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PRIMEIRA PARTE
1 |
Hora de sol baixo e obliquo na Avenida Afonso Pena.
Sorvetes, chopes, suores. Mulheres com o8 eorpds escorre-
gando, escorrendo dentro dos vestidos leves. Sexuali-
dade no sol, no verde, na pocira. Preguiga, A moga que
ppassou guiando a barata nio péde esconder um boesjo
| diante do sinal fechado; fa talver para casa aniquilar-se
sObre as molas de um diva pibere. Espreguigamentos, O.
sol maltratava os olhos. Mas a sombra das drvores eopadas,
d que atulhavam a avenida protegendo a pintura dos auto-
' miéveis de praca, era apetecida como um refrésco baratis- !
‘imo, teériea sopa dos pobres na cidade trabalhada pelos
‘eomplexos sexuais: grupos de rapazes, de homens feitos,
se postavam em frente As ruas que desembocavam de viés |
nna avenida, para peneirarem as pernss femininas, forca-
das a pouea roupa no verio acéeo. No ponto, mogas lim
guidas se deixavam devorar pelos olhares dos mascalos;
depois tomavam o bonde triste e de volta aos lares iam s@
tornando gradativamente honestas: os piratas desanima-
( vam a melo eaminho,
( Carmo Peres farejava fémeas e Fernado Pacheco Fer-
‘andes devaneava. A pé. Passavam pela Praga 7 de Se-
tembro.
—0 Seu Armando!
} © homem starracado e vermelho tinha barbas e bigo-
de destratados, rugas, uma roupa velha. O outro parow.
Visivelmente contrariado; era alto, mulato claro, sem bar-0 Toxo Auenonsus |
thas, quase sem rugas, bem vestide. O baixote foi direto a
‘um assunto longamente ruminado:
— Ento, Sea Armando, o senhor nflo paga mesmo
De telegréfico o mulato passou 2 mimico: fendeu 0
ar verticalmente com a mio direita, no gesto de quem cor-
tta eerve a discussio; a mAo empurrou o ar para long
‘no falemos mais nisto, E ia seguir o seu caminho, quando
(© de barbas Ihe obstou os pasos com olhos ferozes:
— Estiipido 6 vocé, seu atrevido! Todo homem sa-
fado ¢ assim mesmo. Compra fiado e depois vem com ma-
thas de sabido. Eu é que sou 0 trouxa. A bésta de carga!
Canalha, sem-vergonha, filho (ete.)
‘Velozmente debaixo do sol eterno veio a enfiada de
nnomes feios, cabeludos, intratéveis como trogloditas. A
‘vor do homem furioeo queria veneer a voz urbana, 0s au
toméveis, os bondes, os pregées de loterias, a vida. Os
‘transeunies foram se juntando, rodeando a briga, peseo-
{$08 espichados, ouvidos atentos. Torcida, tendéncia es-
rPortiva da época. O insultador se agitava na procura apo-
plética de xingos ainda mais torpes, mais ofensivos. Po-
‘rém 0 insultado continuava com um meio sorriso supe:
rior a tédas as vilezas humanas. Instingivel. Parecia que
Bio era com dle.
— Nio pagal Néo paga nfo! Pois entio... pode fi
‘ear de esmola, que eu no cobro mais!
(© mulato desdobrou um sorriso completo ao sentir-se
tio originalmente quite da divida. Livre do incbmodo cre
dor que renuneiava & cobranga, que se pagava com aquela
‘descompostura na via piblica. A edlera désse tornow-se di-
rnimica. Uma tapa estralou como um tiro séco na eara do
rrelapso.
— Safadissimo! Cinico!
‘Desmanchou-se a superioridade do mulato. Em dois,
‘tempos o baixote estava por terra, gotas lentas de sangue
mF =
Tordx10 Pacnzco n
The fluindo das ventas; mas se levantou logo, consertou
‘corpo, eresceu para o outro... Carmo Peres puxou o ami
0 pelo brago:
— Vamos dar 0 fora antes que a coisa fique preta e
sejam necessérios meus servigos profissionais, Depois, 6
hora do consultério.
‘Um guarda curvo, de eéqui, inchou as bochechas
comepou a apitar como um possesso. Vefculos pararam,
‘outros correram demais. Um senhor de idade berrou 4
clo era um defor ¢ erpueu n bengala do vergatho do
i para o eéu azul.
— Desaféro 0 qué, seu cretino? Compre esta pasta
dentifricia, que nfo haverd mais desaforos nem dentes ca-
riados,
© cameld de casaca, inclufdo na rapider dos aconteci-
‘mentos, se vingava no velho bracejador, sensivelmente
‘aco, da concorréncia da briga, mais humana e rara, atra~
indo a ateng&o geral. Houve risos, enquanto o velho descia
1 bengala e o encarava literalmente desarmado. Os dois
amigos iam passando indiferentes para além da répida
sincope urbana. Dols tiros. E a massa humana se abriu,
‘desagregando-se em correrias, atropelos, um amor auto-
mitico 4 vida; nfo havendo mais detonagées, se fechou,
de novo, com a preciso fatal de uma combinagio meed-
nica. Os dois amigos, no refluxo se viram envalvidos e do-
‘minedos pela onda centripeta da curiosidade popular;
quando deram % estavam outra ver no local do erime,
Era ja considerdvel a multidio se empurrando, se esbo-
fando para ver a desgraca do préximo. No melo das ea
Degas se erguia um brago eéqul, uma voz fina e irriteda
agritava que se afustassem, que se afastassem porque o
hhomem estava sem ar. Pereebia-se que a voz e 0 brago
‘cram da mesma pessoa, Necessidade imperiosa de eons
‘atagio, todo mundo queria ver tudo ¢ se acotovelava com
violéneia. Um mocinho sem chapéu teve um gesto de de-
sanimo ¢ disse para os vizinhos:Rr Er: a
2 Joke Auenoxsus
= Hel de ler isso nos jornais.
Compensados com a perspectiva de se sstisfazerem
amplamente pela imprenss, outros curiosos se confessa-
yam preciriamente vencides © debandaram.
— Licenga para um médico — dizia Peres, numa re-
entina resolucdo, tentando abrir caminho na aglomera-
‘lo sequiosa. Difieiimente, Fernandes acompanhava-o sem
Intenglo alguma. Antes que aleancassem o contro jf 0
carro da Assisténcia Pébliee penetrava como um tanque
dentro da massa compacta, e fugia.
— Uni, a Assistancia desta ver nfo dormin nko.
= Onde esté o criminoso? — perguntou Fernandes.
— Usi, no Distrito; os guardas levaram éle depressa.
— Foi o mulato?
= Qual mulato? Eu nfo vi mulato nenhum. Téo bran-
co como o senhor, ¢ éle até € meu camarada. Muito meu
‘camarada, coitado!
Fernandes voltou as costas ao popular, que tinha uma
Darba raiva de cinco dias, pele de cér terrosa, olhos rais-
dos de sangue, de bébedo.
— 0 doutor é edvogado, bésta — informou um outro.
— Bésta 6 voed, e le ja devia estar no Distrito se qui-
esse defender eriminoso.
(Os dois amigos seguiram eslados na direeao do ponto
os bondes. Em siléncto, até que Carmo Peres, mais loquas,
‘sempre, langou no ar uma conclusio inesperads, resultante
de sous pensamentos:
— E iseo mesmo,
= Is50 0 qué?
— 0 caso diese animal que vimos agora... Quando
fui interno do Pronto Socorro no Rio, gostava de conver-
sar, se podia, com desordeiros que ali iam ter baleados, cos-
‘turados a faca, moidos a pau. Um nortista atarracado, ter-
rivel bamba, me confessou que s6 era eapaz de brigar em
‘perigo iminente de vida. Simples insulto no valia para
podiam xingar @ vontade... Mas se Ihe tocassem, ae
Tortmo Pacuzco Bw
The avangassem, se sacassem arma contra éle, era um salto
¢ uma morte. Seis mortes,
— Um bandido personificando a legitima defest
— Langa as bachareliees. ...O eaboelo do Rio niio se
importava que.o chamassem de filho da puta, de ladréo,
de cAften, que éle era tudo isso e mais alguma coisa, natu
Falmente. Mas se lhe ameagassem a pele... 0 fendmeno
nio deixa de ser interessante e me parece préprio de car-
tas complicagdes da mesticagem nacional, em que entra
‘ sangue do selvagem. Nao sel, nfo, mas me parece que 0
nosso indio desconhecia a luta de insultos, o simples bate-
boca: passava logo da indoléncia as vias de fato, a fleeha
traigocira, ao tacape valente.
— E aguela falagio no “I-Juea-Pirama?” — pergun-
tou Fernandes, antolézico,
Ors, Fernandes, literatura... Boa mulher!... Mles-
tigos materializados a ponto de se forrarem a qualquer
ofensa moral. Libidinosos, maus pagadores, inimigos do
trabalho. Farinha de mandicca.
Fernandes riu de leve e obteraperou:
— Bisse negécio de ascendéneia tapuia trazendo a fal-
ta de senso moral pode ser, mas nom sempre. Tenho tra
tado no mou escritirio com mulatos e exfuzos de brio, i
ccapazes de um deslize, de sofrer uma afronta. Vé descom-
por algum déles pra voc ver...
— Bom, Nao se pode falar de modo absoluto em nada.
neste mundo. A vida est cheia de excegées, De coisas eon
trdrias. Mas no sio as excoges que confirmam as re
‘gras? Casos de tamanha animalidade... Olha o andar da-
quela morena: joga mais que um navio eosteiro!
Femandes espiou vagamente. Cumprimentavam me-
cAnicamente 0s conhecidos, se desviavam mecinicamente
dos contrérios. E as preocupacées individuais se fam de
senvelvendo paralelas & conversa.
‘Tinham consultério e eseritério no mesmo edificio. No
espelho do clevador exiguo, Peres, de chapén na mio, exa-
|u JoKo Ateuoxsus
‘minou a cara morena bern escanhosda, onde a barba eres-
cia assustadoramente em cada vinte e quatro horas, 03,
olhos grandes que as vézes apresentavam eves laivos de
‘sangue que muito o eontrariavam, 03 cabelos em andis,
‘euldadosamente mantidos em desordem... Era bonito, ou
se julgava tal; bonito para as mulheres. Enquanto isso:
— Deve ser 0 aviso dos Pontes, de que mandaram o di-
heiro para o preparo dos autos; que demora! — pensava,
Fernandes, magro, mais claro e mais baixo que o amigo,
fabrindo um telegrama que Ihe féra entregue pelo cabine!
10, 0 médico desviou os olhos do espelho para o telegrama
‘que 0 outro Ihe exibia, trémulo, chocado. E quando 0 as
‘censor parou mo 2.° andar, Fernandes exclamou imperio-
samente:
— Voo8 vai comigo, Peres, para salvar minha mie!
— Vou. Vou sim. Entdo eu podia deixar de ir? — res-
ppondeu o médico, como se 0 estivessem contradizendo, ou.
duvidando de sua resclugio.
Fernandes abragou-o: mui
brigade.
a
Dois caixeiros-viajantes, fatalidade ferroviéria, em
‘grossos capotes, enchiam o ambiente fechado, do fumaca,
de cigarros, de palavrées pllhérieos. A paisagom monoto-
‘nizada num einza matutino dangava nos vidros timidos. 0
rio largo acompanhando o trem se perdia a espacos na
névoa. E as montanhas degoladas. 4 medida que mais se
‘penetrava o interior, o8 eaixeiros iam adquirindo uma im-
Dortineia extraordinéria, falando mais alto, rindo mais,
forte. O trem parou numa estaciozinha érma, Casinhas 20
‘deus-daré pela encosta. Na plataforma, uma velhinha de
culos vendia café e bananas atrés de um balelo. Os via
Jantes comerciais tomaram conta dela:
— Al6, minha velha, seu café 6 da alta ou da baixa?
‘Torbx10 Pacueco as
— Seu café pequeno contém cafefna?
E-riam, com os olhos em duas mocas que iam dentro.
do carro e que no riam. Logo a atengio des outros passa-
geiros se desviou prazerosamente déles, No terreiro de
um barracio de adobe, baixo, feito uma furna, uma tur-
‘ma de erlangas rodava de mos dadas, Cantavam.
05 Rosina,
Rosinhazinha,
Brire nesta rode
E ficaré socinha.
No meio da rods, uma negrinha, talver de dez anos,
‘espevitada, ria os dentes muitos brancos. Devia ser a Ro-
sinha, tanto assim que respondeu:
Sieinha en nao fico
Nem het-de’ fear,
Porque tenho 0 oso
Para ser meu par.
Girava no eixo de uma das pernas sujas, eér de barro,
0 saiote imundo e esfarrapado, se suspendendo em lequ,
deixava A mostra uma bundinha nua, mureha e miserdvel,
‘Um casal entrou no carro se atrapalhando bulhentamente
com muitos filhos e embrulhos. A mulher, purl muito
moca, um sorriso inexpressivo na bea sem alguns dentes,
desabotoou a blusa e deu o peito pejado para o eagula de
‘ueiros, animalzinho que 0 sugava esperneando,
= Papai, me dé puxa-puxa.
= Cala a béca, menino.
© médico ficou sorrindo, enquanto 0 comboio retoma-
va a marcha lenta ¢ a roda dlacre de meninos ee desfacia,
og gritos de “até a volta”, na manha se despindo agora,
— Interessante, fsses meninos brincando de roda
‘40 cedo assim,
— Miséria. © para espantar o frio.16 JoKo Atrnoxsus
Joaquim do Carmo Peres era carioes, filho de um fun-
ionirio pablico de origem baiana. fsse, tirano easeiro,
‘empedernido pelas preterigdes e pelos trens dos subirbios,
‘arranjara logo para o filho aos dezessete anos um encbato
Durocrdtico. Para que o filho vivesse por si. Com as faci-
Iidades de um curso de segunda época, sem grande fre-
‘qUéncia as aulas e 20s hospitais, além dos exames por de-
‘ereto do Govérno, conseguira éle 0 seu diploma de médico.
“Neste pais, papal, quem nfo tem um titulo de doutor no
vvale nada.” A reflexiio nacional. O baiano se formalizava:
“Ent, meu filho, eu nfo valho nada?” — “Vale sim,
mas...", Entretanto, no dia da formatura, o pai impou.
de orgulho. E fol éle quem animou o rebento a fazer nome
no Rio, Fracassara 0 consultérlo a pregoe populares no
‘Méier, onde residiam, O “hinterland” horrorizava ao novo
‘miédieo. Se pbs a visar algumas eapitais de Estados, menos
atrasacas, algum conforto, bares e banhelras, gente com
quem se tolere conversar. Hscolhen primelro Vitéria, bei
ra de praia, Dias amarzos. Incerteza e quebradeira, Um,
politico mineiro, com earreira pelo Espirito Santo, cha-
‘mou-o para Belo Horizonte. Para um emprégo piblico de
‘médico. A capital mincira era suportivel... Admirével,
@izia, quadrada, retangular, ingénua. Sobretudo ingénue,
Prodigio de urbanismo montanhés!
Estava ha sete anos com uma clinica incipiente ainda,
‘Trinta e cinco anos. Solteirie, comodista, baseado no em
‘prégo, se amoldara a uma situaglo que para conférto in-
timo chamava de provis6ria. 0 ordenado Ihe permitia vi-
ver regularmente, as fungdes eram tranquilas, nfo o obri-
‘gavam a trabalhos penoses, pois os clientes pobres da me
ieina oficial mio tim o direito de exigir muito; quase
que tém um hordrio para adoccer... Felirmente as fun-
60s também nio o forcavam a viagens, mudanges de am-
bientes. Que a sua tendéncis era para a fixaglo definitiva,
Firmara uma existéncia de seu gésto, diaa de ocupacies
Pouco profundas, noites boémias de améres féceis. Por
‘Toréx1o Pacueco w
{sso aquela viagem era sua primeira entrada no interior
‘mineiro, para além da capital. No fntimo se confessava di-
Yrertido, como de uma extravagineia no seu comodismo
rotineiro. Apesar de mofdo pela noite maldormid
Femandes, recostado, olhos cerrados, sujeitava a ea
bbega aos solavancos do trem tardonho, Peres, confuso, sem,
1 compenetrar do papel de amigo do amizo dolorido, pre
teria calar-se olhando a terra, melo Srénico.
5é te pogo! Jé te pero! J ‘Tolice: pegava
nada, Impertinéneia de trenzinho caipira... Na sua me-
ninice a tradugio onomatopéica da marcha da locomotiva,
6 era aquela: jé te pego! Mas a locomotiva costumava
Degar e estracalhar homens nas eancelas, nos desvios, va-
rando 08 subirbios do Rio, puxando carros atulhados de
gente... A eaixeirinha loura, sua eterna propensio para
as louras, que o namorava quando vinha no subtirbio do
MBéier, adolescente. Chamava-se Genoveva, nome feio, e
trabalhava numa case do centro; dera a éle uma gravata
vyermelha, por conta do patrio, explicava ela, botando 0
polegar direito na palma da mio eequerda e rodando os
outros dedos até feché-los sObre 0 polegar. Gardta sabida.
Por causa do furto da gravata, éle perdera 0 respeito e a
‘imide, passando a bolinfta desesperadamente, como 96
© fezem os adolescentes. Que 6 que seria feito dela
Aliés, pouco The importava. O que precisava era vencer
éste marasmo, vencer na vida afinal de contas!... Ja te
ego! Jé te pego! O sol vinha vindo, rebrilhando no orva-
Tho da manhazinhs, O trem ia indo haqueando, solavanean-
o num esférgo enorme. Bois berrando baixinho na beira
da linha. Um milharal. 0 apito aibito cortou o resfolegar ”
da mfquina, deixando gritos agudos nos ouvides dos pas-
sageiros da pequena composiglo,
— Estamos chegando, Peres. Agora umas cinco horas
1 cavalo... por estrada de automével. Depols a fazenda
do vetho.
—Puxal6 Joke Aumoxsus
— Ainda no conhego a estrada, mas sel que o velho
no tem automével e dificiimente se convenceré da neces
sidade dele,
‘A estacZozinha vermelha, que se aproximava dangan-
do slegre, estacou compenetrada quando o maquinista
ffreou a bruta barulhada de ferragens. 0 eaboclo quaren-
‘40 chegou tilintando as chilenas e enfiou a cara curtida
na jancla, a voz arrastada:
'— Bio dia, Dontor Nanduea.
— Bom dia, Chico. Como val? Que é dos animais?
— Bstou bom, sim, senhor. Que animais, que nada,
seu doutor. Agora é a méquina. Olhe li.
Pisano a estreita plataforma de madeira, Carmo Pe-
‘res dou logo com as chilenas nos pés descalgos do cama
rad
— U6, voo® usa esporas pra gular o carro?
— Costume, seu doutor. NSo posso andar sem elas
io, Fico tropicando & toa. O senhor. ..
— 0 automével 6 brado ou lerdo? O Chico desde ra-
ppazinho que é o melhor petio lé da fazenda.
— Melhor nads, seu Doutor Nanduca. J4 levei_ uns
cinco tombo e jé amansei pra mais de mil animal... 0 se-
hor 6 0 doutor-médico?
Peres com a cabeca féz que sim. Fernandes se espan-
tou daquela conversa quase alegre e perguntou depresaa:
—E minha mie, Chico?
— Vai melhor, sim, sonhor. Melhor nio, Na mesma.
‘Mais ou menos.
© camarada sorriu falso, contrafeito. 0 sutombvel
olhava-os com as lanternas cheias de sol, entre duas casi-
thas dinieas, A tira da estrade se perdia no mato. Sosségo
verde, Mas Fernandes, sem yer nada, parecia fulminado
pela resposta malfingida do eaboclo. Pelo silencio trégieo
‘ap6s. Chico ae insultava intimamente, um cavalo, um ju-
‘mento, por ter eriado aquela mudez entre os trés ¢ ser
fneapaz de destruis, Um frio de morte brincava de selar
Tords10 Pacmeco ro
as trés béeas com o seu travo de incerteza, de solidi.
0 préprio Peres apenas extraira uma ineerteza das pala-
‘vras do roceiro; nfo perguntara nada mais, para néo au-
- Aliés, nenhum déles aten-
tava propriamente na tragédia momentines; se desven-
eilhavam do mal-estar examinando o automével, com ar
sucumbido e expressdes automsticas, tal um objeto nunca
‘visto, que fosse marchar para 0 desconheeido,
— Um carro de segunda ou terceira mio,
— Sim, seu doutor.
— 1930. Um ano de bons motores.
— A estrada 6 que nfo deve ser grande coisa.
= Sim, seu doutor.
Mas o verdadeiro silénclo no passava, A tira éspera
se desenrolou aos arrancos sob os pneus. O sosségo verde
poueo # pouco um béleamo para a dor do Srfao. Do Grfio?
Othos parados olhando arvores a deslizar sObre o eapim,
rasteiro, Peres se esforgava. para fugir do ambiente, pen-
‘sando, por exemplo, no despertar de Aline, S6 a hipoctista,
da cara compungida, a caricia matinal do vento frio, re-
confortante quase como um chuveiro depois da viagem no-
turna que © amarrotara, Vento veloz, na velocidade se-
gura do peio-motorista, A noite maldormida era agora
Jum mole, gostoso desejo de nada,
© automével as vézes encontrava a pachorra de bo-
vvinos que ruminavam na estrada. Buzinava violentamen-
te. Uns se retiravam fleumatieos para o3 lados, outros £u-
iam desabalados na frente do carro, Para ésses, Chico
diminuia a marcha até encontrar um trecho mals largo
do caminho; ali quebrava agilmente a dizegao pisando agil-
mente 0 acelerador com 0 enorme pé desealgo; 0 animal
via de repente a méquina se emparelhar com éle e estacava
um golpe tio forte que, em dots des, as patas diantel-
ras se dobraram eo focinho tocou a terra. Corria um,
‘quase imperceptivel sorriso pela cara parada do chofer.
ases incidentes iam distraindo © médico, que ainda mals2 Joo Atrnonsus
divertido ficou quando, ao defrontarem uma porteira, Chi-
co sbmente diminuiu a marcha até que o para-choque
fencostasse nela e a empurrasse: a madeira corre rasean-
do pelo péra-lama diveito e a porteira bateu pesada na trac
‘ve, enquanto a viagem continuava, Quis comentar aquéle
‘modo de abrir porteira, mas viu que Fernandes tinha ago-
a 09 olhos cerrados, um ar de dor inviolével.
‘Acestrada aubia agora. Subia sempre. 0 horizonte fi-
cava mais largo na sucesso de montanhas, & ascencio da
rodovia, O auto grimpava barulhento as eurvas espertas.
Contornou um trecho de serra ressaltando redondo feito
uma eorcunda, em que a estrada quase fechava uma cir
cunferéncia, € o horizonte se alargou ainda mais, aberto
felimpo. Chico desligou o motor para descer e féz um gesto ||
igualmente largo, ao qual sua vor acompanhou depois de
alguns segundos, num esférgo para romper 0 siléncio pe-
sado:
— Seu doutor-médieo, no pé daquela serra 1é, aquela
que comeca vermelha de terra, depois tem um eapim fa-
Thado no melo, depois o canavial, seu doutor esté vendo?
— sim.
— No pé daquela serra é que 6 a Grota, a fazenda
‘onde mora Seu Coronel. B tudo que o senhor esta abar-
ceando com og clhos, ¢ terra de Seu Coronel. Dagui pra lé
fa estrada € tOda corcada, Seu Coronel arranjou com 0 Go-
vérno.
Carmo Peres pensou: a riqueza imbecil do latifindio
desaproveitado, tio imbecil como dinhelro guardado no pé-
de-meia. Quis dizer isso, mais brandamente, mas logo des-
‘cobriu a inoportunidade do tema, pela dor do amigo, pelo
ppai do amigo. Fernandes descerrou devagar as pélpebras:
0 inventario val ser muito trabalhoso, muita terra
indivisa, glebas de valores diversos.
—Mas, Femando. .
— Voc’ deve se lembrar daqucle dia no meu eserité-
rio, em que conversivamos enquanto eu abria minha cor-
Torbxro Pacusco a
espondéneis, voce deu com os olhos num sobrescrit
“que letra de analfabeto!.
— Lembro bem é 0 desapontamento em que fiquel
quando vocé me disse que a carta era de sua mie.
— Nao me importef, voed bem viu (Fernando tinha
1 vor quente e baixa, como em sogrédo, num respeito mor
‘tudrio). Uma criatura que aprendeu o simples a-b-e quan-
do crianga, que depois foi a mée de familia intelramente
dedicada aos fillos, e mais tarde quase que teve de nova-
‘mente aprender a ler e a escrever, por causa do filho que
estudava, que ficou longe dela... Suas itimas eartas, ra-
ras e curtas, eram sempre um convite, um pedido pra que
eu viesse passar uns tempos com Orminda e Delso na fa
zenda. Vai para cinco anos, desde que me casel, que nfo
venho por aqui. Minha vida de trabalho estipido, Depois,
com franqueza, nunca desejel sujeitar Orminda e Delgo &
falta de conforto déste interlor abandonado. Mesmo por
‘uns diss, A fazenda é um pardielro secular, que Minda
nem imagina como é, que ela nao suportaria, Confesso que
tinha respeito humano em Ihe mostrar © meu bergo, a casa.
infecta em que nasci
Fz uma pausa e sua vor ge tormou ainda mais quen-
te e ciciante:
— Mas eu poderia ter vindo 56. 0 que estou sentindo
tom muito de remorso. Tio amoross, tio dedicada, to,
‘orgulhosa do filho doutor, sempre saudosa, com a saide
impedindo viajar para véo, ¢ vou encontré-la morta!
— Mas, Fernando, morta por qué? — disse Peres, que
se animara a acaber com a incerteza. — O Chico deixoa.
transparecer que ola est4 mal, como no telegrams.
Porém...
— # mesmo, seu doutor. Dona Ciana vai sarar. Ainda
‘mais com o3 doutor 1é na fazenda!
0 caboclo se sentiu reabilitado e plsow o carro, que
chispou na grande reta das gameleiras, arvores gigantes-
‘eas ensombrando a rodovia. Sdbre félhas séeas. Um touro
aa‘Toko Axruoxsos
junto & cérea de arame esplou com solenidade 0 automé-
vel passar. A reta e o plat terminaram numa descida
forte.
— Othe 1é, seu Doutor-Médico.
Enquanto baixavam na vertente, enxergavam para.
além do cérrego, Id embsixo, 0 casaro batido contra 0
sopé da outra montanha. Casario em forma de um U que,
se firmando na montanha, avancava firmemente na var-
‘gem estreita do cérrego os dois lancos paralelos de cons-
trugio aresiea, Fileiras monétonas de janelas sem vide
‘gas, menos na parte interna do U, téda faceeda por uma
Targa varanda de madeira para onde se abriam portas e
Janclas se revezando irregularmente. O rebéco das pare-
ides, eaiadas de oes, ee eecarnava em viirios pontos. As ja-
nnelas, as portas, a varanda estavam com a madeira eno
‘grecide, como se 0 tempo, depois de Thes tirar uma antiga
‘Pintura a éleo, as houvesse lenta ¢ limosamente pintado de
‘eseuro, Ou seriam elas de qualquer madeira eseura, aroet-
‘ra ou baraiina, quase to rija e durivel como pedra, que
86 a eseravaria era capaz de lavrar e aparelhar, outrora,
‘e armar com progos da grossura de um dedo, O tango da
‘construgio que formava a base da letra ora mals larro
ue og demais; dava a impressio de que o seu telhado, por
‘rds, ee amparava diretamente na montana.
‘A estrada deseia no meio do milharal empenachado,
‘uma linha sinuosa de eixo perpendicular & massa do edi
ffcio que podia ser minuciosamente examinado; embaixo,
la se dirigia para a esquerda, © 0 motorista penetrou por
tum atalho, a uns com metros da fazenda, explieando:
—A estrada sogue pra cidade, Seu Doutor.
© carro avangou resolutamente dentro do cérrego
‘raso, com a dua pouco acima do centro das rodas, provo-
‘cand um sorriso de Peres, que mal teve tempo de se re-
eordar do alagamento de certas ruas do Rio, por ocasio
das chuvas torrenciais, quando os automOvels fazem a
‘mesma coisa... Mal teve tempo de se recordar, pois os
‘Torbx10 Pacusco 23
etalhes se sucediam e 0 interessavam. O negro sem can
‘isa, reluzente de bodum, abrin a porteira contra o carro,
que nfo poderia empurré-la. Os pneus corriam agora no
curral, que ocupava tda a frente dos trés langos. Sulea-
‘vam maciamente a espéssa camada de bosta de boi. O cho-
fer trazia a felieidade no semblante, a0 chegax com o filo,
lustre e o salvador de sua patroa. Vaeas, bezerros, lites,
galinhas, em promiscuidade, se afastavam assustados a
ppassagem da méquina que entrou decididamente dentro do
Ue oi freada com precisio junto & eseada de pedra que
conduaia & varanda, & direita.
Peres notou que haviam desaparecido inimeras ea:
‘ras que vira de Jonge na varanda. Depols de tirar da eabe-
a um chapéu de abas-largas e de entreg-lo a um mole
‘que, © Coronel Anténio Pacheco Fernandes descia os de-
‘graus, scompanhado por uma mulata gorda. Magro, me-
iano, o rosto amarfanhado em rugas com 0 fundo Or de
sarro de fumo, tal uma pStina orginica, bigode confun-
dindo-se com a barba espéssa e branca, mais amarela do
‘que branca, especialmente em redor da bea. No rosto fi-
no, 0 cabelo Aspero e maleuidado compensava de certo
‘modo, de cada lado, uma reentrancia causada pela ausén-
cia de dentes. © nariz ressaltava nftido, até elegante, €
ppor isso um pouco ridfeulo. O mesmo tipo do advosado,,
envelhecido ¢ destratado, Peres comparava 0 pai com 0
filho, quando viu fuzilarem sbbitamente og olhos daquel
Sim senhor, Chico!
Debaixo do autom6vel um leftio jazia com o ventre
achatado, Morrera sem dar um grito,
— Com efeito, Chico! O diabo desta méquina s6 tem
servide pra me dar prejuizo... Pra que mio mandel o
Felishino! Voed pensa que isso € 0 mesmo que amansar
burro, mas voeé me pags, nunca mais monta nisso, no.
— Nio precisa me acanhar na vista dos doutor, Seu
Coronel, que eu até que gosto mais de montar a cavalo,
Por essa niio seja. Se nfo est satisfeito..o Joko Axrnonsus
Toréxto Pacunco 25
— 0 quer
‘A exclamagfo iracunda the abriu inteiramente a béea,
‘onde os eaninos, quase solitéries, pareciam quase tio com
pridos como certos dentes dos felinos. 0 advorado desean-
fou milo no ombro paterno ¢ disse com desinimo:
= Meu pai, aqui esté 0 Doutor Peres.
— An, gente... Me desculpe, Doutor Peres. Voot 6
tum ingrato, Chico! Féz bos viagom? Meu flho, voed esta
fagulexté sem mie, Sohe. Faz favor de subir, Doutor Peres.
Falisbino, apanha o leitio e sangra ale $6,
Um abrago’ do lho. Celoroze apérto de mio do
amigo.
— Esta 6 2 Josofina, Peres.
© mético apertou igualmente a mio da mulata, tio
familiarmente apresentada por Fernandes. Subiram’mu-
dos. A pesada construgio colonial estaya quida e calada.
‘Uma porta ao fundo da varanda se atulhava de mulheres
© moleques, pismentagio variada, curiosidade admirativa.
‘A porta em frente da escada se abria para uma sala escura
fe sombria, com & mesa imensa e tsca, de onde se levanta-
vam dois homens magros ¢ duas mulheres gordas, Para
entrarem, Coronel deu um safanéo em um nogrinho sem
caleas, que barrava a passagem chupando um pedago de
rapadura,
entrgicas. Por que gladiadores romanos, ora essa, Tirou.
da mala um pijama. Colocou 0 paleté no encésto de uma
ceadeira de palhinha, moderna, modesta, amarels. © quarto
era enorme, forrado de esteira de taquara eaiada, ¢ assoa-
Thado de largas tébuas irregulares, com pregos cijas ca
besas eram to grandes como a ponta de tum dedo polegar.
Seria tio bom um banho. Porém apenas junto & janela
‘ebmoda-toucador, mével torneado e pretensioso que com-
pletava 0 mituo anaeronismo das pecas do mobiliéeie par~
0, oferecia a bacia de rosto, o jarro de agua, o espelho
encardido, Bacia e jarro de prata. Lavava o rosto quando,
bateram na porta:
— Doutor, pode vir.
Sentia que 0 piso do corredor sombrio era em altos:
ce balxos, como o do quarto. O Coronel 0 foi conduzindo sem,
cnldar de andar de leve e narrando em vor alta:
— Giana tinha acabado de jantar ¢ estava debrugada
no pars-peito da varanda olhando os bezerros. De repen-
temente caiu. Quando me chamaram, estava de olhos e5-
bugalhados, a boca torta, respirando feito um fole furado,
de Ferreiro, O Doutor Sez6s, 0 médico da nossa eidade, velo,
depressa e disse que no tem... que nfo tinha remédio,
‘Um transtérno, Doutor Peres! Ble féz uma sangria, man-
dou dar um purgante... Uma desgraca!
44 estavam ouvindo o ruido intermitente do fole fu-
ado. Penetraram na forja hedionda, impregnada de um
‘estonteante calor animal. Enquanto formas eonfusas se
movimentavam na sombra, acentuou-se 0 rufdo enervante,
Um resfolego eresela forte, cheio, enchendo 0 quarto, &
stbitamente fuga, como se eseapasse por um furo, um.
ffuro de fole. Sempre inesperado eomo uma desgraga se re
petindo contra a expectativa de todos, o eseapamento e3-
palhava um mal-estar estranho, vida que ae afirmava
‘mama esperanga de férea e fugia, automatismo animal ti
nico, abomindvel. Um cheiro de suor, de mofo, de azeite
queimado: 20 fundo, a limpada de azeite fluminando =
Carmo Peres notou que a porta no tinha fechadur
‘apenas uma taramela bumba. Abriu a mala de viagem, eo-
Tocada sdbre a canastra quase tio longa como um caixio
de defunto, e conservando nas junturas das tébuas sinais
de um p6 que Ihe parceeu de séculos. No recanto mais
sombrio do quarto, a cama de casal, em madeira pretay
‘apresentando nos quatro cantos quatro pequenas cabecas
de gladiadores romanos, obra de talha, bem trabalhadas ©
FACULDADE DE LETRAS.
imionece’