira sublinhou o entusiasmo com que abraçou o desafio lançado pela Cena Lusófona de realizar os dois documentários agora editados no DVD – “Soia di Príncipe” e “À procura de Sabino” – , partilhou histórias, episódios e peripécias do trabalho empreendido. Rodados em 2002 e em 2003, os filmes inserem-se no projecto de recolha e registo da tradição da narração oral nos países africanos de expressão portuguesa que a Cena Lusófona vem desenvolvendo. “Demorou muito este parto, desde que o Ivo foi para o Príncipe pela primeira vez e, mais tarde, para São Tomé. Foi uma epopeia exaltante”, referiu António Augusto Barros. “Este trabalho inaugura o projecto sobre os narradores orais em África”, continente em que a cultura muito se baseia na oralidade: “quando um velho morre é como se ardesse uma biblioteca”, disse, citando Amadou Hampâté Bá. Olhos no futuro, António Augusto Barros considerou os documentários o “início de uma longa viagem, que já tem desenvolvimentos na Guiné-Bissau, terá em Timor e, com certeza, em toda a África lusófona”. Ivo M. Ferreira destacou a importância do património

imaterial registado nos filmes, que o projecto permitiu recuperar “quase arqueologicamente”, e considerou a edição do DVD “prova de que as tradições da narração oral estão vivas”. Presente na sessão a convite da Cena Lusófona, o cônsul honorário de São Tomé e Príncipe em Coimbra, José Joaquim Diogo, realçou a “cultura riquíssima” deste país e deu os parabéns ao realizador pela forma como soube captar a realidade são-tomense: “consegui aqui, no espaço de uma hora, reviver os 15 anos que estive em São Tomé”. Já no período do debate, António Augusto Barros lembrou as dezenas de horas de gravação feitas para este trabalho, “que naturalmente não puderam ser incluídas nos filmes”. Esse longo registo está disponível no Centro de Documentação e Informação da Cena Lusófona, “para quem queira ter um olhar mais aprofundado”. Patrícia Almeida O DVD “Soia”, que inclui os documentários “Soia di Príncipe” e “À Procura de Sabino”, de Ivo M. Ferreira, pode ser encomendado à Cena Lusófona (teatro@ cenalusofona.pt) para envio à cobrança (PVP: 15,00 euros). Pode ainda ser adquirido directamente nas instalações da Cena Lusófona ou na Livraria do Teatro da Cerca de São Bernardo, em Coimbra.

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Acção cultural externa e internacionalização
O Gabinete de Planeamento, Estratégia, Avaliação e Relações Internacionais do Ministério da Cultura (GPEARI) e o Instituto Camões (IC) – organismo do Ministério dos Negócios Estrangeiros – são as estruturas do governo português vocacionadas para a acção cultural externa e a internacionalização cultural do país. Visando melhorar as condições em que se processa a “prestação e divulgação de informação sobre as actividades e iniciativas culturais” que desenvolvem, as duas estruturas assinaram um protocolo no dia 16 de Novembro de 2010. A apresentação pública do documento frustrou as expectativas dos agentes culturais e deixou dúvidas quanto à sua real eficácia.

O GPEARI - projectos culturais com a CPLP
cenaberta auscultou Joana Gomes Cardoso, directora do Gabinete de Planeamento, Estratégia, Avaliação e Relações Internacionais do Ministério da Cultura, GPEARI, sobre as actividades realizadas ou planeadas pelo seu Gabinete, no quadro do intercâmbio cultural com a CPLP. A directora do GPEARI destacou as seguintes iniciativas:

Protocolo interministerial Cultura-Negócios Estrangeiros
Face à “necessidade de definir uma linha de actuação estratégica clara e coerente” entre o Gabinete de Planeamento, Estratégia, Avaliação e Relações Internacionais (GPEARI/Ministério da Cultura) e o Instituto Camões (IC/Ministério dos Negócios Estrangeiros), as duas instituições, representadas pelas suas responsáveis – Joana Gomes Cardoso e Ana Paula Laborinho, respectivamente – assinaram um acordo (disponível em www.gpeari.pt) que define o GPEARI como “ponto focal” do IC na interlocução com o Ministério da Cultura e em que se comprometem a “fomentar a prática de troca de informação regular, recíproca” sobre as actividades que desenvolvem. No concreto e conforme o texto do documento, IC e GPEARI acordaram em “promover encontros regulares”,“criar um grupo de trabalho para definição das regiões e domínios de actuação prioritários” e em “realizar acções de formação, seminários e/ou workshops que promovam a formação específica dos conselheiros culturais e dos agentes culturais portugueses”. Em relação ao “grupo de trabalho” a constituir, GPEARI e IC admitem convidar “outras entidades e organismos com intervenção na acção cultural portuguesa no estrangeiro”, não especificados no acordo. Expectativas frustradas Poucos dias após a assinatura do acordo, no quadro de um seminário organizado pelo GPEARI sobre a mobilidade e a internacionalização dos artistas portugueses, em declarações citadas pelo jornal Público (edição de 26 de Novembro de 2010), Joana Gomes Cardoso admitiu dificuldades em explicar aos agentes culturais a importância do documento alcançado, perante as expectativas e as necessidades existentes no terreno. Nesse encontro, conforme a referida edição do jornal, vários criadores nacionais lamentaram a suspensão dos apoios que anualmente eram atribuídos pelo IC, que normalmente se materializavam no financiamento – total ou parcial – das viagens. O encenador Tiago Guedes e a coreógrafa Vera Mantero salientaram a necessidade de facilitar a deslocação de artistas e programadores, de forma a estimular o
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contacto directo entre as pessoas. Manifestando-se “desiludido” com as respostas dos dois organismos aos problemas sentidos pelos criadores portugueses, Tiago Guedes sustentou: “Os pequenos apoios são multiplicadores. Se um país como a Índia nos convida para fazer um espectáculo, se calhar sem o apoio do IC não podemos ir. Mas, se formos, há várias pessoas que nos vêem e que nos organizam uma tournée pela Índia. Falta visão para perceber isto”. O papel dos conselheiros culturais das embaixadas Na falta da linha de apoio específica para estas viagens de trabalho, o jornal assinala que o Instituto Camões sugere, “para já”, que os artistas interessados contactem directamente as embaixadas portuguesas nos países de destino. Segundo Alexandra Pinho, directora dos Serviços de Promoção e Divulgação Cultural Externa do IC, é nos centros culturais do Instituto, existentes nas embaixadas, que cabe gerir a verba destinada a estes apoios (191 mil euros em 2009). De igual modo, considera, o protocolo IC-GPEARI agora assinado possibilitará que a decisão sobre os apoios a atribuir passe a ser tomada “em coordenação com a Cultura”. Ainda em relação a esta problemática, Joana Gomes Cardoso, do GPEARI, diz estarem a ser desenvolvidos “canais para que os agentes possam apresentar as suas propostas aos conselheiros culturais”. Entretanto, traduzindo a necessidade de ajustamentos interministeriais e de tempo, para alcançar “articulação” executiva e funcionalidade, Gabriela Canavilhas, Ministra da Cultura de Portugal, afirmou ao mesmo jornal que o seu ministério está a fazer “um levantamento exaustivo de todos os instrumentos e mecanismos que até aqui não estavam articulados entre si”, em conjunto com os Ministérios dos Negócios Estrangeiros, do Trabalho, da Economia e ainda com a Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP), para que as “feiras de produtos portugueses no estrangeiro tenham uma componente de divulgação cultural”. Pedro Rodrigues

. Operacionalização do projecto “Residência Artística Itinerante

CPLP” (aprovado na VII Reunião de Ministros da Cultura da CPLP, em Junho de 2010), em conjunto com a Direcção-Geral das Artes, a rede de Conselheiros Culturais Portugueses e responsáveis do Brasil e de Cabo Verde, países onde poderá arrancar o projecto-piloto;

. Assinatura do Protocolo de Cooperação com o Instituto

Camões, com vista a reforçar a articulação e a troca de informações relativas a actividades internacionais, para potenciar o trabalho dos conselheiros culturais, designadamente os que se encontram em países membros da CPLP. É também objectivo deste protocolo tornar os conselheiros culturais mais acessíveis a projectos da sociedade civil (portuguesa ou dos países locais) e fomentar a reciprocidade das actividades culturais;

. Organização de um seminário dedicado à mobilidade e à interna-

cionalização dos agentes culturais (23/11/2010) que, entre outros assuntos, deu destaque às dificuldades de circulação dos agentes culturais oriundos de países da CPLP. Kalaf Ângelo, dos Buraka Som Sistema, por exemplo, partilhou as suas dificuldades de circulação como cidadão angolano. O GPEARI está a estudar a possibilidade de se criar um “balcão de atendimento” que, entre outras áreas, ofereça aos agentes culturais ajuda e informação relativa aos problemas de circulação identificados no grupo de trabalho sobre mobilidade da União Europeia (emissão de vistos, dupla tributação de impostos, acesso à segurança social, etc.);

. Coordenação e facilitação de várias actividades desenvolvidas por
outros organismos do Ministério da Cultura com países da CPLP, tais como programas de intercâmbio na área da formação. Nesse âmbito estão em curso projectos de formação com o Instituto dos Museus e da Conservação (IMC), o Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico (IGESPAR) e a Direcção-Geral de Arquivos (DGARQ).

Recorde-se que o GPEARI foi criado em Março de 2007 no âmbito do Programa de Reestruturação da Administração Central do Estado, passando a concentrar as funções anteriormente atribuídas ao Gabinete do Direito de Autor e ao Gabinete das Relações Culturais Internacionais. Tem como missão “garantir o apoio à formulação de políticas e ao planeamento estratégico e operacional; assegurar, directamente ou sob sua coordenação, as relações internacionais; acompanhar e avaliar a execução de políticas, em articulação com os demais serviços do Ministério”. Entre as suas atribuições, prevê-se explicitamente: “apoiar a definição e assegurar as relações internacionais nos sectores de actuação do Ministério, coordenando as acções desenvolvidas no âmbito das relações externas no respectivo sector” e “coordenar os projectos dos serviços e organismos do MC relativos à internacionalização da cultura portuguesa e acompanhar as iniciativas de entidades públicas e privadas nesta matéria”. Pedro Rodrigues

Dezembro 2010

2012

Ano do Brasil em Portugal, Ano de Portugal no Brasil
Inspirados pelos “Ano do Brasil em França” (2005) e “Ano da França no Brasil” (2009), os governos de Portugal e do Brasil decidiram em 2008, na cimeira de Salvador da Bahia, organizar o “Ano do Brasil em Portugal” em 2010 e o “Ano de Portugal no Brasil” em 2011. As iniciativas não foram tratadas nas datas previstas e, em Maio deste ano, foi definido um novo calendário e uma nova "estratégia": os dois “anos” ocorrerão simultaneamente em 2012. A este respeito, ouvimos Joana Gomes Cardoso, directora do Gabinete de Planeamento, Estratégia, Avaliação e Relações Internacionais do Ministério da Cultura (GPEARI). Entretanto, na sequência do trabalho continuado de intercâmbio que vem desenvolvendo no Brasil, a Cena Lusófona assinou um protocolo com a Secretaria da Cultura da Bahia e estuda projectos em parceria com instituições paulistas, entre as quais a Cooperativa Cultural Brasileira (CCB).
Paula Nunes

Cinco perguntas à directora do GPEARI
Porquê adiar os projectos “Brasil em Portugal” e “Portugal no Brasil”, realizando-os em simultâneo em 2012? Joana Gomes Cardoso (JGC): Entendeu-se que seria mais produtivo juntar no mesmo saco as celebrações, para aproveitar sinergias e gerir de forma mais eficaz os recursos disponíveis. A quem cabe, do lado português, a condução dos trabalhos preparatórios da iniciativa e a futura elaboração do programa? JGC: Está em curso uma reflexão entre o Ministério da Cultura (GPEARI, Direcção-Geral das Artes) e o Ministério dos Negócios Estrangeiros (através do Instituto Camões) justamente para definir essa questão. É provável que seja nomeado um/uma Comissário/a que irá desenvolver a programação cultural em articulação com o homólogo brasileiro que de momento também ainda não foi designado. Do lado português, está também a ser ponderada a criação de um grupo de trabalho, que desejavelmente integraria entidades como o Turismo de Portugal e a Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP), para delinear uma estratégia conjunta que seja eficaz e sustentável do ponto de vista financeiro. Quais os principais objectivos desta iniciativa? Que áreas artísticas se prevê que venham a integrar o programa e, entre estas, quais as que são consideradas prioritárias? JGC: A iniciativa visa aprofundar as relações bilaterais em várias áreas: cultural, académica, económica. No que respeita à cultura, pretende-se dar a conhecer as manifestações artísticas dos dois países de forma a fortalecer o intercâmbio cultural entre Brasil e Portugal. Qual o orçamento previsto para a concretização do programa destas duas iniciativas? JGC: Ainda não está definido o orçamento nem as suas fontes de financiamento. De que forma se pensa envolver a sociedade civil e, designadamente, os agentes culturais e artísticos não-governamentais nesta programação? JGC: O envolvimento da sociedade civil é muito importante, todas as propostas recebidas serão devidamente analisadas quando estiver em funções o/a Comissário/a. Pedro Rodrigues

São Paulo: debate sobre intercâmbio teatral

Cena Lusófona reforça parcerias no Brasil
A assinatura do protocolo com a Secretaria de Cultura da Bahia, dirigida por Márcio Meirelles, ocorreu em Salvador, na sequência da visita de uma delegação da Cena Lusófona à capital baiana, após a realização do II Encontro Internacional sobre Políticas de Intercâmbio (Teresina, Piauí, 15 a 17 de Novembro). O protocolo tem em conta "o Tratado de Amizade, Cooperação e Consulta entre a República Federativa do Brasil e a República Portuguesa, celebrado em Porto Seguro em 22 de Abril de 2000" e formaliza a "intenção dos seus signatários de viabilizar a realização de acções, visando intercâmbio, difusão e cooperação cultural". Márcio Meirelles, pela Secretaria de Cultura, e António Augusto Barros, pela Cena Lusófona, definem cinco conjuntos de acções concretas a realizar nos próximos anos: promover Estágios Internacionais de Actores Lusófonos com o objectivo de aprofundar a formação de jovens actores da CPLP em áreas específicas; favorecer o intercâmbio de artistas e de grupos artísticos para a realização de residências nos territórios dos países da CPLP; articular a participação de artistas e profissionais da cultura dos seus países e dos demais países membros da CPLP em festivais, espectáculos, oficinas e outros eventos a serem realizados no território da outra parte; promover seminários, cursos, debates e encontros para a produção cultural dos dois países; e propôr projectos conjuntos para o “Ano do Brasil em Portugal” e o “Ano de Portugal no Brasil”, a serem realizados em 2012. O protocolo é válido por três anos e prevê a imediata celebração de um plano de trabalho conjunto, de forma a viabilizar a realização das acções previstas no acordo. Cooperativa Cultural Brasileira Em São Paulo, a Cena Lusófona participou, a 18 de Novembro, num debate sobre a articulação e a dinamização de projectos de intercâmbio teatral entre os países da CPLP, Espanha e países latino-americanos, organizado pela Cooperativa Cultural Brasileira (CCB). Abrindo o colóquio, a presidente da CCB, Marília de Lima, divulgou o “interesse estratégico-cultural-artístico” em efectivar uma parceria entre a Cena Lusófona e a Cooperativa, através da organização de debates sobre a cena teatral ibero-lusófona, nas cinco regiões brasileiras, ao longo do ano de 2011. Rui Madeira, vice-presidente da Cena Lusófona, expôs algumas áreas de actividade em que se poderá desenvolver projectos e acções conjuntas, propostas que visam unir a rede de alcance das duas instituições e das suas estruturas, aumentar a visibilidade pública das iniciativas e articular a comunicação com as instituições públicas. Foram igualmente discutidos projectos concretos de acção, tendo em conta, nomeadamente, as actividades do “Ano de Portugal no Brasil”, em 2012. A Cena Lusófona e a CCB pretendem apresentar propostas para integrar o respectivo programa, destacando a temática da lusofonia, na sua riqueza e complexidade. O encontro contou com a presença de Creusa Borges, directora e produtora do Circuito de Teatro Português de São Paulo, e de representantes do poder público, entre os quais Frederico Roth, do Ministério da Cultura do Brasil.

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Brasil

FESTLUSO e Encontro Internacional sobre Políticas de Intercâmbio
Teresina (Piauí) foi palco, entre 15 e 21 de Novembro, da terceira edição do Festival de Teatro Lusófono (FESTLUSO) e do segundo Encontro Internacional sobre Políticas de Intercâmbio. Reportamos os dois eventos, publicamos as conclusões do Encontro e revelamos que apesar dos cortes orçamentais anunciados pelo Governo Estadual a menos de uma semana do início do festival, obrigando a cancelar parte da programação, o público aderiu em força: mais de cinco mil espectadores para 20 espectáculos de teatro, três concertos musicais e três acções de formação.
Margareth Leite

III FESTLUSO: espectáculo ao ar livre

No balanço positivo que faz desta edição, Francisco Pellé, coordenador geral do Festival, não deixa de referir os efeitos do corte financeiro decidido pelo Governo Estadual do Piauí: “quatro dias antes do Festival começar, recebemos a notícia da recusa do governo em nos patrocinar. Dias depois ele voltou atrás e conseguimos cerca de 30% do valor originalmente proposto, mas ainda assim o corte foi inevitável. Sessenta por cento das atracções tiveram de ser canceladas, incluindo a maioria das locais e algumas nacionais. Mantivemos as internacionais que já estavam garantidas pelo patrocínio da empresa de telecomunicações Oi. Isso teve uma repercussão assustadora na imprensa e o público ficou bem revoltado com a defasagem”. “O lado positivo”, reconhece Pellé, foi a reacção do público: “os espectadores sentiram-se mais estimulados a ir aos teatros para mostrarem que valorizam aquilo que o governo parecia desconsiderar. Mesmo com o corte, a programação foi de altíssima qualidade e a dificuldade quantitativa foi superada desta forma”. Por outro lado, o responsável pelo Festival não deixa de destacar o papel de alguns dos artistas que mantiveram a sua participação, independentemente das condições financeiras: “um apoio de extrema importância e que deu visibilidade ao festival foi o do cantor Jorge Mautner e do músico Nelson Jacobina, que, mesmo na incerteza orçamentária, confirmaram o show em Terecenaberta 6

sina, vieram e fizeram uma apresentação fantástica”. No que diz respeito à programação internacional, o III FESTLUSO contou com a participação de grupos de Angola (Grupo Teatral HenriqueArtes), Cabo Verde (Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo), Galiza (Abrapalabra / Cándido Pazó), Moçambique (Grupo de Teatro Lareira) e Portugal (Teatro Extremo). Pellé destaca os apoios que a viabilizaram – “tivemos patrocínio da Oi e apoio cultural Oi Futuro, Ministério da Cultura, Funarte e SIEC (Sistema Estadual de Incentivo à Cultura do Piauí)” – mas lamenta o relativo insucesso dos apoios internacionais: apesar das tentativas,“recebemos respostas positivas apenas de Angola, pela TAAG (Linhas Aéreas Angolanas) e LS Produções”. O orçamento geral era de 350 mil reais, “mas conseguimos realizar com 230 mil, ainda com algumas dívidas a pagar”. Em preparação está já a IV edição do FESTLUSO, programada para 22 a 28 de Agosto de 2011, regressando assim ao seu calendário normal: “o quarto FESTLUSO começou antes mesmo do terceiro acabar, com a organização do projecto e a inscrição em editais. Estamos já buscando patrocinadores para que Teresina volte a ser, exitosamente, a capital da lusofonia”. II Encontro Internacional sobre Políticas de Intercâmbio O FESTLUSO é organizado pelo Harém Teatro, compa-

nhia instalada em Teresina e participante regular em iniciativas de intercâmbio com Portugal e Cabo Verde. Em Dezembro de 2009, o Harém Teatro e o FESTLUSO estiveram representados, por Francisco Pellé, no Encontro Internacional sobre Políticas de Intercâmbio, realizado em Coimbra. Comprovando o empenho em aprofundar o compromisso do seu Festival com o universo do teatro lusófono, Pellé comprometeu-se então a organizar a segunda edição deste Encontro, no que foi apoiado pelo Ministério da Cultura do Brasil, representado nessa ocasião por Zulu Araújo, Presidente da Fundação Cultural Palmares. Assim aconteceu: nos três primeiros dias do Festival, mais de duas dezenas de estruturas de criação e programação dos países de língua portuguesa reuniram em Teresina, produzindo as conclusões que cenaberta publica (pág.7). E também em jeito conclusivo sobre o II Encontro e o Festival, Francisco Pellé assinala: “A vinda do II Encontro Internacional sobre Políticas de Intercâmbio para Teresina foi o maior reconhecimento de que o FESTLUSO está fazendo esse eixo de circulação produtiva se mover. Temos aqui uma cidade de médio porte para os padrões brasileiros e desconhecida por grande parte do país. Porém, vem mostrando-se extremamente fértil e acolhedora em relação a esse tipo de evento”. António Augusto Barros / Pedro Rodrigues

Dezembro 2010

Entre as conclusões do II Encontro Internacional sobre Políticas de Intercâmbio, aqui publicadas na íntegra, destaca-se a importância dada a "2012 - Ano de Portugal no Brasil, Ano do Brasil em Portugal", bem como a preocupação dos participantes face às indefinições que sobre o assunto subsistem e a vontade destes, em diálogo com os responsáveis políticos dos dois países, contribuírem para dar corpo à iniciativa.

Conclusões
Na sequência do primeiro Encontro de Coimbra (Dezembro de 2009), mais de duas dezenas de instituições culturais e teatrais do Brasil, Portugal, Moçambique, Angola, Cabo Verde e Galiza reuniram-se nos passados dias 15, 16 e 17 de Novembro, no âmbito do FESTLUSO – Festival de Teatro Lusófono, em Teresina (Piauí, Brasil), com o objectivo de debaterem o estado do intercâmbio teatral na lusofonia e aprofundarem as possibilidades de relacionamento e colaboração mútua no futuro próximo. Neste II Encontro Internacional sobre Políticas de Intercâmbio na CPLP realizaram-se mesas dedicadas às iniciativas de co-produção já realizadas e em processo de concretização, à colaboração entre os festivais e ao diálogo necessário e urgente entre os artistas, os agentes culturais e as instâncias representativas do poder político-cultural nos diversos países. Sublinha-se, entre as diversas decisões e conclusões do Encontro: 1. A necessidade e o interesse em manter viva a rede informal e colaborativa de festivais existente neste domínio específico – FESTLUSO, Mindelact, Circuito de Teatro Português de São Paulo, Festival de Teatro e Artes de Luanda, Festival de Teatro de São Carlos (SP), Festival Internacional de Teatro de Ourense, Festival Sementes – assegurando assim a troca de informações, uma atempada planificação, a coordenação de datas e a partilha de programações, com redução de custos, maior rentabilidade e visibilidade das companhias deslocadas. 2. À semelhança do que ocorreu no I Encontro, os participantes debruçaram-se sobre o conjunto de decisões tomadas no decurso das últimas cimeiras dos Ministros da Cultura da CPLP, registando a incapacidade de estas serem executadas ou desenvolvidas nos prazos previstos. Entre estas, regista-se, a título de exemplo, a questão do “selo cultural”, decisão tomada há uma década, sucessivamente confirmada e reiterada nas actas saídas de cada cimeira, sem qualquer consequência ou desenvolvimento conhecidos. Neste âmbito, a facilitação de vistos diplomáticos, em especial para as companhias africanas convidadas para iniciativas de relevo cultural em Portugal e no Brasil, continua a constituir mera retórica institucional, criando entraves e prejuízos multilaterais que em nada contribuem para a intensificação do intercâmbio. 3. No âmbito bilateral entre Portugal e o Brasil, os participantes denunciaram a confusão e a incerteza relativas às iniciativas “Ano do Brasil em Portugal” e “Ano de Portugal no Brasil”, inicialmente previstas, como seria

lógico, para anos separados (2010 e 2011, respectivamente) e recentemente corrigidas e “fundidas” para o ano de 2012. Tomando como definitiva esta última decisão, os participantes mostraram-se preocupados com o atraso existente: a um ano da iniciativa, os governos não anunciaram ainda qualquer definição de áreas prioritárias, distribuição de responsabilidades artísticas, metodologias organizativas, fórmulas de articulação bilateral, orçamentos, etc. Um evento desta envergadura, considerado da máxima importância e simbologia pelos presentes, necessita de um tempo e reflexão que já são escassos. A maior preocupação é que, à última hora, sejam definidos eventos que não necessariamente representem a cultura dos dois países e não façam o efectivo intercâmbio proposto. Por isso e quanto antes deve-se conversar com os representantes dos vários sectores da cultura para, em conjunto, propor as actividades. Que isso aconteça tanto em Portugal quanto no Brasil. 4. Os presentes atribuíram à Cena Lusófona um papel articulador de vontades e assinalaram o esforço que esta organização vem desempenhando na centralização e difusão de informações, nomeadamente através do seu Centro de Documentação e Informação e das versões do cenaberta (em papel e on-line). Foi sugerido ainda à Cena Lusófona a organização de um dossiê sobre projectos e programas de financiamento existentes nas instâncias internacionais e nacionais vocacionadas para o fortalecimento das relações multilaterais. 5. O Encontro incumbiu a directora do Festival das Artes de Luanda da missão de estabelecer os contactos necessários no seu país para que a edição do III Encontro Internacional sobre Políticas de Intercâmbio na CPLP se realize na cidade de Luanda no decurso do próximo ano. Foi ainda formulado o propósito de que os encontros seguintes, em Portugal e no Brasil, se realizem integrados no âmbito das iniciativas “Ano de Portugal no Brasil” e “Ano do Brasil em Portugal”, no ano de 2012. 6. Os participantes saúdam, por fim, os organizadores do FESTLUSO e deste II Encontro pelo acolhimento excepcional na cidade de Teresina, no Estado do Piauí, confirmando, assim, que o movimento de intercâmbio lusófono é diverso e vasto, não se conformando às realizações dos grandes centros, antes dependendo das vontades plurais e do desejo de um grande reencontro à volta da língua, da arte, da cultura. Teresina, Piauí, 17 de Novembro de 2010.

Os participantes:
A ESCOLA DA NOITE (Coimbra, Portugal) ABRAPALABRA CREACIÓNS ESCÉNICAS (Galiza, Espanha) BANDO DE TEATRO OLODUM (Salvador, BA, Brasil) CENA LUSÓFONA (Portugal) CIRCUITO DE TEATRO PORTUGUêS DE SãO PAULO (São Paulo, Brasil) COMPANHIA DE TEATRO DE BRAGA (Braga, Portugal) COMPANHIA LEõES DE CIRCO (Rio de Janeiro, Brasil) COOPERATIVA CULTURAL BRASILEIRA (São Paulo, Brasil) DRAGãO7 (São Paulo, Brasil) ELINGA TEATRO (Luanda, Angola) FEBRACCULT – Federação Brasileira das Cooperativas de Cultura (Brasil) FESTIVAL INTERNACIONAL DE TEATRO E ARTES DE LUANDA (Luanda, Angola) FESTIVAL DE TEATRO DE SãO CARLOS (São Carlos, SP, Brasil) FESTIVAL SEMENTES (Almada, Portugal) FESTLUSO (Teresina, Piauí, Brasil) FITO – Festival Internacional de Teatro de Ourense (Ourense, Galiza, Espanha) GRUPO DE TEATRO DO CENTRO CULTURAL PORTUGUêS DO MINDELO (Mindelo, Cabo Verde) GRUPO DE TEATRO LAREIRA (Maputo, Moçambique) GRUPO HARÉM DE TEATRO (Teresina, Piauí, Brasil) GRUPO TÁ NA RUA (Rio de Janeiro, Brasil) GRUPO TEATRAL HENRIQUEARTES (Luanda, Angola) MINDELACT (Mindelo, Cabo Verde) SARABELA TEATRO (Ourense, Galiza, Espanha) TEATRO EXTREMO (Almada, Portugal) TEATRO VILA VELHA (Salvador, Bahía, Brasil)
cenaberta 7

"Os Amantes", Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo (Cabo Verde)

"Hotel Komarca", Grupo Teatral HenriqueArtes (Angola)

III FESTLU Internaci de Interc
Teresina (Piauí, Brasil) 15 a 17 de Novembro de 2010
fotografia de Margareth Leite

II EIPI: mesa-redonda moderada por João Branco (Mindelact, Cabo Verde)

"A Descoberta das Américas", Júlio Adrião, Produções Artísticas (Brasil)
cenaberta 8

II EIPI: António Augusto Barros e Rui Madeira (Cena Lusófona)

III FESTLUSO: espectáculo ao ar livre no espaço do Harém de Teatro

SO e II Encontro onal sobre Políticas âmbio

Flávio Ferrão (Grupo Teatral HenriqueArtes, Angola), Arimatan Martins (Grupo Harém de Teatro, Brasil), Cándido Pazó (Galiza, Espanha), Airton Martins (Grupo Harém de Teatro, Brasil), Fernando Jorge Lopes (Teatro Extremo, Portugal), Alex Elliot (Grupo de Teatro Lareira, Moçambique)

"Quando as máquinas param", Grupo Harém de Teatro (Brasil)
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cenaberta

Márcio Meirelles

Entre o palco e a política
Márcio Meirelles, criador artístico, homem de teatro, tem nos últimos anos desempenhado o cargo de Secretário da Cultura do Estado da Bahia. Encenou "Bença", o mais recente espectáculo do Bando de Teatro Olodum. O palco, a política, condições conflituantes? A esta e outras questões, suscitadas por cenaberta, respondeu Márcio Meirelles, via e-mail.
Durante o seu mandato enquanto Secretário da Cultura da Bahia, quais foram as prioridades e os principais problemas que enfrentou? Primeiro, reconhecer que a Cultura é um direito de todos e que cada cidadão é um produtor de cultura e tem que ter acesso aos meios de produção e aos bens culturais produzidos, ao seu patrimônio e à sua memória. E, se é um direito básico do cidadão, é um dever do Estado cuidar para que todos gozem desse direito. dos em 26 territórios de identidade. Entendemos que não seria possível trabalhar para o Estado inteiro se não trabalhássemos em rede, se não trabalhássemos com as prefeituras. Então, desde o início do mandato, temos promovido encontros, oficinas de qualificação dos gestores municipais de cultura. Eles criaram um fórum, que se transformou em associação. Estão sempre se mobilizando e articulando informações e ações. Temos também uma rede de 26 representantes
João Milet Meirelles

geração de economia sustentável local. Este projeto de lei foi construído a partir de várias consultas públicas, inclusive em duas Conferências Estaduais – em cada uma mobilizamos em torno de 40 mil pessoas para discutir prioridades e diretrizes que resultaram na Lei e são base para o Plano Estadual de Cultura. Que resultados conseguiu realmente? Os resultados mesmo virão em médio prazo, porque trabalhamos nas bases, nos conceitos, na criação de infraestrutura. De imediato posso dizer que resultou num aumento qualitativo e quantitativo de propostas, vindas de todos os territórios e, agora, fazendo o balanço de quatro anos, fizemos mapas onde pode-se ver bem distribuídos os novos 150 pontos de cultura, podemos reconhecer, em sistema, as mais de 200 unidades museais; podemos constatar que, com as 150 bibliotecas municipais que implantamos, zeramos o número de municípios sem bibliotecas; podemos ver que contemplamos projetos propostos por todos os territórios e apoiamos a circulação de projetos em todos também. Podemos dizer que, este ano, tivemos em Salvador mais de 60 estreias de novas peças de teatro, o que é um recorde. Que a música baiana agora é reconhecida em sua pluralidade e o setor tem-se organizado mais, participando de feiras internacionais e promovendo encontros e fóruns que levam em conta a nossa inserção no mercado nacional e internacional. Temos agora quatro festivais internacionais de artes cênicas por ano, dois de dança e dois de teatro. E em torno de mais de dez festivais, encontros e mostras anuais em vários municípios. O que promove uma troca fantástica entre os produtores do interior e da capital. Triplicamos o número de visitantes nos museus, aumentando suas área expositivas e horários de funcionamento, além de um programa intenso de exposições contemporâneas e de acervos, acompanhadas de programas de visitação e educativos. Temos uma coleção de 63 peças de Rodin, cedidas em comodato pela França durante três anos. Quanto ao intercâmbio internacional e, em particular, ao intercâmbio na lusofo-

Depois e por isso, descentralizar, democratizar e institucionalizar as políticas culturais. Descentralizar setorialmente. Estendendo os programas da Secretaria a um espectro mais amplo de ações da sociedade. Expandindo para outras áreas, além das linguagens artísticas, como por exemplo a moda, o design, a gastronomia, a cultura digital, as culturas identitárias dos povos indígenas, quilombolas, ciganos, para as culturas populares e sua produção, para as festas. Também descentralizar territorialmente. A Bahia é maior que a França, temos 417 municípios, agrupacenaberta 10

territoriais da Secretaria. São nossos braços. São responsáveis por acompanhar as nossas políticas e ações em todos os territórios. Por fim, institucionalizar essas políticas. Elaboramos um projeto de Lei Orgânica da Cultura que vai consolidar boa parte delas definindo o que é Cultura, que atividades sociais se enquadram no escopo das atividades da Secretaria, e como o Estado deve atuar nesse setor. Esta lei cria o Sistema Estadual de Cultura e outros marcos importantes para tirar as atividades culturais da informalidade. Ela reconhece também a cultura como eixo de desenvolvimento e

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João Milet Meirelles
"Bença"

João Milet Meirelles

"Bença"

nia, que sempre defendeu, o que é que ficou por fazer e, eventualmente, guardaria para um segundo mandato? Criamos mecanismos de apoio a residências e intercâmbios através de editais. Isso foi uma coisa genérica, para artistas locais viajarem ou virem artistas de qualquer país. Quanto a programa específico para a CPLP, estivemos na coordenação de um concurso de documentários para as TVs públicas, o Doc TV CPLP, um programa nacional. Agora assinamos esse termo de cooperação com a Cena Lusófona e uma próxima gestão poderá trabalhar melhor para a promoção de atividades da lusofonia nas artes cênicas e poderemos avançar para outras áreas. Toda a sua vida foi a de um criador artístico, um fazedor teatral, envolvido nos problemas relativos à afirmação da arte e do teatro nos diversos contextos sociais e políticos do Brasil. Durante os últimos anos usou um outro boné, o da política, o que é, aparentemente, contraditório. Como resolveu essa contradição? Essa dupla condição foi conflituante? Acha que terminou a sua missão desse lado e tem vontade de regressar? O facto de ter assinado o último espectáculo do Bando, "Bença" (aliás, belíssimo), é uma espécie de resposta? É mais uma espécie de questão. Creio que os espetáculos sempre são perguntas sem respostas. E fazer essas questões, instigar, é o meu ofício. Não há contradição alguma entre o cargo que ocupo agora e ser artista, no caso encenador. O que faço no teatro? Transformo um discurso em ação, através de uma equipe de colaboradores, para que esta ação, de alguma forma, transforme a sociedade. É o que faço como secretário de Cultura. Como fazedor teatral, tive que virar gestor, porque entendi que a melhor maneira de atuar politicamente com meu discurso cênico seria através de um grupo, razoavelmente fixo, de artistas colaboradores. Sempre fiz teatro de grupo, mesmo quando dirigi elencos. Depois um grupo pede uma casa, e coordenei a gestão de o centro cultural A Fábrica, nos anos 80, e, a partir de 94 até 2006, o Teatro Vila

Velha. Quando você é gestor de um grupo e de um teatro, você desenvolve políticas públicas de atuação, portanto questiona as políticas do Estado, interage com elas e deve interferir em suas formulações e execuções. Portanto do lugar de artista, produtor e gestor cultural sempre fiz e discuti políticas públicas para a cultura. Quando o governador Jaques Wagner me convidou para assumir o cargo, não tinha como não aceitar. Se esse foi o meu discurso o tempo inteiro e alguém, em quem confio, me chama para participar de um programa político, no qual concordo, para efetivar e tornar ação esse discurso e com isso promover o desenvolvimento da Bahia, tinha que aceitar e dar o máximo de mim para tornar esse programa vitorioso. Não estou satisfeito, porque o passivo era muito grande e a mudança proposta muito radical e ainda há muito por fazer. Mas tenho a sensação de dever cumprido. Demos alguns passos, outros são necessários, mas os que demos foram firmes e definiram caminhos que a sociedade está se apropriando e vai poder trilhar, cobrando do Estado que faça sua parte, Quanto a Bença, mesmo com todas as tarefas, eu não podia deixar de dirigir o espetáculo comemorativo dos 20 anos do Bando de Teatro Olodum. Fui um dos fundadores do grupo e com ele vivi muitas coisas. Era preciso participar desse novo ciclo. Foi o que fizemos, inauguramos um novo ciclo do grupo com esse espetáculo. Agora, virão mais 20 ou sei lá quantos… O que falta ao teatro baiano, na sua opinião, para se afirmar e desenvolver fora de portas? O teatro, no século XXI, está passando por um momento complicado. É o século da família das ferramentas digitais e virtuais. Século das comunidades. Do tempo real e espaço virtual. É um século que redefiniu muitas coisas a partir dessa tecnologia. E dentre essas, questões básicas para o teatro: a presença virtual, a reprodutibilidade e difusão dos discursos, as formas narrativas. Ao contrário do surgimento do cinema e da televisão, que criaram novos suportes para a linguagem teatral e só a partir daí foi desenvolvendo linguagens próprias, as novas tecnologias vieram já com sua própria sintaxe. É preciso que o teatro dialogue com esse novo tempo, esse novo

público, esses novos meios. Na Bahia não é diferente. Ficamos muito tempo isolados do mundo, trocando muito pouco. Não tínhamos um festival de teatro internacional nem nacional, por exemplo. Circulamos muito pouco e só poucos de nós. Por outro lado vivemos uma política perversa que tornou a produção cultural dependente do Estado ou de patrocinadores. Nos importamos pouco com o público. E não no sentido de atender o que se quer ver, mas no de propor coisas que precisam ser vistas. Se, por um lado, 90% das peças montadas aqui são de autores locais, nosso isolamento do mundo só há pouco tempo começou a ser quebrado, trazendo oxigênio para a cena local. Nosso universo provinciano é muito forte. O lado bom é que temos muito material simbólico para trabalhar, o ruim é que achamos que nos bastamos, alimentando “estrelas” e “gênios” locais que não resistem a um sopro maior de novidade. E que ignora o tempo atual que passa célere transformando tudo. O teatro é um testemunho de nosso tempo presente. E o tempo agora é real, se o teatro não se apropriar disso e fizer seu discurso para o público do século XXI, vamos morrer sonhando com Moscou, em nosso jardim de cerejeiras, não entendendo porque as plateias estão vazias, culpando o Estado por isso ou o próprio público por não ter formação suficiente para ficar mais de duas horas vendo Tchékhov. Em outras palavras, o teatro baiano tem que sair de sua redoma e buscar e formar seu público. É preciso investir em educação, sim. Mas isso é uma tarefa de todos. Não só do Estado. entrevista de António Augusto Barros
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cenaberta 11

cenaberta

cenas breves
PORTUGAL – BRASIL Marco António Rodrigues dirige espectáculo em Coimbra
O encenador brasileiro Marco António Rodrigues, fundador do Grupo Folias d'Arte (São Paulo) dirigiu a montagem de “Noite de Reis”, para a companhia O Teatrão, na cidade de Coimbra. O espectáculo estreou a 9 de Dezembro e mantém-se em cena até 29 de Janeiro, na Oficina Municipal do Teatro. O Teatrão assume o desafio de montar Shakespeare e aposta em aligeirar “o peso” associado aos textos de autores clássicos, brincando com o espectador: “Como fazer para que um enredo escrito para ser representado na noite de reis de mil quinhentos e troca-o-passo faça sentido feito em português, hoje, aqui e agora?”. A peça trata de “pessoas que querem ser outras pessoas, mudar de vida, mudar de papel. Estes actores experimentam todos os papéis, todas as personagens, tudo ao mesmo tempo. Imagine um bando que em vez de brincar ao Rei-Manda, brinca aos Reis-Mandam”. No mesmo registo, Marco António Rodrigues resume desta forma a comédia do dramaturgo inglês: “A cena é comum ao nosso imaginário: uma ilha paradisíaca, uma pequena corte, um romance assimétrico entre nobres, um naufrágio, irmãos gémeos, tios bêbados, empregados espertos, administradores duvidosos. Uma náufraga de origem nobre que se transveste como homem para metamorfosear-se em serva do duque que governa a ilha. Pronto.”
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em 2006) é o terceiro espectáculo que encena para O Teatrão, depois de “O Círculo de Giz Caucasiano”, de Brecht (2008), e de “Repúblicas” (2010).

PORTUGAL – BRASIL Novo espectáculo de Peter Brook em digressão pela Europa e América Latina
Quando se prepara para abandonar a Companhia "Bouffes du Nord", que dirigiu durante 35 anos, o encenador britânico Peter Brook prepara para 2011 uma digressão pela Península Ibérica e pela América do Sul com o espectáculo "Uma Flauta Mágica", adaptação livre da obra de Mozart. Itália, Inglaterra, Portugal, Brasil, Espanha e Argentina serão os países contemplados. “Uma Flauta Mágica” é "um espectáculo com que sonhava há anos", afirma Brook, em declarações citadas pelo jornal "La Jornada" e em que destaca a forma como "um só indivíduo, muito jovem, morrendo" - Mozart - conseguiu escrever uma música como a da "Flauta Mágica", capaz de dar ao espectador algo totalmente diferente da brutalidade ou frustração da vida quotidiana. "Esse é o papel do teatro", resume o encenador. O espectáculo será apresentado em Itália (22 de Fevereiro a 19 de Março), Londres (23 a 27 de Março), Portugal (5 a 14 de Maio), Bilbao (13 e 14 de Maio), Madrid (18 a 22 de Maio), Barcelona (18 a 20 de Junho), Brasília (5 a 7 de Setembro, no âmbito do Festival Cena Contemporânea), São Paulo (12 a 16 de Setembro), Porto Alegre (21 a 23 de Setembro) e, finalmente, em Buenos Aires (28 de Setembro a 1 de Outubro).
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Literário do Brasil, o compositor e escritor brasileiro Chico Buarque viu o seu romance "Leite Derramado" ser distinguido, no início de Novembro, com o 8.º Prémio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa. Falando sobre o livro agora premiado, Chico Buarque, que sente que muitas pessoas ainda se surpreendem quando se apresenta como escritor, assume algumas influências dos escritos do pai, Sérgio Buarque, mas afirma que já tem uma "linguagem própria". Da lista de obras sujeitas a avaliação pelo júri do prémio constavam mais oito trabalhos, entre os quais o livro "Caim", de José Saramago, entretanto retirado da competição, por solicitação da Fundação com o nome do escritor português. O segundo prémio foi atribuído a Rodrigo Lacerda, pelo romance "Outra vida".
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investigadores, estudantes, escritores e curiosos das letras, África por pano de fundo, contribuindo para a afirmação e para o intercâmbio entre os países de expressão oficial portuguesa, as suas literaturas e culturas. Entre os presentes estiveram os escritores Luandino Vieira, Pepetela, João Melo, João Maimona, Manuel Rui, Akiz Neto, Jacques dos Santos (Angola); Mia Couto (Moçambique); Odete Semedo (Guiné-Bissau); Filinto Elísio (Cabo Verde). O Encontro contou ainda com a participação de professores e ensaístas brasileiros (Laura Padilha, Cármen Tindo Secco, Benjamin Abdala Júnior, Simone Caputo Gomes, Íris Amâncio, Robson Dutra, Teresa Salgado e Moema Parente Augel, entre outros) e portugueses (Ana Mafalda Leite e Margarida Calafate Ribeiro).
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Chico Buarque

Luandino Vieira

BRASIL AFROLIC: nova associação de estudos culturais africanos
O IV Encontro de Professores de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, realizado entre os dias 8 e 11 de Novembro de 2010 na cidade de Ouro Preto, Minas Gerais, terminou com a criação da Associação Internacional de Estudos Literários e Culturais Africanos, denominada AFROLIC. O Encontro de Professores de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, trienal, organizado pela Universidade Federal e Pontifícia de Minas, sob a orientação de Nazareth Soares Fonseca, vem dar continuidade à iniciativa da Universidade Federal Fluminense que, em 1991, organizou o primeiro evento, seguido pelos Encontros na Universidade de São Paulo em 2003, e na Universidade Federal do Rio de Janeiro em 2007. Neste quarto Encontro foi oficialmente criada a Associação Internacional de Estudos Literários e Culturais Africanos - AFROLIC. Para além dos professores brasileiros e de toda a lusofonia, os Encontros têm sido momentos para a reflexão e para o debate de

BRASIL Sebastião Milaré apresentou novo livro sobre Antunes Filho
O crítico e investigador brasileiro Sebastião Milaré apresentou a 8 de Dezembro o seu novo livro "Hierofania: o teatro segundo Antunes Filho" no CPT – Centro de Pesquisa Teatral do SESC Consolação. Sebastião Milaré pesquisou o método criado por Antunes Filho ao longo de dez anos, analisando as referências estéticas e os próprios espectáculos e recolhendo documentos (publicados e inéditos), depoimentos do encenador e de actores que trabalharam com ele, agora compilados nesta obra. A partir de uma perspectiva histórica, “Hierofania” destaca o contributo do sistema elaborado por Antunes Filho para o desenvolvimento do potencial expressivo do artista, fundamentado na ideia de que é preciso formar e transformar o ser humano para que se forme o actor. Milaré, que já publicara em 1994 o livro "Antunes Filho e a dimensão utópica", é jornalista, crítico e investigador de teatro. Desde 1994, é curador de teatro do Centro Cul-

Peter Brook "Noite de Reis"

Marco António Rodrigues (Santos, SP, 1955) fundou o grupo Folias d'Arte, em São Paulo, em 1998, com a intenção de fazer um “teatro popular de matriz brechtiana”. “Noite de Reis” (que já havia dirigido em São Paulo,
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BRASIL Chico Buarque vence prémio PT de literatura
Poucos dias depois de ter recebido o Prémio Jabuti, o mais importante prémio

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tural de São Paulo. Durante 20 anos foi crítico teatral na revista "Artes" e tem ensaios publicados em jornais do Brasil e de outros países. Criou e edita, desde 2000, a revista electrónica www.antaprofana.com.br e também escreveu o livro "Batalha da quimera" (Ed. Funarte, 2009), além de trabalhar como dramaturgo e roteirista. Colaborou com a Cena Lusófona na edição especial da revista setepalcos dedicada ao teatro brasileiro (1995) e no projecto "Quem come Quem" DR (1999-2000).

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que a guerra ocupa um lugar considerável. "As obras de António Ole são densas mas totalmente abertas, uma vez que elas transcendem os seus propósitos originais e fazem surgir uma multiplicidade de sentidos que encontram eco noutras situações do mundo, colectivas ou pessoais", afirma a organização da exposição.

MOÇAMBIQUE - ANGOLA "Moderno Tropical" vence prémio internacional
"Moderno Tropical: Arquitectura em Angola e Moçambique 1948 - 1975", livro de Ana Magalhães e Inês Gonçalves, venceu o prémio DAM Architectural Book Award. O prémio é uma iniciativa conjunta do Deutsches Architekturmuseum (Museu Alemão de Arquitectura) e da Feira do Livro de Frankfurt. O trabalho, editado pela Tinta-da-China com o apoio da Direcção Geral das Artes, do Instituto Camões e da Fundação Luso-Brasileira, recupera o acervo arquitectónico moderno edificado em Angola e Moçambique entre 1948 e 1975.
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BRASIL Newton Moreno premiado por "Memória da Cana"
O dramaturgo e encenador brasileiro Newton Moreno recebeu em Novembro o Prémio “Contigo!” para melhor autor pelo espectáculo "Memória da Cana", baseado na peça "Album de Família", de Nelson Rodrigues. “Memória da Cana” estreou em 2009 pelo grupo "Os fofos encenam", dirigido por Newton Moreno. Trata-se da adaptação de uma das mais conhecidas obras do dramaturgo Nelson Rodrigues, transposta para "o cenário dos engenhos e canaviais nordestinos", num "estudo sobre a família patriarcal brasileira". Não podendo estar presente na cerimónia de entrega do prémio, realizada no Teatro Poeira (Rio de Janeiro) a 16 de Novembro, Newton Moreno enviou uma mensagem em que assinala: “Mesmo 30 anos após sua morte, o Nelson nos inspira".
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PORTUGAL “O segredo de Conceição”, de Cândido Ferreira
Foi publicado em Outubro “O Segredo de Conceição”, primeiro livro de teatro do actor, encenador e professor de teatro Cândido Ferreira. O livro, publicado pela Editora Dinossauro, reúne três peças – “O segredo de Conceição”, “Paris de Fora” e “S. Tomás da Ermida” – e tem prefácio do encenador Jorge Silva Melo. No seu todo, a obra retrata as vivências das camadas populares portuguesas. "O Segredo de Conceição" é um olhar sobre a vida nos bairros populares de Lisboa nos anos 60; "Paris de fora" refere-se às dificuldades dos jovens portugueses emigrados que fugiam à tropa durante a ditadura; e "S. Tomás da Ermida" decorre nos anos 80, no contexto do regresso às aldeias dos portugueses que antes haviam migrado para os centros urbanos. Cândido Ferreira é membro da Cena Lusófona, no âmbito da qual dirigiu diversas acções de formação e encenou os espectáculos "As Virgens Loucas", de António Aurélio Gonçalves (co-produção com o Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo, Cabo Verde, 1996), e "Quem me dera ser onda", de Manuel Rui (co-produção com o Elinga Teatro, Angola, 2001).

Newton Moreno

FRANÇA - ANGOLA Arte angolana em Paris
O Museu Dapper de Paris acolhe até 10 de Julho de 2011 a exposição “Angola, figuras do poder”, que destaca a importância da arte angolana. Em paralelo, o artista plástico António Ole mostra na capital francesa alguns dos seus trabalhos.

A mostra “Angola, figuras do poder” reúne cento e quarenta obras: máscaras de diferentes materiais, representações do herói-caçador Chokwe Chibinda Ilunga e outros objectos mágico-religiosos e baixos-relevos policromados. Integrando uma grande diversidade de povos, Angola assistiu ao desenvolvimento de artes que exaltam o poder político e espiritual dos chefes. Da mesma forma, os cultos prestados aos antepassados, heróis, divindades e espíritos, tal como os rituais iniciáticos, asseguram a formação dos indivíduos, fizeram nascer práticas artísticas elaboradas. "Máscaras, estatuetas, símbolos e outros tipos de obras dos Chokwe, Kongo, Lwena, Lwimbi, Mwila, Ovimbundu ocupam um lugar central nas artes de Angola", lê-se no texto de apresentação. "Esta exposição oferece um admirável reportório de formas onde se afirmam estilos específicos e onde se descobrem influências recíprocas. As máscaras esculpidas ou feitas em matérias vegetais, tais como as figuras de culto em madeira, a par da sua origem e do seu papel, sugerem frequentemente ligações entre os povos. As representações mais ricas misturam frequente e intimamente numerosos registos. Os dados da história, do político e do religioso incorporam, de forma mais ou menos explícita, os modos de figuração e os sistemas simbólicos. Os objectos constituem portanto os indicadores de um universo onde estão em jogo múltiplos poderes. Esta selecção revela a vontade de apresentar, com a maior amplitude possível, a forma como as produções dos povos contribuíram para edificar um património artístico excepcional." Em paralelo, o Museu Dapper apresenta a exposição "Memórias", de António Ole, artista plástico angolano com trabalhos nas áreas da pintura, escultura, instalação, fotografia e cinema. Os sete trabalhos escolhidos para esta mostra — essencialmente esculturas e instalações de grandes dimensões — transportam os traços da memória colectiva, em

“Moderno tropical” é um álbum de fotografias com 238 páginas em grande formato. As fotografias são de Inês Gonçalves e a arquitecta Ana Magalhães assina os textos, a cronologia (1948-75), os verbetes das obras fotografadas, bem como as notas biográficas dos seus autores. O livro incide sobre quatro cidades, duas de Angola (Luanda e Lobito) e duas de Moçambique (Lourenço Marques e Beira), com um capítulo dedicado a doze obras icónicas. Oito arquitectos merecem destaque, entre eles o moçambicano Amâncio ‘Pancho’ Guedes, representado com quinze trabalhos, todos em Lourenço Marques (hoje Maputo): Edifício Abreu, Hotel Tamariz, Padaria Saipal, Restaurante Zambi, Edifício Man George, Edifício Octávio, Edifício Mocargo, Edifício Dragão, Edifício Prometheus, Edifício Tonelli,
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cenas breves
Edifício Parque, Edifício Leão Que Ri, Edifício Simões Ferreira, as Casas Gémeas da família Matos Ribeiro e as Casas Gonzaga Gomes. No prefácio do livro, a arquitecta Ana Tostões assinala algumas das razões que levaram dezenas de arquitectos portugueses (sobretudo os da Escola do Porto) a emigrar para Angola e Moçambique: "É justamente essa geração de arquitectos, politicamente amadurecida como nunca o fora a geração dos anos 30 modernistas, que vai fazer a diferença e mergulhar na contemporaneidade. Cheios de força e com a audácia da juventude, vão fazer a ‘utopia moderna em África’".

a documentação produzida e a que foi enviada pelas companhias que participaram, ao longo destes anos, no mais antigo festival de teatro português (a primeira edição data de 1978).

BRASIL Brasil tem nova Ministra da Cultura
A compositora e cantora Ana de Hollanda é a nova Ministra da Cultura do Brasil. A escolha foi anunciada no passado dia 20 de Dezembro e a própria diz-se “honradíssima com o convite da Presidente Dilma”.
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xas compostas por si. No teatro, participou como actriz em vários espectáculos no início da década de 90 e escreveu, com Consuelo de Castro, a peça “Paixões Provisórias”.Comentando a sua nomeação, Ana de Hollanda escreveu no seu site pessoal (www.anadehollanda.com.br): “O desafio é enorme, mas nada que seja impossível para quem respira cultura. Conto com ajuda essencial de todos que criam e produzem arte”.

“Tinha tempo para fotografar, desenhar, fazer tudo o que fazia e, sobretudo, para conviver, faceta a que ele dava imenso valor. Era um conversador extraordinário, de uma grande solidez cultural”.

ESPANHA – PORTUGAL Joaquim Benite premiado em Cádis
O encenador português Joaquim Benite, director do Festival de Almada e da Companhia de Teatro de Almada, foi distinguido no Festival Ibero-Americano de Teatro (FIT) de Cádis (Espanha), pelo seu contributo para a divulgação do teatro latino-americano. A distinção foi atribuída pelo CELCIT – Centro Latino-Americano de Criação e Investigação Teatral. Segundo o seu director, Luís Molina, o Festival de Almada é “um espaço aberto ao teatro latino-americano e do Mundo” e constitui “uma das realizações teatrais mais extraordinárias da Europa”. O FIT de Cádis, no âmbito do qual ocorreu a entrega do prémio, realizou-se entre 19 e 30 de Outubro de 2010, celebrando a sua 25.ª edição. Reuniu dezenas de grupos e artistas (teatro, teatro de rua, dança, música e novo circo) de Espanha, Portugal e da América do Sul.
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PORTUGAL Cinema lusófono em Coimbra
O Grupo de Investigação “Correntes Artísticas e Movimentos Intelectuais” do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra – CEIS20 – organizou em Novembro, no Teatro Académico de Gil Vicente, a IV Mostra de Cinema "Novos Cinemas nos Países Lusófonos (Anos 60-70)". Ruy Duarte de Carvalho (Angola), Glauber Rocha (Brasil), Margarida Cardoso (Moçambique) e Sílvia Vieira e Bruno Silva (Portugal) foram alguns dos realizadores com filmes no programa. Com uma forte predominância do documentário, a mostra "Novos Cinemas nos Países Lusófonos (Anos 60-70)" centrou-se na produção cinematográfica do Brasil, de Angola e de Moçambique nas décadas de 60 e 70. Começou com os filmes "Catembe", de Faria de Almeida (Moçambique, 1965) e "Arraial do Cabo", de Paulo César Saraceni e Mário Carneiro (Brasil, 1960) e incluiu mais 13 filmes. A 30 de Novembro, foram exibidos dois filmes de Ruy Duarte de Carvalho, recentemente falecido - "O Kimbanda Kambia" e "Ondyelwa, festa do boi sagrado", ambos de 1979. Os documentários foram apresentados por António Augusto Barros, presidente da Cena Lusófona, que qualificou o trabalho do antropólogo, escritor e realizador angolano como uma “obra polifónica e multifacetada”, chamando especial atenção para os “cuidados necessários à sua contextualização”. Estes filmes "não são o Ruy Duarte de Carvalho, mas sim um momento na vida de Ruy Duarte de Carvalho. Na vida de um angolano que ele decidiu ser”. Ruy Duarte de Carvalho era uma “figura multifacetada que estava a construir uma obra colossal, a qual conjugava ainda com a poesia. Era um homem que escrevia poesia, fazia cinema, dedicou-se à ficção aproximando-se do romance, da crónica, do documentário político, da descrição das experiências que viveu…”. Tendo convivido pessoalmente com Ruy Duarte de Carvalho, António Augusto Barros salientou ainda a sua veia mais humana:

PORTUGAL FITEI 2011 com recorde de candidaturas
A 34.ª edição do Festival Internacional de Expresão Ibérica (FITEI), que terá lugar na cidade do Porto, em 2011, recebeu cerca de 850 candidaturas, mais de 60% das quais oriundas de Espanha e do Brasil.
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Ana de Hollanda

A organização do FITEI 2011 afirma que se trata do maior número de candidaturas de sempre e especifica a origem das propostas: 279 de Espanha, 264 do Brasil, 146 de Portugal e 110 dos restantes países da América Latina, para além das inscrições de África e de outros países. O programa completo do Festival será apresentado em Abril de 2011. Entretanto, sob a coordenação das sociólogas Helena Santos e Sara Carvalho, da Universidade do Porto, o FITEI prepara a organização e a abertura ao público do seu Centro de Documentação, que reúne
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Aos 62 anos de idade, Ana de Hollanda atinge um novo patamar numa carreira em que tem conciliado o trabalho artístico com a administração pública no sector cultural: foi responsável pelo sector de música no Centro Cultural de São Paulo, Secretária de Cultura da Prefeitura de Osasco (SP) e directora do Centro de Música da Fundação Nacional de Artes (FUNARTE), entre 2003 e 2007. Em declarações ao jornal “Estado de São Paulo” (22 de Dezembro), Ana de Hollanda elogiou o trabalho feito pelos seus antecessores no cargo – Gilberto Gil e Juca Ferreira – e assumiu a dificuldade da tarefa: “É preciso atender às demandas da área cultural e da sociedade como um todo. O ministério está atuando no Brasil inteiro. Isso eu achei que foi um grande passo que já foi dado. O desafio é dar prosseguimento, dar um passo à frente”. Sem querer adiantar pormenores concretos sobre a forma como vai exercer o seu mandato, a nova ministra admitiu no entanto ao mesmo jornal: “a Funarte, que trabalha directamente com as artes, será uma prioridade”. Com formação académica na área da interpretação musical e teatral, Ana de Hollanda editou quatro discos, o último dos quais – “Só na canção” – em 2009, com 14 fai-

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Política cultural externa portuguesa:

Do discurso à prática
Rui Machete e António Luís Vicente reflectem, no livro "Língua e Cultura na Política Externa Portuguesa" recentemente publicado pela Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD), sobre o que (não) tem sido feito pelo Estado no domínio da promoção da língua portuguesa. A língua e a cultura portuguesa são um dos mais importantes recursos estratégicos de Portugal e a sua promoção no mundo pode traduzir-se em relevantes vantagens políticas, diplomáticas e económicas, mas o país tarda em assumi-la como eixo central da sua política externa. Rui Machete e António Luís Vicente denunciam o “escasso investimento público” feito nesta área e salientam a existência de "um fosso aprofundado entre o discurso público, onde estas questões são apresentadas em tons emotivos e assumidas como de vital importância, e a prática quotidiana". Os autores salientam o “considerável desconhecimento das autoridades públicas sobre os indicadores relativos ao ensino do português nas escolas e universidades estrangeiras" e a falta de avaliação das actividades desenvolvidas e/ou financiadas pelo próprio Estado, que conduzem a uma “considerável discricionaridade na acção”. “Muitas vezes, o que fica para a memória histórica das acções dos vários institutos, embaixadas e consulados é o mero elenco das acções empreendidas, o que em si mesmo é pouco mais do que um número”, assinalam. Na sequência do trabalho que a FLAD tem desenvolvido nos Estados Unidos da América (EUA) sobre o ensino do português no estrangeiro, o livro elenca três razões fundamentais para a intervenção do Estado: garantir a presença de Portugal no ensino do português no mundo não lusófono (em articulação com o Brasil, sem subserviência nem complexos de superioridade); garantir uma oferta de qualidade às comunidades portuguesas na diáspora e aos seus descendentes; para que o português possa competir com outras línguas (o castelhano, o inglês, o francês), cuja promoção é fortemente apoiada pelos respectivos Estados; para certificar a qualidade do ensino da língua. Machete e Vicente criticam a excessiva ênfase colocada pelo Instituto Camões na criação e manutenção de leitorados em universidades estrangeiras: “esgota grande parte dos recursos, já de si diminutos” e restringe o seu campo de acção às comunidades académicas. Pelo contrário, instituições “congéneres” como o Instituto Cervantes, a Alliance Française ou o British Council apostam há muito na criação de fortes centros de língua e cultura, com instalações próprias nos centros das principais cidades do mundo, relativa autonomia de gestão, capacidade de organizar iniciativas próprias e de gerar receitas. A criação destes centros, defendida no livro, pode ser feita gradualmente e deve ter em conta uma definição política de prioridades de que também se sente a falta em Portugal. Será necessário, afirmam, “proteger a língua portuguesa de uma tentação comum: a de apoiar, mesmo que de forma superficial, iniciativas em dezenas de países porque tal fornece a sensação de que o português está a crescer e a alastrar para os locais mais díspares e inesperados”. Nesse sentido, os autores sugerem a aposta nas grandes capitais mundiais, tendo naturalmente em conta a sua dimensão própria mas também o potencial efeito de irradiação do investimento realizado: Berlim, Londres, Madrid e Paris na União Europeia; Nova Iorque, Boston, Washington, Chicago e São Francisco nos EUA; São Paulo, Rio de Janeiro, Luanda e Maputo no espaço lusófono; Pequim, Hong-Kong, Xangai, Macau, Bombaim, Goa e Nova Deli nos países emergentes do continente asiático. Tendo em vista o necessário “upgrade da política cultural externa portuguesa” recomendam às instituições públicas nacionais: uma cuidada recolha estatística, a análise comparativa com o que os outros países fazem, a avaliação das políticas executadas, uma maior disciplina na escolha de prioridades geográficas, a utilização de recursos locais, uma maior articulação entre política da língua e política de comunidades e a convergência com outros países numa atitude “mais comercial” de promoção da língua (da qual a criação gradual de uma rede de “institutos de língua portuguesa, financeiramente sustentáveis” poderá ser um bom instrumento). Paralelamente, e falando em nome da FLAD (a cujo Conselho Executivo Rui Machete preside desde 1998), os autores reiteram a disponibilidade da Fundação para se assumir como parceiro do Estado nesta missão. Não obstante o facto de caber ao Estado “liderar o processo” e “reflectir sobre os pressupostos estratégicos da sua acção”, instituições da sociedade civil, “como a Fundação Luso-Americana e tantas outras interessadas nestes temas, podem, na medida das suas capacidades e competências específicas, contribuir por forma construtiva para o sucesso destas acções”. Pedro Rodrigues

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na estante
Últimas aquisições do Centro de Documentação e Informação da Cena Lusófona
100 Marés: Comemoração do centenário de Augusto Gomes Org. Câmara Municipal de Matosinhos. Matosinhos: Câmara Municipal, 2010. 3.ª Pessoa, Singular Jorge Lobato Monteiro. Lisboa: Escola Superior de Teatro e Cinema, 2010. 20.ªs Jornadas Culturais de Vila das Aves: Encontro de Cultura Coord. Centro Cultural de Vila das Aves. Santo Tirso: Câmara Municipal, D.L. 2008. A fanfarra e outros textos Karl Valentin. Lisboa: Artistas Unidos / Cotovia, 2010. A obra de arte na época da sua reprodução mecanizada Walter Benjamin. Lisboa: Escola Superior de Teatro, 2010. A orelha de Deus Jenny Schwartz. Lisboa: Artistas Unidos / Culturgest / Cotovia, 2009. A varanda Jean Genet. Lisboa: Artistas Unidos / Cotovia, 2010. As quatro gémeas / A noite da Dona Luciana / Uma visita inoportuna Copi. Lisboa: Artistas Unidos / Cotovia, 2010. Abrigos: condições das cidades e energia da cultura António Pinto Ribeiro. Lisboa: Cotovia, 2004. Aquilino Ribeiro Coord. António Manuel Ferreira e Paulo Neto. Aveiro: Universidade de Aveiro, 2009. Barcelona, mapa de sombras / Après moi, le déluge Lluïsa Cunillé. Lisboa: Artistas Unidos / Cotovia, 2010. Cão morto em tinturaria: os fortes Angélica Liddell. Lisboa: Artistas Unidos / Cotovia, 2010. Cultura e multiculturalidade João Maria Mendes. Lisboa: Escola Superior de Teatro e Cinema, 2010. Facialidades João Maria Mendes. Lisboa: Escola Superior de Teatro e Cinema, 2010. Hedda José Maria Vieira Mendes. Lisboa: Artistas Unidos / Cotovia, 2010. My Old Place Fotografia de João Leal e texto de António Alberto de Castro Fernandes. Santo Tirso: Câmara Municipal, 2008.

O Homem Elefante Bernard Pomerance. Lisboa: Teatro Nacional D. Maria II, 2010. O que é a dramaturgia? Joseph Danan. Évora: Ed. Licorne, 2010. O Segredo de Conceição Cândido Gonzalez Ferreira. Lisboa: Dinossauro, 2010. Os negros Jean Genet. Lisboa: Artistas Unidos / Cotovia, 2010. Retórica e Teatro: a palavra em acção Org. Belmiro Fernandes Pereira e Marta Várzeas. Porto: Universidade do Porto, 2010. Retratos de escritores da Comunidade de leitores Pintura de Emerenciano e texto de António Oliveira. Santo Tirso: Câmara Municipal, 2010. Sagrada família Jacinto Lucas Pires. Lisboa: Cotovia, 2010. Snapshots Carlos J. Pessoa. Lisboa: Teatro Nacional D. Maria II / Bicho do Mato, 2010. Tão só o fim do mundo / As regras da arte de bem viver na sociedade moderna / Estava em casa e esperava que a chuva viesse Jean-Luc Lagarce. Lisboa: Artistas Unidos, 2004. Teatro Circo: Tres textos Cilha Lourenço Módia. A Coruña: Deputación da Coruña, 2010. Teatro do mundo: linguagens barrocas do teatro europeu Centro de Estudos Teatrais da Universidade do Porto. Porto: CETUP, 2007. Teatro do mundo: o teatro na Universidade: Ensaio e projecto Faculdade de Letras da Universidade do Porto [ed. lit.]. Porto: FLUP, 2007. Teatro do mundo: teatro e justiça: afinidades electivas Centro de Estudos Teatrais da Universidade do Porto. Porto: CETUP, 2009. Teatro do mundo: What’s our life? A play of passion: lugares do Palco, espaços da cidade Centro de Estudos Teatrais da Universidade do Porto. Porto: CETUP, 2008. Um precipício no mar / Punk Rock Simon Stephens. Lisboa: Artistas Unidos / Cotovia, 2010. Vontade Maria Neves Lopes. Lisboa: Escola Superior de Teatro e Cinema, 2010.

Publicações periódicas:
Anais do Município de Faro Ed. Câmara Municipal de Faro, vol. XXXVI (2009-2010). Artistas Unidos Dir. Jorge Silva Melo, n.º 24 (Dez. 2009). Forma Breve: revista de literatura Coord. António Manuel Ferreira, n.º 7 (2009). TDR - The Drama Review: the journal of performance studies Ed. Richard Schechner, Vol. 54, n.º 3 (Fall 2010).

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ROSTOS DA CENA

Elias Macovela
Augusto Baptista

Para quem o ouve, parece que a vida de Elias Macovela é um corpo pré-programado, construído de passos inevitáveis. Como um destino. E no entanto, ouvindo bem, descobre-se que tudo enfim não passará de um encadeado de acções com final feliz, acasos abertos pelo culto do risco, na vertigem do fio da navalha. Com luz e teatro pelo meio.
Aquando da preparação da 1.ª Estação da Cena Lusófona no Maputo, em 1995, as duas pessoas responsáveis pela área de iluminação na Casa Velha, o Hélio Neves e o António Miguel, estavam na fase final das licenciaturas, não tinham tempo, acabei eu por ficar mais ligado ao João Carlos Marques, "Tarzan", e ao António Rebocho, técnicos de luz do CENDREV, ajudando-os na montagem da peça “De Volta da Guerra”, encenada pelo Fernando Mora Ramos. Além do espectáculo, ajudei na recuperação de todo o equipamento técnico da Casa Velha, sem deixar de ir à escola. A condição era essa. Tanto dos meus pais como do João. Depois da 1.ª Estação, o João regressou a Portugal, eu, miúdo de 17 anos, operador do espectáculo, um dia recebo um telefonema dele a propor-me um estágio de iluminação. Fui para Évora, fiz o estágio com o espectáculo “Os Homens”, com encenação de Luís Varela. Regressei com muitos sonhos, as coisas tinham corrido muito bem em Évora. No Maputo assumi a montagem de vários espectáculos teatrais, integrei um curso de iluminação e fotografia para cinema e dei o meu contributo, nestas áreas técnicas, nos filmes “Tempestade da Terra” e “Comédia Infantil”. Entretanto, numa vinda minha a Lisboa, conheci o Orlando Worm e, quando ele foi em 96 ao Maputo dar formação no âmbito da Cena Lusófona, apoiei-o nessa acção. Logo aí se ventilou a hipótese de eu poder vir a trabalhar na EXPO. Em 98, eu a entrar para a universidade, recebo um telefonema do Paulo Ramos, assistente do Orlando, a mandar-me avançar. Auscultei a família, ponderei, decidi-me pela vinda para Lisboa. No âmbito da EXPO, trabalhei no CCB-Centro Cultural de Belém, no Teatro Trindade e, mais tarde, fiquei a trabalhar no Teatro Camões, até finais de Dezembro de 1998. Em 99 resolvi voltar a Moçambique, fiz as luzes de “A Sapateira Prodigiosa”, co-produção Cena Lusófona e Casa Velha, encenação de José Mora Ramos. Este espectáculo teve uma digressão por Évora, Coimbra e por aí fora. E isso trouxe-me de novo a Portugal, ainda em 99. Aqui trabalhei no Coliseu dos Recreios até finais de Outubro, depois como freelancer e, no início do ano 2000, entrei como efectivo para o Teatro Nacional de São Carlos, depois para a Cornucópia. A passagem pela Cornucópia foi tão intensa que a dada altura senti que devia parar, reflectir, alargar os meus horizontes. Matriculei-me no curso de Estudos Africanos da Universidade de Lisboa e, em 2002, decidi romper. Tinha aprendido tanto em tão pouco tempo que senti necessidade de assimilar tudo aquilo, decidir o que queria fazer da minha vida. Sem trabalho, passei a dedicar-me mais aos estudos e também à coordenação de espectáculos em pequenos espaços de teatro experimental, não tanto como técnico, mais como “designer” de luz. É então que em 2003 sou convidado para fazer a coordenação técnica da IV Estação da Cena Lusófona, no quadro da Coimbra Capital Nacional da Cultura, e também para dar uma acção de formação na área da iluminação, em Bissau. Do ponto de vista humano, a ida à Guiné-Bissau foi um momento marcante na minha vida. Impressionou-me a garra dos guineenses. Em Bissau não havia electricidade, as pessoas não tinham a possibilidade de ler à noite, não tinham água canalizada. Havia uma greve dos professores que durava há mais de um ano. E entretanto começámos e terminámos com 20 formandos, pessoas que vinham de longe, a pé, para participarem na formação. Foi uma lição de vida. Na oficina dei ênfase ao plano estético, transmiti que, antes de existir electricidade, os teatros eram iluminados por tochas, velas. Procurei passar a noção de que a iluminação não tem de ser feita com projectores supermodernos, mesas de luz topo de gama. Há alternativas. Essa noção ficou expressa no manual técnico que lhes facultei e nas aulas, nos exercícios práticos. Em Coimbra trabalhei como lightdesigner em "O Horácio", fiz o desenho de luzes com Pierre Voltz, um grande professor, e o António Jorge. Desde então passei a integrar a Cena Lusófona, como associado, membro efectivo. Em 2004 volto a Lisboa, regresso ao Teatro S. Carlos e, em 2005, sou seleccionado para director técnico do Teatro Virgínia de Torres Novas. Monto a equipa técnica toda, faço a coordenação do arranque da companhia, ponho-a a funcionar na área de iluminação e, no Verão de 2006, decido correr novo risco.Após algum tempo no desemprego, volto ao Teatro Nacional de São Carlos. Paralelamente, em 2005, criei em Lisboa o Festival de Cinema Africano, que já vai na 3.ª edição, muito com base no apoio documental que encontrei no Centro de Documentação e Informação da Cena Lusófona. Entre 2006 e 2007 trabalhei no Teatro Nacional de São Carlos, de onde decidi sair por força da preparação da 3.ª edição do Festival de Cinema Africano e para lançar, em 2008, o meu primeiro projecto empresarial: a Pantheon Entertainments, SA, uma empresa de distribuição de cinema. Depois da Pantheon, decidi constituir sozinho a Malayka Cinemas, empresa de gestão de salas, que explora comercialmente o cinema Nun’Álvares, no Porto. Paralelamente, fiz uma pós-graduação em Gestão de Empresas, por achar que um empreendedor só pode competir pelo conhecimento, pela competência. E se de hoje para amanhã fosse obrigado a encerrar a minha actividade empresarial – e tal não espero – teria sempre qualquer coisa para fazer, um projecto. Regressar à luz, ao teatro.
entrevista de Augusto Baptista

Eu sempre fui de desafios, de me colocar na linha de risco para perceber até que ponto me consigo aguentar, não sou dado a situações de segurança. No teatro – seja no palco seja nas áreas técnicas – trabalhamos no limite. Actores e técnicos, em cada peça, sentimos um desafio novo. Temos de nos superar em cada ensaio, atingir o máximo em cada espectáculo. Nada do que fazemos é igual ao que fizemos. No teatro aprendi a viver neste risco. Nasci no Maputo em 9 de Julho de 1977, sou o quinto de uma família de seis irmãos. Até aos 12 anos vivi na Polana, bairro chique, numa vivenda grande. E tinha um cão. Os meus pais, funcionários públicos, sempre trabalharam, mas o pico da guerra civil foram tempos difíceis. Tivemos de vender a casa, fomos para um apartamento no Alto Maé, na fronteira entre a cidade e o subúrbio, um apartamento gradeado, como todos os apartamentos no Maputo. O meu cão teve de ir para casa de um amigo, morreu-me passados três meses, o Fusca. Deprimido. Eu não conseguia fazer amigos no novo bairro, ia para a varanda, metia a mão fora das grades para poder tocar o ramo de uma acácia. E isso fez com que me agarrasse ao meu irmão mais velho, que já tinha 20 anos e fazia parte da Associação Cultural da Casa Velha. Como eu gostava muito de ler, o meu irmão trazia-me livros da Casa Velha e, em breve, passei a frequentar a associação e a ver peças de teatro.Teria eu 14 anos, na peça “O Osso” uma vez faltou um dos figurantes que segurava o caixão em que ia o Mário Mabjaia, “morto”. Como eu conhecia a peça, as falas, substituí o faltoso. E comecei a participar nos espectáculos. Entrei em “Três pretendentes um marido”, em “O Jarro” de Pirandello, aí com 15, 16 anos. Também entrei em “sketches”. Mas não tinha talento no palco e passei a interessar-me pela iluminação.

ELIAS MACOVELA (Maputo, 1977) deu os primeiros passos da vida teatral na Associação Cultural da Casa Velha (Maputo). No âmbito da preparação da 1.ª Estação da Cena Lusófona em Moçambique (1995), inicia-se na área técnica da iluminação. Em Lisboa, sob orientação de Orlando Worm (EXPO’98), abraça profissionalmente a técnica de iluminação e o lightdesign, apoia projectos de teatro independente, colabora ou vem a integrar o quadro de várias companhias e teatros. No âmbito da Cena Lusófona: assina o desenho de luz em “A Sapateira Prodigiosa”, encenação de José Mora Ramos (1999) e assume a coordenação técnica da iluminação na IV Estação e coordena uma Oficina de Iluminação em Bissau (2003). Participa na realização de vários filmes, área de iluminação e fotografia, e, entre 2005 e 2007, organiza em Lisboa três edições do Festival de Cinema Africano. Funda a Pantheon Entertainments (2008) e a Malayka Cinemas (2009). A nível académico, concluiu o 12.º ano em Moçambique (1997); ingressou no Curso de Estudos Africanos, Univ. Lisboa (2001); concretizou pós-graduação em Gestão de Empresas, ISLA, Lisboa (2010).

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