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A nova visibilidade

JOHN B. THOMPSON *

RESUMO
O ponto de partida é a idéia de que o mundo dos meios de comunicação elabora uma * Professor de Sociologia
na Universidade de
nova visibilidade mediada, tornando visíveis as ações e os acontecimentos cada vez Cambridge, Inglaterra.
mais difíceis de serem controlados. Trata-se de uma estratégia explícita por parte
Traduzido por
daqueles que bem sabem ser a visibilidade mediada uma arma possível no enfrenta- Andrea Limberto
mento das lutas diárias. Neste ensaio delinearei brevemente minha maneira de pensar
a nova visibilidade e suas implicações. Comecemos por situar o tema da visibilidade
no contexto de uma teoria social dos meios de comunicação, já que - como tentarei
demonstrar – o surgimento de uma nova visibilidade está definitivamente relacionado
a novas maneiras de agir e interagir trazidas com a mídia.
Palavras-chave: visibilidade, mídias comunicacionais, política, esfera pública

ABSTRACT
The idea according the world of media develop a new mediated visibility, and make
visible actions and events is not just the outcome of leakage in systems of communi-
cation and information flow that are increasingly difficult to control is the starting
point of this essay. It is also an explicit strategy of individuals who know very well that
mediated visibility can be a weapon in the struggles they wage in their day-to-day lives.
In this essay I shall briefly outline my way of thinking about the new visibility and its
consequences. I shall begin by situating the issue of visibility within the context of a
social theory of communication media, since - as I shall try to show - the rise of the
new visibility is inseparably linked to the new forms of action and interaction brought
about by the media.
Key words: vivibility, communication media, politics, public domain

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o final do mês de abril de 2004, os jornais e as televisões do mundo

N todo foram tomados por imagens de prisioneiros iraquianos sofrendo


diversas formas de tortura e de degradação em Abu Ghraib, uma prisão
controlada por americanos na periferia de Bagdá. Uma imagem, aquela de um
prisioneiro encapuzado, em pé sobre uma caixa, com fios elétricos pendurados
em suas mãos abertas, tornou-se símbolo do abuso de poder dos ocupantes no
despontar de uma guerra extremamente controversa. A mídia foi inundada com
manifestações de revolta, gerando até mesmo uma retratação por parte de um
presidente americano até então combativo e por parte de outros tradicionais
membros do governo Bush. Fotografias de caráter privado, tiradas dentro da
prisão por integrantes do exército, utilizando câmeras digitais – como se fos-
sem tomadas de férias exóticas além mar – vazaram para o domínio público
e assim deram início ao escândalo mais grave enfrentado pelo governo Bush
desde a decisão precipitada de invadir o Iraque. As práticas escusas do exército
americano e da equipe paramilitar realizadas no mundo reservado das prisões
iraquianas tinham sido abertas de repente para a opinião pública, desatando
uma seqüência de revelações difíceis de serem controladas e explicadas pelas
pessoas no poder. Graças à mídia, esse tipo de práticas e acontecimentos, até
então ocultos, ganharam um novo status, como algo público e, na verdade,
como acontecimentos politicamente explosivos; o que era invisível tornou-se
evidente para conhecimento de todos, embora o público já estivesse longe dos
corredores estreitos e das celas em que se passaram os fatos.
Nesse novo mundo de uma visibilidade mediada, o fato de tornar visíveis
as ações e os acontecimentos não é meramente uma falha nos sistemas de co-
municação e informação, cada vez mais difíceis de serem controlados. Trata-se
de uma estratégia explícita por parte daqueles que bem sabem ser a visibilidade
mediada uma arma possível no enfrentamento das lutas diárias. Uma vez mais, a
guerra do Iraque nos brindou com inúmeras chances de relembrar uma verdade
fundamental: as horríveis decapitações executadas pelos grupos (entre outros)
Tawhid e Jihad de Abu Musab al-Zarqawi, gravados e mostrados ao vivo pela
internet e depois reciclados em vários níveis de explicitação por mídias massivas,
a televisão e a mídia impressa, são simplesmente a ilustração mais dramática
de um novo cenário político visível no mundo mediático, no qual a distância
é irrelevante e no qual estão sempre presentes a comunicação instantânea (ou
algo próximo disso) e – especialmente com o crescimento da internet e de outras
mídias em rede – a possibilidade de superar oponentes.
Quais são as características dessa nova forma de visibilidade tornada um
traço comum do mundo em que vivemos hoje? Em que ela se diferencia de
outras formas de visibilidade e quais são suas implicações? Estas são questões

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das quais tenho me ocupado na última década e sobre as quais avancei até certo
ponto. Neste ensaio delinearei brevemente minha maneira de pensar a nova
visibilidade e suas implicações. Comecemos por situar o tema da visibilidade no
contexto de uma teoria social dos meios de comunicação, já que - como tentarei
demonstrar – o surgimento de uma nova visibilidade está definitivamente
relacionado a novas maneiras de agir e interagir trazidas com a mídia.

MÍDIAS COMUNICACIONAIS E INTERAÇÃO SOCIAL


Para que se entenda a nova visibilidade, é preciso, inicialmente, entender os
caminhos pelos quais o avanço das mídias comunicacionais transformou a
natureza da interação social. É isto que tenho tentado mostrar quando desen-
volvo uma teoria social da mídia em The Media and Modernity (A mídia e a
modernidade) e em outros lugares. Minha perspectiva pode ser entendida como
uma «teoria interacional» da mídia, pois analiso os meios de comunicação em
sua relação com as formas de interação que eles tornam possíveis e das quais
eles são parte. As mídias comunicacionais não se restringem aos aparatos téc-
nicos usados para transmitir informações de um indivíduo a outro enquanto
a relação entre eles permanece inalterada; ao contrário, usando as mídias co-
municacionais «novas» formas de agir e interagir são criadas considerando-se
suas propriedades distintivas específicas.
Então o que são essas novas formas de agir e interagir? Podemos começar
a análise distinguindo alguns tipos elementares de interação. Um deles é o que
chamamos de interação face-a-face. Nesse tipo de interação os integrantes estão
presentes de forma direta um para o outro e compartilham de uma estrutu-
ra espácio-temporal comum; em outras palavras, a interação acontece num
contexto de co-presença. A interação face-a-face é «dialógica» tipicamente, no
sentido de que geralmente implica num fluxo comunicativo e informativo de
duas vias; um dos indivíduos fala com o outro (ou outros) e a pessoa a quem
ele se dirige pode responder (pelo menos em princípio), e dessa forma o diálogo
se desenrola. Outra característica da interação face-a-face é que ela geralmente
contempla uma multiplicidade de referências simbólicas; as palavras podem
ser complementadas por gestos, expressões faciais, variações de entonação,
etc. com o objetivo de transmitir mensagens e de interpretar mensagens das
outras pessoas.
A utilização das mídias comunicacionais gera diversas formas de intera-
ção mediada que diferem da interação face-a-face em aspectos cruciais. Essas
diversas formas de interação mediada têm características espaciais e temporais
diversas da interação face-a-face. Enquanto essa última se passa num contexto
de co-presença, a interação mediada é «distendida» em termos espaciais e pode

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ainda ser ampliada ou comprimida em termos temporais. Enquanto na inte-


ração face-a-face os emissores e os receptores das mensagens compartilham
a mesma estrutura espácio-temporal, na interação mediada os contextos dos
emissores e receptores estão normalmente separados espacialmente (e podem
estar separados no tempo ou podem ser simultâneos). Ao utilizar as mídias
comunicacionais podemos interagir com pessoas que não compartilham do
mesmo referencial espácio-temporal que nós e a natureza de nossa interação
será moldada pela diversidade das características espaciais e temporais, e pela
diversidade das características do meio empregado.
Uma forma de interação mediada pode ser exemplificada com atividades
como escrever cartas e falar ao telefone. Tais atividades demandam a utilização
de um meio transmissor da informação ou de conteúdo simbólico para indiví-
duos distantes no espaço, no tempo ou em ambos. No caso dos participantes
não compartilharem o mesmo referencial espácio-temporal, eles têm de levar
em consideração o quanto de informação contextual devem inserir na troca –
por exemplo, colocando local e data no início de uma carta ou identificando-se
no começo de uma ligação. Este tipo de interação mediada também envolve
uma certa redução de referências simbólicas, no sentido de que os participan-
tes normalmente não dispõem do número e da diversidade delas como numa
situação de interação face-a-face.
Um tipo diferente de interação mediada é aquela gerada na produção
e recepção de materiais como livros, jornais, rádio, programas de televisão,
filmes, vídeos etc. Eu a descrevo como sendo uma «quase-interação mediada».
Como ocorre com outros tipos de interação mediada, ela envolve a distensão
da interação no espaço e no tempo, além de uma certa escassez de referências
simbólicas. Mas há duas características que diferenciam este tipo de interação
mediada de outras. Em primeiro lugar, no caso da quase-interação mediada,
as formas simbólicas são geradas visando um número indefinido de receptores
potenciais – ela tem, em outras palavras, um final relativamente aberto. Numa
conversa telefônica, sentenças são produzidas para um outro específico, mas
num jornal ou num programa de televisão elas são produzidas para qualquer
um que dispuser de meios (cultural e material) para recebê-las. Em segundo
lugar, enquanto o tipo de interação existente na escrita de uma carta ou no uso
do telefone é dialógico por princípio, a quase-interação mediada é predomi-
nantemente monológica, no sentido de que o fluxo comunicativo é em grande
parte num só sentido. O leitor de um livro ou jornal, ou o telespectador de
um programa de TV ou de um filme é basicamente o receptor de uma forma
simbólica cujo emissor não pede (e normalmente não recebe) uma resposta
direta e imediata.

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Considerando que a quase-interação mediada é, tipicamente, altamente


monológica e que envolve a produção de formas simbólicas direcionadas a um
espectro indefinido de receptores em potencial, pode ser vista como um tipo de
quase-interação. Ela não tem o mesmo nível de reciprocidade e de especificidade
interpessoal de outras formas de interação, seja mediada ou face-a-face. Mas
a quase-interação mediada é, de qualquer modo, uma forma de interação. Ela
cria um certo tipo de situação social em que os indivíduos se conectam num
processo de comunicação e troca simbólica. Ela cria também diversos tipos de
relacionamentos interpessoais, vínculos sociais e intimidade (o que chamo de
«intimidade não-recíproca à distância»).
O desenvolvimento de uma gama de novas tecnologias da comunicação
relacionadas aos computadores pessoais e à internet pode ser analisado de uma
forma bem semelhante. Tais tecnologias criam uma variedade de situações
de interação que têm características próprias. Poderíamos rotular generica-
mente essas situações como sendo variações de uma «interação mediada por
computador», mas, na prática, temos que distingui-las. O uso do e-mail, por
exemplo, é parecido, em alguns aspectos, com o tipo de interação mediada que
utilizamos ao escrever uma carta, mas se distingue dele em outros aspectos
importantes. Como ao escrever uma carta, um e-mail é dialógico tipicamente,
sendo orientado para um outro específico, além de envolver a palavra escrita
ao invés da falada. Mas a compreensão temporal é muito maior e, ainda, as
instituições mediadoras e as condições de uso (incluindo os recursos culturais
e materiais) são completamente diferentes. Outras formas de comunicação
via internet, como news groups, salas de bate-papo, bulletin boards (quadros
de mensagem) etc. trazem características diferentes. Muitas dessas formas de
comunicação têm final mais aberto que os e-mails e podem ser acessadas por
qualquer um com a habilidade e o equipamento necessários (embora alguns
possam ter restrições específicas para o ingresso, como senhas ou o pagamento
de taxas de inscrição); mas de forma diferente do que ocorre na quase-interação
mediada, alguns têm recursos dialógicos específicos, como bate-papo em tempo
real, requisição e/ou download de materiais de sites e contato via e-mail.
Ao adotar uma perspectiva interacional para examinar as mídias comu-
nicacionais, adquirimos um viés sociológico diferenciado para a observação
do desenvolvimento das mídias comunicacionais e sua grande importância
histórica. Antes da implementaçãoo da imprensa, na Europa dos fins dos tem-
pos medievais e início da era moderna (e até muito recentemente, em algumas
regiões do globo), a troca de informações e de conteúdo simbólico era, para
a maioria das pessoas, um processo reservado à interação face-a-face. Muitas
das formas de interação mediada e de quase-interação já existiam, mas ficavam

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restritas a um setor relativamente pequeno da população. No entanto, a partir


do nascimento da indústria gráfica na Europa dos séculos XV e XVI e do
desenvolvimento de diversos tipos de mídia eletrônica nos séculos XIX e XX,
a «combinação de interações» na vida social mudou. A interação face-a-face
não foi excluída, mas complementada por outras formas de interação que têm
assumido um papel crescente. Cada vez mais os indivíduos são capazes de captar
informações e conteúdos simbólicos de fontes outras que não as pessoas com
quem interagem diretamente no decurso de suas vidas cotidianas; cada vez
mais eles têm acesso a um «conhecimento não-local» e que podem incorporar,
de maneira reflexiva, em seus processos de reconstrução pessoal. A criação e a
renovação das tradições são processos que se tornaram cada vez mais atrelados
à troca simbólica mediada; as tradições não são necessariamente destruídas
com o avanço sociedades modernas, mas perdem gradualmente seu lastro nas
situações cotidianas. O desenvolvimento dos meios cria novos campos de ação e
interação que envolvem diferentes formas de visualidade e nos quais as relações
de poder podem alterar-se rapidamente, dramaticamente e tomando caminhos
imprevisíveis. Examinemos este último aspecto em maior detalhe.

O NASCIMENTO DA VISIBILIDADE MEDIADA


Visível é o que pode ser visto, aquilo que é perceptível pelo sentido da visão;
invisível é o que não pode ser visto, o que é imperceptível ou oculto à visão.
No fluxo normal de nossas vidas diárias, a visibilidade está relacionada com
as potencialidades físicas do nosso sentido da visão e com as características
espaciais e temporais da circunstância em que nos encontramos: não podemos
ver a partir de uma certa distância (a não ser com ajuda de um aparato técnico
de algum tipo), não vemos na ausência de uma certa quantidade de luz (a não
ser, mais uma vez, com a ajuda de um aparato técnico) e não podemos ver o
futuro ou o passado. O que vemos é aquilo que está dentro de nosso campo de
visão, sendo que os limites deste campo são dados pelas características espa-
ciais e temporais do aqui e do agora. A visibilidade é situada: aqueles que são
visíveis para nós são os que compartilham a mesma situação espácio-temporal.
A visibilidade é também recíproca (ao menos por princípio): nós podemos ver
outros que estão dentro de nosso campo de visão, mas eles também podem nos
ver (considerando que não estejamos ocultos de alguma forma). É a visibilidade
situada da co-presença.
No entanto, com o desenvolvimento da comunicação mediática a visibilida-
de está livre das propriedades espaciais e temporais do aqui e agora. A visibilidade
das pessoas, suas ações e acontecimentos estão libertos do compartilhamento
de um solo comum. Um indivíduo não precisa mais estar presente no mesmo

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âmbito espácio-temporal para que possa ver um outro indivíduo ou para acom-
panhar uma ação ou acontecimento: uma ação ou acontecimento pode fazer-se
visível para outras pessoas através da gravação e transmissão para os que não
se encontram presentes fisicamente no lugar e no momento do ocorrido. O
campo da visão é ampliado espacialmente e pode também ser alargado tempo-
ralmente: uma pessoa pode testemunhar «ao vivo» eventos que acontecem em
lugares distantes, isto é, no momento em que ocorrem; uma pessoa pode ainda
testemunhar eventos distantes ocorridos no passado e que, graças à capacidade
de preservação do meio, podem ser re-apresentados no presente. Além do mais,
essa nova forma de visibilidade mediada não é mais tipicamente recíproca. O
campo de visão é unidirecional: aquele que vê pode enxergar pessoas que este-
jam distantes e que são filmadas ou fotografadas, mas estas últimas não podem
vê-lo, na maioria dos casos. Pessoas podem ser vistas por muitos observadores
sem que elas próprias sejam capazes de vê-los, enquanto os observadores são
capazes de ver à distância sem serem visto por elas.
O desenvolvimento das mídias comunicacionais trouxe, desse modo, uma
nova forma de visibilidade – ou, para ser mais preciso, novas formas de visi-
bilidade cujas características específicas variam de um meio para outro – que
se diferencia em aspectos essenciais da visibilidade situada da co-presença.
Nessa nova forma de visibilidade mediada, o campo da visão não está mais
restrito às características espaciais e temporais do aqui e agora, ao invés disso
molda-se pelas propriedades distintivas das mídias comunicacionais, por uma
gama de aspectos sociais e técnicos (como angulações de câmera, processos de
edição e pelos interesses e prioridades organizacionais) e por novas formas de
interação tornadas possíveis pelas mídias. Ela é moldada também pelo fato de
que, na maioria das mídias comunicacionais, a visualidade não é uma dimen-
são sensória isolada, mas vem geralmente acompanhada pela palavra falada
ou escrita – trata-se do áudio-visual ou do textual-visual. Ver nunca é «pura
visão», não é uma questão de simplesmente abrir os olhos e captar um objeto ou
acontecimento. Ao contrário, o ato de ver é sempre moldado por um espectro
mais amplo de pressupostos e quadros culturais e pelas referências faladas ou
escritas que geralmente acompanham a imagem visual e moldam a maneira
como as imagens são vistas e compreendidas.
Podemos destacar a importância dessa nova forma de visibilidade concen-
trando-nos brevemente num aspecto em que as implicações são especialmente
profundas: as relações complexas e instáveis entre visibilidade e poder político.
Antes de a mídia impressa e outras mídias serem desenvolvidas, a visibilidade
dos líderes políticos dependia em grande parte de sua aparição física diante
dos outros, num contexto de co-presença. Para a maioria, tais aparições eram

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restritas ao círculo relativamente fechado da assembléia ou da corte: a visibili-


dade demandava co-presença e os líderes políticos estavam visíveis unicamente
para aqueles com quem interagiam face-a-face nos espaços do contato cotidia-
no. Seu público consistia basicamente de membros da elite mandante ou dos
indivíduos que faziam parte da vida social da corte.
Em certas ocasiões os mandantes apareciam ante um público maior in-
cluindo, entre outros, alguns de seus súditos. Essas ocasiões eram eventos
públicos de grande porte como coroações, funerais reais e marchas come-
morativas da vitória. A pompa e o cerimonial destas ocasiões permitiam que
o mandante mantivesse certa distância de seus súditos e ao mesmo tempo
permitia que, por um tempo, eles vissem e celebrassem sua existência num
contexto de co-presença. Mas para a maioria das pessoas em sociedades antigas
ou medievais, os mandantes mais poderosos eram raramente vistos, se é que
alguma vez foram vistos. Moradores das áreas rurais ou das regiões periféricas
do império ou reino raramente teriam a oportunidade de ver o imperador ou
o rei em carne e osso. Independente dos deslocamentos reais, que eram tran-
sitórios e relativamente escassos, a maioria das aparições públicas do monarca
acontecia no centro político – nos halls ou aposentos do palácio ou nas ruas
e praças da capital.
Com o desenvolvimento da imprensa e de outras mídias, contudo, os
líderes políticos ganharam cada vez mais um tipo de visibilidade que se desvin-
cula de sua aparição em pessoa diante de um público reunido. Os mandantes
utilizaram-se dos novos meios de comunicação não só como um veículo para
promulgar decretos oficiais, mas também como meio de construir uma imagem
de si que poderia chegar a pessoas em regiões afastadas. Os monarcas do início
da Europa moderna, como Luís XIV da França ou Filipe IV da Espanha, eram
bem versados nas artes da elaboração de uma imagem. Suas imagens foram
construídas e celebradas não somente pelos meios tradicionais, como a pintura,
o bronze, pedra e tapeçaria, mas também pela nova mídia que era a imprensa,
incluindo xilogravuras, entalhamentos, gravuras, panfletos e periódicos. No
reino de Luís XIV, por exemplo, periódicos como Gazette de France, publicado
duas vezes por semana, e Mercure Gallant, publicado mensalmente, reserva-
vam um espaço fi xo para as ações do Rei. Ainda que as monarquias do início
da Europa moderna fossem baseadas principalmente em sociedades cortesãs,
em que mandantes orientavam suas atividades para as elites, encontradas nos
palácios e outros ambientes especialmente projetados, dificilmente a imagem
dos monarcas e o relato de suas atividades se espalhavam para muito além
destes círculos restritos através do meio impresso. A circulação dessas imagens
e relatos tornou as atividades dos líderes políticos cada vez mais visíveis para

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uma quantidade maior de indivíduos que não tinham como encontrá-los (ou
encontrar os membros da elite política) no decorrer de suas vidas cotidianas.
Gradualmente, a visibilidade dos líderes políticos e de outras pessoas, a visi-
bilidade de suas ações, de seus feitos e, na verdade, de suas personalidades,
foi desvinculada de sua aparição diante de outras pessoas reunidas na mesma
situação espácio-temporal.
O desenvolvimento das mídias eletrônicas – o rádio e, acima de tudo, a
televisão – representou, em alguns aspectos, a continuidade de um processo
iniciado com o advento da imprensa, mas, em outros, representou uma mudan-
ça. Assim como na imprensa, a mídia eletrônica criou um tipo de visibilidade
que foi apartada da necessidade de compartilhar um mesmo contexto, uma
visibilidade que, com a crescente oferta de produtos mediáticos numa escala
nacional e até internacional, interferiu nas vidas de uma grande parte da po-
pulação. Mas o tipo de visibilidade criada pela mídia eletrônica era diferente,
em alguns aspectos, da visibilidade criada pela imprensa. A mídia eletrônica
permitiu que a informação e o conteúdo simbólico fossem transmitidos por
largas distâncias com pouco ou nenhum atraso. Dessa forma, a mídia eletrônica
gerou um tipo de visibilidade que se caracterizava, ao menos por princípio,
pelo que poderíamos chamar «simultaneidade desespacializada»: pessoas dis-
tantes poderiam fazer-se visíveis praticamente no mesmo instante; poderiam
ser ouvidas no exato momento em que falavam; vistas no mesmo momento
em que agiam, embora não compartilhassem a mesma esfera espacial com
os indivíduos para quem se faziam visíveis. Além disso, a mídia eletrônica se
caracterizou por uma riqueza de referências simbólicas que fez com que algumas
das características da interação face-a-face fossem reproduzidas nesse novo
meio, embora as características da interação face-a-face e da quase-interação
mediada fossem radicalmente diferentes. O rádio criou a audição mediada,
possibilitando a codificação e transmissão da propriedade oral da voz humana
para uma grande quantidade de pessoas distantes, enquanto que a televisão pos-
sibilitou a gravação e disseminação tanto das referências orais quanto visuais.
Com o advento da televisão, assim, os indivíduos puderam ver pessoas, ações
e acontecimentos, bem como ouvir a palavra falada e outros sons de forma ao
mesmo tempo simultânea e desespacializada.
O nascimento da internet e de outras tecnologias digitais amplificou a
importância das novas formas de visibilidade criadas pela mídia e, ao mesmo
tempo, tornou-as mais complexas. Elas aumentaram o fluxo de conteúdo
audiovisual nas redes de comunicação e permitiram que um número maior
de indivíduos criasse e disseminasse esse tipo de conteúdo. Além disso,
dada a natureza da internet, é muito mais difícil controlar o fluxo de conteúdo

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simbólico dentro dela e, dessa forma, muito mais difícil para aqueles que estão
no poder se assegurarem de que as imagens disponíveis aos indivíduos são as
que eles gostariam de ver circulando. Desde o advento da imprensa, os líderes
políticos descobriram ser impossível controlar inteiramente o novo tipo de
visibilidade possibilitada pela mídia e deixá-la completamente a seu contento;
agora, com o nascimento da internet e de outras tecnologias digitais, isso ficou
mais difícil do que nunca.
A maneira pela qual os líderes políticos eram mostrados diante dos outros
foi moldada pelas diversas formas de visibilidade e audibilidade criadas pela
mídia. Com o advento do rádio, os líderes políticos puderam falar diretamente
para milhares e até milhões de pessoas de forma a permitir um tipo de intimi-
dade especial – nomeadamente, intimidade não-recíproca à distância – que traz
características diferentes da relação falante-público em aglomerações massivas.
No tempo em que não existia o som amplificado, um orador que quisesse se
dirigir a uma massa de pessoas tinha de projetar sua voz com grande força;
os oradores geralmente se posicionavam acima do público para que pudessem
ser vistos e freqüentemente utilizavam-se de uma linguagem contundente que
poderia estimular uma comoção coletiva. Mas com a chegada do rádio, a im-
parcialidade retórica perdeu em parte para a intimidade mediada; a oratória
contundente do discurso apaixonado pôde ser substituída pela intimidade de
um bate-papo ao lado da lareira. Acrescente-se a isso a riqueza visual da tele-
visão e o palco está armado para a aparição de um novo tipo de intimidade na
esfera pública. Agora os líderes políticos poderiam dirigir-se a seu público como
se fossem familiares e amigos. E dada a capacidade da televisão de produzir
imagens em primeiríssimo plano, os indivíduos poderiam analisar em detalhe
as ações e falas de seus líderes – suas expressões faciais, aparência, modos e
sua linguagem corporal, entre outras coisas – com a atenção antes reservada
àqueles com quem se tinha uma relação pessoal íntima.
O desenvolvimento das mídias comunicacionais fez nascer assim um novo
tipo de visibilidade desespacializada que possibilitou uma forma íntima de
apresentação pessoal, livre das amarras da co-presença. Essas foram as condi-
ções facilitadoras para o nascimento do que podemos chamar de «sociedade
da auto-promoção»: uma sociedade em que se tornou possível, e até cada vez
mais comum, que líderes políticos e outros indivíduos aparecessem diante de
públicos distantes e desnudassem algum aspecto de si mesmos ou de sua vida
pessoal. A forma distanciada e impessoal da maioria dos líderes políticos do
passado foi sendo gradualmente substituída por este novo tipo de intimidade
mediada, pela qual os políticos podem apresentar-se não somente como líde-
res, mas como seres humanos, como indivíduos comuns dirigindo-se a seus

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companheiros cidadãos, abrindo seletivamente aspectos de suas vidas e caráter


como numa conversa ou de maneira até mesmo confessional. Perdeu-se, nesse
processo, algo da aura, da «grandeza», que encobria líderes políticos e insti-
tuições no passado, uma aura que foi sustentada em parte pela imparcialidade
dos líderes e pela distância que mantinham em relação aos indivíduos sobre
os quais governavam. Ganhou-se a capacidade de falar diretamente para um
público, de aparecer diante dele em carne e osso como um ser humano com
o qual seria possível criar empatia e até simpatizar, dirigir-se a ele não como
público, mas como amigo. Em resumo, líderes políticos adquiriram a capacidade
de se apresentarem como «um de nós».
Enquanto as mídias comunicacionais criaram novas maneiras para que os
líderes políticos aparecessem diante de outras pessoas, de uma maneira e numa
escala nunca antes existente, elas também geraram novos riscos. A visibilidade
mediada foi um presente para os adeptos da utilização da mídia para melhorar
a imagem ou atingir seus objetivos. Mas o uso da mídia não se destinou apenas
à preservação dos líderes políticos. As formas mediadas de comunicação foram
usadas não apenas para promover e celebrar líderes políticos, mas também
para atacá-los e denunciá-los. Era comum que panfletistas e outras pessoas
no início da Europa moderna usassem a palavra impressa para ridicularizar
e para fazer caricaturas dos poderosos – Louis XIV, por exemplo, era muitas
vezes retratado na imprensa real como um herói, mas era ridicularizado pelos
panfletistas como um covarde e mulherengo. Além disso, desde que a mídia
tornou-se capaz de dar visibilidade a domínios de ação anteriormente ocultos
à visão, e desde que criou um terreno complexo de circulação de imagens e de
informações, porém de difícil controle, permitiu a emergência de novas formas
de acontecimentos mediados com potencial para burlar e minar a apresentação
bem planejada de líderes políticos e de outras pessoas. Considerarei a natureza
e a importância desses acontecimentos desafiadores mais adiante. Mas antes de
fazê-lo, quero me deter por um momento em algumas das implicações teóricas
do que foi apresentado aqui.
Em Vigiar e punir, bem como em outros trabalhos, Foucault apresenta
um argumento peculiar ao tratar das relações entre visibilidade e poder nas
sociedades ocidentais. Se minha análise da visibilidade estiver correta, ve-
remos que o argumento de Foucault é no mínimo parcial. Seu argumento,
apresentando-o sucintamente, é o seguinte: as sociedades do mundo antigo e
do ancien régime eram sociedades do espetáculo, o exercício do poder estava
relacionado com a manifestação pública de força e superioridade por parte do
soberano. Era um regime de poder no qual poucos eram visíveis para muitos
e no qual a visibilidade de poucos era usada como forma de exercer o poder

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sobre muitos – de maneira que, por exemplo, uma execução pública na praça
do mercado tornava-se um espetáculo no qual um poder soberano prevalecia,
reafirmando a glória do rei a partir da destruição de um indivíduo rebelde.
Mas a partir do século XVI, a manifestação espetacular do poder cedeu lugar
para novas formas de disciplina e vigilância que penetravam cada vez mais nas
diferentes esferas da vida. O exército, a escola, a prisão, o hospital: estas e outras
instituições passaram a empregar mecanismos mais sutis de poder baseados no
treinamento, disciplina, observação e registro. O alastramento desses meca-
nismos deu início gradualmente a um tipo de «sociedade disciplinar» na qual
a visibilidade de poucos por muitos foi substituída pela visibilidade de muitos
por poucos e na qual a apresentação espetacular do soberano foi substituída
pelo poder normatizante do olhar.
Foucault usa a imagem do Panóptico para apresentar esse novo tipo de
relação entre poder e visibilidade. A imagem é retirada do trabalho de Jeremy
Bentham, responsável pela reforma da prisão inglesa que, em 1791, publicou
uma planta da penitenciária ideal. Bentham previa um prédio circular com
uma torre de observação ao centro. As paredes do edifício continham celas
alinhadas, uma separada da outra por paredes. As celas teriam duas janelas: uma
interna, voltada para a torre de observação, e outra externa, permitindo que a
luz entrasse. Graças a essa estrutura arquitetônica singular, um único vigilante
na torre central seria capaz de submeter uma multiplicidade de prisioneiros à
vigilância contínua. Cada prisioneiro, confinado com segurança em uma das
celas, ficaria permanentemente visível; cada ação poderia ser vista e monitorada
por um supervisor que permaneceria oculto. Além do mais, considerando que
os prisioneiros soubessem que suas ações seriam sempre vistas, ainda que não
estivessem sendo observados a todo o momento, eles adaptariam seu comporta-
mento segundo a regra e agiriam sempre como se estivessem sendo observados.
Eles estariam sujeitos a um estado de visibilidade permanente que asseguraria
automaticamente o funcionamento do poder.
Foucault entende o Panóptico não apenas como uma obra genial da arqui-
tetura do século XVIII, mas como um modelo generalizável de organização das
relações de poder nas sociedades modernas. Esse modelo – que ele denomina
como «panopticismo» – forneceu uma alternativa efetiva às formas antigas
de exercício do poder. Gradualmente ela complementou e substituiu as for-
mas antigas de maneira que em diferentes esferas da vida social os indivíduos
foram sendo crescentemente submetidos aos tipos de disciplina e vigilância
tão efetivamente empregados nas prisões. Cada vez mais eles estão envolvidos
num sistema de poder em que a visibilidade é uma forma de controle. Não são
mais testemunhas de um espetáculo que acontece diante de si, mas objetos de

26 MATRIZes N. 2 abril 2008


DOSSIÊ

olhares múltiplos e cruzados que, com o exercício diário da vigilância, dispensa


a necessidade do espetáculo.
Ao desenvolver este argumento Foucault destaca, com seu brilhantismo
característico, a importância da visibilidade como um meio de exercer poder,
mas o uso que faz do Panóptico como forma de entender a relação entre
poder e visibilidade nas sociedades modernas está longe de ser convincente.
Claro que há algumas organizações em nossas sociedades que se baseiam
em métodos de vigilância – a polícia, o exército e os serviços de segurança,
principalmente, como também outras organizações estatais e algumas enti-
dades privadas. É possível argumentar que a vigilância está se tornando cada
vez mais importante hoje, à medida que os Estados procuram desenvolver
novas formas de combate ao crime e de prevenção contra ameaças existentes
ou investigadas. Mas não seremos capazes de entender a relação instável
entre poder e visibilidade em nossas sociedades se nos concentrarmos sobre
o fenômeno da vigilância negligenciando, como o fez Foucault, o papel das
mídias comunicacionais. Caso Foucault tivesse considerado mais de perto
o papel da mídia, talvez tivesse visto que ela estabelece uma relação entre
poder e visibilidade que é bem diferente da que está implícita no modelo do
Panóptico. Enquanto o Panóptico faz com que muitos estejam visíveis para
poucos, a mídia permite que poucos estejam visíveis para muitos: graças à
mídia, basicamente aqueles que exercem o poder, mais do que aqueles sobre
os quais o poder se aplica, é que estão sujeitos a um novo tipo de visibilidade.
Essa nova visibilidade é muito diferente do tipo de espetáculo que Foucault
identificou no mundo antigo e no ancien régime, pois a visibilidade mediada
de indivíduos, ações e acontecimentos está agora separada da necessidade de
compartilhar um domínio comum e desvinculada das condições e restrições
da interação face-a-face.

A VISIBILIDADE MEDIADA COMO DUPLA FACE


Com o desenvolvimento das mídias comunicacionais, o próprio campo político
foi parcialmente reformulado a partir das novas formas de interação e visibi-
lidade geradas pela mídia. A mídia pode ser entendida como um campo de
interação com interesses, posições e carreiras profissionais próprios, um campo
que se erigiu separadamente do campo político, mas que está entrelaçado a ele
de diversas maneiras. As organizações mediáticas estão todas elas, cada uma à
sua maneira, preocupadas em exercer um poder simbólico através do uso das
mídias comunicacionais de todo tipo. Enquanto algumas dessas organizações
interferem diretamente no campo político, elas não coincidem com ele, já que
normalmente são regidas por princípios distintos e são orientadas para fins

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A nova visibilidade

diversos. A relação entre políticos e jornalistas pode ocasionalmente ser de


proximidade e ser harmoniosa, já que estes podem se vincular de modo a ter
dependência recíproca (políticos precisam da mídia para apresentar imagens
favoráveis de si mesmos e os jornalistas baseiam-se em políticos e outras fontes
oficiais para manter um fluxo contínuo de notícias). Mas essa relação pode
também estar cheia de um conflito em potencial e facilmente tornar-se tensa,
com jornalistas seguindo uma pauta ou posicionando-se contrariamente ao
que políticos ou seus porta-vozes gostariam.
Conforme o campo político se torna incrivelmente invadido pelas formas
mediadas de comunicação, os líderes políticos têm a possibilidade de aparecer
diante de seu público de formas e numa escala nunca antes existentes. A relação
entre líderes políticos e seu público torna-se cada vez mais uma forma de quase-
interação mediada – moldada pelas atividades jornalísticas dos profissionais
de imprensa, entre outros, diversas e potencialmente conflituosas como são
– através da qual um relacionamento de lealdade e de afeição (bem como senti-
mentos de repugnância) podem se formar. Políticos habilidosos exploram esse
viés em causa própria. Com a ajuda de um profissional de relações públicas e de
profissionais de comunicação tentam criar e sustentar uma base que mantenha
seu poder e suas políticas manejando cuidadosamente sua visibilidade e sua
apresentação pessoal na arena mediada da política moderna.
No entanto, a visibilidade mediada tem uma dupla face. O desenvolvi-
mento da mídia criou novas oportunidades para os líderes políticos, mas criou
também novos riscos, e os líderes políticos se vêem expostos a novos perigos
gerados pela natureza incontrolável da visibilidade midiática. A arena mediada
da política moderna é aberta e acessível de um modo que as assembléias e cortes
tradicionais não eram: na era da visibilidade mediada é muito mais difícil fechar
as portas da arena política e encobri-la com um véu de segredo. A proliferação
da nova comunicação mediática apenas exacerbou o problema, criando uma
vasta gama de canais descentralizados e impossíveis de serem monitorados e
controlados completamente, através dos quais imagens e informações podem
fluir. Quer gostem ou não, líderes políticos de hoje são mais visíveis para mais
pessoas e são observados com mais proximidade do que o foram no passado; e,
ao mesmo tempo, eles estão mais expostos ao risco de que suas ações e declara-
ções, e as ações e declarações de outros, sejam deslocadas de modo a entrar em
conflito com as imagens que pretendem projetar. Assim, a visibilidade criada
pela mídia pode se tornar a fonte de um novo tipo distinto de « fragilidade».
Embora muitos líderes políticos busquem manejar sua visibilidade, eles não
podem controlá-la completamente. A visibilidade mediada pode fugir ao seu
comando e, ocasionalmente, trabalhar contra eles próprios.

28 MATRIZes N. 2 abril 2008


DOSSIÊ

É neste contexto que entendemos a relevância dos inúmeros problemas que


podem afligir os políticos na era da visibilidade mediada – fenômenos como
a gafe, o vazamento de informações, a revelação e o escândalo. Os políticos
precisam estar constantemente atentos e empregar um alto nível de reflexividade
para conseguir monitorar suas ações e declarações, já que um ato indiscreto,
uma frase mal interpretada ou uma revelação sem justificativa podem ter con-
seqüências desastrosas. Cada um desses problemas merece uma investigação
detalhada. Faz-se necessária uma nova história de cada um – não uma história
que simplesmente relacione uma série de casos intrigantes ou às vezes bizarros
e decepcionantes, mas uma história que reconte o desenvolvimento destes fe-
nômenos como parte integrante do nascimento da visibilidade mediada.
Esta é a tarefa a que me proponho em Political Scandal (Escândalo político):
nele pretendi mostrar que é possível entender porque os escândalos de vários
tipos – sexual, financeiro e aqueles que chamei de «escândalos do poder» –
tornaram-se uma característica presente em nossa vida pública de hoje apenas
situando este fenômeno em sua relação com o nascimento da visibilidade me-
diada, da qual se tornou uma parte inseparável. A palavra «escândalo» data de
muitos séculos antes do nascimento dos meios – na verdade, a palavra pode ser
encontrada na Grécia antiga e no início do pensamento judaico-cristão. Mas,
a partir do século XVII, ela foi cada vez mais se reportando a proposições e
contestações articuladas na imprensa – inicialmente na cultura de panfletos
dos séculos XVII e XVIII e, depois, do final do século XVIII em diante, na
cultura nascente dos periódicos políticos e dos jornais. A palavra foi gradual-
mente afastada de sua associação mais próxima com difamação e insurgência,
e crescentemente aplicada a um grupo de fenômenos com características parti-
culares. Mas, no início do século XIX, um novo fenômeno passou a existir – o
fenônemo do escândalo como um evento mediado. Tal fenômeno moderno do
escândalo mediado tinha uma estrutura e uma dinâmica próprias: incluía a di-
vulgação na mídia de alguma ação ou atividade antes oculta à visão, envolvendo
a transgressão de certos valores e normas e que, ao ser divulgada, incitaria a
manifestações públicas de desaprovação e revolta. Atividades que tenham sido
realizadas clandestina ou privadamente de repente se tornaram visíveis para o
domínio público, e a divulgação e condenação de tais atividades na imprensa
serviram, em parte, para constituir um evento como escândalo. A visibilidade
mediada não seria um comentário a posteriori sobre um evento escandaloso:
mas, sim, parte constitutiva do evento como escândalo.
Enquanto o século XIX foi o momento do nascimento do escândalo me-
diado, o século XX foi sua verdadeira morada. Uma vez inventado esse tipo par-
ticular de evento, ele se tornaria um gênero reconhecível. Alguns procurariam

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A nova visibilidade

ativamente produzi-lo e outros – especialmente aqueles proeminentes na vida


pública – lutariam, com diversos níveis de discrição e sucesso, para evitá-lo.
O caráter e a freqüência dos escândalos políticos variaram consideravelmente
do contexto de uma nação para outra, e dependeram de uma gama de circuns-
tâncias sociais e políticas específicas. Em países como Grã-Bretanha e Estados
Unidos houve escândalos políticos significativos durante as primeiras décadas
do século XX, como o escândalo Marconi na Grã-Bretanha, que quase derrubou
o governo Liberal em 1913, e o escândalo do Teapot Dome nos Estados Unidos,
que balançou o governo Harding nos anos 20. Mas, sem dúvida, a questão é
que o fenômeno do escândalo político se tornou uma parte importante da vida
pública na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos e em algumas outras democra-
cias liberais a partir do início dos anos 60. Por quê? Como podemos explicar a
importância crescente do escândalo político em décadas recentes?
Uma maneira de responder a essa pergunta seria argumentar que o au-
mento da importância dos escândalos políticos é um sintoma do declínio nos
padrões morais dos líderes políticos, no que diz respeito a seu comportamento
e também à sua probidade em geral na condução de seu ofício. Assim, pode-se
argumentar, por exemplo, que escândalos sexuais que eram uma característica
prevalente da vida política da Grã-Bretanha na década de 80 e início de 90, bem
como os escândalos sexuais que assolaram a presidência de Bill Clinton, refletem
um declínio geral dos padrões morais. Da mesma forma, podemos argumentar
que os escândalos de corrupção que emergiram nos Estados Unidos nas dé-
cadas de 70 e 80, bem como os escândalos do tipo dinheiro-por-informações
(cash-for-questions) que destruíram as carreiras políticas de diversos políticos
britânicos nos anos 90 são sintomáticos do declínio no nível de decência entre
os políticos. Contudo, embora essa possa parecer uma explicação plausível,
há poucas provas para embasá-la. Na verdade, não está claro que, em termos
gerais, os padrões morais dos líderes políticos de hoje são significativamente
mais baixos que os padrões aos quais se vinculavam líderes políticos do passa-
do. Os casos extra-conjugais de Kennedy são o exemplo mais óbvio: um certo
número de presidentes americanos anteriores parece ter tido conexões que
permaneceram bem guardadas como segredo na época. Parece plausível que
a prevalência crescente dos escândalos políticos tem menos relação com um
declínio geral dos padrões morais dos líderes políticos do que com as mudan-
ças na maneira de tornar visíveis as atividades dos líderes políticos no âmbito
público e a extensão dessas mudanças.
Então se rejeitarmos a hipótese de um declínio nos padrões morais dos
políticos, que outra explicação poderíamos dar para a crescente importância do
escândalo político? Há, no meu ponto de vista, algumas mudanças importantes

30 MATRIZes N. 2 abril 2008


DOSSIÊ

que perpassam esse desenvolvimento – concentrar-me-ei em três delas. Um


fator é a mutabilidade das tecnologias de comunicação e de vigilância. O século
XX testemunhou uma verdadeira revolução nas tecnologias disponíveis para a
gravação, processamento e transmissão da informação e comunicação. Estas
novas tecnologias, e especialmente aquelas associadas à televisão, ajudaram a
fazer com que os líderes políticos se tornassem muito mais visíveis no domínio
público, e a assegurar que o modo com que eles aparecessem diante dos outros
tivesse um grau de intimidade e de promoção pessoal que raramente se via no
passado. E, quanto mais os líderes políticos se esforçavam para apresentar-se
na mídia como indivíduos comuns com vidas comuns, mais provável era que
o público a quem se dirigiam estivesse inclinado a julgá-los pelo seu caráter
como indivíduos – sua sinceridade, honestidade, integridade. Apresentando-se
como indivíduos comuns, com vida pessoal e compromissos próprios, e com
razões e motivos próprios para o que fazem, os líderes políticos enfatizam mais
ainda o caráter e a integridade na vida pública. Mas o caráter seria um atributo
pelo qual poderiam também ser facilmente pegos.
As mudanças tecnológicas foram importantes por um outro motivo: fize-
ram com que ficasse cada vez mais difícil encobrir o comportamento privado
de líderes políticos e de outras figuras públicas. Tecnologias cada vez mais
sofisticadas – como as relacionadas com a gravação secreta de conversas, com
fotografias à longa-distância, o grampo nas telecomunicações e a busca e recu-
peração das comunicações digitalmente codificadas – fornecem uma poderosa
gama de aparelhos que podem ser utilizados para transportar comportamentos
escusos para regiões expostas. Estes, combinados com as atividades das organi-
zações midiáticas e para-midiáticas, podem transformar-se em acontecimentos
altamente visíveis. Seria muito radical dizer que as novas tecnologias decretam
o «fim da privacidade», como sugerem alguns pesquisadores. Mas sem dúvi-
da que, em parte devido à crescente oferta dessas tecnologias, as condições
sociais para a privacidade estão mudando de forma fundamental. As novas
tecnologias criaram novos meios poderosos de «bisbilhotar». Conversas ou
interações que os indivíduos consideram privadas (tidas face-a-face ou com a
ajuda de tecnologias individualizadas, como o telefone) podem ser pinçadas
e gravadas disfarçadamente, e na seqüência, disponibilizadas para milhares
ou milhões de pessoas através da mídia. As palavras ou ações originalmen-
te produzidas como uma comunicação ou comportamento privados podem
inesperadamente assumir um caráter público, tornando-se visíveis de formas
certamente surpreendentes, possivelmente muito embaraçosas e talvez até
mesmo seriamente incriminatórias (das quais Monica Lewinsky e Bill Clinton,
entre muitos outros, souberam o preço).

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A nova visibilidade

Um segundo fator é a mudança na cultura do jornalismo. O nascimento


do jornalismo como profissão remonta o final do século XIX e houve alguns
jornalistas e editores no final do século XIX e início do século XX que se viam
como investigadores em busca de desvendar realidades ocultas e de trazê-las
ao conhecimento público – não apenas editores aventureiros como W. T. Stead
na Grã-Bretanha e Joseph Pulitzer nos Estados Unidos, mas também aqueles
conhecidos como jornalistas muckraking (combativos) como Lincoln Steffens
e Ida Tarbell. Depois desse despertar inicial, a tradição do jornalismo investi-
gativo entrou num período de relativo declínio até os anos 60, quando ganhou
ímpeto novo com os tumultuosos acontecimentos políticos da década. Nos
Estados Unidos, o movimento pelos direitos civis e a luta contra a guerra do
Vietnã talvez tenham sido os mais importantes desses acontecimentos, porém
outros, como o movimento feminista e um questionamento sobre a postura
tradicional em relação à sexualidade foram também de grande importância. A
cultura crítica não transformou sozinha as práticas jornalísticas, mas realmente
ajudou a criar um ambiente encorajador para o jornalismo investigativo.
Ainda que a bravura da reportagem investigativa remonte ao tempo an-
terior ao Watergate, sem dúvida o que ocorreu entre a descoberta do caso e a
renúncia de Nixon foi um grande estímulo para o ramo.
O escândalo do Watergate foi importante nesse contexto não apenas por-
que ajudou a legitimar as atividades de jornalistas investigativos (embora por
inspiração no caso um tanto floreado de Carl Bernstein e Bob Woodward),
mas também porque, pela primeira vez, trouxe para domínio público as re-
giões mais escondidas do maior escritório de poder político que, de repente e
inesperadamente, foi exposto abertamente. E o conteúdo que emergiu dali, em
termos de provas de atuação criminosa e de manobras chocantemente cruas de
Nixon e seus associados, serviram de combustível para o ceticismo do público
em relação à credibilidade e confiabilidade de seus líderes. O Watergate ajudou
a precipitar o clima de ceticismo pelo qual ninguém, nem mesmo o presidente,
está fora de suspeita.
A ênfase renovada na reportagem investigativa nos anos 60 e 70 ajudou
a alterar a cultura do jornalismo e a criar um contexto no qual a busca por
segredos ocultos, a abertura desses segredos quando e se fossem encontrados,
foi entendida cada vez mais dentro dos círculos mediáticos como uma parte
aceita da atividade jornalística. No contexto desta considerável alteração na
cultura do jornalismo, a distinção entre os diferentes tipos de segredo tornou-se
esgarçada e difícil de apontar. Uma vez aceito que as cortinas que encobriam as
regiões mais altas do poder poderiam ser abertas, ficaria muito difícil manter
uma distinção exata entre os segredos relativos ao exercício do poder e segredos

32 MATRIZes N. 2 abril 2008


DOSSIÊ

relativos à conduta da vida privada. A reportagem investigativa facilmente


cairia num tipo de reportagem apelativa em que aspectos ocultos do exercício
do poder seriam misturados com aspectos ocultos da vida dos poderosos. Os
códigos e convenções jornalísticos que anteriormente desencorajavam jorna-
listas a fazerem reportagens sobre a vida privada e os casos amorosos de líderes
políticos seriam gradualmente relaxados e, em alguns lugares, abandonados
por completo, para que os jornalistas estivessem menos restritos pelo ethos de
sua própria profissão.
Um terceiro fator que contribuiu para o aumento da importância do es-
cândalo político é o caráter instável da cultura política em geral. Tal mudança
está firmada numa série de transformações estruturais que moldaram o am-
biente em que ocorre a ação política. Nesse sentido, é de particular relevância o
declínio gradual da política partidária baseada em classes, na qual os partidos
debatiam-se na arena política, com sistemas de crença radicalmente opostos,
representando amplamente os interesses de classes sociais diferentes, que forne-
ciam o núcleo de seu suporte eleitoral. Durante a segunda metade do século XX,
o caráter mutante do trabalho nas sociedades industriais ocidentais – incluindo
o declínio das indústrias tradicionais, como carvão e aço, e o crescimento do
setor de serviços e de uma gama de indústrias baseadas em conhecimento
específico – transformou o contexto social da política. Partidos políticos não
podiam mais depender das velhas classes sociais que um dia garantiram o nú-
cleo de sua sustentação. As divisões doutrinárias tradicionais foram atenuadas,
e cada vez mais os partidos e seus líderes tinham que batalhar para conquistar
o apoio de um crescente grupo de eleitores indecisos.
Essas grandes transformações sociais nos ajudam a entender o que pode-
ríamos genericamente descrever como um declínio gradual da «política ide-
ológica» e o aumento da importância das «políticas de confiança». A política
partidária tradicional, baseada em divisões de classe, com sistemas de crença
radicalmente opostos e um contraste forte entre esquerda e direita, não desa-
pareceu, mas foi significativamente enfraquecida pelas transformações sociais
do período pós-guerra. E, em seu lugar emergiu um tipo de política baseada
crescentemente em pacotes políticos específicos oferecidos pelos partidos. Esses
pacotes políticos não podem mais ser sustentados por um apelo aos interes-
ses de classe dos eleitores e os próprios eleitores não podem mais contar que
os políticos cumpram suas promessas em razão da longa afiliação social de
seus partidos. Ainda mais, com o declínio da velha política ideológica, muitas
pessoas sentem-se cada vez mais inseguras em relação à melhor maneira de
enfrentar os problemas altamente complexos do mundo moderno; o mundo
se apresenta cada vez mais como um lugar desafiador em que não há soluções

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A nova visibilidade

simples e como um lugar em que devemos confiar na capacidade de nossos


líderes políticos para tecer julgamentos racionais e proteger nossos interesses.
É nesse contexto que a questão da credibilidade e confiabilidade de líderes
políticos se torna um assunto de grande importância. As pessoas estão mais
preocupadas com o caráter dos indivíduos que são (ou que podem vir a ser) seus
líderes e estão ainda mais preocupadas com a confiabilidade deles, pois ela é o
melhor parâmetro para garantir que as promessas políticas serão mantidas e
que decisões difíceis diante da complexidade e da incerteza serão tomadas com
base num julgamento racional. A política da confiança se torna cada vez mais
importante não porque políticos são inerentemente menos confiáveis hoje do
que eram no passado, mas porque as condições sociais que antes permeavam
sua credibilidade foram desgastadas.
Esta mudança na cultura política contribuiu para que o escândalo tivesse
uma maior importância na vida política de hoje. O escândalo político, em parte,
tornou-se tão importante porque é um tipo de teste de credibilidade para os
políticos da era da confiança. Quanto mais nossa vida política se orienta para
as questões do caráter e da confiança, mais importância damos aos casos em
que a confiabilidade dos líderes políticos está em questão. Quanto mais temos
que confiar na integridade dos políticos para que mantenham suas promessas
e na habilidade deles para exercer um julgamento racional, mais importância
damos às ocasiões em que a fraqueza de caráter e os lapsos de julgamento são
trazidos à tona. Visto dessa perspectiva, podemos entender porque um escân-
dalo envolvendo a vida privada de um político é tomado por muitos como algo
de importância política mais abrangente: não é tanto o fato de acreditar que
os políticos devem seguir uma conduta moral estrita em suas vidas privadas,
mas a preocupação com o que esse comportamento revela sobre a integridade,
a credibilidade e o julgamento do indivíduo em questão.
O declínio gradual da política ideológica significa também que, dentro
do sub-campo dos políticos profissionais, discordâncias radicais em relação
a questões de princípio tomam menor relevo e os partidos políticos buscam
outras formas de se diferenciarem uns dos outros. Enquanto os partidos se
encaminham cada vez mais em direção a um patamar comum de centro e com-
petem por um número crescente de eleitores indecisos, as falhas de caráter dos
adversários (sejam verdadeiras ou acusações) e a violação de códigos de conduta
se tornam armas poderosas na luta por vantagem política. Questões de caráter se
tornam politizadas à medida que os partidos brigam para se diferenciarem num
contexto em que é cada vez mais difícil recorrer a diferenças fundamentais de
princípios, e onde, em parte de modo compensatório, os partidos e seus líderes
buscam ter ganhos políticos às custas da falha de caráter dos outros.

34 MATRIZes N. 2 abril 2008


DOSSIÊ

Desde que o escândalo se tornou um teste de credibilidade para os políticos


do tempo da confiança e desde que as questões de caráter estão cada vez mais
envolvidas na disputa partidária, o surgimento de escândalos tende a um efeito
cumulativo: escândalo traz escândalo, precisamente porque cada escândalo
concentra mais o foco na credibilidade e confiabilidade dos líderes políticos. O
efeito cumulativo do escândalo é incorporado no ciclo eleitoral, à medida que
os partidos políticos e pretendentes a líderes se utilizam de falhas anteriores
em testes de credibilidade como base para construir sua própria campanha
eleitoral. Nesse sentido, no saldo do Watergate, Jimmy Carter construiu sua
campanha presidencial de 1976 com base na questão da confiança e na pro-
messa de assegurar que seu governo restituiria um alto padrão ético – “Nunca
mentirei a vocês”, foi sua declaração famosa de campanha. Porém mal tinha
assumido e uma onda de novos escândalos começou a surgir. Primeiro foi o caso
Lance, em que um amigo de Carter e também seu conselheiro foi forçado a se
demitir do cargo de Director of the Office of Management and Budget devido
à grande suspeita sobre irregularidades financeiras em suas contas pessoais.
Depois houve o Billygate, uma sucessão curiosa de acontecimentos exagerados
nos quais o irmão de Jimmy Carter – um alcoólatra com péssimo senso de
julgamento – viu-se no centro de um escândalo tempestuoso envolvendo suas
relações comerciais com a Líbia. E como se isso não fosse suficiente, houve a
estranha história de Hamilton Jordan, um empregado da Casa Branca acusado
de distribuição de cocaína e que foi investigado por um juizado especial, embora
as acusações tenham sido retiradas no final. No despertar do Watergate, Carter
assumiu o poder com a promessa de fazer um governo honesto, decente e limpo.
Mas numa cultura política voltada para questões de caráter e confiança, essa
proposta era como hastear uma bandeira vermelha diante das fi las de críticos
e jornalistas.
Bill Clinton se viu num ciclo parecido com esse, embora de uma forma
muito mais acentuada. Como muitos discursos presidenciais do passado, cheios
de esperança, Clinton fez uma campanha sustentada na promessa de limpeza
política depois do desgaste do governo Reagan, assumindo o compromisso de
realizar «o governo mais ético já visto». Mas ele descobriu rápido que membros
de seu próprio governo estavam sendo investigados por suspeita de deslizes
financeiros, e, finalmente, Clinton e sua esposa tornaram-se alvo de uma exaus-
tiva investigação sobre seu envolvimento com a especulação imobiliária no
Arkansas e a relação disso com o fracasso do Savings and Loan – o chamado
caso Whitewater. Clinton também descobriu que as acusações e as revelações
relacionadas à sua vida pessoal se tornariam assunto de interesse público, quase
arruinando sua campanha de 1992 (com o caso Jennifer Flowers) e culminando

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A nova visibilidade

com seu impeachment e julgamento pelo Senado e, em seguida, a revelação de


seu caso com Monica Lewinsky. É evidente que o que levou ao impeachment de
Clinton não foi a divulgação do caso, mas uma série de violações de segunda
ordem feitas em relação a uma investigação de abuso sexual iniciada por Paula
Jones. No decurso dessa investigação Clinton testemunhou sob juramento
dizendo que não havia tido relações sexuais com Monica Lewinsky, ficando
vulnerável para a acusação de perjúrio, entre outras. Mas o que emergiu no
decurso dessa longa saga foi o desvendamento sem precedentes das interações
privadas entre o Presidente e uma jovem nos aposentos da Casa Branca, uma
revelação que chocou a maioria das pessoas comuns – ainda que, ao mesmo
tempo, muitos acreditassem que o escândalo tinha sido extrapolado por uma
mídia agressiva, preocupada com o desvio de conduta sexual de Clinton, por
um time de jornalistas investigativos persecutórios liderados por um homem
altamente conservador e disposto a agir, e por um congressista.

DISPUTAS POR VISIBILIDADE NA ERA MIDIÁTICA


Usei o exemplo do escândalo político para ilustrar alguns aspectos da nova
visibilidade instaurada com o desenvolvimento das mídias comunicacionais.
Vivemos hoje num tempo de alta visibilidade midiática, e aqueles que estão
em posição de relevo na vida pública ou aspiram a uma se vêem agindo num
ambiente de informação que é muito diferente do que existia há séculos (ou
mesmo há décadas atrás). Graças ao desenvolvimento de diversas formas de co-
municação mediada e ao surgimento de inúmeras organizações mediáticas com
relativa independência em relação ao poder estatal, o ambiente da informação
está mais intenso, mais extensivo e menos controlável do que no passado. É
mais intenso no sentido de que a quantidade de fluxos de informação é maior
do que antes, à medida que as organizações e redes de comunicação dispo-
nibilizam um volume crescente de material simbólico. É mais extensivo no
sentido de que o número de indivíduos incluídos nessas redes de comunicação
e que são capazes de receber o produto das organizações mediáticas é maior do
que há um século (ou mesmo há algumas décadas) atrás, e no sentido de que
houve ampliação geográfica no número desses receptores: hoje, a informação
flui muito rapidamente por redes que não são apenas nacionais mas, cada
vez mais, de espectro global. O ambiente de informação é menos controlável
no sentido de que, dada a proliferação das formas mediadas e das redes de
comunicação é muito mais difícil para que os atores políticos encubram suas
atividades, muito mais difícil controlar as imagens e as informações levadas
ao domínio público e muito mais difícil de prever as conseqüências dessas
aparições e divulgações.

36 MATRIZes N. 2 abril 2008


DOSSIÊ

O domínio público por si só transformou-se num espaço complexo de


fluxo de informação no qual palavras, imagens e conteúdos simbólicos dis-
putam atenção à medida que indivíduos e organizações procuram ser vistos e
ouvidos (ou procuram fazer outros serem vistos e ouvidos). Este é um espaço
moldado não somente pela mudança constante nas tecnologias, que permitem
que palavras e imagens sejam gravadas e transmitidas para outros que estejam
distantes, mas também pelas instituições e organizações que têm interesse em
transmitir este conteúdo (ou não, conforme o caso) e que têm diferentes níveis
de poder e de recursos para atingir seus objetivos. Conquistar visibilidade pela
mídia é conseguir um tipo de presença ou de reconhecimento no âmbito público
que pode servir para chamar a atenção para a situação de uma pessoa ou para
avançar a causa de alguém. Mas, da mesma forma, a inabilidade em conquistar
a visibilidade através da mídia pode condenar uma pessoa à obscuridade – e, no
pior dos casos, podem levar a um tipo de morte por desaparecimento. Assim,
não é surpresa que a disputa por visibilidade assumiu tal importância em nos-
sas sociedades hoje. A visibilidade mediada não é apenas um meio pelo qual
aspectos da vida social e política são levados ao conhecimento dos outros: ela
se tornou o fundamento pelo qual as lutas sociais e políticas são articuladas e
se desenrolam.
A batalha brutal de palavras e imagens emergindo com a guerra do Iraque
ilustra muito bem que, na era moderna de uma visibilidade mediada, a luta
para ser visto e ouvido, e a luta para fazer com que os outros vejam e ouçam,
tornou-se uma parte inseparável dos conflitos sociais e políticos de nosso tempo.
E ela ilustra ainda muito bem que, num mundo onde as redes de comunicação
e os fluxos de informação tornaram-se tão complexos e interconectados, é im-
possível para qualquer partido controlar completamente as palavras e imagens
que circulam no espaço público. A visibilidade das ações e eventos, o impacto
dessas palavras e imagens na forma como os indivíduos comuns entendem
o que está acontecendo em regiões distantes e na forma como moldam suas
opiniões e julgamentos morais sobre tais situações têm se tornado, no tempo
presente, uma parte inseparável do decurso dos eventos em si.

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A nova visibilidade

REFERÊNCIAS
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38 MATRIZes N. 2 abril 2008