Você está na página 1de 12

Curso de Engenharia Civil, PUCRS Fundações

FUNDAÇÕES PROFUNDAS
ESTIMATIVA DE CAPACIDADE DE CARGA ADMISSÍVEL
A capacidade de carga de ruptura de fundações profundas, com objetivo de evitar seu colapso ou o escoamento do solo que lhe confere sustentação, é definida pelo menor dos dois valores seguintes: a) resistência estrutural do material que compõe o elemento de fundação; b) resistência do solo que lhe confere suporte. O conceito de carga de ruptura é relativamente diverso, dependendo da definição do seu autor. Segundo Décourt a carga de ruptura “é definida como sendo a carga corresponde a sua deformação de ponta (ou do topo) da estaca de 10% de seu diâmetro, no caso de estacas de deslocamento e de estacas escavadas em argilas, e de 30% de seu diâmetro, no caso de estacas escavadas em solos granulares”. Neste contexto, normalmente a situação mais frágil é aquela que envolve a resistência do solo. Fato este que não é de difícil identificação em situações onde (1) um mesmo elemento de fundação, com comprimentos diferentes, colocado em um mesmo solo, apresenta capacidades de carga distintas (Pb > Pa); e, por outro lado, (2) um mesmo elemento de fundação, com igual comprimento, porém executado em solos diferentes, pode também apresentar capacidades de carga distintas (PII ≠ PI), conforme ilustra a Figura 1.

Figura 1

Por esta razão, por si mesma comprovada, é extremamente prudente e não recomendável que a capacidade de carga admissível de elementos de fundação não deve ser pré-fixada a partir – exclusivamente – da capacidade resistente estrutural do elemento. Esta situação pode servir como referencia inicial para uma estimativa preliminar do número de elementos necessários (número de estacas para absorver a carga de um pilar, por exemplo), mas a capacidade de carga admissível final continuará dependendo de dados do solo e da profundidade de implantação do elemento, além do tipo da estaca.
Prof. Eduardo Giugliani, 2011 Notas de Aula 1

sob bases mais reais e precisas. Em praticamente todos estes métodos. esta é mais utilizada em situações de verificações in loco.0 b) Qu = Q’ / 1. Eduardo Giugliani. cujas bases de comprovação sempre ficam identificadas com seus modelos e as regiões geográficas onde foram avaliados. a partir deste método.Ap + qs.Ap + qs.As = qp. posteriormente à execução do estaqueamento.Curso de Engenharia Civil. 2011 Notas de Aula . em casos mais especiais. Método de Prova de Carga: Referente à realização de prova de carga em estaca. a partir de testes de campo. o menor dos dois seguintes valores: a) Qu = Qr / 2. deve-se adotar para carga admissível.Σ L Prof. De acordo com recomendações da Norma NBR 6122.U. em elemento de referência (modelo) executado previamente para constatação da capacidade ‘real’ da estaca e fundamentação do projeto geotécnico final. ou.5 onde: carga admissível da estaca Qu Qr carga de ruptura da estaca Q’ carga que produz o recalque admissível para a estrutura (medido no topo da estaca) Métodos Semi-empíricos São inúmeros os autores que formularam e desenvolveram teorias para a determinação da capacidade de carga de estacas. a capacidade de carga de uma estaca é obtida a partir da seguinte expressão geral: Qu = Qp + Qs onde: Qu Qp Qs e ainda: Qu = onde: qp Ap qs resistência de ponta da estaca área da ponta da estaca resistência limite de cisalhamento ao longo do fuste da estaca 2 capacidade de carga de ruptura do elemento de fundação carga suportada pela ponta da estaca carga suportada pelo atrito lateral da estaca com o solo Qp + Qs = qp. PUCRS Fundações CAPACIDADE DE CARGA DE ESTACAS São de dois tipos os métodos normalmente utilizados para definir a capacidade de carga de ruptura de estacas: métodos baseados em prova de carga e métodos semi-empíricos.

Eduardo Giugliani.Curso de Engenharia Civil. 2011 Notas de Aula . Processos indiretos: onde os dados de avaliação são obtidos a partir de ensaios in loco ou em laboratório e a capacidade de carga é determinada a partir de formulação teórica ou experimental. Figura 2 Os valores das resistências qp e qs podem ser avaliados e obtidos a partir de: • • Processos diretos: onde qp e qs são obtidos a partir de correlações empíricas oriundas de ensaios in loco. 3 Prof. Dificuldade de determinar com exatidão a resistência ao cisalhamento dos solos. PUCRS Fundações As U Σ L área lateral do fuste da estaca perímetro do fuste da estaca somatório de trechos do fuste da estaca (L=Σ L comprimento da estaca) A Figura 2 ilustra e representa a ocorrência destes dois tipos de resistências que ocorrem ao longo de uma estaca na transferência de carga da estaca para o solo. não resultando em valores satisfatórios devido a vários fatores. A estimativa da capacidade de carga de estacas a partir de modelos teóricos normalmente torna-se deficiente. o estado de carga do terreno e as condições que compõe o perfil geotécnico atravessado pela estaca e onde esta de apóia. dentre estes podem ser citados: o o Impossibilidade prática de conhecer. com certeza.

Heterogeneidade natural do solo. que interferem na iteração solo-estaca. Prof. PUCRS Fundações o o o o Dependência dos processos executivos das estacas. Eduardo Giugliani. como será observado a seguir. divergindo basicamente na definição e estimativa das resistências qs e qp. Ambos os métodos apresentam modelos conceituais semelhantes. também aprimorado posteriormente (1982-1987-19911993-1994 e 1995).Curso de Engenharia Civil. 2011 Notas de Aula 4 . Neste contexto serão abordados dois métodos – muito difundidos no Brasil: o Método Aoki e Velloso (1975) – estendido por Velloso em 1991 – e o Método de Décourt e Quaresma (1978). Fatores. Falta de uma relação direta entre a resistência lateral e a resistência de ponta. internos e externos.

podem ser utilizadas as informações obtidas a partir de ensaios SPT.40 2. Velloso e Salomoni (1978) F1 1. as resistências qs e qp são definidas da seguinte forma: Qu = Qp + Qs + = qp.00 3. PUCRS Fundações Método Aoki e Veloso: Neste método.Nspt / F1 qs = α.50 Tabela 1: Valores de F1 e F2 (Aoki-Velloso) F2 3.40 3.50 3. conforme indicado na Tabela 2.Nspt : qp = qc / F1 = K. Tipo de Estaca Pré-moldadas Metálicas Franki Escavadas * * F1 e F2 de acordo com Aoki.75 2.75 1. Eduardo Giugliani. considerando : qc = K.qc / F2 = α. para tanto.As qp = qc / F1 qs = α. indicados na Tabela 1.20 2. O coeficiente α.00 6.00 2.00 3.50 3.qc / F2 onde: resistência de ponta do ensaio de penetração do cone – CPT qc F1 e F2 fatores que consideram as diferenças de comportamento entre os diversos tipos de estacas.K. as resistências ficam assim definidas.00 Na ausência de ensaios de investigação do tipo CPT.00 Prof. relaciona a resistência de ponta com a resistência lateral.Ap + qs.Curso de Engenharia Civil. Nspt / F2 onde K e α são coeficientes de dependem do tipo de solo e que estabelecem a correlação entre o ensaio CPT e o SPT.00 2.80 4.80 3. 2011 Notas de Aula 5 .80 2.00 7. Tipo de Solo Areia Areia siltosa Areia silto argilosa Areia argilosa Areia argilo siltosa Silte arenoso Silte areno argiloso Silte Silte argilo arenoso Silte argiloso Argila arenosa Argila silto arenosa Argila areno siltosa Argila siltosa Argila K (kN/m2 ou KPa) 1000 800 700 600 500 550 450 400 250 230 350 330 300 220 200 Tabela 2: Valores de K e α (Aoki-Velloso) α (%) 1. especificamente.50 5.00 2.40 3.40 2.

PUCRS Fundações A utilização deste método. Nspt.20 e que a capacidade de carga da estaca é dada por: Qu = Qp + Qs = qp. nas expressões utilizadas para a avaliação da capacidade de carga do solo. sendo Nspt. estava baseado nos valores obtidos diretamente do ensaio de investigação SPT (Nspt) e a partir do conceito de uma estaca padrão. Posteriormente. temos: Neq = T / 1. considerando que o valor do torque T (kgf.( Nspt/3 + 1) em kN/m2 (ou KPa) considerando-se que. apresenta dificuldade para a sua correta aplicação devido à necessidade da perfeita caracterização do tipo de solo envolvido. o que é quase impossível de ser obtido. através do conceito de Neq (Nspt equivalente).Curso de Engenharia Civil. definido pela Tabela 3. 2010 K (kN/m2) (*) Estacas Escavadas 200 140 120 100 Prof. o valor imediatamente acima e o imediatamente abaixo. foi adequado para outros tipos de estacas e à ensaios do tipo SPT-T. após vários aprimoramentos. podem ser utilizados os valores de Nspt obtidos diretamente do ensaio.m. 2011 Notas de Aula 6 . O valor da resistência lateral é dado pela expressão: qs = 10. Assim.m). As sendo que a resistência de ruptura de ponta é dada por: qp = K.Ap + qs. assim como os correspondes ao ensaio SPT-T.m a média entre os SPT na profundidade de ponta da estaca. Eduardo Giugliani. em que pese sua difusão e aceitação por parte dos projetistas de fundações. relaciona a resistência de ponta com o Nspt. de acordo com Alonso (1991): 3 ≤ Nspt ≤ 15 para estacas do tipo pré-moldada ou Franki 3 ≤ Nspt ≤ 50 para estacas do tipo escavada com lama bentonítica Tipo de Solo Conforme Perfil de Sondagem Areia Silte arenoso (solo residual) Silte argiloso (solo residual) Argila K (kN/m2) Estacas em Geral 400 250 200 120 Tabela 3: Valores de K (Décourt-Quaresma) (*) Alonso. onde.m onde o valor de K. em 1978. Método Décourt e Quaresma Quando este método foi apresentado.

85* 0.85 0.85 0.50* 1.estendido Este método foi.00 + + + βp 0.Ap + 10.60* 0.00* 3.00* βp Raiz βs 1.00 1. estendido para outros tipos de estacas também muito utilizadas e mais recentemente difundidas.60 0. 2011 Notas de Aula 7 . Estes valores.00 1. são considerados os parâmetros βp e βs a seguir relacionados (Tabela 4). PUCRS Fundações Método Décourt e Quaresma .30* 0.90* 0.00* 3.50* 1.00* βs 3.80 0.60 0. Eduardo Giugliani. Qu = βp. posteriormente. As] onde: Nspt Estaca Solo Argilas Solos** Areias + em kN/m2 (KPa) no de golpes do ensaio SPT Cravada Escavada (em geral) Escavada (c/bentonita) (estaca padrão) Hélice Contínua βp 0. de majoração ou de minoração.00* 1.75* 0.00* 1. Nspt.30* βs 1.Curso de Engenharia Civil.00 1.50* Injetada (alta pressão) βp 1.50 βs 0.00 + + + βs 1.qs. Neste caso. a expressão geral para a determinação da carga de ruptura da estaca é dada por: Qu = βp.65 0.50* valores para o qual a correlação inicial foi desenvolvida * valores apenas indicativos diante do reduzido número de dados disponíveis ** Solos intermediários Tabela 4: valores de βp e βs (Décourt-Quaresma – estendido) Prof.00* 1.50 βs 0.00* 1.Σ[( Nspt/3 + 1). βs.K.00 1.60* βp 1. Para tanto.50 βp 0. respectivamente para a resistência de ponta e para a resistência lateral.30* 0.As ou ainda.qp.Ap + βs. não indicadas inicialmente.00* 0.

2006). utilizando princípios Prof. de acordo com orientações da norma NBR 6122.3 + Qp / 4. conforme indicado na Tabela 5: Qu = Qp + Qs Q = Qu / CS Método Aoki e Velloso Décourt e Quaresma Q≤ Qu / 2.K.0 Tabela 5: Carga Admissível Final Qs / 1. L] (βp. tem-se o indicado na Tabela 6: Método Q≤ NBR 6122 / Estaca Escavada Qu / 2.Nspt / F1). Nspt / F2). dispõe sobre nova metodologia para avaliar os ensaios SPT. L] Os valores dos coeficientes indicados devem ser obtidos das Tabelas anteriores.Nspt. 2011 Notas de Aula 8 . os dois Métodos Semi-empíricos aqui abordados.0 E ainda. se a estaca é do tipo escavada com sua ponta apoiada em solo.Σ[( Nspt/3 + 1).Ap 10.8 Tabela 6: Carga Admissível Final para estava escavada apoiada em solo Comentários Finais Em resumo. dependente do método adotado. Outro estudo.U. Estudos mais recentes têm conferido extensão a estes métodos.βs.0 Qs / 0. em função do método adotado. podendo-se citar aqueles que.K.Ap + U. conduzem a valores de capacidade de carga à ruptura que podem ser expressos por: CAPACIDADE DE CARGA Método Semi-empírico Aoki-Velloso Décourt-Quaresma Qu = Qp + Qs = qp.Ap U. para o Método Aoki-Velloso.m). mais recentemente difundidas.Σ[(α.Curso de Engenharia Civil. Eduardo Giugliani. recentemente publicado por Schnaid (Geosul. apresentando a estimativa de capacidade de carga a partir do desenvolvimento de equações baseadas em conceitos da física.Σ[qs. dispõe dos valores de F1 e F2 para outros tipos de estacas. PUCRS Fundações Avaliação da Carga Admissível Final Conhecida a carga de ruptura da estaca – Qu. a carga admissível Q será obtida pelo quociente entre este valor e um coeficiente de segurança – CS. L] Qp Qs (K.0 Qu / 2.

sem penetração adequada. Penetração de Ponta da estaca na Camada Resistente: Valores elevados de Nspt na camada onde a estaca se apóia. ALONSO. 1998. Projeto e Execução de Fundações. Ed. A utilização de métodos semi-empíricos. Urbano Rodrigues. 2011 Notas de Aula 9 . Ensaios de campo e suas aplicações à engenharia de fundações. Tipo de Solo: A descrição do tipo de solo é realizada a partir de critérios subjetivos. Edgard Blücher Ltda. GEOSUL – V Simpósio de Prática de Engenharia de Fundações da Região Sul. Projeto e Execução de Obras em Concreto Armado. Eduardo Giugliani. ed. São Paulo : Oficina de textos.2006.Curso de Engenharia Civil. podem conduzir a valores irreais para a capacidade de ponta estimada. por exemplo (SCHNAID. São Paulo: Pini. Urbano Rodrigues. Fernando et al. A adoção de coeficientes empíricos para caracterizar a influência do tipo de estaca deve ser utilizada com precaução. W. SCHNAID. abril. Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT NBR 6118. NBR 6122. Ed. requer que sejam consideradas algumas variáveis muito importantes. 1980. Previsão de Capacidade de Carga em Estacas através de Conceitos de Energia no SPT. 2000): Tipo de Estaca: A mobilização do atrito lateral no fuste da estaca é função do tipo de estaca e do seu processo executivo. 2. densidade do solo e nível das tensões. Porto Alegre. Fernando. São Paulo. Referências ALONSO. 2010. e sempre que possível. quais sejam. Edgard Blücher. Profundidade: O valor de Nspt depende de duas variáveis. 2ª Edição. 1991 HACHICH. que são normalmente desprezadas pelos métodos semi-empíricos. para a avaliação da capacidade de carga de ruptura do solo a partir da transferência de carga de estacas. Fundações : teoria e prática. Urbano Rodrigues. o que pode afetar a definição dos coeficientes empíricos a serem adotados para a previsão de capacidade de carga das estacas. ALONSO. 751 p. Previsão e Controle das Fundações. São Paulo. 189 p. Dimensionamento de Fundações de Fundações Profundas. PUCRS Fundações básicos da conservação de energia para a força dinâmica transmitida ao solo durante o processo de cravação do amostrador SPT. Ed. São Paulo. Edgard Blücher Ltda. validada através de provas de carga. c2000. SCHNAID. Prof. Exercícios de Fundações.

PUCRS Fundações Exemplo Para o perfil geotécnico abaixo. 2011 Notas de Aula 10 . pág. obtenha o valor da carga de ruptura ao longo de sua altura utilizando os métodos semi-empíricos de Aoki-Velloso e Décourt-Quaresma. 1991. Fonte: Previsão e Controle de Fundações. obtido a partir de uma investigação utilizandose o método SPT. Urbano Rodriguez Alonso. Considere que a transferência de carga ocorrerá a partir de uma estaca prémoldada com 50 cm de diâmetro. Prof. Eduardo Giugliani.Curso de Engenharia Civil.67-69. 2ª Reimpressão 1998.

PUCRS Fundações Prof. Eduardo Giugliani.Curso de Engenharia Civil. 2011 Notas de Aula 11 .

Curso de Engenharia Civil. 2011 Notas de Aula 12 . Eduardo Giugliani. PUCRS Fundações Prof.