TOLSTOI, Leon. A Morte de Ivan Ilitch. Trad. Boris Schnaiderman. Rio de Janeiro: EDIOURO, 1997. 114 p.

Thiago de Melo Barbosa1 No meio de uma discussão trivial que ocorria “no vasto edifício do Foro”, entre juízes e promotores durante o intervalo de um julgamento, o promotor Piotr Ivánovitch anuncia: “Senhores! - disse ele. - Morreu Ivan Ilitch.” E assim, pelo fim, começa uma das obras-primas do escritor russo Leon Tolstoi. Ivan Ilitch era o orgulho da família. Fez faculdade de direito, ingressou no funcionalismo público e casou-se com Praskóvia Fiódorovina, não por amor, nem por interesse, mas sim por um cálculo bem feito. Levou uma vida das mais simples: era um burocrata de meia idade, que se refugiava no trabalho e no jogo de cartas (o uíste) dos problemas no casamento, e que sempre tentou seguir o modelo de vida das pessoas mais bem colocadas na sociedade. No entanto, esse sujeito, banal e comum, é afetado por uma doença inexplicável, cujo diagnóstico nenhum médico consegue dar, e a cura, menos ainda. Percebendo que sua doença é incurável, Ilitch passa a conviver com a ideia da morte, e isto o leva a se questionar acerca das atitudes tomadas durante a vida. Ele começa a notar que todo seu esforço por uma vida “comme il faut” (como é preciso) fora inútil e sem sentido; que as pessoas do alto escalão, as quais buscava imitar e se relacionar, não se importavam com seu estado e nem mesmo sua família lhe dava atenção. Sente-se um estorvo, e só consegue vislumbrar algo de bom nas lembranças da infância e no inocente serviçal Gerassim. A angústia, a solidão, o sofrimento físico e psíquico e o medo da morte tomam conta dele, mas, momentos antes de morrer, vê através da figura do seu filho que nem tudo foi inútil na sua vida. A Morte de Ivan Ilitch é uma narrativa densa, daquelas que apenas um leitor bastante inexperiente ou desatento consegue sair de forma totalmente indiferente. Nela, somos colocados frente a frente com a inutilidade humana, condensada num niilismo avassalador, e o que é pior, vislumbramos o carrasco e descobrimos ser ele um espelho de nossas relações sociais. A primeira vista podemos pensar que o tema da morte ou os transtornos da doença são os principais responsáveis pelo clima angustiante da novela, entretanto, mais do que a morte — primeira condição para a vida e, às vezes, tida como libertária da dor — é a vida, ou melhor, o modo de vida, o que há de mais opressor para Ivan Ilitch, como é atestado no início do segundo capítulo: “a história pregressa de Ivan Ilitch foi das mais simples e comuns e, ao

e. citadas acima. por fim. a Rússia czarista do século XIX. pode substituí-lo por outra peça qualquer. Clarice Lispector. as obrigações sociais. quando após o anúncio da morte do colega de trabalho percebemos que as únicas coisas que povoam as mentes dos presentes são: a sensação de alívio que pode ser resumida na frase “Aí está. observando por detrás do modo impassível do narrador. só para citar alguns exemplos. pois estes servem para mascarar a verdadeira conduta da sociedade. partindo do que o cerca.mesmo tempo. sendo até elemento determinante do caráter individual. as quais costumam retratar com uma clareza e objetividade épica (não raro é encontrarmos Guerra e Paz sendo associado às epopéias homéricas. pensada por Piotr Ivánovitch. no romance Ana Karênina e no conto O Diabo. então parece despertar para uma dolorosa realidade na qual se vê como escravo do comme il faut. já muito próximo do que será discutido na modernidade por escritores como Kafka. por exemplo) os hábitos e costumes de uma sociedade serva destes. isto é. Percebemos. Estou convencido também que. são os principais objetos que serviram para a construção de várias narrativas tolstoianas. das mais terríveis”. ou melhor. que no caso em questão seria a cristã. a morte. o conjunto de relações que ocorrem por detrás. mas apenas da superfície. em forma vibrante e viva própria da arte. das aparências. e só após isso é que Ivan Ilitch descobre o quanto estava preso a relações sociais fúteis e hipócritas. ou seja. morreu. e também por entre. Beckett. e a moral. é este antagonismo o principal responsável pela causa mortis do burocrata Ivan Ilitch. por que e para que se viveu. mais do que a doença. com quem. revela-se logo no início da narrativa. serve como estopim para reflexões profundas sobre como. Neste sentido. é na verdade o grande responsável por colocar em cheque a moral. o quanto destes hábitos sociais. a preocupação com as maçantes obrigações sociais como ir ao velório e dar pêsames a viúva. a inquietação com a sucessão de cargos na repartição e. da sociedade: nada mais do que uma peça no tabuleiro a mercê das vontades de um jogador que pouco se importa com ele. e que dependendo das necessidades. . Desta forma. José Saramago. como acontece. Estas “maçantes obrigações”. Tolstoi delineia. na era do descartável por excelência. tão superestimado pelos representantes do status quo da época. ou a proximidade desta. a possibilidade dos homens viverem de acordo com uma conduta moral. Virginia Woolf dentre outros. e eu não”. Este caráter descartável do ser. i. ou conveniências. Tal conflito leva suas personagens à angústia e a um desespero que muitas vezes culmina na autodestruição. no nosso tempo. A descoberta da doença e a proximidade da morte operam as vicissitudes no modo de ver o mundo da personagem. um conflito entre o que chamo aqui de jogo social.

com a idéia propagandística: é preciso mudar de rumo. quando afirma que essa novela “é uma das obras mais comoventes e pungentes da literatura universal. qualquer um pode discordar da minha visão desta.Por fim. contidas na sua História da Literatura Ocidental. . integralmente”. por isso mesmo. provavelmente ninguém poderá negar as palavras de Otto Maria Carpeaux. ou a grande maioria dos leitores deste texto já devem saber: A Morte de Ivan Ilich é uma grande obra de arte que merece leituras e releituras de inúmeras formas e que. a única em que a arte combina. resta-me apenas dizer o que todos. talvez a obra-prima de Tolstoi. porém. sem resto.

e-mail: thiagomelob@hotmail.1 Graduando em Licenciatura em Letras – UEPA (Universidade do Estado do Pará).com .

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