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Anais do VII Seminário Fazendo Gênero

28, 29 e 30 de 2006

Políticas públicas y movimientos de mujeres en el cono sur desde la perspectiva de género – ST


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Letícia Cardoso Barreto
Júlia Mesquita
Cássia Reis Donato
Núcleo de Psicologia Política – NPP
Marco Aurélio Máximo Prado
Vanessa Andrade de Barros
Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG
Palavras-chave:

Organização Política de Profissionais do Sexo –


O movimento associativo como espaço de emergência de demandas de gênero

O presente trabalho objetiva problematizar a respeito da organização política de


profissionais do sexo através do estudo do principal movimento associativo de Belo Horizonte a
APSBH (Associação de Profissionais do Sexo de Belo Horizonte).
Estudar a organização política de profissionais do sexo é adentrar em um campo
complexo de relações. É um movimento crescente, mas que muitas vezes ocorre às margens, sem
visibilidade pública. Buscaremos estudar o movimento associativo das profissionais do sexo
através de uma lente de gênero, conforme proposto por Kuumba (2001) . Para a autora, esta lente
permite que se compreenda o impacto do processo de gênero sobre o movimento social, uma vez
que este pode tanto reproduzir quanto transformar desigualdades de gênero, estruturas e sistemas
de crença.
Kuumba (2001) afirma que a mobilização social depende de dois fatores: a existência de
condições objetivas que estimulam a emergência de movimentos de protesto e a consciência
subjetiva e interpretação destas condições. Neste sentido, Prado (2002) afirma que a mudança
social se dá a partir da constituição da identidade política por meio do desenvolvimento de
condições materiais, psicossociais e políticas que permitam a emergência de ações coletivas,
possibilitando o estabelecimento de conflitos sociais. Segundo o autor, a identidade política é
constituída a partir de significações temporárias que levam ao sentimento de pertença a um
determinado grupo e que definem fronteiras que separam este “nós” do “eles”, sendo que estes
estão sendo impedidos por aqueles de realizar suas demandas sociais, identificando as relações
como de opressão e demarcando antagonistas sociais.
Destarte, podemos pensar em como as relações de gênero influem na constituição de tal
identidade coletiva e na mobilização social e, por conseguinte, em como as visões sobre a
prostituição interferem neste movimento específico. De acordo com Scott (1990), o gênero é um

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elemento constitutivo das relações sociais fundadas sobre as diferenças percebidas entre os sexos
e um campo no seio do qual, ou por meio do qual, o poder é articulado. A autora destaca quatro
aspectos de gênero fundamentais para compreendermos as relações sociais engendradas por ele:
os símbolos culturalmente disponíveis, os conceitos normativos, os processos de construção das
identidades de gênero e o papel do sistema de parentesco, da organização política, das
instituições e da economia na construção das relações gênero.
A prostituição tem sido vista de forma divergente por inúmeros/as teóricos/as,
principalmente pelas feministas. Gabriela Leite, em entrevista à revista Democracia Viva em
2006, presidente da Rede Brasileira de Prostitutas, afirma que a relação entre o feminismo e a
prostituição foi por muito tempo tensa e o diálogo é recente. Segundo Moraes (1996) muitas
feministas consideram a prostituição como o máximo de degradação e de sujeição da mulher ao
homem. A Rede Brasileira de Prostitutas tem debatido constantemente a prostituição sob a ótica
da auto-determinação e, para Gabriela, as feministas discutem sob a ótica da vitimização, não
percebendo as prostitutas como sujeitos de sua própria história.
Segundo Piscitelli (2005), as diversas abordagens são alimentadas não apenas pela
maneira como diferentes correntes percebem a prostituição, mas, também, como abordam a
sexualidade. A prostituição operou como um ponto central, como um divisor de águas nos
debates sobre os significados e a função do sexo. Nas últimas décadas é possível detectar novos
olhares sobre a prostituição, fruto de um deslocamento do posicionamento das pessoas que
prestam serviços sexuais. O deslocamento se reflete em perspectivas que, longe de considerar
as/os trabalhadores do sexo vilões/ãs ou vítimas, concedem a eles/as um lugar de seres dotados
de capacidade de agência.
Objetivando compreender o movimento associativo das prostitutas de Belo Horizonte,
basearemos a análise das formas de ação coletiva. Para isso, tentaremos compreender os níveis,
propostos por Kuumba (2001), macro, meso e micro, relacionados a tal associação, visando
perceber a articulação entre tais níveis e as conseqüências destas para a organização política das
prostitutas. No nível macro localiza-se o movimento no contexto sócio-histórico e estrutural
mais amplo. No nível meso enfoca-se na organização, nas coletividades e nas campanhas que
guiaram o movimento, prestando especial atenção às mudanças a partir das quais surgiram e
contra as quais lutam, O nível micro abrange biografias e aspectos mais subjetivos. Em tempo,
priorizaremos a análise da dinâmica interna da APSBH, que se localiza no nível intermediário de
análise. Para tal temos feito inserção em campo observando as reuniões da APSBH, através do
procedimento metodológico de observação participante, registrada em diário de campo e
submetida a um processo constante de reflexividade.

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No nível macro percebemos que a APSBH possui relações tensas com o poder público
bem como com os demais movimentos de prostitutas, embora possua alguns aliados. O
Ministério da Saúde fornece preservativos às reuniões e eventos da Associação e alguns
representantes políticos auxiliam em momentos de necessidade.
O Brasil é um país abolicionista em relação à prostituição (BRASIL, 2002), tendo
assinado o Tratado Abolicionista Internacional na ONU. Possui uma política de tolerância, não
penalizando quem exerce a atividade, mas considerando crime ser gerente ou dono de casa de
prostituição. Assim, é possível identificar divergências de posicionamentos, por vezes
reprimindo e querendo elimina a prostituição e por outras querendo regulamenta-la. A exemplo
disso em 2002 a prostituição foi incluída na Classificação Brasileira de Ocupações – CBO
(MINISTÉRIO, 2002). Esta inclusão não foi fruto de uma ação específica, mas foi influenciada
pelas discussões feitas por movimentos de profissionais do sexo.
A existência e consolidação de associações de prostitutas em âmbito nacional vêm
facilitando o surgimento de outros movimentos. A organização política de profissionais do sexo
no Brasil teve suas origens (BRASIL, 2002) em 1979, em São Paulo, devido ao assassinato de
prostitutas e travestis devido a conflito com a polícia. Neste caso, observamos a presença de um
antagonista comum o que permitiu a união das mulheres e travestis em torno de um mesmo
objetivo, gerando sentimento de pertença.
Em 1987 foi realizado o Primeiro Encontro Nacional de Prostitutas, no Rio de Janeiro,
que foi um passo fundamental na constituição da Rede Brasileira de Prostitutas e de associações
regionais (REDE). Hoje em dia, a Rede fornece consultoria e assessora no processo de formação
das associações reconhecidas por esta e são realizados diferentes encontros e seminários
objetivando a formação de novas associações, a visibilidade do movimento, a luta por direitos e
fim do estigma. A presença de uma entidade nacional como esta facilita a emergência e
consolidação dos novos movimentos e permite que o debate seja trazido para o âmbito público.
A APSBH não é reconhecida pela Rede Brasileira de Prostitutas, o que está sendo
buscado no presente. Para isso precisa agir de acordo com as diretrizes da Rede e objetivos tais
como a regulamentação da profissão com direitos assegurados, a importância de ações contra a
violência, implementação de programas de saúde, a luta pela dignidade da prostituta e o resgate
de sua auto-estima. A ausência de tal reconhecimento dificulta o desenvolvimento e legitimidade
da APSBH.
O contexto de Belo Horizonte tem sido marcado pela existência do projeto “Centro Vivo”
que tem o objetivo de “estabelecer instrumentos e incentivos urbanísticos para a promoção de
sua recuperação, restituindo-lhe a condição de moradia, lugar de permanência e ponto de

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encontro” (Belo Horizonte, 1996). Desta forma o centro da cidade teria sua funcionalidade
alterada, pois atualmente é visto como um lugar de serviços e passagem, e após a implantação do
projeto seria objeto de grande especulação imobiliária e a zona de prostituição se tornaria um
entrave à valorização da região, o que poderia levar ao fechamento dos hotéis. As mulheres
manifestam-se contra este projeto de diferentes formas, contando inclusive com a presença de
inúmeras profissionais na Câmara dos Deputados de Minas Gerais para protestar contra as ações
da prefeitura. Assim, ao mesmo tempo em que este projeto entrava o trabalho das mulheres,
objetivando retirar a zona boemia da região central, coloca a prefeitura como antagonista comum
às profissionais do sexo, demarcando fronteiras.
O movimento associativo de profissionais do sexo em Belo Horizonte tem seu começo
marcado pelo surgimento e desaparecimento de vários grupos, em geral por meio de ações
externas e não das próprias prostitutas. O processo que deu origem à atual APSBH (Associação
de Profissionais do Sexo de Belo Horizonte), principal movimento associativo local de
prostitutas, surgiu por meio de ações externas do GAPA-MG que realizava reuniões em hotéis de
prostituição com objetivo de discutir questões ligadas à saúde. A partir destas, Dos Anjos
Pereira, que era monitora da ONG, mas não é prostituta, foi adquirido liderança e se mantém na
presidência até hoje.
No nível meso, percebemos que a constituição da identidade coletiva, não é clara, sendo
que em muitas das mulheres não é observado um sentimento de pertença e as próprias crenças e
valores a respeito da prostituição e da associação não são compartilhados. Contudo, em alguns
momentos esta identidade está sendo construída, como durante as comemorações do dia
internacional da prostituta em que falaram da importância de se unir e trabalhar em conjunto,
além de apresentar temas relativos a todas. A possibilidade de um diálogo entre elas e um lugar
de reconhecimento tanto do Núcleo de Psicologia Política como da imprensa também vem
modificando o desejo de participação pública,. É notório que uma das participantes, que sempre
se recusou a dar entrevistas e tirar fotos, tenha tido sua imagem com a camiseta da marca
“Censurado”, criada e eleita por profissionais do sexo, divulgada em um jornal de grande
circulação com o seu consentimento.
A dificuldade no sentimento de pertença está relacionada a uma ausência de demarcação
de fronteiras políticas, uma vez que não percebem um antagonista em comum. Esta ausência de
delimitação pode ser discutida devido à própria contraditoriedade das relações, sendo que
aqueles que as oprimem (donos de hotéis, clientes), são os mesmos que as ajudam a sobreviver
financeiramente, o que leva a uma naturalização das relações, vistas como imutáveis.

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A emergência da identidade coletiva, ainda que seja um importante passo para um


posicionamento político, não garante a formação de uma identidade política. As relações de
subordinação ainda são tomadas com certa naturalidade e não se converteu em um discurso da
opressão. A possibilidade de publicizar essas questões ainda é muito conflituosa para muitas
mulheres que mantém essa profissão em segredo.
Este movimento associativo tem se mostrado um lugar possível de emergência das
demandas de gênero, embora de forma bastante embrionária. Debatem questões ligadas à relação
com os clientes, donos de hotéis, outras mulheres entre outras questões. Contudo, estas
discussões acabam por chegar a um ponto em que as prostitutas são consideradas “piores” ou
“menos dignas” devido à sua ocupação. Podemos perceber como as discussões são perpassadas
por um discurso da moral.
A participação política e a emergência das demandas de gênero estão intimamente
relacionadas. A impossibilidade de se assumirem publicamente como profissionais do sexo
dificulta a ampliação do debate que poderia levar a novas posturas da sociedade e a mudanças
nas relações de gênero. Se estabelece uma rede de mútua influência que é constantemente
alterada pela participação política.
A associação é formada predominantemente por prostitutas que fazem programas em
hotéis da zona boêmia de Belo Horizonte, sendo que algumas “batalham” nas ruas e praças
localizadas nesta área. A maior parte dos hotéis da região possui regras a respeito da
permanência de prostitutas em seu próprio quarto e hotel. Além disso, não possuem áreas de
convivência entre elas. Assim, muitas vão direto aos quartos, onde permanecem durante seu
“turno”, período de 6 horas pelo qual pagam a diária, cujo valor varia conforme o hotel..
Algumas reclamam de não saber o nome de suas colegas e de não ter amigas.
A participação das mulheres na associação se dá prioritariamente pela distribuição de
preservativos durante as reuniões e pela possibilidade de diálogo entre elas. Muitas alegam que
gostam de ir às reuniões para conversar, desabafar, embora isso nem sempre ocorra. A presidente
Dos Anjos diz buscar a construção de uma cooperativa e fala que aquelas que trabalharem
diretamente na associação irão receber um salário. De forma geral, não há uma tentativa de
atingir e integrar a comunidade como um todo.
A associação não possui bandeiras de luta bem delimitadas e as discussões são guiadas
por assuntos que surgem no dia a dia. Por vezes, debatem sobre a quantidade de preservativos
que recebem, formas de mudar de vida, a exploração a que estão sujeitas, as condições insalubres
dos hotéis, o estigma e o preconceito. Discutem também questões ligadas à violência a que estão
submetidas e ao consumo e tráfico de drogas.

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No nível micro, temos observado, através das histórias de vida e entrevistas em


profundidade que são freqüentes os relatos que remetem à estigmatização, presentes tanto no
relato de como são vistas quanto de como se vêem. A relação com o trabalho, com a associação e
as motivações são muito variáveis, mas em geral remetem também ao estigma.
A relação entre as mulheres e a forma como se vêem presentificam e reproduzem a
dicotomia puta x santa, estratégia habitual do patriarcado de estabelecimento de barreiras entre
umas mulheres e outras. Ao mesmo tempo, observamos meios usados por elas para se defender
dos estigmas imputados, tanto pelo não reconhecimento como prostitutas, quanto pela afirmação
de vontade de mudar de profissão. Uma das profissionais relatou, certa vez, que não teria
coragem de ter uma amiga que faz programa, de levá-la à sua casa, pois não confia em
profissionais do sexo. Considera a prostituição uma prática “incorreta” e afirma pretender “sair
dessa vida”. Paradoxalmente, ela manifesta preocupação e cuidado ao tratar os clientes,
demonstrando orgulho por ser uma das preferidas pelos homens no hotel em que trabalha e
expressando sentimentos de prazer que a profissão a proporciona. Muitas desenvolvem
estratégias para manterem-se anônimas em sua profissão e a preocupação em desvincular-se da
profissão publicamente, em grande parte das vezes, está ligada ao medo de que filhos, maridos e
outros familiares descubram sua atividade A prostituição aparece nesses casos, como
incompatível moralmente como a vida em família. Contudo, existem as exceções, como o caso
de uma das integrantes que leva a filha adolescente aos eventos que a associação promove. Esta
impossibilidade de se colocarem publicamente dificulta a publicização do debate e da
emergência da identidade política.
Os relatos de vivência de violência física e psicológica envolvendo clientes e funcionários
de hotéis são comuns. Recentemente ocorreu o assassinato de uma profissional do sexo em um
hotel de prostituição por um cliente que haveria justificado o crime em função de um “desejo de
matar uma puta”. Tal crime teria acontecido com a conivência da gerente do hotel que teria
impedido que arrombassem a porta em socorro à vítima. Uma prostituta, ao comentar o caso diz:
“Isso mostra que a prostituta não vale nada, vale menos que uma porta”.
A Associação de Profissionais do Sexo obteve algumas conquistas ao longo de sua
trajetória. Durante este período de observação (a partir de setembro de 2005), as mulheres
fizeram projetos, como o concurso da marca da camiseta, estão buscando a integração à Rede
Brasileira de Prostitutas e algumas aceitaram aparecer em fotos em jornais. Percebemos também
mudanças individuais de mulheres buscando construir seu próprio negócio, realizando cursos ou
querendo difundir seus conhecimentos sobre o trato com os clientes. Ainda são pequenas

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mudanças, mas significativas e, segundo Kuumba (2001), muitas vezes os movimentos sociais
geram mudanças que não são sentidas como frutos destes.

Referências
BELO HORIZONTE, 2006; Lei - 7.165 (27/08/96) Plano Diretor do Município de Belo
Horizonte. Título II- Do Desenvolvimento Urbano; Capítulo III- Das Diretrizes; Seção II- Das
Diretrizes de Intervenção Pública na estrutura Urbana; Subseção I- Da Política Urbana; Artigo
12 parágrafo I.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Coordenação Nacional de DST
e Aids. Profissionais do sexo: documento referencial para ações de prevenção das DST e da Aids
/ Secretaria de Políticas de Saúde, Coordenação Nacional de DST e Aids – Brasília: Ministério
da Saúde, 2002.
CÂMARA DOS DEPUTADOS. Projetos de Lei e Outras Proposições. Projeto de lei 98/2003.
Disponível em <http://www2.camara.gov.br/proposicoes>. Acessado em 10 de novembro de
2005.
KUUMBA, Bahati. Gender and social movements. Altamira press, California, 2001.
MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO. CBO - Classificação Brasileira de Ocupações,
2002. Disponível em <http://www.mtecbo.gov.br/>. Acessado em 11 de novembro de 2005.
PISCITELLI, Adriana. Apresentação: gênero no mercado do sexo. Cad. Pagu, n.25, p.7-23,
jul/dez. 2005.
PRADO, M. Da mobilidade social à constituição da identidade política: reflexões em torno dos
aspectos psicossociais das ações coletivas. Psicologia em Revista, Belo Horizonte, v. 8, n. 11, p.
59-71, jun. 2002.
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SCOTT, J. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação e Realidade. Porto Alegre,
16 (2): 5-22, jul/dez. 1990