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GESTÃO DO CONHECIMENTO

PÓS-GRADUAÇÃO – 2011

LEITURA FUNDAMENTAL – AULA 1

GESTÃO DO CONHECIMENTO E DO CAPITAL INTELECTUAL

NATÉRCIA GUIMARÃES GOMIDE

Para citar este texto:

GOMIDE, Natércia Guimarães. Gestão do Conhecimento e do Capital Intelectual. Departamento de


Extensão e Pós-Graduação. Valinhos, SP: Anhanguera Educacional, 2011.

PARECER TÉCNICO PREPARAÇÃO GRÁFICA DIRETORIA DE EXTENSÃO E PÓS-


GRADUAÇÃO
Yaeko Osaki Lusana Veríssimo
Silvio Cecchi
REVISÃO GRAMATICAL Renata Galdino

Correspondência/Contato
Alexandre Rocha Wellington Lopes
Alameda Maria Tereza, 2000, Valinhos, São Paulo

CEP. 13.278-181, Tel.: 19 3512-1700

© DIREITOS RESERVADOS

Proibida a reprodução total ou parcial desta publicação sem o prévio consentimento, por escrito, da Anhanguera Educacional.

Publicação: Março de 2011.


GESTÃO DO CONHECIMENTO E DO CAPITAL INTELECTUAL

1. INTRODUÇÃO À GESTÃO DO CONHECIMENTO


A gestão do conhecimento é um tema novo no contexto empresarial; contudo, já
comprovou a sua importância para o desenvolvimento organizacional, através da
geração de capital intelectual no ambiente corporativo. Esta nova vertente de gestão
surgiu no início da década de 1990, e não se constitui em mais um modismo de
eficiência operacional; mais do que isto, faz parte da estratégia empresarial do mundo
pós-moderno. Desta forma, fica explícito o seu valor como uma técnica de gestão que
auxilia as organizações a se posicionar competitivamente frente aos desafios
mercadológicos contemporâneos.

No século XX houve uma grande transformação no macro ambiente sócio-econômico,


podendo este, ser considerado um período revolucionário no que se refere às formas
de produção e relações de trabalho. Todas essas mudanças mundiais impactaram
significativamente no ambiente corporativo, gerando novas necessidades, dentre elas
a de se fazer a gestão do conhecimento, com o objetivo de aumentar as competências
distintivas das organizações.

Os modelos sócio-econômicos anteriores não concediam grande ênfase ao


conhecimento. Nas economias de natureza agrícola, a terra era a principal fonte de
riqueza; posteriormente, na era industrial, a tecnologia passou a ter fundamental
importância, fazendo com que o capital se tornasse a força motriz do desenvolvimento
econômico. Na atualidade a revolução da comunicação e a informatização obrigaram
as empresas a se adaptar à realidade vigente; para isso; foi necessário criar novos
modelos de gestão empresarial e práticas gerenciais.

A evolução dos meios de produção fez com que o trabalho braçal fosse substituído
pelas máquinas e o mental de certa forma passou a ser realizado pelos computadores;
diante disso, o trabalhador assumiu um novo papel neste cenário, que foi o de
contribuir com ideias, gerando ações inovadoras com o objetivo de maximizar o
desenvolvimento organizacional. Estas demandas são consequência do aumento da
comunicação entre os países, do desenvolvimento de novas tecnologias, e também
das mudanças da base econômica, que deixaram de se apoiar apenas na produção
agrícola e industrial, sendo também necessária a produção de informação, serviços e
conhecimentos.

No período industrial a principal premissa se constituía no trabalho rápido e na


produção em grande escala; porém, a globalização transformou os níveis de exigência
do mercado, e a quantidade cedeu espaço à qualidade. Com isso, as empresas
precisaram aprender a trabalhar de forma inteligente, ampliando a necessidade do
aprendizado para a realização do trabalho. A geração de informações e a distribuição
do conhecimento se fizeram necessárias, rompendo com os modelos antigos de
reserva do mercado sobre o saber.

Na sociedade do conhecimento, o serviço, a qualidade e a criatividade são alguns dos


principais elementos que asseguram o sucesso de uma organização. As ideias
passaram a ser moeda corrente e o conhecimento se tornou um dos fatores de
produção mais importantes.

Na atualidade, as atividades que geram mais valor e produzem riqueza para indivíduos
e sociedade são as provenientes da inovação, ou seja, da capacidade de utilizar o
conhecimento agregado aos produtos e serviços oferecidos, e é isto, que concede
destaque ao trabalho intelectual e à gestão do conhecimento. Desta forma, a era da
informação tem como base a comunicação e o conhecimento, e o seu principal
personagem é o homem. Na Sociedade do Conhecimento é necessário que este seja
incorporado não apenas como mais um fator de produção, mas sim, como fator
essencial do processo de produção e geração de riqueza.

No modelo econômico contemporâneo o capital intelectual de uma empresa


representa diferencial de mercado, demonstrando a importância de se adotar um papel
proativo para o desenvolvimento das competências críticas humanas, maximizando a
inteligência organizacional requerida para o sucesso do negócio.

Na era da informação, o conhecimento é novo motor da economia mundial, fazendo


com que o capital humano passe a representar o maior ativo corporativo, a partir do
seu conhecimento e know-how. As pessoas se constituem no principal diferencial
competitivo, considerando que são elas que aprendem e podem abrir espaço para o
compartilhamento do saber nas empresas, contribuindo assim para que o aprendizado
coletivo se transforme em capital intelectual. Para que isso aconteça, as empresas
precisam promover o aprendizado em seu ambiente, gerando possibilidade de
desenvolvimento contínuo, assegurando a sustentação de suas vantagens
competitivas, oportunizando o crescimento pessoal e o desenvolvimento profissional.

Na sociedade do conhecimento, a educação para o “pensar” é o que promove a


prosperidade, tornando a aprendizagem organizacional uma necessidade. Dentro
deste novo conceito, o valor não está na aprendizagem adaptativa, mas
principalmente na generativa, que expande a capacidade da organização para a
criação do futuro.

A gestão do conhecimento é definida por Angeloni (2002, p. XVI) como sendo “um
conjunto de processos que governa a criação, a disseminação e a utilização de
conhecimentos no âmbito das organizações”.

A gestão do conhecimento abrange várias áreas temáticas que se inter-relacionam,


como a gestão por competências, a educação corporativa e a aprendizagem
organizacional, as quais contribuem para o desenvolvimento do capital intelectual da
empresa, maximizando a sua inteligência competitiva.
2. DIFERENÇA ENTRE DADO, INFORMAÇÃO E
CONHECIMENTO
Para se compreender a gestão do conhecimento, é de suma importância estabelecer a
diferenciação conceitual entre dado, informação e conhecimento. O dado pode ser
considerado uma sequência de símbolos, sejam códigos decifráveis ou não. As letras,
imagens, sons e animação são considerados dados, que podem ser descritos através
de representações formais, estruturais. Contudo, os dados não são somente códigos
agrupados, são também uma base ou uma fonte para a formação das informações. Os
dados se constituem no registro dos aspectos de um fenômeno estudado, captado por
um investigador, correspondendo a uma anotação direta das observações; porém,
trazem consigo pouca elaboração ou tratamento, permitindo apenas a compreensão
dos acontecimentos concretos.

Para Santiago Jr. (2004, p. 28),

os dados, no contexto organizacional, são descritos como registros de


transações, pois apenas descrevem parte daquilo que aconteceu. Não
fornecem julgamento, nem interpretação e tão pouco, qualquer base
sustentável para a tomada de ação ou decisão. Dados não dizem nada
sobre a sua própria importância, porém são importantes para a
organização, a partir do momento que são a matéria-prima essencial
para a criação da informação.

Os dados são uma sequência de números e/ou palavras, sob nenhum contexto
específico. Para que tenham valor e sejam compreendidos, precisam ser
transformados em informação; para isso, precisam ser operacionalizados logicamente.

A informação é a decodificação dos dados, organizando-os, analisando-os e


transformando-os. Uma vez tratados, os dados permitem deduções e inferências
lógicas confiáveis. Desta forma, a informação é a leitura daquilo que o conjunto de
dados parecem indicar, sendo uma abstração informal, que apresenta significado para
alguém por meio de textos, imagens, sons ou animação.

A informação, normalmente, é desprovida de significado e o seu valor


é baixo.[...] A informação tem por finalidade exercer algum impacto
sobre o julgamento do destinatário. Ela deve informar, por isto pode
ser considerada como sendo o dado que faz a diferença, pois ao
contrário deste, ela possui relevância e propósito. Dados só se
tornam informação a partir dos seguintes métodos:
. contextualização – definição da finalidade dos dados coletados;
. categorização – conhecimento da unidade de análise;
. cálculo – análise matemática dos dados;
. correção – eliminação das imprecisões e erros;
. condensação – sumarização dos dados existentes.
(SANTIAGO Jr., 2004, p. 28)

As informações servem de base para construção do conhecimento, e todo esse


processo se dá através da interação e da comunicação, o que significa dizer, que as
informações absorvidas, representam aquilo que o indivíduo captou de alguma forma
em algum processo de comunicação.
O conhecimento por sua vez, é a interpretação de uma informação, sendo uma
abstração interior, relacionada a alguma coisa existente no mundo real com o qual se
tem uma experiência direta. O conhecimento representa os argumentos e explicações
sobre a interpretação de um conjunto de informações, que formam conceitos e
raciocínios lógicos essencialmente abstratos, que interligam e dão significado a fatos
concretos. Desta forma, o conhecimento é pessoal, e se refere a algo que foi
experimentado por um indivíduo, sendo, portanto, difícil de ser descrito na íntegra.

O conhecimento está associado a uma intencionalidade, ou seja, é uma informação


com propósito ou utilidade; por isso, não depende apenas de uma interpretação
pessoal, requerendo vivência do objeto do conhecimento. O conhecimento é subjetivo,
e somente o indivíduo é consciente de seu próprio conhecimento, sendo o único capaz
de descrevê-lo de forma parcial e também conceitualmente em termos de informação.

O conhecimento pode ser aprendido como um processo ou como um produto, quando


se refere à acumulação de teorias, ideias e conceitos. Um produto é resultado de um
processo, que representa a atividade intelectual através da qual é feita a apreensão de
algo exterior ao indivíduo. O conhecimento inclui, mas não se restringe a descrições,
hipóteses, conceitos, teorias, princípios e procedimentos, e é constituído a partir do
encontro da consciência (sujeito) com o objeto, ou seja, é aquilo que se conhece de
algo ou alguém. O conhecimento é a relação que se estabelece entre o indivíduo que
conhece ou deseja conhecer, e o objeto a ser conhecido ou que se dá a conhecer.

Santiago Jr. (2004, p. 29) afirma que

o conhecimento é uma mistura fluida de experiências, valores,


informações contextualizadas e insights. Ele possibilita a existência
de uma estrutura que permite a avaliação e incorporação de novas
experiências e informações. [...] Nas organizações ele está presente
não apenas em documentos, mas também em rotinas, processos e
práticas.

O conhecimento é a matéria-prima que permite o desenvolvimento organizacional, e


por isso, passou a se constituir em um ativo importante e indispensável para todas as
empresas. Entretanto, Santiago Jr. (2004, p. 27) comenta que

o entendimento sobre a importância do conhecimento em uma


organização passa necessariamente pela clareza de alguns conceitos,
dentre os quais é possível destacar, o da criação e registro dos
conhecimentos relevantes para a organização e o mapeamento das
pessoas que „possuem‟ esses conhecimentos.

Segundo Davenport e Prusak (1998) apud Santiago Jr. (2004, p. 29), a transformação
da informação em conhecimento é possível a partir da:

 comparação – entendimento sobre como as informações relativas a um


determinado assunto podem ter alguma relação ou aplicação em outras situações;

 consequência – implicação que determinada informação pode trazer para a


tomada de alguma decisão e/ou ação;
 conexão – relação entre a informação adquirida e um conhecimento já existente;

 conversação – interpretação daquela informação a partir do entendimento sobre o


que as pessoas pensam sobre ela.

O processo de construção do conhecimento envolve originalmente os dados, que são


considerados, como a matéria-prima, que permite que operações lógicas os
transformem em informações, as quais, após interpretação, geram o conhecimento.
Essa trajetória forma uma ponte entre o empírico e o teórico, como mostra a Figura 1.

Figura 1 – Processo de construção do conhecimento

OPERAÇÕES LÓGICAS INTERPRETAÇÃO

DADOS INFORMAÇÃO CONHECIMENTO

Fonte: Adaptada pela autora - http://www.vademecum.com.br/iatros/Saber.htm

Resumindo, a diferença fundamental entre dados, informação e conhecimento é que


dados são elementos que descrevem um evento; a informação envolve coleta,
classificação e aglutinação de dados para se alcançar determinado objetivo; e o
conhecimento é a interpretação de um conjunto de informações logicamente
interligadas a fatos.

2.1 CATEGORIAS DE CONHECIMENTO

O conhecimento se forma na busca da decodificação de uma dada realidade, e pela


diversidade, complexidade e amplitude desta, é possível classificar o conhecimento
em uma série de categorias: empírico, científico, filosófico e teológico.

Conhecimento empírico – também conhecido como popular, é proveniente do senso


comum, conforma-se com a aparência, sem compromisso com uma análise
metodológica. É subjetivo, sendo que o próprio sujeito organiza suas experiências e
conhecimentos, não visando a sua sistematização. Não pressupõe reflexão, haja vista
que é uma forma de apreensão passiva, acrítica e superficial.

Conhecimento científico – lida com ocorrências e fatos, procurando provas


concretas e explicações, prezando pela apuração e constatação, alicerçando-se em
metodologias. É um estudo sistemático, ordenado logicamente, que forma um sistema
de ideias. Suas proposições ou hipóteses são validadas pela experimentação, sendo
que o desenvolvimento de novas técnicas pode reformular o acervo das teorias
existentes. Busca por leis e sistemas, com o objetivo de explicar de modo racional o
objeto de estudo.

Conhecimento filosófico – é de cunho valorativo, associado à construção de ideias e


conceitos, buscando por verdades do mundo por meio da indagação e do debate,
formando um conjunto de enunciados correlacionados logicamente. Visa uma
representação coerente da realidade estudada, na tentativa de apreendê-la em sua
totalidade. Procura responder às grandes indagações do espírito humano, buscando
leis mais universais que englobem e harmonizem as conclusões da ciência.

Conhecimento teológico – também chamado de conhecimento religioso, parte do


princípio de que as verdades tratadas são infalíveis e indiscutíveis, por consistirem em
revelações da divindade, do sobrenatural. Compreende um conhecimento sistemático
do mundo (origem, significado, finalidade e destino) como obra do criador divino,
apoiando-se em doutrinas que contêm proposições sagradas, valorativas. Baseia-se
em experiências espirituais, históricas, arqueológicas e coletivas que lhes dá
sustentação. O conhecimento teológico é considerado infalível, dogmático e exato.

3. DEFINIÇÕES DE CONHECIMENTO TÁCITO E EXPLÍCITO


A capacidade de pensar diferencia o ser humano dos demais organismos vivos.
Nesse aspecto, é importante refletir sobre as ideias de Piaget (apud CAMPOS, 2010),
sobre a atividade intelectual, que é um exemplo de adaptação biológica do ser
humano ao ambiente. As estruturas cognitivas não são formações biogeneticamente
determinadas, mas estão programadas para interação ambiental e iniciam seu
desenvolvimento a partir das experiências de uma criança ao seu ambiente. Todos os
organismos vivos acionam os processos de organização e adaptação durante sua
interação com o ambiente. No campo do pensamento, ocorrem os processos de
assimilação e adaptação. No processo de assimilação, o organismo manipula o
mundo exterior para poder torná-lo semelhante a si próprio. Para essa adaptação,
ocorre a acomodação, modificando-se para se tornar semelhante ao ambiente. A
assimilação e a acomodação são processos que se complementam. Então, a
adaptação resulta do equilíbrio entre a assimilação e a acomodação, o que Piaget
chama de equilibração.

As ideias de Piaget parecem estar relacionadas às ideias de Takeuchi e Nonaka


(2008) a respeito da criação e utilização do conhecimento.

O conhecimento pode ser apresentado de duas formas: tácito ou explícito (TAKEUCHI


e NONAKA, 2008).

O conhecimento tácito vem do latim tacitus e significa “não expresso por palavras”. É
o conhecimento adquirido ao longo da vida, e está na cabeça das pessoas, sendo
difícil ser formalizado, explicado ou externalizado por intermédio de palavras para
outras pessoas. É inerente às habilidades de uma pessoa, é o seu know-how, isto
ocorre pelo fato de ser um conhecimento subjetivo e não mensurável adquirido com o
passar dos anos através da experiência de vida. Este tipo de conhecimento é valioso,
de difícil captura, registro e divulgação, e a melhor forma de transmiti-lo é através da
convivência, dos contatos e interações estabelecidas nos grupos. Como exemplo,
podemos citar os habitantes das regiões rurais que, a partir da observação do céu, ou
do cheiro da mata conseguem saber se vai ou não chover; ou ainda, o pescador que,
mesmo descendo um rio pela primeira vez, consegue identificar os tipos de peixe
comuns naquele tipo de água, e os locais mais prováveis para a sua pesca.

O conhecimento explícito vem do latim explicitus e significa “formal, explicado,


declarado”. É o conhecimento formal, claro, fácil de ser comunicado, e geralmente
está guardado em bases de dados ou publicações, sendo registrados nos livros,
manuais, documentos, desenhos, diagramas etc. Alguns autores consideram que este
tipo de conhecimento é a própria informação, ou seja, informações que alguém em
algum momento, escreveu, publicou e tornou acessível. Exemplos de conhecimento
explícitos podem ser considerados os manuais, livros, POPs (procedimento
operacional padrão), livros de receitas, dentre outros.

Para diferenciar os dois tipos de conhecimento é necessário considerar o que uma


pessoa faz muito bem, e que a torna especial, como um craque nos esportes, que
consegue se diferenciar e destacar em uma partida. Esse conhecimento pode ser
observado; contudo, é difícil de ser copiado, é como se a pessoa simplesmente
soubesse. Por outro lado, aprender a cozinhar, dirigir ou utilizar o computador, é um
conhecimento mais fácil de ser repassado através de um manual ou um roteiro de
instrução.

Os dois tipos de conhecimento se relacionam e se complementam, sendo


praticamente impossível mensurá-los distintamente.

4. A ESPIRAL DO CONHECIMENTO
A partir da compreensão do conhecimento tácito e explícito, Nonaka e Takeuchi (1997)
desenvolveram a espiral do conhecimento, que é um modelo dinâmico que demonstra
como o conhecimento humano se inova e se expande por meio da interação social.
Considerando o conhecimento como resultado do processamento de informações, os
autores partiram da premissa de que o conhecimento é criado e ampliado através da
interação entre os conhecimentos tácitos e explícitos. As relações sociais
estabelecidas entre as pessoas de uma organização processam o conhecimento tácito
e explícito, expandindo-o tanto em termos de qualidade quanto de quantidade.

Para explicar este modelo teórico são propostos quatro processos de conversão
existentes entre esses dois tipos de conhecimento:

. socialização – que é a transformação de conhecimento tácito em tácito;

. externalização - que é a transformação do conhecimento tácito em explícito;


. combinação – que é a transformação de conhecimento explícito em explícito; e

. internalização - que é a transformação do conhecimento explícito em tácito.

A espiral do conhecimento se baseia no comprometimento pessoal nos quatro modos


de conversão entre conhecimento tácito e explícito, e envolve o indivíduo, o grupo, a
organização e o ambiente. A Figura 2 apresenta os quatro processos de conversão do
conhecimento.

Figura 2 – Os quatro processos de conversão do conhecimento

Fonte: Adaptado de Takeuchi e Nonaka, 2008, p. 60.

A socialização ocorre quando há interação entre conhecimentos tácitos entre duas


ou mais pessoas. Normalmente o conhecimento é compartilhado quando acontece o
diálogo, a comunicação “face a face”. É a troca de experiências e modelos mentais
entre pessoas ou grupos. Por meio da socialização, as experiências são
compartilhadas e o conhecimento tácito surge a partir de novas estruturas cognitivas,
novos modelos mentais e/ou o desenvolvimento de habilidades técnicas. A experiência
constitui a essência desse modo de aprendizagem.

A externalização é um dos mais relevantes processos de conversão do


conhecimento, pois oportuniza a multiplicação do saber. A externalização é a
conversão de parte do conhecimento tácito do indivíduo em algum tipo de
conhecimento explícito. O compartilhamento do conhecimento conceitual acontece por
meio de representação simbólica do conhecimento tácito, através de modelos,
conceitos e hipóteses, construídos por meio de dedução/indução ou
metáforas/analogia, utilizando planilhas, textos, imagens, figuras e relatos orais, se
valendo também da linguagem figurada, na tentativa de externalizar a maior fração de
conhecimento tácito.

A combinação é o que possibilita o agrupamento e o registro do conhecimento. É o


processo de interação entre conhecimentos explícitos, gerando novos conhecimentos,
e ocorre quando são abordadas teorias ligadas ao processamento da informação. Este
conhecimento sistêmico acontece por meio de agrupamento, classificação,
sumarização e processamento de diferentes conhecimentos explícitos. Esse é o
processo pelo qual o conhecimento é combinado por meio de troca de documentos,
reuniões, conversas ao telefone ou em redes de comunicação.

A internalização é o processo de incorporação do conhecimento explícito ao


conhecimento tácito, e se relaciona diretamente com o “aprender fazendo”. O
aprendizado ocorre a partir de consultas aos registros do conhecimento, convertendo
parte do conhecimento explícito da organização em conhecimento tácito para o
indivíduo. A operacionalização do conhecimento é obtida através de leituras de
documentos, textos, imagens, dentre outros, requerendo a re-interpretação e re-
experimentação individual de vivências e práticas.

Estes modelos de conversão transformam o conhecimento tácito e o explícito,


possibilitando que o aprendizado individual se torne coletivo e vice-versa, permitindo
efetuar tarefas que não poderiam ser realizadas isoladamente.

Ao analisarmos a espiral do conhecimento, é possível observar uma sequência lógica,


através da socialização; o conhecimento tácito é trocado e posteriormente convertido
em explícito através da externalização, iniciando assim o processo de combinação
deste novo conhecimento ao anteriormente adquirido, gerando novos conhecimentos
para a organização, e finalmente este novo conhecimento será internalizado e
transformado em manuais, documentos, normas etc. O aspecto dinâmico e contínuo
deste processo é o que caracteriza a espiral do conhecimento, pois quando um ciclo
se fecha, inicia-se um novo ciclo que permite que o conhecimento se efetive.

A conversão do conhecimento requer pessoas envolvidas e motivadas para que haja


plena disseminação do conhecimento na empresa, promovendo um ambiente propício
à colaboração.

5. ATIVOS TANGÍVEIS E INTANGÍVEIS E AS RELAÇÕES COM


O CONHECIMENTO
A sociedade do conhecimento é uma economia onde a criação e o uso do
conhecimento se constitui no ponto focal das decisões e do crescimento econômico, e
a valorização do conhecimento transformou a percepção sobre os ativos
organizacionais.

A intensificação da tecnologia e do conhecimento fez com que os bens e serviços que


produzimos e consumimos sejam cada vez mais intangíveis. É importante ressaltar
que isso não se refere apenas às indústrias de software, computação ou similares,
mas sim a capacidade de inovar, criando novos produtos e serviços, explorando novos
mercados, o que se aplica a todos os tipos de indústria, comércio e serviços, sem
distinção. Isto demonstra que a competitividade se baseia cada vez mais na
capacidade de transformar informações em conhecimento, e conhecimento em
decisões e ações estratégicas de negócio, diferenciando o valor dos produtos pela
capacidade de inovação, tecnologia e inteligência a eles incorporada.

Os ativos tangíveis são visíveis, como equipamentos, espaço físico etc. Possuem valor
de mercado expresso no balanço patrimonial, e pode ser mensurado pelo modelo
contábil. Os ativos intangíveis são os componentes do capital intelectual, como:
conhecimentos, experiência e expertise dos colaboradores, patentes, competências,
informações estratégicas, dentre outras. Os ativos intangíveis não são visíveis, mas
são percebidos pelo mercado, embora sejam mais complexos de avaliação, por se
tratar de conceitos, serviços, modelos, sistemas administrativos, os processos, dentre
outros.

A inteligência organizacional é um ativo intangível, pois transforma informações


desagregadas em conhecimento estratégico, melhorando o posicionamento de
mercado e o desempenho organizacional. Por isso, é necessário que a empresa
concilie o interesse de todos os agentes envolvidos na empresa, identificando e
resolvendo os problemas, empreendendo ações coletivas que visem captar situações
que consigam aperfeiçoar, conceber, implantar e operacionalizar o aperfeiçoamento
de seus sistemas, utilizando recursos intelectuais, materiais e/ou financeiros.

A administração moderna se preocupa com o monitoramento do conhecimento


organizacional, pois compreende que os ativos intangíveis representam vantagem
competitiva. Os ativos intangíveis estão respaldados na habilidade intelectual das
pessoas, na aprendizagem organizacional, e no investimento em pesquisa e
desenvolvimento que promovem a criatividade e a inovação, e fazem com que a
organização se torne competitiva em ambientes cada vez mais desafiadores. Uma
organização do conhecimento precisa investir em estruturas de conhecimento,
fazendo com que os seus ativos intangíveis sejam maiores que os tangíveis.

O aumento do desempenho de uma empresa tende a ser diretamente proporcional ao


aprendizado organizacional. Por isso, é importante monitorar continuamente o
conhecimento organizacional. A habilidade intelectual das pessoas, a aprendizagem, a
criatividade e a inovação representam vantagem competitiva. Quando pessoas e/ou
equipes estão aprendendo, a perspectiva é de que o seu desempenho melhore.
Contudo, é importante ressaltar que o desempenho é exigido no curto prazo, e o
aprendizado por ser processo, só aparece no médio e longo prazo. Desta forma, as
organizações baseadas na aprendizagem precisam investir continuamente na
promoção, geração e disseminação do conhecimento, para que o aprendizado de hoje
transforme o desempenho de amanhã.

O capital intelectual se expande a partir da identificação, captura, disponibilização e


utilização extensiva da informação e do conhecimento, e à medida que estas questões
vão se estabelecendo na prática, a empresa vai adquirindo inteligência e aumentando
o seu potencial para transformação, como forma de diferencial competitivo. Para isso
é importante identificar os recursos intelectuais de acordo com a proposição das
estratégias para se desenvolver a inteligência organizacional.

As empresas inteligentes precisam ser criativas e inovadoras, para superar os


desafios impostos pelo ambiente de alta competitividade, gerando novas soluções,
concedendo um atendimento diferenciado, desenvolvendo novos produtos e serviços,
criando processos exclusivos com o objetivo de satisfazer sua cadeia de valor. Essas
ações fazem com que o capital intelectual se constitua como uma competência
distintiva.

6. CONCLUSÕES
Como vimos, o conhecimento é um emaranhado de significados que o indivíduo
constrói ao longo da vida, por meio da interpretação da realidade, fixando explicações
e relacionando-as a outras. A mescla de experiências, valores, informações
contextualizadas e insights possibilitam a existência de novas estruturas, e permitem a
avaliação e incorporação de novas experiências e informações.

A gestão do conhecimento e a geração de capital intelectual são fundamentais para


que a organização supere seus desafios externos e transponha seus obstáculos
internos. A inteligência organizacional se apóia na criação do conhecimento
organizacional, e precisa ser potencializada por intermédios do aprendizado contínuo,
se adaptando e inovando em uma ação dinâmica e dialética.

A formação da inteligência organizacional é interativa e agregadora, constituindo-se


em uma complexa coordenação das inteligências humanas, redes e sistemas em prol
de resultados positivos. A interação entre pessoas e pessoas; pessoas e máquinas; e
máquinas e máquinas constituem-se em um ciclo contínuo de atividades em interação.

O capital intelectual de uma empresa se forma a partir da geração coletiva do


conhecimento e se constitui em um ativo intangível de inestimável valor. O
conhecimento, a experiência aplicada, as tecnologias organizacionais, relacionamento
com clientes e competências profissionais concedem vantagem competitiva no
mercado. Embora não tenha valor contábil e seja de difícil mensuração, aumenta o
potencial de mercado concedido a uma empresa, quando se converte em um ativo de
geração de valor para a organização.
7. REFERÊNCIAS
ANGELONI, Maria Terezinha (coord.). Organizações do conhecimento: infra-estrutura,
pessoas e tecnologias. São Paulo: Saraiva, 2002.

CAMPOS, Dinah Martins de Souza. Psicologia e desenvolvimento humano. Petrópolis:


Vozes, 2010.

NONAKA, Ikujiro; TAKEUCHI, Hirotaka. Criação de conhecimento na empresa: como as


empresas japonesas geram a dinâmica da inovação. Rio de Janeiro: Campus, 1997.

______. Gestão do conhecimento. Porto Alegre: Bookman, 2008.

SANTIAGO Jr., José Renato Sátiro. Gestão do conhecimento: a chave para o sucesso
empresarial. São Paulo: Novatec Editora, 2004.

SAPIRO, Arão. Inteligência empresarial: a revolução informacional da ação competitiva.


Revista de Administração de Empresas, 33, p. 106-124, maio-jun. 1993.

SVEIBY, K. E.. A nova riqueza das organizações. Rio de Janeiro: Campus, 1998.

STEWART, Thomas A. Capital intelectual: a nova vantagem competitiva das empresas. Rio de
Janeiro: Campus, 1988.

TERRA, José Cláudio Cyrineu. Gestão do conhecimento: o grande desafio empresarial. Rio
de Janeiro: Negócio, 2000.

______. A criação de portais corporativos de conhecimento. In: Simpósio Internacional de


Gestão do Conhecimento e Gestão de Documentos, Curitiba, 2001. Anais. Curitiba: PUC-
PR/CITS.

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