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Contabilidade

A Versão Portuguesa das Normas Internacionais


de Relato Financeiro

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Gastambide Fernandes Contabilidade

Têm surgido não só em diversos órgãos de comuni- Apesar da existência de directivas europeias de
cação como em reuniões públicas várias críticas à natureza contabilística, a linguagem contabilística
versão portuguesa das Normas Internacionais de adoptada pelos vários Estados Membros enfermava
Relato Financeiro (IFRS), publicadas no Jornal de uma falta clara de regras comuns que tornassem
Oficial das Comunidades sob a forma de a informação compreensível por todos e compará-
Regulamentos Comunitários. vel. Alguns responsáveis chegaram a afirmar que
nesta área se estava perante uma autêntica Torre
O objectivo do presente artigo é o de dar a conhe- de Babel.
cer o processo que foi seguido na tradução dessas
normas de contabilidade, que, como é do conheci- A realidade é que as directivas se revelaram insufi-
mento da maioria dos técnicos, foram produzidas cientes e incapazes de responder às necessidades
pelo International Accounting Standards Board crescentes de informação financeira num mundo em
(IASB) originariamente em língua inglesa. rápida evolução. Isto porque, por um lado o seu
Pretende-se, de uma forma indirecta, dar resposta processo de actualização não acompanhou o cons-
a essas críticas. Nelas, é por vezes difícil distinguir tante desenvolvimento dos mercados financeiros e
o que são as discordâncias quanto à tradução para de capitais, e por outro lado, elas não constituíam
português da versão original em língua inglesa, do propriamente um conjunto de normas conducente
que são as discordâncias quanto à substância des- ao pretendido objectivo de comparabilidade, dado
sas normas contabilísticas. Muitas vezes critica-se a o elevado número de opções que deixava à discri-
tradução, quando o que se está criticar são os con- ção quer dos Estados-Membros quer das próprias
ceitos e as soluções constantes dessas normas inter- empresas.
nacionais.
A decisão política da UE de adoptar as normas
A União Europeia aprovou em Junho de 2000 um internacionais de contabilidade foi a resposta pos-
conjunto de medidas que tinham a finalidade de sível à alternativa que seria humilhante da adopção
tornar a Europa mais competitiva num mercado pura e simples das normas americanas.
global em pleno crescimento, a chamada Estratégia
de Lisboa. Um dos pontos era a adopção das nor- A adopção das normas internacionais teve como
mas internacionais de contabilidade. As grandes consequência imediata a aplicação de normas con-
empresas europeias que negociavam nos principais tabilísticas que estavam fora do contexto tradicio-
mercados financeiros e de capitais mundiais expe- nal e da linha de pensamento contabilístico que
rimentavam sérias dificuldades face às exigências durante muitos anos vigorou nos países mais
das entidades reguladoras das grandes bolsas mun- influentes da Europa.
diais, no que se refere à qualidade e normalização
da informação financeira disponível aos investido- Em termos gerais, as novas normas não apresentam
res. A principal bolsa do mundo, a de Nova Iorque, diferenças muito substanciais ao que se vinha pra-
é extraordinariamente exigente quanto à qualidade ticando. Contudo em termos conceptuais e termi-
da informação financeira das empresas que nela nológicos representam um corte com toda a tradi-
negoceiam, obrigando as empresas a apresentar as ção contabilística existente. Trazem com elas um
suas contas preparadas de acordo com as normas conjunto de conceitos, de terminologia, de proces-
vigentes nos Estados Unidos. Acrescenta-se que sos e de regras que diferem sensivelmente da cultu-
mesmo com tais requisitos não foram evitados os ra existente. Até a forma de elaboração, de prepa-
escândalos financeiros de todos conhecidos. ração e de apresentação dessas normas é diferente.
Mas o que é inegável é que dão uma melhor respos-
ta às necessidades de informação dos mercados.

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Face a tal, e como se compreenderá, o processo de da Comissão que, como adiante se verá, foi compos-
tradução das normas internacionais foi algo com- ta por um número bastante alargado de elementos.
plexo, dada a nova realidade contabilística.

Neste artigo, aborda-se de uma forma muito geral


o problema da sua tradução dentro da UE, a orga- O PROBLEMA DAS TRADUÇÕES NA
nização do processo pelo IASB, a constituição da UNIÃO EUROPEIA
equipa portuguesa, e exemplifica-se com algumas
das principais dificuldades sentidas e as soluções Como é do conhecimento geral, não existe uma
encontradas. única língua oficial na União Europeia. No próprio
tratado constitutivo a solução encontrada foi a de
Crê-se que este conhecimento contribuirá para a considerar como oficiais todas as línguas dos países
atenuação de muitas críticas. Há soluções que não aderentes. Casos há de mais de uma língua do país
serão as melhores mas poderão ser as menos más. aderente (como exemplo, a Bélgica com duas lín-
As opiniões que são expandidas neste artigo são guas oficiais). Se atentarmos no actual número de
apenas da responsabilidade do seu autor, que foi Estados-Membros, facilmente compreendemos o
membro da Comissão de Revisão da Tradução, não problema que é para a União Europeia emitir qual-
vinculando de forma alguma os restantes membros quer documento oficial. Esse documento tem de ser

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publicado no Jornal Oficial em cada uma das lín-


guas, e qualquer das versões passa a ter a mesma 1. Selecção de uma organização contabilística que
força jurídica em todos eles. em cada país pudesse servir de interlocutor e
de coordenador do trabalho. No caso portu-
Para o efeito, existe um Departamento de especia- guês, a entidade escolhida foi a Ordem dos
listas em tradução, os intitulados tradutores juris- Revisores Oficiais de Contas, dados os seus
tas, que está encarregado da tradução oficial de antecedentes e de ser membro da International
todos os documentos, designadamente dos que se Federation of Accountants. Com a devida auto-
destinam a publicação no Jornal Oficial. rização do IASB, a OROC tinha vindo, desde
o aparecimento das normas internacionais, a
Quando foi tomada a decisão de adoptar as normas traduzir e divulgar essas normas à medida que
emitidas pelo IASB, cuja língua de origem é a iam sendo emitidas. Tinha também, algumas
inglesa, surgiu imediatamente, ao tempo, o proble- vezes, colaborado no processo da sua elabora-
ma de as traduzir em mais de uma dúzia de lín- ção, respondendo a consultas e inquéritos;
guas. Tal tarefa deve ter sido considerada incom-
portável pelos responsáveis da UE, dado tratar-se 2. Selecção, mediante um processo de consulta
de muito mais de um milhar de páginas de cariz curricular e de provas, com a colaboração da
técnico e com uma terminologia acessível apenas a OROC, de um profissional de tradução, de
pessoas com a devida formação. Para além disso, reconhecida qualidade, que, além de domínio
havia pressões no sentido da urgência. Os recursos bilíngue, tivesse um mínimo conhecimento das
de tradução da UE não estavam em condições de técnicas contabilísticas e financeiras. Devia
fazer o trabalho, mesmo com alargamento do pes- também dispor de modernas ferramentas infor-
soal (recorde-se que a UE também tem problemas máticas, a nível de programas apropriados de
orçamentais). tradução. Este profissional dependia directa
mente em termos orgânicos do departamento
A solução adoptada foi negociar com a entidade do IASB que em Londres fazia a coordenação
proprietária dos direitos das normas internacionais geral de todas as traduções. A sua relação com
de contabilidade, a International Accounting a OROC era meramente técnica e de mútua
Standards Committee Foundation, a sua tradução consulta.
nas várias línguas. A razão de peso era a experiên-
cia do IASB nesta matéria, uma vez que a nível 3. Constituição de uma equipa, denominada
nacional já existiam traduções, umas oficiais, Comissão de Revisão da Tradução das Normas
outras oficializadas e outras livres. Internacionais de Relato Financeiro, que defi-
nisse a tradução dos chamados key terms
(termos e expressões usados recorrentemente
nas normas) a qual seria posta à disposição do
ORGANIZAÇÃO DO PROCESSO DE profissional tradutor. Após uma primeira tra-
TRADUÇÃO PELO IASB dução, competia à Comissão fazer a revisão do
trabalho do tradutor. Essa equipa
De posse desta “encomenda”, o IASB organizou-se foi constituída por um coordenador e por ele
para lhe dar seguimento. Em termos gerais, descre- mentos de reputada experiência abrangendo as
ve-se o processo que, salvo situações pontuais, foi o mais vastas áreas do conhecimento contabilís-
mesmo para todos os países: tico;

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e que tivesse o indispensável apoio logístico. Basta


4. Criação, por via da internet, de um sítio com atentar nos prazos apertados para a tradução e a
uma área reservada, para remessa de todo o situação de dispersão dos membros da Comissão de
material, num sentido e noutro, bem como Revisão para ver que a solução não podia ter sido
para a troca de correspondência. outra.

A constituição da Comissão de Revisão foi negocia-


da com o IASB e submetida à sua aprovação.
CONSTITUIÇÃO DA EQUIPA DE Integra, além do referido coordenador geral, as
TRADUÇÃO DAS IFRS PARA seguintes entidades (por ordem indiscriminada):
PORTUGUÊS
• Os dois elementos que, a expensas da OROC,
Competindo à OROC a coordenação geral do tra- tinham vindo a participar na tradução das nor
balho em Portugal, esta indicou como coordenador mas existentes, muito antes de ser iniciado este
o responsável pelo seu Departamento Técnico novo processo;
(actualmente o elemento responsável é um membro
do Conselho Directivo), ou seja, um técnico que • Representantes das quatro maiores firmas
pudesse de forma pronta dar seguimento a todo o internacionais de serviços de contabilidade e
expediente e comunicações que fossem necessários auditoria (PricewaterhouseCoopers, Deloitte &
Touche, Ernst & Young e KPMG):

• Representantes da Comissão de Normalização


Contabilística;

• Representante da Câmara dos Técnicos


Oficiais de Contas;

• Representante da Comissão do Mercado dos


Valores Mobiliários;

• Representante do Banco de Portugal;

• Representante do Instituto de Seguros de


Portugal;

• Representante de Portugal no Comité de


Regulamentação Contabilística (organismo de
cariz técnico que na UE propõe o endosso da
normas contabilísticas).

Como se verifica houve a preocupação de que a


participação fosse o mais alargada possível sem
perder eficácia.

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Todos estes elementos tiveram acesso ao processo guagem mais acessível, poderia aparentemente
por via internet e intervieram sempre que o enten- conduzir na língua nativa a uma frase mais clara
deram. Os conflitos que se levantavam eram resol- e correcta, com melhor redacção, mas corria-se o
vidos, em última análise, pelo coordenador. Muitas risco de alterar, mesmo que seja de forma apa-
das questões foram transmitidas ao departamento rentemente insignificante, o sentido da frase ori-
do IASB responsável por todas as traduções. ginal. Algumas experiências mal sucedidas de
“boa tradução no sentido literário” obrigaram a
voltar atrás. Teve que se optar por uma tradução
literal, o que veio ainda facilitar o trabalho do
LIMITAÇÕES E DIFICULDADES DA tradutor profissional, dada a utilização de avan-
TRADUÇÃO çados programas informáticos de tradução;

Tendo em atenção o enquadramento indicado, b) O mesmo termo ou a mesma expressão têm de


houve que estabelecer um conjunto de regras espe- ter sempre a mesma tradução em qualquer
cíficas para este tipo de tradução especializada. norma. Como se compreende, daqui surgem gran-
Deve estar sempre presente que o texto tem impacto des dificuldades, pois não há na terminologia
na futura solução de conflitos (não esquecer que há contabilística uma correspondência biunívoca
tribunais europeus). Estas regras foram assumidas entre a língua inglesa e a portuguesa, nem, creio,
após a experiência das primeiras traduções. entre outras quaisquer línguas. As correspondên-
Indicam-se: cias são unívocas e multívocas. Basta citar o caso
de cost e expense, com sentidos diferentes na ter-
a) A tradução tem de ter rigor técnico e jurídico, minologia contabilística da língua inglesa, mas
e de forma alguma pode ser uma adaptação das que na terminologia contabilística portuguesa
normas internacionais às normas nacionais exis- têm um único termo correspondente que é o de
tentes. Tem de ser completamente independente. “custo”. Houve por isso que manter na tradução
Uma “melhor tradução”, isto é, num tipo de lin- a distinção, “custo” e “gasto”.

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c) As normas internacionais baseiam-se numa


estrutura conceptual expressa que tem bastan-
tes pontos de diferenciação com a estrutura
conceptual implícita na normalização portuguesa.
Basta atentar nos conceitos de activos, de pas-
sivos, de rendimentos, de crédito, reconhecimen
to, mensuração, etc. É difícil na tradução usar
um conceito, que embora vulgarizado no nosso
país, não teria na tradução o mesmo sentido e
âmbito. Por exemplo, que fazer ao termo portu-
guês proveito?
Traduzirá income? Traduzirá revenue?

d)Um caso flagrante da falta de sincronização


entre as normas nacionais portuguesas e as
normas internacionais diz respeito à termino-
logia usada quando se está perante a consolida-
ção de contas. Nas normas internacionais, as
contas do grupo (empresa mãe e subsidiárias)
são as contas consolidadas que se elaboram con-
solidando na empresa mãe as contas individuais
das subsidiárias. A empresa mãe pode, contudo,
apresentar contas separadas, que são contas em
que as suas subsidiarias (e associadas) são
contabilizadas em face apenas do interesse
directo de propriedade. Nas contas separadas,
as empresas não relatam os resultados obtidos
durante o período, mas apenas os distribuídos
de períodos anteriores, em face apenas do inte-
resse directo. Esta divergência de concepção e
de terminologia está a provocar grandes dificulda-
des não só em Portugal como em outros países da
União Europeia, pois as directivas comunitárias
também prevêem a existência de contas indivi-
duais nas entidades que consolidam. O problema statements que tem um significado diferente nas
está em discussão ao nível da UE, desconhecendo-se normas internacionais? A solução portuguesa foi
se já foi atingida a solução. Na tradução, a solu- também a que os colegas espanhóis adoptaram
ção adoptada pelos tradutores foi a de traduzir na tradução, sem que tivesse havido qualquer
separate statements por demonstrações separadas troca de opiniões.
da empresa mãe e não “demonstrações indivi-
duais” da empresa mãe, como à primeira vista Muitos outros exemplos se podiam invocar para
parecia ser indicado, face à terminologia nacional demonstrar as dificuldades havidas. O cerne do
consagrada. E se se traduzisse separate por problema continua a ser a existência de duas estru-
individual como se traduziria individual turas conceptuais não coincidentes em alguns

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aspectos. Creio firmemente que tal dificuldade conceptual em tudo semelhante à internacional.
desaparecerá, ou será quase totalmente eliminada, Espera-se assim que, após a divulgação do novo
quando a Comissão de Normalização Contabilística Sistema nacional, que vem substituir o Plano
der a conhecer o futuro Sistema de Normalização Oficial de Contabilidade, acabará a maioria das crí-
Contabilística, onde de uma forma louvável se faz ticas à versão portuguesa das IFRS.
uma grande aproximação às normas internacionais.
Este Sistema incorporará também uma estrutura

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Investimento em Acções - Tratamento


Contabilístico de Acordos com as Normas do
IASB

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1. INTRODUÇÃO lo, o qual deve ser entendido como o poder de gerir


as políticas financeiras e operacionais da entidade
As acções são um dos instrumentos financeiros de modo a obter benefícios das suas actividades.
mais utilizados pelas entidades portuguesas, quer
como aplicações financeiras de curto prazo quer A IAS 28 define associada como uma entidade
como investimentos de carácter permanente. sobre a qual o investidor tem uma influência signi-
ficativa e que não é nem uma filial nem um
Contudo, apesar da utilização frequente deste ins- empreendimento conjunto. A IAS 28, contraria-
trumento financeiro por parte das entidades, sub- mente ao normativo nacional, que é omisso, define
sistem ainda divergências e controvérsias no seu o conceito de influência significativa como o poder
tratamento contabilístico de acordo com as normas de participar nas decisões de política financeira e
nacionais. Também a nível internacional, as nor- operacionais, mas sem as poder controlar, e apre-
mas do International Accounting Standards Board senta situações e indicadores de existência de
(IASB) relativas a investimentos financeiros têm influência significativa. Presume-se que se um
sido sucessivamente revistas. investidor detém, directa ou indirectamente, 20%
ou mais dos direitos de voto da associada exerce
O objectivo deste artigo é o de identificar o trata- uma influência significativa, a não ser que possa ser
mento contabilístico dos investimentos em acções claramente demonstrado que tal influência não
de acordo com as normas do IASB, uma vez que o existe.
mesmo, nomeadamente na perspectiva do investi-
dor, continua a ser um assunto não isento de polé- Os outros investimentos em acções são os que não
mica. são de considerar como investimentos em filiais ou
em associadas, encontrando-se abrangidos pelas
IFRS 7, no que diz respeito à divulgação de infor-
mação, e pela IAS 39, no que diz respeito ao reco-
2. CLASSIFICAÇÃO DOS nhecimento, mensuração e eliminação.
INVESTIMENTOS EM ACÇÕES

As normas do IASB, coincidentes com a legislação


nacional quanto à classificação dos investimentos
em acções, identificam três tipos de investimentos: 3. TRATAMENTO CONTABILÍSTICO
investimentos em filiais (abrangidos pela IAS 27), DOS INVESTIMENTOS EM FILIAIS
investimentos em associadas (abrangidos pelas IAS
27 e 28) e os outros investimentos (abrangidos pela De acordo com a IAS 27, os investimentos em filiais
IAS 39). devem ser reconhecidos, regra geral, como activos
não correntes.
A IAS 27 define filial como uma entidade que é
controlada por uma outra, designada por entidade Contrariamente ao normativo nacional que identi-
mãe. A IAS 27, contrariamente ao normativo fica como critérios de mensuração dos investimen-
nacional, que é omisso, define o conceito de contro- tos em filiais os métodos do custo e de equivalên-

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cia patrimonial, a IAS 27 refere que, nas demons-


trações financeiras separadas1, os investimentos em
filiais devem ser mensurados inicialmente pelo
custo de aquisição e, subsequentemente, pelo méto-
do do custo ou pelo método do justo valor (IAS
39), excepto se os investimentos forem de classifi-
car como activos não correntes detidos para venda
(IFRS 5). A IAS 27 refere, contudo, que deve ser
adoptado o mesmo tratamento contabilístico para
cada categoria de investimentos.

A) MENSURAÇÃO PELO MÉTODO DO CUSTO

Caso a entidade opte por utilizar o método do


custo, os investimentos em filiais mantêm-se pelo
valor inicialmente atribuído. O investidor reconhe-
ce o rendimento do investimento apenas até ao
ponto em que o investidor recebe distribuições de
resultados acumulados da investida, após a data da
aquisição. As distribuições recebidas em excesso
são consideradas como uma recuperação do inves-
timento, sendo reconhecidas como uma redução ao
custo do investimento.

Adicionalmente, e de acordo com a IAS 36, na data


do Balanço, quando se verificar um indicador inter-
no ou externo, a entidade deverá ainda avaliar se o
investimento em acções está ou não sujeito a impa-
ridade, isto é, se o seu valor contabilístico é supe-
rior ao valor recuperável. O valor recuperável é o
maior entre o justo valor deduzido das despesas
com a venda e o valor de uso do activo.

B) MENSURAÇÃO PELO MÉTODO DO JUSTO


VALOR

A entidade poderá ainda mensurar os seus investi-


mentos em filiais aplicando a IAS 39. A IAS 39
identifica duas categorias de activos financeiros nas
quais a entidade poderá reconhecer os investimen-
tos em filiais: activos financeiros pelo justo valor

1 - De acordo com a IAS 27, as demonstrações financeiras separadas são as que são apresentadas por uma entidade mãe, um investidor numa
associada ou um empreendedor numa entidade conjuntamente controlada, em que os investimentos são contabilizados na base do interesse
directo no capital próprio em vez de o ser na base dos resultados e activos líquidos relatados das investidas.

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através de resultados e activos financeiros disponí- tico. Assim, se o valor contabilístico do investimen-
veis para venda. to numa filial for recuperado essencialmente atra-
vés da venda e não do seu uso continuado, o que se
Os investimentos em filiais classificados como acti- verifica quando o activo está disponível para venda
vos financeiros pelo justo valor através de resulta- imediata no seu estado actual, nos termos usuais
dos devem ser mensurados inicialmente pelo preço da venda daqueles activos e sendo esta altamente
de compra, excluindo-se os custos de transacção, e provável, o investimento em filiais deve ser classifi-
subsequente pelo justo valor, com as variações cado como um activo não corrente detido para
favoráveis e desfavoráveis do justo valor reconheci- venda.
das em resultados.
Os activos não correntes classificados como detidos
Os investimentos em filiais classificados como acti- para venda devem ser mensurados pelo menor
vos financeiros disponíveis para venda devem ser entre o valor contabilístico imediatamente antes da
mensurados inicialmente pelo custo de aquisição, o data da sua classificação como activo não corrente
qual deve incluir os custos de transacção, e subse- detido para venda e o justo valor na data do
quente pelo justo valor, com as variações favoráveis Balanço, deduzido das despesas que a entidade
e desfavoráveis do justo valor reconhecidas numa prevê suportar na data de venda. A eventual dife-
rubrica do capital próprio. rença apurada entre o valor contabilístico do inves-
timento e o justo valor deduzido das despesas com
a venda deve ser reconhecida como gasto.
C) CLASSIFICAÇÃO COMO ACTIVO NÃO COR-
RENTE DETIDO PARA VENDA

Por último, os investimentos em filiais que verifi- 4. TRATAMENTO CONTABILÍSTICO DOS


quem o critério definido na IFRS 5 devem ser apre- INVESTIMENTOS EM ASSOCIADAS
sentados como activos não correntes classificados
como detidos para venda e evidenciados separada- De acordo com a IAS 28, a mensuração dos inves-
mente, no Balanço, como activos correntes. timentos em associadas depende de se o investidor
é, ou não, uma entidade mãe que apresenta
demonstrações financeiras consolidadas.
O critério para se proceder à classificação de um Se o investidor numa associada for uma entidade
activo não corrente como detido para venda assen- mãe, ele deverá evidenciar, nas suas demonstrações
ta na forma de recuperação do seu valor contabilís- financeiras consolidadas, o investimento em asso-

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ciadas pelo método de equivalência patrimonial período. Este tratamento contabilístico é divergen-
(IAS 28), excepto quando os investimentos forem te do previsto no normativo nacional, que naquela
classificados como activos não correntes detidos situação não prevê qualquer movimento contabilís-
para venda (IFRS 5). Contudo, nas demonstrações tico.
financeiras separadas da entidade mãe, o investi-
mento em associadas deve ser valorizado pelo Após a data de aquisição, e durante o período em
método do custo ou pelo método do justo valor que a entidade detém o investimento na associada,
(IAS 27). o valor do investimento deve ser ajustado de modo
a incluir a parte que corresponde ao investidor nos
Se o investidor numa associada não for uma enti- resultados líquidos e nas outras alterações nos capi-
dade mãe, ele deverá evidenciar o investimento em tais próprios da associada reconhecidos nas suas
associadas pelo método de equivalência patrimo- demonstrações financeiras. Adicionalmente, o valor
nial (IAS 28) nas suas demonstrações financeiras, do investimento deve ser reduzido devido à distri-
excepto se os investimentos em associadas forem buição de dividendos.
classificados como activos não correntes detidos
para venda (IFRS 5). Nas demonstrações financei- Por último, a entidade deverá aferir da necessida-
ras separadas, caso sejam preparadas e apresenta- de de reconhecer uma perda de imparidade. A IAS
das, o investidor deverá adoptar para os investi- 39 exige que as entidades avaliem, em cada data do
mentos em associadas o método do custo ou o Balanço, se existe ou não evidência objectiva de
método do justo valor2 (IAS 27). que os activos estão em imparidade. Se tal evidên-
cia existir, a entidade deverá reconhecer uma perda
O método de equivalência patrimonial, entendido de imparidade quando o valor recuperável do inves-
como a regra geral de mensuração dos investimen- timento for inferior ao seu valor contabilístico.
tos em associadas nas demonstrações financeira de
uma entidade que não é entidade mãe, consiste em
mensurar inicialmente o investimento pelo custo de 5. TRATAMENTO CONTABILÍSTICO
aquisição. DOS OUTROS INVESTIMENTOS

Se, na sua data de aquisição, o custo do investi- A IAS 39 identifica quatro categorias de activos
mento for superior ao valor da participação do financeiros: activos financeiros pelo justo valor
investidor no justo valor dos activos, passivos e através de resultados, investimentos detidos até à
passivos contingentes identificáveis da associada, a maturidade, empréstimos concedidos e valores a
diferença deve ser reflectida no valor do investi- receber, e activos financeiros disponíveis para
mento. Contrariamente ao normativo nacional, venda.
essa diferença não é amortizada.
A classificação de um activo numa das quatro cate-
Se, pelo contrário, na data de aquisição, o custo do gorias de activos financeiros determina uma forma
investimento for inferior ao valor da participação de apresentação diferente, no Balanço, e afecta a
do investidor no justo valor dos activos, passivos e sua mensuração subsequente.
passivos contingentes identificáveis da associada, a
diferença deve ser excluída do valor do investimen- Atendendo à definição de cada uma das quatro
to e deve ser reconhecida como rendimento do categorias, podemos concluir que os outros investi-

2 - Contudo, se nas demonstrações financeiras consolidadas os investimentos em associadas estão mensurados de acordo com a IAS 39, a
entidade deverá adoptar o mesmo critério de mensuração nas demonstrações financeiras separadas.

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mentos em acções, regra geral, apenas podem ser como activos correntes, de acordo com o estabele-
classificados como activos financeiros pelo justo cido na IAS 1.
valor através de resultados ou como activos finan-
ceiros disponíveis para venda.
Os activos financeiros pelo justo valor através de
A) CLASSIFICAÇÃO COMO ACTIVOS resultados são mensurados inicialmente pelo preço
FINANCEIROS PELO JUSTO VALOR ATRAVÉS de compra, não incluindo os custos de transacção,
DE RESULTADOS os quais devem ser reconhecidos de imediato como
gasto.
O reconhecimento de um investimento em acções
como activo financeiro pelo justo valor através de Durante o período em que a entidade detém o
resultados pressupõe que a entidade tem a intenção investimento, as acções devem ser mensuradas pelo
de o alienar num futuro próximo, entendido geral- justo valor com as variações favoráveis e desfavorá-
mente como três meses, e além disso procede a esse veis do justo valor reconhecidas em resultados.
reconhecimento no momento de aquisição das
acções. Os activos financeiros pelo justo valor atra- Como as acções classificadas como activos financei-
vés de resultados são apresentados no Balanço ros pelo justo valor através de resultados estão per-

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manentemente mensuradas pelo justo valor e as Os activos financeiros disponíveis para venda são
variações do justo valor são reconhecidas em resul- inicialmente mensurados pelo custo de aquisição, o
tados, não é necessário proceder a qualquer teste qual inclui o preço de compra e as despesas adicio-
de imparidade. nais com a compra das acções.

B) CLASSIFICAÇÃO COMO ACTIVOS Após o reconhecimento inicial, as acções devem ser


FINANCEIROS DISPONÍVEIS PARA VENDA mensuradas pelo justo valor, com as variações do
justo valor reconhecidas directamente numa rubri-
A categoria de activos financeiros disponíveis para ca do capital próprio. Neste caso, como as varia-
venda é uma categoria residual, isto é, nela devem ções do justo valor não têm impacto imediato em
ser reconhecidos os activos financeiros que não resultados, é necessário que a entidade avalie, em
sejam de classificar nas restantes categorias de acti- cada data do Balanço, se existem ou não evidências
vos financeiros. Os activos financeiros disponíveis objectivas de que o activo financeiro está em impa-
para venda podem ser evidenciados, no Balanço, ridade. Se tal se verificar, a entidade deve calcular
como activos correntes ou não correntes. a perda de imparidade pela diferença entre o custo
de aquisição e o justo valor corrente, retirá-la do
capital próprio e reconhecê-la em resultados.

BIBLIOGRAFIA

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