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Art. 1.699.

Se, fixados os alimentos, sobrevier mudança na situação


financeira de quem os
supre, ou na de quem os recebe, poderá o interessado reclamar ao juiz,
conforme as circunstâncias,
exoneração, redução ou majoração do encargo.
Histórico
• O presente dispositivo não foi alterado no Senado Federal. Na Câmara dos
Deputados, no período
final de tramitação do projeto, foi substituída a expressão “situação
patrimonial” por “situação
financeira”, e o termo “agravação” por “majoração”.
Doutrina
• O Código Civil anterior, no art. 401, já continha essa regra, pacificada em
nosso direito.
• A sentença que fixa os alimentos pode ser revista a qualquer tempo
diante da ocorrência de
circunstâncias supervenientes, que acarretem mudança nas necessidades
do alimentário e nas
possibilidades do alimentante, podendo implicar exoneração, redução ou
majoração da obrigação.
• Como refere o dispositivo, a alteração das circunstâncias deve alcançar a
situação financeira dos
envolvidos para justificar a revisão da pensão. Isso porque nem sempre a
modificação na situação
patrimonial reflete alteração nas condições financeiras.

ATRASO DE PENSÃO LEVA


POR MÊS 15 PAIS À CADEIA

ESC RI TO PO R DÉ BO RA DI AS - JO RN AL O P OVO
LO CA LI ZA DO EM NO TÍ CIA S - PE NSÃ O ALIM EN TÍC IA

Cinco pessoas dividiam na manhã de ontem uma cela da Delegacia de Capturas e Polinter
(Centro) pelo mesmo motivo: não pagamento de pensão alimentícia. Em um dos colchonetes,
descontraído e bem-humorado estava o jogador do Ituano (SP), Francisco Clodoaldo Chagas
Ferreira, ex-atacante do Fortaleza. Ele foi preso no último sábado após uma partida do time
contra o Ceará no estádio Presidente Vargas a pedido da 2ª Vara Cível de Ipu (Região da
Ibiapaba). O atacante deve cerca de R$ 3.840,00 referentes à pensão de uma filha de 6 anos
que mora com a mãe no município de Ipu.

O caso de Clodoaldo faz parte de uma estatística relevante. Por mês, cerca de 15 pessoas são
detidas por não pagamento de pensão em Fortaleza. Segundo o titular da Delegacia de
Capturas, Audísio Ferreira, 107 pais foram presos de janeiro a setembro deste ano. ''Alguns
dias temos até 20 pessoas na cela. Da área cível, 99% das prisões são por essa causa'',
comenta Audísio.
Engenheiros, médicos, advogados, pedreiros e vigilantes. Os valores e as profissões dos
devedores são as mais diversas. Audísio conta que já chegou a prender pessoas com dívidas
de pensão superior a R$ 20 mil, enquanto outros deviam valores menores que um salário
mínimo.

''Todos dizem a mesma coisa, que já pagaram'', comenta. O delegado cita que alguns são
presos diversas vezes no mesmo ano porque se negam a pagar a pensão. De acordo com ele,
o perfil da maioria dos detentos é de homens, de baixa renda, sem antecedentes criminais. A
maior parte dos valores é de um percentual do salário mínimo.

Como o desempregado Paulo Sérgio Andrade, que estava na mesma cela com Clodoaldo
ontem. Ele deve seis meses de pensão para os dois filhos, de 6 e 3 anos, o valor de R$ 100,00
mensal. ''Quando fui para fora da empresa fiquei dando o que podia. Aqui dentro é que não
tenho condição de resolver nada'', reclamou.

O delegado confessa que, em alguns casos, é difícil até para ele cumprir a decisão da Justiça.
''Pior quando vem voz de prisão para o avô. Tive que prender um ex-professor meu, senhor
idoso de 80 anos, por causa da pensão alimentícia do neto. É ruim por ele não ser o devedor,
mas a lei permite isso'', cita Audísio.
Todos os detentos que estavam ontem na Capturas alegaram que a prisão foi uma surpresa e
que não haviam sido notificados antes de serem levados para a delegacia. ''Para prender eles
são rápidos, mas para analisar os casos é uma lentidão'', criticou o pedreiro Francisco Rogério
da Silva, 42. A partir de três meses de não pagamento da pensão, o juiz pode decretar de 30 a
60 dias de reclusão ao devedor. A lei admite que se as três últimas prestações forem pagas, o
devedor pode ser libertado.

O juiz da 3ª Vara de Família, Edmar Arruda, contestou as reclamações dos presos. Ele afirma
que, durante a execução do processo, o réu é citado e tem até três dias para se apresentar à
Justiça. A partir daí, ele teria três caminhos. Se já tiver pago a pensão, deve apresentar os
recibos ao juiz. Do contrário, pode explicar porque não fez o pagamento ou alegar que não
pode pagar o valor exigido.

O juiz afirma que a prisão só é aplicada quando outros caminhos não foram aceitos pelo
devedor. ''Juiz não deseja a prisão de ninguém. Procuramos sempre fazer acordo, conciliação.
Prisão seria em última análise. É um meio coercitivo de fazer com que ele pague'', esclarece
Arruda.

PENA PODE SER DE 30 A 90 DIAS DE RECLUSÃO

De acordo com a lei, o não pagamento de pensão alimentícia é considerada infração civil e não
criminal, inafiançável e prevê pena de 30 a 90 dias de reclusão. O dever de fornecer alimentos
não é estabelecido apenas de pais para filhos nem traz vinculação com a idade do favorecido.
A obrigação pode existir entre homem e mulher casados, divorciados e até em casos de
parentesco até segundo grau, como entre irmãos e avós e netos.
De acordo com o artigo 1694 do Código Civil, os alimentos devem ser fixados na proporção da
necessidade do reclamante e dos recursos da pessoa abrigada. Segundo ele, quando não há
prova de que a pessoa trabalha, o juiz arbitra valor mínimo e espera que a parte venha se
defender. ''A partir do momento que o pai recebe a citação da ação de alimentos com
determinação dos valores provisórios, já fica obrigado a pagar'', reforça.

A partir do terceiro mês de atraso, a parte credora pode ingressar com execução de alimentos.
A Justiça notifica o devedor e ele tem três dias para efetuar o pagamento da dívida, provar que
já havia feito o pagamento ou provar que não tem como pagar. Após os três dias, o juiz pode
decretar pagamento de um a dois meses. ''A prisão só se dá pelo atraso dos últimos três
meses. Se a pessoa deve 20 meses, a outra parte entra com uma ação pelos últimos três
meses e os 17 meses restantes são de execução simples'', esclarece o advogado.

Arimá orienta que após a prisão, o devedor pode pedir habeas corpus ou entrar com agravo de
instrumento no Tribunal de Justiça, dependendo do caso. Se a prisão for cumprida, o devedor
só pode ser preso novamente se atrasar mais seis meses. A cada três meses comporta uma
nova execução judicial.

Para o advogado Arimá Rocha, a prisão ao devedor de pensão alimentícia é um retrocesso na


legislação. Ele defende a liberdade como bem maior, que não pode ser trocada por dívidas
materiais. ''A prisão por qualquer dívida é uma coisa esdrúxula. Não se pode colocar a
liberdade como garantia de uma dívida patrimonial'', argumenta.

Ele defende que há outros caminhos mais eficazes de se cobrar o pagamento da pensão, como
atingir o patrimônio do devedor ou restringir direitos. ''Se não pagar com o patrimônio, aí a
sanção não seria a liberdade. Temos penas alternativas, prestação de serviço à comunidade'',
aponta. Para Arimá, a legislação só deveria cercear a liberdade nos casos em que ponham em
risco a sociedade, como em crimes violentos. (DD)

VÁRIOS DIAS SEM TRABALHAR

O jogador de futebol Clodoaldo Ferreira contava as horas para ser libertado na manhã de
ontem. Mas só deve ser solto hoje da Delegacia de Capturas e Polinter, onde está detido desde
sábado pelo não pagamento de pensão alimentícia. O promotor do caso, Kennedy Carvalho
Bezerra, deve encaminhar o pedido de liberação do atleta ao juiz da comarca de Ipu, Airton
Matos Cruz, depois que documentos que comprovam o pagamento da pensão foram anexados
ao processo.

Esperando que ia ser libertado ontem, ele tinha planos de fazer um churrasco com os amigos
até a hora do embarque para São Paulo na mesma noite. Apesar de não permitir ser
fotografado, ele se mostrou tranqüilo e bem-humorado durante a conversa. ''Falem bem ou
falem mal, mas falem de mim'', provocou.
Na cela, o clima com os outros quatro detentos era de brincadeira. ''Se fizer um gol contra o
Fortaleza, entrego para ele todo o dinheiro da pensão (que estava levantando para poder sair
da delegacia)', brincou um dos presos, torcedor do Ceará.

Clodoaldo criticou a forma como foi feita a prisão, dentro do estádio Presidente Vargas após a
partida do Ituano contra o Ceará. ''Fui pegue de surpresa. Penso que foi coisa armada. Desde
sexta-feira Fortaleza inteira sabia que eu estava no hotel. Mas deixaram para me prender no
estádio. Algumas pessoas quiseram aproveitar alguns minutos, algumas horas de fama'',
disparou. Questionado se ele estava se referindo ao delegado Audísio Ferreira ou aos policiais,
Clodoaldo disse que não queria dar nomes.

O atacante garantiu que já havia feito acordo com a mãe da criança, mas que o acerto não
havia sido formalizado judicialmente. Por isso, não deveria ter sido preso. Ele paga R$ 400,00
de pensão para a criança.

Essa não é a primeira vez que o atacante passa por problemas do tipo. Em março deste ano,
quando Clodoaldo ainda jogava pelo Fortaleza, a Justiça decretou a prisão dele pelo não
pagamento de sete meses de pensão alimentícia. A prisão foi evitada porque o presidente do
Fortaleza, Clayton Veras, pagou a dívida em torno de R$ 2 mil.

Ontem o empresário do jogador, Magno Morais, viajou até Ipu acompanhado do advogado,
Galba Viana. O objetivo da viagem, segundo Galba, foi anexar os recibos de duas parcelas da
pensão alimentícia, nos valores de R$ 1.440,00 e R$ 1.900,00, respectivamente.

''Estas parcelas fazem parte do acordo que foi feito com a mãe da criança. A última foi paga na
quinta-feira passada. Clodoaldo não deve mais nada. Houve uma sucessão de equívocos'',
disse Magno. Ele acrescentou que se o jogador for solto na manhã de hoje, ele viaja às 14
horas para São Paulo, onde se representa ao Ituano. (DD)

Na mesma cela estava o pedreiro Francisco Rogério, que alega que a prisão era um erro do
Judiciário. Francisco diz que havia feito acordo informal com a mãe dos três filhos dele. ''Eu
entregava a casa e ela abria mão da pensão'', afirmou. Ele ressaltou que estava perdendo dias
de trabalho, prejuízo para as crianças.

Há sete dias, o vigilante Sebastião Patrício também está na mesma delegacia. ''Vinha dando
pensão em mercadoria. Dava como eu podia. Pensei que estava tudo legal, quando fui
surpreendido'', conta. Separado há três anos, ele recebeu voz de prisão em casa. ''Não sei nem
quanto é o valor da pensão que tenho que pagar. É difícil a gente agir depois que se está aqui'',
reforça. (DD)

Jornal o Povo (28/09/2004)

Cemir Diniz Campêlo


"Guarda Compartilhada - Um direito dos Filhos. Uma conquista dos Pais" "Pais e Filhos não
querem visitas, querem convivência - Guarda Compartilhada"
Modelo de Execução de Alimentos pelo artigo
733 do CPC
Texto enviado ao JurisWay em 1/12/2009.

Indique aos amigos

EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DA VARA DE FAMÍLIA DA COMARCA


DE POÇOS DE CALDAS – ESTADO DE MINAS GERAIS

FULANO DE TAL DA SILVA, brasileiro, menos impúbere,


nascido em 08 de agosto de 1999 (doc. 03), representado por sua genitora FULANA
DE TAL, brasileira, divorciada, portadora da cédula de identidade, R.G. nº M-
X.XXX.XXX SSP/MG, inscrita no C.P.F./M.F. sob o nº XXX.XXX.XXX-XX (doc. 04),
ambos residentes e domiciliados na Rua Fim do Morro, nº 228, apartamento 12, Bairro
Começo do Morro, no município de Poços de Caldas – MG, vem à presença de vossa
excelência, por seu advogado que esta subscreve (doc. 01), respeitosamente propor

EXECUÇÃO DE ALIMENTOS

em face de CICRANO DA SILVA, brasileiro, divorciado, residente e domiciliado na


Rua Vila dos Smurfs, nº 97, Centro, Azul Fofinho – BA, com fulcro no artigo 733 do
Código de Processo Civil, observando-se os motivos de fato e de direito abaixo
aduzidos.

1) DOS FATOS:

1.1) Na data de 30 (trinta) de janeiro de 2005, foi realizada


audiência de conciliação em ação de DIVÓRCIO LITIGIOSO, nos autos do processo
nº 0518 XX XXXXXX-X, na qual se acordou que o Executado pagaria ao Exeqüente, a
título de prestação alimentícia, o equivalente a um salário mínimo, a ser depositado na
conta de Fulana de Tal todo dia 10 de cada mês. O acordo foi homologado em 10
(dez) de fevereiro de 2005, conforme sentença de fls. 26/27.

Ocorre, no entanto, que o Executado não cumpriu com sua


obrigação, estando inadimplente quanto às parcelas referentes aos últimos 3 (três)
meses, cujos valores encontram-se demonstrados e atualizados, inclusive com a
incidência de juros moratórios, até a presente data, na tabela a seguir e em
documento anexo (doc. 05):

Valor da prestação Valor Final


Junho/2009 R$ 465,00 R$ 482,07
Julho/2009 R$ 465,00 R$ 475,40
Agosto/2009 R$ 465,00 R$ 465,00
TOTAL R$ 1.422,47

1.2) A genitora do Exeqüente buscou, amigavelmente, receber


a quantia devida pelo Executado. Todavia, não obteve êxito, recorrendo às vias
judiciais para tanto.

2) DO DIREITO

A jurisprudência e a doutrina fixaram posicionamento no


sentido de que as prestações alimentícias devidas há mais de três meses são
pretéritas, devendo ser executadas segundo os preceitos do artigo 732 do Código de
Processo Civil.

Por outro lado, as parcelas que equivalerem aos três meses


imediatamente anteriores à propositura da demanda cabem ser executadas com
fundamento no artigo 733 do mesmo texto legal.

Número do processo: 1.0433.03.100440-4/001(1)


Relator: CARREIRA MACHADO
Relator do Acordão: CARREIRA MACHADO
Data do Julgamento: 02/06/2005
Data da Publicação: 21/06/2005
Inteiro Teor:
DIREITO DE FAMÍLIA - ALIMENTOS - EXECUÇÃO -
PARCELAS PRETÉRITAS - RITO DO ART. 732 DO CPC -
CONVERSÃO - PARCELAS RECENTES - RITO DO ART.
733 DO CPC - POSSIBILIDADE. - A execução de alimentos,
nos termos do art. 733 do Código de Processo Civil, é cabível em
relação às parcelas recentes. São consideradas parcelas pretéritas,
que devem ser executadas pelo rito ordinário, nos moldes do art.
732 do CPC, aquelas vencidas anteriormente aos três meses
precedentes à propositura da execução. - Parcelas recentes, para
efeitos da execução na forma do art. 733 do CPC, são aquelas
vencidas nos três meses imediatamente precedentes à data da
propositura da execução, acrescidas daquelas que vencerem ao
longo do processo executivo, devendo o executado, portanto, para
elidir a prisão civil, satisfazer o pagamento integral das
prestações recentes, que possuem caráter alimentar. APELAÇÃO
CÍVEL Nº 1.0433.03.100440-4/001 - COMARCA DE MONTES
CLAROS - APELANTE(S): LUCAS MESSIAS ALMEIDA
PEREIRA, REPRESENTADO(A)(S) P/MÃE MARIA BELKIS
ALMEIDA - APELADO(A)(S): VALDEMIR SOARES
PEREIRA - RELATOR: EXMO. SR. DES. CARREIRA
MACHADO (grifo nosso)

Número do processo: 1.0024.99.148085-6/001(1)


Relator: ALMEIDA MELO
Relator do Acordão: ALMEIDA MELO
Data do Julgamento: 24/11/2005
Data da Publicação: 17/12/2005
Inteiro Teor:
Alimentos. Inadimplemento. Prisão civil. As prestações
alimentícias consideradas recentes, para os efeitos da execução
prevista no art. 733 do Código de Processo Civil, são as vencidas
nos três meses anteriores à propositura da execução, devendo o
executado, para afastar o decreto de sua prisão civil, realizar o
pagamento daquelas parcelas pretéritas e das que se vencerem no
curso da execução. Dá-se provimento ao recurso. AGRAVO N°
1.0024.99.148085-6/001 - COMARCA DE BELO HORIZONTE
- AGRAVANTE(S): GABRIELA MACHADO COELHO
GRANDI REPRESENTADO(A)(S) P/ MÃE MARIA LETICIA
GUERRA MACHADO COELHO - AGRAVADO(A)(S):
ELCIO JOSÉ GRANDI JUNIOR - RELATOR: EXMO. SR.
DES. ALMEIDA MELO

3) DO PEDIDO

Ante o exposto, requer:

3.1) A citação do Executado para que, em 3 (três) dias, pague a


quantia de R$ 1.422,47 (mil quatrocentos e vinte e dois reais e quarenta e sete centavos),
devidamente atualizadas, de acordo com a correção monetária e os juros moratórios, até a data
do efetivo pagamento; ou para que prove que o fez ou justifique a impossibilidade de fazê-lo,
sob pena de prisão, nos termos do art. 733, §1º, do Código de Processo Civil;

3.2) A concessão do benefício da Justiça Gratuita, pelo fato de o


Exeqüente ser pessoa pobre no sentido jurídico do termo (doc. 2);

3.3) A ouvida do Ministério Público pela presente demanda envolver


interesses de menor;

Requer seja a presente demanda julgada totalmente procedente.

Por fim, requer provar o alegado por meio de todas as provas em


direito admitidos, especialmente, prova documentas, testemunhal e depoimento das partes.

Dá-se à causa o valor de R$ R$ 1.422,47 (mil quatrocentos e vinte e


dois reais e quarenta e sete centavos).

Nestes termos,
Pede e espera deferimento.

Poços de Caldas, 27 de agosto de 2009.


_____________________
(Advogado)
OAB/MG XXX.XXX

A prisão civil em alimentos e a incidência


das prestações pretéritas
A incidência das prestações pretéritas sobre a decisão que
decreta a prisão em alimentos, sempre foi alvo de discussão
doutrinária e jurisprudencial, no sentido de se compreender
o binômio necessidade versus atualidade.
02/jul/2004

Guilherme Arruda de
Oliveira
brashearfada@yahoo.co
m.br
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DireitoNet

M uito tem se discutido acerca das prestações pretéritas que poderiam ou


não ensejar a prisão civil, em face da existência ou inexistência do caráter
alimentar daquelas prestações que não possuem o caráter precípuo de atuais.

De fato, para aumentar ainda mais a celeuma que envolve o tema, a


legislação processual e especial que cuidam da questão permaneceram
silentes no decorrer dos anos, deixando a árdua tarefa para a decisão e
entendimento de nossos Tribunais, ordinários e superiores.

O § 1º do art. 733 do CPC, não estipulou acerca da decretação ex officio [1] da


prisão nem tão pouco, quais seriam as verbas que estariam sujeitas à prisão:

Art. 733. Na execução de sentença ou da decisão, que fixa os alimentos


provisionais, o juiz mandará citar o devedor para em 03 (três) dias, efetuar o
pagamento, provar que o fez ou justificar a impossibilidade de fazê-lo.

§ 1º. Se o devedor não pagar, nem se escusar o juiz decretar-lhe-á a prisão


pelo prazo de 01 (um) a 03 (três) meses.

No mesmo sentido, se manifesta o artigo 19 da Lei nº 5.478/68 (Lei de


Alimentos), constando apenas uma alteração quanto ao prazo da prisão civil,
que para a Lei especial deve ser de até 60 (sessenta) dias:

Art. 19. O juiz, para instrução da causa, ou na execução da sentença ou do


acordo, poderá tomar todas as providências necessárias para seu
esclarecimento ou para o cumprimento do julgado ou do acordo, inclusive a
decretação da prisão do devedor até 60 (sessenta) dias.

Para Cahali (2002, p.1022)

tem se pretendido que, se a execução por alimentos se refere a período


extenso, com valor avultado, o que impossibilitaria ao devedor obter de
pronto esse montante em tempo reduzido, é de toda conveniência que a
mesma se processe na forma do artigo 732 do CPC, utilizando-se da
prerrogativa do art.733, somente em casos de obstrução deliberada pelo
executado, nada impedindo, contudo, que o juiz tome as medidas cabíveis
para evitar protelações ou artifícios capaz de levar ao desespero os
alimentados.

Diana Amato (apud CAHALI, 2002, p. 1022) afirma que "as prestações
vencidas e não pagas durante um período prolongado, quando reclamadas
depois, já não mais exercem função alimentar".

Tem sido este, o entendimento do STF:

“Habeas Corpus [2]. Prisão Civil. Alimentos. Prestações antigas. Não se


justifica a prisão civil decretada ao devedor de alimentos por prestações
antigas. Perda do caráter alimentar. Ordem denegada”. (BRASIL, STF, 1998,
CD - ROM).

No mesmo sentido:

A prisão civil, como meio coercitivo de pagamento de pensão alimentícia,


não se justifica na cobrança de prestações passadas e de cujo recebimento o
credor não necessita para sobreviver (apud CAHALI, 2002, p. 1023).

A jurisprudência a largos passos tem concedido o Habeas Corpus, para


evitar o constrangimento ilegal da prisão que incide sobre prestações
pretéritas:

HABEAS CORPUS. ALIMENTOS. PRESTAÇÕES PRETÉRITAS. PRISÃO.


CIVIL. Prestações pretéritas não servem para respaldar prisão de devedor de
alimentos, já que não tem o condão de atender as necessidades prementes da
alimentada. No caso, tratando-se de execução de alimentos devidos à ex-
esposa do Paciente, no período de cinco anos, que atingiu a vultosa quantia
de R$32.742,82 e comprovando o devedor ter 62 anos de idade, problemas
de saúde que o impede de trabalhar e possuir como rendimentos proventos
de aposentadoria do INSS, na importância de R$ 742,82, impõe-se o
reconhecimento da impossibilidade do pagamento e a revogação do decreto
de prisão. ORDEM CONCEDIDA. (RIO DE JANEIRO, TJ, 2003, on line)

Porém, alguns Tribunais tem admitido o decreto de prisão sobre prestações


antigas, desde que o alimentante não esteja em dia, com as últimas três
parcelas:

Se o alimentante executado não se encontra em dia ao menos com as três


últimas parcelas devidas, não lhe aproveita argumentar, para eximir-se da
prisão decretada, que as dívidas pretéritas perderam o caráter alimentar.
(CAHALI, 2002, p.1022).

O STJ também entende que cabe ao devedor prestar os alimentos atuais,


sendo assim a prisão não pode alcançar dívida pretérita:

A prisão civil por inadimplemento de obrigação alimentar é constrição


excepcional e tem por fim encorajar o devedor a prestar os alimentos atuais e
não os pretéritos. Assim, o decreto de prisão deve referir-se a débitos atuais,
por isso que os débitos em atraso já não têm caráter alimentar. (CAHALI,
2002, p. 1023)

Novamente, Cahali (2002, p.1022) acolhendo o entendimento do STJ, nos


ensina que,

a prisão civil não deve representar forma de coação para o pagamento da


totalidade das parcelas em atraso, pois, deixando o credor que o débito se
acumule por um prolongado tempo, aquela dívida terá perdido o caráter
alimentar, passando a ser simples ressarcimento das despesas feitas
anteriormente; a decretação da prisão deve fundar-se na necessidade de
socorro urgente e de subsistência imediata do alimentado, referindo-se
assim, a débito atual, por isso que os débitos em atraso, já não mais
desfrutam do caráter alimentar, esvaindo-se pelo que o fundamento jurídico
e teleológico da prisão civil, assim, havendo crédito, em atraso, que pode ser
postulado pelas vias próprias, não há como trocar o caráter compulsivo da
medida, pelo punitivo ou coercitivo contra o devedor relapso.

A seu turno, Araken de Assis (2001, p. 112) alega que a orientação acima
descrita, ou seja, o princípio da não aplicação da prisão em prestações
pretéritas,

comporta várias distinções e exceções. Por óbvio, o pedido abrangerá as


prestações vincendas nos termos do artigo 290 do CPC (quando a obrigação
consistir em prestações periódicas, considerar-se-ão elas incluídas no
pedido, independentemente de declaração expressa do autor; se o devedor,
no curso do processo, deixar de pagá-las ou de consigná-las, a sentença as
incluirá na condenação, enquanto durar a obrigação e portanto o pagamento
do executado deva incluir prestações subsequentes àquelas três já vencidas
na abertura da Execução.

E conclui (2001, p. 113) com o entendimento do STJ:

Se o credor executou a dívida logo após o trânsito em julgado da sentença e


se a pessoa obrigada tornou-se recalcitrante, ao caso não se aplica a
orientação segundo a qual a exigência de pagamento sob pena de prisão diz
respeito às três últimas prestações.

Greco (2001, p.533), afirma que

existe a plena possibilidade da decretação da prisão face as prestações


pretéritas. Considerando a jurisprudência que é contra tal posicionamento
‘como paradoxal e arbitrária’. A concepção da Corte Superior, revive, no
fundo, lamentável e caduca ojeriza ao meio executório da coerção pessoal.

A jurisprudência, em sua minoria tem admitido que não há perda do caráter


alimentar com o lapso de tempo:

O decurso de tempo não retira o caráter alimentar da prestação que, não


satisfeita oportunamente, repercute no padrão de subsistência do
alimentado.(BRASIL. STJ, 2001, on line)

Marmitt (1999, p. 171), também comunga da idéia que não há perda do


caráter alimentar da prestação antiga, visto que, "na verdade as quantias
referentes aos débitos atrasados, só pelo fato do atraso não perdem o caráter
de prestação alimentar".

Observe-se que em recente decisão o Tribunal de Justiça de Minas Gerais,


assim entendeu:

AGRAVO DE INSTRUMENTO - EXECUÇÃO DE OBRIGAÇÃO ALIMENTAR


- PRISÃO CIVIL DO DEVEDOR - ALIMENTOS PRETÉRITOS -
INADMISSIBILIDADE. A execução fundada no art. 733 do Código de
Processo Civil, que prevê a hipótese de decretação da prisão civil do devedor,
deve ter como objeto apenas as parcelas vencidas nos três meses
imediatamente anteriores ao ajuizamento da ação executiva, acrescida
daquelas que vencerem no curso da execução. É ilegal a decretação de prisão
civil do devedor fundada em alimentos pretéritos. (MINAS GERAIS, TJ,
2004, on line).

Continua Marmitt (1999, p.172), aduzindo que “se assim fosse, ninguém
estaria obrigado a pensionar ninguém. O atraso atribuível ao devedor, não
despe as parceias da natureza da causa de que emanam. O débito continua
sendo alimentar”.

Há quem considere a matéria plenamente justificada pela impetração


do Habeas Corpus, visto o flagrante constrangimento ilegal a que se submete
o devedor da prestação alimentícia, quando se tem a prisão decretada em
conta de parcelas pretéritas, vejamos:

Habeas Corpus - Execução de alimentos - Prisão civil - Pagamento das três


últimas prestações - Constrangimento ilegal - Writ concedido. Uma vez
comprovado o pagamento das três últimas prestações alimentícias, deve a
ordem de habeas corpus ser concedida, evitando-se o encarceramento do
devedor, sem prejuízo de nova constrição pessoal em caso de superveniente
inadimplemento. Quanto às prestações pretéritas devem ser executadas na
forma do art. 732 do CPC. (SANTA CATARINA, TJ, 1999, CD- ROM).

Alimentos. Prisão civil. Habeas corpus. Concede-se parcialmente a ordem


para limitar a imposição da prisão civil ao não pagamento das pensões dos
últimos três meses, pois só elas têm autêntico sentido alimentar, devendo as
restantes, de cunho meramente indenizatório, ser cobradas pelas vias
processuais comuns. (SANTA CATARINA, TJ, 1999, CD- ROM).

No mesmo sentido:

Na execução de alimentos, prevista pelo artigo 733 do Código de Processo


Civil, ilegítima se afigura a prisão civil do devedor fundada no
inadimplemento de prestações pretéritas, assim consideradas as anteriores
às três últimas prestações vencidas antes do ajuizamento da execução.
Ordem parcialmente concedida. (BRASIL, STJ, 2002, on line)

A drástica forma de intimidação deve ser adotada para as hipóteses em que


as necessidades emergem com vestes ameaçadoras para a permanência
íntegra do credor, pela indispensabilidade dos alimentos à sua sobrevivência.
Não havendo a indispensável urgência, por se encontrar a finalidade dos
alimentos suprida, a execução deve processar-se segundo a regra do art. 732
do Código de Processo Civil. Conhecer. Conceder a ordem. Unânime.
(DISTRITO FEDERAL, TJ, 2000, on line)

No Estado de Goiás, também não tem sido diferente o entendimento de que


a dívida deve ser atual, sob pena de se considerar constrangedor o decreto
prisional que tolhe a liberdade do devedor de prestações antigas:

A prisão por dívida alimentar deve ser informada pelo critério da atualidade,
devendo se restringir ao pagamento das três últimas parcelas do débito,
acrescidas das vincendas a partir da presente decisão, sendo que as demais
prestações pretéritas devem ser cobradas na forma do artigo 732 do Código
de Processo Civil. Precedentes da Corte e do STJ. Agravo provido em parte.
(GOIÁS. TJ, 2004, on line)

A execução do débito alimentar pretérito sujeita-se ao rito preconizado no


art. 732 do CPC, não se admitindo prisão civil para obrigar o devedor a pagá-
lo, especialmente quando provado o adimplemento das três últimas parcelas,
bastantes a subsistência premente do beneficiário. Não havendo anotação de
prestações vincendas por liquidar. Ordem concedida.(GOIÁS. TJ, 2004, on
line).

A prisão civil decretada como meio coercitivo objetivando a quitação de


dívida alimentícia deve restringir-se ao pagamento das três últimas parcelas
mensais vencidas, posto que se presta a satisfação da necessidade premente
e imediata dos alimentados. 2) Provado nos autos que o paciente efetuou o
pagamento das últimas três parcelas de pensão alimentícia em atraso, é de se
conceder ordem deHabeas Corpus em seu favor. 3) Subsistindo prestações
antigas não adimplidas, cumpre ao credor exigir a satisfação na forma do
artigo 732 do Estatuto Processual Civil. Ordem Concedida.(GOIÁS. TJ,
2003,on line).

Note-se que apesar de se mostrar vacilante a doutrina e a jurisprudência, o


entendimento predominante, é que de fato, se o autor da Ação não conseguir
provar a urgência de suas necessidades, certamente a sua pretensão restará
prejudicada, sendo passível de recurso de Habeas Corpus, para o devedor
veja cessado o constrangimento, nesse caso, tido como ilegal e abusivo,
devendo prevalecer-se o rito pelas formas do artigo 732 do Código de
Processo Civil, no que tange às prestações pretéritas.

A prisão civil tida como medida excepcional no Direito Brasileiro, não


merece ser acolhida no tocante às prestações mais antigas do débito
alimentar. Pois se o decreto prisional abrangesse a totalidade da dívida fosse
atual ou pretérita, impossível ao devedor saldar vultuosa quantia,
principalmente estando segregado de sua liberdade, força motriz de sua
capacidade de trabalho. Ademais, seria inconcebível imaginar que o
alimentante em estado de penúria e necessidade só viesse a reclamar seus
direitos após meses de vencidos e ainda desejar a prisão daqueles que não
honraram criteriosamente seus compromissos.

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SANTA CATARINA. TJ. Habeas Corpus nº. 99.006326-7 - Comarca da


Capital - Ac. unân. - 3a. Câmara Cível - Rel: Des. Éder Graf - Fonte: DJSC,
04.06.1999, pág. 20. Técnica Jurídica. 7 ed. Porto Alegre. 2003. CD –
ROM

NOTAS

[1] Em função do cargo.

[2] Tomai o corpo. Habeas corpus eram as palavras iniciais da fórmula no


mandado que o Tribunal concedia, endereçado a quantos tivessem em seu
poder ou guarda, o corpo do detido.
CODIGO CIVIL
Art. 1.725. Na união estável, salvo contrato escrito entre os companheiros,
aplica-se às relações
patrimoniais, no que couber, o regime da comunhão parcial de bens.