Você está na página 1de 2

Editorial Da política da água

Sempre que chegamos ao Verão as questões relativas à água voltam ao debate. Neste ano de 2011, e com um novo governo que chegou com a estação estival, a novidade relativa à água foi a anunciada privatização da empresa estatal Águas de Portugal. Esta entidade tem sido o braço do governo para as parcerias que têm sido efectuadas um pouco por todo o país, para a implementação dos sistemas de abastecimento de água e saneamento. Só para termos uma ideia da dimensão que este grupo empresarial hoje tem, sublinha-se que, em 2010, o volume de facturação foi de 724,5 milhões de euros e o lucro foi de 79,5 milhões de euros. Ora esta questão de âmbito nacional pode vir a ter uma importância acrescida no concelho de Montemor, porque a empresa Águas de Portugal é a accionista maioritária, com 51% do capital, da Entidade Gestora da Parceria que, em 2009, foi constituída para realizar um investimento considerável em 21 municípios, para fazer os necessários investimentos para abastecimento de água às populações, e onde o concelho de Montemor está incluído com o projecto de utilização da água da Barragem dos Minutos para abastecer a cidade de Montemor. A celebração deste contrato, praticamente em cima das eleições autárquicas de 2009, parecia ter fechado esta questão, retirando, deste modo, argumentos políticos à oposição sobre esta 1

matéria. “O problema era garantir, para um conjunto de municípios, que o sistema de abastecimento se mantinha sempre no domínio público sem possibilidade de privatização”, frisou à data Carlos Pinto de Sá. Na Assembleia Municipal que aprovou a participação do município de Montemor neste projecto, a CDU aprovou sozinha esta participação, tendo o PS e o PSD optado pela abstenção. Contudo, o contrato, a que a Folha teve acesso, contém uma cláusula pela qual as câmaras comunistas batalharam no sentido de manter este sistema sempre no domínio público. Isto é, o contrato caduca se a Entidade Gestora sair do domínio público. Neste caso, as câmaras terão de indemnizar a Águas de Portugal pelos investimentos realizados. Embora não tenham ainda sido efectuados investimentos que se vissem em resultado desta parceria, o facto da Águas de Portugal estar na lista de privatizações do governo vai certamente fazer com que todos estes projectos ficam desde já parados, o que significa que pode estar em risco o projecto de abastecimento de água à cidade a partir da Barragem dos Minutos. Sobre estas matérias de abastecimento de água, existem várias questões que dividem os políticos. Assim, em primeiro lugar existe a questão básica de definir se esta actividade de abastecimento de água às populações deve ou não ser efectuada por empresas privadas. Em segundo lugar, e caso se opte por empresas privadas, resta saber a que preço irá a água ser vendida aos utentes. Face à disparidade em termos de densidade populacional que existe em Portugal, onde 30% da população reside na faixa litoral entre Setúbal e Braga, a actividade será lucrativa onde existir muita população e deficitária onde vive pouca gente, o que se passa em todo o interior do país. Aliás em diversos concelhos do interior do país, as câmaras que celebraram contratos com a Águas de Portugal, já estão a sentir sérias dificuldades para cumprir os contratos e efectuar os pagamentos acordados. É certo que os últimos Invernos têm sido favoráveis face à quantidade de chuva que tem caído, mas, devido ao concelho de Montemor ser abastecido na sua totalidade por águas subterrâneas, mais cedo ou mais tarde vamos ter falta de água e, caso este projecto acabe por não se concretizar, a população vai ter falta de água e não irão existir alternativas. Facto curioso, a cláusula que marcou a diferença nesta parceria entre diversas câmaras municipais e a Águas de Portugal, poderá vir a ser a causa da sua morte.

A.M. Santos Nabo Agosto 2011

2

Interesses relacionados