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TRADUÇÃO DO TEXTO DE ABRIC Cap 2

A ORGANIZAÇÃO INTERNA DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS


SISTEMA CENTRAL E SISTEMA PERIFÉRICO
Jean Claude Abric

Introdução.

Recordemos, primeiro que tudo, as idéias essenciais de nossa teoria do


núcleo central, tal como nós a apresentamos na origem (Abric, 1976) e tal
como nós a colocamos atualmente após os seus últimos desenvolvimentos
(Abric 1993 & Flament 1993).
A idéia essencial desta teoria é que toda representação é organizada em
torno de um núcleo central. Este núcleo central é o elemento fundamental da
representação, porque é ele que determina, por sua vez, sua significação e sua
organização internas. Este núcleo central será um sub-conjunto da
representação composta de um ou de alguns elementos cuja ausência
desestruturaria a representação e lhe daria uma significação completamente
diferente. O que é importante nesta idéia de núcleo central, é sobretudo,
perece-nos, a idéia da determinação da significação.
Dito de outra forma, a centralidade de um elemento ( o fato de que um
elemento esteja no núcleo central da representação) não pode ser
exclusivamente transportado a uma dimensão quantitativa. Não é porque um
elemento é quantitativamente importante que se o prefere saliente na
representação que é central! O que importa é sua dimensão qualitativa, quer
dizer, o fato de que este elemento dá sentido ao conjunto da representação.
Pode-se ter, por exemplo, dois elementos da representação, que do
ponto de vista de sua importância quantitativa, são equivalentes. Portanto, um
destes elementos poderá estar no núcleo central e o outro não. Por que isto? A
nosso ver, porque um (aquele que pertence ao núcleo central) está em relação
direta com a significação da representação e o outro não.
O núcleo central das representações sociais se caracteriza por duas
funções e uma propriedade essenciais.
Suas duas funções são as seguintes: de um lado uma função geradora.
Como vimos, o núcleo central é o elemento pelo qual se criou ou se
transforma a significação de outros elementos constitutivos da representação.
O núcleo central é aquele pelo qual os elementos da representação tomam um
sentido ou uma valoração (valor). Por outro lado. uma função organizadora: é
o núcleo central que determina a natureza dos liames que unem entre eles os
elementos de uma representação. Deste ponto de vista, este núcleo central vai
ser o elemento unificador e estabilizador da representação. Aliás, ele se
caracteriza, igualmente, por uma propriedade essencial que é a estabilidade.
Dito de outra forma, o núcleo central é constituído pelos elementos mais
estáveis da representação. É esse conjunto de elementos que vai resistir mais à
mudanças.
Ver-se-á mais adiante, que esta hipótese vai determinar, em larga
medida, a maneira como se concebe a natureza da evolução e da
transformação de uma representação.
O núcleo central é, pois, caracterizado por uma função geradora, uma
função organizadora e uma propriedade de estabilidade. Em uma
representação pode-se observar, de um lado, um núcleo central e de outro
lado, o que nós chamaremos de elementos periféricos. Estes elementos
periféricos estão em relação direta com o núcleo central.
Sua ponderação, seu valor e suas funções são determinadas em grande
parte pelo núcleo central. Estes elementos periféricos desempenham um papel
essencial no funcionamento e dinâmica das representações. Em particular,
porque eles podem ser definidos conforme as idéias de C. Flament, como
esquemas.
Deste fato, eles podem desempenhar um papel importante, entre outros,
no funcionamento da representação face à realidade das práticas relativas ao
objeto. Com efeito, estes elementos, na medida em que são periféricos, são
menos estáveis e mais flexíveis que os elementos centrais. Deste fato, eles
autorizam modulações individualistas da representação. Dito de outra forma,
permitem a cada um se posicionar segundo as variações pessoais sem
entregar-se à significação central.
O primeiro interesse dos elementos periféricos é, pois, que eles vão
permitir uma certa apropriação mais individual da representação. Mas eles
apresentam um segundo interesse. Definidos como esquemas, eles vão ter um
papel importante, na medida em que podem ser considerados como
prescritores dos comportamentos colocados com respeito ao objeto.
De qualquer modo, eles constituem a parte operatória, operacional da
representação. Seu terceiro interesse é que eles vão intervir nos processos de
defesa ou de transformação da representação e, aí, desempenhar um papel
essencial. Com efeito, na medida em que uma representação é organizada em
torno de um núcleo central estável, uma de suas características é a resistência
à mudança.
Quando o indivíduo ou o grupo é confrontado com situações ou
informações que remetem à representação, os elementos periféricos
desempenham um papel preponderante na gestão desta remessa (reposição).
Notadamente, um dos processos de defesa e de manutenção da representação
face a informações contraditórias, vai consistir na transformação, não da
representação, mas dos elementos periféricos.
Em uma tal situação, a transformação dos elementos periféricos
apresenta uma dupla vantagem; por um lado, ela permite à significação central
de uma representação (ou se prefere: do núcleo central) de se manter; e de
outro lado, ela autoriza a integração de novas informações na representação
sem fazer aparecer abalos importantes na organização do campo. Os
elementos periféricos vão, assim, desempenhar um papel essencial na
economia cognitiva da representação.
Considera-se, na verdade, que uma representação não se transforma
realmente senão a partir do momento em que o núcleo central é, ele próprio,
transformado. O que significa que se pode, perfeitamente, observar
representações cujo conteúdo é muito diferente, cujos elementos periféricos
são muito diferentes, mas que, contudo, para nós constituem a mesma
representação.
Caso se queira compreender a natureza de uma representação e sua
difusão em uma população qualquer, torna-se então, indispensável, marcar
(sinalizar) o núcleo central. Uma transformação real da representação não se
produzirá, senão a partir do momento em que os elementos centrais, eles
próprios, aqueles que são fundamentais na significação geral dessa
representação, sejam transformados.
Esta transformação pode ser brutal ou pode-se observar então em (?) de
tal informação, de tal domínio prático, de tal acontecimento; um ataque direto
do núcleo central que tende a remeter a uma causa imediata. Trata-se de uma
situação de crise, mas pode-se também constatar, e esse é o modo dominante
da evolução das representações, uma transformação progressiva da
representação que se produz a partir da transformação inicial de certos
elementos periféricos. Em seguida, a modificação destes elementos periféricos
tornando-se cada vez mais acentuada e cada vez mais saliente. Assiste-se a
uma tomada em causa progressiva do núcleo central, que se traduz por uma
transformação, de certa maneira, contínua e sem ruptura com o passado deste
núcleo central.

SISTEMA CENTRAL E SISTEMA PERIFÉRICO: SUAS FUNÇÕES E SEU


PAPEL NA DINÂMICA DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS.

A problemática assim colocada tem gerado ao laboratório de Psicologia


Social d'AIX EN PROVENCE, uma série de trabalhos teóricos, empíricos e
experimentais (ef. J. C. Abric, 1993a) nos quais eu me esforço em destacar os
primeiros ensinamentos, tais como eu os vejo pessoalmente. Duas
características das representações sociais que poderiam aparecer como
contraditórias nos interessam e são a origem desses trabalhos.
Primeira característica:
As representações sociais são, ao mesmo tempo, estáveis e móveis,
rígidas e flexíveis.
Segunda característica:
As representações sociais são, ao mesmo tempo, consensuais, mas
também marcadas por fortes diferenças interindividuais.:
Essas contradições aparentes resultam, a nosso ver, das características
estruturais das representações sociais e de seu modo de funcionamento. A
organização interna das representações sociais e seus dois componentes; o
núcleo central e os elementos periféricos, funcionam melhor como uma
entidade onde cada parte tem um papel específico mais complementar que o
outro. Sua organização, como seu funcionamento é regido por um duplo
sistema.
O sistema central, constituído pelo núcleo central da representação,
apresenta, a nosso ver, as características seguintes: ele é diretamente ligado e
determinado pelas condições históricas, sociológicas e ideológicas. Ele é,
neste sentido, fortemente marcado pela memória coletiva do grupo e pelo
sistemas de normas ao qual ele se refere. Constitui, pois, a base comum,
coletivamente partilhada das representações sociais.
Sua funçào é consensual. É por ele que se realiza e se define a
homogeneidade de um grupo social. Ele é estável, coerente, resistente à
mudança, assegurando assim uma segunda maneira, aquela da continuidade e
da permanência da representação. Enfim, ele é de uma certa maneira,
relativamente independente do contexto social e material imediato, no qual a
representação é posta em evidência. O sistema central é pois, estável,
coerente, consensual e historicamente marcado.
O sistema periférico constitui o complemento indispensável do sistema
central do qual depende. Porque se o sistema central é, essencialmente,
normativo, o sistema periférico é funcional. Quer dizer que é graças a ele que
a representação pode fixar-se na realidade do momento. Sua primeira função
é, pois, a concretização do sistema central em termos de tomadas de posição
ou de condutas.
Contrariamente ao sistema central, ele é muito mais sensível e
determinado pelas características do contexto imediato. constitui o meio termo
entre a realidade concreta e o sistema central. É pois, muito mais macio, mais
flexível que os elementos centrais, assegurando assim, uma segunda função: a
de regulação e adaptação do sistema central aos incômodos e às características
da situação concreta à qual o grupo é confrontado. É um elemento essencial
nos mecanismos de defesa visando proteger a significação central da
representação. É o sistema periférico que vai, de início, absorver as
informações ou acontecimentos novos, susceptíveis de devolvê-los ao núcleo
central.
Como diz Flament (1987), esse sistema funciona como o parachoque de
uma viatura. A transformaçào de certos elementos periféricos permite assim,
ao menos durante um certo tempo, aos elementos centrais se manterem. Além
de que, e é essa a sua terceira função, o sistema periférico permite uma certa
modulação individual da representação. Sua flexibilidade e sua elasticidade
permitem a integração na representação, das variações individuais ligadas à
história própria do sujeito, às suas experiências pessoais, a seu (...?). Permite
assim, a elaboração de representações sociais individualizadas, organizadas
em tornode um núcleo central comum. Se elas são consensuais pelo seu
sistema central, as representações sociais podem admitir fortes diferenças
interindividuais no sistema periférico.
O sistema periférico é, pois, flexível, adaptativo e relativamente
heterogêneo quanto ao seu conteúdo. É porque ele é constituído desse duplo
sistema (um sistema estável, um sistema flexível) que a representaçào pode
responder a uma de suas funções essenciais: a adaptação sócio-cognitiva (ef
quadro 1).

QUADRO 1 - CARACTERÍSTICAS DO SISTEMA CENTRAL E DO


SISTEMA PERIFÉRICO DE UMA REPRESENTAÇÃO SOCIAL.

Sistema Central
* Ligado à memória coletiva e a história do grupo;
* Consensual:
Define a homogeneidade do grupo;
* Estável;
* Coerente;
* Rígido;
* Resiste à troca;
* Pouco sensível ao contexto imediato;
* Funções:
Gerar as significações da representação
Determinar sua organização.

Sistema Periférico
* Permite a integração das experiêcias e história individuais;
* Suporta a heterogeneidade do grupo;
* Flexível;
* Suporta as contradições;
* Evolutivo;
* Sensível ao contexto imediato;
* Funções:
Permite a adaptação à realidade concreta,
Permite a diferenciação do conteúdo,
Protege o sistema central.

RELAÇÃO ENTRE A ORGANIZAÇÃO DA REPRESENTAÇÃO E SEUS


PROCESSOS DE TRANSFORMAÇÃO.

Nós tentamos, recentemente (ef. Abric 1993), demonstrar como a


compreensão dos processos de evolução e de transformação das
representações podem ser esclarecidos por nossa concepção de sua
organização interna. A questão que nos preocupava e que é, talvez, uma
quatão central para o estudo das representações - concernente as relações entre
práticas sociais e representações, e talvez formulada nestes termos: o que se
passa quando os autores sociais são conduzidos a desenvolver práticas sociais
em contradição com seu sistema de representação? Para responder a esta
questão, Flament (1993) introduz uma noção que nos parece essencial: a da
reversibilidade da situação.
Os autores engajados numa situação e aí desenvolvendo certas práticas,
podem considerar - certo ou errado - pouco importa - que essa situação é
irreversível, quer dizer que todo retorno às práticas antigas é percebido como
possível, a situação atual não sendo, senão temporária e excepcional: Os
processos de transformação que vão então se engajar são de natureza
radicalmente diferente segundo que a situação é reversível ou não.
No caso em que a situação é reversível, as novas práticas contraditórias
vão, bem entendido, gerar modificações da representação. Os elementos novos
e discordantes vão ser integrados na representação, mas, exclusivamente, por
uma transformação do sistema periférico, o núcleo central da representação
permance estável e insensível a essas modificações. É pois aqui, em presença
de uma tranformação real, mas superficial da representação.
Ao contrário, nas situações percebidas como irreversíveis, as práticas
novas e contraditórias vão, bem entendido, ter conseqüências muito
importantes sobre a transformação da representação. Três tipos maiores de
transformações são então possíveis.
Transformação "resistente"
É o caso onde as práticas novas, contraditórias podem ainda ser geradas
pelo sistema periférico e pelos mecanismos clássicos de defesa: interpretação
e justificação "ad hoc", racionalizações, referência a estas normas externas à
representação etc. A representação não é pois caracterizada pela aparição, no
sistema periférico, de "esquemas estranhos"descobertos e definidos por
flament, e que são compostos da seguinte maneira:
# Chamamento normal;
# Designação do elemento estranho;
# A afirmação de uma contradição entre os dois termos;
# A proposição deuma racionalização permitindo sua (...?) a
contradição.
Estes esquemas estranhos permitem uma não remessa do núcleo central,
e pois, uma transformação da representação não consistindo que o sistema
periférico menos durante um certo tempo, porque a multiplicação dos sistemas
estranhos não podem senão, desabrochar a termo à transformação do núcleo
central, mas da representação em seu conjunto.
Tranformação Progressiva da representação
Ela é observada sob esta forma quando as práticas novas não são
totalmente contraditórias com o núcleo central da representação. A
transformação da representação vai, pois, efetuar-se sem ruptura, isto é, sem
explosão do núcleo central. Os esquemas ativados pelas práticas novas vão,
progressivamente, integrar-se àqueles do núcleo central e fundir-se com eles
para constituir um novo núcleo, em uma nova representação.
O exemplo mais conhecido desse tipo de transformação é aquele posto
em evidência por Guimelli (1988) em seu estudo sobre a evolução da
representação da caça.
Tranformação brutal
Pode-se enfim, observar este tipo de transformação quando as novas
práticas remetem diretamente à significação central da representaçào, sem
recursos possíveis aos mecanismos postos em obra no sistema periférico.
Desde então, a importância dessas novas práticas, sua permanência e seu
caráter irreversível ensaiam uma transformação direta e completa, do núcleo
central e pois, de toda a representação.
Estas análises rápidas do processo posto em prática nas transformações
das representações acentuadas, nos parece, a necessidade da tomada em conta
da organização interna da representação para compreender a dinâmica das
representações socias. O jogo da interação entre o sistema central e o sistema
periférico nos aparece como um elemento fundamental na atualização,
evolução e transformação das representações sociais.