O Passado

EDITORIAL
compromissadas com o que fazem. São tantas bandas que até podemos perder as contas facilmente. Mas para que tantas bandas se não há público para assistilas? Onde estão todos? Refugiados atrás da tela do seu computador, com o seu MP4/celular/iPod, ouvindo as bandas que lhe convém ouvir? A pergunta é: onde estão os bangers que iam aos shows? Esperando que a superbanda detentora de inúmeros prêmios musicais, de anos e anos de carreira, esteja na sua cidade para sair de casa e consumir aquele produto ao vivo? Onde estão todos que antes iam aos shows locais, mas, com o advento da Internet, largaram o prazer de frequentar os locais dos eventos para suprir a necessidade virtual? Não vamos generalizar, pois ainda há pessoas que querem tentar mudar o estado vegetativo da cena local. Continue firme, este é o nosso voto. E, por favor, que o público seja menos virtual, saia um pouco, construa laços afetivos e vamos juntos desfrutar dos shows, das amizades, do que a vida real tem a oferecer.

O assunto do momento é o passado, o presente que não se firma e o futuro de incertezas. Parece meio apocalíptico, mas é para soar bem trágico o que gostaríamos de transmitir este mês. Já fizemos este questionamento várias vezes nas páginas desta revista, já demos vozes para os que gostariam de acrescentar sobre o “estado de coma” que a cena nacional está vivendo, e a local, por sua vez. Tentamos mostrar isso, mas pouca coisa mudou. Estagnação! Uma carta aberta foi escrita e não foi levada muito a sério. Uma entrevista foi concedida e o mundo desabou: caiu para os que amam o que fazem e buscam, em suas forças interiores, a vontade para continuar e continuar e não fraquejar. É inevitável não pensar em retroceder. Quantas bandas já estiveram no auge e hoje estão mergulhadas no esquecimento, ou, simplesmente, acabaram? Quantas vezes você, amante do Heavy Metal, lamentou o fim de uma banda e que você não teve a oportunidade de ver? Ah, o público! A cena nacional possui bandas incrivelmente talentosas, de pessoas realmente dedicadas e

04 Darth Jeder 06 World Metal 09 Korzus em Maceió 19 capa - Necronomicon 26 Diário de bordo Pearl Jam 32 O Metal está morto? 37 Entrevista: Sanctifier 48 O que estou ouvindo?

CONTENTS

EXPEDIENTE
Direção Geral Pei Fon Revisão Yzza Albuquerque Capa Lucas Marques Equipe Daniel Lima Jonas Sutareli Lucas Marques Pei Fon Yzza Albuquerque Colaboradores Breno Airan Charles Curcio Jeder Janotti

Gabriel Passos

CONTATO Email: contato@rockmeeting.net Orkut: Revista Rock Meeting Twitter: @rockmeeting Veja os nossos outros links: www.meadiciona.com/rockmeeting

Too old to rock and roll, too young to die
Por Jeder Janotti Jr.

O título do artigo deste mês é a citação de uma canção da banda inglesa Jethro Tull, que trata de maneira irônica sobre um antigo tabu do universo roqueiro. Rock é música juvenil, as melhores composições de qualquer banda estariam associadas a esse período da vida. Ninguém esperava que Jagger e Richards fizessem outra “Satisfaction” depois dos trinta anos. Talvez os Beatles tenham acabado no momento certo: dali para frente, seriam só uma ou duas faixas interessantes por álbum para turnês (que eles já não faziam mais), que serviriam para novos e velhos fãs se deliciarem com antigos sucessos. Na verdade, Bob Dylan percebeu isso na década de noventa e começou sua famosa “No End Tour”, onde toca uma ou duas faixas novas e alimenta seu público com sua ampla bagagem de canções épicas. Tudo certo, então. Só que aí temos um pequeno problema: nem todos seguiram a risca essa cartilha, a começar pelo próprio Dylan: “Modern Times”, da década de noventa do século XX, é um de seus melhores álbuns. Bandas como Motörhead e Metallica fazem seus melhores shows nos dias atuais, e olha que Hetfield está próximo dos cinqüenta, e Lemmy já passou dos sessenta anos há algum tempo. Então, caro leitor, estamos diante de
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um dos mitos do Rock que merecem uma certa revisão. Eu sei, shows como o dos Guns N’ Roses no Rock in Rio mostram que, para algumas bandas, a máxima continua a valer. Tal como jogadores de futebol e pilotos de fórmula um, alguns músicos devem ter a sabedoria de perceber o momento certo de parar suas carreiras. Mas algumas bandas vão contra essa máxima: desde a volta do Deep Purple, na década de oitenta, com o matador “Perfect Strangers”, temos a oportunidade de ouvir alguns álbuns que vêm mostrando que, como bons vinhos e cachaças, envelhecer no mundo do Rock pode também ser sinal de maturidade para a composição de bons álbuns. Recentemente, comecei a ouvir “Into the Wild”, dos decanos Uriah Heep, uma banda que sempre foi marcada por constantes mudanças em seu line-up e que, apesar de uma legião de fiéis seguidores, sempre foi considerada do segundo escalão, ficando atrás do triunvirato de contemporâneos: Black Sabbath, Deep Purple e Led Zeppelin. Tendo apenas o guitarrista Mike Box remanescente das formações da década de sessenta, mas com alguns músicos que já têm algumas décadas de banda, como Trevor Bolder, Phil Lanzon

Deep Purple

e Bernie Shaw, os “velhos” roqueiros, agora de cabelos brancos e pinta de motoqueiros vovôs, mostram que não é mais necessariamente preciso possuir vinte e poucos anos para fazer o bom e velho Rock and Roll. No álbum estão presentes canções de refrão pegajoso, teclados e guitarras “vintage”, a boa e velha escola baixo/bateria do Hard Rock e a prova de que no caso da música pesada, muitas vezes, ser original é ser apegado a velhas fórmulas e raízes. Desde a poderosa “Nail on the Head” até a tradicional balada “Trail of Diamonds”, não há surpresas, não há tentativas de soar “moderno” ou de inventar novos diálogos entre a tradição rocker e

novas sonoridades globalizadas. Tal como vinhos e cachaças envelhecidas e de renome, o que o último álbum do Uriah Heep nos apresenta é o sabor tranquilo de sensações já conhecidas, mas que, justamente por isso, comovem roqueiros tradicionais que ainda encontram nesses lugares comuns a segurança de andar por caminhos já trilhados inúmeras vezes, mas nem por isso menos prazerosos. Na verdade, o álbum “Into the Wild” mostra que é hora de rever alguns de nossos velhos (pré)conceitos, ou seja, nem sempre é necessário os arroubos juvenis para se compor bom Rock and Roll. “That might be with the olds too”. Uriah Heep

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Sepultura: Eloy Casagrande é o novo baterista Desde o dia 13 de Novembro de 2011, o paulistano Eloy Casagrande assume as baquetas do Sepultura. Após cinco anos como baterista da banda, o mineiro Jean Dolabella deixa o posto para se dedicar a outros projetos. “Quando recebi o convite para entrar no Sepultura, fiquei em choque”, conta Eloy.”Sou fã da banda há anos, será uma honra tocar com eles”. Eloy, que tem 20 anos de idade, foi o vencedor do prêmio Modern Drummer’s Undiscovered Drummers Contest (maior festival de bateristas do mundo) em 2006. “Eu tenho certeza que o Eloy vai fazer um grande trabalho com o Sepultura, ele já é um músico que demonstra muita segurança e técnica, apesar de ser jovem”, acredita Andreas Kisser. Draconian: Lisa Johansson anuncia sua saída “É difícil para mim escrever isso; algo que eu tenho pensado há muito tempo. Argumentei comigo mesmo e de lá para cá, mas, finalmente, chegado à conclusão de deixar o Draconian. Então, por quê? Uma das razões é que desde que eu tive meu filho eu sinto que eu não quero, por razões emocionais que desaparecem quando se têm viagens mais longas a fazer. Eu conto as horas até quando eu estou de volta. Outra razão é que eu tenho um trabalho exigente seis dias por semana, e isso além de ter um filho para cuidar, e eu sinto dificuldade em encontrar paixão e energia para me envolver com o Draconian, na medida em que eu deveria. Dimmu Borgir: detalhes de nova data no show em São Paulo Por problemas no agendamento de datas da administração da casa Carioca Club, a data do show do grupo norueguês Dimmu Borgir em São Paulo foi alterada para o dia 6 de março de 2012. Em turnê intitulada “The South American Tour 2012”, Shagrath (vocal), Silenoz e Galder (guitarras), Cyrus (baixo), Daray (bateria) e Gerlioz (teclados) virão ao Brasil divulgar o mais recente álbum, “Abrahadabra”. Os ingressos já estão à venda no site da Ticket Brasil (www.ticketbrasil.com.br/ show/dimmuborgir-sp) 06 É realmente com o coração pesado eu sento e escrevo isto. Eu não quero desistir, nem pelos meus fãs ou pelos caras do Draconian, mas eu sinto que tenho que priorizar minha família. Eu não preciso de uma despedida chorosa soluçando ao lado dos membros do Draconian. Vou continuar em contato, mas é o pensamento em vocês que têm escutado as nossas músicas e a todos vocês que eu conheci em nossos shows que será o mais difícil de deixar para trás. A todos vocês que eu quero dizer Obrigado! Vou levar todas as lembranças comigo e todos vocês no meu coração sempre. E uma parte de mim sempre será a Lisa do Draconian. /Lisa Johansson”

Tarja Turunen: nova música inspirada em Paulo Coelho A cantora Tarja Turunen, apresentará uma nova música chamada “Outlanders”, inspirada nas obras de Paulo Coelho, em um evento a ser realizado no dia 26 de novembro, em Helsinki, Finlândia. O evento gratuito é organizado por Bazar Kustannus e Suomalainen kirjakauppa. “Outlanders” fala sobre o significado de momentos, o quão importante é aproveitar a vida a cada dia. A música é inspirada nos livros de Paulo Coelho: “O Alquimista” e “Na margem do rio Piedra eu sentei e chorei”. Twitter: Gibson.com elege 10 músicos para você seguir A indústria musical se transformou e não se parece em nada com a de uma década atrás, e assim como o negócio evoluiu, as técnicas de promoção também mudaram. O marketing convencional está sendo substituído por músicos e bandas, através de suas próprias contas em redes sociais, como o Twitter e o Facebook, para se conectar aos fãs. O site Gibson.com selecionou 10 músicos para seguir no Twitter. Confira abaixo a lista dos roqueiros: 1. Nikki Sixx (@NikkiSixx)(+220.000 de seguidores) 2. Mike Portnoy (@MikePortnoy)(+110.000 de seguidores) 3. Tommy Lee (@MrTommyLand)(+165 mil de seguidores) 4. Slash (@Slash) (+1 milhão de seguidores) 5. Flea (@Flea333)(+285 mil de seguidores) 6. Billy Corgan (@Billy) (+120 mil de seguidores) 7. Tom Morello (@TMorello)(+122 mil de seguidores ) 8. Mark Hoppus (@MarkHoppus)(+1,9 milhões de seguidores) 9. Fred Durst (@FredDurst)(+1,5 milhões de seguidores) 10. DJ Ashba (@DjASHBA)(+63.000 de seguidores) Sebastian Bach: ingressos para shows em SP à venda Devido a grande procura dos fãs, a produtora Dark Dimensions antecipou a programação e já disponibilizou para venda os ingressos para as duas apresentações que Sebastian Bach fará na cidade de São Paulo. Os shows estão confirmados para os dias 14 e 15 de abril de 2012, no Carioca Club. Neste momento, o artista está em turnê pelos Estados Unidos promovendo seu mais recente trabalho de estúdio “Kicking and Screaming”, lançado esse ano pela Frontiers Records. 07 Metallica: Lars Ulrich sendo processado por exassistente O ex-assistente do baterista Lars Ulrich, Steve Wiig, está processando o baterista por horas extras não pagas durante alguns anos. Apesar da dupla querer resolver isso fora dos tribunais para evitar uma confusão ainda maior, Wiig trouxe o processo contra o baterista em fevereiro deste ano, pedindo para ser compensado por quase uma década de horas extras não pagas. Wiig alega que trabalhou de 70 a 80 horas por semana entre 2001 e 2009, mas ele não foi pago pelas supostas horas.

Iron Maiden: nova turnê no segundo semestre de 2012? Em sua recente turnê de workshops, o baterista do Iron Maiden, Nicko McBrain,

foi questionado pelos fãs sobre os planos da Donzela de Ferro para 2012. McBrain disse que no meio do ano o Maiden deve dar início a uma nova turnê, o que sugere o mês de junho para os primeiros shows, mas nada foi confirmado até o momento. O baterista afirmou que a banda voltaria para a Alemanha no próximo ano e que também teriam um fim de semana livre para a Suécia. Além disso, o Nicko teria garantido que a banda voltará ao Japão em 2012, país que infelizmente não viu a “The Final Frontier World Tour” em decorrência dos terremotos que atingiram seu território durante a passagem da banda por lá, provocando o cancelamento dos shows.

Opeth confirma retorno ao Brasil em 2012 A Agência Sobcontrole informa o retorno do Opeth, um dos grupos mais exaltados do metal mundial, ao Brasil. Os suecos agendaram uma longa série de apresentações pela América Latina e o último show da excursão acontece no dia 1° de abril, no Carioca Club, em São Paulo. Esta será a única performance no país. Atualmente, o grupo está percorrendo diversos países da Europa para promover o novo álbum “Heritage”. O décimo registro fonográfico do grupo foi lançado recentemente via Roadrunner Records e tem sido um dos discos mais elogiados dos últimos anos.

Lamb of God: Confirmados no Brasil em 2012 Está confirmado o retorno de uma das maiores bandas de metal do mundo ao Brasil, Lamb Of God. A banda toca no América do Sul em Março e Abril com Hatebreed e Lacuna Coil na festa de aniversário da Liberation . 31/03 São Paulo 01/04 Curitiba

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Em apresentação épica, Korzus vem a M faz lembrar por que devemos manter a
Por Yzza Albuquerque (@yzzie | yzza@rockmeeting.net) Fotos: Pei Fon (@poifang | peifang@rockmeeting.net)

Maceió e nos a cena viva

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er novembro chegar foi sinônimo de grande alegria para mim, meus amigos e demais companheiros headbangers. O início de referido mês significava proximidade de o que mais tarde descobriríamos ser um dos shows de Metal mais incríveis já feitos em Maceió. Novembro representou a constatação de muita coisa para muitos metalheads, entre elas: a) a prova real de que Maceió tem, sim, público para o Metal; b) não, a cena não está morta; e, de forma mais abrangente, c) o Nordeste entrou de vez na rota das grandes (e “pequenas”) bandas de Rock e Heavy Metal do mundo. Ainda alheio à confirmação do festival Metal Open Air, e há pouco chocado pelas palavras ácidas de um famoso vocalista do Metal nacional, o público maceioense compareceu cedo ao clube Fênix Alagoana, no dia 13, para prestigiar uma das maiores bandas nacionais do segmento. Às 17h, horário prometido para o início do evento, uma modesta quantidade de pessoas aguardava a abertura da casa, fato que, por motivos que fugiam do controle da organização do show, só veio a acontecer algumas horas depois. Superados os percalços que podem envolver a realização de qualquer evento, a primeira banda a se apresentar foi a abismo (originalmente seria a Morcegos, mas imprevistos aconteceram). Banda sólida, de som extremamente conciso e bem concebido, a Abismo já é velha conhecida da galera, e, como era de se esperar, fez um show sensacional, apesar de curto, que incluiu músicas novas, apresentadas ainda sem nome ao público, e antigas, disponíveis no primeiro lançamento do grupo, o CD “Until the Selfishness Tear Us Apart...”.
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Na sequência, lançando seu álbum de estreia, intitulado “Descontrole Mental”, a Autopse subiu ao palco e impressionou a todos os presentes. Liderado por Dani Serafim, o quarteto provou que pouco tempo de estrada definitivamente não é sinônimo de amadorismo e fez uma apresentação cativante e bem ensaiada, deixando todo mundo muito curioso para ver o desenrolar da história desta que promete ser uma banda que abrirá caminhos para outros grupos alagoanos e fará muita diferença na cena local. Mesclando canções próprias com covers de Sepultura, notável influência do quarteto maceioense, a Autopse aqueceu o público de maneira exemplar para a apresentação mais aguardada da noite.

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O Korzus não demorou a subir ao palco, para a alegria da ansiosa plateia, que aguardava inquieta pelo quinteto. Ao soar dos primeiros acordes da música de introdução, os presentes foram à loucura, gritando e celebrando o momento que se iniciava. Com um repertório feito sob medida para instigar até o mais tímido headbanger, o Korzus fez sua segunda apresentação em Maceió com o setlit da turnê nordestina, que revisita a carreira do grupo desde o início através de 19 das mais clássicas músicas da banda, misturadas com lançamentos mais recentes. Dividido em quatro blocos, o show é simplesmente irresistível e altamente

recomendável para qualquer fã de Metal, brasileiro ou não. “Discipline of Hate”, “Raise Your Soul”, “What Are You Looking For”, “I Am Your God”, “2012”, “Never Get Me Down”, “Who’s Going to Be the Next” (com direito a um Wall of Death absurdo, que entrou para a história da cena local), “Truth”, “Agony”, “Guilty Silence” (para mim, o ponto mais alto do show), “Correria”, entre outras músicas, estavam no repertório, que foi fechado com chave de ouro por “Never Die” - um encerramento memorável para um show inesquecível. Aguardamos ansiosamente por um retorno.

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Conheça-os
Por Daniel Lima (@daniellimarm | daniel@rockmeeting.net) Fotos: Gabriel Passos (Flickr)

Necronomicon

Muito obrigado pela gentileza de nos conceder esta entrevista. Gostaria que começasse apresentando a banda. Obrigado também. A banda é formada por Lillian Lessa (guitarra), Thiago Alef (bateria), e Pedro Ivo Araújo (baixo, voz, órgão). Quando surgiu a Necronomicon? Por que tocar um estilo que lembra muito bandas dos anos 1970? Começamos os ensaios no início de 2009, e a formação atual está junta desde o início de 2011. Quanto ao estilo, bem, talvez ele soe “retrô”, mas se deve apenas às nossas influências. Eu, pessoalmente, não escuto muita coisa feita de 1980 pra cá, então é natural que lembremos bandas antigas, pois as nossas referências vêm diretamente do passado. O que quero dizer é que não conseguiríamos soar diferente, mesmo esforçandonos. É o tipo de música que sabemos fazer e o fazemos naturalmente, e não para fazer parte de alguma hype “retrô” do momento. Buscamos nos satisfazer musicalmente, e procuramos todos os caminhos possíveis para isso, sejam caminhos antigos ou novos. No último disco, inclusive, há uma música totalmente executada com um iPad. Quais as principais influências da Necronomicon? Há alguma que não seja necessariamente Rock? Tudo o que ouvimos influi direta ou indiretamente em nossa música. De maneira mais direta, não podemos fugir dos clássicos: Beatles, Sabbath, Led Zeppelin, Deep Purple, Cream. O Rock Progressivo de Focus, ELP, Genesis e Renaissance também pesa bastante. Além disso, há influências que, inevitavelmente, reverberam em nosso som, ainda que indiretamente. Por exemplo: a Lillian escuta muito Rock 1990’s, o Thiago adorou o último disco do Foo Fighters, ambos curtem algumas coisas do Indie Rock, e nós três amamos Blues e Soul Music. Você nunca irá ouvir algo parecido com Ida Maria ou Al Green em nossos discos, mas esses elementos estão conosco e influenciam em nossa maneira de tocar e conceber a música. E, claro, as influências não musicais que nos ajudam a elaborar o conceito da banda e nossa postura: quadrinhos, literatura, cinema... Somos, antes de tudo, grandes entusiastas e consumidores de mídia.

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Necronomicon
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O livro “Necronomicon”, de Howard Phillips Lovecraft, tem alguma ligação com o nome da banda? Evidentemente! Na verdade, não há um livro com esse nome, e sim um conto chamado “A História do Necronomicon”, na qual Lovecraft conta as origens do livro maldito tão usado em diferentes histórias suas. Queríamos captar o clima de horror lovecraftiano com a banda, mas imediatamente descobrimos já haver umas outras quatro bandas com esse nome ao redor do mundo. Só que era um nome bom demais para não se aproveitar, e nenhuma dessas bandas era realmente boa ou famosa... Deixamos pra lá pra ver no que daria, e até que não vamos tão mal. A banda possui dois álbuns gravados,“Necronomicon” e “Queen of Death”. Qual a diferença entre os dois? Vocês já estão preparando algo novo para 2012? No primeiro álbum, ainda estávamos imaturos e não sabíamos muito bem onde queríamos chegar musicalmente. Tecnicamente, o nosso début também sofreu as deficiências de nosso estúdio, pois nos faltavam conhecimento e equipamento ideais para gravação. No início do processo de composição do “Queen of Death”, tivemos que mudar a formação da banda, o que nos obrigou a intensificar os ensaios e a aprender a trabalhar com uma pessoa diferente, em instrumentos diferentes (eu passei da bateria para o baixo, e Thiago entrou como nosso novo baterista). Todo esse trabalho foi importante para que a banda ficasse mais coesa musicalmente e preparada para passos mais ambiciosos - pois esta é a diferença que vejo entre os discos: enquanto no primeiro nós nos mantivemos em uma zona de conforto, segura musicalmente, no “Queen of Death” nos sentimos seguros para ousar e elaborar uma música mais ambiciosa. E, claro, aprendemos algo sobre gravação neste meio tempo, melhorando consideravelmente o som gravado em nosso estúdio. Acabamos de gravar o disco, e o lançamento será apenas no início ano, então estamos meio que “de férias”. Com o disco lançado, pretendemos trabalhar em sua divulgação e realizar o máximo de shows que conseguirmos. Por enquanto, não pensamos em nada novo, vamos ver logo o que o lançamento do álbum nos reserva.

O novo álbum foi baseado no conto “A Rainha da Morte”, de Pedro Ivo. Fale um pouco sobre a história. “A Rainha da Morte” é uma história de horror clássica em sua concepção: um homem tentando lidar com o desconhecido de maneira arrogante e sofrendo as consequências. Ao redor deste conceito básico, há elementos claramente lovecraftianos e um background de ficção científica, além de muito, muito mesmo, dos quadrinhos de Alan Moore e Neil Gaiman. “A Rainha da Morte”, em si, é a personificação dos arquétipos femininos na Thelema crowleyana, a própria Babalon. Espero que as pessoas leiam além da superfície da história, pois há coisas bem interessantes contadas nas entrelinhas. Os álbuns foram lançados pelo selo americano Hydro-Phonic Records. De que maneira esse fator ajuda a divulgar a banda tanto no Brasil, quanto no exterior? Tem sido ótimo fazer parte da Hydro-Phonic. O fato de ter um trabalho lançado, mesmo por um selo independente, te dá um maior respaldo e chama mais atenção do público. Antes do lançamento, já tínhamos um certo público no exterior, e o CD nos consolidou como banda e nos colocou definitivamente no cenário. No Brasil, talvez por cantarmos em inglês, as coisas foram mais difíceis, inclusive aqui em Maceió. O lançamento do disco foi importante para chamar um pouco de atenção e fazer com que as pessoas dissessem “Ei, tem algo acontecendo aqui! Onde estávamos que não tínhamos visto isso antes?”.

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Como tem sido a receptividade do público em relação às músicas da Necronomicon? Tem sido surpreendente! É muito gratificante receber um feedback positivo de pessoas que você não conhece, que realmente admiram seu trabalho. Reconhecimento internacional, então? Tudo bem que a Internet derrubou as fronteiras, mas ainda assim é incrível que pessoas de outros países, outros continentes, estejam escutando o que você tem a dizer. De que forma o público pode conferir o trabalho da Necronomicon e entrar em contato?

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Acessem

Temos uma página no Facebook, atualizada diariamente: http:// migre.me/6ekJC MySpace, não muito bem atualizado: http://myspace/ necronomiconband O primeiro álbum, para download: http://migre.me/6ekOx E para baixar “The Queen of Death” e o conto, entre em contato: necronomicon_box@hotmail.com

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Por Jeder Janotti Jr. Fotos: Time 4 Fun

pós o delirante show do Metallica no Rock in Rio, decidi partir para mais uma aventura roqueira na mais conhecida das cidades brasileiras. O show do Pearl Jam era a concretização de um sonho, desde que fui fisgado, em 2002, pelo álbum “Riot Act”, um disco em que a banda adicionou um lado mais Folk ao som pesado de Seattle. Ao contrário de todo o cansaço e das dificuldades para se chegar ao Rock in Rio, a entrada e a espera para o show do Pearl Jam foram tranquilas. Acomodado na arquibancada, sem filas para cerveja ou para ir ao banheiro, tudo parecia fluir para aquele que, junto ao show do Metallica, no RIR, seria um dos melhores shows que presenciei nos anos 2000. Para início de conversa, vale lembrar que o Pearl Jam é uma das poucas bandas de primeira linha que pode variar mais de 50% do setlist de um show para o outro, portanto alguns fãs que foram aos shows em Sampa e no Rio tiveram oportunidade de ouvir músicas completamente diferentes, ou seja, sem aquela mesmice previsível que marca a turnê de quase todos os grandes do Rock na estrada. Logo de início é interessante notar como o público era calmo e parecia estar ali para compartilhar uma dádiva, e não para demarcar território sobre quem sabe mais sobre o Pearl Jam, ou para procurar uma catarse de fúria ao som da banda de Seattle. Foi fantástico ver uma banda com uma

formação estável de mais de 11 anos soar como se fosse um bando de amigos fazendo aquilo que gostam e sabem fazer, ou seja, Rock and Roll de qualidade. Eddie Vedder é um dos maiores frontmen que já vi no palco. Para mim, ele encarna um trecho de uma de suas canções, que diz, “love boat captain, take the reigns and steer us towards the clear”. Isso sem falar que guitarristas, baixista e baterista são bons não porque se portam como virtuoses, apesar de suas reconhecidas habilidades musicais, mas sim porque tocam para suas composições, valorizando a ideia de banda. Com um setlist que alternou antigos sucessos com músicas recentes, ficava difícil destacar uma canção. No show na Praça da Apoteose, eles acertaram na escolha das canções e na ordem das faixas. Foi como se estivéssemos diante de álbum certeiro, feito para o público do Rio de Janeiro. Entre “Black”, “Alive”, “Jeremy”, “The Fixer”, não houve esfriamento ou altos e baixos, o show fluía como uma embarcação em que passageiros, marinheiros e capitão estivessem em profunda sintonia espiritual. Mas dois momentos não me saem da cabeça: a bela “Just Breathe”, do ultimo álbum de estúdio, “Backspacer”, e o belíssimo cover de “Mother”, do Pink Floyd, que se destacou entre as já conhecidas versões de “I Believe in Miracles” (Ramones) e “Rockin’ in the Free World” (Neil Young). Não dá para deixar de lembrar que o Pearl Jam tocou 31 músicas para absoluto delírio de quem foi a praça da Apoteose. O que perdi? “Set-

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ting Forth” (que a banda tocou em Sampa), do belo álbum solo de Eddie Vedder, “Into the Wild” (trilha sonora do filme de mesmo nome), e a ausência de “Love Boat Captain”, que continua sendo minha canção preferida do Pearl Jam. Ao final de mais de duas horas de show, só me restou ir tomar mais algumas cervejas, sonhar com a volta para casa e para meus amores, e saber que ainda teremos a oportunidade de ver vários shows do Pearl Jam, a julgar pela frequência com que eles tocam no Brasil e pelo modo como eles parecem sentir prazer em tocar, após 20 anos de estrada e belas canções que já entraram para a disputada história do Rock.

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E quando abalaram as bases do Metal brasileiro...
Texto e Foto: Pei Fon (@poifang | peifang@rockmeeting.net)

Mesmo sem querer, o Metal no Brasil foi destaque neste mês positiva e negativamente, porém uma notícia fez aumentar o sentimento Headbanger

Há muito tempo que o Metal no Brasil tem procurado ser mainstream em seu próprio país. Algumas bandas têm mostrado que isso é possível, e outras ainda buscam seu lugar “ao sol”, procurando locais para tocar, mantendo-se a qualquer custo. Poderíamos citar tantas bandas, desde as mais antigas às mais novas, entre as que continuam e as que já deixaram a atividade. Recentemente, o vocalista de uma das mais virtuosas bandas de Heavy Metal do Brasil, Edu Falaschi, declarou, num primeiro momento bem “à flor da pele”, sua indignação com o público que consome os shows ao vivo. Um pouco antes, Thiago Bianchi, vocalista da banda paulista Shaman, também expressou, através de uma carta aberta, suas frustrações com a cena do Metal nacional. Neste período, ele não foi muito “ouvido”. Só agora, com uma figura “pública”, é que o que foi feito lá atrás ganhou voz e imagem. Suas palavras ecoaram por todo o país, e para os mais exaltados foi mesmo que uma ofensa, pois boa parte do que Falaschi disse foi voltado para o público do Sul e do Sudeste. Muitos foram a suas páginas pessoais do Twitter e do Facebook para xingá-lo.

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O fator para que o vocalista do Angra/ Almah viesse a cometer um excesso foi o número de pessoas presentes no show em comemoração ao “Dia do Metal”, 6 de novembro, ocorrido no Carioca Club (SP). No calor das emoções, Edu concedeu uma entrevista que foi vista por quase 150 mil expectadores. Entre as suas indagações estava o fato de os shows ocorridos nas regiões Sul e Sudeste não terem um público suficiente, pelo menos, para pagar os custos. Como ele explica, no vídeo: “No show em Curitiba, onde teve Machine Head, Sepultura e Almah, só deu 300 pessoas, e o organizador, levou um prejuízo de mais de R$ 80 mil”. Um pouco antes, com palavras de baixo calão, ele reage: “Os brasileiros pagam pau para banda gringa”. O vocalista falou muita coisa, porém três frases não vão sair tão cedo da memória dos headbangers: “Para mim, o Metal brasileiro está morto”, “O Nordeste ainda é o grande pólo” e “Vamos apoiar a cena brasileira, que tem tantas bandas boas”. Seguindo esta contestação, procuramos algumas opiniões para saber se os dizeres de Edu Falaschi têm fundamento. O jornalista e vocalista de uma das bandas mais antigas de Pernambuco de Thrash Metal (Cruor), Wilfred Gadêlha não poupa palavras e argumenta: “Não acho que se deva ir a shows só com o intuito de fortalecer cena. Ir a show é um ato ‘solitário’. Você vai se estiver a fim de ir. Eu não saio da minha casa e pago para ver uma banda que eu não gosto, independente de ser dos Estados Unidos, do Nepal, de São Paulo ou do meu bairro. A não ser que esteja a trabalho - o que é uma outra coisa”.

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Já Douglas Jen, guitarrista da banda SupreMa (SP) acredita que Falaschi está correto em sua posição e questiona: “Tenham certeza que estamos passando por um momento delicado do Metal nacional. É uma linha tênue que divide o fracasso e a glória de nossa música. Para que lado você quer que ela caminhe?”. Durante a entrevista de Edu Falaschi, foi falado sobre os “bangers de computador”, os que não vão aos shows, os que não compram CDs, ou seja, os que não têm qualquer razão física para consumir os produtos nacionais e internacionais, por sua vez. Sobre este questionamento, Messias Júnior, baterista e vocalista da Goreslave (AL), retruca: “Muito disso também tem a ver com o fato de que, depois de tantas mudanças culturais e comportamentais, nos encontramos hoje cada dia mais ‘conectados’: hoje, temos todas as bandas do mundo nas mãos, e perdemos muito a verdadeira conexão com o que realmente interessa: ouvir boa música e valorizá-la. Música virou quantidade, subproduto, peixe na feira. Quantos gigas de musica você tem em casa? Quantos desses gigas você efetivamente ouve? Então... Seleção natural, meus caros. E o ciclo

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de afundamento do Metal continua. Não se faz acontecer, todos reclamam, tudo mais afunda, continuamos reclamando, aparece uma banda, faz um ‘barulho’ na cena, todos apóiam, a qualidade cai, as pessoas somem, as bandas somem... E assim continua o ciclo”. Se for pensando neste caso, seguindo o raciocínio de Edu, o Nordeste, por razões óbvias, não tem muita tradição no Metal. É pouco contemplado com shows – que, quando acontecem, é quase certo que haja um bom número de expectadores. Ou não... Tudo depende das bandas. Nesta contramão, Wilfred questiona: “Mas, ainda assim, queria colocar o dedo na ferida: não sei se o Nordeste é esse paraíso de que o vocalista de Almah e Angra falou. Acontece aqui cenário similar, em menor escala, talvez. Bandas que vêm de fora do seu estado têm públicos mais numerosos do que as produções locais. A gente vê imensos vazios até em shows gratuitos. Tem algo errado aí. E as bandas são boas. Vai ver, ‘nego’ prefere ficar baixando coisas da Noruega do que sair, pegar um ‘busão’ e blá, blá, blá. As pessoas são - ou estão - muito comodistas. Daqui a pouco, o cara não vai querer sair do quarto para ver uma banda tocando na sala”.

Metal Open Air Desde o dia 04 de novembro, boatos estavam se proliferando feito vírus por todas as redes sociais sobre o maior acontecimento no cenário nacional do Metal. A possibilidade de acontecer o tão sonhado “Wacken Brasil” em 2012 abriu as portas da imaginação de todos os headbangers brasileiros. Junto com esta expectativa, havia outro detalhe a ser levado em consideração: o tal evento aconteceria na cidade de São Luís, no Maranhão, ou seja, região Nordeste. Com o avanço dos dias e os boatos sobre o “Wacken Brasil” ficando mais fortes, outro ponto a ser destacado foram os inúmeros comentários ofensivos à cidade nordestina das mais variadas “qualidades”, havendo até as visões a la Nostradamus sobre um possível fracasso, caso o evento ocorresse em São Luís, e não em São Paulo, ou no Rio de Janeiro. No dia 18 de novembro, foi anunciado oficialmente o evento, que não mais levaria o nome do Wacken, pois não houve acordo entre produtores brasileiros e alemães. Acontecerá na cidade de São Luís o maior evento de Heavy Metal já realizado no Brasil, o Metal Open Air. Serão 40 bandas, das quais 20 serão brasileiras e 20 internacionais. O festival acontecerá de 20 a 22 de abril de 2012, no Parque da Independência (local da exposição agropecuária Expoema), e terá capacidade para 80 mil pessoas por dia.

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Por Charlie Curcio (Colaborador) Fotos: Divulgação

A

A Sanctifier encerrou suas atividades por um tempo, certo? Quando foi essa parada? E o retorno? E o que mudou na banda, da primeira fase pra essa de agora? O Sanctifier nunca encerrou suas atividades, que fique bem claro, antes de qualquer consideração. Com isso, pode-se dizer que quem “decretou o encerramentos das atividades” da banda foi uma minoria desinformada do público. O Sanctifier, assim como boa parte das bandas, sempre teve problemas com a estabilidade na formação, o que pode ser considerado natural. É comum as pessoas sentirem, em determinado momento da vida, a necessidade de dedicar seu tempo a outras atividades/experiências – estéticas ou não – e à sobrevivência, exclusivamente. Muitas vezes, elas querem ter outra rotina, porque acham complicado serem a mesma pessoa e fazerem as mesmas coisas sempre! Mesmo sendo compreensivos, é fato que as constantes mudanças na formação causam transtornos. A dificuldade do Sanctifier sempre consistiu em encontrar nas pessoas disponibilidade e capacidade técnica mínimas, além de um grau satisfatório de maturidade para saber o que estariam prestes a fazer na banda. A parada a que você se referiu, de 2009 a 2011, relacionou-se a esta dificuldade: de encontrar pessoas, digamos, legais, para desenvolver um trabalho. Mas, ao contrário do que podem pensar muitos, o Sanctifier não parou, porque o Alexandre Emerson compôs o “Daemoncraft”. De qualquer maneira, o mais importante, no momento, é que a banda voltou e está com uma nova formação, que, segundo Alexandre Emerson, fundador e principal compositor da banda, não deixa nada a dever à formação da “Ad Perpetuam rei Memoriam”. A “parada” também foi importante para que nós também pudéssemos (re)pensar e (re)afirmar os planos em relação ao Sanctifier. Achamos saudável e necessário o recesso, pelo tempo que temos (25 anos). Não somos apenas músicos que se interessam por Death Metal: também temos nossas vidas, famílias e outros interesses. Hoje, o Sanctifier é uma banda mais madura, e isso facilita muito o desenvolvimento dos trabalhos. Por isso, achamos que o “Daemoncraft” será um trabalho muito interessante, porque refletirá o bom momento que a banda e cada um de nós vivemos. Achamos que essa é a grande diferença que vivemos em relação a antes: a maturidade que, obviamente, também reflete no desenvolvimento de nossa técnica e identidade atual.
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“Muitos de nós, nordestinos, somos carentes de autoestima. Não costumamos valorizar e estimular as nossas bandas, os nossos fanzines, as nossas revistas e as nossas produções. Sempre vemos com desconfiança o nordeste, a nossa própria região, por ela enfrentar muitas dificuldades, ao mesmo tempo em que não colaboramos para que a situação mude”.

O que vocês estão ainda trabalhando da primeira fase? Tentamos, com “Daemoncraft”, fazer algo diferente do que foi feito no “Awake by Impurity Rites”. Semelhanças existem, porque as referências centrais se mantêm, mas, como esse CD contará com a participação ativa de uma formação diferente da anterior, naturalmente apresentará um feeling distinto. Não faria sentido a banda também tentar encontrar uma fórmula e mantê-la. Para quem cria, é importante buscar outros caminhos para o que já foi feito, porque aí reside o valor da obra, da arte e do reconhecimento. Esse CD também terá uma produção mais bem cuidada. A produção do disco ficará a cargo do Victor Fábio, do Estúdio Flames (RJ), que já foi integrante do Sanctifier (e também do Expose Your Hate e Lord Blasphemate), e ficará responsável em dar ao Sanctifier uma sonoridade que nada tem a ver com a utilizada pela banda antes. Queremos retomar as atividades com uma alma diferente, e isso está nos deixando satisfeitos e estimulados. Até o logotipo modificamos – o novo logotipo do Sanctifier
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foi feito pelo designer Christophe Szpajdel, que criou os logotipos do Moonspell, do Enthroned, do Emperor etc. Queremos algo que se distinga e ao mesmo tempo seja extensão da aura do Sanctifier do “Awake by Impurity Rites”, e provavelmente, daqui a um tempo, no terceiro CD, estaremos nos esforçando para não mais realizarmos algo diferente do “Daemoncraft”. Não faz sentido sermos repetitivos na nossa música, quando constantemente estamos mudando as nossas opiniões e ideias.

Você acredita que o cenário nordestino ainda é carente de algo, em relação ao da região sudeste? Ou de uns anos pra cá se formou um cenário compatível? Muitos de nós, nordestinos, somos carentes de autoestima. Não costumamos valorizar e estimular as nossas bandas, os nossos fanzines, as nossas revistas e as nossas produções. Sempre vemos com desconfiança o nordeste, a nossa própria região, por ela enfrentar muitas dificuldades, ao mesmo tempo

em que não colaboramos para que a situação mude. Muitas vezes, repetimos o discurso que vem de fora e que nos incomoda: o nordeste não tem muita importância. Daí, nos limitamos a culpar os outros, ao invés de pensar sobre nossas dificuldades e trabalhar para melhorálas. Precisamos amadurecer e encarar muitos de nossos problemas, e resolvê-los de maneira adulta e consciente. Precisamos saber quais são as nossas carências, dificuldades, e trabalhálas, ao invés de nos limitarmos com as opiniões dos outros. Melhores produções e estruturas acontecem no sudeste porque eles cuidam para que isso aconteça, e devemos pensar da mesma maneira: trabalhar para que isso aconteça no nordeste. Noto que há um movimento nesse sentido, mas ainda é muito pouco! As bandas têm que investir não apenas em equipamentos de ponta, mas também aprender o seu manuseio e as possibilidades que oferecem, além de sempre estudarem, atualizarem-se com a tecnologia; produtores têm que parar com a mentalidade de que estão fazendo um favor, colocando bandas para tocar enquanto lucram; o público tem que prestigiar e consumir o mercado local – ingressos pra shows, CDs, camisetas; os músicos têm que ampliar a ideia de profissionalismo. Sei que o que acabei de citar são problemas gerais e acontecem em todas as regiões, mas falo como nordestino que tem consciência de seus problemas e quer resolvê-los. Infelizmente, o que poderia ser compreendido como underground ainda limitase à ideia do que se relaciona com o “obscuro”, com a precariedade e com o descaso. Sem falar que as pessoas não são livres: cada um se acha no direito de “patrulhar” o que o outro ouve, o que o outro veste, o que o outro fala e os lugares que frequenta. Isso me parece atitudes de pessoas pouco maduras e que não estão preparadas para desenvolver um trabalho sério, porque não respeitam os espaços do outro. É curioso, porque temos uma relação autodestrutiva conosco e não
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percebemos. Se você me pergunta se há uma relação discriminatória de muitos sulistas com os nordestinos, eu te responderia que muitas vezes há, de fato. Mas muitas vezes acontece essa reação em virtude da maneira como nos comportamos. Ao invés de nos preocuparmos com a opinião dos outros, deveríamos nos ater a reparar nossas dificuldades: não para os outros, mas, sobretudo, para nós mesmos. Não vejo razão para nos incomodarmos tanto com as outras regiões. Ao invés dos mexericos, devemos nos ater ao que nos propomos a fazer. Não dependemos de outras regiões, como muitos imaginam. Vamos valorizar o que fazemos e quem está do nosso lado, porque apenas assim as coisas poderão mudar a contento. Temos um público que, cada vez mais, nos garante o privilégio de termos acesso a shows cada vez maiores e consumir mais e manter um mercado que nos interessa. Os produtores estão amadurecendo a ideia do que é, de fato, profissional e necessário, além de entender o que é, de fato, underground. Restanos essa consciência e ocuparmos o nosso lugar nesse sistema.

Havia muitas bandas aí, em Natal, quando a Sanctifier iniciou a carreira. Dessas, quais continuam na ativa, e quais atuais você destacaria? O Sanctifier é a banda mais antiga em atividade no Rio Grande do Norte, e quando começou, não havia muitas bandas em atividade. Havia o Crosskill, o Auschwitz, o Hammeron... A antiga gravadora Whiplash Records dava muito suporte a consolidação das bandas potiguares e nordestinas. Se o Luziano não tivesse falecido, é possível que a Whiplash Records tivesse a dimensão e importância do que teve a Cogumelo Records. Hoje, a cena tem bandas muito interessantes, como a Expose Your Hate (Grindcore), Deadly Fate (Heavy Metal), Katáphero (Death Metal), Comando
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Etílico (Heavy Metal/Hard Rock), além de uma cena Indie que cresce bastante. Há Rock para todos os gostos. É um erro achar que o Metal deve prevalecer em relação a outros gêneros ou subgêneros. É preciso conviver com as diferenças. Há público e consumo para todo tipo de música. Ter preconceito com outras pessoas por achar que nossas predileções são melhores e mais importantes – radicalismo - é um erro que não deveria continuar. Ninguém pode ser considerado um idiota por preferir coisas diferentes de nós. Cada um no seu tempo, na sua história. Mas que fique bem claro uma coisa: somos o Sanctifier, e há 25 anos fazemos Death Metal. Por meio do Death Metal, podemos ser uma boa opção para quem gosta do estilo.

Brotherhood...”, pela Legion of Death Rekordz (França), e um split CD lançado pela gravadora colombiana Warfucks Records (2003), com duas bandas polonesas Nekrokultus e Throneaum.

Que material vocês tem disponível, e como fazer para adquirir? Algo antigo ainda em catálogo? Temos as novas camisetas, que estão saindo bastante! Quem estiver interessado pode buscar maiores informações pelo site: http:// blog.sanctifier.net/camisas/, ou http://peligrotshirts.blogspot.com/. As camisetas estão sendo distribuídas pela Peligro T-shirts, do amigo e artista potiguar Jansen Baracho. Também se encontram ainda disponíveis os CDs “Awake by Impurity Rites” (Dying Music, 2007); “Tributo ao Rotting Christ”, (Records, 2004), a promo “Zi Dinger Kia Kampa” (do “Awake by Impurity Rites”); a compilação em CD de demos e um show, intitulada “The Demons”, que saiu pela gravadora colombiana Trauma, em 2003. Todos esses títulos ainda podem ser encontrados na Dying Music (www.dyingmusic.com). Há também outros títulos esgotados do Sanctifier, que podem ser encontrados em sebos virtuais. São eles: o 7’’ EP com o nome de “Hellspawn”, “Ad Perpetuam Rei Memoriam”, que saiu pela Molon Lave Records (1993) por intermédio do Jim Mutilator, baixista do Rotting Christ. Há também o split 10’’ MLP com o Headhunter d.c, em vinil, intitulado “...In Deathmetallic
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A Sanctifier ja fez shows fora do eixo nordestino, mais para o sul do país? Já foram pra outros países? E como estão os planos para essa parte da banda? O Sanctifier não tocou fora do eixo nordestino. Aconteceram convites para alguns shows pelo Brasil e até para uma turnê latinoamericana, junto com o Dominus Praelii. Acontece que, pela experiência que nós temos, as coisas não se tornam tão simples. Sair de nossos estados e país não pode ser feito em qualquer condição. Muitas vezes, sair nessas turnês é mais vantajoso do ponto de vista da experiência pessoal do que propriamente da experiência coletiva (banda). Para nós, não bastaria irmos para quando voltarmos apenas dizer que fomos tocar “no estrangeiro”, sem ter tido uma estrutura ou garantias mínimas, como se fôssemos colegiais em uma excursão. O curioso é que, hoje, o movimento é inverso: há mais bandas estrangeiras interessadas em tocar no Brasil do que o inverso. A Europa não comporta mais a mesma estrutura e interesses. Precisamos entender isso. O mercado funciona diferente hoje. Há bandas que pensam como há vinte anos, e isso não nos interessa. Não somos mais adolescentes e não compartilhamos com a ideia de que os produtores estão fazendo um “favor” para nós, nos convidando para tocar. Também não achamos que, ao sairmos para tocar fora do Brasil, acontecerão grandes mudanças. Não queremos dizer com isso que não nos interessa tocar em outros lugares fora de nosso eixo. É claro que nos interessa! Também não queremos parecer rudes ou recalcados com quem teve a experiência. Talvez, há alguns anos, tivéssemos a mesma disposição de nos

aventurarmos e acalentarmos os benefícios da “Antropologia das Viagens”. Hoje, não. Vamos esperar a saída do “Daemoncraft” e observar a recepção do trabalho, e daí aguardar/planejar algo nesse sentido, mas com muita cautela.

Qual a temática principal da banda? Ou vocês não se prendem a determinado assunto? Você imagina que o conteúdo lírico deve ser em comunhão com o visual e demais posturas da banda? O assunto abordado no “Awake by Impurity Rites” permanecerá no “Daemoncraft”, que é o estudo aprofundado do mito de Cthulhu a partir da livre leitura da obra de H.P. Lovecraft, que firma o “mito” de Chutulhu como fronteira/ resultado da relação humana com a ideia do horror. O horror como metáfora da natureza subjetiva humana, responsável pela criação de universos que se materializam em crenças, mitos que nos unem a dimensões abstratas e surpreendentes que se tornam reais a ponto de nos atormentar ou extasiar, numa demonstração de como somos complexos e ignorantes. Dessa maneira, tornamo-nos demônios de nós mesmos. Trata-se de um trabalho que se relaciona com o poder subestimado da imaginação, que é responsável por tudo o que o homem materializa por meio do que desconhece: as forças ocultas da mente que tornam possíveis outras realidades, quase sempre inventadas por nós mesmos. O horror, com isso, torna-se o que não nos faz reconhecer a si próprios; o que faz nos temer diante do que somos capazes; o que nos repugna e envergonha, situando-nos à condição mínima da ignorância sobre nós mesmos. Entretanto, no terceiro trabalho, após o “Deamoncraft”, estamos querendo abordar temas mais “reais”, mais próximos da realidade; eventos que se vinculam a uma prática de reflexão cotidiana: temas voltados para a Antropologia, Sociologia, Filosofia, História, que são ciências ricas ao
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contar a história do desenvolvimento do homem, entre erros e acertos. Achamos que, nesse contexto, há temas importantes, outras dimensões do “horror” que merecem ser abordadas, como, por exemplo, o horror da dificuldade em lidar com a diferença; a vaidade. Estamos pensando... (risos)

Além da banda, o que mais vocês fazem no dia a dia? Há como conciliar bem a vida pessoal com a vida em banda? E como sobreviver de Metal no Brasil? Eu e o Alexandre Emerson somos professores. Somos formados em Letras e trabalhamos ministrando aulas e cursos, desenvolvendo pesquisas; escrevemos textos técnicos e críticos sobre Linguagem. Ainda frequentamos os bancos das pós-graduações das universidades: não paramos e não pretendemos parar de estudar! Mitchell Pedregal é publicitário, designer gráfico e professor de ensino superior da área. Trabalha também desenvolvendo mídias e campanhas publicitárias em geral, além de atuar como produtor cultural. Adriano Sabino é formado em Radialismo e TV e trabalha na área, principalmente como editor de imagens, em produtoras e como free-lancer. Marcelo Costa, além de atuar como analista imobiliário, toca em outras bandas – Expose Your Hate e Sex ‘n Roll. Não acreditamos que possamos sobreviver única e exclusivamente como músicos de Metal no Brasil. Mas, por outro lado, também achamos saudável desenvolvermos outras capacidades e nos relacionarmos com outros meios e outras lógicas. Não concentramos nossa energia apenas no Metal. Em alguns países, muitas bandas sobrevivem da própria banda, mesmo fazendo som extremo. No Brasil, até banda cover tem que se virar pra se manter vivo. O que você acredita que deve mudar na postura brasileira quanto a musica pesada, e extrema, até, para que músicos de excelente qualidade não migrem do estilo para outros, como Forró, Sertanejo etc.? Às vezes, a impressão que eu tenho é que se criou um universo paralelo, onde as pessoas que gostam de Metal não se relacionam diretamente com o mundo real, tal é a distância que se possui de algumas
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instâncias necessárias ao desenvolvimento de um trabalho ou sobrevivências. O músico de Metal tem o mesmo status que qualquer outro músico que desenvolve um trabalho qualquer com outro gênero, e precisa, assim como qualquer músico, de apoio e condições mínimas de trabalho, o que não acontece. É quase uma ofensa quando uma banda solicita uma ajuda de custo quando realiza um show. Por outro lado, o público não dá sustentabilidade aos eventos locais para que a valorização das bandas e dos trabalhos aconteça. Talvez isso, de certa maneira, explique o fenômeno das bandas covers. O poder aquisitivo do público é baixo, que, por sua vez, é composto por um perfil que, em sua maioria, ainda não se firmou no mercado de trabalho ao ponto de usufruir de uma estabilidade sustentável para consumir o mercado local. Quando isso acontece, preferem
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comprar itens de opções estrangeiras: o rapaz que não tem dinheiro para ir ao Rock in Rio ver o Metallica e, por isso, paga pra ver o show cover da banda que eles tanto gostam. Vivemos, “somos reféns”, dos meios de comunicação – revistas, sites, jornais –, que formatam o sucesso de muitos. Para que isso mude e as bandas tenham oportunidade, precisam se tornar um “evento midiático” para que tenham algum valor, sejam reconhecidos. Você fala de músicos de Forró, Sertanejo... Mas quando os músicos migram para esses espaços encontram valorização, condições mínimas de trabalho, o que lhes garante sustentabilidade para viabilizar seus projetos. No caso do Sanctifier, preferimos desenvolver atividades profissionais formais, mas cada casa é um caso. Ao invés de nas rodas os bangers ficarem apontando quem é “real” ou não, deveriam fazer uma análise mais profunda

sobre essa situação e provocar uma movimentação para mudar a postura e as relações no que se entende como “underground”. Isso, de fato, seria real. Acho que falta mais consciência, criticidade e, principalmente, ação das pessoas que gostam de Metal.

Obrigado pela entrevista! Força e sucesso. Sanctfier rules! O prazer é, e sempre será, nosso, Charlie Curcio e Rock Meeting. Valorizamos o trabalho das pessoas que acreditam na informação e nas ideias daqueles que contribuem para que continue existindo a música pesada. Isso é muito importante. Acreditamos tanto na força da música, quanto na força das ideias, para que as circunstâncias de um mundo que nos incomoda se modifiquem. Essa é a razão do Sanctifier existir e de estarmos aqui, conversando. Não basta criar um sentido, modelar a estética desse sentido e não acreditar no sentido que toma forma a partir do que dizemos. O Sanctifier voltou, e com ele, uma formação que, em breve apresentará, ao vivo e em estúdio, o resultado do mais recente trabalho, o “Deamoncraft”, que será gravado em janeiro próximo e deve sair até abril de 2012! Também aguardem o nosso DVD comemorativo dos 25 anos de história de banda! Nele, haverá clipe, imagens de shows novos e antigos, depoimentos de integrantes e amigos/ bandas, making off... Será um trabalho muito interessante, um registro de nossa dedicação e história ao longo de mais de duas décadas e do novo momento, um bom momento, que atravessa a banda. Aproveitamos a oportunidade para agradecer a todas as pessoas que nos ajudaram a manter o Sanctifier vivo: amigos, fãs, famílias, zines, produtores e gravadoras. Um grande abraço.

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Leaves’ Eyes
Por Pei Fon (@poifang | peifang@rockmeeting.net) Incrivelmente, nesta edição, não tive qualquer dificuldade para saber qual era a banda que escreveria para esta seção. Para tanto, parece que o que ouço tem sempre uma historinha ou uma saga, como preferir, para contar. Então, vamos lá. A banda que destaco é a germanonorueguesa de Symphonic/Folk Metal Leaves’ Eyes, cuja vocalista é Liv Kristine, ex-Theatre of Tragedy (sua saída ocorreu em 2003). O CD em destaque é o primeiro da banda, Lovelorn (2004), que formou com seu marido Alexander Krull (Atrocity). Descobri a banda em novembro de 2008, e desde estão a única coisa que havia ouvido foi uma participação da frontwoman na música “Nymphetamine”, do Cradle of Filth. Com o passar do tempo, baixei os CDs da banda, mas nunca conseguia escutar por conta do que estava ouvindo no momento, geralmente bandas de Death ou Thrash Metal. Mas isso mudou. Até mês passado, já saturada de Death/Thrash, resolvi resgatar um dos primeiros estilos que comecei a escutar, Heavy Metal. As bandas Seventh Wonder, Evergrey e Nightwish estão na minha playlist. 48 E como cheguei no Leaves’ Eyes? Através de um site, Grooveshark, onde você pode criar sua playlist online, salvá-la e escutá-la a qualquer hora, em qualquer computador. Em um determinado momento, procurei uma rádio no site e achei uma só para o Metal. Na lista de músicas disponíveis havia uma do Leaves’ Eyes, “Lovelorn”. Resolvi dar uma chance e gostei no ato. Pois bem, baixei o CD imediatamente e ele não sai do meu MP4. Para quem gosta de vocal feminino é uma boa pedida. Liv Kristine é quem compõe as músicas, e o nome da banda, por sinal, é uma referência ao seu nome. “Leaves” está conectado à natureza, de onde sai sua inspiração. O som do Leaves’ Eyes pode não agradar aos mais extremos por ser simples, por ter vocal feminino suave, ou por ser “banda de mulherzinha”, em razão da falta de agressividade sonora, mas tem canções incríveis, que valem a pena ouvir. Do CD, eu destaco “Norwegian Lovesong”, “Tale of the Sea Maid”, “Lovelorn”, “The Dream” e “For Amelie”. Lindas, cativantes e introspectivas. Basta ouvir o nome de Liv que já pode esperar coisa boa.

Decyfer Down
Por Jonas Sutareli (@xSutarelix | jonas@rockmeeting.net) Eles são uma banda Cristã, formada em 1999, na Carolina do Norte, mas só passaram a ter esse nome em 2002, quando Chris Clonts se juntou à banda. Antes, eles se chamavam Allysonhymn (pronouncia-se All-eyes-on-Him). Apesar de serem de uma banda cristã, os rapazes do Decyfer Down são bastante conhecidos lá pra banda dos Estados Unidos por tocarem sempre e fazerem sucesso junto com as bandas mainstream do mesmo estilo que eles. Ah, pra variar um pouco, eles são o que os jovens americanos chamam de Hard Rock (não aquele que estamos acostumados a ouvir, claro) e o que nós aqui costumamos chamar de New Metal, o tão odiado (nunca entendi por que) New Metal. Apesar dos já onze anos de grupo e nove anos como Decyfer Down, os caras têm apenas dois discos lançados (“End of Grey” e “Crash”), ambos na mesma linha. Vou logo avisando que sequer é um som muito pesado. Tem um pesinho sim, digamos assim. Mas é algo cadenciado, bem executado, com letras bonitas, um belo timbre vocal, um som que me agrada bastante e que gosto de parar para ouvir quando quero descansar, relaxar ou refletir. Quem curte o lado espiritual da coisa, por assim dizer, vai gostar das letras do Decyfer Down. No disco “Crash”, destaque para as faixas “Desperate”, “Ride with Me” e ‘“orever with You”. No disco “End of Grey”, destaque para “Vanity”, “Fight Like This”, “Here to You” e “I’ll Breathe for You”.

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Mr. Big
Por Breno Airan (@brenoairan | brenoairan@hotmail.com) Até poderia me iniciar nesta revista e neste quadro falando da volta dos mestres do Black Sabbath - algo que, na verdade, não paro de escutar -, mas ficaria um tanto óbvio. Me peguei lembrando de uma declaração interessante feita pelo Brian May, o excelso guitarrista do Queen, que deixou um depoimento em seu site oficial, em setembro deste ano: “Estive no Shepherds Bush Empire [em Londres] no último dia 20 para ver o Mr. Big. Que banda incrível! Músicos sensacionais. Só os tinha visto anteriormente através do YouTube, mas conheço o material antigo. Fiquei embasbacado. Ao vivo, o fogo, a habilidade e a precisão são ainda maiores. Sorri o tempo inteiro. Poderia praticar até 2020 e ainda assim não conseguiria tocar como o Paul Gilbert. Magnífico. Se você tiver a chance de vêlos na atual turnê, não deixe passar. Uma banda de Rock de verdade, com músicos em seu máximo. Não tem como ser melhor”. Não tem como melhorar, de fato. A banda em questão, o Mr. Big, é composta por um quarteto estadunidense que transborda técnica e harmonia. Eric Martin dá voz ao grupo; o virtuose Paul Gilbert (ex-Racer X) faz todos os trabalhos nas seis cordas; e as linhas de baixo ficam por conta do arfante Billy Sheehan (ex-Steve Vai, ex-David Lee Roth), combinadas com a cozinha de Pat Torpey, coordenando as baquetas. O grupo está com um CD quase fresquinho, o “What If...”, de 2009, que, posso dizer, é uma das melhores produções de Hard Rock da última década. O play foi lançado no final daquele ano e mostra “aquela” pegada bluesy acelerada de sempre, com os solfejos no ar. Mais que isso: o Mr. Big exala grandeza, não somente pelo nome. Os esqueléticos integrantes fazem uma cozinha e tanto. Guitarra - de preferência uma Ibanez PGM Signature Series -, baixo e bateria se tornam uma coisa só, ultrapassando os limiares da convenção. A voz, não menos importante, é encaixada como uma moreia, deslizando por entre os ramos de um coral colorido de águas frias, eletrizante. Os corais não ficam por baixo. E se a banda tem coral, é porque deve haver balada romântica. E foi nesse quesito, talvez, que a banda se tornou um tanto conhecida - e fez o sucesso que fez, à época, majoritariamente no Japão. Para todos os efeitos, o Mr. Big começou em 1989, mas por motivos pessoais - divergências musicais, brigas internas - deram uma parada em 2002; e antes disso, a banda tentou continuar com o guitarrista Richie Kotzen (ex-Poison), o Rei das Ligaduras. Não deu. A reunião se deu mesmo em 2009, e a celebração desse retorno com Paul Gilbert nas guitarras foi o lançamento no mesmo ano de um CD das melhores, contendo, além de uma música inédita, a “Next Time Around”, vários hits da banda, como “Take Over”, “Alive and Kicking”, “Colorado Bulldog”, a mais conhecida balada, “To Be With You”, e a versão de “Wild World”, do Cat Stevens. Do “What If...”, que saiu em edição especial com CD mais DVD em digipack, vinil, download, e em uma edição de luxo com uma caixa para colocar tudo, claro, recomendo basicamente todas as músicas, desde “Undertow”, passando por “Still Ain’t Enough For Me” e a linda “All the Way Up”, até a última, a um pouco swingada “Kill Me With a Kiss”. Bem, ainda compro uma camisa deles. Branca.

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Metallica
Por Daniel Lima (@daniellimarm | daniel@rockmeeting.net) Olá, caros leitores da Rock Meeting! Estou mais uma vez escrevendo sobre o que venho ouvindo no último mês, e desta vez é uma banda dos anos 1980, uma que assisti um show recentemente. Estou falando da lendária banda norte-americana Metallica. Em 2009, a banda lançou um álbum ao vivo chamado “Orgulho, Paixão e Glória”, gravado em três noites no Estádio do Sol, que fica no México. É um álbum duplo que contém, no total, 19 músicas, e também tem o DVD duplo, com 35 clássicos que vão desde o primeiro disco (“Kill ‘em All”), lançado em 1983, até o “Death Magnetic”, lançado em 2008. O CD 1 contém 10 faixas. Estão entre elas “Creeping Death”, “For Whom the Bell Tolls”, “One”, “Sad but True”, entre outros clássicos que não saem da cabeça. Já o CD 2 começa com “All Nightmare Long” e vai passando por “Master of Puppets”, “Enter Sandman”, e encerra com “Seek & Destroy”. Se juntar os dois CDs, resume-se no 51 DVD 1. A vantagem do DVD é que você tem o total de 4 horas e 5 minutos de Metallica tocando, enquanto no CD tem em torno de duas horas de show. Para quem tem o DVD 2, ele possui mais 1 hora e 40 minutos de banda, com faixas que fazem até seu vizinho bater cabeça sem reclamar do barulho: “Holier than Thou”, “Helpless”, “Turn the Page”, “Fuel”, “Fade to Black”, “... And Justice for All”, e outras pérolas do Thrash Metal. Este encerra com “Dyers Eve”, uma faixa do álbum de 1988 chamado “...And Justice for All”. Para quem não conhece o Metallica, fica a dica: eles também possuem um DVD chamado “Some Kind of Monster”, que mostra o processo de gravação do álbum “St. Anger”, e também a escolha do baixista Robert Trujillo, que acompanha a banda até hoje. Tem bastante material para conhecer o trabalho dos caras, mas “Orgulho, Paixão e Glória” é uma boa pedida para quem não está familiarizado, e também para quem já acompanha o trabalho do Metallica. Eu recomendo.

Lamb of God
Por Yzza Albuquerque (@yzzie | yzza@rockmeeting.net) Poucas bandas realmente me afetam como a minha escolhida para esta edição da Rock Meeting. O Lamb of God faz o tipo de som “8 ou 80”: ou você gosta... Ou não. Não existe meio-termo. O universo do Rock e do Metal funciona de maneira contrária a dos outros estilos musicais. Se uma banda nova surge na cena, é mais fácil observar gente falando mal e impondo obstáculos para seu sucesso do que seria no mundo da música Pop, por exemplo. E o mais engraçado é que virtuosismo e muito tempo na estrada não são sinônimos de respeito - a sua banda pode ter músicos exemplares e existir há quase duas décadas, como é o caso do Lamb of God, mas isso não muda nada: se a atenção vier no começo da carreira, ou depois de alguns anos, o esquema é o mesmo. Há cerca de 90% de chances de que todo mundo vai se achar autoridade o suficiente para falar mal da sua música, e esses cinco caras de Richmond, Virgínia, são só mais algumas das vítimas desse tipo de comportamento. Por que isso acontece, exatamente, é uma ótima pergunta, para a qual eu não tenho a resposta. Não sei dizer se queria ter. Entretanto, a opinião alheia não parece ser 52 impecílio forte o bastante para parar o grupo (ainda bem!): eles já têm seis álbuns na bagagem, com o sétimo, “Resolution”, saindo do forno já em janeiro de 2012; dois DVDs ao vivo (“Killadelphia”, de 2005, e “Walk with Me in Hell”, de 2008), e duas compilações, uma delas, “Hourglass”, sendo a coisa mais absurda humanamente possível: o kit inclui até a guitarra de assinatura do guitarrista lead, o barbudo e imprevisível Mark Morton (no centro da foto). Agradando aos outros ou não, o fato é que o Lamb of God não sai das minhas caixas de som há algum tempo. Definitivamente, é a banda que indico esta vez. Meus álbuns favoritos são os três últimos, e acredito que a maior parte dos fãs concorde comigo agora. “Ashes of the Wake” (2004), “Sacrament” (2006) e “Wrath” (2009) entraram para as listas das mais importantes revistas especializadas do mundo como os melhores lançamentos de seus respectivos anos, e acredite: não foi por nada. Aproveite também o embalo para conferir a mais nova música da banda, “Ghost Walking”, tão insana quanto eu esperava: http://bit.ly/twggMv.

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