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TEORIA DO ESTADO E CIÊNCIA POLÍTICA

Professor MSc. ALUÍSIO CALDAS

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FUNDAMENTOS DO ESTADO CONSTITUCIONAL E PODER CONSTITUINTE CONCEITO DE CONSTITUIÇÃO “É o conjunto de regras escritas ou costumeiras, inspiradas na realidade sócio-política e destinadas à ordenação jurídica do Estado, nas quais são estabelecidos os poderes governamentais e proclamados os direitos e as garantias dos indivíduos.” (Aderson de Menezes) No sentido do Direito Público afirma De Plácido e Silva1, o termo constituição “designa o conjunto de regras e preceitos, que se dizem fundamentais, estabelecidos pela soberania de um povo, para servir de base à sua organização política e firmar os direitos e deveres de cada um de seus componentes. (...) Dessa forma, a Constituição estabelece todas as formas necessárias para delimitar a competência dos poderes públicos, impondo regras de ação das instituições públicas, e as restrições que devem ser adotadas para garantia dos direitos individuais. É, assim, o mandamento jurídico, em que se exaram todos os princípios fundamentais para instituição de todas as demais regras ou normas a serem estabelecidas. É a lei das leis. E, desse modo, apresenta-se como a lei suprema outorgada à Nação pela própria vontade soberana do povo, por meio de seus delegados ou representantes escolhidos ou aclamados entre ele, enfeixando, em seu complexo, normas que se dizem fundamentais e absolutas, quer em relação ao tempo, quer em relação ao espaço.” O conceito ideal de constituição, ditado pelo movimento constitucional do início do século XIX, no dizer de Canotilho2, “identificase fundamentalmente com os postulados políticos-liberais, considerando como elementos materiais caracterizadores e distintivos os seguintes: (a) a Constituição deve consagrar um sistema de garantias da liberdade (esta essencialmente concebida no sentido do reconhecimento de direitos individuais e da participação dos cidadãos nos actos do poder legislativo através do parlamento); (b) a Constituição contém o princípio da divisão
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SILVA, De Plácido e. Vocabulário Jurídico. 16a. ed. 2a. tir. Rio de Janeiro: Forense, 1999. CANOTILHO, J.J. Gomes. Direito Constitucional. Coimbra: Almedina, 1993, pp. 62-63.

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de poderes, no sentido de garantia orgânica contra os abusos dos poderes estaduais; (c) a Constituição deve ser escrita (documento escrito)”. O Professor Manoel Gonçalves Ferreira Filho3 afirma que Constituição, em sentido técnico-jurídico, deve significar, “segundo a lição de Kelsen, o conjunto das normas positivas que regem a produção do direito. Isto significa, mais explicitamente, o conjunto de regras concernentes à forma do Estado, à forma do governo, ao modo de aquisição e exercício do poder, ao estabelecimento de seus órgãos, aos limites de sua ação.” Todavia, as constituições evoluíram de uma concepção ideológica clássica liberal (de prevalência dos interesses individuais sobre os sociais estabelecida na Revolução Francesa), a uma ideologia de acepção social (de supremacia dos interesses sociais sobre os individuais advinda da crise do regime liberal) marcada pela Constituição de Weimar de 1934. Em outras palavras, num primeiro momento, com a consolidação do regime constitucional que surgiu em oposição ao absolutismo da realeza e da aristocracia, a ordem jurídica absorveu os princípios básicos da ideologia burguesa, dando ensejo a textos liberais, indiferentes às relações sociais, disciplinadores de sociedade de indivíduos, e não de grupos, formando uma consciência anticoletivista, realidade essa refletida em textos constitucionais disciplinadores somente do poder estatal e dos direitos individuais (civis e políticos). Passando o tempo, a eficácia das normas liberais foi sendo questionada, mormente porque o regime constitucional liberal se apresentava alheio ao fruto das relações sociais, tais como as relações de produção, do trabalho, da educação, da cultura e da previdência. A crise do Estado Liberal permitia o crescimento do Estado Social que surgia no início do século XX, colocando os direitos sociais ao lado do poder estatal e dos direitos individuais como alvos da regulamentação constitucional. Essa evolução explica o conceito político atribuído às constituições como documentos que retratam a vida orgânica da sociedade, e nenhuma delas foge ao impacto das forças sociais e históricas agindo sobre a organização do Estado. Assim, as constituições, além do significado jurídico, possuem significado político, a legitimar ou pôr em crise a respectiva eficácia.

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In opus cit. p. 11.

1999. Ela se desvenda através de ciências próprias. se versar sobre algo que. ao exercício da autoridade. indispensável à sua concepção ou à sua permanência. configurando a sua particular maneira de ser. Se a norma jurídica tiver por objeto a regulamentação de um aspecto fundamental da comunidade política. Caso contrário. a norma jurídica não fará parte da Constituição porque não se apresenta substancialmente constitucional. econômicas. a política. se tratar da distribuição do poder dentro da sociedade. uma vez alterado. “É o conjunto das forças políticas. à forma de governo e aos direitos da pessoa.”4 A Constituição em sentido substancial é definida pela análise do conteúdo das normas jurídicas. será. escritas ou não. quais sejam. e não do dever ser. aquelas tradicionais. que dão suporte estrutural ao Estado. São Paulo: Saraiva. uma norma constitucional. sob esta ótica. então. é necessário identificarmos o que vem a ser Constituição material e Constituição substancial e Constituição formal. Celso Ribeiro. abalaria as próprias vigas mestras do ente político. tanto individuais como sociais. ed. pp. e não acerca do que deve existir como se dá com o direito. entende-se o conjunto de princípios e normas jurídicas fundamentais. etc. encontradas nas relações fáticas reinantes de poder num Estado.TEORIA DO ESTADO E CIÊNCIA POLÍTICA Professor MSc. referentes à organização do Poder. Curso de Direito Constitucional. escritas ou não. à distribuição das competências. ALUÍSIO CALDAS 3 CONSTITUIÇÃO FORMAL E MATERIAL Ainda dentro dessa abordagem conceitual. que conforma a realidade social de um determinado Estado. a Constituição não se resume ao texto escrito em uma folha de papel. Embora mantenha relações com o ordenamento jurídico a ela aplicável. ideológicas. Ela é do universo do ser. 4 In BASTOS. do qual o direito faz parte. que formulam regras ou princípios acerca do que existe. .. esta realidade com ele não se confunde. atual. 20a. Do ponto de vista material. a economia. definem as competências de seus órgãos e estabelecem limites à ação estatal com uma afirmação mínima de garantias individuais. 42-43. Por Constituição. tais como a sociologia. mas traduz-se no conjunto de normas básicas.

ainda que a norma não se apresente substancialmente constitucional. pois sempre será possível identificar algum elemento de uso apenas costumeiro em qualquer Constituição escrita. serve para a estabilização das normas que aqui são designadas como Constituição material e que são o fundamento de direito positivo de qualquer ordem jurídica estadual” (Hans Kelsen.TEORIA DO ESTADO E CIÊNCIA POLÍTICA Professor MSc. a mais relevante para o direito é aquela calcada no critério formal. antes mencionados. como forma. a pesquisa passa a considerar o modo como ela se originou. uma realidade eminentemente normativa. mas sim instituem a maneira pela qual as coisas devem ser. institucionais. e também normas que se referem a outros assuntos politicamente importantes e. a que espécie de poder constituinte se deve a sua criação para.. p. 5 “Dentre todas as conceituações de Constituição. examinar o seu conteúdo ideológico e. p. uma vez inserida no texto da Constituição ela se apresenta formalmente constitucional. ed. 3. em primeira linha. Estas determinações representam a forma da Constituição. pode assumir qualquer conteúdo e que. a preceitos por força dos quais normas contidas neste documento. a lei constitucional. 310 e 311. Apud Celso Ribeiro Bastos in opus cit. 46) . por fim. É. além disso. razão porque a tarefa de identificar se todas as normas assim declaradas constitucionais também o são sob o prisma substancial. Em outras palavras.” (Conf.. ALUÍSIO CALDAS 4 Sob o prisma formal5. são normas constitucionais todas aquelas que foram introduzidas na Carta Constitucional. um conjunto de normas jurídicas oriundas de um processo legislativo mais dificultoso do que aquele reservado às normas nãoconstitucionais. mas somente através de processo especial submetido a requisitos mais severos. assim como sempre se haverá de confirmar a existência de estatutos que reúnem alguns costumes e precedentes de caráter obrigatório. in opus cit. O jus non scriptum se manifesta pelo costume. a Constituição formal. isto é. ou seja.. não descrevem a real maneira de ser das coisas. O mais antigo desses critérios distingue as constituições pela forma como se apresentam. são as leis hierarquicamente superiores que dão suporte de validade e de fundamento para todo o restante do ordenamento jurídico de um Estado. em passo seguinte. 48) 6 “Da Constituição em sentido material deve distinguir-se a Constituição em sentido formal. ou seja. é um esforço inútil6. mas encontra crítica doutrinária quanto ao aspecto com que essas constituições verdadeiramente se manifestam. Celso Ribeiro Bastos. que. por fim. não podem ser revogadas ou alteradas pela mesma forma que as leis simples. As normas formalmente constitucionais. p. Coimbra. Uma vez verificada a forma como se apresenta a Constituição. CLASSIFICAÇÃO DAS CONSTITUIÇÕES As constituições são classificadas com base em diferentes critérios adotados para o seu estudo.. mesmo que não digam respeito aos elementos básicos. escritas ou não. por fim. Armênio Amado Ed. Teoria pura do direito. pelo que obtém aquela tutela especial e típica reservada somente às normas constitucionais. que historicamente constituem um texto jurídico-político constitucional. a legislação.

”(Aderson de Menezes) 10 São promulgadas as Constituições que derivam do trabalho de uma Assembléia Nacional Constituinte composta de representantes do povo. 11 Outorgadas são as constituições elaboradas e estabelecidas sem a participação popular. as constituições consuetudinárias. 8 A Constituição não escrita importa um conjunto de regras. . através de longo tempo. Consiste numa variação do método bonapartista de manifestação do poder constituinte. conheçamos as classificações: Escrita (orgânica. além das jurisprudências e convenções verificadas ao longo de um processo histórico e que fixam a organização fundamental do Estado. porque se formam lentamente. daí porque são também chamadas de democráticas ou populares. tão somente. positiva ou dogmática7) Quanto à forma (por que se apresentam) Não escrita (inorgânica.TEORIA DO ESTADO E CIÊNCIA POLÍTICA Professor MSc. quando vistas sob o ângulo de sua gênese. 12 Cesarista é a Constituição classificada quanto à sua origem porque. eleitos com a finalidade de sua elaboração. de cuja aprovação depende a sua vigência. consuetudinária ou histórica8) Histórica9 Quanto à origem (ou à procedência) Promulgada (democrática ou popular10) Outorgada (imposta ao povo11) Cesarista12 Ortodoxa(adota informadora) uma só ideologia Quanto ao seu Conteúdo ideológico Eclética(procura conciliar as ideologias verificadas em seu texto) diversas 7 A Constituição dogmática se apresenta como produto escrito e sistematizado por um órgão constituinte. verificadas no lento evoluir dos costumes. Conhecidos os critérios. em que se amalgamam usos e costumes incorporados afinal à vida estatal. submete-se à consulta popular. costumeira. das tradições e fatos sócio-políticos. a partir de princípios e idéias fundamentais da teoria política e do direito dominante. 9 “São de tipo histórico. umas escritas (leis constitucionais) e outras não escritas. ALUÍSIO CALDAS 5 observar o seu processo de reforma em relação às leis ordinárias. através da imposição do poder vigente. após a sua elaboração por um agente qualquer do poder constituinte.

14 Constituição material é o conjunto de regras materialmente constitucionais (vários documentos esparsos). 60 §1º C. em seus textos. . 60 C. 15 Constituição formal (ou sistemática) importa na idéia de Constituição escrita revelada através de um documento solene estabelecido pelo poder constituinte (um só Código básico e sistemático). através do estabelecimento de direitos e garantias fundamentais. como Constituições-dirigentes. a possibilidade de qualquer alteração. vista esta como um único documento codificado. 16 Analíticas porque procedem por análise. há outras que assim apresentam as constituições: Material ou substancial14 (verifica a existência de regras materialmente constitucionais em vários documentos esparsos) Quanto à localização de suas regras Formal ou sistemática15 (um só Código básico e sistemático estabelecido pelo poder constituinte) Analítica ou dirigente16 com normas programáticas) (texto amplo e Quanto à sua abrangência ou finalidade Sintética17 (texto restrito às normas gerais e princípios de regência do Estado) 13 Imutáveis são as constituições que proíbem. ou mesmo proíbem. por derradeiro. definindo fins e programas como planos para dirigir uma evolução política com ações futuras. quando não houver norma editada para a realização de um valor que ela preveja. ALUÍSIO CALDAS 6 Quanto ao processo de reforma (estabilidade) Imutável13 (art.TEORIA DO ESTADO E CIÊNCIA POLÍTICA Professor MSc. destinação e funcionamento do Estado. 17 As Constituições sintéticas são aquelas que apresentam um texto restrito às normas gerais e aos princípios de regência do Estado. ou seja. organizando-o e limitando o seu poder.) Semi-rígida (semi-flexível) Flexível (plástica) Além dessas classificações básicas. o que as define. de forma expressa.R.R. examinando e regulamentando a todos os assuntos que entendam relevantes à formação. A Constituição-dirigente se caracteriza em conseqüência da existência de normas programáticas em seu texto. a manifestação do poder reformador no curso dessas circunstâncias. ela mesma possibilita o reconhecimento da denominada inconstitucionalidade por omissão. Na prática. pertencentes ou não à Constituição. o que se verifica são circunstâncias que inibem.) Rígida (art.

e.TEORIA DO ESTADO E CIÊNCIA POLÍTICA Professor MSc. às determinações do seu conteúdo e do se controle procedimental. as Constituições semânticas ou instrumentais. sem ressonância na sistemática de processo real de poder e com insuficiente concretização constitucional”. as relações políticas e os agentes do poder. como a tríplice classificação de Lowenstein. as Constituições nominalistas. cujo texto precisa existir para disfarçar aquele perfil) Outras classificações são encontradas na doutrina. contendo o poder) Quanto à sua função Balanço (representa o balanço da evolução estatal. que considera as Constituições normativas. refletindo a realidade social = O SER) Dirigente (organiza o poder e preordena a atuação governamental através de programas vinculantes presentes no texto constitucional ou nos Estatutos partidários) Normativa (a dinâmica do poder se submete de forma efetiva à regulamentação normativa) Quanto à relação com a realidade política Nominalista (o poder se manifesta sem uma integral obediência ao texto constitucional) Semântica (o autoritarismo do Estado não considera os regramentos constitucionais de sua atuação. quanto às forças sociais que estruturam o poder. como as que disciplinam o processo de exercício e manutenção do poder de forma tal a subordinar. ALUÍSIO CALDAS 7 Garantia (reestrutura o Estado e estabelece as garantias dos indivíduos. . por último. sem limitação do seu conteúdo”. citada pelo Professor Pinto Ferreira. que se apresentam como “simples reflexos da realidade política. servindo como mero instrumento dos donos do poder e das elites políticas. as quais “contêm disposições de limitação e controle de dominação política.

as normas constitucionais só podem ser interpretadas no seu âmbito interno. com vistas a evitar as contradições. mormente porque a interpretação é uma atividade puramente jurídica.TEORIA DO ESTADO E CIÊNCIA POLÍTICA Professor MSc. . no seu próprio plano normativo e principiológico (porque revestidas de um caráter inaugurador e fundamentador do ordenamento jurídico). Exatamente porque são revestidas de um caráter inaugurador e fundamentador do ordenamento jurídico. a interpretação das normas constitucionais deve considerar: a) A unidade constitucional – as normas constitucionais só podem ser interpretadas no seu âmbito interno. Com base nessas duas razões acima. Sendo os preceitos normativos. a norma constitucional reclama regras outras. mas sim pela realidade sistêmica que eles estabelecem à medida em que se interpenetram uns aos outros. antagonismos e antinomias que possam se apresentar em virtude da diversidade ideológica presente na manifestação do poder constituinte. prática essa que na seara constitucional deve considerar o caráter analítico e/ou eclético do texto maior sob um prisma sistêmico a fim de evitar trazer as contradições políticas para o universo jurídico. ALUÍSIO CALDAS 8 INTERPRETAÇÃO DAS NORMAS CONSTITUCIONAIS Além das regras gerais de interpretação das leis infraconstitucionais. observados na interpretação constitucional. como as demais normas. procurando extrair o exato significado da norma. As normas constitucionais. como as Constituições contêm muitos preceitos. são abstrações da realidade (que é mais rica). a interpretação deve fazer sempre o caminho inverso daquele feito pelo legislador. há alguns princípios que devem ser. próprias e identificadas com a sua suprema natureza constitucional. O conteúdo político da Constituição – embora se verifiquem regras de conteúdo político no texto b) 18 O choque de leis se resolve pela hierarquia ou pela superveniência de lei equivalente. abstenções da realidade. a significação destes não é obtenível pela compreensão isolada de cada um. obrigatoriamente. Por outro lado. no seu próprio plano normativo e principiológico. A Constituição é uma realidade sistêmica de preceitos e princípios18. Por isso.

Conforme a produção desses efeitos determine um maior ou menor impacto na ordem jurídica (graus de eficácia). posto que a sua simples edição importa revogação de todas as normas anteriores que com ela se apresentam conflitantes. diante dos textos constitucionais contemporâneos. ela. classifica as normas constitucionais como de eficácia plena. defendemos que a estrutura da linguagem constitucional deveria se caracterizar pela síntese e coloquialidade.TEORIA DO ESTADO E CIÊNCIA POLÍTICA Professor MSc. Essa eficácia jurídica. . refere-se ao grau de aceitação e produção de efeitos da norma junto ao corpo social destinatário. de eficácia contida e de eficácia limitada. ou seja. para José Afonso da Silva. d) Afora os vetores interpretativos acima abordados. c) O conteúdo teleológico – a cada preceito constitucional correspondem princípios diversos que o fundamentam nessa ordem sistêmica. usar de uma linguagem cotidiana para estabelecer o conjunto de princípios que identificam os valores encontrados na sociedade. A eficácia social apontada pelo festejado autor. A relevância das normas estruturais – a inserção. diante da supremacia que se encerra na Constituição. a rigor. APLICABILIDADE DA NORMA CONSTITUCIONAL Aplicabilidade. são corolários desse pequeno rol. Ainda que não verificada a sua aplicação em casos concretos. a sua aplicabilidade jurídica decorre da negação que a sua edição impõe à vigência das normas anteriores com ela conflitantes. de conceitos provenientes de outros ramos do direito. pelo que restam aplicáveis todas as normas constitucionais. a doutrina estabelece a seguinte classificação à aplicabilidade das normas constitucionais: 19 Michel Temer lembra que essa eficácia jurídica não se confunde com a eficácia social dizendo que algumas normas constitucionais são dotadas de eficácia jurídica e eficácia social. eis que dotadas de aptidão para a produção de efeitos na ordem jurídica (eficácia jurídica19). deveria. deixando o rigorismo técnico para os operadores do direito. o que. a doutrina costuma enumerar outros que. caça o poder normativo das contrárias disposições legais anteriores. mormente a constitucional. no texto constitucional. Por outro lado. então. como Carta Política que é a Constituição. é a qualidade daquilo que é aplicável. raramente se verifica com clareza em tese de norma constitucional. impõe-lhes novo fundamento e maior força normativa. a eficácia jurídica se encontra em todas as normas. ou seja. enquanto que outras possuem apenas eficácia jurídica. Por seu turno. a eficácia jurídica é imediata à edição da Constituição. ALUÍSIO CALDAS 9 constitucional.

14. metas a atingir. parágrafo único. 37. dentre outros da C.). 2º. 1º. 218 dentre outros da C.R. e compromissos estatais. § 3º da C. 69. XV. esquemas genéricos da instituição de um órgão ou entidade. § 2º. embora editadas com eficácia plena. parágrafo único. I e II. LXI. 18. São de eficácia plena ou auto-aplicáveis até que sobrevenham leis que lhes estabeleçam a redução de eficácia ou restrição de alcance. Por isso. 184. ESTRUTURA NORMATIVA DA CONSTITUIÇÃO Normas orgânicas ou organizacionais  organizam o estado e os poderes constituídos. 155. § 9º. XII. eis que dependem de norma posterior que lhes desenvolva a eficácia necessária ao exercício dos direitos nelas consagrados. § 2º. dentre outros da C. por excesso de ação do Poder Legislativo. 5º § 1º C. conforme estabeleçam. 21. XXIV. VIII. 14. 211. 43§ 1º. 98. 22. pelo que são auto-aplicáveis desde a sua edição. toda e qualquer superveniência de atividade que vise regulamentá-las (art. § 2º. III. Dividem-se elas em normas de princípio institutivo e normas de princípio programático. 17.TEORIA DO ESTADO E CIÊNCIA POLÍTICA Professor MSc. LX. XXVIII. Michel Temer as define como normas de eficácia redutível ou restringível pelo legislador infraconstitucional. 165. 40. I e II. 17.R. 153.R. 192. programas de ação de qualquer dos poderes a serem desenvolvidos mediante legislação integrativa (arts. poderão vir a ter reduzida a sua aplicabilidade em conseqüência de superveniente atividade legislativa infraconstitucional.R. e arts. § 3º. todos da C. dependem de norma regulamentadora para que venham a operar efeitos outros na ordem jurídica que inauguram (art.) . (art.). § 3º. XIII. mas possui aplicação mediata.R.). 196. ALUÍSIO CALDAS 10 Normas constitucionais de eficácia plena – são aquelas que não dependem de norma regulamentadora para a produção dos efeitos nelas contemplados (art. restando ao legislador ordinário a sua estruturação definitiva (arts. IX. Normas constitucionais de eficácia contida – são as que. . considera-se inconstitucional.). 23. Por outro lado. Normas constitucionais de eficácia limitada20 – essas normas constitucionais possuem eficácia imediata no que diz respeito à revogação da legislação anterior que com elas se apresenta incompatível. 25.). arts. XVIII. respectivamente. 21.R. LVIII. § 4º. 127. 205. 148. 215. 20 As normas constitucionais de eficácia limitada são aquelas que não possuem requisitos para a sua aplicação imediata (senão em relação à revogação da legislação anterior que com elas se apresente incompatível). 3º. 5º. IV. 170.

Era a época em que se verificava a ocorrência das teorias do direito divino sobrenatural e do direito divino providencial. também a sua titularidade exorbita o campo dos estudos jurídicos.”(In opus cit. O pensamento contemporâneo dominante aponta que o povo se apresenta como o titular do poder constituinte. uma vez que o jurista não reconhece competência exterior à ordem jurídica.. disposições transitórias). O PODER CONSTITUINTE21 TITULARIDADE E EXERCÍCIO Na Antigüidade e Idade Média predominava o pensamento de que Deus detinha a titularidade do poder soberano e que Ele escolhia as pessoas. Normas formais de aplicabilidade  são regras que dizem respeito à aplicabilidade de outras regras (ex. Normas sócio-ideológicas  são princípios da ordem econômica e social. Assim. passível de estudo nas ciências sociais e na filosofia do direito. Com a consagração do Iluminismo no campo político. p. a partir do que será verificado o grau de legitimidade de que ele se reveste.TEORIA DO ESTADO E CIÊNCIA POLÍTICA Professor MSc. ou famílias (os agentes do poder constituinte) para o exercício do poder político. A identificação da titularidade do poder constituinte importa na localização da sede desse poder. Identifica-la como a competência das competências não resolve o problema.. a Constituição da República Federativa do Brasil no parágrafo único do artigo 1º. in verbis: “Todo o poder emana 21 Celso Bastos afirma que “o jurista não pode trabalhar com a noção de poder constituinte porque ela é metajurídica. ALUÍSIO CALDAS 11 Normas limitativas  limitam o poder ao tempo em que asseguram direitos e garantias fundamentais. O poder constituinte é uma força social e política. Normas de estabilização constitucional  asseguram a supremacia da CF (controle de constitucionalidade) e a solução de conflitos constitucionais. preâmbulo. o pensamento teocrático da origem do poder soberano foi superado por doutrinas racionalistas de cunho democrático. v.g. 31) . ou está no povo (teoria da soberania popular). Assim estabelece. afirmando essa posição na maioria dos textos constitucionais existentes. as quais defendem que a titularidade da soberania ou está na nação (teoria da soberania nacional).

1998. ALUÍSIO CALDAS 12 do povo. o poder constituinte pertence ao povo. reunidos em Assembléia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático. o poder constituinte manifestar-se-ia. a seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL. Daí ser considerado permanente. 1999. o bem-estar. São Paulo: Saraiva. Afirma Feu Rosa23 que: “Sendo a Constituição a Carta Política. Por isso. fundada na harmonia social e comprometida. representantes do povo brasileiro. porque na Constituição produz-se o direito originário. antes de mais nada.” Mas o exercício desse poder constituinte. a segurança. . assim se manifesta: “Para Sieyès o titular do poder constituinte é a nação – seguidor da doutrina da soberania nacional – compreendida como o conjunto de interesses de uma determinada comunidade. 23 ROSA. Sempre que se fizer necessário a elaboração de nova Constituição. AQUELE(S) QUE O EXERCE(M) EM NOME DO POVO. promulgamos. a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna. Explicando as características do pensamento de Sieyès. 177. em regra. 22 CARVALHO. cujos ensinamentos em muito influenciaram essa pequena abordagem. o documento básico de toda ordem jurídica. p. o poder constituinte dissolve-se. Antonio José/Miguel Feu. sob a proteção de Deus. Apostila de Direito Constitucional. Assim. instalar-se-á. A Constituição do Brasil é fruto do exercício representativo do poder constituinte. Titular do poder constituinte  Agente do poder constituinte  O POVO. segundo as palavras de Rousseau o ‘contrato social’. destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais. integrando toda a nação. nos termos desta Constituição. sempre que houvesse necessidade de estabelecer uma Constituição. a liberdade. Pertence ao povo. consideradas as complexidades de toda ordem verificadas no fenômeno estatal moderno.” O que é importante fixar é a idéia de que a titularidade do poder constituinte não se confunde com o seu exercício.TEORIA DO ESTADO E CIÊNCIA POLÍTICA Professor MSc. que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente. Todavia. na ordem interna e internacional. não desaparece. tem sido. Antonio Raimundo Barros de. Sendo a nação a origem de tudo. ou ‘pacto social’. Distribuída aos alunos do Curso da Escola Superior da Magistratura do Estado do Amazonas. consubstanciando. conforme se verifica de seu preâmbulo: “Nós. o desenvolvimento. concluída a sua obra. com a solução pacífica das controvérsias. de onde emanam todos os demais direitos. o professor Antonio Raimundo Barros de Carvalho22. o poder constituinte é. atribuído a representantes do povo que o fazem em nome deste. Direito Constitucional. pluralista e sem preconceitos.

alterando-se o pacto social. Não recebe poderes de ninguém. devem ser entendidos distintamente.. mas por questão didática. Poder de Ordinária Reforma Decorrente (ou de 3º Grau) Poder de concepção das Constituições dos Estados-Membros da Federação. reúnem-se na chamada ‘convenção constitucional’para a ordenação ou reordenação da vida do Estado. tem ficado restrito a alguns indivíduos ou grupos autocráticos que invocam a teoria democrática para respaldar seus autoritarismos usando de técnica constitucional adequada à manutenção desses vícios de representatividade. “somente o originário é poder constituinte. ao contrário. sugerimos essa tríplice classificação.. (. enquanto que outro. a saber: o originário e o derivado. mas este não pode manifestar-se senão em nome do titular do poder constituinte. Sem prejuízo de conteúdo. ou os novos grupos vitoriosos. refere-se à capacidade que os entes federativos dispõem para se auto-organizarem politicamente. o denominado derivado. ALUÍSIO CALDAS 13 soberano. não se confunde com o seu exercício. é uma fonte geradora de poderes.) Geralmente o poder constituinte se forma quando há transformação na sociedade. alguns doutrinadores adotam apenas duas. eis que visa disciplinar a organização jurídica e política desse ente federativo brasileiro. com estrita observância aos limites estabelecidos pelo poder constituinte originário ou derivado. mas. destina-se à alteração do Texto Maior. A titularidade do poder constituinte. bifurcando-se este em derivado de revisão ou de reforma e derivado decorrente. sob pena de caracterizar-se com o flagrante vício de ilegitimidade. porque representa a soberania popular. assevera-se.” Embora a ideologia democrática globalizada reclame a titularidade do poder constituinte para o povo. pois somente ele tem caráter inicial e ilimitado. segundo a qual os poderes constituintes. fato é que a experiência hodierna demonstra que o seu exercício. Embora o Município não disponha de uma Constituição. instituídos pela manifestação do poder constituinte originário. ESPÉCIES E CARACTERÍSTICAS DO PODER CONSTITUINTE Originário (ou de 1º Grau) Inaugura a ordem jurídica verificada na sociedade política e se encerra com a edição da Constituição Poder de Reforma de Revisão PODER CONSTITUINTE Derivado24 (Reformador ou de 2º Grau) Altera os dispositivos constitucionais originários. o designado decorrente. em sentido formal. Para Carl Schmitt. .TEORIA DO ESTADO E CIÊNCIA POLÍTICA Professor MSc. ao passo que o poder 24 Ao classificar as espécies de poder constituinte. a Lei Orgânica apresenta-se como uma verdadeira Constituição material. e então a nova classe dominante. editando suas próprias constituições. posto que um. visto na vida política da maioria dos Estados.

. instituído e decorrente. Alguns o denominam. Assim. p. Já os adeptos do jusnaturalismo o chamam de autônomo. conforme a natureza atribuída a ele.”25 Na seara do Direito Constitucional. o que lhe nega o caráter absoluto. seguindo a doutrina clássica de Sieyès. com base no ordenamento jurídico. ALUÍSIO CALDAS 14 reformador retira sua força própria da Constituição. 30. 1999. São Paulo: Saraiva. É incondicionado. demandar em face de inconstitucionalidade verificada no texto da emenda realizada.TEORIA DO ESTADO E CIÊNCIA POLÍTICA Professor MSc. Poder Constituinte Originário – ao qual compete a função de instaurar o Estado e inaugurar a ordem jurídica da sociedade política. a Constituição vigente até a sua manifestação). a Constituição. trata-se de um poder essencialmente diverso dos poderes constituídos.) Outros autores. É ilimitado em face do Direito positivo (no caso. para sublinhar que. É inicial. no todo ou em parte. estando limitado pelo direito. sobre a competência de quem a realiza e. o que importa ao jurista é verificar a existência de uma Constituição com órgãos e competências nela instituídos para. (. Celso Ribeiro. atual. o poder constituinte deve sujeitar-se ao Direito natural. em última instância. afirmam que o poder constituinte tanto cria quanto modifica. uma vez que não há outro direito que não seja o positivo e neste não encontra limites. 2. 25 In BASTOS. convém classificar o poder constituinte como originário. pois inicia a ordem jurídica. reveste-se das seguintes características: 1. . Curso de Direito Constitucional. Em ambos os casos. porquanto não se sujeita a condições nem a fórmulas jurídicas para a sua manifestação. de extra-jurídico (porque anterior à ordem jurídica que vai criar) ou pré e suprajurídico (oriundo da norma fundamental). opinar sobre a possibilidade jurídica de uma determinada reforma do texto constitucional. 3.. não limitado pelo direito positivo. Nesse aspecto os positivistas o denominam de soberano. 20a. ed.

A par dessas limitações. Por isso. conteúdo mais abrangente do que esta última e. Poder Constituinte Decorrente – também instituído pelo poder constituinte originário no texto constitucional.TEORIA DO ESTADO E CIÊNCIA POLÍTICA Professor MSc. o poder de reforma constitucional é jurídico. refere-se a um mecanismo extraordinário de reforma ao texto constitucional. eis que essa qualidade não conhece. principalmente.). ALUÍSIO CALDAS 15 Poder Constituinte Instituído26 – Provém do poder constituinte originário que. impõe que não poderá haver reforma ao texto constitucional durante instantes de conturbação nacional. alguns juristas negam a sua natureza constituinte. ou seja. Essa atividade. distinguindo-se da Emenda à Constituição pelo fato de possuir. art. porque vincula-se de forma hierárquica logo abaixo ao poder constituinte originário. de modo que é limitado por este. § 4º CRFB).). porque sujeito a limites de ordem formal. dada a relevância da matéria constitucional cuja análise exige equilíbrio do legislador constituinte. 60 C. condicionado. incisos I a IV e o § 5º daquele mesmo artigo 60. a limitação circunstancial prevista no § 1º do artigo 60. É. A Revisão da Constituição. este poder defere autonomia aos entes federados para que eles se auto-organizem através da 26 Diferentemente do originário. já que o seu exercício se verifica dentro dos limites e condições estabelecidos na própria Constituição para a sua manifestação (art. que é poder de fato.R. as hipóteses de manifestação desse poder constituinte instituído. É subordinado. a novas realidades fáticas. nem sempre importa em alteração do texto constitucional. conforme dispõe o § 4º.R. como espécie do poder reformador. 3. temporal e material (art. fruto do poder constituinte originário. 60. 2. representa um mecanismo ordinário de reforma do texto constitucional em face de imperfeições que reclamam a sua correção. não é difícil concluir que a Emenda à Constituição possui conteúdo pontual. por fim. denominadas pela doutrina de cláusulas pétreas (v. por isso. 60. pelo fato de que a manifestação do poder constituinte de revisão. vale dizer. previsto nos §§ 2º e 3º do artigo 60. circunstancial. no texto da Constituição. já que o seu exercício se verifica dentro de limites e condições estabelecidos na própria Constituição. conhecido como poder de reforma da Constituição ou poder constituinte derivado. podendo reformar a Constituição mediante a aprovação de Emendas. É subordinado. O poder constituinte derivado se manifesta como poder de revisão ou de mera alteração ao texto constitucional. adaptando-a a novos tempos e a novas exigências. a de ordem material exclui a possibilidade de reforma de determinadas matérias. material e circunstancial. contudo. § 1º C. . E exatamente por provir do poder constituinte originário é. ou pelo menos. É limitado. No artigo 60 da Constituição da República Federativa do Brasil. submete-se a limitações impostas pela manifestação constitucional prévia. o qual traz. não deveria conhecer limites. por vezes. porque vincula-se de forma hierárquica logo abaixo ao poder constituinte originário. de modo que é limitado por este. A Emenda à Constituição. por sua vez. reveste-se das seguintes características: 1. previu a sua existência para a adaptação do texto constitucional a novos tempos e novas exigências. de forma explícita. verificamos três limitações de ordem procedimental. É condicionado. também. A de ordem procedimental quer definir o procedimento de elaboração da Emenda à Constituição. específico ou restrito a determinada matéria. a novas realidades fáticas. Diante dessas limitações ao poder de reforma.

. o que importa dizer que o fundamento desta é o fundamento de todo o Direito positivo. respeitados os limites impostos pelo poder constituinte originário (art. 28 CARVALHO. Direito Constitucional Didático. que não tem limites no direito positivo anterior. incondicionado e ilimitado. Mas. Curso de Direito Constitucional. a natureza de um poder de direito. O professor Pinto Ferreira27. e atual. 135. e atual. portanto. comentando o pensamento do abade francês Emmanuel Joseph Sieyès manifestado na obra Qu’est-ce que le tiers État? (O que é o terceiro Estado) publicada pouco antes de deflagrar a revolução francesa e na qual estabeleceu a distinção entre poder constituinte e poder constituído. existente antes da nação e acima dela. ao Poder Constituinte. A NATUREZA JURÍDICA DO PODER CONSTITUINTE O Direito positivo (posto pelo Estado) está subordinado à Constituição. pois a nação não pode perder o seu poder de querer e de mudar o seu querer ou a sua vontade. 1999.R. mas em si mesmo encontra o seu fundamento. do qual decorre a liberdade do homem estabelecer as instituições sob as quais há de ser governado. como poder de direito”. os poderes constituídos são limitados e condicionados. Kildare Gonçalves. o fundamento de todo o Direito positivo. de que resultam regras de Direito Natural. afirma que: “O poder constituinte é um poder de direito. São Paulo: Saraiva.). “admitem a existência de um poder natural. ampl. diz Kildare28. qual é o fundamento do Poder Constituinte que elabora a Constituição? Os positivistas afirmam que o Direito só é Direito quando positivo. decorrentes da 27 FERREIRA. permanente. 8a. Em contrapartida. 25 a 32 da C.” “Os teóricos do poder constituinte. 6a. p. Pinto. de acordo com as Emendas Constitucionais e a Revisão Constitucional. assim. anteriores ao Direito Positivo. porém apenas no direito natural. Os jusnaturalistas admitem a existência de um Direito natural anterior e superior ao Direito positivo. ed. A Constituição é. 1996. ed. ALUÍSIO CALDAS 16 concepção de suas próprias constituições. sendo o Poder Constituinte um poder de fato posto que a sua manifestação não se baseia em regra jurídica anterior. Belo Horizonte: Del Rey. p. rev.TEORIA DO ESTADO E CIÊNCIA POLÍTICA Professor MSc. O poder constituinte é inalienável. Dá-se. 18.

a Constituição. Daí falar-se em poder constituinte material e poder constituinte formal. ao que a doutrina denomina de revolução vitoriosa. É o ente encarregado de elaborar a Constituição em nome do titular do poder constituinte.” Copiando o pensamento do citado autor. eis que se acha vinculado à “idéia de legitimidade revelada pelas estruturas políticas. o poder constituinte se funda em si mesmo. em que o titular do poder constituinte se identifica com o seu agente. ALUÍSIO CALDAS 17 natureza humana e da própria idéia de justiça. Traduz-se na força política ou social. esse mesmo autor que: “Como poder de fato. enquanto que o poder constituinte do titular permanece. dominantes na sociedade. por outro lado. bem como pelos valores e princípios historicamente localizados. de forma originária e livre. na idéia de Direito inauguradora da nova era constitucional. se o poder constituinte é um poder de fato ou um poder de direito. Todavia.TEORIA DO ESTADO E CIÊNCIA POLÍTICA Professor MSc. entretanto. eis que a idéia de direito que determina o conteúdo da Constituição. O AGENTE E O VEÍCULO (expressão da legitimidade) DO PODER CONSTITUINTE Como já ficou demonstrado. não o é absoluto. ou seja. o povo é o titular e a Assembléia Nacional Constituinte é o agente. em outras palavras. é essencialmente soberano porque possui a “capacidade de estabelecer. Concluída a obra.” Afirma. os quais deverão influir na sua obra originária. podemos dizer que não obstante essa discussão. pois se entende por Direito apenas o Positivo. o poder constituinte do agente se esgota. o poder constituinte. dentre outras. é o poder constituinte formal um poder de decretação de normas com a forma e força jurídicas próprias das normas constitucionais. fato é que ele. conferindo estabilidade e permanência à nova situação. o agente do poder constituinte é aquele que o exerce em nome de seu titular. precede a regra de direito que é a própria Constituição. a configuração jurídico-política do Estado e de sua Constituição”. não se baseia em regra de direito anterior. ou. aquele posto pelo Estado. o poder constituinte formal se revela na entidade (grupo constituinte) que formaliza em normas jurídicas a idéia de Direito consentida num determinado momento histórico. isto é. Nas democracias. O poder constituinte material precede o formal. econômicas e sociais. Há casos. é o consentimento popular para o . Por outro lado. e que portanto constituem os seus limites materiais. Por veículo do poder constituinte deve-se entender a legitimidade que reveste a sua manifestação.

a sua legitimidade. como legítimo veículo de expressão do Poder Constituinte originário. O Poder Constituinte originário. Por isso. manifesta-se onde já existem instituições políticas. justifica-se. Essa perda de eficácia traduz um efeito revolucionário. a revolução autêntica é um fenômeno sociológico. . O poder só se estabiliza quando fundado na aceitação dos que vão ser por ele governados. o direito de revolução com o emprego da força contra a lei positiva e em nome da liberdade do povo. ao estabelecer a nova Constituição. Revolução. editando nova Constituição. ou. enquanto princípio diretor da atividade social. por vezes. a revolução determinada pela aceitação (pelos titulares do poder constituinte originário) das regras estabelecidas pela nova Constituição fruto da manifestação do poder constituinte originário. Constituições estabelecidas. É extremamente difícil imaginar e muito menos possível visualizar. criando o vazio propício à eficácia da nova ordem constitucional. consensus). O que se verifica é o fato de que o Poder Constituinte originário. a qual somente será assim reconhecida quando ganhar eficácia. A perda da eficácia da Constituição (anterior) com a (nova) manifestação do poder constituinte originário. no mundo dos fatos. Logo. assim. Essa revolução jurídica que a nova Constituição proporciona através de um expresso ou tácito consentimento popular (que é o necessário liame subjetivo de legitimidade. em outras palavras. prévia ou posterior à edição da nova Carta. a quebra das estruturas que serviam de alicerce à Constituição abrogada pela nova manifestação do Poder Constituinte originário. impõe a perda da eficácia da Constituição (anterior). a sua estabilidade e. Veículo do Poder Constituinte é. pois é da vinculação com as aspirações da sociedade que vem o seu reconhecimento. que encontra a sua justificação na realidade dos fatos e não propriamente no mundo jurídico. qual seja. é a substituição de uma idéia de direito por outra. consolidando-se com o estabelecimento das mudanças determinadas pelo novo texto constitucional proveniente do exercício legítimo do poder constituinte originário. a chamada revolução vitoriosa que identifica o titular do Poder Constituinte com o agente que o exerce. a sua autoridade. por conseguinte. que se apresenta de forma expressa ou tácita. ALUÍSIO CALDAS 18 exercício desse poder soberano (consensus). é o veículo do Poder Constituinte originário. ao lado da revolução jurídica. como define Burdeau. estabelece o vazio sobre o qual este poder vai estabelecer a nova ordem constitucional. o estabelecimento de uma Constituição em um espaço jurídico vazio.TEORIA DO ESTADO E CIÊNCIA POLÍTICA Professor MSc.

ou não. Vista quanto à sua origem.TEORIA DO ESTADO E CIÊNCIA POLÍTICA Professor MSc. . a aquiescência do titular desse Poder. para que este consinta. O método bonapartista (porque usado por Napoleão Bonaparte). o método bonapartista. apresenta-se como condição de sua vigência. A rigor. o referendum aparece como um mecanismo pelo qual a Constituição. a fim de que não se confunda com o Poder Legislativo. o que o legitima para a discussão. ou seja. além de legitimá-la. impõe ao povo (titular do Poder Constituinte) uma nova Constituição sem que este participe direta ou indiretamente do seu processo de elaboração. essa Constituição classifica-se como cesarista. em seu nome. consiste na formulação de uma consulta ao povo (titular do Poder Constituinte) em bases vagamente referidas. votação e promulgação de uma nova Constituição. em que uma pessoa ou grupo (agente do Poder Constituinte) outorgue ou promulgue. A convocação de Assembléia Nacional Constituinte consiste num método de manifestação do Poder Constituinte que traz consigo de forma prévia e expressa. A legitimação in casu só poderá ser percebida a posteriori com o consensus do titular do Poder Constituinte que em nada se identifica com o seu agente. Como variação do método bonapartista. uma nova Constituição. após elaborada por um agente qualquer do Poder Constituinte. A outorga é caracterizada pelo agente do Poder Constituinte (seja ele qual for) que. ALUÍSIO CALDAS 19 FORMAS DE MANIFESTAÇÃO DO PODER CONSTITUINTE A expressão forma de manifestação do poder constituinte originário significa o processo usado para positivar a Constituição. uma vez que o Poder Constituinte originário não deve ser exercido pelo mesmo organismo institucional responsável pelo denominado Poder reformador. por meio de plebiscito. a outorga. o referendum e o método da Assembléia Nacional Constituinte. é submetida à consulta popular. cuja aprovação. essa Assembléia deve ser convocada por meio de consulta popular (plebiscito) para o fim específico de elaborar a nova ordem constitucional. em determinado momento.

durante certo tempo. A doutrina costuma classificar as limitações ao poder de reforma constitucional em quatro tipos fundamentais. as formais. 3º). estão relacionadas com o processo legislativo ordinário previsto pelo poder constituinte originário para a alteração da Constituição. II e III). O art. as limitações formais. A inobservância dessas regras procedimentais importará a decretação do vício pelo sistema de controle de constitucionalidade. 64). sua alteração. e à proibição de reelaboração e apresentação de projeto na mesma sessão legislativa em que tenha sido rejeitado (art. ao qual se sujeita o poder de reforma. 60. as temporais. § 3º). ao quorum para discussão e aprovação (art. 174). As primeiras. § 5º). art. à propositura de emenda pela casa iniciadora do processo legislativo(art. As limitações temporais dizem respeito às vedações impostas à alteração de certas normas do texto constitucional por determinado tempo. 60. eis que nada impedia a realização anterior de emendas constitucionais com base no processo estabelecido no artigo 60. ou. 60. ou procedimentais. § 2º). poderia ser reformada (art. sob o argumento de que os membros do poder constituinte reformador não podem se . pelo que cobram rigorosa observância: à legitimidade de iniciativa (art. 60. da nossa Constituição do Império (1824) ao estabelecer que só após quatro anos de sua vigência. as limitações circunstanciais e as limitações materiais. 3º do ADCT da vigente Constituição brasileira não revela limitação temporal. I. ALUÍSIO CALDAS 20 LIMITAÇÕES AO PODER DE REFORMA Em virtude de haver sido instituído pelo texto constitucional oriundo da manifestação do poder constituinte originário. ao órgão promulgador (art. Vedam. quando declara que pode ser revista desde que decorridos cinco anos sobre a data da publicação de qualquer lei de revisão.TEORIA DO ESTADO E CIÊNCIA POLÍTICA Professor MSc. É o caso da Constituição francesa de 1791 (Título VII. o poder de reforma constitucional sujeita-se às limitações previstas na própria Constituição. por outro lado. ou da Constituição de Portugal. quais sejam. são igualmente limitações temporais as normas que prevêem datas específicas e espaçadas para alterações da Constituição. As restrições circunstanciais importam na vedação da manifestação do poder de reforma durante determinadas circunstâncias.

proíbem que o poder reformador alcance certas matérias de fundamental importância para o Estado. p. A REVISÃO CONSTITUCIONAL A Revisão é um procedimento preventivo que não implica necessariamente alteração do texto. §§ 2º. 60. explícita ou implicitamente previstas no texto constitucional30. Esse poder de alteração do texto constitucional se manifesta através da aprovação de emendas à Constituição. p. porque toda e qualquer mudança na Constituição ou do regime constitucional depende tão só e exclusivamente de : autoridade e poder. in opus cit. 30 “Sem embargo de serem as cláusulas pétreas freqüentemente inseridas no Texto Constitucional. em outras palavras. enquanto que as limitações implícitas são deduzidas da necessidade de assegurar a integridade da Constituição com a proibição de reforma ou supressão de determinadas cláusulas estruturais do modelo de Estado adotado. mesmo sendo a República um dos princípios constitucionais do Estado brasileiro. A Revisão é. entretanto. ALUÍSIO CALDAS 21 encontrar sob qualquer espécie de coação. a). 60. tachando-as de inúteis e até contraproducentes. 3º e 4º)31. citado por Feu Rosa. esta se materializa por uma Emenda à Constituição denominada Emenda Revisional ou Emenda Constitucional de Revisão. a possibilidade de emenda tendente a abolir esse regime político. diz que as cláusulas pétreas “politicamente não significam nada. mas a obrigação de recorrer à revolução para modificar as disposições proclamadas imutáveis no momento do estabelecimento da Constituição. . § 4º. ocorre alteração do texto.” (Conf.TEORIA DO ESTADO E CIÊNCIA POLÍTICA Professor MSc. 34.. p. Esse processo implica num período de facilitação de mudanças constitucionais e no qual o Congresso Nacional se reúne em sessões unicamerais e vota. intocáveis. 238. 61). em um único 29 Conforme José Afonso da Silva. Nesse sentido.. Quando.” 31 As limitações expressas são aquelas previstas textualmente pela Constituição Federal. irreformáveis ou eternas. implícita: a inadmissibilidade de emenda tendente a abolir o art. Feu Rosa em seu Direito Constitucional. um processo de atualização e adaptação da Constituição. (in Curso de Direito Constitucional Positivo. Celso Bastos. preenchendo as lacunas e revogando as imperfeições do texto constitucional. (explícita: art. por fim. aparando as arestas.” Maurice Duverger. ed. a ser observado e assegurado (art. VII. 9a. afirma que “a inutilidade desses preceitos salta à vista. com número de ordem próprio. § 1º) As limitações materiais (ou substanciais). as quais são chamadas de cláusulas pétreas29. muitos publicistas as combatem. 60. (art. bem como pelo desenvolvimento progressivo da jurisprudência e pelo surgimento de usos e costumes. a Constituição Federal não veda. violenta emoção ou sob a influência de quaisquer outras circunstâncias exógenas que venham a influenciar na manifestação livre e independente dos órgãos incumbidos da reforma. 36). nas chamadas cláusulas pétreas.

Embora a legislação infraconstitucional anterior perca o suporte de validade com o advento de uma nova Constituição. respeitando. mutação constitucional é a reforma da Constituição. muitas vezes. com diverso grau hierárquico legislativo. contudo. portanto. quanto das normas infraconstitucionais incompatíveis com a nova Constituição. com novo fundamento de validade e. além da manifestação direta do poder constituinte. A MUTAÇÃO CONSTITUCIONAL Para o glossarista De Plácido e Silva. A isto chama-se de recepção normativa.TEORIA DO ESTADO E CIÊNCIA POLÍTICA Professor MSc. a qual ocorre por via formal (emenda ou revisão) ou por via informal (a mudança de interpretação da norma operada pela jurisprudência ou por novas práticas políticas e sociais). Se a Constituição nova restaurasse a eficácia da legislação infraconstitucional revogada pelo texto constitucional anterior. sofre um processo de mutação de seu conteúdo a partir da verificação de uma atividade interpretativa desenvolvida pelos Tribunais sobre o texto constitucional. estar-se-ia . alberga a ordem normativa que vigia sob o império da Constituição anterior. A Constituição nova recebe. um quorum de maioria absoluta. recepcionadas. os projetos de emenda revisional. em outras palavras. não importa na afirmação de que todo o ordenamento jurídico em vigência antes de sua promulgação (ou outorga) estará revogado. recebendo assim novo suporte de validade. essas mesmas normas infraconstitucionais que não se apresentarem conflitantes com a nova Constituição. EFEITOS DA NOVA ORDEM CONSTITUCIONAL FENÔMENO DA REVOGAÇÃO  A nova manifestação do poder constituinte originário importa imediata ab-rogação tanto do texto constitucional anterior. são. A Constituição. FENÔMENO DA RECEPÇÃO  O fato de haver uma nova Constituição em vigência. a nova ordem não restaura a eficácia de normas revogadas pela Constituição anterior. apenas. por esta. FENÔMENO DA REPRISTINAÇÃO  Por outro lado. ALUÍSIO CALDAS 22 turno.

em regra. parece-nos bem adequado falar em perda da qualidade constitucional do dispositivo subtraído. respeitados sempre os direitos adquiridos durante a vigência daquela norma antes havida como constitucional.TEORIA DO ESTADO E CIÊNCIA POLÍTICA Professor MSc. ALUÍSIO CALDAS 23 admitindo a ocorrência de um fenômeno jurídico que a doutrina denomina de repristinação. o qual se contrapõe à regra de que a nova Constituição revoga a totalidade do texto constitucional anterior. Nesses casos. FENÔMENO DA PERDA DA QUALIDADE CONSTITUCIONAL DE DIPOSITIVO SUBTRAÍDO DO TEXTO MAIOR  Há situações em que a norma antes presente no Texto Maior é afastada da seara constitucional por força de uma Emenda à Constituição. Essa recepção do texto constitucional antigo pelo novo. deixam de usufruir dessa prerrogativa. onde as normas formalmente constitucionais. ressuscitação ou revigoramento de norma infraconstitucional revogada por disposição constitucional anterior. entretanto. Entretanto. § 3º da Lei de Introdução ao Código Civil. o que viria a ameaçar a segurança jurídica e a estabilidade das relações sociais. FENÔMENO DA DESCONSTITUCIONALIZAÇÃO  Celso Ribeiro Bastos aponta a existência de autores que admitem uma sobrevida de algumas normas da Constituição anterior que não estejam em contrariedade com a nova. porém sob status de normas ordinárias. desde que o novo texto assim o preveja de forma expressa. há de considerar o texto anterior como norma subconstitucional. a repristinação será efetiva quando expressa for a cláusula de revigoramento do texto revogado pela Constituição anterior. segundo se depreende do artigo 2º. editada com fundamento no poder reformador. As disposições da Constituição anterior persistem vigentes. . Trata-se do instituto da desconstitucionalização.