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984 RESENHAS BOOK REVIEWS

SABER E SENTIR: UMA ETNOGRAFIA DA APREN- trabalhos centrados na análise das rupturas entre a
DIZAGEM DA BIOMEDICINA. Octavio Bonet. Rio configuração das sociedades modernas e a circunscri-
de Janeiro: Editora Fiocruz, 2004. 136 pp. ção de uma “pós-modernidade”; ao contrário, apresen-
ISBN: 85-7541-046-6 ta-nos o contrapeso da argumentação sobre as conti-
nuidades entre o mundo contemporâneo e algumas de
Uma análise antropológica da biomedicina nossas marcas históricas, heterogêneas e conflituosas.
Bonet leva a sério o método antropológico ao in-
O livro Saber e Sentir: Uma Etnografia da Aprendizagem vestigar o que as pessoas fazem, o que dizem que fa-
da Biomedicina é fruto de uma dissertação de mestra- zem e o que sentem quando fazem. Analisa represen-
do, defendida no Programa de Pós-graduação em An- tações, práticas concretas e dramas cotidianos para
tropologia Social do Museu Nacional da Universidade trazer à tona o caráter radicalmente central do que
Federal do Rio de Janeiro pelo argentino Octavio Bo- considera ser a tensão que enreda o mundo moderno,
net. Trata-se de etnografia sobre o processo de apren- independentemente de a desejarmos ou a rejeitarmos.
dizagem da biomedicina no hospital-escola de uma fa- Nesse sentido, o autor não atribui à biomedicina con-
culdade pública de medicina na Província de Buenos temporânea o papel de representante de uma “pós-
Aires, Argentina, e que traz contribuições importantes modernidade”, em geral qualificada como um momen-
para a reflexão sobre os aspectos culturais e históricos to histórico nefasto que esgarça os limites toleráveis
do campo científico, da biomedicina, do corpo e da para a vida, de algum modo ainda presentes no já ul-
pessoa nas sociedades ocidentais modernas. trapassado mundo moderno. Buscando as condições
O argumento central do livro é que há uma “ten- de emergência e desenvolvimento das sociedades mo-
são estruturante” entre duas visões de mundo, dois dernas – que têm na ciência o seu braço direito –, o au-
modos distintos pelos quais o indivíduo moderno tor encontra na chamada tensão estruturante a razão
opera no real – saber e sentir – e que perpassam o de ser da biomedicina atual, para além de nossos pos-
aprendizado e a prática da biomedicina. Buscando síveis anseios de retotalização dos dois modos de o ho-
estudar o processo de aprendizagem da biomedicina, mem se relacionar com o mundo: pela via do conheci-
o autor ressalta que o que está em jogo é uma divisão mento e pela via dos sentimentos e emoções.
“entre o que é preciso saber para fazer e o que se sente O autor apresenta essa argumentação em uma
quando se faz” (p. 16). Como bem indica o prefácio introdução, três capítulos e uma conclusão. Os capí-
do livro, o argumento do autor tem, no entanto, tulos tratam respectivamente da ciência e da medici-
maior amplitude, servindo para reacender o debate na, do hospital como locus da investigação etnográfi-
sobre o desenvolvimento das sociedades modernas. ca e do processo de construção do diagnóstico como
Sua proposição é a de que essas sociedades têm se momento de drama social. Por essas vias, o autor de-
constituído no embate entre um investimento uni- senha os fios analíticos condutores de sua pesquisa:
versalista, iluminista, claramente articulado aos em- o papel fundamental da ciência médica e da dualida-
preendimentos científicos, e uma disposição contrá- de mente-corpo na construção dos indivíduos e das
ria, que denuncia a perda dos fluxos e intensidades sociedades modernas. A construção social da ciência
da vida, a fragmentação das totalidades (sociais e in- e dos sujeitos é explicitada, então, em suas operações
dividuais) e a separação entre sujeito e objeto. contraditórias e paradoxais.
A construção dessa proposição analítica serve Nas considerações que tece, Bonet ressalta, ain-
também para considerações sobre as condições do da, conexões e duplicações entre as operações que
próprio trabalho de campo do autor e sobre a relação ocorrem no nível do público – relativas ao processo
entre sujeito e objeto em sua pesquisa, já postas em institucional de profissionalização do médico – e as
debate por antropólogos como Bronislaw Malinows- que ocorrem no nível do privado – referentes à pro-
ki, Clifford Geertz, Pierre Bourdieu e Loic Wacquant dução (sempre social) dos sujeitos. Investe, assim, no
e, no Brasil, Gilberto Velho e Roberto DaMatta. Nessa trabalho de superação da antiga dicotomia públi-
perspectiva, Bonet assinala que a diferença entre os co/privado, coletivo/individual, permitindo a de-
impasses vividos por antropólogos e médicos na rela- monstração empírica da articulação estreita entre os
ção com seus respectivos objetos é a de que os segun- mecanismos de produção dos lugares sociais do indi-
dos lidam diretamente com a vida e a morte e, nesse víduo (de sua classificação e qualificação) e dos pro-
caso, paradoxalmente, o sentir os perturba para sa- cessos aparentemente “interiores” de sua construção.
ber racionalmente sobre os fenômenos vitais. No primeiro capítulo – a ciência como objeto – o
O que cumpre destacar é que o autor não está autor parte de um mapeamento das linhagens teóri-
preocupado em dizer se a tensão estruturante entre o cas que vêm debatendo a produção do conhecimen-
conhecimento e as emoções é boa ou ruim, ou ainda se to científico. Em primeiro lugar, refere-se aos traba-
devemos construir algum projeto utópico, intelectual lhos sobre STS (Science, Technology and Society), en-
ou pragmático alternativo sobre o modo como as so- tre os quais inclui desde a sociologia de Robert K.
ciedades devem ser organizadas ou como devem viver Merton, o conceito de revolução científica de Thomas
seus integrantes. Sua perspectiva também difere da dos Kuhn e as análises críticas da ciência a partir dos

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anos 70, até os Social Studies of Knowledge, com seus tre as identidades contrastivas da biomedicina e das
“estudos de laboratório”. Em seguida, apresenta rese- medicinas “românticas” é ainda demonstrada por in-
nha sintética dos trabalhos propriamente antropoló- termédio do campo mais abrangente denominado de
gicos sobre o tema, observando-se que esses têm si- “medicina geral”. Esse campo, apesar de incorporado
do desenvolvidos pela antropologia médica norte- à biomedicina, não está centrado na especialização,
americana e pela antropologia francesa voltada para e, sim, na disposição de uma maior proximidade com
as representações sobre saúde e doença. Somam-se a o doente que busca um entendimento mais totali-
esse quadro as investigações sobre a biomedicina na zante da problemática do mesmo. A figura do médico
linha da sociologia do conhecimento e das profissões de família, própria do imaginário do século XIX, e os
(Talcott Parsons, Howard Becker, Erving Goffman). programas de saúde da família de vários sistemas de
Após mapear esse campo de discussões, no qual saúde são exemplos dessa perspectiva.
insere seu objeto, Bonet envereda sua análise por Após esse quadro teórico e analítico, somos leva-
dois caminhos: o da relação entre a produção da ciên- dos, no segundo capítulo, a observar o hospital como
cia médica e a configuração de valores constituintes o teatro onde se produzem concretamente os princí-
da sociedade moderna e o modo como essa mesma pios que sustentam a biomedicina. Inspirado em Fou-
ciência se autoclassifica (incluindo-se aí o sentido de cault, o autor afirma que a identidade institucional
biomedicina e, por contraste, de “outras” medicinas). concedida pela cultura ocidental moderna ao hospi-
Expõe, dessa forma, o desenvolvimento da medicina tal, como lugar de cura, está articulada ao fato de este
como uma disciplina científico-racional, marcada ser também lugar de registro, acúmulo e formação de
pelo afastamento do sensível, pela fragmentação dos saber. Mais ainda, que essa identidade é fruto da ação
domínios, pela universalização dos saberes e pela in- de diferentes atores sociais que, em posições distin-
teriorização dos sujeitos, utilizando como aporte os tas em face do saber médico, dão corpo e alma ao
trabalhos de Norbert Elias, Michel Foucault, Georges mundo do hospital. Utilizando os conceitos de ritual
Gusdorf, David Le Breton. Desse modo, demonstra e de drama social de Victor Turner, Bonet qualifica o
como, historicamente, consolidou-se o que tem sido hospital como o locus onde o que está em jogo são
denominado de cultura ocidental moderna: uma cul- “comportamentos estereotipados (...) que servem para
tura que, diferentemente de muitas outras, tem res- comunicar informação acerca dos valores culturais
pondido à questão da relação natureza e cultura por mais apreciados (...) o ritual essencialmente como
intermédio de uma separação entre as ordens mate- uma colocação em ato, e não primariamente como re-
rial e espiritual e pela ênfase na ordem biológica, que gras ou rubricas” (p. 47).
se sobrepõe à dimensão social envolvida em todo em- Por essas vias, o autor descreve o hospital-escola,
preendimento humano. Decorre daí uma concepção a situação dos médicos argentinos nos hospitais pú-
de doença naturalizante e objetivante já demonstra- blicos, o sistema de residências médicas e o cotidia-
da, por exemplo, pelos trabalhos de Robert Hahn e, no da residência. Apresenta as diferentes atividades
no Brasil, por Kenneth Camargo Jr. Para Bonet, essa que compõem o aprendizado no hospital – como as
noção de doença terá uma importância marcante no “passagens de sala” – e a hierarquia de posições dos
aprendizado da prática médica. atores sociais que tomam parte desse processo: os
Esse processo de articulação entre a cultura oci- grupos de médicos especialistas de cada serviço (mé-
dental moderna e a constituição da biomedicina, en- dicos de plantel), os chefes dos serviços, os chefes de
tretanto, não é considerado linear e inequívoco. O que residentes, o instrutor, os alunos do primeiro e do se-
o autor demonstra é que a biomedicina vem se cons- gundo ano da residência e a situação de médicos
tituindo por contraste às críticas formuladas fora e “concorrentes” e “visitantes”. A partir de diferenças de
dentro do campo médico. As críticas externas advêm vínculo trabalhista, de responsabilidades, de tempo
da área das ciências humanas (como a antropologia), de trabalho no hospital e de maior experiência com o
enquanto as críticas internas são produzidas por “ou- saber e a prática médica, configura-se um sistema de
tras” medicinas, denominadas pelo autor de “român- aprendizado em cascata – com os detentores de um
ticas”, e que têm coexistido, historicamente, de modo conhecimento intermediário ensinando aos neófitos
subordinado ao paradigma biomédico. Trata-se de e aprendendo com os especialistas e chefes –, que co-
um conjunto de perspectivas médicas que têm defen- loca em jogo a experimentação do “saber” e do “sen-
dido a necessidade de uma visão totalizante da pes- tir” suscitada pelas ações médicas. Isso quer dizer que,
soa, preocupadas com os aspectos físicos-morais en- no cotidiano da prática médica, todos os atores se en-
volvidos nos processos de adoecimento e de restabe- redam, mais ou menos, nessa tensão estruturante en-
lecimento do bem-estar. Formam esse conjunto as tre aplicar o conhecimento teórico até então apreen-
abordagens coletivistas que visam integrar o indiví- dido e emocionar-se, envolver-se com os pacientes,
duo à sociedade (o sanitarismo, o higienismo), mas seja como aprendizes, seja como feiticeiros que do-
também as abordagens que tomam para si a tarefa de minam melhor a magia do “afastamento do sensível”.
retotalizar indivíduo e natureza, como os florais de No terceiro capítulo – o diagnóstico como drama –,
Bach, a homeopatia, a acupuntura. A correlação en- Bonet duplica as observações etnográficas, expostas

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anteriormente, para a escala dos “casos”, isto é, a or- tância da opinião dos leigos acerca dos procedimen-
dem da interação entre os atores sociais, numa certa tos que lhes dizem respeito.
conjuntura, em face de um sintoma ou doença espe- No entanto, registra-se, já solidamente estrutura-
cífica. Trata-se exatamente do processo de constru- do entre os pesquisadores, um consenso acerca da im-
ção da noção de doença no momento anterior a seu portância dos estudos sócio-antropológicos para a
reconhecimento pleno pelos cânones da biomedici- Medicina e para a Saúde Pública. Essa importância es-
na, quando a doença está sendo exatamente obser- tá, dentre outros fatores, relacionada aos estudos que
vada, comunicada, qualificada por um diagnóstico articulam representações sociais e processos de saú-
que será, ou não, legitimado pelo conjunto diverso de de/doença/atenção, notadamente pesquisas qualitati-
atores. O autor descreve, então, três situações em que vas com os profissionais e usuários dos serviços de
o diagnóstico é o símbolo dominante a ser construí- saúde, a fm de compreender aquilo que sustenta e di-
do, ou seja, a síntese possível entre a experiência vivi- reciona suas intervenções e suas práticas. De modo
da (dos médicos e dos doentes) e o saber biomédico geral, esses estudos são precedidos por uma discussão
adquirido pelo habitus profissional, mediante dife- dos paradigmas da medicina tradicional em contraste
rentes instrumentos: os exames laboratoriais, as hi- com outras posições fundadas em práticas alternati-
póteses diagnósticas, os algoritmos e os protocolos. vas, incluindo aquelas oriundas de crenças religiosas.
O presente livro cruza, assim, contribuições para O livro de Marcos S. Queiroz situa-se nessa linha
a história da medicina e para os campos da antropo- interpretativa. Inicialmente o leitor encontra uma
logia da saúde e da saúde pública. Interessa àqueles discussão acerca do conceito de representação social
que têm se debruçado sobre o papel das ciências e da do ponto de vista multidisciplinar em pesquisa quali-
medicina nas sociedades ocidentais modernas, o pro- tativa, oferecendo à apreciação uma visão panorâmi-
cesso de profissionalização do médico e as vicissitu- ca do desenvolvimento do conceito, destacando sua
des cotidianas das ações biomédicas. Por último, es- potencialidade no interior das Ciências Sociais.
timula a curiosidade – a ser saciada por futuras pes- A seguir, o autor elabora uma referência crítica à
quisas – sobre semelhanças e diferenças entre as es- medicina ancorada no positivismo, que, ao formar uma
pecificidades culturais do processo de aprendizagem forte corporação profissional, “lutou e venceu as medi-
da biomedicina na Argentina e no Brasil. cinas concorrentes” (p. 50). Na atualidade, em razão do
que se convencionou designar como a crise dos para-
Ana Teresa A. Venancio digmas da ciência, o entendimento dos processos saú-
Casa de Oswaldo Cruz, Fundação Oswaldo Cruz,
de/doença/atenção não deve ficar aprisionado a um
Rio de Janeiro, Brasil.
anavenancio@coc.fiocruz.br contexto que desconsidere a relevância dos fatores só-
cio-culturais e psicológicos. É a (re)entrada da subjeti-
vidade em cena. Sem desconsiderar a importância da
prática médica, agora ela passa a ser vista também con-
SAÚDE E DOENÇA: UM ENFOQUE ANTROPO- siderando-se as contribuições e interpretações socioló-
LÓGICO. Marco S. Queiroz. Bauru: EDUSC, 2003. gicas e antropológicas sobre a doença/saúde/atenção.
230 pp. (Coleção Saúde e Sociedade). Corroborando essa contribuição, o autor apre-
ISBN: 85-7460-169-1 senta os resultados de uma pesquisa empírica, com o
objetivo de clarificar o sentido do termo “alternativo”
O reconhecimento da importância dos estudos sócio- em saúde e doença. O estudo foi realizado na cidade
antropológicos relacionados aos processos saúde/ de Campinas, em São Paulo, no período de maio de
doença/atenção pode ser confirmado pelo número 1997 a abril de 1998. Segundo o autor, naquele mo-
de estudiosos que se dedicam a essa tarefa, assim co- mento, o município vivenciava um quadro de insta-
mo pelo incentivo dado pelas instituições de ensino e bilidade no setor saúde, ocasionado pelo processo de
de fomento à pesquisa. Entretanto, sabe-se que, na implantação da municipalização dos serviços. Essa
prática, alterações decorrentes das mudanças con- instabilidade, ao provocar alterações nas representa-
ceituais nem sempre são facilmente aceitas pelos pro- ções dos profissionais, possibilitou favoravelmente a
fissionais de saúde e nem pelos gestores. Essa situa- realização do processo investigativo em torno da ava-
ção pode ser compreendida levando-se em conta que liação de outras alternativas de trabalho implantadas
novas concepções acerca dos processos saúde/doen- na área da saúde. Para tanto, utiliza-se de métodos
ça/atenção trazem, como conseqüência, a introdu- oriundos da tradição etnográfica e fenomenológica,
ção de mudanças significativas nas relações estabele- com as técnicas de observação participante e entre-
cidas entre profissionais de saúde de diferentes cate- vista semi-estruturada. Ao adotar uma perspectiva
gorias e usuários dos serviços, além das repercussões metodológica qualitativa, o conceito de representa-
no encaminhamento das práticas profissionais. As ções sociais emerge como instrumento fundamental
modificações resultam, ainda, em alterações na cor- à compreensão da realidade estudada.
relação de forças no interior das instituições, que po- O autor valoriza a investigação em torno de expe-
dem afetar a hegemonia médica historicamente riências práticas, demonstrando que a insistência na
constituída. Por outro lado, os programas de qualifi- utilização do paradigma mecanicista tem sua parcela
cação profissional e os de educação permanente, pa- de responsabilidade nos problemas enfrentados pelo
trocinados pelas instituições dedicadas à execução setor da saúde. Nesses termos, enfatiza que a expe-
das atividades em saúde, são ainda insuficientes para riência da saúde e da doença exige a consideração
dar conta desta demanda, ou seja, qualificar os pro- das questões subjetivas – microssubjetivas, segundo
fissionais de saúde, de todas as categorias, para a sua própria expressão –, ressaltando a inovação desta
compreensão de uma concepção de saúde/doença/ posição em termos da Sociologia da Saúde no Brasil.
atenção que leve em consideração o valor da cultura, Um dos méritos do livro é sua contribuição para
do meio social, das práticas alternativas, e a impor- superar o hiato entre as novas perspectivas teóricas e

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