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SIMULAÇÃO NUMÉRICA DO ESCOAMENTO LAMINAR

COMPLETAMENTE DESENVOLVIDO ENTRE DUAS PLACAS


PLANAS PARALELAS INFINITAS
Diego Alexandre Estivam
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
Departamento de Engenharia Mecânica
Laboratório de Simulação Numérica em Mecânica dos Fluidos e Transmissão de Calor
C.P. 476, CEP 88040-900, Florianópolis -SC, Brasil
e-mail: estivam@sinmec.ufsc.br

Resumo. O presente trabalho consiste em simular numericamente, o escoamento laminar incompressível entre duas placas planas
paralelas e infinitas. Foi utilizado o código computacional CFX-4 para as simulações e o programa ICEM-CFD para a geração
das malhas. Inicialmente são apresentadas as equações governantes e é deduzida a solução a solução analítica deste problema.
Para realizar as comparações entre os perfis numérico e analítico da velocidade, foram simuladas malhas com diferentes tipos de
refino. A simulação numérica obtida, representou fielmente o fenômeno estudado.
Palavras chave : escoamento laminar, fluidodinâmica computacional, placas planas paralelas, simulação numérica.

1.0 Introdução

Geralmente, os fluidos nos sistemas hidráulicos de alta pressão, vazam através das folgas entre pistão e
cilindro do sistema. Quando a folga entre esses dois últimos é muito pequena, na faixa de 0.005 mm de espessura, o
escoamento pode ser analizado como um escoamento entre placas planas paralelas infinitas.
O problema escolhido tem a característica de ser viscoso, incompressível e isotérmico. Utilizou-se coordenadas
cartesianas, além do regime laminar e permanente entre as duas placas .
Neste trabalho, serão apresentadas inicialmente as equações que regem o fenômeno. Na seqüência é
apresentada a dedução da solução analítica, seguido do estudo do refino das malhas, análise e comparação dos
resultados numericamente com a solução analítica.

2.0 Equações governantes

O conjunto de equações resolvidas numericamente pelo código computacional CFX-4, para um escoamento
laminar e isotérmico, são as equações bidimensionais da conservação da massa e do momento linear, eq. (2.1),
conhecidas como as equações de Navier-Stokes, eq. (2.2). Estas equações estão na forma geral, independente do sistema
de coordenadas adotado, devido ao fato de que as equações de conservação, são resolvidas no plano transformado e não
no plano físico. Para a transformação de um plano à outro usa-se as métricas que são calculadas pelo gerador de malha
ICEM -CFD. (CFX4, 2001), ( Maliska, 1995).

∂ρ
+ ∇ ⋅ ( ρU ) = 0 (2.1)
∂t


ρU + ∇ ⋅ ( ρU ⊗ U ) = B + ∇ ⋅ σ (2.2)
∂t
3.0 Obtenção da Solução Analítica

Admite-se que as placas estão separadas por uma distância a, conforme mostrado na Fig.(3.1). As placas são
consideradas infinitas na direção z (perpendicular ao plano do papel), sem a variação de qualquer propriedade do fluido
nesta direção. O volume de controle diferencial utilizado, mostrado na Fig.(3.1), possui um volume dV= dx dy dz.
Sabe-se também que a componente u da velocidade (direção x), deve ser zero nas placas superior e inferior, em
consequência da condição de não-deslizamento nas paredes. (Fox, 1998)

Figura 3.1 - Volume de controle.

Para analisar o fenômeno, selecionou-se o volume de controle apresentado na figura anterior, aplicando a
componente em x da equação do momento.
A equação básica do balanço da força é dada por:

∂ r r
∂t ∫VC ∫SC
Fsx + Fbx = u ρ dV + u ρ d V . dA (3.1)

Para a equação anterior, pode-se fazer algumas simplificações em função das hipóteses estabelecidas
anteriormente:

* Fbx =0 ;

∂ r r
∂t ∫VC ∫SC
* u ρ dV + u ρ d V . dA = 0 , escoamento permanente;

Então a eq. (3.1) se reduz a um somatório das forças de pressão:

Fsx =0 ; (3.2)

Chamando de p a pressão no centro do elemento e somando as forças de pressão que são normais ao volume de
controle e as forças de cisalhamento que são tangenciais ao volume de controle, tem-se que as forças sobre as faces
esquerda e direita do elemento serão respectivamente:

 ∂p dx 
p−  dy dz ; (3.3)
 ∂x 2 
 ∂p dx 
−p+  dy dz ; (3.4)
 ∂x 2 
Se a tensão de cisalhamento no centro do volume for τ yx , então obtém-se as seguintes equações para as forças
de cisalhamento sobre as faces do fundo e do topo respectivamente:

 dτyx dy 
− τyx −  dx dz ;
dy 2 
(3.5)

 dτyx dy 
τyx +  dx dz ;
dy 2 
(3.6)

Substituindo agora as forças atuantes, na Eq.(3.2) e simp lificando a nova expressão, obtém-se :

dτyx ∂p
= ; (3.7)
dy ∂x

Integrando-se a equação anterior,

 ∂p  du
τyx =   y + c1 = µ ; (3.8)
 ∂x  dy

1  ∂p  2 c1
u=  y + a + c2 ; (3.9)
2µ  ∂x  µ

Conhecendo as condições de contorno, onde em y=0, u=0 e y=a, u=0, pode-se calcular as constantes c1 e c2
obtendo-se o perfil de velocidades para um escoamento laminar completamente desenvolvido entre duas placas planas
infinitas:

a 2  ∂p   y  2  y 
u=     −   (3.10)
2 µ  ∂x   a   a 

4.0 Simulação numérica

4.1 CFX -4 e ICEM-CFD

Nas simulações, foram geradas diversas malhas utilizando-se coordenadas cartesianas, através do programa
computacional ICEM -CFD.
O tratamento numérico utilizado no CFX-4 para as simulações é do tipo volumes finitos com tratamento co-
localizado de variáveis, função de interpolação "HYBRID", resolução das equações algébricas por método de gradientes
conjugados "STONE" e "ICCG" para as componentes cartesianas da velocidade e pressão.
A equação de conservação da massa é usada para obter uma equação de correção da pressão de acordo com o
algoritmo "SIMPLEC". O algoritmo de Rhie-Chow é empregado para que não haja problemas no acoplamento pressão-
velocidade em malhas co-localizadas. (CFX-4, 2001), (Icem-CFD, 2000), (Patankar, 1980).

4.2 Condições de Contorno

Na fronteira oeste é prescrito um valor de pressão, maior do que o valor prescrito na fronteira leste. A
diferença entre esses dois valores acarreta o fluxo de massa dentro do domínio. Na fronteira sul prescreveu-se a
condição de parede, assim como na fronteira norte, como mostra a figura 4.1 .
Figura 4.1- Desenho esquemático das condições de contorno.

Tabela 4.2.2 – Tabela de dados utilizados na simulação.

4.3 Parâmetros de simulação

Para que ocorra o escoamento por entre as placas é necessário a diferença de pressão entre os pontos inicial e
final do escoamento. Devido à condição de não-deslizamento nas placas , sabe-se que a velocidade na parede é zero ao
longo de todo o trajeto. Assim, o aparecimento de uma camada-limite implica em uma aceleração da velocidade na
região central da distância entre as placas. Esta é a forma do escoamento obedecer a lei da conservação da massa.
Para o escoamento incompressível, a conservação da massa exige que a velocidade na linha de centro do tubo
aumente com a distância em relação à entrada. A velocidade média, em qualquer seção do trajeto deve se igualar à
velocidade de entrada. Para realizar as simulações, foi calculado o comprimento de entrada, ou seja, a distância em que
o escoamento é plenamente desenvolvido e o perfil de velocidades não muda mais na direção x . É nessa região que
deve entrar o perfil de velocidades que será comparado com a solução analítica.
Primeiramente, é necessário verificar se o número de Reynolds é = 2500, caracterizando um escoamento
laminar. Para este cálculo foi utilizada a definição de Reynolds:
ρ ⋅V ⋅ a (4.1)
Re =
µ
onde :

• µ = 1.0000E-02 Pa.s
• ? = 1.0000E-03 Kg/m^3

Para o escoamento laminar, o comprimento de entrada, Le , é função do número de Reynolds, obedecendo à


expressão apresentada por Fox(1998):
Le
≈ 0,06 Re (4.2)
a
A velocidade máxima do escoamento é encontrada em :
a du
y= com =0
2 dy
Substituindo tais valores na Eq.(3.10) obtemos:

1  ∂p  2 3
u máx = −  a = u
8µ  ∂ x  2 ; (4.3)

∂p
O valor de é obtido através do gráfico de pressão ao longo da direção d o escoamento. Como este
∂x
apresenta um comportamento praticamente linear, seu valor é o próprio coeficiente angular da reta.

5.0 Estudo de Malha

As malhas estudadas possuem um número de células descritos na Tab. (5.1).

Malha Malha 1 Malha 2 Malha 3


Nú mero de células 1245 4990 20979
Tabela 5.1- Número de células das malhas

Figura 5.1. Exemplo da Malha 2D utilizada – Malha 3 com 20979 células.

Foram construídos três tipos de malhas, na intenção de avaliar qual refino que melhor representa o fenômeno
em questão. As malhas simuladas possuem 1245, 4990, 20979 células. Para o refino das mesmas, levou-se em
consideração, que os volumes de controle permaneçam sempre quadrados. Em todos os casos foram utilizados os
mesmos parametros de simulação.
5.1 Resultados e Comparação de dados

A seguir, são apresentadas as comparações entre os perfis de velocidade obtidos analítica e numericamente.

Figura. 5.2 – Comparação entre resultados para malha de 1245 células.

Figura. 5.3 – Comparação entre resultados para malha de 4990 células.


Figura. 5.4 – Comparação entre resultados para malha de 20979 células

Com base nos resultados obtidos, verificou-se que a malha 1 apresentou uma solução numérica do campo de
velocidades com erros elevados( aprox. 7,7%). O uso da malha 3, no entanto , exigiu um esforço computacional
demasiadamente maior comparado com as outras malhas, como era de se esperar, pois é muito mais refinada. Porém a
redução do erro percentual aparentemente não justifica a sua utilização. Finalmente a malha 2 apresenta-se como a
melhor alternativa, pois exige um esforço computacional intermediário e um resultado muito próximo do analítico.
A Tabela 5.2 mostra os erros percentuais obtidos com as simulações, comprovando que erro diminui muito
com o aumento do refino.

Numero Umax Umax Erro


de células (numérico) (analítico) Percentual
1245 46,00000 49,8507 7,724%
4990 49,50000 49,9285 0,858%
20979 49,77199 49,9642 0,384%

Tabela 5.2 – Erros percentuais da velocidade máxima.

Os gráficos apresentados a seguir, foram obtidos no pós-processamento do CFX-4. A primeira malha


utilizada, foi a de 1245 células,obtendo o perfil indicado pela Fig.(5.5).
Figura. 5.5 - Perfil de velocidade obtido com a malha de 1245 células.

Para a segunda malha, de 4990 células obteve-se o perfil de velocidades mostrado na Fig(5.6). O aumento do
número de vetores, decorre do fato dessa segunda malha apresentar-se um pouco mais refinada em relação a malha de
número 1.

Figura. 5.6 - Perfil de velocidade obtido com a malha de 4990 células.

Por último, apresenta-se o perfil de velocidades obtido para a terceira malha.O acréscimo no núme ro de
vetores é bem maior do que nos gráficos anteriormente apresentados, já que essa malha possui um número de células
aproximadamente 4 vezes maior em relação a segunda e 20 vezes maior do que a primeira.
Figura. 5.7 - Perfil de velocidade obtido com a malha de 20979 células.

6.0 Conclusões e Sugestões de trabalho

A simulação numérica demonstrou ser uma poderosa ferramenta na análise do problema físico neste trabalho
apresentado. Com o código computacional CFX-4 e com o gerador de malhas ICEM-CFD, obteve-se resultados com
percentual de erro muito pequeno em comparação com a solução analítica no problema analisado.
O fenômeno também poderia ser tratado de forma simétrica ao eixo y. Tal forma de abranger o problema,
poderia ser outro estudo a ser realizado, avaliando assim o efeito da simetria em relação aos resultados obtidos e
realizando comparações entre o tempo computacional em ambas as simulações.
O refino das malhas demonstrou ser um estudo necessário, pois foi esse o maior fator que implicou na
diminuição do erro numérico. Variações no refino das malhas e no formato das células também poderiam ser
estudadas, já que esse trabalho procurou manter uniforme o formato das células.

7.0 Referências
CFX4.4, 2001, Solver Manual, CFX International, AEA Technology, UK, 2001.
Maliska, C.R.,1995, “Transferência de Calor e Mecânica dos Fluidos Computacional: Fundamentos, Coordenadas
Generalizadas”, LTC Editora, Brasil.
ICEM CFD Hexa,2000, Meshing Manual, ICEM CFD Engineering, USA, 2000.
Patankar, S., 1980, “Numerical Heat Transfer and Fluid Flow”, Ed. Hemisphere Publishing Corp., USA.
Fox, Robert W., McDonald, Alan T.1998, “Introdução à Mecânica dos Fluidos”, LTC Editora, Brasil.
8.0 Apêndice

O arquivo de comando (command file), é o arquivo de definição dos parâmetros utilizados no código
computacional CFX-4. É através dele que são especificados as dimensões do problema, como o tipo de escoamento a
ser utilizado, escolha de modelos matemáticos para as simulações, as propriedades físicas do fluido utilizado como a
densidade e viscosidade. A seguir apresenta-se o arquivo de comando utilizado para a resolução do problema
apresentado.

>>CFX4
>>OPTIONS
TWO DIMENSIONS
BODY FITTED GRID
LAMINAR FLOW
ISOTHERMAL FLOW
INCOMPRESSIBLE FLOW
STEADY STATE
>>MODEL DATA
>>TITLE
PROBLEM TITLE 'PLACAS PLANAS'
>>PHYSICAL PROPERTIES
>>FLUID PARAMETERS
VISCOSITY 1.0000E-02
DENSITY 1.0000E-03
>>SOLVER DATA
>>PROGRAM CONTROL
MAXIMUM NUMBER OF ITERATIONS 1000
MASS SOURCE TOLERANCE 1.0000E-20
>>MODEL BOUNDARY CONDITIONS
>>PRESSURE BOUNDARIES
PATCH NAME 'INLET'
PRESSURE 5.0000E+04
>>PRESSURE BOUNDARIES
PATCH NAME 'OUTLET'
PRESSURE 3.0000E+04
>>WALL BOUNDARIES
PATCH NAME 'SDWALL'
>>STOP