Você está na página 1de 12

Administração da Produção e Sistemas de Informação

QUALIDADE NA INDÚSTRIA
AGROALIMENTAR: situação
atual e perspectivas
José Carlos de Toledo
Professor Adjunto do Departamento de Engenharia de Produção e do Programa de Pós-Graduação em
Engenharia de Produção da Universidade Federal de São Carlos.
E-mail: toledo@power.ufscar.br

Mário Otávio Batalha


Professor Adjunto do Departamento de Engenharia de Produção e do Programa de Pós-Graduação em
Engenharia de Produção da Universidade Federal de São Carlos.
E-mail: dmob@power.ufscar.br

Daniel Capaldo Amaral


Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Mecânica da Escola de
Engenharia de São Carlos - USP.

RESUMO
O objetivo principal do trabalho é identificar e discutir o estado atual da gestão da qualidade em empresas participantes de
seis cadeias agroalimentares: bebidas (cerveja e refrigerante), biscoitos, carne bovina, chocolate, conservas de tomate e
derivados do leite. Por tratar-se de estudo exploratório, foi adotado o método de pesquisa qualitativa de multicasos,
envolvendo um total de 34 empresas. De modo geral, observou-se que, embora as empresas se encontrasse em diferentes
estágios de gestão da qualidade, prevaleceram os enfoques em inspeção da qualidade e controle do processo, com ações
de qualidade fortemente atreladas às exigências dos serviços governamentais de inspeção e de vigilância sanitária, com
ênfase nos aspectos de sanidade do produto. Entretanto, existem indícios, ainda que localizados, de ações em direção a
enfoques mais evoluídos, tais como sistemas de garantia da qualidade e gestão da qualidade total.

ABSTRACT
This paper aims to discuss quality management in six Brazilian agrifood chains: beverages (beer and soft drinks), biscuit,
meat, chocolate, processed tomato and dairy. This work is a multi-case exploratory study among 34 firms in those
agrifood chains. In a general sense, the firms studied are very different in terms of quality management. The control of the
products or raw material for inspection, with special attention to satisfy the governmental health rules, is the most
common situation. However, there are strong evidences that this general situation is changing. Several firms are going to
employ more advanced systems in quality management (total quality management and quality assurance system).

PALAVRAS-CHAVE
Indústria agroalimentar, gestão da qualidade.

KEY WORDS
Agrifood chains, quality management.

90 RAE - Revista de Administração de Empresas • Abr./Jun. 2000 RAE


São•Paulo,
v. 40 v.• 40
n. 2• •n. Abr./Jun.
2 • p. 90-101
2000
Qualidade na indústria agroalimentar: situação atual e perspectivas

INTRODUÇÃO de agribusiness como sendo “a soma das operações


de produção e distribuição de suprimentos agrícolas,
Apesar da importância incontestável do setor das operações de produção nas unidades agrícolas,
agroalimentar para o país, o número de trabalhos que do armazenamento, processamento e distribuição dos
tratam da gestão da qualidade em tal setor é pouco produtos agrícolas e itens produzidos a partir deles”.
expressivo. Os produtos agroalimentares são, literal-
mente, consumidos pelos clientes, de tal forma que a
saúde deles pode ser seriamente comprometida em
função da qualidade do produto. O poder público ten- OS PRODUTOS AGROALIMENTARES SÃO ,
de, portanto, a exercer um controle rigoroso sobre a
qualidade final desse tipo de produto, por meio de LITERALMENTE, CONSUMIDOS PELOS
normas de produção, distribuição e comercialização.
Assim, se, para alguns setores, a qualidade é uma CLIENTES, DE TAL FORMA QUE A SAÚDE
vantagem competitiva importante, para as indústrias
agroalimentares, ela é uma questão de sobrevivên- DELES PODE SER SERIAMENTE
cia. Um problema de não-qualidade, no caso extremo
de um produto impróprio para o consumo humano, COMPROMETIDA EM FUNÇÃO DA
pode afetar de maneira importante a imagem de uma
marca consolidada no mercado, comprometendo-a QUALIDADE DO PRODUTO .
definitivamente. Dificilmente, um consumidor que
viu sua saúde prejudicada pela ingestão de um pro-
duto deteriorado ou contaminado arriscaria novamen-
te, se fosse possível evitar, comprar tal produto. Segundo esses autores, a agricultura não pode mais
O objetivo deste estudo é identificar e analisar o ser abordada de maneira indissociada dos outros agen-
estado atual e as perspectivas da gestão da qualidade tes responsáveis por todas as atividades que garan-
em alguns segmentos (abate e processamento da car- tem a produção, a transformação, a distribuição e o
ne bovina, biscoitos, cerveja e refrigerante, deriva- consumo de alimentos. Eles consideram as ativida-
dos do chocolate, derivados do leite, derivados do des agrícolas como fazendo parte de uma extensa rede
tomate) do setor agroalimentar brasileiro, com o pro- de agentes econômicos que vão da produção de insu-
pósito de, a partir da análise desse estudo inicial e mos até a transformação industrial, armazenagem e
levando em consideração as especificidades dessa distribuição de produtos agrícolas e derivados.
indústria, desenvolver proposições gerais sobre a ges- O conceito de cadeia de produção agroindustrial
tão da qualidade de tal indústria. Para tanto, foram utiliza a noção de sucessão de etapas produtivas, des-
entrevistadas 34 empresas representativas desses de a produção de insumos até o produto acabado,
segmentos da produção agroalimentar. como forma de orientar a construção de suas análi-
ses. Grosso modo, uma cadeia de produção agroin-
AGRIBUSINESS E QUALIDADE dustrial pode ser segmentada, de jusante a montan-
te, em três macrossegmentos. 1 Em muitos casos prá-
Agribusiness e cadeia de produção agroindustrial ticos, os limites dessa divisão não são facilmente iden-
Dois conjuntos de conceitos se sobressaem na for- tificáveis. Além disso, essa divisão pode variar mui-
mação da base teórica deste artigo: os apresentados to segundo o tipo de produto e o objetivo da análise.
na literatura sobre gestão da qualidade e os concei- Os três macrossegmentos propostos são:
tos referentes ao agribusiness e sistema agroalimen- a) comercialização: representa as empresas que es-
tar. Os conceitos sobre gestão da qualidade servem tão em contato com o cliente final da cadeia de
de base para o diagnóstico, possibilitando a identifi- produção e que viabilizam o consumo e o comér-
cação das variáveis de pesquisa a serem estudadas cio dos produtos finais (supermercados, mercea-
nas empresas. O ferramental teórico referente ao rias, restaurantes, cantinas, etc.);
agribusiness e sistema agroalimentar, por sua vez, b) industrialização: representa as empresas respon-
oferece a abordagem que deve ser utilizada para a sáveis pela transformação das matérias-primas em
aplicação dos conceitos sobre qualidade, por permi- produtos finais destinados ao consumidor. O con-
tir uma análise abrangente e capaz de lidar com as sumidor pode ser uma unidade familiar ou uma
especificidades dessa indústria. outra agroindústria;
Davis e Goldberg (1957) enunciaram o conceito c) produção de matérias-primas: reúne as empresas

©
RAE
2000,
• v.RAE
40 -• Revista
n. 2 • de
Abr./Jun.
Administração
2000 de Empresas / EAESP / FGV, São Paulo, Brasil. 91
Administração da Produção e Sistemas de Informação

que fornecem as matérias-primas iniciais para que cas para a prevenção e o controle da qualidade,
outras empresas avancem no processo de produ- assumindo o papel de garantir a qualidade em to-
ção do produto final (agricultura, pecuária, pisci- das as áreas e atividades da empresa por meio de
cultura, etc.) (Batalha, 1997). sistemas da qualidade. Os sistemas de garantia da
qualidade estão associados a um enfoque relati-
Gestão da qualidade vamente mais amplo e preventivo, que procura,
Adota-se o conceito de qualidade de produto como por meio de um gerenciamento sistêmico, garan-
“uma propriedade síntese de múltiplos atributos do tir a qualidade em todas as etapas do ciclo do pro-
produto que determinam o grau de satisfação do duto (da identificação das necessidades ao uso e
cliente”, conforme Toledo (1997). A qualidade de um descarte do produto).
produto pode ser avaliada por meio de um conjunto d) gestão estratégica da qualidade: essa é a fase de
de características e parâmetros, específicos a cada evolução na qual a gestão da qualidade se encon-
caso, que são intrínsecos ou estão associados ao pro- traria atualmente, passando a ter uma dimensão
duto. Produto é entendido aqui como envolvendo o estratégica. Nessa etapa, as empresas gerenciam a
produto físico e o produto ampliado, ou seja, além do qualidade de forma proativa como fonte de vanta-
produto propriamente dito, envolve também a emba- gem competitiva, utilizando-se de um processo de
lagem, a orientação para o uso, a imagem, os servi- planejamento estratégico para a qualidade e de um
ços pós-venda e outras características associadas ao amplo conjunto de ações (programas, treinamen-
produto. to, grupos de melhoria, ferramentas de análise e
A gestão da qualidade é entendida como a abor- melhoria de processos, qualidade no desenvolvi-
dagem adotada e o conjunto de práticas utilizadas para mento do produto, etc.) para atingir os objetivos
obter-se, de forma eficiente e eficaz, a qualidade pre- de satisfação total do cliente. Essa era se concre-
tendida para o produto. A gestão da qualidade de uma tiza por meio da gestão da qualidade total, que se
empresa envolve seus processos e se estende aos for- refere a uma visão de como gerenciar globalmen-
necedores e clientes, segundo Toledo (1997). te os negócios com uma visão orientada para a
Garvin (1992) considera que a gestão da qualidade satisfação total do cliente e para a melhoria contí-
evoluiu, ao longo deste século, em quatro estágios, os nua. É composta por um conjunto integrado de
quais denomina de “eras” da qualidade e que são: ins- princípios, ferramentas e metodologias que apói-
peção, controle estatístico da qualidade, garantia da am a melhoria contínua dos produtos e processos.
qualidade e gestão estratégica da qualidade. Na prática, o conjunto das empresas de um setor
a) inspeção: refere-se ao período em que a gestão da não se encontra num mesmo estágio de evolução com
qualidade se limitava à inspeção dos produtos aca- relação à gestão da qualidade. Algumas empresas po-
bados. Trata-se de um enfoque meramente corre- dem apresentar enfoques e práticas relacionados com
tivo de inspeção do produto acabado, com o pro- estágios mais avançados, como a garantia da quali-
pósito de segregar as unidades não-conformes. De dade e a gestão estratégica da qualidade, e outras em-
modo geral, as práticas adotadas não são basea- presas podem focalizar estágios menos avançados,
das em métodos científicos. restritos, por exemplo, à inspeção final dos produtos.
b) controle estatístico da qualidade: corresponde à No caso de empresas agroalimentares, elas também
era do desenvolvimento das ferramentas estatísti- podem apresentar diferenças conforme a etapa da ca-
cas de amostragem e de controle estatístico de pro- deia de produção em que se encontram, podendo ha-
cesso, orientadas para o controle da qualidade no ver etapas constituídas por empresas mais avançadas
processo. O controle do processo é um enfoque e etapas com empresas menos avançadas em relação
preventivo centrado no acompanhamento e con- à gestão da qualidade.
trole das variáveis do processo que podem influir A gestão da qualidade no setor agroalimentar é
na qualidade final do produto. Foi responsável por condicionada pelas especificidades desse tipo de pro-
um grande salto nos padrões de qualidade da in- duto. O produto agroalimentar, em relação à sua qua-
dústria e pela elevação do controle da qualidade lidade, tem duas características marcantes. A primei-
ao status de disciplina científica. ra refere-se aos parâmetros e às exigências de quali-
c) garantia da qualidade: nessa era, a gestão da qua- dade que são ocultos, ou seja, aqueles que o consu-
lidade, de uma disciplina restrita ao chão de fá- midor não consegue detectar diretamente. Normal-
brica ou à produção fabril, assume um papel mais mente, esses parâmetros se encontram em normas e
proeminente no gerenciamento da empresa. Dei- regulamentações oficiais e se referem aos padrões
xa de ser apenas a aplicação de técnicas estatísti- microbiológicos, à ausência de substâncias nocivas e

92 RAE • v. 40 • n. 2 • Abr./Jun. 2000


Qualidade na indústria agroalimentar: situação atual e perspectivas

à sanidade do produto em geral. Em relação a esses fundamental, nas cadeias, o esforço voluntário e coor-
parâmetros, para a gestão da qualidade, é relevante o denado de identificação das causas dos problemas e a
conhecimento sobre o que define a segurança para o tomada de ações corretivas e preventivas pertinentes,
produto em estudo e a aplicação da gestão da segu- ou seja, a gestão da qualidade em uma cadeia agroali-
rança e de ferramentas tais como Boas Práticas de mentar depende da participação consciente e voluntária
Manufatura (BPM), Boas Práticas de Higiene (BPH) de todos os envolvidos para que os ganhos sejam
e Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle otimizados e usufruídos por todos. Isso depende da cons-
(APPCC). cientização e da capacitação para a aplicação de boas
A segunda característica do produto agroalimen- práticas de manufatura e higiene em toda a cadeia.
tar corresponde à importância dos padrões de quali- Essas características demandam a coordenação de
dade de apresentação para a decisão de compra do ações que influem na qualidade do produto final ao
produto. Assim, pode ser que um produto seja “per- longo de toda a cadeia e também a conscientização
feito” do ponto de vista da qualidade de segurança de que a gestão da qualidade de uma unidade de pro-
alimentar, mas o consumidor, a partir de sua percep- dução deve transcender os seus limites.
ção, não aprecie o produto e não deseje consumi-lo.
Essa segunda característica se refere às propriedades METODOLOGIA DE COLETA DE DADOS
sensoriais e de apresentação do produto, tais como
sabor, forma, textura, praticidade, estética, embala- As cadeias agroalimentares pesquisadas são as se-
gem, etc. Assim, para a gestão da qualidade, faz-se guintes: bebidas (cerveja e refrigerante), biscoitos,
necessário avaliar a qualidade percebida pelo consu- cacau e derivados, carne bovina, conservas de toma-
midor, identificar a qualidade esperada por ele e des- te e laticínios.
dobrar os requisitos de qualidade do produto ao lon- Essa escolha justifica-se, entre outras, pela impor-
go de toda a cadeia de produção e internamente à tância dos ramos de atividades agroalimentares em que
empresa em questão. Para tanto, são de grande rele- estão inseridas essas cadeias, se comparados ao con-
vância ferramentas como pesquisa de mercado, Des- junto da indústria alimentícia brasileira (Tabela 1).
dobramento da Função Qualidade (QFD) e sistemas É importante frisar que no interior dos ramos de
de garantia da qualidade. atividade mencionados na Tabela 1 foram privilegia-
Segurança e qualidade são duas dimensões inse- das algumas cadeias de produção agroalimentares es-
paráveis em todas as fases da cadeia agroalimentar. pecíficas. Assim, no setor de carne e derivados, foi
A qualidade e a segurança de um alimento reque- focada a cadeia de abate e processamento da carne
rem mais do que regulamentações e ações de inspe- bovina; no setor de derivados do trigo, a produção de
ção governamental. Segurança e qualidade depen- biscoitos; e, no setor de derivados de frutas e legu-
dem da cultura e do conhecimento de todos, ao lon- mes, as conservas de tomate.
go da cadeia, para a prevenção e a prática da melho- Para que os resultados da pesquisa de campo fos-
ria contínua, tendo em vista o consumidor final. É sem representativos do conjunto das empresas agro-
alimentares dos setores abordados, a
amostra analisada deveria refletir esse
Tabela 1 – Participação no valor total da produção alimentar brasileira conjunto. Para atingir esse objetivo, a
Ramo de atividade Valor de produção em relação ao conjunto de amostra de empresas foi estratificada pri-
atividades da indústria alimentar brasileira (%) meiramente segundo a participação no
mercado do segmento da cadeia em que
Bebidas 10,4 as empresas atuam, de forma a obter-se
Cacau e derivados 4,6 uma amostra com a maior representativi-
dade em termos de participação no mer-
Carne e derivados 17,5
cado. Uma segunda estratificação foi con-
Derivados de 8,9 siderada a partir do tamanho das empre-
frutas e legumes sas. Para efeito de simplificação e de ade-
Derivados do trigo 8,9 quação aos objetivos, as empresas foram
agrupadas prioritariamente em dois blo-
Laticínios 10,2
cos: “pequenas e médias” e “grandes”
TOTAL 60,1 empresas. Além disso, dentro de cada es-
trato amostral foram priorizadas empre-
Fonte: ABIA. O sistema e a indústria agroalimentar no Brasil. São Paulo : ABIA, 1993.
sas que ocupassem diferentes posições na

RAE • v. 40 • n. 2 • Abr./Jun. 2000 93


Administração da Produção e Sistemas de Informação

cadeia de produção agroalimentar (segmentação ver- agroalimentares estudadas.


tical) e empresas com origem de capital diferente (na-
cional e estrangeiro). A Tabela 2 apresenta a caracte- Gestão da qualidade na cadeia
rização da amostra. de produção de biscoitos
Para o levantamento de dados sobre o estado atual O complexo agroalimentar do trigo envolve a pro-
e as tendências de gestão da qualidade, foi elaborado dução, a transformação do grão de trigo e a sua dis-
um roteiro de entrevistas, o qual continha questões tribuição na forma de farinhas, farelo, pães, massas e
relativas aos seguintes temas: a) dados gerais das em- biscoitos. A indústria moageira, para atender à de-
presas; b) visão de qualidade predominante na em- manda interna, depende da importação do grão, já que
presa; c) sistema de gestão da qualidade existente; d) a produção nacional de trigo é insuficiente.
metodologias e ferramentas utilizadas para a gestão Pôde-se observar que a empresa moageira estuda-
da qualidade; e) mecanismos de avaliação e resulta- da se encontra em estado razoavelmente avançado no
dos obtidos quanto à qualidade; f) tendências e pers- que diz respeito à gestão da qualidade, adotando uma
pectivas da gestão da qualidade; e g) principais di- estratégia de garantia, e não apenas de controle da
ficuldades para a gestão da qualidade. Com os dados qualidade. Além disso, a empresa fundamenta e apóia
levantados, traçou-se um panorama geral sobre a ges- sua gestão em um conjunto adequado de metodologi-
tão da qualidade nesse conjunto de empresas. Todas as e ferramentas da qualidade. Apesar de adotar uma
as 34 empresas da amostra foram visitadas, ocasião visão mais estratégica, a empresa ainda concebe a
em que foi aplicado o roteiro de entrevistas. Normal- qualidade do produto como fortemente associada à
mente, foram entrevistados o responsável pela gestão conformidade com as especificações. E, embora evi-
da qualidade na empresa e/ou o gerente de produção. dencie preocupação concreta com a segurança do cli-
ente, considera medianamente prioritária a sua satis-
GESTÃO DA QUALIDADE EM EMPRESAS fação, o que parece ser bastante contraditório.
DAS CADEIAS AGROALIMENTARES Outro aspecto curioso refere-se ao fato de que, mes-
mo considerando problemático e crítico o controle de
Essa seção apresenta os principais resultados impurezas na matéria-prima que recebe, a empresa não
da pesquisa de campo realizada nas cadeias se preocupa em implantar um programa para o desen-

Tabela 2 – Caracterização da amostra


Setores No de empresas Porte Capital Exportação

Médio Grande Nacional Estrangeiro Sim Não

Trigo

Biscoitos 4 2 2 3 1 1 3

Farinha 1 0 1 0 1 0 1

Conservas de tomate 6 1 5 5 1 4 2

Carne bovina

Processamento 3 1 2 2 1 2 1

Abate 2 1 1 1 1 0 2

Laticínios 6 3 3 6 0 0 6

Bebidas

Cerveja 3 1 2 3 0 1 2

Refrigerante 3 1 2 3 0 2 1

Cacau

Moagem 4 0 4 0 4 4 0

Derivados 2 0 2 1 1 2 0

Total 34 10 24 24 10 16 18

94 RAE • v. 40 • n. 2 • Abr./Jun. 2000


Qualidade na indústria agroalimentar: situação atual e perspectivas

volvimento de seus fornecedores, revelando, assim, um parações conclusivas entre os dois segmentos e tra-
controle da qualidade da matéria-prima ainda muito çar um retrato da cadeia de produção como um todo.
voltado para a situação de inspeção e análise. Mas, avaliando-se que o moinho é uma empresa com
É interessante salientar também que a empresa está conceitos e práticas desenvolvidos em gestão da qua-
sendo pressionada pelas exigências do mercado e que, lidade, é difícil perceber onde está o problema reve-
diante da possibilidade de perder participação, ela se lado pelo segmento de biscoitos quanto à falta de
mostrou bastante flexível e disposta a se adequar às padronização da farinha de trigo. Segundo os entre-
novas exigências, que é exatamente a forma como tem vistados do moinho, existem duas possibilidades. A
atendido um importante cliente, a Nestlé. primeira fundamenta-se na origem dos grãos, pois se
acredita que o trigo brasileiro seja de baixa qualida-
de. A segunda diz respeito às condições de compra,
uma vez que a empresa se vê obrigada a adquirir o
O PODER PÚBLICO TENDE A grão de trigo com base nos resultados das suas análi-
ses, sem poder especificar as condições que ela real-
EXERCER UM CONTROLE RIGOROSO mente quer e das quais precisa.
Ao que tudo indica, a baixa qualidade da maté-
SOBRE A QUALIDADE FINAL DOS ria-prima não seria fruto apenas da qualidade infe-
rior do trigo nacional, mas também de problemas de
PRODUTOS AGROALIMENTARES POR
qualidade na produção do segmento de moagem.
MEIO DE NORMAS DE PRODUÇÃO, Deve-se ressaltar que, no caso do moinho estudado,
este dispõe de uma linha de produção específica
DISTRIBUIÇÃO E COMERCIALIZAÇÃO. (dedicada) ao segmento de biscoitos, o qual possui
exigências maiores em relação à qualidade da fari-
nha de trigo, o que não é comum em outras empre-
sas moageiras.
As empresas produtoras de biscoitos, de acordo
com a amostra analisada, encontram-se em um está- Gestão da qualidade na cadeia
gio significativo de transição e de evolução da ges- de conservas de tomate
tão da qualidade. Os dados coletados indicam que as A cadeia de produção do tomate em conserva foi
práticas gerenciais adotadas nesse segmento (adoção analisada em seu segmento de processamento indus-
de sistemas de garantia da qualidade, ferramentas e trial, por ser esse o elo que concentra praticamente
metodologias da qualidade total e técnicas de inspe- toda a manipulação e todo o processamento do pro-
ção e avaliação) estão em estágio de evolução de abor- duto em conserva.
dagens (“eras”) de gestão da qualidade fundamental- Três das empresas estudadas avaliam a qualidade
mente ligadas à inspeção de produtos para aborda- de seus produtos segundo a visão de seus clientes di-
gens mais adiantadas, principalmente com a adoção retos (supermercadistas e atacadistas). Para obter es-
de características das fases de garantia da qualidade sas informações, utilizam seus representantes de ven-
e da gestão da qualidade total. Isso fica claro pelo das, os quais servem também como canal de recla-
fato de as práticas de inspeção e de controle do pro- mação desses tipos de clientes específicos. Uma quar-
cesso estarem consolidadas e, ao mesmo tempo, pelo ta empresa utiliza-se de pesquisa de mercado, e uma
fato de os esforços das empresas estarem direcionados outra utiliza indicadores específicos (vendas abaixo
para a adoção de estruturas organizacionais mais ela- da meta para os supermercados e devoluções por tem-
boradas para o gerenciamento da qualidade, da pa- po em estoque dos atacadistas). A sexta empresa uti-
dronização de produtos e processos e dos programas liza continuamente um sistema de monitoramento do
de desenvolvimento de fornecedores. seu desempenho no mercado.
Fica evidente também que, na opinião das empre- Quatro empresas realizam a avaliação dos seus pro-
sas, a qualidade do segmento da farinha de trigo é o dutos em relação à concorrência por meio de análises
maior obstáculo para o desenvolvimento da qualida- das características físico-químicas e organolépticas
de dessa cadeia. Todas as empresas alegam sofrer no comparativas. Outras duas empresas realizam audito-
processo as conseqüências da baixa padronização rias dos produtos em pontos-de-venda, avaliando-os
dessa matéria-prima. também sensorialmente.
Por haver informações referentes a apenas uma A tendência quanto à gestão da qualidade, em al-
empresa no setor de moagem, fica difícil tecer com- guns aspectos, foi homogênea entre as empresas. Pra-

RAE • v. 40 • n. 2 • Abr./Jun. 2000 95


Administração da Produção e Sistemas de Informação

ticamente todas citaram a automação, o lançamento prima. Assim, as empresas procuram controlar todo
de novos produtos e as melhorias em seus processos. o seu processo produtivo, além de selecionar os me-
Uma empresa foca sua atenção principalmente no lhores fornecedores, visando à qualidade final do seu
acondicionamento do produto, adotando embalagens produto.
plásticas para a substituição dos tambores no trans- Nas empresas do segmento de abate visitadas, não
porte intermediário e a introdução da embalagem existem sistemas da qualidade implantados, e as ações
tetra-pak no produto final. Uma outra empresa se da qualidade nessas empresas limitam-se às ativida-
concentra no estudo do processo de acondicionamento des de análises e controles laboratoriais. Exceto por
asséptico. Também foram citadas, embora não de for- uma única empresa, pode-se afirmar que, no segmen-
ma homogênea, a melhoria da capacitação dos recur- to de processamento, existe uma maior preocupação
sos humanos e a existência de planos para a busca da com a adoção de programas da qualidade. Uma das
certificação ISO 9000. empresas segue um programa da qualidade segundo
Um problema que afeta a melhoria da qualidade do o modelo de Crosby (1985), e a outra direciona a atu-
produto de todas as empresas é o controle da matéria- ação mais para a conscientização e a mobilização dos
prima. Todas elas, sem exceção, citaram como proble- funcionários para garantir a satisfação dos clientes.
ma o recebimento de produtos fora das especificações As atenções no setor estão voltadas para as novas tec-
e fora dos prazos de entrega. Algumas incluíram o agra- nologias de criação do gado, o que pode garantir uma
vamento desse problema com as dificuldades de trans- matéria-prima de melhor qualidade, e para novas tec-
porte e de estocagem da matéria-prima e uma citou nologias de processo. Em relação às tecnologias de
também a distância dos fornecedores. processo, as empresas consideram sua maior barreira
De maneira geral, as empresas desse setor têm prá- o aporte de capital para investimento.
ticas e políticas típicas de um estágio de gestão da Para as empresas de processamento, a melhoria e
qualidade da era da inspeção. Apenas uma empresa o desenvolvimento de novos produtos estão intima-
se destaca apresentando um sistema da qualidade mais mente relacionados ao desenvolvimento de tecnolo-
evoluído, o que aparentemente lhe garante somente gias de conservação das características organolépticas
um maior nível de padronização. Além disso, as em- e nutricionais do produto.
presas parecem estagnadas quanto à gestão da quali- No que tange aos fornecedores, os segmentos de
dade, pois não têm, em geral, planos de adoção de abate e processamento também apresentam visões di-
novas práticas e ferramentas, ficando a tendência ge- vergentes. As empresas de abate realizam apenas uma
ral no setor circunscrita ao crescimento do nível de inspeção visual no gado, baseando-se na experiência
padronização e à elevação do grau de automação das profissional dos seus funcionários para detectar al-
unidades produtivas. gum problema imediato. Na maioria dos casos, os pro-
blemas de não-conformidade da matéria-prima são de-
Gestão da qualidade na cadeia de abate tectados apenas depois do abate, na inspeção realiza-
e processamento da carne bovina da pelos serviços de inspeção governamentais. A re-
É crescente a conscientização do consumidor so- lação com os fornecedores segue critérios baseados
bre a importância da qualidade dos produtos da ca- na confiança adquirida em experiências anteriores.
deia da carne bovina. Além disso, o poder público No caso das empresas de processamento, é realizada
está tentando estabelecer mecanismos que assegu- uma inspeção no recebimento, com análises micro-
rem a qualidade do produto final, como, por exem- biológicas e físico-químicas. Uma das empresas des-
plo, a exigência de que os cortes devem ser embala- se segmento possui um único fornecedor, que consis-
dos para comercialização, a proibição da desossa no te, na verdade, em uma unidade da mesma empresa
ponto-de-venda e o controle da rastreabilidade dos localizada em outro estado, para diminuir os custos
produtos finais. com impostos. As outras duas têm uma relação de
Para essa cadeia, a análise restringiu-se ao seg- parceria com os fornecedores, mas afirmam enfren-
mento da industrialização, compreendendo aqui o tar problemas quando necessitam de grandes quanti-
abate e o processamento da carne. dades de matéria-prima, pois não conseguem obtê-la
De modo geral, um produto de qualidade para as de um único fornecedor, comprometendo assim a uni-
empresas pesquisadas é aquele que atende às especi- formidade do seu produto.
ficações técnicas e legislativas de consumo. Os prin- Quanto às metodologias e ferramentas, notou-se o
cipais fatores críticos apontados para a qualidade fo- uso, embora não oficial, do benchmarking com a fi-
ram a questão do resfriamento (temperatura), a con- nalidade de adaptar as inovações realizadas pelos con-
servação, o processamento e também a matéria- correntes. Outras ferramentas unânimes nas empre-

96 RAE • v. 40 • n. 2 • Abr./Jun. 2000


Qualidade na indústria agroalimentar: situação atual e perspectivas

sas são as BPH e a inspeção por amostragem. As em- ção é válida, obviamente, apenas para os produtos do
presas de processamento, de uma forma geral, apre- complexo de menor sofisticação, aos quais o estudo
sentam um conhecimento maior dessas ferramentas e se limitou. Uma outra visão predominante de quali-
utilizam ainda a APPCC e as BPM. dade em boa parte das empresas refere-se à manuten-
As empresas de processamento analisam os resul- ção da tradição da marca.
tados obtidos quanto à gestão da qualidade de acordo
com os índices laboratoriais para controlar o desem-
penho dos fornecedores, das matérias-primas, dos pro-
dutos em processo e dos produtos acabados. Para me- A GESTÃO DA QUALIDADE É
dir os índices de satisfação dos clientes, essas em-
presas utilizam serviços de atendimento ao consumi- ENTENDIDA COMO A ABORDAGEM
dor. Já as empresas do segmento de abate avaliam
seu desempenho por meio do volume de vendas, re- ADOTADA E O CONJUNTO DE
fletindo uma visão restrita sobre qualidade.
Um dos maiores problemas encontrados nessa ca-
PRÁTICAS UTILIZADAS PARA
deia é a falta de integração entre os atores envolvi-
OBTER-SE, DE FORMA EFICIENTE E
dos. Ao contrário do sistema agroalimentar do fran-
go, no qual existe uma integração vertical das em- EFICAZ, A QUALIDADE PRETENDIDA
presas ao longo de todo o sistema, desde a criação
até a distribuição, na agroindústria da carne bovina, PARA O PRODUTO.
cada segmento da cadeia produtiva tem interesses
próprios divergentes e com poucas perspectivas de
coordenação geral.
As seis empresas visitadas possuem estrutura de
Gestão da qualidade na cadeia inspeção e laboratórios que atendem às exigências do
de leite e derivados Serviço e Inspeção Federal (SIF), duas delas possu-
A estrutura do complexo do leite é influenciada em uma gerência que responde pela qualidade e ne-
grandemente pelas características do produto e pela nhuma possui um sistema da qualidade formalizado.
acirrada competição entre os produtores de seus di- Quanto às ferramentas, metade das empresas não de-
ferentes derivados e outros produtos externos ao com- monstrou sequer conhecê-las, e a outra metade está
plexo. A amostra escolhida contemplou empresas de em processo de implantação das ferramentas BPM,
gestão privada e cooperativa, de portes diferencia- BPH e APPCC.
dos, que atuam em mercados regionais e nacionais, e Pode-se perceber que os problemas relacionados
produtoras de diferentes derivados do leite. com o abastecimento e a qualidade da matéria-prima
As informações coletadas indicam que a gestão e os relacionados com a estrutura organizacional e
da qualidade nas empresas do complexo do leite li- com o modelo de gestão, principalmente no caso de
mitam-se às estruturas e práticas mínimas para o cooperativas, representam as maiores barreiras a uma
cumprimento das especificações controladas pelos evolução em termos de gestão da qualidade das em-
organismos de inspeção governamentais. Isso fica presas. Outra dificuldade apontada diz respeito ao
evidente no fato de as empresas terem seus procedi- alto nível de defasagem tecnológica dos equipamentos
mentos de controle praticamente idênticos e funda- instalados.
mentalmente baseados nessas normas, sem demons- Em termos de tendências e perspectivas, as seis
trar interesse ou tendência a adotar práticas mais empresas enfatizam investimentos em melhoria no
elaboradas de gestão. controle dos processos e na capacitação da mão-de-
Esse fato torna-se ainda mais evidente quando se obra.
nota que, na própria visão de qualidade do produto, a
preocupação das empresas, em muitos casos, recai so- Gestão da qualidade nas cadeias de
bre o fator custo. Três das empresas analisadas afir- produção de cerveja e refrigerante
maram que a satisfação do consumidor está fortemen- Os dois produtos que mais se destacam em termos
te associada com um produto de preço inferior. Por- de quantidade de consumo na indústria brasileira de
tanto, essa visão de diferenciação por custos poderia bebidas são a cerveja e o refrigerante. Esse fato ori-
ser a causa da estagnação, desviando as empresas de entou os esforços da pesquisa, que se concentrou nes-
investimentos em gestão da qualidade. Essa afirma- ses dois produtos.

RAE • v. 40 • n. 2 • Abr./Jun. 2000 97


Administração da Produção e Sistemas de Informação

As três empresas produtoras de cerveja pesquisa- mento para a padronização de produtos, processos e
das apresentaram características muito semelhantes do sistema da qualidade, principalmente em termos
em termos de gestão da qualidade. A visão de quali- da adoção das normas da ISO 9000, e para o desen-
dade (padronização do produto e satisfação do clien- volvimento e aperfeiçoamento de produtos como es-
te), as políticas, as inspeções (de recebimento, pro- tratégias para melhorar a qualidade. Todas dispõem
cesso e expedição) e o enfoque bastante acentuado de sistemas da qualidade formalizados, laboratórios
na padronização de produtos e processos são seme- de controle da qualidade e programas de qualidade
lhantes em todas elas, revelando uma tendência de assegurada de fornecedores. As formas de avaliação
homogeneidade na gestão da qualidade nesse segmen- da matéria-prima e dos produtos em processo tam-
to. Outra característica que parece forte no setor é a bém são semelhantes. Benchmarking, BPH e BPM são
apontados como ferramentas muito utilizadas.
As tendências em termos de gestão da qualidade
são bastante divergentes entre as empresas. Os prin-
PARA A GESTÃO DA QUALIDADE, cipais obstáculos para o desenvolvimento da gestão
da qualidade nessas empresas dizem respeito às difi-
É RELEVANTE O CONHECIMENTO culdades para a obtenção de avanços na qualidade dos
fornecedores e no grau já existente de controle do pro-
SOBRE O QUE DEFINE A cesso. Deve-se ressaltar que a amostra não contem-
plou o enorme contingente de pequenas empresas que
SEGURANÇA PARA O PRODUTO atuam no mercado regional das chamadas tubaínas.
EM ESTUDO E A APLICAÇÃO DA Gestão da qualidade na cadeia de
derivados do cacau
GESTÃO DA SEGURANÇA E A amostra foi formada pelas quatro grandes em-
DE FERRAMENTAS. presas do segmento de moagem do cacau (responsá-
veis por praticamente toda a produção brasileira) e
duas dentre as três maiores produtoras de chocolate
cobertura, as quais produzem em suas unidades tam-
importância atribuída a sistemas de garantia da qua- bém o chocolate destinado ao consumidor final.
lidade (ISO 9000), a formas mais sofisticadas de ava- Para todas as empresas do setor de moagem entre-
liação das necessidades dos consumidores e à melho- vistadas, de uma forma geral, um produto de quali-
ria e ao lançamento de novos produtos. Uma das em- dade é aquele que atende às especificações de carac-
presas já tem a certificação ISO 9000 e duas delas se terísticas físico-químicas e de contaminação biológi-
encontram na fase final do processo de certificação. ca e, além disso, que apresenta uniformidade nessas
Todas dispõem de programas de qualidade assegura- características. Existe uma ênfase forte na busca da
da dos fornecedores e de orientação e fiscalização dos padronização do produto final. Dentre essas caracte-
pontos-de-venda. rísticas, as empresas priorizam o aspecto de conta-
Esse segmento encontra-se num estágio já de prá- minação microbiológica e higienização. Somente uma
ticas condizentes com a era de garantia da qualida- das empresas acrescentou a essa lista as característi-
de, com a adoção de princípios adequados a essa era cas organolépticas dos produtos. As características
e de ferramentas tais como Controle Estatístico de demandadas nas matérias-primas são bastante homo-
Processo (CEP), APPCC, BPM, BPH, auditorias in- gêneas entre as empresas. Todas essas empresas des-
ternas e benchmarking. As principais tendências tacaram a baixa qualidade do cacau brasileiro.
apontadas são quanto à consolidação do sistema da As empresas do segmento de chocolate cobertura e
qualidade ISO 9000, à adoção da ISO 14000 e à in- de derivados são menos homogêneas entre si com rela-
tensificação de treinamentos. A principal dificulda- ção à visão da qualidade. Uma empresa centra sua vi-
de apontada diz respeito à necessidade de constante são de qualidade na busca de características técnicas do
adequação ao dinamismo e à forte concorrência nesse produto (granulometria, ponto de fusão, etc.). A outra
mercado. empresa possui uma visão mais voltada para o cliente.
O segmento final da cadeia de refrigerante, assim As duas empresas citaram como aspectos mais impor-
como o de cerveja, apresentou uma grande homoge- tantes, que aumentariam a qualidade dos produtos e a
neidade entre as empresas quanto à gestão da quali- satisfação dos clientes, o fortalecimento da imagem da
dade. Os resultados mostram também um direciona- marca e as melhorias na matéria-prima básica.

98 RAE • v. 40 • n. 2 • Abr./Jun. 2000


Qualidade na indústria agroalimentar: situação atual e perspectivas

De maneira geral, ambos os segmentos conhecem implica uma abordagem fundamentada na inspeção
e aplicam, em maior ou menor grau, metodologias e ou a busca de maior controle do processo via técni-
ferramentas de gestão da qualidade. O segmento cas mais apuradas como a aplicação de métodos es-
moageiro utiliza com maior freqüência essas ferra- tatísticos e de boas práticas de manufatura. É certo
mentas em relação ao segmento que o sucede. As em- também que algumas delas, como a cadeia de bis-
presas moageiras já têm implantadas ferramentas coitos, a de moagem do cacau e a de bebidas, dão
como amostragem, APPCC, BPM, BPH e estão em indícios de evolução em suas práticas de gestão da
processo de implantação de CEP, Metodologia de qualidade, enquanto outras parecem mais estagna-
Análise e Solução de Problemas (MASP), análise de das, como, por exemplo, as cadeias de derivados do
valor e benchmarking. As empresas de moagem tam- leite e da carne bovina.
bém se utilizam de medidas de desempenho em qua-
lidade comuns entre si, tais como índice de reclama-
ções dos clientes e índices de não-conformidades.
Em termos de tendências, pôde-se observar o in- SEGURANÇA E QUALIDADE SÃO
teresse de todas as empresas pela utilização das nor-
mas de sistemas da qualidade e de gestão ambiental DUAS DIMENSÕES INSEPARÁVEIS
(séries 9000 e 14000). Duas empresas de moagem já
possuem certificação ISO 9000, e as demais empre- EM TODAS AS FASES DA CADEIA
sas de moagem e derivados estão com o sistema da
qualidade ISO 9000 em processo de implantação. Três
AGROALIMENTAR. ELAS DEPENDEM
empresas de moagem pretendem implantar o sistema
DA CULTURA E DO CONHECIMENTO
de gestão ambiental ISO 14000. As empresas de
moagem também já dispõem de iniciativas de implan- DE TODOS PARA A PREVENÇÃO
tação de princípios e ferramentas da gestão da quali-
dade total. Pode-se dizer que o segmento de moagem E A PRÁTICA DA MELHORIA
possui uma gestão da qualidade mais homogênea, em
estágio de garantia da qualidade e relativamente mais CONTÍNUA, TENDO EM VISTA O
evoluído em comparação ao segmento posterior. De
modo geral, todas as empresas da amostra possuem CONSUMIDOR FINAL.
planos de intensificação dos níveis de automação.
Para o setor moageiro, os maiores obstáculos à
evolução da gestão da qualidade são o relacionamen-
to com os fornecedores e o gerenciamento da distri- Uma das especificidades da gestão da qualida-
buição dos produtos. No segmento de chocolate co- de na indústria agroalimentar é o aspecto da segu-
bertura e de derivados, os problemas com embala- rança alimentar. Assim, a gestão da qualidade é,
gem são uma dificuldade comum. além de uma vantagem competitiva, uma exigên-
Não há nessa cadeia um padrão claro de tendênci- cia dentro desse setor econômico, e esse fato pôde
as e dificuldades para a evolução da gestão da quali- muito bem ser observado nos dados colhidos nesta
dade, tendo os resultados apresentado uma grande va- pesquisa, os quais mostram que todas as empresas
riabilidade entre as empresas. As normas de gestão consideram importante a inspeção de seus produ-
da qualidade e de gestão ambiental, ISO 9000 e ISO tos e a padronização dos processos, existindo, no
14000, parecem ser as mais adotadas, assim como as mínimo, uma estrutura de inspeção no recebimen-
principais dificuldades parecem estar relacionadas to de matérias-primas e durante o processamento e
com fornecedores. embarque do produto.
A pesquisa revelou que, de maneira geral, em to-
ANÁLISE E CONCLUSÕES GERAIS das as cadeias analisadas, a estrutura funcional
responsável pelo gerenciamento da qualidade está
O estágio de evolução da gestão da qualidade va- associada a laboratórios de análise físico-química e
riou entre as cadeias agroalimentares analisadas. A microbiológica. Ficou evidente também a existên-
maioria delas, pelas práticas, estruturas e políticas cia, ainda em termos gerais, de uma ênfase na pa-
demonstradas pelas empresas, enquadraria-se nas dronização dos processos e na inspeção, mesmo ha-
duas primeiras eras da gestão da qualidade, ou seja, vendo muitas empresas num estágio de esforço ini-
a da inspeção e a do controle de processo 2, o que cial nesse sentido.

RAE • v. 40 • n. 2 • Abr./Jun. 2000 99


Administração da Produção e Sistemas de Informação

Verificou-se também, de forma geral, uma homo- da matéria-prima. São exceções apenas as cadeias
geneidade dentro de cada segmento quanto às formas cujo setor precedente revela condições oligopolistas
de inspeção, pouca presença de práticas de gestão e produtos de maior complexidade técnica. Esse é o
mais sofisticadas como as relativas às eras de garan- caso dos segmentos de produção da cerveja e do cho-
tia da qualidade e da gestão estratégica da qualidade colate e derivados. Esses são os únicos segmentos
e poucos indícios de que as práticas de gestão estão analisados que não tinham a matéria-prima como uma
se movendo em direção a esse estágio. Isso demons- das principais barreiras para a melhoria da qualidade
tra que, apesar de as empresas agroalimentares brasi- no setor. Apesar de a matéria-prima ser comumente
leiras reconhecerem a importância da inspeção e da citada como obstáculo para a evolução da qualidade,
parece que as empresas pouco vêm fazendo para mu-
dar essa situação. Alguns exemplos de iniciativas para
contornar esse problema foram observados no seg-
TODAS AS EMPRESAS CONSIDERAM mento final da cadeia de biscoitos, com a adoção de
programas de desenvolvimento de fornecedores mais
IMPORTANTE A INSPEÇÃO DE SEUS elaborados e medidas mais severas com eles, mas tra-
ta-se de exceções em meio à regra geral, em que se
PRODUTOS E A PADRONIZAÇÃO DOS convive com a baixa qualidade dos fornecedores.
Quanto à avaliação da qualidade, as empresas re-
PROCESSOS, EXISTINDO, NO MÍNIMO, correm, predominantemente, a inspeções no recebi-
mento da matéria-prima e no processo, à sua estrutu-
UMA ESTRUTURA DE INSPEÇÃO NO ra de vendas e aos serviços de atendimento ao consu-
midor para medir o grau de satisfação dos clientes
RECEBIMENTO DE MATÉRIAS-PRIMAS finais. Os grandes atacadistas e supermercados, in-
quiridos pelas equipes de venda, parecem ter um pa-
E DURANTE O PROCESSAMENTO E pel importante nesse processo de avaliação, sendo os
EMBARQUE DO PRODUTO. mais consultados. Pôde-se perceber também que a
técnica de pesquisa de mercado é bastante difundida
nas cadeias agroalimentares, apesar de poucas em-
presas utilizarem-na regularmente.
padronização dos processos, pouco compreendem ou As metodologias de apoio à gestão da qualidade
exploram a gestão da qualidade de maneira estratégi- são pouco difundidas. CEP, APPCC, sistemas de pa-
ca, ou seja, como forma de melhoria na competitivi- dronização (ISO 9000, BPM e BPH) são as metodo-
dade da empresa por meio da satisfação dos clientes, logias mais conhecidas e utilizadas. Quanto à ten-
diferenciando seus produtos no atributo qualidade. dência de adoção, detectou-se uma heterogeneidade
Isso pode ser demonstrado ainda pelas ferramentas e entre as cadeias e dentro delas. O grau pequeno de
metodologias mais utilizadas, todas relacionadas com difusão das ferramentas para a gestão da qualidade
controle de processos e segurança alimentar (CEP, no setor pode estar relacionado com o estágio de de-
APPCC e sistemas de padronização), e pelas estrutu- senvolvimento dessa gestão em tal setor (ainda muito
ras de avaliação da percepção da qualidade do pro- ligado às fases de inspeção e de controle do proces-
duto pelo consumidor, as quais, de maneira geral, cir- so) e com a alegada baixa capacitação dos recursos
cunscrevem-se às informações obtidas via equipe de humanos.
vendas e serviços de atendimento de reclamações de As tendências em termos de gestão da qualidade
consumidores, evidenciando uma postura passiva. variaram bastante entre os setores. Há os que apre-
Os dados mostram também que, quanto mais pró- sentam tendências claras como a automação (caso do
ximos do consumidor final, mais os segmentos apre- segmento final de tomates em conserva e do segmen-
sentaram práticas de gestão, como inspeção e ensai- to de moagem do cacau), os programas de qualidade
os, menos homogêneas, estruturas mais elaboradas total (cadeia de biscoitos) e as normas ISO 9000 (pro-
para avaliação da percepção do consumidor quanto à dução da cerveja e moagem do cacau), ao mesmo tem-
qualidade do produto e maior ênfase em aspectos po em que persistiu uma grande heterogeneidade em
organolépticos, como fica evidente, por exemplo, nas outros itens. A única tendência que aparece freqüen-
cadeias de biscoitos e de bebidas. temente nas cadeias analisadas é a de valorização e
São comuns, em todos os segmentos analisados, de investimentos na capacitação dos recursos huma-
problemas com relação ao controle e à padronização nos e de padronização de produtos e processos.

100 RAE • v. 40 • n. 2 • Abr./Jun. 2000


Qualidade na indústria agroalimentar: situação atual e perspectivas

Em termos de dificuldades relativas à implementa- contra voltada, fundamentalmente, para a inspeção e


ção da gestão da qualidade, o quadro se assemelha às o controle do processo, de modo que ainda pode evo-
tendências, com segmentos com dificuldades bastante luir para formas mais sofisticadas de gestão, em que
comuns e outros mais heterogêneos em relação às di- o fator qualidade se torna uma fonte de aumento da
ficuldades. O único caso é a matéria-prima, já citada, competitividade para as empresas. As empresas po-
a qual é apontada como uma barreira para a evolução deriam, portanto, seguindo esse rumo, atingir um de-
da qualidade em praticamente todos os segmentos ana- sempenho melhor e diferenciar seus produtos na di-
lisados, principalmente os mais próximos do campo, mensão qualidade. Para tanto, precisam adotar estru-
como são os casos do leite, da carne bovina, do trigo e turas organizacionais mais elaboradas para a função
do tomate. Outras dificuldades citadas são relaciona- qualidade, sem perder de vista a importância da cons-
das ao nível de capacitação da mão-de-obra, à capaci- cientização e da descentralização da responsabilida-
dade de investimento e ao controle do processo. de pela qualidade, estabelecer políticas e programas
A cadeia de produção de biscoitos se destacou pe- da qualidade, adotar estruturas de mensuração da sa-
los sinais de mudanças em termos de gestão da quali- tisfação do cliente mais sofisticadas e, conforme a
dade, ou seja, parece estar em um processo de evolu- necessidade, utilizar mais metodologias e ferramen-
ção rumo a práticas avançadas de gestão. A cadeia da tas de qualidade e aprimorar as já disponíveis.
carne bovina, por sua vez, tem como grande especifi- Finalmente, vale destacar que os resultados de-
cidade o distanciamento entre os elos de abate e de monstram que os organismos de inspeção governa-
processamento, no que tange aos aspectos de quali- mentais, como o SIF, influenciam e desempenham pa-
dade do produto. A cadeia do leite chama a atenção pel importante na evolução da gestão da qualidade
pelas dificuldades, grandes e variadas, enfrentadas dentro das empresas agroalimentares. Ao que tudo in-
pelas empresas, as quais vão desde a capacidade de dica, mudanças nas políticas e formas de ação desses
investimento, passam por questões organizacionais e organismos alterariam sobremaneira as estruturas de
de gerenciamento e atingem até mesmo questões de gestão da qualidade das empresas do setor. O estágio
ordem técnica próprias dessa agroindústria. A cadeia atual de gestão da qualidade identificado nas empre-
de produção do tomate em conserva chamou a aten- sas foi, em grande parte, estruturado em resposta às
ção pela homogeneidade da gestão da qualidade nas exigências legais e às ações desses órgãos. Há, atual-
empresas. Os segmentos finais da indústria de bebi- mente, planos de mudanças nas políticas e no papel
das (cerveja e refrigerante) e de derivados do cacau dos órgãos, o que, caso venha a se concretizar, pode-
destacam-se pelo alto grau de difusão dos sistemas rá alterar o panorama da gestão da qualidade nas ca-
de garantia da qualidade formais e de auditorias. deias agroalimentares. Assim, as mudanças previstas
Não foram notadas diferenças significativas na do papel da estrutura de fiscalização e vigilância sa-
gestão da qualidade em função do porte e da origem nitária nas empresas do setor, passando de atividades
do capital, havendo, no geral, um nível um pouco básicas de inspeção para a função de difusão e acom-
maior de sofisticação nas inspeções ou na padroniza- panhamento de programas e ações de gestão da qua-
ção nas empresas maiores. lidade, em direção a sistemas de gestão da qualidade
Enfim, a pesquisa mostra que a gestão da qualida- total, poderão induzir e acelerar a evolução dos mo-
de na indústria agroalimentar brasileira ainda se en- delos de gestão da qualidade no setor. 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BATALHA, M. O. et al. Gestão agroindustrial. São Paulo : Atlas, DAVIS, J. H., GOLDBERG, R. A. A concept of agribusiness. GARVIN, D. A. Gerenciando a qualidade. Rio de Janeiro :
1997. vol. 1, cap. 1. Boston : Harvard University, 1957. (Division of Research. Qualitymark, 1992.
Graduate School of Business Administration).
CROSBY, P. B. Qualidade é investimento. Rio de Janeiro : José TOLEDO, J. C. Gestão da qualidade na agroindústria. In: BATALHA,
Olympio, 1985. M. O. Gestão agroindustrial. São Paulo : Atlas, 1997. vol. 1, cap. 8.

NOTAS

1. Na divisão proposta neste estudo, o setor de produção de significa diminuir sua importância como fator indutor de 2. O que, na nomenclatura de Garvin, corresponderia ao “controle
insumos agropecuários não foi considerado como um dos mudanças na dinâmica de funcionamento do sistema estatístico da qualidade”.
macrossegmentos principais da cadeia. No entanto, isso não agroindustrial como um todo.

RAE • v. 40 • n. 2 • Abr./Jun. 2000 101