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A DÁDIVA DA

MUDANÇA

Orientação Espiritual para uma


Vida Radicalmente Nova

Marianne Williamson

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Índice

Páginas
INTRODUÇÃO
O Desafio de Crescer 04

CAPÍTULO UM
Atravessando a Ponte 11

CAPÍTULO DOIS
De Esquecendo Quem Nós Somos
Para Lembrando Quem Nós Somos 17

CAPÍTULO TRÊS
Do Pensamento Negativo
Para o Amor Positivo 25

CAPÍTULO QUATRO
Da Ansiedade
Para a Expiação 38

CAPÍTULO CINCO
De Pedir a Deus para Mudar o Mundo
Para Rezar para que Ele Nos Transforme 48

CAPÍTULO SEIS
De Viver no Passado e no Futuro
Para Viver no Presente 60

CAPÍTULO SETE
Do Foco na Culpa
Para o Foco na Inocência 71

CAPÍTULO OITO
Da Separação
Para o Relacionamento 83

2
CAPÍTULO NOVE
Da Morte Espiritual
Para o Renascimento 99

CAPÍTULO DEZ
Do Seu Plano
Para o Plano de Deus 106

CAPÍTULO ONZE
De Quem Nós Éramos
Para Quem Estamos Nos Tornando 121

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Introdução

O Desafio de Crescer

Os tempos em que vivemos são difíceis, mais difíceis do que muitas pessoas parecem
querer admitir. Existe um senso permanente de ansiedade coletiva, compreensível, mas nem
sempre fácil de ser discutido.
Quando as coisas não estão indo bem em sua vida pessoal, talvez você chame um
amigo ou um membro da família, ou vá a um terapeuta ou grupo de apoio para processar sua
dor. Ainda assim, quando seus sentimentos de tristeza são baseados em realidades sociais
mais amplas, é difícil saber como e com quem conversar sobre eles. Quando você está com
medo porque não sabe de onde vai vir seu próximo salário, não é fácil de articular; quando
você está preocupado em relação a se a raça humana vai sobreviver ao próximo século,
parece estranho mencionar isso em um almoço.
E, portanto, acho que existe uma depressão coletiva entre nós, com a qual não lidamos
muito, mas que encobrimos e suprimimos. Cada um de nós, como atores individuais em um
drama mais amplo, carrega uma marca de um desespero mais profundo. Estamos
enfrentando quantidades intensas de caos e medo, tanto pessoalmente quanto em conjunto.
Estamos todos sendo desafiados, de uma maneira ou de outra, a recriarmos nossas vidas.
No nível das conversas diárias, conspiramos uns com os outros para fingirmos que as
coisas estão basicamente em ordem, não porque pensamos que estão, mas porque não
temos como conversar sobre essas camadas mais profundas de experiências. Se eu lhe
contar o que aconteceu na minha vida hoje, também poderia mencionar como estou me
sentindo a respeito disso, e ambos são considerados relevantes. Mas, quando temos a
experiência coletiva, e o diálogo público permite um pouco mais de discussão sobre eventos
de igual magnitude pessoal - “Nós acidentalmente bombardeamos uma escola hoje, e
cinqüenta crianças morreram” – como nós nos sentimos sobre isso? Ah... não vamos chegar
a esse ponto...
Então, continuamos a conversar principalmente sobre outras coisas, numa época em
que as notícias do dia são tão críticas quanto em qualquer outra época da história do mundo.
Não tratando de nossas profundezas internas, enfatizamos as superficialidades externas.
Notícias sobre o horror da guerra aparecem de maneira intermitente entre as reportagens
sobre a receita da bilheteria do último filme de sucesso, e de uma estrela de Hollywood que
mandou fazer um Valentino. Eu vejo o mesmo comportamento em mim mesma, conforme
deixo de escrever sobre coisas que exigem cavar mais profundamente, e confiro
obsessivamente meus e-mails procurando algo leve e divertido para me distrair. É como a
fuga na terapia – querendo compartilhar as fofocas, mas evitando lidar com as questões
reais, mais dolorosas. Mas, fazendo isso, nós inevitavelmente provocamos mais dor.
É aqui que estamos hoje. Estamos encenando nossa raiva e medo, porque não
estamos encarando a profundidade da nossa dor. E manter a conversa superficial parece um
pré-requisito para manter a dor encurralada. Aqueles que se envolvem em uma conversa
mais profunda são sistematicamente barrados da tendência atual: dos jornais e revistas, da
TV, e especialmente do poder político.
Uma noite, eu estava assistindo aos noticiários sobre a última gravação em vídeo
enviada propositadamente por Osama bin Laden a uma rede de televisão árabe. O foco das

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notícias americanas não era na mensagem de Bin Laden, mas, ao invés disso, na tecnologia
pela qual os americanos conferiram a gravação. Sua mensagem era horrível demais; era
como se estivéssemos tentando nos distanciar emocionalmente dela, fazendo com que uma
bela jornalista discutisse a tecnologia do vídeo, ao invés de seu conteúdo.
Indo a um consultório médico recentemente, perguntei ao médico, um membro da
“melhor geração”, como ele estava se sentindo ultimamente.
“Bem”, ele disse. “E você”?
“Estou bem”, eu disse. “Mas sinto que todos parecem dopados hoje em dia; nós apenas
não falamos sobre isso. Acho que o estado do mundo está mais na beira do precipício do
que queremos admitir”.
“Acho que isso é verdade”, ele suspirou. “As coisas já correram mal antes, mas nós
sempre tínhamos um senso de que elas, no final das contas, iriam ficar bem. Agora, não me
sinto necessariamente dessa maneira...”. Sua voz morreu, sua tristeza era óbvia. Embora ele
estivesse muito infeliz com o estado do mundo, pareceu grato por eu ter trazido aquilo à
tona. O fato de que passamos pelas nossas vidas como se a sobrevivência do mundo não
estivesse em risco não é um sinal de que ele vai agüentar. Isso, pelo contrário, é um sinal de
uma sociedade que ainda não é capaz ou que ainda não quer manter uma conversa sobre
sua dor mais profunda.
Estamos sendo desafiados pelos eventos mundiais, pelo fluxo da história, a desenvolver
uma consciência mais madura. Ainda assim, não podemos fazer isso sem enfrentar o que
machuca. A vida não é uma peça teatral de ficção trágica, da qual, no final da leitura, vamos
nos levantar e sair para tomarmos uns drinques. Todos nós somos atores em um grande
drama em expansão, e, até que cavemos fundo, não haverá grandes performances. A
maneira com que cada um de nós desempenha seu papel vai afetar o final da peça.
Quem nós nos tornamos, como crescemos e mudamos frente aos desafios de nossas
vidas, está conectado de maneira íntima e causal a como o mundo vai mudar nos próximos
anos. Pois o mundo é uma projeção de nossas psiques individuais, reunidas em uma tela
global; ele vai ser danificado ou curado por cada pensamento que pensamos. Seja em qual
extensão nos recusemos a encarar as questões mais profundas que nos mantêm para trás,
será a mesma na qual o mundo será mantido para trás. E em qual extensão encontrarmos a
chave milagrosa para a transformação de nossas próprias vidas, será a extensão em que
iremos ajudar a mudar o mundo. É sobre isso que esse livro fala: de nos tornarmos a
mudança que vai modificar o mundo.
Ainda assim, parece que temos muita resistência em olhar para nossas vidas, para
nosso mundo, com honestidade emocional. Estamos evitando um senso de desesperança
que pensamos que vamos sentir quando formos confrontados com a enormidade das forças
que nos atrapalham. Ainda assim, na verdade, é quando encaramos a escuridão face a face
– em nós mesmos e no mundo – que vamos começar a ver a luz. E essa é a alquimia da
transformação pessoal. No meio da mais profunda e escura noite, quando nos sentimos mais
humilhados pela vida, é que a tênue sombra de nossas asas começa a aparecer. Apenas
depois de termos enfrentado os limites do que podemos fazer, é que começa a ficar claro
para nós a ausência de limites do que Deus pode fazer. É a profundeza da escuridão que
está agora confrontando nosso mundo que vai revelar a nós a magia de quem
verdadeiramente somos. Nós somos espírito, e, portanto, somos mais do que o mundo.
Quando nos lembrarmos disso, vamos reverenciar nossa lembrança.

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Retornando ao Amor
Em 1978, eu me tornei uma aluna do programa autodidata de psicoterapia espiritual
chamado Um Curso em Milagres. Em 1992, eu escrevi um livro com as reflexões obre seus
princípios principais, chamado Um Retorno ao Amor. Não reclamando nenhum monopólio
sobre qualquer insight espiritual, o Curso é um treinamento psicológico da mente, baseado
em temas espirituais universais. Ele ensina as pessoas como desmantelarem um sistema de
pensamento baseado no medo, substituindo-o por um sistema de pensamento baseado no
amor. Seu objetivo é alcançar a paz interior através da prática do perdão. Você vai perceber
que eu me refiro a ele através de todo esse livro, e muitos de seus ensinamentos vão se
refletir no que eu escrevo. Quando não existir referência específica sobre um material citado
ou conceitos de Um Curso em Milagres (publicado pela Fundação para a Paz Interior), eu
acrescentei um asterisco para marcar um princípio contido nele.
Embora o Curso use a terminologia cristã tradicional, não é uma doutrina cristã. Seus
termos são usados em um contexto psicológico, com um significado universal, para
quaisquer alunos de princípios espirituais, não importando se eles têm orientação cristã.
Princípios espirituais não mudam, mas nós sim. Conforme amadurecemos, através dos
anos, temos acesso a informações mais profundas que só havíamos compreendido de
maneira abstrata anteriormente. Há vinte anos, eu via a orientação do Curso como uma
chave para mudar a vida de uma pessoa; hoje, eu vejo sua orientação como a chave para
mudar o mundo. Mais do que qualquer outra coisa, eu vejo o quanto os dois estão
profundamente conectados.
É por isso que escrevi esse livro. Ele é, uma vez mais, e espero que de maneira mais
profunda, minhas reflexões sobre alguns dos princípios de Um Curso em Milagres.
Olhando de volta para Um Retorno ao Amor, vários anos depois de tê-lo escrito, fiquei
chocada com o exemplo que usei sobre como pode ser difícil tentar perdoar alguém. Contei
uma história sobre um homem que me deixou esperando por um encontro enquanto ia às
Olimpíadas em Los Angeles, e como eu lutei para trabalhar minha raiva e ressentimento.
Acho incrível agora que eu até mesmo tenha pensado que alguém me deixar esperando por
um encontro fosse um exemplo profundo da crueldade do ego. Nas palavras e Bob Seger,
“Eu gostaria de não saber agora o que eu não sabia então”. É muito fácil aderir ao perdão
quando ninguém foi realmente magoado de maneira profunda.
A vida era mais inocente para todos nós há muito tempo. Hoje em dia, o mundo parece
cheio de tal pesar e perigo que não é mais tão fácil simplesmente nos empenharmos em
principio metafísicos e esperar que tudo vá estar bem de manhã. Existem momentos que
desafiam nossas certezas espirituais, como o poder da escuridão que parece estar
escarnecendo de nós, e que nos interpelam, “Então, onde está todo aquele amor no qual
você acreditava agora?”.
A resposta é que o amor está dentro de nós, só esperando ser expandido. A escuridão
é um convite à luz, clamando pelo espírito dentro de todos nós. Cada problema implica em
uma questão: Vocês estão prontos para incorporar o que dizem que acreditam? Vocês
podem alcançar dentro de vocês suficiente clareza, força, perdão, serenidade, amor,
paciência e fé para mudar isso? Esse é o significado espiritual de cada situação: não o que
acontece conosco, mas o que fazemos com o que acontece conosco. A única falha real é a
falha de crescer com o que atravessamos.

O Desafio para Crescer


Gostemos disso ou não, a vida hoje é diferente de maneiras que nunca esperaríamos. A
velocidade das mudanças hoje é maior do que a psique humana parece ser capaz de lidar, e

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está cada vez mais difícil de reconciliar os ritmos de nossas vidas pessoais com a rapidez
dos novos ciclos de vinte e quatro horas.
Fins e começos dramáticos parecem acontecer mais do que o usual. Nascimento,
morte, divórcio, mudança, idade, mudanças na carreira – sem mencionar o fato de que o
próprio mundo parece tão inevitavelmente modificado – tudo parece clamar por algum tipo de
mudança confusa. A coisas que pensamos que eram estáveis e seguras já não parecem
assim, e o que pensávamos que fossem possibilidades distantes estão estranhamente
próximas. Muitas pessoas sentem nesse exato momento como se estivessem fora de si
mesmas. Ultrapassamos o passado desconfortável e chegamos a um senso assustador de
que talvez estejamos vivendo uma mentira.
Não é que nossos relacionamentos não tenham integridade ou que nossas carreiras
não se entrose com o propósito mais profundo de nossas almas. É algo mais profundo do
que isso – algum senso de que a realidade é como uma camada de celofane que nos separa
de nossa existência realmente mágica. Sentimos alguma perda de significado, como uma
doença que não podemos vencer. Adoraríamos romper com tudo isso, como se tivéssemos
estado agachados em uma pequena caixa durante muito tempo. Nós desejamos
ansiosamente esticar nossos braços, pernas e costas, jogar nossa cabeça para trás, e rir
com alegria conforme sentimos os raios do sol em nosso rosto. Não conseguimos nos
lembrar de quando fizemos isso pela ultima vez. Ou, quando o fizemos, foi como se
estivéssemos tirando umas férias, visitando uma atração turística. As coisas mais
maravilhosas sobre a vida não parecem mais construir a tessitura de nossa existência. Ou
talvez nunca o tenham feito. Não estamos certos.
A maioria de nós vive com uma ânsia profunda, subconsciente, por um novo tipo de
mundo. Cantamos sobre isso, escrevemos poesias, assistimos filmes, criamos mitos.
Continuamos a imaginar isso embora pareça que nunca realmente o tenhamos encontrado.
Nosso desejo secreto é penetrar o véu entre o mundo em que vivemos e um mundo de algo
muito mais real. Uma coisa que sabemos com certeza é que esse mundo não pode ser
aquele.
Muitos de nós estão prontos a romper com tudo pela liberdade, para encontrar um
mundo melhor além do véu, e não aceitar mais o absurdo de um mundo situado na dor, que
leva si mesmo à sério demais. A questão é, “Como vamos fazer isso?”. Se o mundo em que
vivemos não é tão real quanto foi dito que era, e o mundo que queremos está do outro lado
do véu, então, onde isso nos deixa?
Quem entre nós não se sente deslocado de vez em quando, em um mundo que
supostamente é nosso lar, embora esteja tão completamente em disputa com o amor em
nossos corações? E como fazemos com que o mundo fique mais alinhado com quem nós
somos, ao invés de sempre lutarmos para alinhar a nós mesmos com o mundo?
Talvez estejamos vivendo uma hora mágica, como aquela entre a noite e o dia. Acho
que estamos entre duas eras históricas, quando a massa crítica da raça humana está
tentando se desligar da sua obediência ao sistema de pensamento baseado no medo.
Queremos atravessar para algum lugar novo.
Quando olhamos para a inocência das crianças, como elas amam e aprendem, nos
perguntamos: Então, por que as pessoas não podem continuar assim? Por que os bebês
precisam crescer para enfrentar o medo e o perigo? Por que não podemos fazer o que é
necessário para proteger sua inocência e amor? Você não é o único que está se sentindo tão
preocupado; o mundo está em um curso autodestrutivo e nossos filhos, e os filhos dos
nossos filhos, estão suplicando que nós mudemos as coisas.

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A época em que nós vivemos clama por mudanças fundamentais, não por uma
mudança que vá meramente incrementar o mundo. Milhares de pessoas se sentem
chamadas em suas almas para a tarefa da transformação global, querendo ser seus agentes
em uma mudança monumental de um mundo de medo para um mundo de amor. Podemos
sentir que a hora é agora, e sabemos que somos aqueles que devem fazê-lo. O único
problema é que não sabemos exatamente como.
Como podemos participar melhor de uma tarefa tão imensa e idealista? Sentimos que
uma nova energia está emergindo em todos os lugares, impelindo-nos em direção a
maneiras mais iluminadas de ver, viver, pensar e ser. Livros enfileirados nas livrarias
proclamam uma maneira melhor de amar, de liderar, de viver. Seminários e grupos de apoio
nos mantêm trabalhando nas maneiras de aperfeiçoar a nós mesmos, praticando as
disciplinas espirituais e rituais religiosos. Ficamos envolvidos em causas e políticas,
lambendo envelopes, enviando dinheiro. Mas, de alguma maneira, ainda não parecemos
estar alcançando a terra prometida, a chave milagrosa para transformar o mundo ao nosso
redor.
Não podemos evitar as notícias, a guerra, os alertas de terrorismo, o medo. Estamos
fazendo o que podemos para mudar o mundo em nosso próprio modo reduzido, mas, novas
idéias e forças mais compassivas parecem ser vencidas por seus opostos. Poucas coisas
parecem estar melhorando, mas muitas parecem estar piorando muito mais. Assim que o
amor pareceu ser o novo tópico quente, o ódio soou seus clarins. E o mundo todo não pôde
deixar de ouvir.

A Bússola Eterna
A coisa mais importante a se lembrar durante as épocas de grande mudança é fixarmos
nossos olhos mais uma vez nas coisas que não mudam.
As coisas eternas se tornam nossa bússola durante épocas de rápida transição, nos
ligando emocionalmente a um curso firme e estável. Elas nos lembram de que nós, como
crianças de Deus, ainda estamos no centro do propósito divino nesse mundo. Elas nos dão a
força para fazermos mudanças positivas, a sabedoria para suportarmos as mudanças
negativas, e a capacidade de nos tornarmos pessoas em cuja presença o mundo se move
em direção à cura. Talvez estejamos vivos durante essa época de mudanças rápidas, nas
quais “o centro não se mantém”, para que nos tornemos o centro que se mantém. Eu percebi
em mim mesma, que se algo pequeno, e no final das contas sem significado, vai mal – não
consigo encontrar o arquivo que deixei em cima da minha mesa, minha filha deixou de fazer
o que eu pedi a ela para fazer antes de ir para a casa de uma amiga – eu facilmente posso
fazer um escândalo. Mas, se alguém telefona para me informar de uma séria dificuldade –
alguém que tenha sofrido um acidente, ou uma criança que esteja com problemas – percebo
que uma quietude profunda desce sobe mim conforme eu me focalizo no problema.
No primeiro caso, minha tentação de me tornar furiosa não atrai soluções, mas, ao invés
disso, as afasta. Nada em minha energia pede ajuda aos outros, nem eu tenho clareza para
pensar sobre o que preciso fazer a seguir. No último caso, entretanto, toda minha energia vai
para um nível superior de solução de problemas: meu coração está a serviço dos outros, e
minha mente está focalizada e clara. Quando sou o efeito do problema, me torno parte dele.
Quando estou centrada em mim mesma, eu me torno parte da solução. E esse fenômeno,
multiplicado muitas vezes, é a força que vai salvar o mundo.
Quando as coisas no mundo estão problemáticas, nossa necessidade não é nos
juntarmos ao caos, mas sermos fiéis à paz interior.

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A única maneira de ganhar poder em um mundo que está se movendo rápido demais, é
aprender a diminuir o ritmo. E a única maneira de expandirmos nossa influência é
aprendermos a ir profundamente. O mundo que queremos para nós e para nossos filhos não
vai emergir com uma velocidade eletrônica, mas, ao invés disso, de uma quietude espiritual
que lance raízes em nossas almas. Então, e apenas então, vamos criar um mundo que reflita
o coração ao invés de despedaçá-lo.
Já foi o tempo de nos adaptarmos a essa ou àquela circunstância externa. Nenhuma
mudança superficial vai consertar as coisas. O que precisamos é de mais do que mudança
comportamental e mais do que mudança psicológica; precisamos nada menos do que uma
luz que venha de outro mundo e entre em nossos corações e nos faça inteiros. A resposta
não está no futuro ou em algum outro lugar. Nenhuma mudança no tempo ou no espaço,
mas, ao invés disso, uma mudança em nossa percepção mantém a chave de um mundo
renovado. E o novo mundo está mais próximo do que pensamos. Nós o encontramos quando
penetramos profundamente nas dimensões ocultas, mais amorosas de qualquer momento,
permitindo que a vida seja o que quiser ser, e deixando que nós sejamos o que fomos
criados para ser. No que Um Curso em Milagres chama de Instante Santo, somos libertados
do medo que aprisiona o mundo.
Cada um de nós está conectado a um cordão umbilical cósmico, recebendo nutrição
espiritual de Deus a cada momento. Ainda assim, em dedicação escrava aos ditames do ego
baseado no medo, resistimos ao elixir da sustentação divina, preferindo, ao invés disso,
beber o veneno do mundo. É tão espantoso que façamos isso, dada a dor extraordinária que
está subjacente a tanto da nossa vida diária! Ainda assim, a confusão mental criada por
nossas formas-pensamento dominantes é tão intensa, e somos tão treinados pelo mundo a
convidar o medo, que a libertação vêm, em sua maior parte, em flashes. Felizmente, existem
mais flashes do que o usual hoje em dia. Enquanto a escuridão parece estar ao nosso redor,
uma compreensão de uma natureza mais profunda está emergindo para iluminar nosso
caminho.
Aquela luz – um tipo de estrela de Belém secular, contemporânea – indica novidades no
horizonte e nos convida a segui-la até o nascimento de algo fantástico. As maravilhas do
mundo exterior não são nada comparadas ao que acontece dentro de nós. Isso no é o fim
dos tempos, mas um novo começo. O que está nascendo é um novo tipo de humano,
esgotado dramaticamente em cada uma de nossas vidas. Livres das limitações do ego, livres
para vermos, ouvirmos e tocarmos a magia que estivemos perdendo em nossas vidas,
estamos, finalmente, nos tornando quem realmente somos.
No final da sua vida, perguntaram ao gigante literário George Bernard Shaw que pessoa
na história ele mais gostaria de ter sido. Sua resposta foi que ele gostaria de ter sido o
George Bernard Shaw que poderia ter sido e nunca foi.

Um Novo Começo
É um ato de fé que Deus sempre tenha um plano. Não importando em qual loucura a
humanidade tenha caído, Ele sempre tem nos libertado, no final das contas, para a paz que
está além disso.
Hoje em dia, podemos ficar no meio das grandes ilusões do mundo e, com nossa
própria presença, dispersá-las. Ao atravessarmos a ponte para uma orientação mais
amorosa – ao aprendermos as lições da transformação espiritual, aplicando-as às nossas
vidas pessoais – vamos nos tornar agentes da mudança em uma escala tremenda.
Aprendendo as lições a mudança, interna e externamente, cada um de nós participa no
grande processo coletivo no qual as pessoas do mundo, flutuando numa onda de

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compreensão iluminada, vêem a raça humana em um curso destrutivo, e a desviam de lá a
tempo.
Para alguns, isso pode parecer como o período do Grande Fim, talvez até mesmo uma
época de Armageddon, mas, na verdade, esse é um tempo de um Grande Começo. É hora
de morrermos para o que costumávamos ser, e de nos tornarmos, ao invés isso, quem
somos capazes de ser. Essa é a dádiva que espera por nós agora: a mudança de nos
tornarmos quem realmente somos.
E esse é o milagre: a dádiva da mudança.

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CAPÍTULO UM

Atravessando a Ponte

A vida como conhecemos está indo embora, e algo novo está emergindo para tomar
seu lugar.
Todos nós estamos desempenhando uma parte em um processo de transformação
mais amplo, conforme cada um de nós está sendo forçado a confrontar seja o que for que
façamos, ou até que pensemos, que mantenha o amor encurralado.
A humanidade está se movendo para frente agora, embora, de algumas maneiras,
estejamos fazendo isso esperneando e gritando. A natureza parece estar dizendo a todos
nós, “Certo, chegou a hora. Nada mais de brincadeiras. Torne-se a pessoa que você está
destinado a ser”.
Nós gostaríamos de fazer isso, mas é difícil. O problema do mundo de hoje parece
maior do que já foi, fazendo com que seja fácil sucumbir ao cinismo, ao medo, à
desesperança, ao desespero. Até que nos lembremos de quem somos.
Pois nós realmente somos um poder maior do que todos os nossos problemas, tanto
pessoais quanto coletivos. E, quando nós lembrarmos de quem somos, nossos problemas –
que são literalmente nada mais do que manifestações de nosso esquecimento – vão
desaparecer.
Bem, isso seria um milagre, você pode dizer. E essa é precisamente a questão.

Esse é um livro sobre aprendermos quem somos, que podemos nos tornar agentes de
uma mudança milagrosa. Conforme liberamos os pensamentos baseados no medo que nos
ensinaram a pensar por um mundo assustado e assustador, vemos a verdade de Deus
revelada: que quem nós somos em nosso âmago é o próprio amor. E os milagres acontecem
naturalmente como expressões de amor *.
É dito nos Alcoólicos Anônimos que cada problema traz em si sua própria solução. E a
dádiva que vem com nossos desafios atuais é a oportunidade de dar um salto maior em
direção à realização de nosso próprio potencial. A única maneira de o mundo poder dar o
salto quântico do conflito e do medo para a paz e o amor é se esse mesmo salto ocorrer
dentro de nós. Então, e apenas então, vamos nos tornar os homens e as mulheres capazes
de resolver os problemas que nos incomodam. Conforme damos um salto para a zona de
nossos seres mais autênticos, entramos em um reino de possibilidades infinitas.
Até que entremos nessa zona, estaremos bloqueados, pois Deus não pode fazer por
nós o que Ele não pode fazer através de nós. Dizer que Ele tem a solução para os nossos
problemas é dizer que Ele tem um plano para as mudanças pelas quais cada um de nós
precisa passar para podermos nos tornar as pessoas através de quem Ele pode trazer essas
soluções. O fator mais importante para determinar o que vai acontecer em nosso mundo é o
que nós decidimos deixar acontecer dentro de nós. Cada circunstância – não importando o
quanto seja dolorosa – é um desafio jogado pelo universo, nos incitando a nos tornarmos
quem somos capazes de ser. Nossa tarefa, para nosso bem e para o bem de todo o mundo,
é fazer isso.
___________________________________
* Um asterisco indica material citado ou conceitos de Um Curso em Milagres

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Ainda assim, para que nos tornemos quem mais profundamente desejamos ser,
precisamos olhar para quem somos agora – mesmo quando o que vemos não nos agrada.
Esse momento está nos levando a encarar cada questão que temos evitado encarar, está
nos impelindo a examinar cada mínima verdade essencial sobre nós mesmos, gostemos dela
ou não.
E até que façamos essa ruptura em nós mesmos, não haverá uma ruptura fundamental
no mundo. O mundo que vemos reflete as pessoas que nos tornamos e, se não gostamos do
que vemos no mundo, precisamos encarar o que não gostamos dentro de nós. Fazendo isso,
vamos nos mover através de nossa escuridão pessoal para a luz que existe além. Vamos
abraçar a luz e estendê-la.
E, conforme mudarmos, o mundo vai mudar conosco.

Do Medo para o Amor


Perdemos tanto tempo com coisas sem importância – coisas sem significado
fundamental – e, ainda assim, por razões que ninguém parece compreender totalmente,
essas coisas dispensáveis permanecem no centro de nossa existência terrena. Elas não têm
conexão com nossas almas de maneira alguma, e, mesmo assim, elas se agarraram ao
nosso funcionamento material. Como parasitas espirituais, elas podem devorar nossa força
vital e negar nossa alegria. A única maneira de nos livrarmos dos seus efeitos perniciosos é
sair de perto... não das coisas que precisam ser feitas, mas dos pensamentos que precisam
morrer.
Atravessar a ponte para um mundo melhor começa com atravessar a ponte dentro de
nossas mentes, dos padrões mentais viciados de medo e separação, para as percepções
iluminadas de unidade e amor. Temos o hábito de pensar de maneira amedrontada, e é
preciso disciplina espiritual para mudar isso em um mundo onde o amor é mais suspeito do
que o medo.
Para alcançar uma experiência milagrosa de vida, precisamos abraçar uma perspectiva
mais espiritual. De outra forma, vamos morrer algum dia sem nunca termos conhecido a
verdadeira alegria de viver. Essa alegria emerge da experiência de nosso verdadeiro ser –
quando nos libertamos das projeções das outras pessoas sobre nós, quando nos permitimos
sonhar nosso mais elevado sonho, quando queremos perdoar a nós mesmos e aos outros,
quando queremos lembrar que nascemos com um propósito: amar e ser amados.
Qualquer um que olhe para o estado do mundo de hoje está consciente de que algo
radicalmente novo está sendo requerido – em quem somos como espécie e em nosso
relacionamento uns com os outros e com a própria Terra. Ainda assim, os fundamentos
psicológicos que mantêm esse mundo disfuncional no lugar são como vacas sagradas:
temos medo de tocá-los, por temermos que algo ruim vá acontecer conosco se o fizermos.
Na verdade, algo ruim vai acontecer conosco se não o fizermos. Chegou a hora da mudança.
Chegou a hora de fazer o que sabemos em nossos corações que nascemos para fazer.
Estamos aqui para participar de uma subversão gloriosa das formas-pensamento
dominantes do mundo, baseadas no medo.
Existem apenas duas emoções principais: o amor e o medo. E o amor é para o medo o
que a luz é para a escuridão: na presença de um, o outro desaparece. Conforme mudamos
nossas percepções do medo para o amor – algumas vezes em casos onde isso não é tão
difícil, e principalmente em casos onde é preciso mestria espiritual para fazê-lo – nos
tornamos os trabalhadores de milagres no sentido mais real. Pois quando nossas mentes se
rendem ao amor, eles se rendem ao poder superior. E, à partir disso, todos os milagres se
seguem.

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Milagres
Um milagre é uma mudança na percepção do medo para o amor. É uma intercessão
divina, de um sistema de pensamento além do nosso, reajustando nossas percepções e,
portanto, reajustando nosso mundo. *
O milagre está além do que a mente mortal pode entender. A orientação de Deus não
vem como um projeto que a mente racional possa acompanhar, mas antes como uma
iluminação espiritual, criando rupturas psicológicas que nosso ser mortal nunca poderia
alcançar. E, conforme cada um de nós se eleva para nossos eus superiores, começamos a
alcançar uns aos outros em níveis superiores também, combinando nossas energias de
maneiras mais criativas do que jamais pensamos ser possível. Tudo o que precisarmos,
nosso amor vai prover.
Vamos receber as “dádivas do Espírito Santo”, nos elevando a dimensões elevadas de
talento e inteligência. Vamos encontrar uns aos outros de maneiras mágicas. Vamos corrigir
os erros que pareciam incorrigíveis. Vamos fazer essas coisas através dos milagres de Deus.
No momento em que o World Trade Center caiu, a solução completa para o problema
com o qual nos confrontamos foi criada totalmente madura dentro da Mente de Deus. A
solução é um plano envolvendo cada ser humano, na extensão em que nos fizermos
disponíveis para Ele.
Todos que encontramos, cada situação em que nos vemos envolvidos, representam
uma lição que vai nos ensinar como dar o próximo passo em direção à realização do nosso
Ser total. Tudo o que acontece é parte de um misterioso processo educacional no qual nós
somos subconscientemente levados às pessoas e situações que constituem nossa próxima
tarefa. Com cada lição, somos desafiados a ir mais fundo, nos tornarmos mais sábios e
amorosos. E seja qual for nosso próximo passo, a lição espera por nós onde estejamos.
Seu trabalho é produzir nosso maior vir a ser, e não temos que estar em nenhum outro
lugar, ou fazer qualquer outra coisa a fim de conseguir isso. A jornada para um mundo
melhor não é ao longo de um caminho horizontal, mas, ao invés disso, ao longo de um
caminho vertical; não é uma viagem a algum lugar diferente, mas apenas mais
profundamente dentro de nossos corações. Bem à nossa frente, nesse exato momento,
estão as coisas que devemos fazer e pensar que iriam representar um “possível eu” mais
elevado do que aquele que estamos manifestando agora. Em qualquer instante determinado,
existe mais amor que poderíamos ver e mais amor que poderíamos expressar.
Ao fazermos isso, vamos curar o mundo.

Fazendo a Nossa Parte


Conforme mudamos nossas percepções, Ele vai mudar quem somos. Quando nos
tornarmos o que estamos destinados a ser, vamos saber o que somos destinados a fazer. E,
quando nos lembrarmos Quem está andando conosco, teremos a coragem de fazê-lo.
Esse livro é uma conversa sobre as dez mudanças básicas que cada um de nós pode
fazer, de vermos o mundo através dos olhos do medo, para vermos o mundo através dos
olhos do amor. A predominância dos pensamentos baseados no medo tem envenenado
nossas psiques, criando uma fusão tóxica dentro de nossas mentes. Nós buscamos, tanto de
maneira saudável quanto de maneira não saudável, escapar para um santuário de verdade
mais profunda. Ainda assim, não é suficiente apenas buscar a verdade, ou até mesmo
conhecer a verdade. Precisamos nos dar permissão agora para viver a verdade conforme a
compreendemos, com toda sua miríade de implicações para nossas vidas.
A tarefa do trabalhador de milagres é essa: considerar a possibilidade de que deve
haver outra maneira*. É isso. E Ele vai mostrá-la para nós.

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Você pode estar tendo pensamentos julgadores sobre alguém, e, nesse momento, você
pode inspirar profundamente e rezar para que Deus o ajude a perdoá-lo. Você pode estar
pensando sobre algo que percebe estar faltando em sua vida, e pode escolher pensar outra
vez sobre isso, concentrando-se, ao invés disso, em quanto você tem. Você pode estar
preocupado com sua habilidade de cumprir um trabalho e, então, lembrar que Deus vive
dentro de você e que não há nada que Ele não possa fazer. Em qualquer momento
especifico, uma vida maior está disponível.
Quando começamos a viver a vida maior – não a “buscá-la”, mas simplesmente
escolher participar dela – então, e só então, vamos descobrir que está tudo ao nosso redor, o
tempo todo. Deus está em nossa mente. Onde quer que nós formos, Ele estará lá.

Algumas vezes, existem questões que empurramos para o fundo de uma gaveta.
Sabemos que elas pertencem a nós, e que teremos que lidar com elas algum dia, mas
continuamos a protelá-las até que finalmente algo acontece para trazer uma delas à tona. O
universo deixa isso totalmente claro: aqui, agora, vamos lidar com essa questão. Seja qual
for a parte da nossa personalidade que continue não curada, é a hora de curá-la agora. Pode
ser uma questão de relacionamento, de vício, financeira, algo com nossos filhos, ou seja o
que for. A forma da fraqueza não é o que importa: O que importa é que, até que lidemos com
ela, estaremos limitando nossa disponibilidade para ser utilizados nos planos de Deus.
Esse é um momento na Terra de por as mãos à obra. Não está certo ficarmos presos à
pequenez do nosso narcisismo quando nossa grandeza é tão necessária. Chegou a hora de
cada um de nós enfrentar de uma vez por todas quaisquer demônios que tenha nos mantido
acorrentados às nossas neuroses e dores; de nos elevarmos para nossos seres melhores
como uma maneira de nos elevarmos a Deus; e de tomarmos nosso lugar no plano de Deus
para salvação do mundo.
Essa é uma época estimulante e crítica. Não é hora de sermos um vigilante solitário. É
hora de, a despeito de nossa dor e de nosso coração partido, mergulharmos profundamente
em nós mesmos, e humildemente em direção aos outros. Pois, vamos encontrar Deus, e em
Deus está cada resposta que estamos procurando, pois, cada solução que buscamos tão
desesperadamente e cada alegria sobre a qual possamos pensar se foram para sempre.
Chegou a hora, e nós somos aqueles que vão fazer isso.
E por que já não estamos agindo em um nível superior de mestria espiritual? O que
segura muitos de nós não é a ignorância espiritual, mas a preguiça espiritual. Nós sabemos
muitos dos princípios da consciência mais elevada, apenas somos muito indisciplinados
mental e emocionalmente para aplicá-los de maneira universal. Nós aplicamos o perdão
onde é fácil, a fé onde parece ter um sentido mais racional, e o amor onde é conveniente.
Nós somos sérios, mas não realmente...
Agora, comparem isso com os defensores do ódio.
Os terroristas nos odeiam apenas uma parte do tempo? Eles têm um comprometimento
fortuito com sua causa? Eles não levam muito a sério o objetivo de manifestar plenamente
sua visão de mundo? A única maneira de triunfarmos sobre o ódio é nos tornarmos tão
profundamente comprometidos com o amor quanto algumas pessoas são comprometidas
com o ódio, tão profundamente devotados a expressar nosso amor quanto algumas pessoas
são devotadas a expressar seu ódio, e tão firmes em nossa convicção de que o amor é
nossa missão quanto alguns são convictos de que ódio é a missão deles.
Muitos de nós já somos estudantes espirituais; o problema é que somos estudantes de
média “C”. E é isso o que precisa mudar.

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Vivendo na Luz
Cada momento no qual nos desviamos do nosso ser mais elevado – trazendo dor para
nós e para os outros – é um momento em que nos desviamos do amor. É um momento no
qual simplesmente não sabemos como permanecer íntegros e, ainda assim, conseguir que
nossas necessidades sejam atendidas. Nós caímos em padrões ancestrais do ego e do
medo, por nenhuma outra razão além de que somos programados a fazer isso de maneira
subconsciente. E quando todos os outros esforços falham, temos a tendência, mesmo que
apenas na câmara secreta de nossos corações, de pedir a Deus se Ele pode, por favor, nos
ajudar. E Ele vai ajudar. Ele vai nos reprogramar nos níveis mais profundos. E, então,
através da alquimia do currículo divino, vamos encontrar as pessoas que devemos encontrar,
para atravessar as situações que precisamos atravessar, a fim de aprendermos as lições que
vão nos transformar de seres do medo em seres do amor. Nós receberemos cada
oportunidade de aprender através da alegria e, quando nos negarmos a isso, vamos
aprender através da dor. Mas vamos aprender.
Não é fácil dar à luz ao nosso potencial espiritual. O trabalho espiritual pode ser muito
árduo – um instante santo no tempo quando desistimos, nos rendemos, nos suavizamos, não
nos importamos em estar certos, renunciamos à nossa impaciência, nos desligamos das
opiniões e prêmios do mundo, e descansamos nos braços de Deus – mas o resultado final é
o amor de nossas vidas. Começamos a nos sentir mais confortáveis conosco, menos
sobrecarregados pelas angústias crônicas que fazem a época na qual vivemos. Começamos
a nos sentir livres pelo menos das mágoas passadas, capazes de amar sem medo outra vez.
Começamos a exibir a maturidade e a força que estavam faltando em nossa personalidade
anteriormente. Uma nova energia emana de quem nós somos, e os outros podem senti-la.
Tudo isso é muito simples, mas não quer dizer que seja fácil. O caminho espiritual não
é uma questão de nos tornarmos mais metafisicamente complicados; é um processo onde
realmente nos tornamos cada vez mais simples, conforme aplicamos certos princípios
básicos a tudo o que atravessamos. Nós não aprendemos sobre o amor, o que já está
gravado em nossos corações; nós, entretanto, realmente começamos a desaprender sobre o
medo*. E, com cada mudança que fazemos da culpa para a benção, nós trespassamos o véu
da ilusão que nos separa do mundo que queremos.
Nem todas as lições vão parecer divertidas enquanto estiverem acontecendo, e, de
vez em quando, vamos resistir furiosamente ao crescimento, mas, uma vez que
permaneçamos abertos aos milagres – então, vamos avançar para um novo reino de ser,
onde o amor apagou todos os padrões do medo que nos sabotaram no passado, elevando-
nos a alturas inimagináveis. Cada situação traz uma dádiva: a chance de nos tornarmos
quem realmente queremos ser, e de vivermos as vidas que verdadeiramente desejamos.
Vamos habitar o mundo que escolhermos ver, e é por isso que é tão importante que
nunca percamos o amor de vista. Ao lermos sobre a guerra, não esqueçamos a beleza do
por do sol. Quando pensarmos sobre o estado do mundo, não vamos esquecer quantas
pessoas se apaixonam todos os dias. Deus nunca perde Seu entusiasmo pela vida, e nem
nós deveríamos fazê-lo. Sob a superfície dos acontecimentos mundiais, as pessoas
continuam a sorrir umas para as outras intencionalmente, a ter bebês, a curar, a criar arte, a
perdoar umas às outras, a se tornarem mais iluminadas, a rir, a ficar mais sábias, e a amar
apesar de tudo. Em um mundo que parece dividido entre o medo e o amor, nosso maior
poder repousa em ajustarmos nosso próprio foco. Algumas coisas no mundo de hoje são
muito, muito escuras; o que o mundo precisa agora é de mais pessoas que estejam
trabalhando pela luz.

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Vendo a luz e então vivendo nela, vamos, no final das contas, nos tornar mestres do
poder que ela concede.

Escolhendo um Novo Caminho


Nas palavras de John Lennon, “Você pode dizer que eu sou um sonhador, mas eu não
sou o único”. Sonhadores precisam encorajar uns aos outros hoje, pois uma das maneiras de
suprimir nosso sonho é nos fazerem pensar que somos os únicos que sonham.
Quando sugerimos algo próximo da idéia de que o amor realmente é a Resposta,
somos derrubados como uma mosca por nosso pensamento vigilante contemporâneo. As
pessoas nos dizem o quanto somos ingênuos, o quanto estamos sendo tolos, o quanto
nossa análise da situação mundial não é sofisticada. “Ela é louca! Ela é da Nova Era! Ele é
de lua!”. Sim, certo, mas aqueles que constroem armamentos ao custo de bilhões de dólares
por ano e não vêem o problema fundamental com isso são sensatos? Aqueles que propõe
construir novas e melhores bombas nucleares como a solução para o conflito mundial são
sensatos? Aqueles que brincam com a guerra como se fosse um novo conjunto de blocos
Lego de um menininho são sensatos? O mundo se tornou como algo saído do Mundo das
Maravilhas de Alice: os sãos parecem insanos, e os insanos parecem sãos. O mundo todo
está completamente de cabeça para baixo. Mas as boas novas é quantas pessoas sabem
disso; nós apenas temos tido medo de dizer isso porque pensamos que éramos os únicos a
pensar assim.
E não somos. Um novo comprometimento com o amor está se elevando das
profundezas de nossa humanidade, e seu poder está mudando nossos níveis fundamentais.
Nossas mentes foram abertas para liberarem a verdade, e sentimos essa verdade como uma
substância alquímica que banha nossas células e transforma nosso pensamento. Embora a
ciência não possa necessariamente registrar a mudança, podemos sentir que não somos
mais os mesmos. Nós temos devotado nossas vidas a uma possibilidade radical: que o amor
vai banir todo o medo.
Externamente, nós realmente não mudamos. Ainda parecemos os mesmos: nos
vestimos da mesma maneira, jogamos o jogo da maneira que o mundo o define, mas algo
mudou na maneira com que vemos as coisas. Sentimos outra realidade além do véu. O
mundo que vemos não é profundo o suficiente para nos sustentar; sabemos disso agora, e
paramos de fingir que um dia ele vá fazê-lo*. Estamos desenvolvendo os olhos para ver além
do véu, e com essa visão, vamos invocar um novo mundo.
A cada manhã, quando acordarmos, podemos abençoar o mundo. Podemos rezar
para servir nesse dia a algo sagrado e verdadeiro. Podemos inspirar profundamente e nos
rendermos ao plano de Deus para as nossas vidas. E, quando o fizermos, vamos
experimentar milagres.
O que é mais significativo nisso: ficaremos deprimidos se não o fizermos. Pois
trabalhar com milagres é o chamado de nossas almas. Nós literalmente estamos morrendo
para nascemos no próximo estágio de nosso desenvolvimento espiritual. O medo do mundo
é velho e está morrendo, e é por isso que ele está tão irritado. O amor mal inspirou o ar pela
primeira vez na Terra, e é por isso que é tão delicado. Mas os mansos herdarão a terra por
uma única razão: sua força vai literalmente assumir o lugar*. Quem nós fomos não é tão
importante quanto pensamos, e quem estamos nos tornando é simplesmente de fora desse
mundo.

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CAPÍTULO DOIS

De Esquecendo Quem Nós Somos


Para Lembrando Quem Nós somos

Para mudarmos nossas vidas para melhor, a primeira coisa que temos que fazer é parar
de projetar nossos sub-seres baseados no ego em todos os lugares. Ser dominados por Eu,
o deprimido, Eu, o inseguro, Eu, o nervoso, e Eu, o amedrontado, não é exatamente o
equivalente psicológico de colocar nosso melhor pé à frente.
Ainda assim, esses fragmentos psíquicos, da maneira que são, é o que realmente nos
domina até que nos incluamos na grandeza de nossos verdadeiros seres. Depressão,
insegurança, raiva e medo não são erradicados só porque temos as roupas certas, dinheiro
suficiente, ou as credenciais certas. Eles podem ser camuflados, mas apenas
temporariamente. As pessoas quase telepaticamente vão apreender a verdade sobre nossos
mais profundos sentimentos, e vão, subconscientemente, refleti-la de volta para nós. Todos
nós estamos envolvidos nesse processo interativo constante, em cada momento, não
importando o que estejamos fazendo.
A única maneira de termos vidas completas é habitarmos na completude de nossos
verdadeiros seres. E nós seremos completos quando formos um com Deus. A palavra
sagrado se refere a nossa conexão com Ele, e, fora dessa conexão, estamos dissociados de
nossa própria essência. Não seria estranho ser um dos filhos da Rainha Elizabeth, mas, de
alguma maneira, não sabermos disso? Não estaríamos perdendo uma parte muito
significativa da nossa identidade? Ampliem isso geometricamente em termos de efeito
psicológico, e vocês terão uma noção do quanto é bizarro que tenhamos nos esquecido de
que nosso Pai está no Céu.
De acordo com Um Curso em Milagres, o que temos é um problema de “autoridade”*.
Não reconhecendo nossa fonte divina, nós nos expressamos como criações do mundo, ao
invés de criações do espírito. O mundo imprimiu em nossas psiques sua fragmentação e dor.
E não há sentido em tentar curar essa dor até que curemos nosso sentido deslocado de
herança. Nós não somos filhos do mundo, nós somos filhos de Deus. Nós não temos que
permitir que um insumo falso de um mundo esgotado nos afete como faz.
A confusão sobre nossa herança divina se traduz em confusão sobre nós mesmos: não
compreendendo quem somos ou de onde viemos, achamos difícil entender quem somos
agora e onde estamos. E, então, perdemos estabilidade espiritual. Na falta do senso de um
criador divino, a mente presume que somos nosso próprio criador e, portanto, nosso próprio
Deus. Se Deus não é o figurão, então eu devo ser! E esse pensamento – de que somos isso,
de que somos os maiores – não é meramente narcisista, é uma psicose que permeia a
condição humana.
Ao nos lembrarmos da verdade sobre de onde viemos, nos tornamos abertos para a
verdade de quem somos.

O Grande Despertar
Na Bíblia, diz-se que Adão adormeceu – em nenhum lugar é dito que ele despertou*. É
como se a raça humana estivesse adormecida durante eras, não metaforicamente, mas de

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certa forma, literalmente. Em nosso sono, começamos a sonhar. E alguns dos nossos
sonhos se transformaram em pesadelos.
O sofrimento é um pesadelo. O vicio é um pesadelo. A violência é um pesadelo. A forme
é um pesadelo. A guerra é um pesadelo. E a maneira de transformarmos o mundo de um
lugar onde essas coisas acontecem, para um lugar onde elas não existem mais não é
através do que fazemos, em um sentido tradicional, mas pelo fato de despertamos do
pesadelo vivo no qual elas acontecem. Temos estado adormecidos sem saber disso,
tomando parte em um grande esquecimento – de quem nós somos, de qual é nosso poder,
de onde ele vem, e do que realmente precisamos.
Mas um grande despertar está no horizonte, se agitando como uma nova alvorada em
cada um de nós. Não é por acaso que os mestres iluminados são chamados de “despertos”.
E agora, uma espécie que tem estado adormecida por tempo demais está à beira de um
despertar coletivo.
A resistência a esse despertar, a sedução do sono, os falsos prazeres da dormência,
são todos reais em nossa experiência, mas não são tão poderosos quanto parecem ser. Nós
somos um com a Mente que nos pensou, e nada que façamos de maneira separada tem
qualquer significado*. Quando nos lembrarmos que somos um com nossa Fonte, vamos
despertar para nosso poder, e nosso pesadelo vai desaparecer.

Ego versus Santidade


Um dos exercícios do livro de exercício do Um Curso em Milagres diz, “O Amor, que me
criou, é o que eu sou”. Essa afirmação equivale a uma avaliação radical e não intuitiva de
nossa verdadeira natureza – pois, se sou tão bom, então quem é a pessoa que continua
cometendo erros, auto-sabotagem, e repetindo padrões neuróticos?
Essa pessoa é nosso ego baseado no medo. A palavra ego aqui significa o que
significava para os gregos antigos: um ser pequeno e separado. Quando nos identificamos
com o ego, é como olhar para um pedaço de pele solto acima da cutícula e pensar, “Isso é
quem eu sou”. O ego é um ser impostor, mascarado como quem realmente somos, ainda
que, na realidade, seja a incorporação de nosso ódio por nós mesmos. Ele é o poder de
nossas próprias mentes virado contra nós, fingindo ser nosso campeão ainda que, na
realidade, mine todas as nossas esperanças e sonhos. O ego é um fragmento ilusório que se
separou da nossa realidade espiritual mais ampla. Ele estabeleceu um reino mental paralelo
no qual vê a si mesmo como diferente e especial, sempre justificado em manter o resto do
mundo encurralado. Vendo a nós mesmos separados, nós, subconscientemente, atraímos e
interpretamos as circunstâncias que parecem sustentar essa crença. Esse reino ilusório é o
inferno na Terra.
Quando nos lembramos de quem somos, quando permanecemos firmes na luz de
nosso verdadeiro ser como filhos de Deus, então, o ego começa, mesmo que gradualmente,
a retroceder. A escuridão não pode permanecer quando realmente abraçamos a luz –
quando nós conscientemente a alimentamos e nos devotamos a ela. E é por isso que
reconhecer quem somos – que somos amor, que somos como Deus nos criou – é a coisa
mais importante que podemos fazer em qualquer instante. O amor é nossa realidade
espiritual, não maculada por nada que aconteça no mundo material.
Quando esquecemos disso, pensamentos de ataque e defesa, ainda que sutis, se
tornam uma cortina de fundo para toda nossa existência. O ego é “desconfiado na melhor
das hipóteses, e cruel na pior”*. E nós não deveríamos subestimar sua vingança*. Se
desejarmos uma cura verdadeira de nossos corações – não apenas consertar as coisas, não
apenas enfaixar a veia aorta rompida do espírito – precisamos questionar as presunções

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mais fundamentais do ego, pois apenas quando rejeitarmos a avaliação do ego sobre quem
somos, podemos começar a descobrir quem realmente somos.
E quem nós realmente somos é sagrado.
Nossa santidade é tanto um opositor quanto um antídoto para o ego. É um estado de
ser no qual nos reconectamos com nossa Fonte, lembrando que, na verdade, nunca
partimos. Nós fomos criados por Deus em um estado de santidade, e nascemos na Terra em
um estado de santidade, e vamos retornar a esse estado depois da nossa morte. Todos nós,
entretanto, entre a infância e a morte, adormecemos para nossa verdadeira natureza, e
experimentamos o inferno da nossa separação auto-imposta de Deus. Lembrar de nossa
conexão com nossa Fonte nos desperta e nos liberta do pesadelo que criamos. Em qualquer
Instante Santo, o ego é anulado e invalidado.
A Santidade não é simplesmente uma construção teológica, aplicável a santos e
mestres iluminados, mas não a você e a mim. Manter tal conceito em um altar elevado, fora
da aplicação prática, é simplesmente uma manobra do ego para mantê-lo encurralado. Dizer
que nós somos santos não é simbólico; é dizer que somos extensões da Mente de Deus e,
como tais, nossa natureza é divina. Quando paramos para realmente considerarmos que
somos filhos de Deus – não apenas filhos desse mundo – começamos a perceber a riqueza
espiritual que herdamos. E ela é nossa para usarmos, para expulsarmos toda escuridão de
dentro de nós e do mundo ao nosso redor.
Através da oração, podemos trabalhar com milagres em nossas vidas. Temos muito
mais poder do que o que estamos usando – para curar as doenças, consertar os
relacionamentos, reconciliar as nações, proteger nossas cidades, e transformar nosso
mundo. Enquanto pensarmos que só os “outros” são santos, então, apenas os “outros” vão
parecer ter autoridade milagrosa, embora isso não seja verdade. Na realidade, todos nós
somos santos, pois todos nós fomos criados por Deus. Ao abrirmos nossos corações para
Ele e uns para os outros, nossas mentes vão se tornar canais para o milagroso. Cada um de
nós pode rezar por milagres, e Ele ouve todos nós quando o fazemos.
Quando tivermos liberado os recursos interiores de compaixão que permanecem presos
dentro do labirinto da mente do ego, haverá uma explosão de milagres que vai transformar
completamente a nós mesmos e ao nosso mundo. Nós renasceremos no espírito, livres para
expressar a criatividade e a paixão que habitam dentro de nós, de uma maneira que nunca
fizemos antes.
Poucos mortais até mesmo já arranharam a superfície do gênio potencial que todos nós
possuímos e que um dia vamos realizar. Os grandes mestres iluminados, de Buda a Moisés
e a Jesus, mantiveram tal alinhamento com o espírito que o mundo ao redor deles nunca
mais foi o mesmo. Eles são irmãos mais velhos que demonstraram nosso potencial. Eles nos
mostraram o que cada um de nós pode um dia se tornar.
Conforme a mente for permeada pela percepção do poder impressionante que está
dentro de nós, e conforme nós todos juntos abracemos os princípios da nossa consciência
mais elevada, o ego, com o tempo, fica em posição de inferioridade em relação à verdade
maior. Ele não pode ficar diante da mente que tenha começado a despertar para sua
verdadeira realidade. Com o tempo, o conhecimento espiritual acumulado triunfa, e uma vida
mais ampla começa a emergir.

Possibilidades Infinitas
Quando eu era jovem, não precisava de um relógio de pulso, pois, em qualquer
momento do dia ou da noite, a pessoas podiam me perguntar que horas eram e eu
conseguia responder de maneira exata. Mas algo aconteceu por volta dos vinte anos:

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comecei a achar que não deveria ser capaz de fazer aquilo, e que era estranho que pudesse.
E então, tão logo pensei nisso, não podia mais fazê-lo.
O que aconteceu comigo é o que acontece com todos nós: nós somos súbita e
insidiosamente convencidos de que nossos poderes naturais não existem. Nos tornamos
escravos de uma visão mundial na qual nossos poderes humanos são diminuídos, vistos
como secundários em relação aos estupendos poderes da ciência, tecnologia e de outros
falsos deuses dos planos exteriores. O progresso moderno parece dominar nossas almas,
nos deixando desolados dentro de um universo sem significado. Não existe um Deus real
aqui, exceto o deus do desejo sem fim.
Nós somos treinados, dentro desse mundo, a nos vermos como o ego nos define. De
acordo com os ditames do ego, somos pequenos e sem poder, rodeados por um universo
infinitamente imenso e poderoso. Estamos aqui para nada além de um minuto antes de
envelhecermos, sofrermos e morrermos. Somos ensinados a nos identificar mais com nossa
culpa do que com nossa inocência, e, portanto, nos sentimos assombrados pelos erros que
sentimos que vão dominar o resto de nossas vidas; somos ensinados mais a culpar uns aos
outros mais do que a perdoar, e, então, ficamos presos a sentimentos de vitimação; somos
ensinados que somos separados dos outros, e, então, ficamos presos à grandiosidade e a
insensibilidade. Somos ensinados que a formação acadêmica, as credenciais, as influências
passadas, os erros, os casamentos, os divórcios, os títulos, os currículos, dinheiro, pais,
filhos, ou casas – seja qual for o rótulo ou identidade que alguém queira jogar sobre nós –
são a nossa essência. Como conseqüência disso, esquecemos quem realmente somos.
Esse esquecimento é a fonte de todo mal, pois ele nos deixa em escuridão pessoal,
confusos em relação à nossa herança, nosso poder e nosso objetivo. A mente não pode
servir a dois mestres, e, quando esquecemos o verdadeiro, nos curvamos de maneira falsa
diante do outro. Quando nos identificamos mentalmente com o reino do corpo, vemos
escassez e morte. Quando nos identificamos mentalmente com o reino do espírito, vemos
amor infinito, possibilidades ilimitadas, e unicidade com todas as coisas.
Olhe para os raios na roda de uma bicicleta. Na beirada, cada raio é separado de todos
os outros. No centro, cada raio é um com todos os outros. Cada um de nós é como um
desses raios, conectados uns aos outros no centro, em nosso centro espiritual. Conhecer a
nós mesmos como espíritos é nos conhecer unos com os outros, o que é o significado
esotérico da afirmação da Bíblia de que “existe apenas um Filho primogênito”. E é por isso
que a Mente Crística, seja por qual nome a chamemos, é nossa salvação. É um ponto de
lembrança divina, nos salvando dos erros que cometemos quando nos esquecemos de que
somos um com os outros. A renovação espiritual é a salvação do mundo, porque, uma vez
que percebamos que o que fazemos aos outros estamos literalmente fazendo a nós
mesmos, nossos pensamentos e comportamento simplesmente mudam. Ferir aos outros,
recusar compaixão, enfim, se tornam impensáveis.

A Base Espiritual da Auto-Estima


Aprendi, quando minha vida tem sido mais dolorosa, que o eu que pode ser ferido não é
o eu real. A mulher em mim, a profissional, a escritora, a professora – o que todas elas
significam? Elas não são tijolos em uma prisão espiritual, tentando limitar minha vida,
quando, na realidade, a vida não pode ser limitada? Que diferença faz se alguém me trai,
quando meu ser real, meu espírito, não pode ser traído? Um insulto não é uma oportunidade
para que eu olhe para a parte de mim mesma que pode ser insultada e diga, “Ah, você nem
mesmo sou eu”? O verdadeiro ser não está além da doença? Então, quem é que fica

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doente? O verdadeiro ser não é ilimitado? Então, quem é que pode ser aprisionado? O ser
real não é eterno? Então, quem é que morre?
Essa é a questão: quem nós somos verdadeiramente? Pois, se pensarmos que somos
apenas seres mortais pequenos e separados, então, o mundo que criamos vai refletir essa
crença. Vamos viver em um mundo de separação, sofrimento e morte. Ainda assim, quando
mudamos nosso sentido sobre quem somos – quando percebemos que somos ilimitados,
unificados com toda vida – então, a experiência humana como a conhecemos se transforma.
Um exercício repetido no livro de exercícios do Um Curso em Milagres afirma o seguinte: “Eu
sou como Deus me criou”. De alguma maneira essencial, nós ainda somos quem éramos no
momento da nossa criação, e todos os problemas derivam do nosso esquecimento disso.
Se somos como Deus nos criou, então, nenhum erro que jamais tenhamos cometido, os
julgamentos de ninguém ou suas opiniões negativas sobre nós podem, de maneira alguma,
determinar que nós somos ou mudar nosso valor*. No Instante Santo, podemos nos lembrar
de nossa divina essência e escolher expressá-la. E, aquilo que expressarmos será refletido
de volta para nós. O universo está sempre pronto a nos dar novos começos que reflitam
nossa inocência, mas nós não estamos sempre prontos a recebê-los. O sol pode raiar, mas
não o veremos se as cortinas estiverem fechadas. Não importando o quanto Deus nos ama,
não sentiremos isso se não acreditarmos. Sempre que pensarmos que somos menos do que
a criação perfeita de Deus, então as experiências que atrairemos a nós mesmos serão
menos do que a criação perfeita de Deus. Conforme acreditarmos, parecerá para nós.
Seu valor é inestimável porque você é filho de Deus*. Se você alguma vez se pegar
pensando, “Eu sou um perdedor. Quantas vezes eu tentar, quantas vezes vou falhar”, pare
com isso imediatamente. Apague a fita gravando uma nova. Diga firmemente para si mesmo,
silenciosa ou verbalmente, “Eu sou a pessoa mais legal do mundo porque Deus criou só
perfeição. Eu reconheço meu valor inestimável, apesar dos meus erros, pelo quais peço
perdão. Eu sou uma criação de Deus, e, nesse momento, peço ao universo que reflita de
volta para mim a grandeza de Deus que está dentro de mim”. (Deixe qualquer pessoa que
ache graça nisso rir. Que tipo de mundo elas estão criando?).
Todos os filhos de Deus são especiais, e nenhum deles é especial*. Você não é melhor
do que nenhuma outra pessoa, mas também não é pior do que ninguém. Todos nós temos
dons especiais, todos nascemos para brilhar de uma maneira ou de outra, e todos somos
inocentes aos olhos de Deus. Olhem para as crianças no jardim-de-infância: todas elas são
deslumbrantes e magníficas, e assim somos nós.
Não é arrogante acreditar que você é infinitamente criativo, brilhante e potencialmente
perfeito através da graça de Deus. Na verdade, seria arrogante pensar de outra maneira
porque o que Deu criou nunca poderia ser menos do que perfeito*. Esse fato se aplica a você
e a todos nós. Não é arrogante, mas humilde, aceitar as dádivas de Deus e permitir que elas
se expressem através de nós.
Ainda assim, para o ego, isso não é humildade, mas arrogância, e você merece uma
reprimenda por se atrever a acreditar em si mesmo.

Apoiando a Grandeza Uns dos Outros


Nós vivemos em um mundo onde os julgamentos são feitos de maneira rápida e fácil.
Mentiras são contadas sobre as pessoas e impressas por editores irresponsáveis; qualquer
um pode dizer o que quiser em seu website e parecer digno de crédito. As pessoas
mancham a reputação dos outros e destroem seu bom nome como se isso fosse um esporte.
Eu tive um monte de julgamentos em meu caminho desde que minha carreira pública
começou. Por qualquer razão, - minha dignidade de mulher, minhas convicções, minha

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impetuosidade – algumas pessoas pensaram que era sua obrigação se promover às minhas
custas. Ainda assim, aprendi que não servimos ao mundo aceitando seus julgamentos,
baixando nossas cabeças, envergonhados, e dizendo, “Sim, você deve estar certo. Eu devo
ser má”. Assuma a responsabilidade por sua parte em seus próprios desastres, tudo bem –
mas aceitar cada projeção de culpa de cada pessoa não curada? Não! Pois seja qual for a
razão pela qual uma pessoa precise projetar sua raiva e culpa em você, você não tem que
aceitar isso se não for seu.
Em alguns ambientes, recebemos suporte básico: “Vá, garota” Voe”! Em outros, “Quem
diabos você pensa que é para tentar voar? Desça aqui, ou nós vamos forçá-la a descer”.
Quando reconhecemos a vingança do ego – o quanto ele detesta o espírito da vida e do
amor – evitamos mais facilmente personalizar seus ataques viciosos. E existe aprendizado
em tudo o que atravessarmos. Tanto o desafio quanto o crescimento potencial que vêm dos
outros jogarem seus julgamentos rudemente sobre nós é o que nos faz decidir por nós
mesmos no que nossa auto-estima está baseada: na avaliação de outras pessoas ou na de
Deus.
O pensamento de Deus está a cento e oitenta graus de distância do pensamento do
mundo*, e uma das muitas áreas nas quais temos as coisas completamente invertidas é a
área da arrogância e da humildade*. Nunca deveríamos nos desculpar por buscarmos
realizar a grandeza de Deus que vive em todos nós. E aqueles que se recusam a apoiar os
outros para manifestarem seus sonhos, apenas estão recusando apoio para si mesmos. Seja
o que for que eu me recusar a celebrar em sua vida, não serei capaz de celebrar de esboçar
na minha. Meus pensamentos sobre você são inseparáveis dos meus pensamentos sobre
mim mesma. Se eu não quiser lhe dar permissão para brilhar, também não poderei me dar
permissão para brilhar.
Hoje em dia, viver em nossa grandeza carrega uma urgência além de realizarmos
nossos sonhos individuais. Trazer à tona nossa grandeza é crítico para a sobrevivência da
espécie; apenas se você viver à partir do seu potencial e eu à partir do meu, o mundo
ser´capaz de vive à partir do dele. Uma vez que o pensamento limitado produz resultados
limitados, apoiar os outros para acreditarem em si mesmos ajuda a empurrar o mundo todo
para frente. E nos tornarmos quem somos capazes de ser – apesar da opinião da outras
pessoas sobre nós – é parte da nossa responsabilidade tanto em relação a nós mesmos
quanto em relação a Deus.
A mesmos que estejamos apoiando o aparecimento da grandeza nas pessoas ao nosso
redor, não estaremos cumprindo nossa parte para ajudar a curar o mundo. Um sorriso de
apoio, um e-mail, o menor gesto podem fazer a diferença para ajudar outra pessoa a
acreditar em si mesma. De uma perspectiva material, o que damos, nós perdemos, mas de
uma perspectiva espiritual, apenas o que damos conseguimos manter*. Quando somos mais
generosos com nosso apoio pelos outros, o próprio universo nos demonstra mais apoio.

Rendendo-nos à Nossa Natureza mais Brilhante


Freqüentemente, falhamos em desenvolver um aspecto de nós mesmos simplesmente
porque ninguém o espelhou para nós. Se um de nossos pais demonstrou “sucesso” ou
“elegância”, então, podemos ser impelidos a realizar essas coisas, mas se nenhum modelo
desses nos foi apresentando, tanto na família quanto na cultura, nós simplesmente não
construímos os trilhos psicológicos para esse trem. Deus, entretanto, construiu Seus próprios
trilhos.
A psique é como um computador gigante com um número infinito de arquivos. Imagine
uma pasta chamada “Vontade de Deus” e, dentro dela, arquivos variados: Eu, o forte, Eu, o

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autoconfiante, Eu, o compassivo, Eu, aquele que perdoa, etc. Tudo o que é o Amor de Deus
está presente como um arquivo que temos liberdade de baixar. E nenhum dos arquivos de
Deus pode ser deletado.
Ainda assim, a maioria de nós criou alguns arquivos que deveriam ser deletados. Eu, o
arrogante, Eu, o sarcástico, Eu, o julgador, e Eu, o cínico são alguns exemplos. Todos eles
pertencem a uma pasta chamada “Ego”. Imagine Jesus sentando à frente do seu
computador, selecionando aquela pasta e apertando a tecla “delete”.
Eu, o nervoso, ou Eu, o arrogante, é um Nada que não chegou a parecer com Algo. É
uma parte da ilusão do mundo. Seria fácil, entretanto, convencer a nós mesmos e aos outros
que é isso o que somos, se nos comportamos dessa maneira. E mesmo que não nos
comportemos dessa maneira, uma vez que a pasta negativa exista, ela age como um veneno
mental que vai se infiltrando e tem a capacidade de nos deter.
Outro conjunto de imagens que revela a verdade da nossa natureza eterna está nos
contos de fadas. A madrasta má é nosso Ego, e ela quer matar a Branca de Neve, que é o
espírito inocente do amor dentro de nós. Ela não é capaz de fazer isso, entretanto, porque o
que Deus criou não pode ser destruído. O que ela pode fazer é colocar Branca de Neve em
um sono profundo. Apenas o beijo do Príncipe – amor incondicional – a despertará.
Se o príncipe não beijasse Branca de Neve – se, ao invés disso ele a tivesse atacado
verbalmente dizendo, “Que diabos você está fazendo ainda dormindo?!” – então, ela não
teria despertado. Não são aqueles que nos julgam e condenam, mas, ao contrário, são
aqueles que nos abençoam e perdoam que nos despertam de nossa natureza inferior e nos
devolvem nossos seres melhores.
Uma vez, quando minha filha ainda era bem pequena, alguém me disse que seria
melhor, quando possível, eu me comunicar com ela com “Faça isso”, ao invés de “Não faça
isso”. Acho que esse foi um dos melhores conselhos que já recebi; podemos ver o estrago
feito a pessoas que estão sempre recebendo respostas negativas. Em seu livro chamado
Pais Mágicos/Filhos Mágicos, Michael Mendozza e Joseph Chilton Pierce explicam que a
natureza do laço emocional entre os pais e os filhos é mais importante do que a informação
específica que comunicamos a eles. O teor da nossa compaixão é tão importante quando o
que dizermos. Nossa missão é afirmar a bondade essencial nas pessoas, mesmo quando
elas tiverem cometido erros*.
Sei por mim mesma, que alguém constantemente me dizendo o que não está certo
dificilmente é o que me ajuda a melhorar. Existe um poder mágico relacionado ao bem nas
pessoas. Li uma entrevista, onde a atriz Uma Thurman, filha do renomado filósofo budista
Robert Thurman, disse, “Acho que me rendi à milha natureza mais brilhante”. Ela foi bem
ensinada, eu presumo, de que existe uma natureza dessas. O papel dos pais é ver essa
natureza em seus filhos e refleti-la para eles. E essa natureza existe em todos nós.
Essa é uma abordagem psicológica muito diferente para a mudança, do que a que está
normalmente associada com a mente ocidental. Geralmente, pensamos em nossas
qualidades “negativas” como algo de que temos que nos “livrar”. E disso vem todos os tipos
de sistemas cuidados paternais/maternais, sistemas educacionais, sistemas legais, etc.
disfuncionais. Imagine que mundo teríamos se olhássemos uns para os outros e
pensássemos, “Eu sei que existe algo maravilhoso ali!”.
Na realidade, nossa necessidade é reivindicar e abrir caminho para nosso potencial
espiritual, não importando se ele já foi ativado dentro de nossa personalidade. O potencial
último é nossa “natureza búdica” e o “Cristo”, “Aceitar o Cristo” é aceitar que o amor de Deus
está dentro de nós e em todos os outros. Uma luz eterna está dentro de nós porque Deus a

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colocou ali, e invocar o que gostamos é muito mais poderoso do que tentar destruir o que
não gostamos. Na presença da nossa luz, nossa escuridão desaparece.
Atores incorporam um personagem por descobrir sua força vital dentro de si mesmos.
Não é tanto uma outra pessoa, mas é outra dimensão de seu próprio ser na qual o grande
ator habita. E a maioria de nós – sejamos atores ou não – tem dimensões do ser
inexploradas, pela única razão de que não escolhemos explorá-las.
Todos nós podemos cantar, embora poucos sejam realmente cantores. Todos podemos
pintar, embora poucos sejam realmente pintores. Todos nós somos atores, embora,
geralmente, finjamos não ser.
No AA, é dito que é mais fácil agirmos com uma nova maneira de pensar, do que
pensar em nós mesmos com uma nova maneira de agir. Assim como as crianças aprendem
brincando, os adultos também o fazem, quando se permitem. Nós subestimamos
imensamente a habilidade de nossa mente subconsciente de nos apoiar a criar a mudança.
“Finja até que seja verdade” geralmente é um bom conselho. Quando as meninas pequenas
brincam de “casinha” ou meninos brincam de Homem Aranha, eles estão seguindo uma
estratégia subconsciente para o desenvolvimento da personalidade, usando sua imaginação
para preparar novos reinos de ser. E nós nunca precisamos parar de fazer isso, a não ser
que escolhamos agir assim.
Pratique a bondade, e você vai começar a se tornar bondoso. Pratique a disciplina, e
você vai começar a se tornar disciplinado. Pratique o perdão, e você vai começar a ser
pronto a perdoar. Pratique a caridade, e você vai começar a se tornar caridoso. Pratique a
gentileza, e você vai começar a se tornar gentil.
Não importa se você está com bom humor para ser cortês com o motorista de ônibus
hoje; faça isso de qualquer maneira – e observe como isso começa a afetar o seu humor.
Apenas aperte o botão do ser que você quer ser e o arquivo aparece. Ele já está lá, afinal de
contas, só esperando para ser baixado. Nós nos tornamos corteses quando decidimos ser
corteses. Temos o poder tanto de criar quanto de reagir aos sentimentos; de lapidarmos
nossa personalidade conforme caminhamos pela vida. Nas palavras de George Eliot, “Nunca
é tarde demais para ser o que você deveria ter sido”. Nunca é tarde demais para nos
tornarmos quem realmente somos.

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CAPÍTULO TRÊS

Do Pensamento Negativo
para o Amor Positivo

Um amigo me disse uma vez que eu sou uma “sofredora”. Não sabia o que ele quis
dizer, e, naquela época, ao mesmo tempo, eu sabia exatamente o que ele queria dizer. As
coisas poderiam estar ótimas e, então, eu encontrava algo realmente estúpido com o que me
aborrecer. Eu simplesmente tinha o hábito emocional de me focalizar no negativo. Eu ainda
tinha que aprender que, em grande parte, somos responsáveis por nossa própria felicidade.
De acordo com Um Curso em Milagres, a felicidade é uma decisão que precisamos tomar. E
quem, entre nós já não tomou decisões destinadas a nos fazer sofrer?
Em qualquer momento específico, é nosso foco que determina nossa realidade
emocional. Dificilmente haverá um momento em sua vida em que tudo o que olhar ou em que
pensar vá ser absolutamente perfeito aos seus olhos. Mas a perfeição é um ponto de vista; o
que se torna perfeita é nossa habilidade de esquadrinhar um ambiente e focalizá-lo da
maneira mais útil, amorosa e positiva.
Sempre existem coisas com as quais ficarmos felizes, e sempre existem coisas com as
quais ficarmos tristes. A ponte para uma vida mais feliz é mais uma decisão emocional do
que uma mudança nas circunstâncias. A vida é como um pouco de argila molhada, e cada
pensamento que temos dá forma a ela. Uma vida feliz pode ter dias tristes, mas, quando
você tiver dominado os fundamentos de uma visão mundial basicamente feliz, vai atrair mais
situações para provar que sua visão de mundo está correta.
E o qual visão de mundo poderia ser mais feliz do que a que o amor é real e nada mais
existe*?
O truque, é claro, é que é difícil permanecer amoroso em um mundo sem amor. E, ainda
assim, com Deus, isso é possível. Quando passamos mais tempo trabalhando para ver a
vida através de olhos amorosos, e menos tempo tentando descobrir porque estamos infelizes
para começo de conversa, então, nossas vidas se transformam muito mais rápido. O ego
adora alimentar a ilusão de que somos impotentes diante do nosso sofrimento. Para algumas
pessoas, isso é claramente a verdade, mas, para a maioria de nós, essa atitude é um jogo de
autoderrota que jogamos, que garante manter a felicidade à distância; um constante e eterno
“talvez, algum dia”.
Nossa capacidade de mudar nossas mentes é a maior dádiva que Deus nos deu, e
também a mais poderosa*. Ela está presente dentro de nós, em qualquer momento, para nos
ajudar a voltar nossas mentes para o amor.
Sempre podemos olhar para uma situação e parar um momento para nos focalizarmos
em no quanto somos abençoados e gratos por suas partes boas. Sempre podemos convidar
o espírito de Deus para ofuscar nossos pensamentos, para elevá-los à ordem divina correta.
Para nos libertarmos do aperto do ego, e para nos transformarmos na pessoa que Ele
gostaria que fôssemos. Em cada momento, podemos convidá-Lo a entrar e purificar nossos
pensamentos. E, tendo feito isso, vamos começar a ver milagres. Alguns deles vão parecer
pequenos no início, mas, com o tempo, vamos perceber uma mudança básica no teor de
nossas vidas.

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Parece para mim que a chave da felicidade está em superar a nós mesmos. As épocas
mais felizes da minha vida foram quando eu estava mais envolvida em algo que estava
fazendo para os outros, e não em algo que estava fazendo para mim mesma. Pois qualquer
percepção que se focalize apenas em suas necessidades separadas vai, no final das contas,
criar o medo, e qualquer percepção que se focalize na sua unicidade com os outros vai criar
paz. Muitas pessoas lutam e deixam de encontrar a paz dentro de si porque não percebem
realmente quem é o seu “ser”. É por isso que o ego é tão perigoso: ele nos levaria a acreditar
que somos separados, quando, na verdade, não somos. Não podemos ter paz interior a
menos que nos sintamos completos dentro de nós mesmos, e não podemos nos sentir
completos à parte da nossa conexão com as outras pessoas.
Você não pode encontrar a si mesmo olhando apenas para você, porque, em essência,
isso não é quem você é. Seu ser real é um ser expandido, literalmente um com o mundo
todo. E então, nos descobrimos em um relacionamento com o todo. Não podemos ser felizes
a menos que desejemos que todos sejam.
Um dia, eu me deixei levar por algumas preocupações baseadas no ego sobre minha
vida, preocupada com isso ou com aquilo que não estava acontecendo; eu me lembro de que
estava preocupada especificamente com o que não estava alcançando em minha carreira. A
conversa na minha cabeça era sobre mim (erro número um) e focalizada no que eu percebia
estar faltando (erro número dois). Eu realmente percebi que meu pensamento não era
inclinado ao milagre e, finalmente, disse a mim mesma para cair fora.
Eu estava fazendo as malas para deixar o hotel naquele momento, e, em seguida, o
carregador chegou para levá-las. Comecei a perguntar a ele sobre sua vida. Fazer perguntas
sobre a vida dos outros ao invés de ficar divagando sobre a nossa é um jeito infalível de
direcionar nossas mentes para longe do ego. Perguntei a ele que horas chegava para
trabalhar de manhã, o que mais ele fazia com sua vida, e assim por diante.
E, então, ele me disse, “Desculpe-me, você é Marianne Williamson?”. Ele começou a
me contar que ele e sua esposa costumavam assistir minhas palestras regularmente em Los
Angeles, e que sua esposa ouvia minhas fitas todos os dias, e como meu trabalho era
importante para eles. E, fazendo isso, ele aliviou perfeitamente as preocupações nas quais
eu estava focalizada uma hora antes; seus comentários mudaram meus pensamentos e,
portanto, meus sentimentos. Mas, se eu simplesmente tivesse ficado com minha linha de
pensamento auto-envolvida, sem direcionar minha mente para se focalizar em outra pessoa,
eu nunca teria recebido aquele milagre. Teria havido essa pessoa, pronta a me oferecer a
cura, mas eu não estaria disponível a recebê-la. Recusando amizade ao carregador, eu
estaria recusando a cura a mim mesma.
A generosidade, nesse sentido, é um ato de auto-interesse*. Eu tenho visto isso muitas
vezes para duvidar; sempre que eu me lembro que o amor que busco só pode ser
encontrado quando estendo meu amor para os outros, então a paz vem de maneira
completamente fácil. É quando nos esquecemos disso que o inferno despenca sobre nós. O
amor estendido é a chave para a felicidade; o amor retido é a chave para a dor.

Caminhar com Deus


Eu costumava ouvir a antiga canção evangélica que falava sobre “andar junto de Ti”, e
eu pensava que a imagem era doce, mas estranha. Caminhar com Deus é realmente mais
do que isso, entretanto, porque, metafisicamente, nosso “caminhar” significa nossa linha de
pensamento. Rezar para caminhar mais perto de Deus é rezar por ajuda para pensar
pensamentos mais espirituais, não porque queremos ser bonzinhos, mas porque não

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queremos sabotar nossas vidas da maneira que fizemos no passado. Estamos pedindo que
nossos pensamentos e atos sejam guiados por Deus, agora e sempre.
Estar distante de Deus significa pensar o que estivermos pensando sem qualquer
critério sagrado para nossas percepções. Uma vez que fomos treinados pelo pensamento do
mundo, sem a orientação de Deus estaremos propensos a nos aproximar instintivamente dos
pensamentos que são julgadores, acusadores ou que não perdoam. E, portanto, vamos
permanecer no inferno da separação da experiência do amor de Deus.
Andar mais próximo de Deus significa estreitar a brecha entre nossos pensamentos e os
pensamentos de Deus. Quantas vezes nós fizemos coisas de que nos arrependemos depois,
por nenhuma outra razão além de que, naquele momento em particular, não estávamos em
contato com nosso eu superior? Estávamos permitindo que nosso eu impostor, baseado no
medo, passasse por quem nós somos, enquanto nosso ser amoroso, essencial, permaneceu
oculto e desolado sob a ilusão de nossas vidas insatisfatórias.
O pensamento do mundo é como um vírus de computador que invadiu nosso sistema. O
Espírito Santo é como um programa antivírus que tanto nos protege do falso pensamento
quanto desmantela os pensamentos baseados no medo uma vez que tenham entrado em
nossas mentes.
É preciso disciplina mental para treinar novamente nossas mentes, e, ainda assim, esse
treinamento é imperativo se realmente queremos que nossas vidas mudem. Com cada leitura
inspiradora, tempo passado em meditação, ato de perdão, caridade ou amor, estamos
diminuindo a influência do medo em nossas vidas. Não podemos mudar o pensamento das
outras pessoas, mas na verdade, não precisamos fazer isso porque nossas mentes são
unidas*. Tudo o que temos que fazer é mudar nosso próprio pensamento, e, ao fazê-lo, o
mundo vai mudar conosco.
Nós não somos separados de Deus; apenas pensamos que somos. O que Deus criou é
um com Ele para sempre, da mesma maneira que uma idéia não pode deixar sua fonte*. Ele
é amor, e Ele é Tudo o Que Existe*. Portanto, quando não estamos pensando com amor,
realmente não estamos pensando nada*. Estamos tendo uma alucinação*. E é isso o que
esse mundo é, na verdade: uma enorme alucinação da mente mortal.
Nós somos separados de nossa própria realidade por um véu de ilusão, e, dentro dessa
ilusão, sentimos muito medo. Imagine se Deus estivesse segurando sua mão em um
momento, e, em seguida, você não pudesse encontrá-Lo. Ele pareceria ter desaparecido.
Sentimentos de pânico não surgiriam imediatamente? Esse é o nosso desespero.
Todas as religiões se propõe a curar nosso desespero levantando o véu da ilusão.
Algumas delas dizem que ele será levantado depois da nossa morte; outras sugerem que ele
pode ser levantado enquanto ainda estamos na Terra. À partir da perspectiva de uma mente
voltada para o milagre, a glória de Deus está não apenas no que Ele vai nos revelar depois,
mas no que Ele pode e vai nos revelar agora.
Vamos dizer que Deus lhe deu uma dádiva tremenda – uma que você sente que
poderia ser muito útil agora na transformação do mundo. Ainda assim, você não tem acesso
às pessoas e circunstâncias que poderiam abrir o caminho para que você expresse essa
dádiva. Deus pode acertar todo tipo de coisas, mas Ele não vai determinar suas escolhas
para você. Se você não escolher lidar com as questões pessoais que o impedem de se
expressar no seu potencial mais elevado, então, estará escolhendo bloquear seu próprio
caminho. O próprio Deus vai se curvar diante dessa escolha, porque a dádiva do Livre
Arbítrio foi dada a você na sua criação. Ainda assim, Ele vai mover céu e terra para ajudá-lo
a escolher novamente. Ele vai descobrir um meio de oferecer a você a chance de viver uma
vida diferente.

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Todos os pensamentos se estendem ao mundo. Se for um pensamento de amor, então,
mais amor vai estar lá e vai voltar para nós. Se for um pensamento de medo, então o medo
estará lá e ao nosso redor também. Não podemos interferir com o que acontece entre a
Causa, que é o nível da consciência, e o Efeito, que é o nível do mundo*. O próprio Deus não
vai intervir entre a Causa e o Efeito, pois essa lei foi estabelecida para nossa proteção*. Mas
sempre somos livres para escolher outro pensamento, e esse é nosso milagre. Quando a
causa, com “c” minúsculo (o pensamento do ego), é substituída pela Causa, com “C”
maiúsculo (a Mente de Deus), o mundo dos efeitos muda de acordo.
Deus criou o Espírito Santo como a “ponte da percepção”, dos reinos exteriores da
ansiedade e do desespero para os reinos interiores da paz e da alegria*. E o Espírito Santo
está sempre em posição de, fortalecido pelo próprio Deus, nos libertar, além da vã
imaginação do ego. Ainda assim, apenas saber que Ele está lá, e afirmá-lo com qual nome
escolhermos, não nos traz, por si só, a paz. O milagre acontece quando nós
verdadeiramente damos um passo atrás e deixamos que Ele indique o caminho; quando nos
desconectados dos reinos do mundo, mesmo que por um momento, e mergulhamos em um
lugar de eficácia extrema. Apenas quando estivermos vazios – ou pelo menos indiferentes
aos nossos próprios pensamentos -, o Espírito Santo pode nos preencher com os Dele.
Quando nos “nos dirigimos ao nosso Deus de mãos vazias”*, a Luz da Verdade ilumina
o ego até que desapareça, não de uma vez, mas gradualmente, com um efeito cumulativo.
Nos tornamos mais abertos e compassivos, mais vulneráveis, e menos defensivos – e não
apenas com as pessoas que conhecemos e com as quais nos sentimos seguros. Se formos
autênticos apenas com as pessoas que já conhecemos, então, vamos experimentar milagres
apenas com elas! Podemos criar um novo começo com todos. Se permitirmos, o Espírito
Santo vai criar um botão “reset” cósmico, e, desse ponto em diante, vamos em frente com
um conjunto diferente de opções – um conjunto infinito de opções. Nós reconstruímos o
mundo ao nosso redor, conforme permitirmos que Ele reconstrua nossas almas.
Existe uma maneira de ser nesse mundo que transcende o mundo, um modo de sermos
pessoas comuns e trabalhadores de milagres ao mesmo tempo. Nós nos tornamos as
lâmpadas que irradiam a luz que emana da eletricidade de Deus. Ninguém se sente
profundamente em casa nesse plano; não é daqui que viemos, e não é para cá que, no final
das contas, seremos levados*. Esse é um lugar no qual permanecemos por pouco tempo,
lindo e abençoado quando permitimos que nossas percepções sobre ele sejam ofuscadas
pelas Dele, mas nada mais do que uma estação. Estamos aqui porque temos uma missão:
ser o amor que está faltando em um mundo sem amor e, portanto, recuperar esse mundo
escurecido para a luz.

Ter e Ser
Nós podemos ter na vida seja o que for que queiramos ser, pois, no final das contas, ser
e ter são a mesma coisa. Quando damos a nós mesmos a permissão emocional de viver a
vida que queremos, existe pouca coisa no mundo que possa nos deter. Como diz o Curso,
nós não pedimos muito a Deus, nós pedimos muito pouco*. Nossa fraqueza com freqüência
é simplesmente uma fraqueza de fé – acreditar mais nas limitações do mundo do que na
ausência de limites de Deus.
Para Deus, cada momento é um novo começo. E Deus não é detido por nada. Deus
nunca diria, “Eu poderia ajudá-los, mas vocês fizeram tanta bagunça que eu não quero”.
Nem Ele diz, “Eu poderia lhe dar uma vida ótima, mas seus pais eram alcoólatras, então,
minhas mãos estão atadas”. Limites não permanecem diante da ausência de limites de Deus,
e são os limites à nossa fé, não os limites das nossas circunstâncias, que nos impedem de

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experimentar milagres. Cada situação nos provê a chance de vivemos com uma esperança e
fé mais amplas e mais audaciosas de que todas as coisas são possíveis. Deus é maior do
que qualquer circunstância limitada do nosso passado; Deus é maior do que qualquer
limitação que o mundo esteja nos mostrando agora. As limitações existem apenas como um
desafio para que nós amadureçamos espiritualmente, ao percebermos que, através da graça
de Deus, somos maiores do que elas.
Maiores do que a carência financeira? Sim, porque em Deus, você é infinitamente
abundante. Maior do que a doença? Sim, porque em Deus, você tem saúde total. Maior do
que o terrorismo? Sim, porque em Deus, nós somos amor infinito, e amor é a única força à
qual o ódio e o medo não podem se opor. Não existe ordem de dificuldade em milagres*. Se
o suficiente de nós rezar a cada manhã, pedindo ao Espírito de Deus para entrar na
confusão mundial que criamos e consertar todas as coisas – abrindo mãos de nossas
próprias idéias e pedindo as Dele ao invés delas – todas as coisas erradas vão começar a se
dissolver, pois estamos tratando esses problemas principalmente no nível do efeito, e
dificilmente no nível da causal. Nossa fé no poder do problema, e o poder das soluções
humanas, excede muito nossa fé em milagres.
Uma vez, eu fui a um encontro onde o líder fez a abertura dizendo que a tarefa em
questão era basicamente impossível, mas, é claro, faríamos nosso melhor. O grupo não
poderia ir em frente de maneira confiante uma vez que o próprio líder havia declarado que o
trabalho era impossível. Ainda assim, se eu tivesse sugerido que todo no grupo
simplesmente respirassem fundo, fizessem uma pausa para um momento de silêncio, e
afirmassem que o trabalho poderia ser completado sem esforço e de maneira brilhante
através do espírito interior, seria vista como uma pessoa não confiável. O poder do
pensamento é como uma grande reserva de ouro sempre presente dentro de nós, embora a
resistência do ego à nossa mineração seja rigorosa e intensa.
Tanto na Bíblia quanto no Um Curso em Milagres, é dito que mover montanhas é pouco
comparado ao que podemos fazer. Através da graça de Deus, podemos curar os doentes e
ressuscitar os mortos; podemos trabalhar em milagres nos relacionamentos, tanto pessoais,
quanto sociais, ou políticos. O fato de que no momento atual não estejamos fazendo essas
coisas, não quer dizer que sejamos incapazes de fazê-las. A questão fundamental é nossa
resistência entrincheirada em até mesmo tentar – até mesmo voltando nossa raiva, de vez
em quando, para aqueles que ousam fazê-lo!
Por que temos mais medo de sermos poderosos do que de sermos fracos? O que há
com a noção de que o poder ilimitado de Deus está trabalhando através de nós, para que
seja tão ameaçadora? O problema, na verdade, não é que essa noção afronta a autoridade
do ego?
Afinal de contas, o que foi que o ego nos deu? O reino material é tão poderoso quanto
quer se mostrar? Seu caminho está mesmo funcionado, dado o estado do nosso planeta
hoje? Consumir bens em quantidade suficiente nos traz felicidade? Sexo suficiente pode nos
trazer amor? Quatrocentos bilhões de dólares por ano gastos em equipamentos militares nos
trazem paz?
“Meu reino”, disse Jesus, “não é desse mundo”. Os problemas do mundo não serão
resolvidos no nível da consciência, que é o próprio problema. Jesus também disse, “Obras
maiores do que os minhas vocês farão”. Ele não disse que as estamos fazendo agora, ele
disse que nós vamos fazer. Nós as faremos quando tivermos evoluído para o próximo
estágio de nossa maturidade espiritual; um processo durante o qual Ele, entre outros, vai nos
conduzir. Por que, em um mundo que proclama tanta fé em Deus, somos tão relutantes a
permitir que Deus nos mostre como passarmos para o próximo nível da nossa humanidade?

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Qual é a nossa resistência à presunção da nossa própria grandeza como filhos da Luz? Nós
somos Seus filhos amados, nos quais Ele já se compraz. Se Ele nos criou perfeitos e tem
planos gloriosos para nós no Céu, então porque somos tão propensos a nos considerar
pequenos enquanto ainda estamos na Terra? Deus está retendo Sua grandeza até que
morramos, ou nós estamos resistindo a Ela enquanto ainda estamos vivos? O ego vai dizer
qualquer coisa para nos manter longe de Deus, e “Vocês vão vê-Lo depois” é uma das suas
afirmações favoritas.
Deus é uma benção que permeia todo nosso ser, em todos os lugares, o tempo todo.
Mas não é suficiente que Deus nos abençoe, temos que receber a benção graciosamente
para experimentá-la totalmente. A maneira como recebemos algo é tão importante quanto o
que estamos recebendo. Se aceitarmos uma dádiva com genuína gratidão e humildade,
louvando e honrando o doador, então, nossa recompensa vai aumentar. Quando
simplesmente vemos a dádiva como garantida, entretanto, não agradecendo, então, nosso
bem vai diminuir. Quantas vezes nós casualmente minimizamos uma oportunidade, não
reconhecendo alguma dádiva impressionante da vida e do amor até que seja tarde demais?
Nós aprendemos da maneira mais difícil quanto poder nós temos para diminuir as coisas,
simplesmente pensando dessa forma. Quem entre nos nunca jogou fora uma benção, muito
arrogantes e corrompidos, talvez, para vermos essa benção pelo que era?
Inúmeros dias e noites se passaram sem que eu tivesse notado o sol ou a lua. É tão
fácil encarar como garantida a glória que está ao nosso redor.
Quando eu era uma criança, crescendo no Texas, costumava observar o extraordinário
pôr-do-sol pelo qual o céu do Texas é famoso. Eu não sabia que nem todo cada pôr-do-sol
era tingido daquela maneira, em múltiplas nuanças de rosa e púrpura, laranja e dourado. Eu
não sabia, então, que nem todo pôr-do-sol exibia nuvens volumosas e raios gloriosos de um
sol que estava se desvanecendo, pintados dramaticamente por todo um céu infinito. Eu não
sabia o quanto era abençoada por ver aquilo.
Algumas vezes agora, sinto falta daquele pôr-do-sol e percebo o quanto eu era ingênua
em pensar que eram tão fáceis de se ver. Considero quais milagres estou subestimando
agora, acontecendo ao redor de mim, embora não reconhecidos e não louvados. Acho que a
maior crise que nos confronta – certamente a que me confronta – é a crise da fé. Eu esqueci
que o Deus que tinge aquele pôr-do-sol e mantêm o sol no céu, e transforma um embrião em
um bebê, está ativo na minha vida também. É por causa da minha própria fadiga mental,
minha falta de imaginação, que eu deixo muitas vezes de conectar os pontos entre os
problemas que perturbam minha vida com o poder infinito de Deus para resolvê-los.

Um Problema, Uma Resposta


Todos nós temos problemas de vez em quando, alguns bem sérios. Mas, enquanto
pensamos que temos muitos problemas diferentes, realmente temos apenas um: nossa
separação de Deus*. Uma vez que estejamos religados com a Verdade do nosso ser, a não-
verdade não pode mais continuar em nossa presença.
Eu disse a minha filha recentemente que a vida não tem nada a ver com ter problemas;
ela tem a ver com nos tornarmos alguém que sabe se mover dentro deles de maneira
positiva. Tem a ver com assumir a plena responsabilidade por qualquer maneira com que
tenhamos contribuído para um problema, perdoando a nós mesmos e aos outros, rezando
por todos os envolvidos, e desenvolvendo a fé em que os milagres de Deus estão sempre a
caminho.
Um problema não é necessariamente algo ruim; se está acontecendo, é parte de um
currículo divino delineado como uma oportunidade de aprendizado para todos os envolvidos.

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E uma das coisas que aprendemos, quando experimentamos problemas e depois recebemos
o milagre que os resolve, é a fé de que os milagres realmente acontecem. Os milagres
afloram da convicção*, e nada nos dá mais convicção do que termos sido salvos do fundo de
nosso próprio poço profundo.
Cada desafio é uma oportunidade... para um milagre.
Deus pode e vai desenredar as múltiplas linhas de energia disfuncional que permeiam
uma situação, tão logo a colocarmos em Suas mãos. Com seu olho mental, derrame luz
sobre a circunstância difícil. Relaxe seu aperto atitudinal. Veja isso como uma lição – um
espetáculo potencial para o poder milagroso de Deus de curar todas as coisas – e entregue o
problema, agradecendo a Deus. Sinta que seu ser pessoal não está mais mantendo o
problema, nem tendo que resolvê-lo. Expanda-se no infinito do seu ser, e, de lá, aproxime-se
tanto do problema quanto da sua solução. Dessa maneira, você vai ganhar uma dimensão
adicional do poder da sua habilidade de lidar com qualquer coisa. Nós somos herdeiros das
regras do mundo com as quais nos identificamos*. Uma vez que nos identifiquemos somente
com o espírito, não existirão regras exceto aquelas da misericórdia e do amor.

Querido Deus,
eu deposito esse problema em seu altar.
Por favor, interprete essa situação para mim.
Que eu possa ver apenas o amor nos outros e em mim.
Mostre-me o que eu preciso ver,
Guie-me para o que eu preciso fazer.
Ajude-me a perdoar.
Eleve-me acima do medo em minha mente.
Obrigada, Deus.
Amém.

O Poder do Pensamento
É fácil minimizar o poder dos nossos pensamentos, entretanto, todo pensamento cria
forma em algum nível*. Você não consegue anistia kármica dizendo, “Ah, sim, pensei isso,
mas realmente não era minha intenção”. A mente subconsciente ouve tudo e simplesmente o
reflete de volta para nós; não existe filtro subconsciente para deixar de fora o que realmente
não tínhamos intenção de pensar. Brinque sobre o quanto ninguém gosta de você, e bem
rápido, as pessoas provavelmente não vão gostar mais. Afirme que você está em seu poder,
e bem rápido estará. A mente subconsciente não sabe o quanto você está falando sério
quando pensa em algo; ela simplesmente o impulsiona a cumprir suas próprias expectativas.
Eu adorava o personagem nerdy no filme Amor, Realmente, que continuava afirmando
que ele era um deus do sexo e que as mulheres na América iriam adorá-lo. Seu amigo ficou
tentando lhe dizer que ele era louco, mas ele não acreditou nisso. E, no final do filme, ele
estava na América, sendo seduzido por mulheres maravilhosas, inúmeras vezes!
Algumas pessoas ridicularizam a noção de que escrever cinqüenta vezes “Eu sou
esperto e brilhante no trabalho”, a cada noite antes de dormir, durante trinta noites, pode ser
visto como um poderoso agente de cura. Ainda assim, essas são as mesmas vozes que
freqüentemente são as primeiras a argumentar que o fato da sua mãe ter dito a eles todas as
noites antes de irem para a cama, enquanto eram crianças, “Você é estúpido e não vai ser
alguém”, os deixou magoados para o resto da vida. Então, o que é isso? Se as palavras são
perigosas, então também podem curar – em qualquer idade. Assim como uma fita de áudio
pode ser apagada, gravando-se outra coisa sobre ela, podemos começar a programar

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nossas mentes com pensamentos que contrariam aqueles que habitualmente pensamos.
Para o melhor ou para o pior, a mente subconsciente ouve tudo.
Lembre-se de que cada pensamento que temos leva a nós e aos outros ao nosso redor
diretamente para o Céu (uma consciência de unicidade) ou direto para o inferno (o estado de
separação do ego). Se nós pensarmos bem sobre o mundo, então estaremos propensos a
vê-lo. E se pensarmos mal, estaremos propensos a vê-lo também. Conseguimos tão pouco
porque temos mentes indisciplinadas*. Nós nos permitirmos vaguear muito com tanta
facilidade sobre pensamentos negativos e palavras negativas. E, de ambos vêm as
experiências negativas.
Uma vez que nossas mentes são unidas, o conflito entre dois de nós contribui para a
guerra, e a reconciliação entre dois de nós nos leva mais próximos a um mundo de paz.
Nosso menor julgamento contribui para a guerra, e nosso menor perdão contribui para a paz.
Os milagres afetam situações sobre as quais nunca saberemos*. O bater de asas de uma
borboleta na América do Sul afeta os padrões de corrente de ar no Pólo Norte, e
pensamentos de paz verdadeira em Idaho afetam planos de paz para a Palestina. Que
oportunidade extraordinária, assim como uma grande responsabilidade, nós temos para
tentar fazer tudo certo.

O Poder da Linguagem
Uma das dádivas que podemos dar aos nossos filhos é ensiná-los o poder metafísico
das palavras. “Eu odeio a escola”, “Todos me odeiam”, e “Eu não tenho boa aparência” são
afirmações poderosas que parecem inócuas, mas não são. Cabe a nós, como pais e mães,
ensinarmos a nossos filhos que o que nós proclamamos como verdade vai então parecer
verdade. De vez em quando, eu me pego dizendo coisas negativas nas quais nem mesmo
acredito, cedendo a um tipo de auto-indulgência que é inimiga da felicidade. Na verdade,
treinar nossas mentes é tão importante quanto treinar nossos corpos, e é da mesma maneira
muito importante para nossa saúde.
Por causa do trabalho que eu faço, recebo muitas cartas de pessoas ao redor do
mundo. Em alguns dias, eu estou reclamando ou me preocupando com coisas tão sem
sentido e, então, leio uma carta de um pai ou mãe que perdeu seu filho, o pai de um soldado
pedindo uma oração, ou um paciente lutando contra o câncer. Minha perspectiva, então, é
radical e automaticamente alterada. Tenho tentado desenvolver o hábito da gratidão e da
oração, conforme percebo o quanto sou afortunada, e afirmar isso com meus pensamentos.
“Oh, que lindo dia” – um simples lembrete da beleza da vida vai, literalmente, fazer sua vida
muito mais bonita.
O significado de nada é aquilo a que nos apegamos. Eu me lembro, quando era criança,
que sempre que começava a reclamar de um dia chuvoso, minha mãe dizia, “Ah, não! Os
fazendeiros precisam dessa chuva!”. O que para mim era uma chatice, para ela era um
alívio.
Uma casa parece tão bonita e você pensa que se apenas pudesse viver lá, a vida seria
tão adorável; uma vez que você a possui, entretanto, existe a pressão da hipoteca para
atrapalhar todo aquele encanto. Você pensa que uma bolsa não é tão bonita, mas, então, a
vê com outra pessoa e, de repente, ela parece fabulosa. Você pensa que seu marido não é
tão maravilhoso, mas, então, mais alguém o faz, e, de repente, ele fica fabuloso. Tudo o que
experimentados é filtrado através de nosso próprio pensamento. A maneira como você vê a
si mesmo é como vai tender a ver a vida, e como você vê a vida, é como vai tender a ver a si
mesmo.

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Conheço pessoas que têm tão pouco, e, ainda assim, o tratam tão bem. Não é surpresa
que o que elas têm esteja aumentando. E conheço pessoas que têm tanto e tratam isso tão
mal. Não é surpresa que o que elas têm esteja diminuindo. O mundo se expande ou se
contrai de acordo com nossa participação nele. Nós somos cem por cento responsáveis pela
maneira com pela qual experimentamos nossa experiência.
Conheço uma mulher que passou por um divórcio terrível e, ainda assim, não ficou
indignada. Eu uma vez a ouvi dizer, “Uma pessoa fica amarga ou fica melhor” (NT: existe um
jogo de palavras no inglês entre “bitter” e “better” – amarga ou melhor – impossível de ser traduzido em
português). Eu quero ser como ela nesse sentido; eu quero que o negativo vá embora, como
uma bola que foi atirada para mim, mas que eu não tenho que segurar. Mesmo quando
somos vitimados, normalmente cometemos alguns erros que precisamos examinar. E, com
isso, podemos agradecer até àqueles que nos magoaram, pois, através das experiências que
eles proporcionaram, vamos aprender a evitar tais situações. Nós vamos crescer, e, talvez,
eles também. E a vida vai continuar, porque Deus ama a todos nós.
Em Deus, não existem mocinhos e bandidos. Existem escolhas amorosas, que serão
brindadas com a felicidade, e escolhas não-amorosas, que trarão dor. E o trabalhador de
milagres interpreta tudo o que não é amor como um pedido de amor*. Visto sob essa luz, o
coração fechado de outra pessoa não pode mais nos magoar, pois não é o coração fechado
dela que nos faz sofrer, mas, ao invés disso, nosso instinto de fechar nosso coração em
resposta. Reze para aqueles que foram injustos com você, e a dor que você sofrer vai se
transformar em paz.
Isso pode não acontecer instantaneamente, é verdade. Se alguém mentiu sobre você,
outra pessoa pode acreditar nas mentiras. Se alguém o roubou, pode levar algum tempo
para que você recupere suas finanças. Mas esses são os três dias simbólicos entre a
crucificação e a ressurreição. Leva algum tempo para que a luz aflore novamente, mas ela
vai aparecer. Uma vez que nossos corações estejam abertos enquanto estamos no meio de
uma crucificação – abertos ao amor, ao perdão, e ao que precisamos aprender e com o que
precisamos nos sintonizar – então, a ressurreição é inevitável. Seja o que for, isso também
vai passar.

Mudança Radical
Tenho ouvido o dito popular, “As pessoas não mudam”, mas é um princípio de fé que,
através da alquimia radical do amor de Deus, nós podemos e vamos mudar. Existe algo em
cada um de nós que quer se tornar melhor, que quer se aperfeiçoar. O espírito sempre está
buscando se elevar.
Em 1999, um de meus amigos mais chegados adotou dois jovens irmãos, de cinco e de
sete anos de idade, de um programa de adoção da cidade. Pelo fato de terem sido
terrivelmente abusados por seus pais, Carl e Dylan exibiam sintomas comuns de crianças
severamente traumatizadas. Como conseqüência disso, eles não tinham sido bem sucedidos
ao passarem por lares para crianças órfãs, e muito menos por lares adotivos. Em uma
época, estiveram para ser adotados por um casal, e, no final, acabaram voltando para a
agência. Eles provavelmente estavam em linha direta para o pior tipo de vida antes que meu
amigo os levasse com ele.
Muitas pessoas ao redor do meu amigo, incluindo a mim, se preocuparam, achando que
ele tivesse assumido uma tarefa grande demais. Como ele poderia, como um homem
solteiro, lidar com dois jovens meninos traumatizados, e ter sucesso em cuidar deles? Ainda
assim, conforme as semanas, meses e anos passaram, todos os que os conheciam foram
testemunhas de um milagre: os pequenos Carl e Dylan se tornaram crianças modelo, e

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ninguém que os encontrasse poderia imaginar que tinham vindo de circunstâncias difíceis. O
amor do meu amigo e cuidados intensivos criaram um espaço para que os meninos
mudassem, crescessem, se tornassem as crianças que estavam destinadas a ser e que
ainda podiam ser. A paciência e o amor do seu pai adotivo conseguiram um feito
extraordinário.
Eu li em um jornal recentemente sobre um estudo governamental levado a cabo para
determinar o que faz as crianças aprenderem. O que foi descoberto – depois de gastarem
vinte e cinco milhões de dólares em pesquisa – que o maior determinante em fazer as
crianças aprenderem é a presença de pelo menos um adulto – e não tem que ser um parente
biológico – que se importe com o que elas fazem.
Milagres de transformação pessoal realmente acontecem, e eles podem acontecer com
cada um de nós.
Seja onde for que nosso mundo exterior permaneça emperrado, cabe a nós olharmos
não para fora, mas para dentro. Isso é um chamado para encontrarmos o lugar em nós
mesmos onde estamos nos agarrando a velhas maneiras – onde culpamos os outros ao
invés de assumir nossa responsabilidade pessoal por nossos infortúnios; onde julgamos os
outros ao invés de abençoá-los; onde somos duros, ao invés de vulneráveis, abertos e
gentis. Essas questões contêm as chaves ocultas para abrirmos nossos mistérios pessoais
não resolvidos. Para conseguirmos progressos nos mundo exterior, precisamos antes
consegui-los interiormente. Pois o nível da consciência é o nível da causa; nos voltarmos
para os problemas em sua causa significa olharmos para eles dentro de nós mesmos.
Olharmos para os problemas apenas no nível dos seus efeitos – no mundo exterior – é
deixar de observá-los profundamente.

O Poder do Amor
Quando minha irmã recebeu um diagnóstico de câncer de mama em 1989, ela disse
para seu oncologista, “Minha irmã diz que eu deveria ir a um grupo de apoio espiritual”. Ele
respondeu, “E em qual faculdade de medicina sua irmã se formou?”.
As boas novas é que, hoje em dia, essa atitude superior e condescendente em relação
aos benefícios físicos da prática espiritual é difícil de encontrar entre os médicos. Se alguém
recebe um diagnóstico de uma doença que ameaça a vida, seu médico agora é propenso a
ser a primeira pessoa a dizer, “Vá a um desses grupos espirituais de apoio”. Por que?
Porque as instituições acadêmicas mais prestigiadas comprovaram de modo científico que,
entre as pessoas que recebem um diagnóstico de doença com risco de vida, aquelas que
freqüentam grupos de apoio vivem, na média, duas vezes mais depois do diagnóstico.
O fato de pensarmos que o amor é um poder ardente e impressionante não faz de nós
pessoas simplórias. Eu uma vez fui entrevistada em um programa de entrevistas na TV, e o
entrevistador me apresentou fazendo alguns comentários maliciosos sobre como eu era
pacifista e pensava que não deveria haver exército. Eu olhei para ele, atônita, e perguntei de
onde, no mundo, ele tinha tirado uma idéia dessas. “Bem, eu presumi”, ele disse. “Você
pensa que o amor é a resposta para tudo, então, eu entendi que você acha que a força
militar deve ser uma coisa ruim!”.
É espantoso quanta ridicularização o tema do amor pode atrair quando ele faz algo
diferente de apoiar o status quo. Ir de “Ela pensa que o amor é resposta” para “Ela pensa
que não deveria existir o exército” é trivializar a verdade filosófica e espiritual mais profunda
que já foi expressa na Terra.
Um Curso em Milagres diz que o mundo é um sonho infeliz, que precisa se tornar um
sonho feliz antes que possamos acordar dele*. Isso significa que o mundo precisa ser

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transformado antes que possa ser transcendido. É o propósito atribuído a algo que determina
sua santidade, e não há nada inerentemente não-espiritual sobre o exército. Na verdade,
existem pessoas trabalhando no exército americano hoje em dia, que têm os pensamentos
mais iluminados com relação a possibilidades futuras das nossas forças armadas que
alguém possa imaginar. Talvez nosso exército vá manifestar, durante nossa vida, a
realização máxima da noção de “forças armadas”. Eles serão armados com habilidades
psicológicas, espirituais e emocionais para construir relacionamentos sociais e políticos,
tanto quanto agora estão armados com armamento militar. As instituições evoluem, assim
como a consciência, e estamos à beira da percepção coletiva de que, se queremos mudar o
mundo, precisamos nos tornar tão sofisticados nas maneiras de promover a paz quanto
agora somos nas maneiras de promover a guerra. Não importando quem nos ridicularize, é
importante que continuemos a celebrar o amor – não apenas o bom sentimento que ele traz,
mas também o poder real de curar todas as coisas.
No nível da verdadeira solução, o amor é a resposta para qualquer tipo de categoria da
experiência humana. De acordo com Mahatma Ghandhi, o amor pode curar todos os
relacionamentos sociais, políticos e também pessoais. Nós apenas arranhamos a superfície
do poder do amor, e, quando cavarmos fundo, vamos descobrir que ele é mais explosivo do
que uma bomba nuclear. Precisamos de uma abordagem integrada às questões mundiais,
na qual os reinos emocional, psicológico e espiritual tenham seu lugar na mesa do poder. O
próprio Jesus disse, “Amem seus inimigos, e rezem por aqueles que os amaldiçoam”. Martin
Luther King Jr disse que Mahatma Gandhi foi a primeira pessoa a trazer um amor ético, e a
transformá-lo em uma força de larga escala para o bem. E isso não é apenas “bom”, é
imperativo. King disse que chegamos ao ponto onde não existe mais uma escolha entre a
violência e a não-violência, existe uma escolha entre a violência e a não-existência.
Alguns anos atrás, fui convidada pela sra. Coretta Scott King a falar em Atlanta, na
última comemoração oficial do aniversário do seu marido. Eu era uma das últimas
palestrantes no programa. Eu me senti e escutei orador após orador falar sobre o dr. King,
como se tudo o que ele tivesse feito fosse jogar pó mágico sobre a América. O quanto ele
era ótimo, quanto a-m-o-r ele tinha espalhado! Ninguém mencionou a resistência feroz que
ele encontrou, a luta no âmago da sua jornada – uma luta pela qual ele, afinal, sacrificou sua
vida. Quando chegou minha vez de falar, eu mencionei que o amor pelo qual o dr. King tinha
vivido e morrido não era conveniente ao status quo daquela época, e que não é conveniente
agora. O dr. King não representava um amor sentimental, popular ou conveniente. O amor de
Deus, com freqüência, não é nenhuma dessas coisas. E, se formos realmente honrar a
memória do dr. King, precisamos lutar com todas as forças para fazer como ele fez –
representar o amor, mesmo em face do ridículo e do ódio.
O ego pode destruir o corpo, mas não pode destruir uma idéia. A ressurreição tanto de
Gandhi quanto de King repousa em nossa vontade de representar fortemente as idéias que
deram sentido às suas vidas. Aquelas idéias vão dar significado às nossas vidas também.
Um Curso em Milagres ensina que Deus não está procurando mártires, Ele está procurando
professores*. Com certeza, poucos de nós alcançaram um amor perfeito e incondicional, mas
a noção de que uma grande onde de amor será a salvação da raça humana é uma idéia cujo
tempo chegou. E nossa vontade de ser parte dessa onda dá um propósito transcendente às
nossas vidas. Nós não somos ingênuos em relação ao mal; não jogamos tinta rosa sobre ele
e fingimos que não existe. Nós lemos os jornais. Nós lamentamos o sofrimento, mas muitos
de nós pensam que Deus tem um plano, e acreditamos – ainda – que seu nome é amor. Não
um amor tolo. Não um amor infantil. Mas um amor poderoso, um amor tão impressionante,
tão alinhado com Deus que vai mudar todas as coisas.

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Ele vai mudar todas as coisas, tendo mudado a nós mesmos em primeiro lugar.
O dr. King enfatizou o conceito de Gandhi de que o fim é inerente aos meios: apenas se
tentarmos praticar a paz, poderemos verdadeiramente ser portadores da paz. E o universo
vai nos dar amplas oportunidades de tentar.
Conforme eu me preparava para dar aquela palestra naquele dia, vi, diante do palco,
uma convidada que eu não sabia que estaria lá: a sra. Laura Bush. Eu tinha planejado falar
sobre o que Martin Luther King Jr teria a dizer sobre as polícias militares do presidente Bush,
e, de repente, não tinha tanta certeza sobre as anotações que preparei.
Eu me senti presa entre a cruz e a espada. Eu não queria diluir minhas anotações para
me certificar de não ofender ninguém, mas também não queria envergonhar ou embaraçar a
mulher que estava sentada próxima de mim, criticando agudamente o homem que dormia
com ela todas as noites. Se eu não estivesse praticando irmandade em relação a ela, então
não estaria praticando a paz.
Eu editei um pouco meu discurso, mas não muito. E todas as vezes em que
mencionava o presidente, fazia algum comentário direto à sra. Bush sobre como nossas
orações estavam com seu marido durante essa época difícil. Tentei expressar meu
desacordo com o presidente de uma maneira que não o desonrasse pessoalmente. No final
do meu discurso, eu me virei e dei a mão para a sra. King, e depois para a sra. Bush.
Quando eu fui até a primeira dama, comecei a dizer que sentia muito se tivesse soado dura
em relação ao presidente, mas ela disse, “Shhh... você foi ótima”. Ela foi uma mulher
generosa comigo naquele dia. Ela reconheceu meu esforço para encontrar um meio termo, e
eu apreciei seu reconhecimento disso.
Inúmeras vezes, em milhares de maneiras sutis e não tão sutis, as pessoas estão
construindo pontes sobre as diferenças entre nós. Um dia, vamos olhar ao redor, e as
diferenças terão acabado – tanto em nós mesmos quanto no mundo. Teremos atravessado
para um lugar muito melhor.

Retornando à Nossa Mente Certa


Nós nascemos com um desejo natural de estender a nós mesmos em amor, e, ainda
assim, o mundo então nos treina para pensar de maneira não natural. Algumas vezes, é
preciso algo fora do comum para nos jogar de volta na nossa verdadeira realidade.
Uma vez, eu tive uma dor de cabeça terrível enquanto estava em um vôo, e, quando
desembarquei, estava me sentindo nauseada. Fiquei muito doente, aparentemente com
comida estragada. Lá estava eu, vomitando em um dos boxes do banheiro do aeroporto, e
todas aquelas mulheres que nunca tinham me visto se reuniram ao meu redor para me
ajudar. Eu mal podia acreditar – elas estavam colocando compressas úmidas em minha
nuca, ajudando-me a chegar a uma cadeira, duas delas até estavam fazendo uma oração
poderosa de cura, colocando as mãos sobre mim. Eu comecei a chorar, e não foi porque
estava doente – estava chorando porque fiquei muito tocada, tendo todas aquelas completas
estranhas cuidando de mim.
Isso me lembrou do quanto as pessoas são realmente boas. Outra vez, eu me
engasguei com uma amêndoa sem casca, e não podia respirar. Minha filha viu minha luta e
exclamou, “Minha mãe não pode respirar!”. O motorista do carro onde estávamos parou no
acostamento, e vários trabalhadores da rodovia, na estrada de Detroit, se reuniram ao meu
redor, um deles me administrando a manobra de Heimlich. Aqueles homens podem ter
salvado minha vida.
Tal compaixão espontânea surge quando as coisas acontecem tão rapidamente que os
pensamentos de medo e separação do ego são deixados de lado. Ironicamente, situações

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perigosas geralmente extraem o natural nas pessoas. Sinto que as senhoras espantosas que
puseram suas mãos sobre mim para me curar no aeroporto naquele dia, talvez não
aprovassem algumas das minhas crenças religiosas mais abrangentes; estou certa de que
os trabalhadores da rodovia e eu não teríamos nos relacionado com nossa humanidade
comum tão profundamente em outras situações. Mas, em momentos quando estamos vivos
de maneira tão pura – quando somos levados a ver, seja por que razão for, que somos a vida
e que ela, em si só, é tão preciosa, nos damos permissão para ver que somos todos irmãos,
e para nos comportarmos dessa maneira. É assim que o mundo vai ser quando nossas
mentes estiverem purificadas e nossos corações liberados para o amor.
O que aconteceu naqueles momentos, é que todos deram instintivamente a contribuição
que podiam dar. E é assim que o mundo todo pode ser curado – e será curado – quando
tivermos retornado às nossas mentes certas. Esse é o problema com o mundo de hoje: nós
literalmente não estamos em nossa mente certa. Pelo menos na América, temos permitido
um caráter competitivo, que é apropriado ao nosso sistema econômico, dominar nossas
interações sociais também. Nós temos, em muitos casos, perdido nosso senso de conexão
de comunidade, e relacionamento familiar mais amplo como filhos de um Deus. Não importa
se as pessoas vivam em uma cidade vizinha ou em um país vizinho, são nossas irmãs, e
todos nós somos igualmente preciosos aos olhos de Deus. Sabemos disso, mas agimos
desse jeito? Quando o fizermos, vamos voltar ao jardim. E não antes disso.
Todos nós estamos em um caminho espiritual, mas algumas pessoas simplesmente não
sabem disso. Todos nós, individual e coletivamente, estamos sendo forçados pelas
circunstâncias a nos lembrar de quem somos, em relação ao próprio amor. E nós vamos
aprender isso através da sabedoria, ou através da dor. Podemos abraçar a verdade da nossa
unicidade, ou podemos resistir à lição e aprendê-la mais tarde. Mas, quanto mais
esperarmos, mais caos vamos gerar.
Pelo bem de nossos filhos, que possamos aprender agora.

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CAPÍTULO QUATRO

Da Ansiedade
para a Expiação

Eu, algumas vezes vou e venho entre o pensamento de que o mundo é maravilhoso, e
o pensamento de que ele está completamente atrapalhado.
E isso, é claro, é porque ambos são verdadeiros.
De acordo com a Bíblia, depois que Deus criou o mundo, Ele olhou para ele e viu que
era bom.
“Ah, Ele fez isso, é? Bem, isso foi naquele tempo. Ele não é tão bom agora!”, eu deixo
escapar quando deixo de lado o jornal, com suas reportagens de dor e de horror.
“Seus olhos não são tão bons quanto você pensa”. Olho ao meu redor para ver quem
está falando comigo. E eu sei quem é, estou falando comigo mesma.
Olho para meu dedo que eu cortei acidentalmente três dias antes. Tiro o curativo e fico
maravilhada em ver como o corte quase desapareceu, a pele parece quase completamente
curada. Olho através da janela, e vejo os primeiros botões de flor da primavera nas árvores
lá fora. Percebo o sol passando através do vitral da janela em minha cozinha. Eu vivo com o
mesmo senso de desconexão que a maioria de nós sente, entre as glórias do amor e a
natureza, e a confusão que fizemos nesse mundo.
A cada dia, eu tenho duas escolhas: posso encarar o dia com esse enigma rolando
dentro de mim, me atraindo para a raiva e a frustração, ou eu posso tentar lidar com isso
agora, antes de sair de casa. Eu quero me elevar acima das reportagens, não porque não as
li, mas porque as compreendi à partir de uma perspectiva mais elevada. Não quero ser
fisgada por toda energia negativa vagueando ao nosso redor hoje em dia. Mas, nenhum
conceito mental pode construir a ponte para mim, do medo para o amor, e da ansiedade para
a paz.
Eu me conheço. É hora de rezar.
Vou para o meu quarto, fecho a porta, acendo uma vela com a figura da Mãe Maria.
Começo a falar com ela como se ela fosse minha terapeuta. “Eu não gosto do que acontece
com a minha personalidade cada vez que leio o jornal”, eu digo. “Eu não quero ser desse
jeito. Quero ser mais como você”.
E, então, vem o silêncio.
Minha respiração começa a ficar mais lenta, meus olhos começam a se fechar sozinhos,
e relaxo em um lugar onde posso senti-la ao meu redor. Não é que ela realmente diga algo;
ela apenas me leva de volta a um lugar natural em minha mente. Eu sei que estou indo para
casa, para um mundo mais pacífico do que o mundo exterior. E, quanto estou lá, sei que meu
trabalho é: me tornar essa paz, incorporá-la totalmente, e, então, voltar para o mundo e levá-
la comigo. Isso é o que ela gostaria que eu fizesse. E isso é o que vai curar minha dor.

A Casa de Deus
As coisas estão mudando rapidamente no mundo, e não há uma perspectiva de que
estejamos sendo guiados a uma direção mais serena muito em breve. Ficar na parte superior
das coisas nessa época tem menos a ver com dominar habilidades específicas, ou conseguir
conhecimento especifico, do que com dominar nossa própria habilidade de encontrar

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serenidade e quietude em meio às tempestades. De outro modo, seremos desviados do
nosso jogo a cada drama que o mundo tem a oferecer.
Os dramas da vida são como padrões climáticos: mudanças inevitáveis no curso da
natureza. Faz tanto sentido resistir a esses dramas quanto faria resistir ao clima. Vista-se de
acordo com ele sim, evite os elementos perigosos, obviamente, mas tentar controlar a dança
da natureza? Acho que não. Quando chove, você simplesmente vai para dentro de casa. E
assim é com Deus. Quando a vida está tempestuosa, podemos nos refugiar na Casa de
Deus.
A Casa de Deus é uma figura de linguagem que se transforma em algo muito maior do
que isso. No nível espiritual, existe uma casa e ela é nosso abrigo. “Que vocês possam
habitar na Casa do Senhor para sempre” é mais do que uma afirmação simbólica. Ela
significa que sua percepção sobre o que é real e o que não é seja baseada apenas nas
realidades eternas de Deus a cada momento. Pois, se for, você estará emocionalmente
abrigado durante as tempestades da vida. As pessoas nascem, ficam doentes, morrem,
ficam ricas, ficam pobres, casam, se divorciam, têm filhos, os filhos crescem, arranjam novos
empregos, perdem antigos empregos, os outros as abençoam, alguns as traem. E cada
mudança é um desafio para nos lembrarmos do que é o verdadeiro amor. O amor é a única
realidade absoluta, que nunca muda e nunca morre. Habitarmos no que não muda, enquanto
tudo ao nosso redor muda o tempo todo, é a chave para nossa paz interior.
Quando eu era criança, as pessoas costumavam construir abrigos contra bombas – um
esforço que hoje parece muito estranho - para tentarem se defender em caso de desastre
nuclear. Nossa urgência para irmos para o subsolo quando as coisas lá em cima se tornaram
enlouquecidas é uma resposta instintiva para as forças sempre mutáveis do mundo exterior.
E existe uma verdade espiritual correspondente. Precisamos de um abrigo para o coração, e
a Casa de Deus é o abrigo onde podemos ir todos os dias para encontrar paz.
Precisamos dessa paz porque o mundo está se movendo rápido demais agora, e o
sistema nervoso de todos é afetado pela alta velocidade das coisas. Quase todos parecem
esgotados, com se precisássemos de umas férias para podermos voltar ao normal, alguns
poucos dias para ficarmos apenas estirados na praia para restaurar nosso equilíbrio natural.
Nós fingimos que a velocidade não afeta nossos filhos, mas suspeitamos que o faça.
Permitimos que eles fiquem sentados durante horas na frente da televisão e do computador
em idade tão tenra, que seus cérebros têm que ser afetados. Eu vi uma observação escrita
por uma criança de dez anos de idade: “Eu estou teeendo um esgotamento nervoso”. Nós
claramente temos um problema aqui.
Embora as crianças estejam simplesmente nos imitando. Todos nós estamos correndo
tão rápido que talvez não possamos pensar ou sentir com o melhor de nós. A mente e o
corpo precisam de espaço vazio se a voz de Deus for emergir. E, ainda assim, mesmo que
estejamos frenéticos, acho que estamos viciados à adrenalina de nossas vidas modernas.
Continuamos indo em frente, como uma maneira de não enfrentarmos algo. Se nos
movermos rápido o suficiente, talvez nos esqueçamos o quanto estamos magoados.
Nossa dor existencial se torna comprimida, empurrada para o fundo, e, então, nos
devora por dentro. Conforme envelhecemos, começamos a desenvolver sintomas físicos de
desgaste precoce. O corpo só pode suportar alguma quantidade de estresse antes de agir
como Yertle, a Tartaruga, no fundo do poço, e gritar, “Chega, chega!”. Crises físicas, crises
emocionais, crises familiares, seja o que for... a natureza suporta demais, e então, explode.
Então, temos a pressão financeira e todos os outros tipos de pressão que vêm com o fato de
lidarmos com todas as crises criadas por termos tanta pressão, para início de conversa.
Se quisermos, podemos interromper isso. Em Deus, existe um caminho.

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O Estresse de um Coração Contraído
Em cada momento, tanto expandimos nosso coração quanto o contraímos.
Quando o coração é contraído, outras coisas se tornam contraídas também: seus
relacionamentos, sua carreira, seu dinheiro, sua saúde, sua vida.
Nós freqüentemente nos contraímos como uma resposta ao estresse, como se
estivéssemos tentando nos defender de forças próximas. Mas, na verdade, se eu me
contraio para evitar a pressão, inevitavelmente crio mais dela. Por que? Porque meu
comportamento, quando estou contraída – desagradável, estressado, irritado – provoca
situações que trazem mais estresse.
O antídoto para o estresse, ao contrário da nossa intuição, é relaxar nele. Se você tiver
filhos para criar, um trabalho a cumprir, um jornal para escrever, e duas viagens de negócios
para fazer antes da próxima semana, vai ajudar a si mesmo não se tensionando, mas se
soltando. Contrair-se não vai ajudar para que as coisas, de alguma maneira, se resolvam a
tempo. É bem o oposto: relaxe, e o tempo vai relaxar também. De acordo com Einstein, o
tempo e o espaço são ilusões da consciência. Como tudo o mais, eles são dirigidos por você.
Reconhecendo as origens do estresse à partir de uma perspectiva espiritual,
descobrimos uma chave para desmantelar os pensamentos que o produzem. O estresse é
simplesmente a conseqüência inevitável de pensar que o que é irreal é real. Nesse sentido, o
estresse é uma escolha.
Se uma questão é “do mundo”, então, atrelar a ela nosso senso de sucesso ou de
fracasso, satisfação ou falta dela, é uma questão de planejamento. Nada no mundo pode nos
dar uma paz profunda, porque o espírito não está em casa no mundo. Na medida em que
nosso senso de bem-estar estiver atrelado de qualquer forma às coisas do mundo material,
estaremos propensos à preocupação e à ansiedade.
Ainda assim, quase sentimos que temos que nos estressar quando temos tanto a fazer,
quando tanto pode acontecer, tanto a considerar o tempo todo! Isso, entretanto, é uma
brincadeira: a única razão pela qual as coisas parecem nos pressionar tanto é porque
pensamos que elas são tão pesadas.
Se nós mesmos tivéssemos que manter todas as bolas no ar, a ponto de sentir que
estamos fazendo malabarismo o tempo todo, então, teríamos muitas razões para nos
sentirmos deprimidos e assustados. Mas, na realidade, nós apenas as estamos julgando
porque pensamos que precisamos – e por causa disso, o fazemos! Uma vez que
percebamos que temos uma escolha – que o universo é tão comprimido ou solto quanto o
percebemos, que o tempo é tão limitado ou expandido quanto o percebemos, que as coisas
são tão difíceis ou fáceis conforme as percebemos – então, o estresse começa a evaporar.
Nós literalmente “iluminamos tudo”. Cada vez que pensamos, “Ah, meu Deus, eu tenho tanto
a fazer, e não sei como vou conseguir”, podemos mudar nosso pensamento. Podemos
colocar todas nossas cargas nas mãos de Deus, pedir um milagre, e agradecer a Ele em
antecipação por nos atender. Vamos deixar de ser tão tensos; vamos parar de ser tão
preocupados; vamos parar de viver a vida tão longe da alegria. O ego mentiroso vai dizer
coisas como, “Eu não posso fazer isso! Eu tenho responsabilidades!”. Ainda assim, esse é
exatamente o ponto: uma vez que tenhamos iluminado as coisas, atraímos as pessoas e
circunstâncias que vão nos prover os meios para cumprirmos a tarefa sem esforço. Não é
como se fazer milagres não fosse fazer nada.
Por que ficamos tão preocupados, afinal de contas, se os milagres estão ao alcance das
nossas mãos? Nosso próprio ser é um espaço para milagres, e, seja qual for o problema,
podemos colocá-lo nas mãos de Deus. Rezar “Deus, por favor, pegue isso” é um ato de

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força, não de fraqueza. Quem em sua mente certa não escolheria milagres ao invés do
estresse, se realmente soubesse que tinha uma escolha?
Algumas vezes, as pessoas falam sobre o “comitê” em suas cabeças, a conversa fiada
sem fim do ego que as persegue durante o dia todo. Aprendi algo sobre o comitê em minha
cabeça: aprendi que é minha responsabilidade comandar o encontro. É minha
responsabilidade pensar pensamentos positivos até que não haja espaço para todos os
negativos. Quanto eu uso um “repertório para resolver problemas” propenso aos milagres –
buscando um insight dentro de mim e não no mundo, permanecendo na fé e pedindo
milagres – paro de viver no efeito do drama do mundo. É minha responsabilidade me lembrar
do quanto sou abençoada, e estender essas bênçãos aos outros. Quando eu me lembro que
o poder de Deus é ilimitado, paro de enfatizar o quanto o meu é limitado.
Tudo está a meu cargo, porque tudo está dentro da minha cabeça.
Uma noite, eu estava passando por uma situação particularmente difícil, suportando a
tensão de uma daquelas horas desesperadoras que equivalem a um deserto espiritual.
Coisas demais haviam se acumulado, coisas com as quais eu talvez pudesse ter lidado bem
separadamente, mas a combinação delas me fez balançar. Um grande desfalque, traição
vinda de pessoas que eu pensei que fossem honradas – umas coisinhas dessas e eu estava
fora de equilíbrio. Eram quase cinco horas da manhã e eu ainda não tinha conseguido
dormir, embora não conseguisse também trabalhar, ler ou fazer qualquer outra coisa. Tudo o
que eu conseguia fazer era classificar meus desastres percebidos, e me lembro de ter dito
em voz alta, “Querido Deus, eu me sinto um fracasso”.
Cinco minutos depois, peguei um pacote que estava ao lado da minha cama. Ele tinha
chegado no dia anterior, contendo os originais do novo livro do o rabino Harold Kushner. Ele
tinha me pedido para lê-lo, e eu pensei que o faria quando pudesse. Eu o tirei da caixa, em
um esforço para sair de mim mesma, para fazer algo para outra pessoa, para tentar ir contra
a espiral de autopiedade que estava me derrubando para um poço tão escuro e doloroso.
Ao começar a ler o livro, fiquei de boca aberta. Senti que estava encontrando as
palavras de Deus. Kushner escreveu que os sentimentos de fracasso acontecem na vida de
todos nós, e que a questão é quem nos tornamos como resultado disso. Lendo suas palavras
naquela manhã, eu recebi a habilidade de situar novamente minha experiência, recompor
meus sentimentos, e de me agarrar a alguma esperança. O livro deu um senso de significado
transcendente para meu pesar; fazendo com que não apenas eu fosse capaz de finalmente
adormecer, mas também de acordar mais tarde com energia e entusiasmo.
Eu não podia acreditar que esse livro específico, com esse tema em particular,
estivesse ao lado da minha cama bem naquele momento. E, não deixei de perceber que
Harold é um rabino, trazendo-me conforto em minha própria tradição religiosa. Eu sabia que
a mudança de percepção que suas palavras tinha trazido à minha mente era
verdadeiramente um milagre. Não foi uma mudança no que aconteceu comigo: foi uma
maneira diferente de pensar sobre o que aconteceu comigo. Deus – e o rabino Kushner –
tinha me agraciado com um ponto de vista diferente.

O Conforto Vem
Poucas semanas antes de meu pai morrer, ele estava deitado em seu banco favorito de
madeira, já gravemente doente, e eu estava sentada no chão, perto dele. Ele tinha um olhar
intenso, mas sonhador em seus olhos, e disse, “Eu não tenho medo. Sei para onde estou
indo”. Eu simplesmente olhei para ele e compartilhei o momento, mas muitas vezes desde
então, desejei ter pedido mais explicações. Ele claramente percebeu uma realidade eterna
que o levaria através da morte.

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Não deveríamos precisar da morte para nos tornar mais cientes do que importa ou não,
do que é eterno e do que não é. Por que não podemos nos lembrar bem mais cedo de que o
amor é tudo o que importa, e que é tudo o que permanece? É como se, quando a morte está
próxima, recebamos uma dose livre de compreensão sagrada. Talvez, se pedirmos isso
antes, ela virá.

Querido Deus,
Que o Espírito Santo possa ofuscar minha mente,
E me dar os olhos para ver.
Que eu possa perceber o amor que eu sei que existe
E deixar o resto de lado.
Que eu possa me elevar acima da escuridão do mundo
E minha mente possa ser banhada em luz.
Que eu possa ser calmo e confortado
Pela Verdade.
Amém.

Cavando Profundamente
Sob a camada de nosso pensamento normal, repousa um nível de consciência que é
puro amor e paz. Ainda assim, não conseguimos alcançar essa consciência simplesmente
decidindo fazê-lo; temos que cavar profundamente até o fundamento de nosso ser interior,
criando um espaço para ouvirmos a “pequena e quieta voz interior que fala por Deus”.
Quanto mais coisas estiverem acontecendo do lado de fora, mais importante é encontrarmos
essa quietude interior.
Cada erro que já cometemos aconteceu porque, naquele momento, não estávamos em
contato consciente com nosso ser mais elevado. Não estávamos centrados em nosso
espírito. É por isso que fazer esse contato, e passar algum tempo todos os dias nutrindo-o, é
a coisa mais poderosa que podemos fazer.
Quantas vezes cometemos um erro que afetou o resto das nossas vidas, simplesmente
porque, naquele momento, estávamos indo rápido demais, sob o efeito do nosso estresse,
raiva ou medo? Nós teríamos cometido esse erro se tivéssemos nos lembrado, naquele
momento, quem realmente somos em um sentido espiritual, e quem os outros são em
relação a nós? À mercê de pensamentos negativos e superficiais, somos levados a perceber
a nós mesmos e aos outros de maneira incorreta.
O que acontece na vida depende de quem nós somos na vida. O que experimentamos
durante o dia tem tudo a ver com quem nós somos durante o dia. E quem eu sou durante o
dia tem tudo a ver com a maneira com a qual eu o inicio.
Cinco minutos passados com o Espírito Santo pela manhã garantem que Ele vai estar a
cargo do nosso sistema de pensamentos durante todo o dia*. Em cada momento,
escolhemos entre o amor e o medo, embora o ego fale primeiro, e mais alto. A voz por Deus
não vai se impor; ela tem que ser recebida, tem que encontrar um espaço aberto, e ser
acolhida em nossas mentes. Quando buscamos Deus e acolhemos Seu conforto no início do
dia, então, algo acontece. Não é que nos tornemos perfeitos, mas nos tornamos mais
atentos. E essa atenção nos deixa prontos para os milagres de uma maneira que não
ficaríamos se não fizéssemos isso.
A cada manhã, quando eu acordo, tento me lembrar de dar graças e agradecer.
Obrigada, Deus, por minha vida hoje. Obrigada por minha família e amigos, obrigada pelo
meu lar, obrigada por minhas muitas bênçãos. Obrigada pelo Seu poder curativo, que agora

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está se derramando sobre mim. Eu peço e rezo por milagres agora. Por favor, abençoe esse
dia, para mim e para todos. Amém.

Meditação
Além de rezar, precisamos de um tempo quieto com Deus. E esse é o propósito da
meditação. Ela é como deixar uma panela suja de molho na água com sabão. Algumas
vezes, a comida fica presa à superfície da panela, e a única maneira de limpá-la é deixá-la
de molho durante a noite. Ficando de molho, a comida ressecada se amacia e finalmente
sobe à superfície. Um tempo quieto com Deus é como um molho espiritual, no qual os
pensamentos amedrontadores que estão aderidos à superfície da mente se desprendem e,
então, finalmente, sobem e desaparecem.
Perceba que existe um momento, quando a comida começa a subir, em que a água fica
mais suja, não mais limpa. Assim também acontece durante a meditação, podemos nos
sentir mais agitados, antes de nos sentirmos mais pacíficos. Mas nos sentirmos mais
agitados é apenas um ponto do processo, que deve ser suportado até que passe.
A menos que reservemos um tempo para meditar – para permitir que a alquimia do
Espírito Santo transforme as mais profundas regiões da nossa mente – vamos carregar por
aí pensamentos baseados no medo, guiados pela culpa, como um peso espiritual sobre
nossos pescoços. Nós geralmente experimentamos os efeitos desses pensamentos como
uma ansiedade que flutua livremente, sem nem mesmo termos certeza do que está nos
deixando nervosos e deprimidos. A culpa e a acusação permearam nosso pensamento,
provocando um constante desconforto e caos emocional. A meditação é a única maneira de
nos voltarmos para as camadas mais profundas da nossa angústia, e erradicá-las.
Podemos estar andando por uma rua linda, em um dia maravilhoso de primavera,
apreciando o dia com alguém que amamos, mas, não estaremos felizes se pensamentos
perturbadores continuarem a nos distrair. A vida não é um comercial de tv, onde, se tudo
parece bom, então deve ser bom. Você pode mudar o produto que está sendo anunciado, e
tentar mudar o panorama mental, mas você também pode meditar para liberar e mudar sua
vida.
Em um dia corrido, eu só tinha tempo para dar uma rápida olhada no livro de exercícios
do Curso em Milagres antes de sair de casa. Eu li a sentença, “Minha santidade envolve tudo
o que eu vejo”. Durante aquele dia – sentada em um táxi, pedindo leite de soja, esperando
pelo elevador – eu disse a sentença para mim mesma todas as vezes em que foi possível.
Eu senti minha sensação de nervosismo diminuir ao fazer isso, e queria bater em mim
mesma por não ter reservado pelo menos cinco minutos sozinha para fazer o exercício antes
de sair de casa naquela manhã. Eu tive razões para isso, é claro – eu estava atrasada para
um encontro, e assim por diante. Mas eu sabia, em meu coração, que eu tinha mais do que
razões, eu tinha resistências. Mesmo tendo toda certeza de que essa meditação pode mudar
radicalmente meu dia, é espantoso o quanto ainda a evito. Não da maneira que costumava
fazer, mas de quando em quando. E quem quer que sua vida seja menos do que poderia de
quando em quando?
Os gurus indianos estão certos em dizer que não importando qual seja o problema, a
resposta é meditar. Eles estão certos porque, como disse Einstein, nós não vamos resolver
os problemas do mundo à partir do nível do pensamento, pois é lá que os criamos. A
meditação muda o nível do nosso pensamento, e é por isso que muda nossas vidas.
Particularmente hoje em dia, cada um de nós carrega mais preocupação e
aborrecimentos do que imagina. Eles nos bombardeiam até mesmo vindo de quase a metade
do mundo. Muito daquilo com o que pensávamos poder contar, descobrimos subitamente

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que não podíamos. Os ataques de 11 de setembro nos Estados Unidos foram um momento
para liberarmos toda nossa ansiedade coletiva. Em um dia, tudo havia mudado, e estávamos
sendo forçados a aprender uma lição profundamente espiritual: que a única segurança real
repousa em nossa força interior. Qualquer coisa pode acontecer a qualquer pessoa, a
qualquer momento. Ainda assim, nossa desilusão simplesmente significa que estávamos
trabalhando sob uma ilusão anteriormente – pensando que a segurança exterior poderia ser
garantida. Agora que nós sabemos quais casas foram construídas sobre a areia, temos a
oportunidade de reconstruí-las sobre a rocha. A cada vez que meditamos, é como se
estivéssemos criando um lugar subterrâneo seguro onde podemos nos refugiar quando os
tempos estiverem difíceis.
Em seu livro O Despertar da Alma, o filosofo Rudolf Steiner escreveu, “Aquele que quer
criar o novo precisa ser capaz de suportar a passagem do velho em total tranqüilidade”.
Quando meditamos pela manhã, estamos colocando nossas mentes, emoções e
sistemas nervosos à serviço de Deus. Estamos escolhendo não ser meramente uma mistura
de nervosismo, esforços frenéticos, imaginações vãs e medo andando por aí em um corpo, e
fingindo ser uma pessoa. O poeta Lord Byron uma vez escreveu sobre sua época, “Estamos
vivendo tempos colossais e exagerados”. E assim estamos nós. Um drama imenso está
sendo encenado na Terra hoje, e estamos escolhendo ser parte dele. Estamos assinalando
uma responsabilidade profética. Estamos pedindo para ser usados para um esforço muito
maior do que nos mesmos. Percebemos que o aparecimento dos mais sábios, mais fortes,
mais inteligentes e mais compassivos é o único fator mais importante na salvação do mundo
– e é isso que queremos ser. Mas é difícil ser qualquer uma dessas coisas se ficarmos em
cima do muro.
Muitas vezes em minhas palestras, eu ouvi uma pergunta como essa: “Eu tento tanto,
mas simplesmente não consigo encontrar a paz de Deus. Você pode me ajudar?”.
Eu respondo, “Vocês fazem uma prática séria de orações e meditação todos os dias?”
“Não”, eles dizem.
“Engraçado”, eu digo, “Eu sabia disso”.

Passando algum Tempo com Deus


O Espírito Santo responde totalmente ao nosso mais leve convite*. O problema não é
que o Espírito Santo não responde, o problema é o quão profundamente mergulhamos em
um problema antes de nos importarmos em pedir Sua ajuda. Nós temos esse hábito ridículo,
que derrota a nós mesmos, de buscarmos Deus como um último recurso, ao invés de o
chamarmos em primeiro lugar.
É por isso que a prática espiritual constante é tão importante. Precisamos de pelo
menos um lembrete diário para nos lembrar de colocar Deus em primeiro lugar. O ego é
ardiloso e insidioso; nas palavras de Sigmund Freud, “A inteligência será usada à serviço das
neuroses”. Se você pensar que é esperto demais para ter que se preocupar com o ego, terá
que se preocupar com ele ainda mais.
Se nós meditarmos de vez em quando, mas não sempre, então, vai parecer que Deus
nos ajuda algumas vezes, mas não sempre. Se rezarmos e meditarmos em alguns dias, mas
não em todos, então, vamos sentir a paz de Deus em alguns dias, mas não em todos. Se
buscarmos Deus apenas quando estamos com problemas, então, é claro, Sua ajuda vai
parecer inconsistente, embora a inconsistência esteja em nós. Quanto mais tempo
passarmos com Deus, mais desenvolveremos nossa musculatura espiritual, e mais fortes
nos tornaremos para lidar com os desafios da vida. Eu me lembro da canção lírica, “Querida,

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se você me quer mais perto de você, fique mais perto de mim”. O mesmo se aplica ao nosso
relacionamento com Deus.
A forma de nossa prática não importa. Pode ser o livro de exercícios de Um Curso em
Milagres, meditação transcendental, ou meditação budista, judaica ou cristã. O que importa é
que você pratique.
A meditação descansa a mente, assim como o sono descansa o corpo. No budismo Zen
existe o conceito da “não mente” ou “mente do iniciante”; no I Ching é dito que nossa mente
deveria ser como uma vasilha de arroz vazia. Em Um Curso em Milagres, é afirmado,
“Esqueça tuas idéias sobre o bem e o mal, esqueça tuas idéias sobre o certo e o errado,
esqueça esse Curso, e vá, de mãos vazias, ao teu Deus”. A idéia de esvaziar a própria
mente é fundamental para todas as práticas meditativas. Uma vez que tenhamos entregado
nosso pensamento insignificante, a verdade de Deus pode se mover para dentro desse
vácuo. Nós substituímos nossa mente pela Mente Dele e, portanto, nos tornamos um.
Cinco minutos durante a manhã é melhor do que nada. Trinta minutos provêem um
apoio espiritual sério. Não meditar nada? Espere que o estresse continue.
Você pode fazer outra escolha: escolha fechar seus olhos, inspirar em quietude,
entregar tudo...
Isso é do livro de exercícios do Um Curso em Milagres:

Cinco minutos agora é o mínimo que damos à preparação para um dia no qual a
salvação é o único objetivo que temos. Dez seriam melhor; quinze, ainda melhor. E,
conforme a distração cessar de aparecer para nos tirar do nosso propósito, vamos descobrir
que meia hora é muito pouco tempo para passarmos com Deus.
Cada hora acrescenta à nossa paz crescente, conforme nos lembramos de sermos fiéis
à Vontade que compartilhamos com Deus. Algumas vezes, talvez, um minuto ou até menos,
será o máximo que poderemos ofertar conforme cada hora soa. Algumas vezes, vamos nos
esquecer. Em outras ocasiões, os negócios do mundo vão se fechar ao redor de nós, e
seremos incapazes de nos afastarmos um pouco, e de voltar nossos pensamentos para
Deus.
... E nós vamos nos sentar quietamente e esperar por Ele, e ouvir a Sua Voz, e
aprender o que Ele quer que façamos na próxima hora que virá, enquanto agradecemos a
Ele por todas as dádivas que Ele nos deu no minuto que passou.
Em tempo, com a prática, tu nunca vais deixar de pensar Nele, de ouvir Sua voz
amorosa guiando teus passos de maneiras quietas, onde tu andarás em total ausência de
defesas. Pois tu saberás que o Céu vai contigo. Nem tu vais manter tua mente afastada Dele
por um momento que seja...
Tua prática agora vai começar a assumir a dedicação do amor, para ajudar-te a manter
tua mente à parte de divagações sobre seu intento. Não tenhas medo ou seja tímido. Não
pode existir dúvida de que tu vais atingir teu objetivo final*.

Se Você Fizer, Vai Funcionar


Compreender intelectualmente os princípios espirituais não garante iluminação, e o ego
adora usar a religião e a espiritualidade como uma cobertura.
Um momento de consciência iluminada não transforma completamente sua vida. O
caminho espiritual é lento e árduo de vez em quando, conforme cada circunstância se torna o
solo onde tanto o ego quanto o espírito buscam firmar sua posição. A prática espiritual é
como o exercício físico: ela tem um efeito cumulativo, e, se quisermos apreciar seus
benefícios, nunca podemos parar de fazê-la. Você não pode ir à academia uma única vez e

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sair de lá com um corpo novo, e nem participar de um seminário, fazer uma oração, ou
cantar uma vez aleluia e esperar que sua vida seja perfeita daí por diante.
A mente, assim como o corpo, requer treinamento se for para funcionar em sua
capacidade máxima. É por isso que alguns de nós vamos às academias ou fazem yoga
regularmente. Em um mundo onde os pensamentos baseados no medo prevalecem, você
estará indo contra o fluxo para firmar sua posição pelo amor de maneira firme e genuína.
Não é fácil subir dois lances de escadas quando você não está em boa forma física, e não é
fácil firmar uma posição impopular pela fé e pelo perdão quando você não está em boa forma
espiritual.
Se formos provocar uma mudança do mundo para o mundo que poderia ser, é
exatamente essa posição que é necessária. Não há nada espiritual sobre evitar os
problemas do mundo. Nosso objetivo não é evitar o mundo, mas curá-lo. Ainda assim, não
podemos dar ao mundo o que nós mesmos ainda não temos; as dádivas do espírito só
podem ser dadas por aqueles que estão tentando incorporá-las. É por isso que, como disse
Gandhi, precisamos ser a mudança que queremos ver acontecer no mundo. A paz tem que
começar em nossas próprias vidas, e se espalhar para fora para curar os outros, conforme
interagimos com eles de maneira amorosa.

A Expiação
A Expiação é o ponto crucial da prática espiritual; ela é o processo corretivo através do
qual nossos pensamentos são transportados pelo Espírito Santo de onde têm estado para
onde deveriam estar. Mas Ele não pode entrar onde não foi convidado, pois isso seria uma
violação de nosso livre-arbítrio. Ele não pode tirar de nós o que não queremos entregar a
Ele*.
Para expiar, precisamos querer olhar honestamente para os pensamentos que temos e
para as coisas que fizemos, ainda que elas não sejam divertidas de se ver. Precisamos estar
dispostos a nos recolher, a admitir onde tivemos um pensamento errado, um ato ou uma
palavra. A razão de “expiarmos” para Deus, ao invés de pedir Seu perdão é porque Deus
nunca nos julgou. Nós expiamos, não porque Deus está irado, mas porque mesmo Ele não
vai violar Sua lei de Causa e Efeito.
Martin Luther King Jr costumava dizer que, embora o movimento não violento seja
materialmente passivo, ele é espiritualmente ativo. Uma vez que o nível de consciência é o
verdadeiro nível da causa, então, você pode, algumas vezes, fazer mais para mover
montanhas ficando sentado em sua poltrona, do que correndo ao redor dela ou até mesmo a
escalando. O que nós movemos no nível da consciência é movido dentro da Mente de Deus.
A Expiação é a maior dádiva de Deus, permitindo que nós voltemos para os trilhos,
quando tivermos saído deles. Praticada pelos católicos na confissão, e pelos judeus no Dia
da Expiação (Yom Kippur), a Expiação por nossos pecados é o ato que reconcilia o Criador e
a criação. É preciso trabalhar para assumirmos a responsabilidade total pelos erros que
cometemos, os expiarmos, e tentarmos fazer a coisa certa. Mas, é o trabalho que Deus
gostaria que fizéssemos.
“A primeira responsabilidade do trabalhador de milagres é aceitar a Expiação para si
mesmo”*. A Expiação é, em primeiro lugar e acima de tudo, uma correção em nosso
pensamento, um retorno piedoso para o amor em nossos corações. Então, podemos ou não
tomar uma atitude direta; se houver algo que precisemos fazer, Ele nos dirá*.
Quando cometemos um erro, o universo o testemunha, mas Deus quer que nós
expiemos nossos erros, não que soframos por eles. Somos solicitados, da maneira que for
apropriada e possível, a fazer correções em nosso comportamento propenso ao erro. Deus

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mandou o Espírito Santo para nos corrigir quando precisarmos de correção, e, através da
Expiação, Ele nos dá a chance de começarmos novamente, não importando o quanto
tenhamos estado distantes da verdade em nossos corações. Nossa habilidade de começar
de novo é apoiada pelo próprio Deus, tão logo nos aproximamos Dele com um coração
contrito e humilde. Nada em nosso passado deprecia as possibilidades infinitas inerentes ao
nosso presente, tão logo expiemos nossos erros e voltemos ao amor.
A consciência é importante, assim como os remorsos, mas eles estão destinados a nos
levar a uma nova vida, não nos deixando mergulhar em um mar de culpa. Quando
escolhemos o medo ao invés do amor – e quem entre nós não fez isso? – então, o amor que
deveríamos ter escolhido “é mantido em confiança para nós pelo Espírito Santo” até que
estejamos prontos para recebê-lo*. Para mim, esse é um dos princípios mais incríveis de Um
Curso em Milagres. É espantoso quando você pensa sobre isso: eu poderia ter dito ou feito a
coisa certa, amorosa, e, se tivesse feito isso, então, tal e tal coisa não teria acontecido.
Entretanto, eu não o fiz. Eu fui treinada pelo mundo para pensar com medo, e eu fiz isso.
Ainda assim, Deus guardou a possibilidade que eu joguei fora, até que eu esteja pronta para
retornar ao amor e escolher novamente!
Quanto amor e misericórdia têm que ter sido construídos na estrutura do universo para
que isso seja assim! Tão logo expiemos um erro, vamos receber a chance de corrigi-lo. Essa
chance pode não vir na forma que desejaríamos, mas ela estará lá, na forma que Deus
determina.
Um dia, eu ouvi falar sobre uma mulher que eu conhecera vários anos antes. Ela tinha,
subitamente, parado de falar comigo, e eu não sabia porque.
Então, eu pensei sobre isso, e entendi o motivo.
Eu havia feito um comentário sobre ela que provavelmente havia chegado aos seus
ouvidos. Não é um comentário malévolo ou cruel, mas também não era agradável. Eu o
colocaria na categoria de inconsciente e indelicado.
Então, aqui estava eu, mais de dez anos depois, e ela tinha feito algo realmente
maravilhoso. Eu queria cumprimentá-la, e também queria dizer o quanto sentia ter feito um
comentário tão mal-intencionado há tantos anos, e pedir seu perdão. Eu não sabia seu
endereço, ou se ela iria ler minha carta, mas, em meu coração, eu fiz a expiação. Eu
realmente compreendi que eu tinha sido menos do que a pessoa que deveria ter sido, e
estava ansiosa para corrigir isso.
No dia seguinte, eu recebi um telefonema de um repórter de um grande jornal europeu.
Eles estavam escrevendo um artigo sobre ela, e pediam minha opinião. Eu tive a
oportunidade de falar repetidamente sobre o quanto ela é maravilhosa, que boas coisas tinha
feito – em um local onde eu poderia ter certeza de que chegaria aos seus olhos.
Sincronicidade é a caligrafia de Deus: assim que eu expiei, todo o universo foi programado
para perceber minha percepção corrigida.
Quando nosso pensamento é corrigido, então, nosso mundo também é. Nós somos
punidos, não pelos nossos pecados, mas através deles. E, através da oração, eles são
transformados.
“A oração é o meio dos milagres... Através da oração, o amor é recebido, e, através dos
milagres, o amor é expresso*”. Se você quiser um milagre em sua vida, simplesmente reze
por um, pois, desde que você queira mudar sua mente, Deus vai mudar sua vida.

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CAPÍTULO CINCO

De Pedir a Deus para Mudar o Mundo


para Rezar para que Ele nos Transforme

Jesus disse, “Tenham bom ânimo”, o que é certamente positivo. Mas, então, ele
acrescentou, “pois eu venci o mundo”. Ele não disse, “Eu consertei o mundo”, mas, ao invés
disso, “Eu venci o mundo”. A diferença entre consertar o mundo e vencê-lo é imensa. O
problema que a maioria de nós tem é que tentamos consertar ao invés de vencer, e é por
isso que nunca encontramos esse bom ânimo.
Tentar consertar o mundo é como tentar mudar um filme manipulando a tela de
projeção. O mundo como o conhecemos é simplesmente a tela na qual projetamos nossos
pensamentos. Até que mudemos esses pensamentos, o filme permanece o mesmo.
Se quisermos que nossas vidas mudem, não nos faz bem algum simplesmente nos
mudarmos de cidade para cidade, de emprego para emprego, ou de relacionamento para
relacionamento. Onde quer que formos, como se diz, levamos a nós mesmos conosco. Nós
nos manifestamos nem tanto de acordo com a geografia quanto de acordo com a
consciência. Podemos viajar muito, mas isso por si só não vai provocar mudanças
fundamentais em nós. Para que nossas vidas mudem, precisamos viajar profundamente para
dentro de nós.
A verdade é que nossa felicidade fundamental não deriva de nada que aconteça no
mundo material, mas do amor. Certamente, existem algumas experiências maravilhosas para
termos no mundo material, e não há nada errado em apreciá-las ao máximo. O mundo em si
mesmo é neutro; se algo do plano material vai poder ser considerado santo ou não, é
determinado pelos propósitos que nossas mentes atribuem a ele*. Aquilo que é usado pelo
Espírito Santo para os propósitos da cura genuína é santo; aquilo que é usado pelo ego para
os propósitos da separação não é. O próprio corpo pode ser uma “lição linda sobre
comunhão, até que a comunhão aconteça”*. Onde existir amor, existe Deus.
Mas, nós não podemos apreciar o plano material se estivermos excessivamente
apegados a ele; o segredo da felicidade repousa em saber que estamos no mundo, mas não
somos desse mundo. Essa compreensão – mantendo nossos pensamentos no amor,
enquanto temos nossos pés plantados totalmente na Terra - é a interseção entre o céu e a
terra. E esse ponto de interseção é o que nós somos. É nossa própria missão viver na Terra
enquanto temos apenas pensamentos celestiais, e quando o fizermos, o poder do ponto de
interseção entre o homem e Deus (simbolizado visualmente tanto na cruz quanto na Estrela
de David) vencerá qualquer força negativa. Essa é a conquista à qual Jesus se referiu e que
ele mesmo incorporou.
Na Bíblia, é dito que o Espírito Santo vai nos dar uma nova mente. E quem entre nós
não pode usar isso? É inútil pedir a Deus para mudar nosso mundo uma vez que
reconheçamos que o mundo é meramente o reflexo dos nossos pensamentos. Devemos
rezar pela cura das nossas mentes.
É impossível ter uma vida nova quando sua mente está tocando fitas velhas. Vezes sem
conta, nós destruímos uma relação exatamente no mesmo ponto, ou sabotamos um esforço
profissional exatamente da mesma maneira. Ainda assim, nos sentimos impotentes para

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interromper nosso comportamento autodestrutivo. Qual é o sentido de atrairmos uma
oportunidade, se vamos arruiná-la de qualquer maneira?
Nós pagamos um alto preço por nos recusarmos a aceitar a parte que desempenhamos
em provocar nossos próprios problemas; se eu não perceber que eu o estou causando,
então, não posso ver que posso mudá-lo!*. Mas, uma vez que eu queira assumir a
responsabilidade total por minha própria experiência, posso ver o valor de convidar o Espírito
Santo para entrar em minha mente e preenchê-la com Seu espírito. A consciência precede a
forma, e a forma perfeita aflora de uma consciência de amor total.
O amor total parece uma coisa muito difícil até que consideramos que sua realidade é o
que nós somos. Então, onde está a desconexão? Nós perguntamos, “Se eu sou amor, e o
amor cria milagres, então, porque minha está tão confusa?”.
Em um certo nível, não é nossa realidade divina que é a questão – a questão é quanto
dessa realidade nós nos permitimos experimentar e expressar. Na introdução de Um Curso
em Milagres é afirmado, “O curso não tem por objetivo ensinar o significado do amor, pois
isso está além do que pode ser ensinado. Ele objetiva, contudo, remover os bloqueios à
consciência da presença do amor, que é a tua herança natural”. O amor está ao nosso redor,
mas temos o hábito mental e emocional de desviá-lo.
Com cada atitude de ataque ou defesa, nós mandamos o amor embora. Com cada
percepção da culpa de alguém, dizemos ao amor para partir. Com cada pensamento de
possibilidade limitada, dizemos aos milagres que não os queremos. E, então, nos
espantamos de estarmos deprimidos.
Para tratar a depressão, precisamos nos perguntar questões essenciais: O que estou
fazendo, ou não estou fazendo, para permitir que o medo, ao invés do amor, prevaleça aqui?
Quem estou atacando ou não perdoando? O que eu não estou dando nessa situação? Nós
condescendemos em nossos medos como se estivéssemos sendo fortes ao fazer isso,
“honestamente” de uma maneira que nos torna mais “reais”. Mas o que é tão real sobre
representar a fraqueza, ao invés da força? Algumas vezes, precisamos dizer aos nossos
medos para irem para o inferno, que é literalmente de onde eles vieram.
O ego é apoiado pelo peso de todo um sistema de pensamento, constantemente nos
iludindo para longe do amor e da ausência de limites, para o medo e a escassez. Ele é um
capataz cruel, e mantém nossos corações – até mesmo todo nosso planeta – em suas
garras. E, algumas pessoas prefeririam morrer a mudar suas mentes*.
A transformação da Terra vai precisar de mais do que decisão intelectual. O ego é um
vício mental para o pensamento do medo, e apenas a experiência espiritual pode interromper
um vício. Se quisermos que nossas vidas e nosso mundo sejam genuinamente
transformados, precisamos de uma experiência espiritual para fazer com que isso aconteça.
E, para termos essa experiência, precisamos abrir nossos corações para recebê-la.

Confiando no Processo
Se você não souber que existe uma força lá fora trabalhando por você, então, por que
pensaria em confiar nela? Com todos os milhares de igrejas, mesquitas, templos e santuários
que existem no mundo, quantas pessoas realmente pensam que o Deus que criou a lua e as
estrelas realmente está olhando por elas? Ainda assim, não existe uma unidade de tempo ou
espaço, nenhum elemento da vida, sobre o qual o Autor de Todas as coisas não esteja
ativamente consciente. Ele ama você porque Ele ama a tudo e a todos. Ele, que é Amor, não
pode não amar.
Que pensamento espantoso, que o bem em contínua expansão é realmente a ordem
natural do universo. E nós fomos criados para apreciá-lo. Para o ego, essa é uma noção

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ridícula; ele quer nos fazer acreditar que a alegria é algo para ser graciosamente superado
conforme nos tornamos adultos. Mas olhe para as crianças, brincando alegremente; nós
sabemos algo que elas não sabem, ou talvez elas saibam algo de que nos esquecemos? Ao
ouvir minha filha adolescente falar sobre amor e relacionamentos, eu me lembro de como
isso foi para mim na idade dela. Eu não olho para minhas primeiras incursões no romance e
penso, “Ah, mas era apenas um amor adolescente”. Ao invés disso, olho para trás e penso
como amávamos corajosamente antes de sabermos o que havia para ser temido; como nós
éramos fortes, antes que outros compromissos ficassem no caminho do nosso amor; e como
nossos corações eram puros, quando ainda não tinham sido tocados pelo cinismo ou pela
dúvida. Quanto mais velhos ficamos, mais sabemos algumas coisas; quanto mais jovens
somos, mais conhecemos os outros. A idade apenas nos torna mais espertos se retivermos
nossa bravura.
A iluminação não é um aprendizado, mas um desaprender, um deixar ir todos os medos
que reunimos ao nosso redor, conforme andamos pelos caminhos da vida. Como é ensinado
no Um Curso em Milagres, “milagres são o direito de todos, mas primeiro é necessária uma
purificação”*. A purificação é o processo pelo qual tudo menos o amor se dissolve em nossa
mente. Conforme nós soltamos as camadas do medo e da ilusão que se enrijeceram ao
redor da nossa psique, ficamos com o amor com o qual fomos dotados em nossa criação.
Assim como as células embrionárias são programadas para se desenvolverem em um
bebê, cada um de nós é programado para desenvolver uma vida mais magnífica. Uma mão
invisível guia o embrião e guia você e eu também. Mas, ao contrário dos embriões, você e eu
podemos recusá-la. Deus não nos criou como bebês e então, simplesmente nos jogou aqui e
disse, “Certo, criança, agora você está por sua conta”. Mas como podemos saber disso, se
não fomos ensinados a ouvir nossos corações? Como podemos “ir com o fluxo” se não
sabemos que esse fluxo existe? E, então, ficamos andando por aí dizendo, “Não” para a vida
e, depois, imaginando porque a vida parece estar dizendo “Não” para nós.

O Médico Divino
Deus conhece nossas partes tortuosas que precisam ser corrigidas, as mágoas em
nossos corações que supuram dentro de nós durante anos, não curadas, as partes
quebradas de nossas vidas que precisam de reparo. E Ele, que é o Autor dos milagres, tem
um desejo infinito assim como o poder de curar tudo isso.
Então, se esse é o caso, porque tanta dor? Poderia ser que o médico tenha o remédio e
o paciente se recuse a tomá-lo? De acordo com Um Curso em Milagres, Deus não pode tirar
de nós o que não entregarmos a ele. Não é suficiente para entender seu problema, dizer,
“Minha mãe fez com que eu me sentisse inseguro quando eu era criança, então, é por isso
que eu reajo dessa forma”. Ao invés disso, precisamos dizer “Querido Deus, eu sei que reajo
dessa forma. Por favor, mude-me”. E essa é uma diferença importante.
Em um certo ponto, realmente não importa tanto como nos tornamos de uma certa
maneira. Até que admitamos nossos defeitos de caráter – e assumamos a responsabilidade
pelo fato de que não importando onde os tenhamos conseguido, eles são nossos agora – o
próprio Deus não tem poder de curá-los. Podemos conversar durante horas com um
terapeuta sobre como nosso relacionamento com papai ou com mamãe nos fez desenvolver
uma certa característica comportamental, mas isso por si só não vai fazer com que ela vá
embora. Nomeando-a, entregando-a a Deus, e pedindo a Ele que a remova – esse é o
milagre da transformação pessoal. Ela não vai ir embora em um momento, necessariamente,
mas seus dias estarão contados. O remédio está em nossa circulação sangüínea psíquica.

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Algumas vezes, portanto, o processo de cura envolve darmos uma boa olhada no
espelho antes de podermos fazer qualquer outra coisa. Você pode rezar por uma situação
profissional melhor, e a próxima coisa que você fica sabendo é que, ainda assim, vai
experimentar seu maior desastre profissional. Pode parecer que, quando você reza as coisas
apenas ficam piores, mas o que realmente acontece é que você foi impelido
subconscientemente a criar uma situação na qual sua própria fraqueza foi exibida, ampliada
o suficiente para que você pudesse olhar bem para ela. As coisas, na verdade, não ficaram
piores; você simplesmente não está mais anestesiado para sua própria experiência, e para a
parte que desempenhou em criá-la*.
Vamos dizer que você finalmente conseguiu o emprego pelo qual você esteve rezando,
entretanto, algumas semanas após começar a trabalhar, você começa a exibir o mesmo
comportamento de auto-sabotagem que o atrapalhou antes. Em primeiro lugar, você pensa,
“Ah, não, isso não é um milagre! É terrível!”. Mas, quando você percebe, “Ah, puxa, entendi.
O milagre é que eu tenho uma chance, bem aqui e agora, de escolher novamente, de olhar
para o mesmo ponto que eu destruí antes, e fazer as coisas de outra maneira. Eu posso
rezar pedindo ajuda para me tornar a pessoa que vai lidar com essa situação com
serenidade e graça”. Deus não nos ajuda a evitar as nossas questões; Ele transforma as
nossas questões.
Nesse sentido, quando estamos no meio da transformação espiritual, as coisas
geralmente parecem ter piorado antes de melhorarem. Nós geralmente temos que olhar para
o que odiamos em nós mesmos antes de podermos ver o quanto há para amar ali. Existe um
“anel de medo” ao redor da luz dentro de nós, através do qual o ego busca bloquear nossa
entrada no céu interior*.
E é por isso que empurramos tantas questões para o fundo da gaveta, para início de
conversa: para não termos que enfrentar a dor do genuíno auto-exame. Temos medo de uma
feiúra que sentimos estar espreitando dentro de nós, mas, na verdade, o que tememos é um
ser ilusório. Essa ilusão exsuda uma toxidade contínua se permanecer no escuro, embora
desapareça se for exposta à luz. O ego é dissipado até à inexistência quando o entregamos
nas mãos de Deus.
O ego não está onde somos maus, mas onde estamos magoados. Ainda assim, não
queremos olhar de frente para nossas mágoas – muito menos deixar que Deus olhe conosco
– porque estamos envergonhados do sangue coagulado que acompanha uma ferida
emocional. Nossas feridas emocionais e psicológicas geralmente aparecem não como
lugares onde estamos feridos, mas, ao invés disso, como lugares onde somos culpados.
Nossas feridas emocionais assumem a forma de defeitos de caráter.
Embora possamos ter tido uma infância magoada, que provocou o início de um padrão
negativo inicial, esse fato não é necessariamente óbvio para os outros. Apenas para os que
são propensos aos milagres, nosso comportamento diz “Eu fui magoado quando era criança.
Tenha compaixão”. Nós todos estamos envolvidos na mesma matriz ilusória do ego – não
nos focalizando nas mágoas uns dos outros, porque elas não aparecem na superfície, mas
nas faltas uns dos outros, porque elas aparecem.
Então, nós geralmente tentamos esconder quem somos, ao invés de curar quem
somos. Temos medo de que, se mostrarmos nossos verdadeiros seres, algo muito feio vai
aparecer. Apenas quando percebemos Quem vive dentro de nós, vemos que apenas a
beleza vai aparecer. Enquanto isso, nossas feridas se inflamam, sem cuidados, até que as
entreguemos à ajuda divina. Nossa negação, ou falta de vontade de olhar profundamente
para nossas próprias questões, reflete uma esperança ingênua de que, se não olharmos
para nossas feridas, elas irão embora por si mesmas. É preciso coragem emocional para

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olhar profundamente dentro de nós mesmos, e encararmos o que está lá. Até que o façamos,
entretanto, o remédio de Deus não pode nos curar.
Até que você entenda que Deus é seu curador, e não seu juiz, é improvável que vá até
Ele com sua dor. Entendemos que precisamos tirar nossas roupas se o médico precisa nos
examinar, mas temos medo de nos apresentar nus diante de Deus. Até que façamos a
mudança de uma noção de um Deus raivoso e julgador, para um totalmente compassivo e
clemente, estamos destinados a ter um relacionamento ambivalente com Ele. Por que
iríamos querer admitir nossos erros para alguém que pensamos que vai nos julgar por eles?
Nós criamos um Deus à nossa própria imagem: raivoso e julgador porque nós somos
assim. O próprio Deus é compassivo e todo amoroso, mas temos projetado Nele o nosso
medo. Isso nos separa do Seu amor, da Sua cura, e uns dos outros. Quando mudamos
nossa percepção de um Deus de ira pra um Deus de misericórdia, vamos perceber que Deus
é um médico divino. Nossa dor é a dor do inferno, ou da separação do amor. Não é Deus
que nos manda para o inferno por sermos maus. O inferno é quando você pensa que é uma
pessoa terrível, e que nunca vai fazer nada certo; Deus é Aquele que lembra a você a
inocência na qual você foi criado, e para a qual Ele vai ajudá-lo a voltar. O inferno é quando
você sente que é um fracasso completo e absoluto, que nunca vai ter sucesso; Deus é
Aquele que lembra a você que Ele vive dentro de você, e que, Nele, todas as coisas são
possíveis. O inferno é quando você pensa que nunca vai escapar dos seus erros passados;
Deus é Aquele que torna todas as coisas novas. É o ego – não Deus – que nos joga no “fogo
do inferno”. É Deus que nos eleva acima dele.

Tomando nosso Remédio


Deus nos conhece como Ele nos criou – perfeitos e inocentes, agora e para sempre*.
Nossos erros não mudam nossa essência eterna, e é isso que o Pai conhece e ama. Nossa
oração pela cura, pela expiação, pela correção, é uma oração para sermos curados de nosso
próprio esquecimento. Rezamos para sermos lembrados de quem realmente somos, para
que nossos pensamentos e comportamento não reflitam mais uma dissociação do nosso ser
divino.
Podemos rezar antes de cada dia, de cada reunião, de cada encontro para que
estejamos no nosso melhor – que não sejamos tirados do equilíbrio pelo medo e pelo ego. E,
depois de tudo, podemos entregar cada aspecto do que acontece – o que sentimos, o que
fizemos, aquilo de que nos envergonhamos, aquilo de que temos raiva ou esperança.
Não podemos consertar a nós mesmos, e não temos que fazê-lo. Quando desejamos
nos abrir completamente para Deus, mostrando a Ele nossa escuridão assim como nossa
luz, Seu espírito entra em nós, em níveis mais profundos do que qualquer força mundial
poderia penetrar. Então, e apenas então, somos mudados nos níveis causais da consciência,
genuinamente liberados dos padrões que nos mantiveram presos.
Nós não gostamos quando um médico entra apressado para um consulta, gasta cinco
minutos conosco, e então, corre para fora. Como ele ou ela poderia entender nossa situação,
as nuances sutis da nossa situação difícil? Ainda assim, corremos para dentro e para fora de
uma consulta com o médico divino o tempo todo. Nós mergulhamos em uma oração aqui, em
um pouco de meditação lá. Lemos um livro de poemas ou citações inspiradores.
Participamos de seminários ou vamos a retiros de fim-de-semana. Mas apenas uma
mudança contínua na maneira de pensar é suficiente para nos garantir uma cura espiritual.
Não é suficiente chegarmos nus a Deus apenas de vez em quando. Precisamos nos
apresentar de maneira autêntica a Ele não apenas algumas vezes, mas o tempo todo; não
apenas a cada hora, mas a cada momento de cada dia. Podemos abrir tanto nossos

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corações que todos os nossos medos vão se dissolver. Nós podemos viver em uma
comunhão contínua com Deus, na qual cada percepção, cada coisa possível, é
constantemente entregue à Sua bênção e revisão. E, quando estivermos tão radicalmente
disponíveis para Ele, vamos descobri-Lo radicalmente disponível para nós.

Misericórdia
Algumas vezes, caminhamos bem próximos de Deus, e em outras, corremos para o
outro lado do universo. Quem entre nós já não pegou alguns atalhos para o medo?*
Ainda assim, quando fazemos isso, e depois voltamos para o amor, aprendemos, entre
outras coisas, o quanto Deus é misericordioso. Existem certas palavras que você não pode
verdadeiramente entender até que realmente as experiencie. E a misericórdia é uma delas.
Quando eu era jovem, o conceito da misericórdia de Deus significava pouco para mim;
eu achava que isso significava que Ele era “legal”. Mas agora, eu tenho uma apreciação pelo
conceito que nunca poderia ter tido antes; geralmente temos que ter vivido um pouco antes
de compreendermos o significado do arrependimento verdadeiro. Mas eu descobri que Ele
apenas continua usando nossos erros, assim como nossos acertos, para nos transformar na
pessoa que Ele tem em mente que sejamos.
A misericórdia de Deus é um poder ativo. Seus anjos, tanto os visíveis quanto os
invisíveis, estão presentes em cada passo de nossa jornada, se estendendo para nós
conforme nos estendemos para eles. Sempre que estivermos receptivos à Sua cura, Ela
estará à caminho; Deus fará Sua parte se fizermos a nossa. Conforme admitimos a natureza
exata de nossos erros, fazendo acertos sempre que possível, conforme expiamos e pedimos
a Deus para remover todos os nossos defeitos de caráter, conforme abrimos nossos
corações para receber Seu conforto diário e permitir que Ele nos use para trazer conforto aos
outros, conforme procuramos, através da oração e da meditação, tanto conhecer Sua
vontade para nós quanto cumprir Sua vontade para nós, um processo milagroso acontece
dentro de nós. Nós somos elevados da fraqueza para a força, da falta para a abundância, da
dor para a paz, do medo para o amor. Nada disso acontece em um instante, mas com o
tempo, através do processo diário de viver. Em cada canto escuro – emocional, psicológico,
espiritual, físico – Ele manda Sua luz para substituir toda escuridão.
E, portanto, somos redimidos. Não existe situação que possa atar Suas mãos. E não
existe nenhuma pessoa na qual Ele não esteja interessado, ou para quem Ele não tenha um
plano para sua cura. O mundo como o conhecemos pode ser cruel até, mas o poder
redentor, todo amoroso de Deus está presente na própria natureza das coisas.

Redenção
Uma vez, falei em um seminário para mulheres que estavam sob sursis ou condicional
no sistema de justiça federal. Muitas tinham passado algum tempo – algumas um longo
tempo – na prisão. Todas elas estavam desesperadas para levar um tipo novo e diferente de
vida, e vieram ao seminário com a esperança de aprender como. Antes que eu começasse a
falar, uma mulher que estava em liberdade condicional, e se saindo muito bem, contou sua
história. Eu fiquei fascinada com sua fala, que era uma história profunda e atraente de
redenção.
Michelle tinha passado cinco anos na prisão por um crime relacionado a drogas, e, na
época da sua sentença, seu filho de quatro anos foi levado para viver com seus pais idosos.
Quando ela foi solta, ela tinha um filho e muito pouco além disso. Através de um
companheirismo anônimo e a orientação de seu oficial da condicional, ela aprendeu, lenta e
meticulosamente, como colocar um pé diante do outro, e construir uma nova vida. Suas lutas

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– o fato de que os únicos tipos de emprego que ela podia encontrar inicialmente eram os que
pagavam menos, aqueles onde ela era tratada miseravelmente, a rejeição inicial de
empregadores em potencial quando eles diziam no seu requerimento que ela era uma ré
condenada, ela ter que aprender a controlar sua raiva, suas dificuldades com um filho jovem
e raivoso – foram todas enfrentadas com uma profunda compreensão de que, através da
graça de Deus, e um dia de cada vez, ela poderia continuar sóbria, ela poderia construir uma
vida nova para si mesma, e ela poderia evitar voltar para a prisão. Com o tempo, ela entrou
na faculdade, aprendeu como ter sucesso como uma aluna, se formou, e, então, recebeu seu
diploma de assistente social. Conforme ela compartilhou sua esperança e força com outras
mulheres que estavam magoadas em suas almas da mesma maneira que ela já tinha estado,
a luz de Deus, que tão claramente a abençoara, se estendeu através dela para tocá-las
também.
Michelle sofreu imensamente por seus erros, mas ela experimentou a misericórdia de
Deus, e pode ser uma testemunha disso agora para as vidas de outras pessoas. Algumas
vezes, Ele usa nosso sofrimento para nos lapidar, conforme ele nos torna mais humildes,
mais contritos, e mais abertos para a orientação que recusamos antes. Algumas vezes,
emergimos para o outro lado de um tempo difícil com um conhecimento interior, algum
sentido da alma que não tínhamos antes. Algumas vezes, o fogo que atravessamos se torna
nosso agente purificador, permitindo que o milagre que Deus planejou para nós tome conta
de nossos corações e nos torne novos.
E, então, é possível que as coisas que mais nos magoam sejam, na verdade, o trabalho
do amor de Deus – como uma operação que um médico faz para nos salvar? Algumas
vezes, as experiências difíceis têm o efeito de uma tempestade. Depois de tudo, vemos uma
beleza no céu e uma limpidez no ar que não estavam lá antes. O que era caótico naquele
momento, teve um efeito salutar no final das contas. E algumas vezes, quando realmente
somos afortunados, olhamos para o céu e vemos um arco-íris. Isso não poderia ter
acontecido sem a chuva.

Tornando-nos Receptivos ao Ensino


Nosso trabalho não é determinar o significado da vida, mas discernir seu significado.
Com freqüência, tentamos dizer à vida o que ela significa, quando seria melhor permitir que a
vida nos mostre seu significado*. Quando Jesus disse que deveríamos ser como criancinhas,
foi porque criancinhas sabem que não sabem*. Saímos por aí pensando, ou pelo menos
fingindo, que sabemos o significado das coisas, quando, na verdade, a mente mortal não tem
base para um conhecimento real. Criancinhas esperam que alguém mais velho e mais sábio
explique as coisas para elas; nós podemos ter o mesmo relacionamento com Deus.
Existe uma maneira de relaxarmos em nosso centro, trabalhando muito menos,
deixando que as outras pessoas falem o que quiserem, sabendo que nosso ser é ainda mais
radiante de vez em quando, quando estamos em um espaço de não-fazer. Quando o ego dá
um passo atrás, o poder de Deus pode dar um passo à frente. Ele pode e vai fazer isso
quando permitirmos. Com freqüência demais, sentimos que somos invisíveis a menos que
estejamos fazendo um comentário legal, fazendo isso ou aquilo. Mas somos ainda mais
poderosos quando estamos rodeados pelo silêncio. Inspirando profundamente, sabendo que
o que não dizemos pode ser tão poderoso quanto o que dissermos, pensando
profundamente sobre algo antes de dar uma reposta – abrimos espaço para que o espírito
flua, harmonize nossas circunstâncias e as leve em uma direção mais positiva. Quantas
vezes sentimos que estragamos tudo simplesmente por termos falado quando não

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desejávamos tê-lo feito, ou nos mostrado quando poderíamos ter apenas ficado sentados lá
e parecer intrigantes – porque nós somos?
O espírito de Deus sempre vai revelar a verdade para nós se simplesmente não
bloquearmos Sua orientação. E nós a bloqueamos falando em primeiro lugar, caminhando
em frente, com atitude, em direção à verdade. Isso acontece quando vamos longe demais –
em uma conversa ou em um projeto - tentando freneticamente fazer as coisas acontecerem,
ou impedindo-as de acontecer, por causa da falta de fé em uma ordem invisível das coisas. É
por isso que o Instante Santo tem importância; é um momento de quietude, quando o espírito
entra e torna todas as coisas certas.
Com freqüência, é melhor ficarmos com uma pergunta até que a resposta apareça,
ficarmos bem com o fato de não saber até que a sabedoria venha, sentar e apenas escutar
até que genuinamente tenhamos algo a dizer. Algumas vezes, é o nosso silêncio que testifica
nossa força.
Nosso ser inteiro – intelectual, emocional, psicológico e espiritual – pode relaxar em um
modo mais receptivo aos milagres. Quando relaxamos nos braços de Deus, a mente se abre
para um insight maior, e o coração para um amor mais profundo.
Quando damos um passo atrás com o ego, e deixamos Deus indicar o caminho, nos
tornamos um espaço natural para a cura. Vamos dizer, por exemplo, que você tenha um
problema; existem muitas possibilidades sobre como resolvê-lo. Ainda assim, se você estiver
tenso em relação à questão, preso à raiva ou buscando freneticamente uma solução, então,
as chances de uma daquelas possibilidades se tornar clara diminuem.
Se você tiver um problema, mas estiver preso a culpar os outros, ou a tentar esquivar-
se das suas próprias responsabilidade, então, as forças de ajuda são repelidas. Se você tiver
um problema, mas tentar manter seu coração aberto – fazer seu melhor para lidar com ele,
assumir sua responsabilidade pessoal, permanecer vulnerável – então, os outros vão ter uma
tendência natural de se estenderem até você e oferecerem ajuda; sua maneira de lidar com o
problema é o que vai trazer isso.
As soluções mais elevadas não vêm de você; elas vêm para dentro de você, e através
de você. Não é a sua habilidade de avaliar as coisas, colocar a culpa em outro lugar, ou de
contratar os advogados corretos que, no final das contas, vão garantir uma ação divina
correta. Ao invés disso, é nossa rendição para fluirmos com a divindade que permite que a
divindade flua através de nós.
Permanecer calmo e confiante no fluxo do universo é difícil quando não podemos sentir
a ordem cósmica das coisas. Ainda assim, tão logo reconheçamos que Deus está em todos
os lugares, o tempo todo, podemos relaxar em qualquer instante, e saber que a cura é
natural. Deus vai nos exaltar se nós permitirmos que Ele o faça. E, quando sentirmos isso
acontecendo, estaremos propensos a sorrir um certo tipo de sorriso, inspirando outras
pessoas ao nosso redor a dizerem, “O que?”, como se certamente houvesse algo que está
nos fazendo sorrir daquela maneira. Mas não há que nos faça sorrir naquele momento, tanto
quanto tudo o que está nos fazendo sorrir; nós percebemos a Realidade e sentimos a paz
que se segue a ela.

A Força em Nossa Ausência de Defesas


O livro de exercícios do Um Curso em Milagres inclui um exercício que diz, “Minha
segurança está em ser sem defesas”.
É espantoso pensar em todas as defesas com que nos rodeamos, emocional e
psicologicamente. Imagine cada momento, desde que você nasceu, quando algo
aparentemente perigoso aconteceu – um espancamento, ou um momento de falta de

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compreensão, ou de invalidação. Em cada instante, você construiu um mecanismo de defesa
– um ato de fechar automaticamente seu coração – e, com o tempo, você cresceu o
suficiente para encenar essas defesas, ainda que nem mesmo estivesse ciente de que elas
existiam. Uma vez que tenhamos procurado o amor um número suficiente de vezes e
tenhamos nos sentido não amados em troca, nos fechamos e tentamos nos defender contra
o golpe que nós subconscientemente passamos a esperar. Com freqüência, nossa forma de
defesa é o ataque, antes que alguém mais tenha a chance de nos atacar, ou intimidar, para
manter nosso atacante imaginário encurralado, ou para tentarmos impressionar a fim de não
sermos rejeitados.
O problema com isso é que “criamos aquilo de que nos defendemos”*. Se eu mantiver
meus punhos para cima, um oponente com certeza vai aparecer. Se eu mostrar um ar de
imponência para tentar impressionar, certamente serei rejeitada.
Sempre parece que estamos nos protegendo, quando estamos enredados nas energias
do ego. Embora, de fato, o ego seja nossa fraqueza, e não nossa força. Quando agimos de
maneira defensiva, arrogante ou obstinada, ninguém vai pensar que somos fortes; é
justamente o contrário. Pode parecer que estamos expostos e vulneráveis quando ficamos
sem defesa e vazios diante de Deus, embora, quando fizermos isso, vamos parecer
centrados em nosso próprio poder. Nossa habilidade de ser transparentes, de nos tornarmos
um espaço vazio através do qual o amor de Deus possa fluir, é nossa força espiritual.
Quando o ego desaparece, dificilmente ficamos invisíveis; ficamos iluminados. As pessoas
não conseguem tirar os olhos de uma pessoa que tenha removido sua máscara. A
serenidade inocente substitui a postura infantil. Nós somos gentis e ainda assim, fortes. A luz
interior brilha através de nós.
Conforme mudamos nosso centro de poder de uma força material para uma força
espiritual, começamos a mudar de um tipo de personalidade “vá lá e consiga” para um tipo
mais magnético “fique centrado e veja o mundo vir até você”. A obstinação, a intensidade e a
assertividade da personalidade são poderes inferiores comparados ao espírito interior. Em
qualquer momento em que respiramos profundamente, desistimos de nossos apegos à meta
ou ao resultado, vivendo apenas para apreciar o instante e o amor que ele traz, nos
entregamos a Deus. E, ao nos perdermos, encontramos a nós mesmos. Finalmente.
De Um Curso em Milagres:

Vamos nos lembrar de que Ele permanece ao nosso lado durante o dia, e nunca deixa
nossa fraqueza desamparada pela Sua força. Nós vamos pedir Sua força a cada vez em que
sentirmos que uma ameaça às nossas defesas enfraquece a certeza do nosso propósito.
Vamos parar por um momento, e Ele vai nos dizer, “Eu estou aqui”*.

Quando uma Nova Vida Começa


Em todos os grandes ensinamentos religiosos, existem mensagens codificadas de
Deus. Alunos da iluminação buscam entender essas mensagens, e aplicá-las em suas vidas.
Se uma religião em particular for nosso caminho pessoal ou não, seus ensinamentos
místicos essenciais se aplicam a todos.
Em museus ao redor do mundo, existem centenas de pinturas de um evento descrito no
Novo Testamento como a Anunciação. O anjo Gabriel apareceu para a virgem Maria,
dizendo a ela que ela iria conceber uma criança por Deus, e que a criança nasceria para ser
o salvador do mundo.
Deixando de lado por um momento como isso deve ter parecido, vamos no lembrar de
que todas as histórias religiosas representam uma verdade metafórica mais parecida. Os

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anjos são pensamentos de Deus, e Maria não é a única que teve anjos chegando e falando
com ela. Eles estão falando conosco constantemente, mas a maioria de nós não escuta.
Gabriel representa um tipo particular de mensagem de Deus, significando que Ele quer
nos impregnar espiritualmente, nos transformar milagrosamente em uma nova pessoa, e
estender Seu amor para a Terra através de nós. A diferença entre nós e Maria é que ela teve
a humildade e a graça de dizer “Sim”.
Você e eu diríamos, “Obrigada, talvez algum dia”, “Não agora”, “Fala sério”, “Me dê um
tempo”, “De jeito nenhum”, e um monte de outras coisas que não se relacionam com a
vontade de Maria de ser usada por Deus. Mas aquelas pinturas existem, assim como todas
as obras de arte, para levar nossas mentes para o lugar onde nos lembramos do que é
verdadeiro. Aquela história não é apenas sobre ela; é sobre nós também.
Ao redor de nós, a cada momento, existe um anjo trazendo a mensagem de um novo
começo, o nascimento de um novo ser à partir dos fragmentos de nossos seres dispersos.
Cada situação representa uma escolha: preferimos permanecer com os padrões de
pensamento e comportamento baseados no ego, ou escolhemos encenar a vida de uma
maneira mais elevada, mais amorosa? Vamos trilhar o caminho da limitação e do medo,
embora esse caminho tenha se tornado doloroso, cansativo e antigo, ou vamos escolher dar
à luz a um modo mais elevado de expressão? O Cristo dentro de nós é um ser recém-
nascido, tendo Deus como pai e nossa humanidade como mãe, aqui para expressar o
potencial divino que existe dentro de nós.
Maria não poderia ter dito “Não” para Deus, porque seria contrário à sua natureza. E,
em nosso âmago, isso é contrário à nossa também. Nós ansiamos dizer “Sim” a Ele, mas
estamos tão distanciados de quem realmente somos, tão fora de contato consciente com
nossas próprias almas, que continuamente dizemos “Não”. E lá, naquela rejeição do amor,
repousa a tragédia da existência humana.
Um dia dizemos, “Sim, Deus, você pode expressar seu amor através de mim”. E em
outro dia, em outra situação, simplesmente não podemos manter essa amplitude – dizemos
não a mais perdão, mais profundidade ou mais amor. Ainda assim, Gabriel persiste, e, a
cada vez em que dizemos não, ele simplesmente espera perto de nós para perguntar de
novo. “Estou trazendo essa situação para você de novo para lhe dar outra chance”.
De maneira lenta, mas segura, nossos corações começam a se abrir; nós resistimos
menos ao amor, quanto mais andamos no caminho espiritual. E, no final das contas, não
vamos mais resistir. Se formos profunda e totalmente honestos conosco mesmos,
saberemos que estamos ansiando ficar grávidos de Deus.
Quando Gabriel falou com Maria, ela era uma menina de quatorze anos de idade, e
agora ele fala com cada um de nós, não importando nosso sexo ou idade. Desde que
estejamos querendo fazer parte do plano de Deus, Ele terá um plano para nós.
E é aí que a vida começa realmente a mudar: não quando temos coisas novas, mas
quando temos um novo espírito. O nascimento do amor de Deus no mundo não é
simplesmente um “era”, mas um “é”. É importante não apenas por causa do que ele fez ao
mundo , mas por causa do que ele faz conosco. Quando amamos uns aos outros, Deus vive
em nós. Ele ofusca nossa mente e coração. Ele guia nosso pensamento, nosso
comportamento e nossas palavras. Ele retira de nós nossos pensamentos de medo,
substituindo-os milagrosamente com os pensamentos de amor. Nisso repousa a nossa
santidade, e não existe literalmente nada que nossa santidade não possa fazer*.
Quando os três reis se curvaram diante do bebê Jesus, eles expressaram
simbolicamente a fraqueza relativa dos poderes do mundo, comparados ao poder do nosso

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verdadeiro ser quando estamos centrados no amor de Deus. O esplendor da criança divina é
você e eu transformados.
Nossos medos se dissolvem, e nossa armadura energética se funde. Ao rezarmos
constantemente para termos um coração ainda mais aberto, a ação do Espírito de Deus
redime nosso passado e liberta nosso futuro para ser diferente dele. Nós renascemos
espiritualmente, conforme as ilusões do passado desaparecem, e temos a chance de
começar outra vez.
Algumas vezes, alguém vai nos dizer, “Você parece uma pessoa totalmente nova”.
Algumas vezes, realmente pareceremos uma pessoa nova. E, em outras, nós realmente
seremos assim.

O Cristo
A conversão a Cristo não precisa acarretar uma conversão à religião cristã. A palavra é
simbólica para a Criança de Deus dentro de nós, nossa verdadeira identidade e um espaço
para a lembrança de tudo o que é divino. Ser Seu discípulo é vestirmos o manto do Seu
ministério, recusando-nos a reconhecer a realidade final de quaisquer paredes que nos
dividam. Em nossa unicidade com os outros repousa nossa unicidade com Deus, e, remover
essas paredes é Seu trabalho em nós e no mundo. O filho primogênito de Deus é quem nós
somos.
Então, é aí que buscamos ver com os olhos do filho de Deus, nos quais apenas nossa
unidade com os outros é vista; ouvir com os ouvidos do filho de Deus, onde apenas o amor e
os pedidos de amor são ouvidos; caminhar com Ele para onde possamos ser úteis; e falar
por Ele sobre nosso amor por todos.
Tente pensar em uma situação na sua vida onde as coisas não estão indo da maneira
que você quer. Agora, feche seus olhos e inspire profundamente, e permita-se ver a si
mesmo conforme se move nessa experiência. Veja sua aparência, seus maneirismos e seu
comportamento normal. Veja como os outros se relacionam com você. Sinta todos os
sentimentos conforme eles afloram, mesmo que sejam dolorosos ou cheios de ansiedade.
Agora, veja Jesus, como a incorporação de Cristo, aproximar-se por trás de você e
colocar Seus braços ao redor de você. Ele recebeu de Deus o poder de tornar você
completo. Permita que ele permeie seu ser para criar cada pedaço dividido de você. Permita
que Ele fique sobre a brecha para você, entre o você que se manifesta agora, e seu potencial
divino. Ele é esse potencial, e Ele recebeu de Deus o poder de ajudar qualquer um que peça
Sua ajuda para realizar esse potencial dentro de si.
Ele é tão claro no Instante Santo quanto o permitimos ser*. Ele está lá tanto
metaforicamente quando literalmente. Qual deles estará em sua experiência é escolha sua.
As mudanças que o espírito realiza dentro de nós não podem ser explicadas com a
mente do ego, mas olhar para o ego procurando aprovação ou confirmação é ridículo. Nós
pensamos que sem o ego tudo seria um caos, mas, na verdade, sem o ego tudo seria amor*.
Em algum ponto, você vai precisar decidir qual maneira de olhar para o mundo faz mais
sentido; você não pode simplesmente abraçar a realidade mística. A vida espiritual envolve
acreditar em uma realidade invisível que afeta outra visível. Conforme mudamos
interiormente, mudamos nosso comportamento. Nós mudamos nossa energia. Nós mudamos
nossas vidas.

Criando Milagres
Centrados em uma atitude de bênção, nos tornamos automaticamente trabalhadores de
milagres. As pessoas se sentem elevadas e enegizadas ao nosso lado, corrigidas

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subconscientemente e curadas em nossa presença. Uma atmosfera palpável mais positiva
prevalece. Quando atingirmos a grandeza dentro de nós, as pessoas ao nosso redor se
sentem chamadas para a sua grandeza. E esse é o farol de toda alma procura.
Ao nos lembrarmos de nossa herança espiritual e permanecermos dentro de seu poder,
pensamos, agimos e então experimentamos toda a vida de maneira diferente. Estamos para
julgar alguém, e, então, nos lembramos de sua inocência eterna. Estamos para compartilhar
uma história malevolente que ouvimos sobre alguém, e, então nos lembramos, “O que eu
faço aos outros estou fazendo a mim mesmo”. Estamos para ganhar às custas de outra
pessoa, e nos lembramos de que não existe algo assim. Estamos reclamando sobre uma
situação, e paramos para perguntar a nós mesmos, “O que estou deixando de fazer aqui?”.
Isso é o nascimento de nossos melhores seres – um processo gradual e contínuo, pois em
cada momento nós tanto ouvimos o ego quanto ouvimos o amor.
Seja qual for aquele que vamos ouvir, é isso o que nos tornaremos. E seja o que for que
nos tornemos, será o mundo no qual vamos habitar. Podemos viver no medo, ou no amor.
Em cada momento, nós decidimos. O maior poder que Deus nos deu para mudarmos o
mundo é o poder de mudar nossos pensamentos sobre o mundo*. E, ao fazermos isso, o
mundo se transforma.
Não importando o quanto o mundo possa parecer insano, buscamos nos lembrar de
que ele é uma imensa ilusão. Não nos tornamos mais complicados metafisicamente ao fazer
isso, na verdade, nos tornamos cada vez mais simples, tentando aplicar certos princípios
básicos a tudo o que atravessarmos. Nós sabemos que existe um mundo de amor que está
além do que vemos, e nós nascemos para fazer com que ele se manifeste. Se nos
aplicarmos de corpo e alma a essa tarefa, então, um dia – bem aqui na Terra – vamos
experimentar um mundo iluminado.

59
CAPÍTULO SEIS

De Viver no Passado e no Futuro


para Viver no Presente

Se nós quisermos mudar mundos, então, temos que mudar os intervalos de tempo.
Não existe sentido em tentar assistir Senfield às 8:00 se ele passa às 7:00. E não existe
sentido em tentar encontrar milagres no passado ou no futuro, quando eles existem apenas
no presente.
Eu sempre costumava imaginar como seria meu futuro. Quando eu começava a pensar
obsessivamente sofre o futuro, ficava contente durante uns cinco minutos, e depois
começava a pensar obsessivamente sobre o passado. É claro que o ego não tem intenção
de nos deixar apreciar o presente.
E isso acontece porque o presente é solo sagrado – o único lugar onde a eternidade
encontra o tempo linear. O passado não está em nenhum lugar além da sua mente, e o
futuro não está em nenhum lugar além da sua mente. O ego se concentra em nos fazer viver
em um desses dois reinos, como um meio de se certificar de que nunca viveremos
inteiramente. Se Deus habita apenas no presente, então, viver no passado ou no futuro está
destinado a ser doloroso porque isso O deixa de fora. Viver totalmente no presente, no
Instante Santo, é literalmente morte para o ego – e é por isso que nós resistimos. Tão logo
nos identificamos com a vida do ego, a realidade em si mesma parece assustadora.
Nós achamos mais fácil analisar o que aconteceu no passado e imaginar o que poderia
acontecer no futuro, do que nos apresentar totalmente para a vida no presente. Ainda assim,
quando nos permitimos ser plenamente, liberados de preocupações passadas ou futuras,
esse momento se torna nosso portal para o milagroso, a plataforma 9 ¾ de Harry Potter. O
Instante Santo é um milagre.
Quando a Bíblia diz, “O tempo não será mais”, ela não quer dizer o fim do mundo, ela
quer dizer o fim da ilusão do tempo linear, e o início de um eterno agora.
As coisas que são mais importantes são eternas. Eternidade não se refere a alguma
realidade perpétua que começa quando essa vida termina, e alguma outra começa. Ela se
refere a uma realidade de momento-a-momento que sempre foi, é real nesse instante, e vai
durar para sempre. Eternidade significa “sempre verdadeiro”.
A eternidade significa um presente sem fim no qual Deus é. É a dimensão do Seu
poder, e, na extensão em que usarmos o presente para focalizar o passado ou o futuro, nós
nos enfraquecemos. O tenista não tem tempo de pensar sobre a bola que perdeu, porque
isso iria afastá-lo do esforço de rebater a próxima. Acontece o mesmo com todos nós, o
tempo todo.
O passado não se funde automaticamente com o futuro, exceto em nossas mentes. O
passado leva ao futuro simplesmente porque permitimos isso; é mais um resultado da
maneira com que nossos cérebros funcionam, do que da maneira com que a realidade
funciona. Pensando sobre o passado no presente, nós simplesmente o recriamos no futuro.
Ainda assim, um milagre pode interceder entre o passado e o futuro, liberando cada
momento para infinitas novas possibilidades. No Instante Santo, podemos quebrar a cadeia
do pensamento de ontem, reprogramando o futuro através de pensamentos diferentes no
agora. Um erro comum é basear nossos pensamentos nas circunstâncias de ontem, não

60
percebendo que elas simplesmente são o reflexo dos pensamentos que agora somos livres
para modificar.
Vamos dizer que você esteja pensando, “Estou quebrado”. Isso poderia ser uma
descrição de uma condição material, embora as condições materiais mudem em resposta à
uma mudança na consciência. Afirmar “Estou quebrado” é escolher estender a condição para
o futuro, pensando nela no presente. E, se essa for sua escolha, então, o universo vai
responder, “Que assim seja”. Mas você poderia querer perguntar a si mesmo porque escolhe
pensar isso, considerando quanto poder tem para mudar suas circunstâncias, mudando seus
pensamentos. Eu ouvi o professor espiritual Chalanda Sai Ma dizer uma vez, “Vocês vão
experimentar seja o que for que pensarem depois das palavras ‘Eu sou/estou...’”.
Você poderia, ao invés disso, pensar, “Eu sou infinitamente abundante no espírito. Eu
tenho muito dinheiro (dinheiro é um conceito relativo: a maioria dos americanos que pensa
que está quebrada tem mais dinheiro do que a maioria da população mundial), e minha
fortuna está crescendo a cada dia”. Perceba como apenas dizer isso instrui seu corpo assim
como sua mente. Dizer “Estou quebrado” vai mandar um tipo de sinal através do cérebro;
dizer “Eu sou rico” vai mandar outro. As substâncias químicas cerebrais, os hormônios, e
uma coleção infinita de funções mentais e físicas respondem a cada pensamento. É difícil
dizer “Estou quebrado” com a coluna reta e sua cabeça levantada; é difícil dizer “Eu sou rico”
de qualquer outra maneira. A mente subconsciente é sua serva, respondendo a cada
comando seu. E como você se sente e se apresenta vai afetar suas circunstâncias materiais
de maneiras incontáveis.
Talvez um amor ou dois o tenha rejeitado, então, agora você pensa, “Eu não tenho
sorte no amor, meus parceiros me deixam”. Mas, na realidade, o que você provavelmente
está dizendo é que algumas pessoas o deixaram, enquanto outras iriam estourar o limite do
seu cartão de crédito para tomar chá com você em Timbuktu. Mas seu ego simplesmente
adora entrar nesse pensamento negativo! É o mesmo ego que faz você falhar com aqueles
que deixa, agora contextualizando a situação de tal maneira a se certificar de que isso vá
acontecer outra vez. A doutrina do ego sobre o amor é “Busque, mas não encontre”*.
Você poderia dizer a si mesmo ao invés disso, “Eu sou totalmente atraente, e a pessoa
mais poderosa no mundo pensa que eu sou a pessoa mais maravilhosa com a qual se estar”.
E sabe por que? Porque a pessoa mais maravilhosa para você realmente vai pensar isso!
Mas seus pensamentos de que uma pessoa dessas não existe, ou de que vai rejeitá-lo,
literalmente a está mantendo afastada. Não existe força magnética atraindo-a para você, se
você negar que ela existe.
Se você estiver tendo pensamentos como, “Os homens me rejeitam”, então, duvido que
sua energia esteja dizendo exatamente, “Rápido, querido”. Se sua energia apenas confirma
uma condição passada, então, espere que a condição permaneça. Mas, você pode se
preparar interiormente para o que quer, ao invés de estar sempre afirmando o que tem sido.
Você pode praticar a vida que quer. “Se a vida fosse o que eu queria que ela fosse hoje, o
que eu iria pensar e fazer? Aonde eu iria? Como eu iria me tratar?”. É como o filme Campo
dos Sonhos: “Se você construí-lo, eles virão”. O tempo e o espaço não são o que parecem;
você não estará sob sua influência a menos que escolha estar. Deus o colocou na Terra para
ser um mestre de seu próprio destino, não um escravo do mundo material.
É útil perguntar a nós mesmos por que escolhemos nos mostrar de modo tão pequeno
quando não temos que fazê-lo. A crença é poderosa, e o que quer que acreditemos, vamos
tornar manifesto subconscientemente. Então, por que nos agarramos a crenças centrais
sobre nós mesmos que são tão degradantes? Quando fazemos essa pergunta, a resposta

61
emerge: “Eu pensei que as pessoas não iriam gostar de mim se eu fizesse isso”. “Eu pensei
que iria magoar os sentimentos do meu pai se ganhasse mais dinheiro do que ele”.
Ainda assim, seja qual dor possamos experimentar diante das reações negativas dos
outros ao nosso ato de estender nossas asas, não é nada comparado à dor que causamos a
nós mesmos por mantê-las aparadas. Nessa época no planeta, ninguém pode se sentir bem
em retrair sua magnificência. Expressar seu potencial total não apenas é o seu direito, é sua
responsabilidade.
Enquanto você se mantiver pensando em termos limitados, desacreditando o valor
potencial da possibilidade infinita em sua vida, então, nunca vai experimentar os milagres
que Deus tem armazenados para você. Você vai negar Suas dádivas, aceitando, ao invés
disso, a servidão do ego. Em um mundo como esse, o medo sempre é o caminho de menor
resistência. Se você quer um milagre, tem que pedi-lo conscientemente. E para todos lá fora
que talvez digam, “Como você se atreve?”, existem pelo mais dois que dirão, “Obrigado por
me mostrar a maneira”.

Abraçando o Real
Algumas vezes, ouço as pessoas dizerem, “Estou pronto para mudar meus
pensamentos, mas tenho medo de que os outros ao meu redor não mudem os deles, então,
isso não me fará nenhum bem”. Talvez, mas não por muito tempo. Logo que você mude sua
mente, os outros vão começar a mudar a deles, e aqueles que não fizerem isso vão começar
a se afastar de você.
Eu estava conversando com um jovem, chamado Andrew, que estava para voltar para a
escola secundária, depois de ter freqüentado uma escola em outra cidade durante dois anos.
Ele estava deprimido com a idéia de voltar para casa, e eu perguntei a ele o motivo.
“Eu era um idiota tão grande quando vivi aqui antes. Eu era realmente inseguro, e,
então, agia como se fosse um sabe-tudo. Tenho certeza de que todos aqui simplesmente
pensam sobre mim como esse perdedor total, e voltar para isso é realmente depressivo”.
“Mas, você mudou?”, eu perguntei. “Você é diferente agora?”.
“Sim”, ele disse. “Mas eles não sabem disso. Eles apenas me conhecem como eu era,
então, não importa que eu tenha mudado. Ninguém lá vai gostar de mim”.
“Bem, na verdade”, eu disse a ele, “de uma perspectiva metafísica, todas as mentes são
unidas. Então, se você mudou, então, eles também mudaram. Os outros garotos podem
pensar em você de uma certa maneira no início, mas se você realmente mudou, então, tudo,
exceto o que você é agora, vai diminuir gradualmente. Se você não levar todo esse material
inútil com você, então, ele não poderá permanecer nas mentes deles, exceto por um período
muito curto de tempo”.
O universo está preparado para começar de novo em qualquer momento, e são apenas
os nossos pensamentos contrários que o impedem de fazer isso. Um milagre acontece
quando pedimos a Deus para intervir entre nosso passado e futuro, cancelar todos os nossos
medos, e nos liberar para novos começos. Deus, que divide o mar e levanta os mortos, não
tem dificuldade em resolver seus problemas na escola secundária – ou em qualquer outro
lugar, a esse respeito. Seu poder é radical para reparar e restaurar. Quando nossa fé for tão
audaciosa e radical quanto o Seu poder, vamos experimentar o poder ao máximo.
Espiritualmente, renascemos em qualquer momento em que não carreguemos o
passado conosco*. Meu jovem amigo Andrew e eu rezamos naquele dia, pedindo a Deus
para tomar o relacionamento com seus colegas de escola em Suas mãos. Nós pedimos a Ele
para remover todas as paredes de falta de compreensão. Rezamos para que seus

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relacionamentos renascessem, que pudessem começar de novo à partir de um lugar
diferente. Pedimos a ordem divina correta, nisso e em todas as coisas.
Poucas semanas depois, eu vi Andrew novamente. Ele sorriu para mim e me deu um
abraço realmente grande. “Teve um milagre, não é?”, perguntei a ele. “Ah, sim”, ele disse.
“Ah, siiim...”.
Cada momento é parte de um currículo divino, e, se experimentarmos uma falta de
amor no passado, então, o presente conterá maneiras de nos compensar por isso. Deus
sempre está presente; Suas mãos estão sobre tudo. Qualquer situação na qual estejamos
agora, qualquer pessoa ou pessoas com quem estejamos nos relacionamento agora, contêm
a chave para a cura do passado e a liberação do futuro. Podemos ser alguém diferente do
que éramos no passado, liberando o futuro para ser diferente também.
Se nós liberarmos nosso passado a Deus, Ele vai mudar nossas mentes sobre isso para
nós*. Já que apenas o amor é real e nada mais existe, a única realidade sobre nosso
passado é o amor que damos e o amor que recebemos*. Tudo o mais é uma ilusão, e vai
continuar vivo em nossa experiência apenas se escolhermos nos agarrar a isso. De acordo
com Um Curso em Milagres, “Nada real pode ser ameaçado. Nada irreal existe”. E esse é o
milagre: abraçar o real.

Curando o Passado
Quando passamos por experiências difíceis, temos uma tendência natural de querer
falar sobre elas. E, até certo ponto, isso é bom; processar com conselheiros e amigos é uma
das maneiras de nos curarmos. Ainda assim, existe outra tendência, mais do ego do que do
espírito, que nos leva a articular as experiências negativas de uma maneira que as conserve
vivas.
Em uma cidade que visitei uma vez, tive uma experiência que foi muito dolorosa e,
quando meus amigos me perguntaram o que aconteceu, eu lhes contava a história. Mas,
então, eu disse a mim mesma, “chega, é suficiente. Isso não foi de todo mal; pense sobre as
pessoas maravilhosas que você encontrou, e sobre todas as coisas boas que aconteceram lá
também”. Então, quando meus amigos perguntavam, eu lhes contava o negativo e o positivo.
Mas, depois de um tempo, quando eu tinha perdoado e expiado, e permitido que meu
coração se curasse, me descobri respondendo a uma questão sobre aquele período da
minha vida de maneira muito simples: “Foi uma época especial”. As palavras simplesmente
brotaram da minha boca; eu nem estava consciente de que ia dizê-las. Mas, no nível mais
profundo, essas palavras eram verdadeiras, porque apenas o amor existe. Apenas dizê-las
confortou meu coração.
Tudo o que acontece tem uma causa: tanto é provocado pelo amor e oferece uma
chance de incrementar o amor, quanto é provocado pelo medo, e o espírito está presente na
situação para nos tirar dela. De uma maneira ou de outra, como se diz hoje em dia, “Tudo foi
bom”.

Aceitando a Nós Mesmos no Presente


Quando eu era mais jovem, queria ser mais velha, e quando fiquei mais velha, queria ser
mais jovem. Quando eu estava vivendo em um lugar, queria viver em outro, e quando estava
fazendo uma coisa, queria estar fazendo algo diferente. Eu nunca podia me fixar em quem
eu era e no que estava acontecendo naquele momento. Parecia que, de alguma maneira, eu
não era suficiente, o que eu estava fazendo não era suficiente, e, portanto, minha vida nunca
era suficiente.

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Uma vez eu mencionei, em uma palestra, que tinha olhado recentemente para uma
fotografia minha, tirada quando eu tinha trinta anos, e disse para mim mesma, “Eu achei que
isso era inadequado?”. Vi a sala se encher de sorrisos intencionais de cada mulher que já
havia ultrapassado sua juventude. Quem entre nós já não olhou para trás, para um período
que tínhamos pensado ser falho, desejando que pudéssemos voltar a ele agora e
experimentar as maravilhas que não podíamos ver naquele momento? A verdade é que cada
estágio da nossa vida é perfeito, se nos permitirmos realmente viver nele. Se nos
concentrarmos no presente, contribuindo e nos mostrando para ele tão completamente
quanto pudermos, então, qualquer momento pode ter suas bênçãos, e o futuro vai se
desenrolar na direção de um bem sempre maior.
Quando aceitamos a nós mesmos exatamente como somos, e onde estamos, temos
mais energia para dar à vida. Não estamos perdendo nosso tempo tentando fazer as coisas
diferentes. Em qualquer momento em que relaxamos no mais profundo dos nossos seres,
abrindo mão de toda luta para sermos alguma outra coisa, estaremos exatamente no lugar
correto e no tempo correto. Existe um plano para nossas vidas – o plano de Deus – e ele
supervisiona exatamente onde estamos e onde precisamos ir. Tão logo tenhamos aprendido
a viver de maneira mais brilhante em nossas condições atuais, condições novas e melhores
vão chegar imediatamente. Mas, até que aprendamos as lições do presente, elas
simplesmente vão reaparecer em novas formas, e vai parecer que nada nunca muda.
Não é nossa decisão o que vamos aprender, apenas se vamos aprender através da
alegria ou da dor*. Mas, se ainda não acreditamos que cada situação é uma lição, não
vamos nos preocupar em perguntar a nós mesmos qual ela é. E, a menos que o façamos,
nossas chances de aprendê-la serão nulas. Então, a lição vai reaparecer – com riscos ainda
maiores – até que a aprendamos. Nós também podemos aprendê-la logo na primeira vez,
quando a chance de aprendermos através da alegria ainda está disponível. Quanto mais
uma lição tiver que reaparecer, mais dor ela vai provocar. Se você souber em seu coração
que algo está errado, então, ignorar isso não vai torná-lo melhor. Isso simplesmente vai ser
fixado ainda mais, quando for trazido por um barulho mais alto do que o som original do
sussurro de Deus em nossos ouvidos.

Lidando com a Alegria


Algumas vezes, nós realmente recebemos alegria, mas, então, não sabemos bem como
lidar com ela. Em algumas épocas da minha vida, eu tive o que era necessário para atrair
meu bem, mas não o que era necessário para continuar com ele depôs de consegui-lo.
Mudanças maravilhosas me foram oferecidas, mas eu estava nervosa demais para deixá-las
entrar. O inesperado de uma oportunidade, ou a velocidade com que se esperava que eu
tomasse uma decisão sobre ela, como que alterou minha voltagem, e eu não pude
responder. Algumas vezes, uma mudança apresenta uma oportunidade também, em conflito
com nossa autopercepção – grande demais, boa demais, poderosa demais. Se Deus quiser
nos virar para uma direção mais positiva, mas não concordarmos com Sua atitude positiva
sobre nós, então, vamos resistir ao Seu amor, e à benção. Os dias em que percebemos que
jogamos fora um milagre, podem estar entre os mais tristes das nossas vidas.
Uma vez, eu estava andando em um resort muito freqüentado com minha filha de
quatorze anos e suas amigas. As meninas se mantinham um pouco à minha frente,
precisando de um pouco de distância e independência da mãe de Emma. Eu não me senti de
fora, pois a distância parecia apropriada para elas e para mim. A maternidade tira tanto de
nossa energia por alguns anos; conforme as crianças crescem, nós começamos a pegar de
volta algumas partes das nossas vidas que ficaram de lado durante algum tempo. Mas,

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conforme eu andava atrás das adolescentes, me lembrei da época em que minha filha se
agarrava a mim de maneira tão apertada quando era uma menininha, precisando de mim em
cada momento, querendo que minha atenção estivesse centrada apenas nela. De vez em
quando, eu resistia sutilmente, me sentindo sufocada por sua necessidade esmagadora de
atenção, como se eu tivesse medo de ser engolida pela experiência. Por um momento, eu
não podia me render totalmente à maternidade, aceitando plenamente que cada momento
dela era perfeito, e iria se transformar, com o tempo, em algo mais.
Eu vejo agora que o fato daquilo estar acontecendo significava que isso era exatamente
o que eu deveria estar fazendo, e eu não estava perdendo nada por dar a maior parte da
minha atenção a ela. Eu me lembro de que ela costumava odiar meu telefone – e por uma
boa razão, porque eu o usava para me distrair da intimidade da conexão mãe-filha. Eu me
lembro de uma vez, quando ela era bebê, que ela realmente engatinhou por cima do telefone
enquanto eu estava falando nele, usando seu pequeno dedo para apertar o botão e desligar
a chamada.
Agora, os dias da sua primeira infância terminaram, e não vão voltar. Durante aqueles
anos, eu me expus emocionalmente em noventa por cento da minha capacidade, talvez um
pouco mais. Ela não deve ter perdido muito, mas acho que eu perdi algumas poucas coisas.
Tudo é uma parte dos erros que cometemos quando não reconhecemos que o momento
presente é perfeito.

O que Será
Nos tornarmos obcecados sobre o futuro, é claro, é tão neurótico quanto nos tornarmos
obcecados sobre o passado. É simplesmente outra maneira do ego nos roubar a alegria de
viver, direcionando nossa atenção para longe do presente. Viver no futuro é uma maneira de
evitar a vida bem agora.
Como trabalhadores de milagres, colocamos o futuro nas mãos de Deus*. Podemos
liberar nossas preocupações sobre o futuro vivendo plenamente no presente, sabendo que,
ao fazê-lo, o futuro vai cuidar de si mesmo. Deus vestiu tão bem os lírios do campo,
certamente vai cuidar de nós.
Eu me lembro do quanto costumava ficar obcecada, pensando como minha vida seria
no futuro. Agora que o futuro está aqui, eu lamento ter perdido tempo pensando sobre ele de
qualquer maneira, quando um presente tão glorioso estava disponível para mim naquela
época. Eu não percebi naquele momento, que o presente era glorioso, é claro; eu estava
focalizada no que percebia estar faltando. E esse é o jogo da mente que vai continuar para
sempre se nós permitirmos. No passado, eu não percebia o quanto as coisas eram perfeitas,
assim como eu nem sempre percebo o quanto elas são perfeitas agora. Se eu simplesmente
tivesse me permitido apreciar mais a minha vida, eu teria me sentido bem melhor mais tarde.
E, quando eu me permito simplesmente apreciar minha vida exatamente agora, estou dando
a mim mesma um grande impulso para o futuro. Cada ponto na jornada da vida está nos
preparando inerentemente para nosso futuro, de maneiras em que a mente racional não
pode compreender.
Anda assim, o pensamento do mundo é tão destituído de qualquer conceito de mistério,
que não é de se admirar que não consigamos relaxar nele. Pensamos que temos que liderar,
quando tudo o que realmente temos que fazer é seguir. Em qualquer momento em eu me
renda profundamente ao que é na vida, então, o que será é programado para refletir minha fé
e confiança.
Uma vez, eu estava visitando Nova Iorque com minha filha. Nós estávamos passando
uns dias maravilhosos lá, e, então, ela se virou para mim e disse, “Estou tão entusiasmada

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sobre ir a Boston na próxima semana, que mal posso esperar!”. Eu não queria ser estraga-
prazeres ou fazer com que ela se sentisse invalidada por estar entusiasmada sobre ir para
Boston, mas eu realmente refleti sobre como o ego trabalha: sempre nos fazendo pensar que
o lugar para onde vamos na semana seguinte será melhor, o que faremos no nosso próximo
emprego será o mais certo para nós, e assim por diante. A alegria pode ser encontrada
apenas em um lugar de cada vez, bem aqui, bem agora. Não importando para onde
estejamos indo no dia seguinte, é importante abençoar quem somos e apreciar os frutos de
hoje. A verdade é que quase qualquer experiência pode ser infeliz se você for bom o
suficiente em tornar a si mesmo miserável. E quase toda experiência pode ser agradável se
você estiver praticando a alegria o suficiente.
Algumas vezes, as pessoas pensam que não podem relaxar em relação ao futuro
porque primeiro precisam saber como ele será. Conheço pessoas que parecem pensar que
Deus deveria lhes mandar uma carta, dizendo a elas exatamente aonde ir e o que fazer.
“Querida Glória, aqui é Deus. Eu escolhi a cidade de Kansas para você, onde você vai viver
durante seis meses à partir de novembro, e trabalhar na Carter e Associados. De lá, você vai
se mudar para Newport Beach, onde vai encontrar sua alma gêmea. Você será rica, bem
sucedida e feliz. E, então, depois de um tempo bem longo, vai morrer”. Elas pensam, se
Deus é tão esperto, porque Ele não usa o Fed Ex?
Mas eu acho que tão pouco nos é dito sobre o futuro porque existe muito mais para
compreender sobre o presente. O solo de Deus, afinal de contas, é agora. Ele não explica o
caminho adiante nos mínimos detalhes, ao invés disso, Ele explica o caminho interior. E,
conforme seguimos esse caminho, buscando nos aprofundar em nossa compaixão,
compreensão e capacidade de apreciar o que é, nós co-criamos com Ele nosso futuro mais
elevado.

Arrependimentos Passados
Até que se atinja uma certa idade, a palavra arrependimento tem pouco significado. É
apenas quando vemos que nossos erros realmente afetam o resto da nossa vida, e
percebemos que as decisões ruins que tomamos não podem ser revertidas nessa vida, que
enfrentamos o horror do remorso verdadeiro. Nisso reside o paradoxo: como seres humanos,
temos um período muito curto de tempo aqui para fazer tudo certo, embora como espíritos
vivendo na eternidade, temos oportunidades ilimitadas. Como seres com livre-arbítrio, temos
permissão de fazer nossas próprias escolhas; como crianças de Deus, somos redimidos a
nosso pedido humilde e devotado, se essas escolhas tiverem sido propensas ao erro.
Nossos enganos não são pecados que Deus quer punir, mas, ao invés disso, erros que
Ele quer corrigir. Uma oração de Um Curso em Milagres sugere que nós simplesmente
devemos voltar ao momento do nosso engano – percebendo-o como um momento quando,
por definição, não permitimos que o Espírito Santo tomasse a decisão por nós – e permitir
que Ele faça isso por nós agora. Pois os milagres atuam retroativamente. Não há
necessidade de sentir culpa num caso desses, porque o Espírito Santo vai desfazer todas as
conseqüências das nossas decisões erradas se permitirmos*. Uma vez que genuinamente
expiemos nossos erros, o universo será milagrosamente reconfigurado a nosso favor.
Milhares de pessoas – alcoólatras, viciados em drogas, pessoas que cometeram crimes,
pessoas que feriram outras – podem testemunhar sobre o profundo perdão de Deus. Muitas
sabem que não estariam vivas hoje se seu Deus não fosse um Deus tão misericordioso.
Isso significa tanto para aqueles de nós que viveram muitos anos, para aqueles que
cometeram erros imensos que afetaram a si mesmos e aos outros durante anos ou até pelo
resto da vida; para aqueles que não conseguem superar seus sentimentos de culpa sobre

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isso ou aquilo. Como filhos pródigos, aqueles de nós que nos desviamos tanto do amor não
somos relegados por Deus para a periferia do pensamento. É bem o contrário, o Pai do filho
pródigo não o rejeitou, mas se regozijou ao vê-lo voltando para casa. Nossos erros muitas
vezes são o que precisamos para nos tornar humildes, e é aí que somos mais úteis a Ele.
Para Deus, nunca somos bens deteriorados. Ele transforma nossas cicatrizes em lindas
marcas.

Presos na Meia Idade


Eu achei passar dos cinqüenta mais difícil do que pensei que seria.
Em algum momento, dois ou três meses antes do grande dia, comecei a ser
assombrada pelas memórias de uma juventude agora irrevogavelmente terminada. Ainda
que eu tivesse dito a mim mesma que cinqüenta era o novo quarenta, o que eu realmente
queria, de todo meu coração, era ter de volta os velhos quarenta. Eu tinha pesadelos
acordada, sobre memórias ardentes – coisas com as quais eu não havia lidado bem,
escolhas estúpidas que eu tinha feito e não poderia renovar, chances que eu pensei que
nunca poderia recuperar. Sofrendo pela glória dos meus anos mais jovens, tive que encarar
a mim mesma e à toda a dor que veio com isso.
Muitos amigos me disseram que sentiram a mesma coisa, mas que eu não me
preocupasse – de repente, toda a ansiedade iria desaparecer. E, realmente, foi assim que
aconteceu para mim. Sentado do lado de fora de um café, tarde da noite do dia em que
completei os cinqüentas anos, olhando para a torre Eiffel, iluminada contra o céu, eu senti a
dor se retirar. Em um instante, tudo estava bem. Eu soube que o sol havia se posto sobre o
que não existia mais, mas eu tinha a sensação de que o novo iria agora amanhecer para
tomar seu lugar.
Amigas haviam me dito que os cinqüenta são ótimos porque não nos importamos mais
com outras coisas. Eu não sabia se aquilo ia ser verdadeiro para mim, mas eu sabia que eu
não era mais quem costumava ser. Cinqüenta é tão diferente de quarenta, quanto quarenta é
de trinta, e trinta de vinte. Com a chegada dos cinqüenta, a pessoa faz uma transição tão
fundamental quanto a puberdade. Eu havia entrado no paradoxo da meia idade.
Por um lado, eu finalmente tinha algum senso do que estava fazendo no mundo.
Finalmente, eu estou convencida de que tenho o direito de estar aqui. Eu não sou tão
frenética quanto costumava ser, embora realmente ainda não possa dizer se isso é assim
porque eu evoluí ou apenas porque envelheci. Por outro lado, eu fico cansada mais
facilmente, muitas vezes não consigo me lembrar das coisas, e fico exausta apenas por
procurar meus óculos o tempo todo! O mais desconcertante de tudo, quando estou séria e
faço minhas contas, é que não posso ter muitas esperanças de mudar as coisas nesse
planeta até chegar hora de partir. A ilusão compartilhada pela nossa geração de que iríamos
prenunciar um paraíso foi totalmente despedaçada. Quanto mais envelhecemos, mais vemos
o quanto certas coisas negativas estão entrincheiradas. Existe muito mais crueldade no
mundo do que, durante anos, pensamos que haveria; conforme envelhecemos, fica mais
claro para nós que isso nunca foi assim.
Tão decepcionante quanto possa ser perceber essas coisas – e a desilusão é realmente
uma boa coisa porque significa que estivemos trabalhando sob uma ilusão* - isso também é
o inicio de um insight espiritual. Uma vez que estejamos profundamente convencidos de que
não existem respostas máximas fora de nós, começamos a procurá-las onde elas realmente
estão: dentro de nós. E percebemos que, ao diminuirmos o ritmo, estamos mais preparados
para ouvir coisas que antes não conseguíamos por estar nos movendo rápido demais.

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Tanto tempo perdido, tantos erros estúpidos! Nós sentimos que temos o conhecimento
agora, mas não temos certeza de ter energia restante: se apenas soubéssemos então o que
sabemos agora. Chegamos a compreender o comentário de George Bernard Shaw, “A
juventude é desperdiçada com os jovens”.
Nossas glândulas supra-renais perdem um décimo do seu funcionamento, nossas
células parecem carros velozes que começam a mostrar o excesso de uso, a geração mais
rápida de todas começa a diminuir seu ritmo. Jack Nicholson disse, em uma entrevista
recente, “Minha geração é a dos novos velhos”. Nosso ônus mais profundo é o pesar
acumulado, a mágoa de uma década se impingindo sobre a outra até que o coração não
possa absorver mais nada. Nossas mentes entenderam tantas coisas, mas nossos corpos
não têm mais certeza de que isso importa. Quando é mais depressivo do que prazeroso
acordar pela manhã, então, você sabe que tem um problema.
E muitos fazem isso.
A maioria das pessoas, uma vez que atinge a meia idade, enfrenta uma bifurcação no
caminho. Qual caminho tomar, como escreveu Robert Frost, vai fazer toda a diferença. Um
caminho leva à dissolução gradual – uma viagem (embora lenta) em direção à morte; o outro
caminho se torna um canal de nascimento, um padrão de renascimento. Quanto mais
envelhecemos, mais difícil é escolher o renascimento. Parece mais difícil de se resistir à
gravidade do ego.
Começamos tão entusiasmados pela vida, tão entretidos e deliciados com a própria
natureza das coisas, e começamos a perder alguma apreciação vital das possibilidades
inerentes a cada dia. Ao escrever isso, ouço adolescentes no meu quintal, deliciando-se com
as poças de lama produzidas pela tempestade da tarde. Eu tenho que examinar
conscientemente a mim mesma – para me lembrar de que a habilidade de achar graça na
lama é o que faz a juventude tão maravilhosa, e não fazer um escândalo sobre o fato de que
minhas toalhas são beges, e isso vai estragá-las. Minha verdade efêmera é que eu quero
que os garotos se lavem com a mangueira antes de entrarem de novo na casa, mas a
verdade da minha alma é que eu gostaria de poder apreciar a lama também.
Então, isso está totalmente a meu cargo; ou eu começo a me tornar uma “coruja” velha
que se importa demais com as toalhas, ou, ao invés disso, mantenho meu senso de
aventura. Eu quero me focalizar no que é importante conforme envelheço. Então, que diabo,
as crianças estão felizes, e isso é o que importa! E não apenas para as crianças, mas para
todos nós.

Escolhendo Ver
O nascimento é audacioso, a criatividade é audaciosa, a busca espiritual é audaciosa.
Sem audácia, somos apenas dentes da engrenagem da roda do status quo do ego. E esse
status quo leva à decadência e à morte, não como um portal para uma vida melhor, mas para
o escárnio da própria vida.
Uma vez, eu estava para jogar fora o que eu pensei que fossem rosas cor-de-rosa
mortas, quando um amigo disse, “O que você está fazendo? Por que está jogando fora
isso?”. Eu disse, “Elas estão morrendo!”. Ele disse, “Olhe para elas, Marianne! Elas são
lindas! Acho que esse rosa esmaecido nelas hoje é realmente muito mais maravilhoso do
que o rosa vivo que elas tinham ontem!”.
E ele estava certo. Não foi a visão das flores morrendo, mas meu próprio preconceito
que me levou para olhar para as flores rapidamente e dizer, “Elas estão morrendo”, e
simplesmente jogá-las fora. Na realidade, elas não eram menos bonitas, apenas belas de
uma maneira diferente. Não eram as flores, mas os meus olhos que precisavam mudar.

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Nessa situação, as flores tiveram um defensor, meu amigo, um notado ambientalista,
que simplesmente tinha um olho mais sofisticado. Quanto mais vivemos, mais capacidade
temos de ver o quanto a vida é linda. Existem coisas que tocam meu coração agora –
pessoas que se amam de mãos dadas, pequenas crianças rindo – que eu mal notava nos
dias que se foram.
Eu tenho um amigo que trabalhava para uma estrela de rock de meia idade, e ele me
contou uma história sobre uma experiência que tiveram juntos, uma vez. Eu estava
reclamando que, depois de uma certa época na vida, era difícil ficar entusiasmado com
muitas das coisas que pareciam glamourosas e engraçadas antes. Meu amigo disse, “Deixe-
me contar a você sobre uma vigem que fiz com John a Minneapolis.
“Nós estávamos indo para lá para um concerto de primavera, e John havia fretado um
jato particular para nós em Nova Iorque. Três de nós, que trabalhávamos para ele, nos
amontoamos em uma limusine e estávamos indo para o aeroporto, quando um dos amigos
de John telefonou.
“John exclamou para ele. ‘Oh, Ben, você devia estar aqui! Estamos nos divertindo tanto!
Nós estamos em uma limusine comprida, e vamos voar em um jato para um concerto de
primavera!’. John parecia um menininho eufórico, estudando o guia de viagens para
descobrir um ótimo restaurante em Minneapolis, entusiasmado com essa viagem como se
ela fosse a coisa mais legal do mundo”.
O ponto, é claro, é que John já havia estado em centenas, senão milhares, de jatos
particulares, já havia estado em centenas, senão milhares, de concertos de rock, incluindo o
seu próprio, e uma limusine comprida, para ele, era como um carro normal para o resto de
nós. Ele viaja pelo mundo como se fosse seu próprio quintal, e, ainda assim, ali estava ele,
estudando o guia de viagens como se Minneapolis fosse algum destino exótico.
Aparentemente, todo lugar aonde John vai é empolgante para ele, porque ele não perdeu
sua capacidade para a alegria. O enfado não é sua estrutura mental.
Então, faz mais sentido a razão pela qual ele é tão empolgante para o resto de nós: ele
gera alegria. Ele não está esperando que o mundo lhe dê alegria, ele a traz com ele. Esse é
um hábito mental e emocional que ele tem cultivado.
Meu pai fazia isso. Eu nunca o vi entediado. E isso, eu penso, é porque ele não olhava
para o mundo querendo que ele o entretivesse. E é exatamente por isso que o mundo
sempre o fez.
Eu tento me lembrar, sempre que estou tentada a pensar que o mundo é tedioso, “Não
Marianne, você é tediosa”. E isso parece resolver. Apenas o que não estamos dando pode
estar falando em qualquer situação*. O entusiasmo não está lá fora, ele está aqui, em todos
nós, quando é o que conscientemente escolhemos ver.

Renascimento
Um amigo meu, um homem de cinqüenta e sete anos, me disse uma vez, “Acho que
estou esperando para morrer”. Eu entendi o que ele queria dizer, mas respondi, “Bem, eu
não estou. Eu peguei o outro caminho. Estou ocupada renascendo”.
Milhares de anos atrás, antes de a Terra estar totalmente povoada, não havia razão
para viver mais do que trinta e cinco ou quarenta anos. Quando chegávamos a essa idade, já
tínhamos servido ao grande propósito da evolução humana, a sobrevivência da nossa
espécie. Nosso esperma e ovários haviam envelhecido, e em relação à natureza, realmente
não havia mais necessidade de estarmos aqui. Aquela foi uma época quando a procriação
física era o propósito mais elevado da existência humana.

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Mulheres – talvez mais do que os homens – sentem a mensagem da natureza dentro de
suas células: “Obrigada. Você pode ir agora”. Os períodos menstruais desaparecem. Os
diagnósticos médicos vêm: “Você já era”. A gravidez que evitamos tão zelosamente, agora
parece claramente uma bênção que não apreciamos naquela época. Lamentamos nossas
crianças não nascidas, e nossa estúpida, ingrata juventude.
A natureza não se importa mais se parecemos bem, pois nossos padrões sexuais
atraentes não preocupam a mais ninguém. Nós silenciosamente nos tornamos excêntricos. O
que aconteceu com o meu esplendor? Minha voluptuosidade? Meus seios? A natureza não
se importa mais em ajudar nossas aventuras sexuais, pois o fato de termos ou não sexo não
interessa a mais ninguém. Nós silenciosamente nos lamentamos. O que aconteceu com meu
corpo? Com a minha libido? Com meus humores orgânicos? Quando a natureza claramente
já cumpriu seu papel conosco em um certo nível, então, por que ainda estamos aqui? Nós
apenas caímos no esquecimento? A quem podemos fazer um pedido? Com quem podemos
chorar?
A natureza está muito mais preocupada com a propagação das espécies, e, quando
somos jovens, nossos óvulos e esperma são nossas contribuições mais vitais para o
processo. Ainda assim, nesse ponto da história humana, o nascimento da sabedoria é mais
crítico para a sobrevivência da humanidade do que o nascimento de um número maior de
crianças. O que podemos fazer nascer do útero das nossas consciências é uma dádiva tão
preciosa para o mundo quanto o que podemos fazer nascer do útero dos nossos corpos.
Existem inúmeras maneiras de ser uma mãe ou um pai para um novo mundo.
Nossa maior contribuição para o mundo nessa época não é apenas o que fazemos,
mas o que estamos nos tornando. É a natureza de nosso próprio pensamento que está
forjando uma nova consciência. Assim como o início do terrorismo esteve retumbando sob a
superfície, e, portanto sob os radares, durante anos antes de se expor à nossa visão, um
novo movimento de amor está retumbando sob a superfície hoje. Martin Luther King Jr disse
que temos uma “oportunidade gloriosa de injetar uma nova dimensão de amor nas veias da
nossa civilização”. Todos nós podemos participar desse processo. Em cada momento, com a
natureza dos nossos pensamentos, podemos aumentar o depósito do amor de uma maneira
que abençoe o mundo.
Ainda assim nenhuma mudança espiritual vai, no final das contas, importar se ela não
atingir nossas células e se tornar muito humana também. Eu recentemente ouvi de um jovem
colega que ele estava entusiasmado em relação a um grupo de ativistas humanitários que
havíamos encontrado, “exceto pelo fato dele ser formado por quatro mulheres de meia
idade”.
Eu hesitei, “E o problema é que...?”.
“Bem, você sabe”, ele disse.
E não, eu realmente não sabia. Eu entendi a correção política dele, seu desejo pela
diversidade racial, mas também vi algo mais por trás disso. Muitas pessoas hoje em dia se
apressam a fazer cerimônias (honrando a sabedoria das avós, mas realmente ainda não
querem lidar com as avós da vida real, em sua meia idade. Elas proclamam “a elevação do
feminino”, mas ainda resistem e julgam as mulheres reais. Não é suficiente apenas honrar
um arquétipo. Se o mundo for mudar, temos que honrar uns aos outros. E aqueles que estão
forjando um novo futuro para o mundo, seja que idade tiverem, merecem, de si mesmos e de
todos os que estão ao redor, toda a honra do mundo).
Vamos esquecer o passado e quem éramos então. Vamos abraçar o presente e quem
somos capazes de nos tornar. Vamos nos render ao futuro e assistir aos milagres se
desenrolando.

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CAPÍTULO SETE

Do Foco na Culpa
para o Foco na Inocência

Imagine sua vida como um filme de longa metragem. Agora, veja-a sendo dirigida por
dois diretores diferentes. O primeiro filme, nas mãos de um diretor, é um filme de medo,
raiva, escassez e ansiedade. O outro, nas mãos de um diretor diferente, é um filme sobre o
amor, a paz, a abundância e a felicidade.
Um diretor é nosso ego, o outro é o Espírito Santo. E a estrela do filme é você.
Pelo fato da minha própria vida ter se movido tanto para trás e para diante entre dramas
depressivos e enriquecedores, eu tenho uma boa percepção sobre a diferença entre os dois
– e como cada um é criado. Uma coisa de que tenho certeza sobre ambos é que, quando
olho mais de perto, vejo essas palavras: “Produzido por Marianne Williamson, Dirigido por
Marianne Willimson, Estrelado por Marianne Williamson”.
De qual diretor você recebe sugestões depende de uma coisa: dos pensamentos que
você mantêm na sua mente. Para receber sugestões do seu ego, tudo o que tem que fazer é
se concentrar na culpa. A pedra angular do pensamento do ego é que a criança de Deus é
culpada*. Para se virar para o Espírito Santo, focalize-se, ao invés disso, na inocência. A
pedra angular do pensamento do amor é que a criança de Deus é inocente*.
Qual foco escolhermos – na inocência ou na culpa de alguém – vai determinar o drama
que vai se desenrolar em nossas vidas, e a parte que vamos desempenhar nele.

A Prontidão para Ver


É nossa prontidão para ver a inocência em uma pessoa que nos permite vê-la. A mente
do ego está tão envolvida no drama humano – “Ele fez isso, ela disse aquilo” – que
geralmente requer um poder maior para contrabalançar a insistência do ego. É útil lembrar
que o verdadeiro alvo do ego é você: seu ego quer que você veja a culpa nos outros,
principalmente para que possa continuar convencido da culpa em si mesmo. A percepção da
culpa em qualquer um é nosso ingresso certeiro para o inferno. Todas as vezes em que
culpamos outra pessoa, estamos apertando as correntes que mantêm nosso ódio próprio no
lugar.
O perdão pode ser muito difícil quando alguém agiu de maneira horrível. Mas, a
verdade, queiramos ou não admitir, é que essa pessoa fez o que nós também poderíamos
ter feito se estivéssemos tão dopados por algo como ela estava; se estivéssemos tão
assustados com algo como ela estava; se fossemos tão limitados em nossa compreensão
quanto ela é. Isso não significa que seus atos não devem ser levada em conta, ou que não
devamos ter limites e padrões. Isso nem mesmo significa que temos que ficar em contato
com essa pessoa. Mas realmente significa que podemos vir a compreender que a
humanidade não é perfeita. Apenas saber disso – que todos nós fazemos o melhor que
sabemos, com as habilidades que temos naquele momento – é a realização que abre o
coração para uma compreensão mais iluminada. E é para isso que estamos na Terra,
porque, na presença de pessoas com uma compreensão iluminada, a escuridão finalmente
se transforma em luz.

71
O perdão geralmente não é um evento, é um processo. Um princípio abstrato tem que
penetrar níveis variados de pensamento e sentimento antes de chegar ao coração, e isso
está certo. Nossa mágoa pode ser real, e nossos sentimentos importam. A única coisa que
Deus está pedindo a nós é que estejamos dispostos a ver a inocência em outra pessoa. Uma
vez que estejamos dispostos a ver a situação sob outra luz, o Espírito Santo tem espaço
para trabalhar.
Com cada encontro humano, tanto afirmamos às pessoas sua inocência, quanto
fortificamos sua culpa. E o que escolhermos vai ser a maneira com que nós mesmos vamos
nos sentir. Nós não podemos escapar da nossa unicidade, mesmo que não tenhamos
consciência dela. Faça aos outros o que você gostaria que eles fizessem a você, porque eles
o farão. E mesmo que não façam, você vai sentir como se tivessem feito.
Pelo fato de todas as mentes serem unidas, seja o que for que eu escolha pensar sobre
você, estou, em essência, pensando sobre mim mesma. Na extensão em que eu perceber
sua culpa, estarei pronta a perceber a minha. Isso não parece assim à princípio, é claro,
porque o ego quer nos fazer acreditar que tão logo coloquemos a culpa em outra pessoa,
vamos nos sentir melhor. Mas isso é apenas uma ilusão temporária – algo no que o ego é
especializado. Uma vez que tenhamos ultrapassado a elevação temporária de ter jogado a
culpa para longe de nós, ela vai voltar para nós multiplicada em cem vezes. Um pensamento
de ataque é como uma espada que pensamos estar suspendendo sobre a cabeça de outra
pessoa, quando, na verdade, ela está suspensa sobre a nossa própria cabeça*. Apenas se
eu estiver propensa a ser afável com os outros, poderei aprender a ser afável comigo
mesma.
Pense nas coisas da sua vida das quais você escapou: coisas sobre as quais se
envergonha de pensar, coisas de que se arrepende, ou que você faria de novo se pudesse.
E agora pense no quanto você pode ser duro com outras pessoas cujos erros sejam
similares, e, algumas vezes, até menores do que os seus. É possível que você queira que
eles paguem pelo que você acha que ainda não pagou o suficiente? Pense sobre como a
culpa o está prendendo ao passado. Todos nós não queremos a liberdade de começar outra
vez que apenas o perdão pode trazer? Qualquer um de nós tem essa liberdade, se
estivermos dispostos a conceder o perdão aos outros.
Dentro do mundo, muitas vezes existem coisas muito sérias que temos que perdoar. O
perdão começa, assim como todas as questões de iluminação, como um conceito
meramente intelectual que ainda tem que fazer sua “jornada sem distância” da cabeça ao
coração. Geralmente leva algum tempo para que ele e torne integrado em nossa natureza
emocional. Parece ser contrário à razão escolhermos ver a inocência em uma pessoa além
dos seus erros, ainda assim, esse é o aspecto visionário e também muito poderoso da fé.
Nossa experiência sobre uma pessoa pode ser de que ela nos tratou mal, enquanto nossa fé
é que ela permanece uma criança inocente de Deus.
Não importando o que façamos para mudar nossas vidas e criar novas possibilidades, a
ponte para uma nova vida é impossível a menos que estejamos dispostos a perdoar. Uma
mulher pode ter se divorciado do seu marido e ainda ter ficado com dinheiro suficiente para
viver em uma linda casa, viajar pelo mundo, e fazer o que mais quiser enquanto viver, mas,
até que ela que ela o perdoe de coração e abençoe seu caminho, ainda que seja separado
do dela, ela vai viver no inferno, embora viva em um castelo. Nada disso é fácil, nunca. Mas
a falta de perdão é um veneno para a alma.
O perdão radical não é uma falta de discernimento ou o produto de um pensamento
vago. É uma “lembrança seletiva”*. Escolhemos nos lembrar do amor que experimentamos, e
deixar ir o resto como a ilusão que era. Isso não nos torna mais vulneráveis à manipulação

72
ou exploração, na verdade, nos torna menos propensos a isso. Pois a mente que perdoa é
uma mente mais próxima de sua verdadeira natureza. O fato de que eu perdoar você não
significa que você “ganhou”. Não significa que você “teve sucesso em algo”. Isso
simplesmente significa que estou livre para voltar para a luz, reclamar minha paz interior, e
ficar lá.

Pecado versus Erro


O mundo da culpa é baseado em uma noção: a realidade do “pecado”. Pecado é um
termo de ‘arco e flecha’ que significa que erramos o alvo. Nós enviamos um pensamento, e,
algumas vezes, “perdemos” o centro do alvo amoroso. Todos nós perdemos o alvo do amor
de Deus muitas e muitas vezes.
Quem entre nós é a pessoa correta, centrada no amor, que sempre perdoa e que
gostaríamos de ser durante as vinte e quatro horas do dia? Nenhum de nós, mas estamos na
Terra para aprender a sermos assim*. O desejo de Deus, quando não atingimos o objetivo,
não é nos punir, mas nos corrigir e nos ensinar a fazer melhor. Aquilo que pensamos que são
nossos pecados são criações indevidas da mente, e, embora alguns de nossos erros sejam
graves, até mesmo perversos, não existe fim para o perdão e o amor de Deus.
Quando alguém comete um erro, muitas vezes somos tentados a focalizar toda nossa
atenção no mal feito dessa pessoa, mesmo que tenhamos experimentado antes sua
bondade. O ego é como um cão que se alimenta de carniça, sempre buscando o menor sinal
de evidência de que alguém cometeu um erro, ou nos prejudicou de alguma maneira*.
Perceba como nós estamos muito menos vigilantes em buscar o bem nas pessoas. A mente
do ego está em uma agitação instintiva para descobrir a culpa, e proclamá-la em qualquer
um e em todos, até em nós mesmos. Ele é uma máquina de ataque mental. Sua mensagem
a qualquer um, tanto verbal quanto silenciosa, é, “Você fez tudo errado. Você não é bom o
suficiente”. Julgamento, acusação e culpa são o combustível do ego.
O Espírito Santo, por outro lado, é a voz pelo amor. Ele nos guia a manter a fé na
verdade de Deus: que todos nós somos inocentes, porque foi assim que Ele nos criou. Isso
não significa que o que as pessoas fazem não importa, ou que o mal não exista.
Simplesmente significa que nossa tarefa como trabalhadores de milagre é estender nossa
percepção além do que nossos sentidos físicos percebem, para o que sabemos ser
verdadeiro em nossos corações*.
Quando as pessoas fazem coisas que não são amorosas, significa que elas perderam
contato com sua verdadeira natureza. Elas adormeceram para quem realmente são,
sonhando o sonho de um ser raivoso, arrogante, cruel, e assim por diante. Nossa missão
como trabalhadores de milagres é permanecermos despertos para a beleza nas pessoas,
mesmo quando elas a esqueceram em si mesmas. Dessa maneira, nós subconscientemente
“re-lembramos” de quem são. Como discípulos do Espírito Santo, nós vemos tanto os erros
do mundo quanto a perfeição espiritual nas pessoas. E, ao compartilharmos a percepção de
Deus sobre os erros humanos – um desejo de curar, em oposição ao desejo de punir – nós
nos tornamos canais para Seu poder curativo. Portanto, também somos curados.
Para o ego, isso é um ultraje: como nós nos atrevemos a declarar a criança de Deus
inocente? Não conseguimos ver que criatura sombria e pecadora ela é? Até mesmo as
religiões que afirmam que Deus é bom, parecem inclinadas de vez em quando a achar que
Suas crianças são culpadas. Muitos apontam seus dedos criticamente para outras pessoas,
não percebendo que o próprio dedo apontado é a fonte de todo mal. É o conceito do inimigo
que é nosso maior inimigo.

73
E Archie Bunker?
Durante uma de minhas palestras uma vez, um homem me fez uma pergunta. “Eu não
tenho problemas com nada do que você está dizendo”, ele disse, “Mas, meu problema é o
que acontece quando eu saio dessa sala. O que fazemos com pessoas que não pensam
dessa maneira? Como meu pai; ele é como Archie Bunker! O que eu faço em relação a ele?
Muitas cabeças, no salão, se inclinaram, concordando, mas eu sorri interiormente. Deus
não nos deixa escapar dessa maneira.
“Você quer saber?”, perguntei. “Você realmente quer saber o que Um Curso em
Milagres diria?”.
Ele anuiu.
“Ele diria que você precisa parar de julgar seu pai”.
Ele e centenas de outras pessoas agora tinham aquele olhar que diz, “Certo, é claro, eu
entendi”.
Eu continuei. “Só o que você não está dando pode faltar em qualquer situação. Deus
nos mandou aqui para trabalharmos com milagres, e só poderemos fazer isso quando
desistirmos de nossos julgamentos. Como você pode ajudar seu pai a despertar pai para
inocência dele, se você mesmo estiver preso, focalizando a culpa dele?”.
“E tampouco quero dizer com isso que é sempre fácil. Mas a responsabilidade principal
de um trabalhador de milagres é aceitar a Expiação para si mesmo. Você não está aqui para
monitorar o progresso espiritual das outras pessoas. As questões que Deus quer que nós
focalizemos em primeiro lugar são as nossas próprias”.
O milagre não é que o pai dele vai se tornar diferente, mas que ele próprio vai se tornar
diferente. A ironia, é claro, é que ele provavelmente estava julgando seu pai por ser julgador!
Apenas quando ele não estiver mais julgando seu pai, mas aceitando-o como é, os milagres
serão possíveis.
Acredito que foi Martin Luther King Jr quem disse que não temos poder de persuasão
moral com alguém que possa sentir nosso desprezo subjacente. Os pensamentos de quem
teremos mais possibilidade de influenciar em uma direção amorosa: alguém que se sinta
julgado por nós, ou alguém que possa ver que todo o amor no qual dizemos acreditar
também se aplica a ele?

Perfeição Eterna
Até que nos lembremos de quem somos, somos tentados a assumir a vergonha e a
culpa do ego. Nós as vemos em nós mesmos e as projetamos nos outros. Nós
internalizamos o julgamento e a culpa que estão espalhadas pelo mundo. Eu adoro o lirismo
do cântico de Natal “Oh Noite Sagrada”: “Por muito tempo permaneceu o mundo em pecado
e erro, até que Ele apareceu e a alma sentiu seu valor”. Se o plano de Deus nos chama a
relembrar nossa perfeição eterna, então, Ele não estaria nos pedindo para lembrar dela nos
outros também?
Para o ego, a noção da inocência eterna e imutável é uma blasfêmia. A própria culpa é
o deus do ego. Mas, se nós vamos evoluir para além do ego, teremos que evoluir para além
da nossa crença na santidade da culpa. E o lugar para começar é em relação a nós mesmos.
Isso não significa que não cometemos erros, ou que não precisamos tentar corrigi-los.
Mas, como se diz freqüentemente, Deus ainda não terminou com nenhum de nós. Nós não
somos perfeitos, ou não teríamos nascido, mas é nossa missão nos tornarmos perfeitos
aqui*. Um passo de cada vez, uma lição após a outra, estamos cada vez mais próximos da
expressão de nosso potencial divino.

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O que é real é que você é uma criança amada de Deus. Você não tem que fazer nada
para tornar isso verdadeiro; isso é uma Verdade que foi estabelecida na sua criação. Sua
perfeição inerente é a criação de Deus, e o que Deus criou não pode ser “des-criado”*.
Outras pessoas podem pensar o que quiserem sobre você, mas é apenas sua própria
percepção, não as projeções dos outros, que programam seu futuro. É quando nós
concordamos com as projeções das outras pessoas que nos metemos em encrenca –
quando damos poder ao ego e nos alinhamos com seus julgamentos. A vergonha é o
combustível do ego, e ele adora colocá-la em qualquer situação, direcionada contra nós
mesmos ou contra outra pessoa; isso realmente não importa. Ainda assim, podemos
aprender a dizer não para a vergonha, mantendo nossas cabeças levantadas e passando
pela vida com o conhecimento de que todos nós somos igualmente abençoados aos olhos de
Deus. Nós não deveríamos nos desculpar pelo fato de que cada um de nós é um ser
infinitamente criativo, dotado por Deus com um potencial extraordinário, que Ele gostaria que
manifestássemos.
Algumas vezes, ficamos envergonhados por causa de algo que realmente fizemos, mas
em outras vezes, por causa do que outra pessoa apenas pensou que fizemos, e parece ter a
intenção de contar ao mundo. De qualquer maneira, a vergonha é uma das armas mais
viciosas do ego, certa para nos manter presos a padrões de culpa. E o propósito da culpa é
nos manter afastados da paz de Deus.
As pessoas que têm a vida que querem, são pessoas que perceberam em algum nível
que merecem tê-la. Muitos dos nossos problemas são gerados pela mente subconsciente,
como um reflexo da nossa própria crença de que, em algum nível, nós merecemos ser
punidos. Essa é a mensagem constante do ego: “Você é mau, você é mau, você é mau”. E,
quando a dor desse sentimento parece difícil demais de suportar, somos tentados a pensar,
‘Não, aquela pessoa é má, não eu”. Um dia, percebemos que realmente não tem que haver
alguém para culparmos. O estrago terrível que é feito nesse mundo é menos por causa de
poucas pessoas cujos corações realmente se voltaram para o mal, e mais por causa dos
milhões de almas basicamente boas e decentes, cujos corações estão magoados e não
curados.
Em qualquer momento específico, o universo está pronto a nos dar uma nova vida, para
começarmos novamente, para criarmos novas oportunidades, para curarmos
milagrosamente as situações, para transformarmos toda escuridão em luz, e medo em amor.
A luz de Deus brilha eternamente clara, intocada por nossas ilusões. Nosso trabalho é
inspirar profundamente, diminuir o ritmo, entregar todos os nossos pensamentos do passado
ou do futuro, e deixar que o Instante Santo brilhe sobre a nossa consciência. Deus não é
amedrontado por nossos pesadelos de culpa; Ele está sempre desperto para o quanto
somos lindos. Ele nos fez dessa maneira, e assim é.

Auto-Perdão
Algumas vezes, você vê padrões negativos se repetindo em sua vida, e não sabe como
mudá-los. Você começa reconhecendo que, como afirma o Um Curso em Milagres, “Eu não
sou uma vítima do mundo que vejo”. Algumas vezes, nós não podemos ver exatamente
como criamos um desastre, mas ainda podemos assumir a total responsabilidade pelo fato
de que o fizemos. E isso é um começo.
Não importando o que as outras pessoas possam ter feito a nós – e existem pessoas
que não são boas nesse mundo, que fazem coisas terríveis – ainda é nossa opção
perdoarmos, nos elevarmos acima disso, sermos sem defesas, e, importante também,
investigarmos nossas mente e corações procurando maneiras através das quais poderíamos

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ter ajudado a criar ou atrair sua escuridão. O fato de que as outras pessoas são más em uma
situação, não necessariamente significa que você é totalmente bom.
Pode ser um difícil processo olhar dessa maneira brutalmente honesta para si mesmo.
Isso pode levar a uma autocondenação dolorosa, e depois a uma necessidade de
autoperdão, que pode ser pelo menos tão difícil quanto perdoar os outros.
Algumas vezes, percebemos que uma parte da nossa personalidade é o ego baseado
no medo. Outros poderiam nos julgar por isso, mas nem é isso que é importante. Na
verdade, isso é irrelevante, porque apenas o ego de alguém iria sentir a necessidade de
apontar o nosso. As questões do seu ego não importam por causa do julgamento das outras
pessoas sobre você, elas importam porque estão bloqueando sua luz, sua alegria e sua
disponibilidade para que Deus o use para Seus propósitos. Sessenta watts não podem
passar por uma lâmpada de trinta.
Você está na Terra para fazer sua luz brilhar pelo bem do mundo todo. As partes em
você que parecem bloqueadas em sua habilidade de fazer isso podem ser entregues a Deus
para serem curadas. Uma vez que você admita seu defeito e peça a Ele para tirá-lo de você,
Sua resposta ao seu convite será rápida e certa. Ele se lembra, ainda melhor do que você,
da dor e do sofrimento que o levou à fraqueza. Ele estava lá para você quando isso
aconteceu. Ele chorou ao ver você desenvolver sua disfunção, como se fosse uma máquina
copiadora, e Ele se rejubila com o convite para curá-lo agora.
Esses são os milagres de Deus, e eles vão transformar totalmente sua vida.
Seja o que for que nos recusemos a olhar em nós mesmos, vamos projetar mais
facilmente nos outros. Um dos benefícios de enfrentar nossa própria fraqueza é que isso nos
ajuda a nos tornarmos mais compassivos em relação aos outros.
Em qualquer situação, existe um foco em nossa percepção. Deus gostaria que
estendêssemos nossa percepção para além do que os sentidos físicos percebem, para o
amor que está além. Pois, quando vemos esse amor, podemos trazê-lo à tona. Os sentidos
físicos exibem um véu de ilusões: o que as pessoas disseram e fizeram no plano mortal. Mas
nós levantamos o véu vendo além dele e invocando a verdade real. Esse é nosso propósito
nas vidas uns dos outros: invocarmos a grandeza dos outros e trabalharmos com milagres
em suas vidas.
De acordo com Um Curso em Milagres, é nosso trabalho dizer a alguém que ele está
certo mesmo quando está errado*. Isso significa que podemos afirmar a inocência essencial
de alguém mesmo quando estivermos lidando com seu erro. Essa distinção, entretanto –
entre alguém simplesmente cometendo um erro que você precisa discutir com ele, e alguém
sendo “culpado” de algo – é imensa.
Uma conversa que tive com uma amiga é um exemplo.
Minha amiga Ellen e eu estávamos fazendo um projeto juntas. Uma situação surgiu,
sobre a qual eu tinha certeza de não querer tomar uma atitude imediata. Ele discordou e
continuou me pressionando para fazer algo. Eu dizia, “Eu não quero fazer nada nesse exato
momento. Tenho que pensar sobre isso”, e ela dizia, “Por que não podemos simplesmente
fazer desse jeito? Por que não?”.
Finalmente, me sentindo pressionada, eu me rendi a ela. E, é claro, poucos dias depois,
percebi que tinha cometido um erro.
Então, aqui estava eu, aborrecida comigo mesma por ter cedido à pressão para fazer
algo que ia contra meu próprio conhecimento interior, e também aborrecida com minha
amiga por ter me pressionado para início de conversa. Então, a questão espiritual era: Eu
devo dizer alguma coisa a ela, ou devo simplesmente engolir meus sentimentos?

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Existe um meio termo, no qual nem julgamos os outros, nem reprimimos nossos
sentimentos. Podemos nos expressar honestamente, e demonstrar compaixão ao mesmo
tempo.
Eu compartilhei com ela o fato de que não estava feliz com o que tinha sido pressionada
a fazer. Ellen começou a ficar na defensiva e a dizer o quanto ela me amava, e que nunca
teria feito isso. Eu disse, “Espere. Eu amo você também. E eu sei que você me ama. Mas
você realmente fez isso”.
“Esse não é um universo infalível, Ellen. Nossa amizade é muito, muito maior do que um
erro que qualquer uma de nós tenha cometido, e essa situação não ameaça nem um pouco a
realidade do nosso amor uma pela outra, como amigas. Mas, dentro desse amor, amigos têm
que ser capazes de compartilhar sua verdade uns com os outros. Eu preciso que você saiba
que (1) Eu amo você e isso de maneira alguma muda esse fato, (2) Eu sei que sou
basicamente responsável pelo meu próprio comportamento, não importando o que você
tenha feito, e (3) espero que você não me pressione desse jeito outra vez”.
Pude senti-la relaxando, pois ela não sentia mais a necessidade de ser defensiva. E,
daí por diante, ela fez tudo o que pôde para corrigir o problema. Essa mudança – do seu
medo de que seu erro era mais importante do que nosso amor, para a clareza de que nosso
amor era mais importante do que seu erro – criou uma abertura emocional que fez toda a
diferença. Quando nos sentimos acusados, nossas defesas se elevam. E, todas as defesas
são um ataque passivo*. Esse ciclo de violência emocional, embora sutil, é o início de todos
os conflitos no mundo. Nossa mudança fez a diferença entre a situação magoar nosso
relacionamento ou aprofundá-lo. Ela provocou a última situação porque a verdade está
presente em todos os níveis.
Os milagres acontecem quando a comunicação total é dada e recebida*. Muitas vezes,
apenas comunicamos metade da verdade; tanto enfatizamos nosso aborrecimento em
relação a alguém, sem reforçarmos o amor mais amplo que envolve o relacionamento,
quanto enfatizamos o amor, sem honrarmos nossa necessidade de falar sobre o problema.
Cada uma dessas maneiras é um uso não milagroso, não criativo, da mente, e vai levar a um
coração não curado.
Deus nos chama para sermos tanto honestos quanto compassivos. Como Ele é.

Invocando o Bem
Ficarmos presos à raiva, julgamento e acusação é enfraquecedor, nos tira do nosso
equilíbrio, nos põe sob a influência da falta de amor de outra pessoa. Ficar nessa situação
por pouco tempo é uma coisa, ficar lá e tentar justificá-la é uma disposição errada, e não vai
levar à paz. A espiritualidade nos desafia a nos desapegarmos dos aspectos emocionais,
puramente pessoais, de uma situação – a necessidade do ego de estar certo – para nos
elevarmos ao solo sagrado. Isso não significa que não vamos sentir nossa dor, raiva ou
desespero, mas existe uma maneira de mantermos tais sentimentos de uma maneira
sagrada, ao invés de caótica, a fim de que eles nos curem, ao invés de nos envenenarem.
Sempre que nossas vidas não estiverem funcionando da maneira que gostaríamos,
nossa tendência instintiva é culparmos outra pessoa. Dos pais disfuncionais à sociedade
corrupta, de ex-parceiros amargos a colegas desleais, carregamos conosco uma lista de
ofensas: se apenas isso ou aquilo fosse diferente, minha vida seria boa. “Eu fui prejudicado,
você vê, e é por isso que não sou feliz”.
Ainda assim, em algum lugar, bem dentro de nós, uma pequena voz irrompe: “Talvez
sim, talvez não...”. A única maneira de podermos ser felizes é se quisermos assumir a
responsabilidade por nossa própria experiência. Mesmo quando alguém realmente nos

77
prejudicar, é importante perguntar a nós mesmos que parte, mesmo que pequena, podemos
ter desempenhado inconscientemente tanto em criar a situação, quanto em pelo menos
permitir que ela ocorresse.
Nosso primeiro trabalho é perguntar a nós mesmos, “O que eu faço, ou não faço, para
contribuir para esse desastre?”. Embora outras pessoas possam ter seu próprio karma para
transmutar, podemos pelo menos tentar transmutar o nosso.
Eu tive uma experiência que me magoou profundamente, na qual me vi sendo abusada
– não apenas por um indivíduo, mas por um grupo de pessoas agindo em um tipo de acordo
psicológico. Minha experiência não era única, pois muitas pessoas têm experimentado o que
eu chamaria de “abuso institucional”.
Ainda assim, foi só quando eu quis retirar minha crença na realidade máxima do que
tinha sido feito a mim, foi que eu pude me liberar dos efeitos do que foi feito a mim. No nível
do espírito, ninguém tinha feito nada para me magoar, porque lá, apenas o Amor é real.
Comportamentos não amorosos certamente aconteceram, mas, se apenas o amor é real,
então, apenas ele pode me tocar*. Deus poderia mais do que me compensar por qualquer
estrago que tenha sido feito, pois “o que o homem tenciona como mal, Deus tenciona como
bem”. Enquanto eu segurei meu perdão, entretanto, segurei minha própria cura também.
Se eu pudesse perdoar o que havia acontecido comigo, eu me tornaria mais profunda e
preparada para servir a Ele. Não é da minha conta o que acontece com os outros que
estavam envolvidos nesse drama. O único drama que importa é o que está em minha própria
cabeça e coração. Se eu chegar a entender que nenhum tipo de mentira, injustiça ou
transgressão poderia até mesmo tocar quem eu essencialmente sou, então, vou receber o
maior prêmio de todos: vou aprender quem sou em essência. Pois a parte de nós a quem se
pode mentir, insultar, tratar mal ou trair é apenas uma ficção da nossa mente mortal.
Marianne Williamson é uma porção de um ser maior, assim como todos nós. Eu, Marianne
Williamson, posso ser magoada, mas o ser maior no qual eu habito, não pode. Nossa
oportunidade, quando estamos sofrendo, é nos lembrarmos de que quem realmente somos
não pode ser magoado. Quando olhamos para além do mortal no nosso perseguidor, então,
– e só então – poderemos experimentar o que está além do mortal em nós mesmos.
Podemos ter uma mágoa, ou podemos ter um milagre; não podemos ter ambos*. E eu
sabia que queria um milagre. Eu não queria conservar nenhum pensamento de malícia ou
vingança. Eu queria estar livre da mesquinhez que me foi mostrada, e, talvez, eu só pudesse
fazer isso arrancando a mesquinhez de dentro de mim. Se essa era a lição, eu queria
aprendê-la. E o amor que eu recebi durante aquela época – daqueles que testemunharam
minha dor e fizeram tudo o que puderam para me confortar – fez com que a crueldade da
situação se tornasse suportável.
Se nós permitirmos, Deus nos compensa por essas épocas difíceis, usando-as para
transformar nossas vidas em algo ainda melhor do que antes. Tanto no mundo espiritual
quanto no físico, quando o céu está mais escuro, conseguimos a melhor visão da luz das
estrelas. Como o dramaturgo da Grécia antiga, Ésquilo, escreveu, “Em nosso sono, a dor
que não pode ser esquecida escorre, gota a gota, sobre o coração humano, e, em nosso
próprio desespero, contra nossa vontade, vem a sabedoria através da sublime graça de
Deus”.

As Ofensas mais Profundas


Você prefere ter razão ou ser feliz?*
Obviamente, as pessoas algumas vezes fazem coisas terríveis, mas, se nosso foco
estiver sempre na culpa das pessoas, então, vamos nos descobrir vivendo em um universo

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obscuro e vicioso. Nossa capacidade de mudar nosso foco da culpa para a inocência é
nossa capacidade de mudar nosso mundo. Isso não significa que deveríamos olhar para
outro lado quando coisas ruins acontecem, ou deixarmos de lutar pela justiça. Apenas
significa que existe uma isca pessoal à qual não temos que nos agarrar – que sempre
podemos acreditar na bondade básica das pessoas, mesmo quando seu comportamento não
reflete sua bondade.
Ao contrário da opinião popular, essa não é uma posição ingênua nem fraca. Isso não
significa que tenhamos ilusões sobre a natureza ou o poder do mal. Ainda assim, o
trabalhador de milagres tem uma visão mais sofisticada, não menos, de como lidar com isso.
Gandhi nunca ficou com raiva dos imperialistas britânicos? Martins Luther King Jr nunca ficou
com raiva dos fanáticos sulistas? É claro que sim. Eles eram humanos. Ainda assim, com a
ajuda de Deus, eles trabalharam sua raiva, movendo-se através dela para algo muito mais
poderoso: o amor que estava além. Seu processo espiritual instruiu seu processo político e
social, dando a eles a autoridade máxima para mover corações e, portanto, mover
montanhas.
Até que façamos isso, talvez reunamos todos os tipos de pessoas para concordarem
com nossa posição e nos apoiarem em nossa raiva. Mas, dessa maneira, vamos alcançar
ganhos de curto prazo, na melhor das hipóteses; não vamos trabalhar com milagres. O amor
não é apenas um sentimento: é uma força. E ele é uma força que, no final das contas, é mais
poderosa do que qualquer tipo de violência.
Perdoar aqueles que fizeram transgressões em relação a nós não é fecharmos os olhos
para o mal, mas, ao invés disso, o entregarmos a uma autoridade maior para a justiça
máxima. A Bíblia diz, “A vingança é minha, disse o Senhor”. Isso significa que isso é assunto
de Deus, não seu. Mesmo quando praticamos os piores crimes, podemos nos lembrar de
que a culpa, em termos de leis humanas, não é sinônimo da culpa diante de Deus. Quando
Deus dividiu o Mar Vermelho para que os israelenses o atravessassem, os soldados egípcios
os seguiram. Nesse ponto, Deus fechou as águas, e os egípcios se afogaram. Quando os
israelenses começaram a dar vivas pela destruição de seus inimigos, entretanto, Deus os
mandou parar. Eles não deviam dar vivas pela morte de outros seres humanos, mesmo
quando a justiça de Deus considerou isso necessário. Então, nunca deveríamos ter qualquer
prazer com o sofrimento de outra pessoa, mesmo que ela “mereça” isso. Nós devemos nos
manter na luz, na consciência divina, mesmo quando temos que lidar com a escuridão do
mundo. Apenas dessa maneira, as duas um dia serão reconciliadas.
Se você tiver sido completamente vitimado de acordo com a definição do mundo, então,
receba de coração a noção do dr. Martin Luther King Jr de que existe “poder redentor no
sofrimento imerecido”. É nossa atribuição espiritual amarmos mesmo aqueles que praticaram
transgressões contra nós: pois, no esquema último das coisas, eles estão aprendendo
também.

O Milagre do Perdão
Quando estou pensando sobre como pode ser difícil perdoar, me lembro das pessoas
que tiveram coisas infinitamente mais difíceis para perdoar do que eu, e tiveram sucesso.
Elas são como exemplos sagrados a ser seguidos, e as bênçãos que elas invocaram sobre
elas, também me abençoam.
Um exemplo inspirador desses é Azim Kamisa. O filho de vinte anos de Azim, Tariq, era
um aluno da faculdade de San Diego, que ganhava um dinheiro extra entregando pizzas, por
volta de 1990, quando foi morto a tiros por um menino de quatorze anos, em um homicídio
sem sentido, relacionado a gangues. Azim, como qualquer pai de uma criança assassinada,

79
experimentou trauma e pesar além do que parecia humanamente suportável. Ainda assim,
através dos anos, ele tem demonstrado, e experimentado, o milagre do perdão.
Azim, um sufi religioso, ouviu de seus conselheiros espirituais, que depois de quarenta
dias sofrendo por seu filho, ele precisava transformar seu pesar em boas obras. Apenas
dessa maneira, eles disseram, ele poderia ajudar seu filho a passar para o próximo estágio
na jornada de sua alma. Fazer isso, então, se tornou a missão de Azim na vida: agir de uma
maneira que ajudasse seu filho mesmo depois da morte. Eles disseram que, ao invés de
chorar a morte, ele precisava fazer atos bons, compassivos, pelos vivos. Pois esses atos são
como energia espiritual, provendo combustível de alta qualidade para a alma dos que
partiram. Dessa forma, Azim poderia servir ao seu filho, embora o rapaz não estivesse mais
com ele. Tendo sentido que havia perdido todas as razões para viver, Azim começou a sentir
um novo propósito em sua vida. Canalizar seu sofrimento para um trabalho positivo,
significativo, iria beneficiar tanto a Tariq quanto a ele mesmo.
Quando Azim soube que Tariq havia sido assassinado, ele disse que foi como se uma
“bomba nuclear tivesse caído sobre minha cabeça”. Ele se lembra da experiência de deixar
seu corpo, e de sua força vital, ou prana, partir com ele. Ele foi para os “braços amorosos de
(seu) criador”, e, quando a explosão finalmente cessou, Azim voltou para seu corpo. Quando
ele voltou, tinha recebido uma revelação: de que havia vítimas dos dois lados da arma.
Essa percepção levou Azim a procurar o avô do menino que matou seu filho, com quem
o garoto, Tony, estava vivendo na época do assassinato. O avô, Ples Felix, era um Boina
Verde que tinha servido duas vezes no Vietnã, e tinha um diploma em desenvolvimento
urbano. Tony foi viver com seu avô com a idade de 9 anos, depois de sofrer abusos violentos
contra si mesmo, e de assistir ao assassinato do seu primo. Quando tinha nove anos, Tony já
estava destruído pelo ódio. Lendo nos jornais sobre o menino e seu avô, Azim sentiu
compaixão pela sua história.
Azim pediu ao procurador do distrito para apresentá-lo a Ples, e eles se encontraram no
escritório do defensor público que estava representando Tony. Azim disse a Ples que não
sentia animosidade em relação a Tony ou à sua família, e que tinha percebido que as duas
famílias estavam traumatizadas por esse incidente trágico. Ele estava preocupado com Tony
e com as outras crianças que estavam tentando enfrentar um mundo tão violento, no qual a
criança americana média já viu 100.000 imagens de violência na TV, filmes, e vídeo games
antes de entrar no primeiro grau.
Azim contou a Ples que havia organizado uma fundação em memória do seu filho, para
ajudar a impedir as crianças de matarem outras crianças. Ples disse que faria tudo o que
pudesse para ajudar. Ao dar a ele suas condolências, Ples contou a Azim que, desde o dia
do assassinato, a família Khamisa estava em suas orações diárias e meditações.
Azim convidou Ples para o segundo encontro da fundação algumas semanas mais
tarde, onde Ples conheceu toda a família Khamisa. Ples falou apaixonadamente sobre sua
própria experiência, dizendo que a fundação era uma resposta às suas preces. Uma estação
de televisão de San Diego filmou o avô de Tariq cumprimentando o avô de Tony:
“Claramente”, eles noticiaram, “esse é um aperto de mãos diferente”.
Hoje, Azim é o presidente da diretoria da Fundação Tariq Khamisa, e Ples é o vice-
presidente. Os homens ficaram próximos, e Azim diz que, se tivesse que escolher dez
pessoas que eram mais próximas dele em sua vida, Ples seria uma delas. A fundação se
tornou um ministério pessoal para os dois homens, e existe um emprego lá, esperando por
Tony, no dia em que ele for libertado da prisão.

80
Aquilo que é Mais Difícil para Todos Nós
É muito difícil falar ou até pensar em perdão quando somos confrontados com a
realidade do 11 de setembro de 2001. Apenas o silêncio – não a palavras – pode expressar o
horror daquele dia.
Ainda assim, ao mesmo tempo, uma conversa mais profunda está disponível para nós,
do que aquela que agora está dominando o diálogo público. Se nós apenas nos mantivermos
agarrados à linha simplista de que “Eles são maus, nós somos bons; vamos matá-los”, então,
estaremos perigosamente fora de equilíbrio, tanto espiritual quanto politicamente.
Quando as Torres Gêmeas foram destruídas, a severidade do choque emocional
empurrou a América para dentro dos nossos corações. E, com nossos corações
recuperados, nossas mentes começaram a trabalhar melhor também. Nós éramos uma
nação, uma verdadeira comunidade; alguns de nós experimentando isso pela primeira vez
em nossas vidas. E a pergunta muito inteligente na ponta da língua de muitas pessoas era,
“Por que essas pessoas nos odeiam tanto?”. Nas mesas de jantar e ao redor dos
bebedouros nos escritórios, fizemos perguntas que nunca foram questionadas o suficiente
nas últimas décadas. O que a América estava fazendo ao redor do mundo e como somos
percebidos pelos outros? Até mesmo a tendência naquele momento na televisão americana,
nem sempre conhecida por sua profundidade intelectual, era entrevistar pensadores políticos
e filósofos brilhantes para educar o povo da América sobre as questões que agora tínhamos
que reconhecer, dolorosamente, que eram relevantes para nossas vidas.
Ainda assim, vários dias depois, foi como se alguém tivesse puxado o plugue da
tomada. Não havia mais pensadores interessantes na TV, apenas incentivadores da
vingança. Nós passamos para uma posição de guerra e, rapidamente; essa posição não
podia tolerar a sugestão de que a América tinha até mesmo a mínima responsabilidade em
atrair nosso infortúnio. Qualquer um até que sugerisse isso, era descrito como “censurável
pela América”. Clichês foram substituídos por conversas sem significado; excelência
intelectual, ceticismo saudável, e qualquer discussão sobre espiritualidade ou compaixão,
relacionadas à ameaça do terrorismo, foram consideradas maquinações de americanos não
patriotas.
Ainda assim, percebemos que foram as pessoas que mais sofreram em 11/9 que muitas
vezes demonstraram a capacidade de ter a visão mais elevada sobre o que aconteceu
naquele dia. Pressionando por uma comissão para o 11/9 à qual o próprio presidente estava
resistindo, formando grupos como as Famílias do Onze de Setembro por um Amanhã
Pacífico, que marca sua posição pela compaixão e pelo perdão, em meio dessa escuridão
assustadora, aqueles que mais sofreram tomaram a posição mais firme pelo poder da
verdade.
Um dia, eu estava assistindo a uma mesa redonda de discussão na tv com as vítimas
do 11/9. Uma mulher tinha perdido seu marido no World Trade Center; um homem havia
perdido seu jovem filho, que estava trabalhando no Pentágono quando ele foi bombardeado.
No final da discussão, o âncora fez uma última pergunta: “Você quer vingança?”
Uma expressão de dor atravessou o rosto de cada membro da mesa redonda diante
dessa questão. Eu me lembro de uma mulher dizendo, “Não, porque não posso imaginar
ninguém mais passando pela dor que nós atravessamos”. O homem que perdeu seu filho
disse, !”Não, acho que temos que encontrar uma maneira de fazer com aquelas pessoas do
lado de lá saibam quem nós somos, para que não nos odeiem mais”. O terceiro participante
disse algo similar. E, então, o próprio jornalista, que não tinha sofrido nenhuma perda
pessoal no 11/9, disse: “Bem, eu quero vingança, e quero que ela seja violenta e imediata”.
Era óbvio que aqueles que mais haviam sofrido, haviam sido elevados a um plano ao qual

81
ele não havia sido elevado. Eles não queriam continuar com a violência; eles apenas
queriam que ela tivesse um fim.
Existem guerras que a grande maioria de nós chamaria de “guerra justa”, como o
envolvimento da América na Segunda Guerra Mundial. Agora, como naquela época, existem
pessoas que querem o mal do nosso país e que nos matariam se pudessem; é claro que é
nossa responsabilidade e direito nos defendermos. Mas, a conversa não deveria parar por aí.
Se nossa primeira responsabilidade como indivíduos é aceitar a Expiação para nós mesmos,
então, a primeira orientação nos negócios da América deveria ser tornar nossas próprias
ações corretas em relação a Deus. Nenhuma nação deveria temer a profunda reflexão e
auto-exame. O que deveríamos temer é nossa urgência em evitá-los.
A América tem que se encarregar de nossa própria expiação. Um coração humilde,
através do qual admitamos nossos próprios erros e busquemos viver um relacionamento
mais justo com as pessoas do mundo, é uma abordagem espiritual à nossa situação atual, e
é um complemento saudável a outras opções mais agressivas para resolver o problema. Tão
logo a força bruta é considerada o poder maior, e o amor é considerado essencialmente
fraco, então estamos zombando de Deus, e lidando de maneira perigosa com nosso futuro.
Nem todo câncer pode ser cirurgicamente removido, e quando ele é inoperável,
sabemos que a prática espiritual pode ser eficaz em ajudar a curar o corpo. O terrorismo não
é um tumor operável, ainda que talvez finjamos que seja. Ele é, na verdade, um câncer que
já sofreu metástase através de todo o corpo global, e, enquanto algumas medidas invasivas
possam ser apropriadas, uma perspectiva holística – na qual reconheçamos que os poderes
da mente e do coração ajudam a ativar nosso sistema imunológico social – traz meios mais
maduros e efetivos de lidarmos com isso do que a crença exclusiva do ego na desforra e na
vingança. Se o ódio for mais poderoso do que o amor, então estamos no caminho errado. Se
o amor for mais poderoso do que o ódio, então, estamos sendo guiados em uma direção
muito, muito forte.
No centro do ideal americano estão valores eternos de justiça e relacionamento correto.
A única maneira de navegarmos por esses tempos algumas vezes perigosos é sermos fiéis
aos nossos valores, não nos afastarmos dele perseguindo uma vantagem de curto prazo.
Nações, como indivíduos, emergem espiritualmente da Mente de Deus. Nós só vamos
encontrar nossa segurança Nele, e Ele é amor.
Nele, todos somos um. Ele ama cada nação tanto quanto ama a nossa, e a benção dos
EUA tem sido nossa posição pela igualdade de todas as pessoas. Ao nos desviarmos dessa
posição – construindo tantas barreiras entre nós e os outros – estamos literalmente
rejeitando Deus. Sua maior dádiva para nós não é que Ele vai nos dar a vitória na batalha,
mas que Ele vai nos elevar acima do campo de batalha*. De lá, vamos ver o que não
estamos vendo agora. E o poder dessa visão vai pavimentar o caminho para a paz
verdadeira.

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CAPÍTULO OITO

Da Separação
para o Relacionamento

Cada um de nós é o centro do universo. Tudo o que experimentamos está acontecendo


dentro de nós, não do lado de fora. No nível mais profundo, não existe mundo fora de nós*.
O mundo como o conhecemos é uma projeção manifesta de nossas formas-pensamento,
nem mais, nem menos. Ele é criado pelo pensamento, e é criado pelo pensamento de cada
um de nós.
Nós somos servilmente devotados à noção do ego de que somos nossos corpos –
meros montinhos de poeira, rodeados por um universo imenso, sobre o qual não temos
controle. E, se for isso o que pensarmos, então, essa será nossa experiência. Mas, existe
outra maneira de ver o mundo, através da qual vamos reconhecer que nossa força vital é
ilimitada, porque somos um com um Deus ilimitado. Não importando o que façamos ou o que
já tivermos feito, agora, nesse momento, somos templos incorporando a glória de Deus.
Qualquer situação vista através da luz dessa compreensão é milagrosamente transformada.
Feche seus olhos e imagine-se como você aparece no mundo. E agora, veja uma luz
dourada que se irradia de seu coração, se estende além do seu corpo, e se irradia para o
mundo todo. Agora, imagine outra pessoa parada perto de você, um amigo ou inimigo, e veja
a mesma luz dentro dessa pessoa. Observe a luz conforme ela cresce até cobrir todo seu
corpo e se estende além. Agora, veja a luz na outra pessoa conforme ela se funde com a luz
em você. No nível do espírito, não existe lugar onde os outros terminam e você começa.
Se fizer isso com qualquer pessoa, seu relacionamento com ela vai mudar sutilmente.
No cântico de Natal, onde cantamos “Você vê o que eu vejo?”, existe uma questão mais
profunda sendo perguntada do que se alguém vê uma criança física em uma manjedoura.
“Você vê o que eu vejo?” refere-se a uma questão de consciência, como, você vê a realidade
espiritual? Você compreende isso, você pode imaginar isso? Pois, se você o fizer, pode tê-la.
A possibilidade existe.
Quando nós percebemos que não somos quem pensamos ser – que o mundo nos
contou uma mentira imensa e pecaminosa – percebemos que as outras pessoas também
não são quem parecem ser. E nem os nossos relacionamentos, pois, como espíritos, não
somos separados, mas um só.
Uma idéia não deixa sua fonte*. Você é literalmente uma idéia na mente de Deus, e é
por esse motivo que não pode ser separado Dele. E o mundo que você experimenta é uma
idéia na sua mente, e é por isso que ele não pode ser separado de você.
Nós somos como raios de sol pensando que somos separados do sol, ou ondas
pensando que somos separados do oceano*. Mas, raios de sol não podem ser separados, e
ondas, é claro, não podem ser separadas*. A idéia da nossa separação não é nada além de
uma imensa alucinação*. E, então, é aí que nós vivemos: na ilusão de que você está lá e eu
estou aqui. Essa ilusão – de que somos separados – é a fonte de toda nossa dor.
O ego sugere que esse espaço será preenchido por uma pessoa “especial”, ao invés de
ser preenchido por um sentido correto de nosso relacionamento com todos. Entretanto, isso
é mentira. Apenas pense sobre isso: se, na verdade, você é um com todos, embora pense
que não é, então, imagine de quantas pessoas você está, subconscientemente, sentindo

83
falta! Não é de se espantar que sintamos um vazio desses, um tal vazio existencial dentro de
nós. Nós sentimos falta de um relacionamento correto com todos.
Nos sentindo separados do amor, nós sentimos um pânico tão profundo que nem
mesmo podemos reconhecer. Assim como a Terra está se movendo tão rapidamente que
não podemos mais sentir a velocidade, nossa histeria é tão profunda que não ouvimos mais
nosso próprio grito. Ainda assim, isso permeia nosso ser, exigindo que façamos algo,
qualquer coisa, para aliviar a dor. E Deus sabe que tentamos: de maneiras tanto saudáveis
quanto não saudáveis, continuamos tentando preencher o vazio que apenas nossa entrega
ao nosso amor por toda a vida pode preencher. E sempre, existe a raiva que a separação
engendra: nossa raiva de nos sentirmos separados, embora não estejamos conscientes
disso.
Em Deus, existe a salvação, pois Ele mandou o Espírito Santo para voltar a unir nossos
corações, corrigindo nosso pensamento. Ele pode desmantelar nosso sistema de
pensamento baseado no medo, e substituí-lo por um sistema de pensamento baseado no
amor. Ele vai nos dar uma nova mente.
Essa nova mente espera por nós no próximo estágio de nossa jornada evolutiva. Nós
estamos sendo desafiados pelas forças de história a crescermos até essa mente, para
passarmos por uma mutação, dessa maneira, para que nossa espécie sobreviva. Jesus tinha
essa nova mente, chamada nele de Mente Crística, assim como Buda e outros. Essa é a
mente que é ofuscada por Deus, nossa mente quando nos tornarmos um com a Dele,
quando tivermos tocado a luz celestial e tivermos sido permanentemente modificados por
ela. Esse estado de iluminação é a exaltação da nossa existência, a elevação de nossa
consciência humana para um lugar tão elevado que vamos nos manifestar, finalmente, como
as crianças de Deus que realmente somos.
E, quando o fizermos – quando percebermos que não somos apenas como os outros,
mas realmente somos os outros – então, vamos começar a achar que a vida fora do reino do
amor não é aceitável. Com o tempo, isso vai se tornar literalmente impensável. E, tornando-
se impensável, vai deixar de existir.

Derrubando as Barreiras
Quantas vezes você viu um padrão em seus relacionamentos, que se sentiu impotente
para mudar? Quantas vezes você se desesperou apenas em pensar em se livrar do
comportamento de auto-sabotagem? Com que profundidade você entrou em pânico com o
pensamento de que poderia nunca se livrar dele?
Nosso desespero e pânico são respostas naturais para os dramas de relacionamento
que nós criamos em nossas vidas. Mas, nossas lágrimas não são o que pensamos, porque a
própria situação difícil não é o que pensamos. O que nos separa dos outros não é apenas a
co-dependência, nossa miséria ou qualquer outra questão meramente psicológica. Nossas
barreiras ao amor representam uma força cósmica, oculta dentro da psique humana de
maneira obscura e insidiosa, mantendo um domínio – temporário, mas perverso – sobre o
funcionamento mental da criança de Deus. É completamente irrelevante que força essa
barreira vá assumir. Nossa concentração na forma do medo é uma manobra do ego para nos
manter presos ao problema, como encontrar um ladrão em sua casa e dizer, “Eu tinha que
saber seu nome antes de chamar a policia”. Quem se importa qual é o nome dele? Peça
ajuda imediatamente!
O ego é nosso mais profundo inimigo, mascarado de nosso amigo mais próximo.
Entretanto, ele não é nada que devamos temer, porque, no momento em que o
reconheçamos como uma mera má criação mental – simplesmente uma falsa crença sobre

84
quem somos – ele vai desaparecer no nada de onde veio. Nós mesmos, entretanto, não
podemos mandá-lo embora. Ele se escondeu por nossa vontade, e confundiu nossas
defesas. Como uma doença auto-imune que ataca as células do próprio corpo, o ego ataca a
mente à qual ele finge dar vida. Apenas Deus pode nos ajudar.
E Ele vai. Ele vai nos mostrar a inocência nos outros, para que possamos vê-la em nós
mesmos. Através do Seu Espírito Santo, Ele vai vencer nosso auto-ódio e voltar nossos
corações para o amor*.
A maioria de nós – todos nós na verdade, exceto os mestres iluminados – vive, em
alguma extensão, em um estado de “retenção de amor”. Estamos esperando para ver se
uma pessoa é boa o suficiente para receber nossa gentileza, nossa generosidade, ou nosso
amor. As pessoas dificilmente ainda têm encontros; nós temos audições. Nós prensamos
que precisamos compreender uma pessoa, para ver se ela merece nosso amor, mas, na
verdade, a menos que as amemos, não podemos compreendê-las*.
A religião de alguém, sua aparência, status financeiro, posição profissional – tantas
coisas são usadas pelo ego para ditar quem é merecedor ou apropriado para nós. Ainda
assim, Deus gostaria que nós mantivéssemos nossos corações abertos para as pessoas por
uma questão de fé. E, qualquer fé que tenha fechado nossos corações a qualquer pessoa
não é uma fé genuína em Deus.
Deus não está fora de nós, nem está fora de nossos relacionamentos uns com os
outros. Relacionamentos são o campo de batalha entre o ego e o espírito, que começa a se
desenvolver tão logo nascemos.
Todos nós nascemos com um coração totalmente aberto, não fazendo distinção entre
quem merece ou não nosso amor. Entretanto, a experiência de um mundo amedrontador –
no qual é triste mas necessário ensinar nossas crianças que existem perigos dos quais elas
realmente precisam se proteger – nos treina a fechar a válvula emocional que, de outro
modo, jorraria compaixão universal. O amor, que é nossa verdadeira natureza, começa a
parecer não-natural, e o medo começa a parecer natural*. Uma vez que tenhamos vivido o
tempo suficiente, um coração fechado ao invés de aberto se torna nossa resposta instintiva à
vida.
E, algumas vezes, isso acontece muito mais cedo do que deveria. Uma noite, fui com
minha mãe idosa a um restaurante adorável, e, depois do jantar, fomos à toalete feminina.
Enquanto minha mãe estava lavando as mãos, uma menininha de quatro ou cinco anos de
idade veio até a pia ao lado dela. Minha mãe, que cresceu no que eu acho que era, de
muitas maneiras, uma era mais civilizada, se inclinou para a menininha, enquanto ela lutava
para alcançar a torneira, e disse, “Tudo bem, querida, eu vou ajudá-la”.
Naquele momento, a mãe da criança saiu do seu boxe, viu minha mãe, praticamente a
empurrou da frente, e lhe deu o olhar mais desprezível que você possa imaginar. O olhar de
dor no rosto da minha mãe foi difícil de ver. Eu pensei comigo mesma, “O que você está
ensinando a sua filha, fazendo com que ela desconfie completamente de todos que ela
possa encontrar, é mais arriscado do que os riscos dos quais você está tentando protegê-la”.
Eu tenho uma filha e, obviamente, eu tive que ensiná-la a nunca ir a lugar algum com
estranhos, e assim por diante. Mas, nem mesmo falar com os outros? Ou ser gentil com
eles? Ou estar aberto de nenhuma maneira? É esse o mundo que queremos criar?
O ego iria propor um mundo no qual ninguém nunca receba um sorriso a menos que o
“mereça”. E é isso o que queremos para nossas vidas? O amor e a doação que
demonstramos uns ao outros diariamente – no armazém, na fila do banco, andando pela rua
– pode ser tão importante quanto qualquer grande gesto que fizermos para alguém amado.

85
Para Deus, todos nós somos seres amados. E quando aprendermos a amar uns aos outros
como Ele ama a todos nós, vamos preparar o terreno para o amor que mais queremos.

Mesmo Quando é Difícil


Um dia, eu estava pensando sobre minha necessidade de amar pessoas das quais eu
discordava politicamente. Isso tem sido particularmente difícil para mim nos últimos anos,
como tem sido para muitas pessoas. Eu estava pedindo a Deus para me mostrar a inocência
em algumas pessoas que eu não podia, de jeito algum, ver por mim mesma.
Em minha meditação, eu tive uma visão. Nela, eu presenciei um terrível acidente de
carro. Eu era a primeira pessoa a chegar na cena, onde vi que um homem estava preso
dentro do carro, e que o carro estava para pegar fogo. Eu imediatamente fiz todo o possível
para salvá-lo; tudo o que importava era que a vida de alguém estava em perigo. Eu trabalhei
com paixão, arranhando, lutando – e, no final, tive sucesso. Depois de um esforço imenso e
prolongado, eu finalmente libertei o homem, e o arrastei para fora do carro. E, quando eu vi
seu rosto, percebi que era Donald Rumsfeld!
Então, era isso. A mensagem não poderia ter sido mais clara. Cada ser humano é, em
primeiro lugar e acima de tudo, apenas isso – outro ser humano – e, se eu pudesse vê-los
daquela maneira, então, estaria livre. Eu ainda podia discordar das pessoas, talvez até
mesmo trabalhar para sua aposentadoria política, mas estaria livre da confusão emocional
que o julgamento cria. Toda pessoa, não importando quem seja, é uma criança de Deus. E
até que eu entenda isso, não estarei onde preciso estar para ajudar a mudar nosso mundo
destruído.
Se eu olhar para meus julgamentos sobre você, e conseguir deixá-los de lado como
trabalho do ego, que eu não tenho que obedecer – então, estou contribuindo para o trabalho
da paz na Terra. E apenas se eu quiser desistir de meus próprios julgamentos, tenho o
direito de me chamar de pacificadora. Isso é muito mais difícil do que o ativismo tradicional
da paz porque significa que estamos buscando a mudança mais profunda dentro de nós
mesmos.
A mente julgadora é um problema, então, não é? É a voz que diz, “Você pode amar
esse, mas não aquele”. Nosso trabalho é aprender a amar como Deus ama, o que significa
amar a todos o tempo todo. Não quero dizer gostar de todos, casar com todos, almoçar com
todos, e nem mesmo confiar em todos no nível da personalidade. O amor que vai nos salvar
é impessoal, não pessoal – um amor que é incondicional porque é baseado não no que as
pessoas fazem, mas no que elas são em essência.

Confiança
Então, o que fazemos com relação às pessoas que realmente não são dignas de
confiança? Devemos só amar as pessoas, até mesmo quando elas tiram vantagem de nós?
Em que ponto devemos estabelecer defesas e limites, mantendo pessoas perigosas
afastadas?
Há algum tempo, descobri que um companheiro próximo – que, naquela época, eu
pensava que era um amigo íntimo – havia desviado uma grande quantidade de dinheiro de
mim. Uma semana depois de nós finalmente chegamos a uma solução legal, alguns poucos
ex-amigos e associados fizeram uma campanha viciosa e desonesta para minar meu
trabalho. Obviamente, eu estava devastada. O que eu tinha feito para atrair tais pessoas
inescrupulosas? E como eu havia contribuído para sua traição?

86
Pensando sobre o significado espiritual dessas situações, minha questão principal era
em relação à confiança. Eu havia confiado nessas pessoas, eu havia esperado que elas
agissem decentemente. A lição que eu tinha que aprender era que eu não sou confiável?
Então, percebi que precisava ser mais digna de confiança em relação a mim mesma.
Ninguém poderia ter roubado tanto dinheiro se eu mesma tivesse cuidado melhor dele, e eu
não estaria mais lidando com pessoas que, muitas vezes antes, haviam demonstrado sua
falta de padrões éticos. Nas duas situações, havia maneiras através das quais eu poderia ter
sabido melhor. Eu estava cega para o que eu sabia ser verdade, por causa do que eu queria
que fosse verdade. Eu não estava ouvindo profundamente a minha sabedoria interior, e,
mesmo quando essa voz veio à tona, eu não prestei atenção à ela quando não quis fazê-lo.
Então, eu sofri, mas também aprendi.
De certa maneira, eu saí dessas situações não tanto confiando menos nas pessoas,
mas confiando mais em mim mesma. Eu pensei que aquelas circunstâncias eram lições
importantes para mim – sobre escolher associados de maneira mais sábia, sobre ser mais
responsável comigo mesma, e, é claro, sobre discernir entre a perfeição da alma e o
potencial pernicioso de cada personalidade. Eu agora havia experimentado a malignidade de
outras pessoas, assim como já aconteceu com muitos de nós. Mas, até que eu tenha
removido cada parte dela de mim mesma, não sou uma vítima. Eu simplesmente estou em
pé diante de um espelho muito grande, e vendo a mim mesma conforme cresço através das
minhas próprias questões. Tudo o que não é amor é um chamado pelo amor, e cada
situação é uma oportunidade de crescer.

Relacionamentos São Laboratórios


Relacionamentos são laboratórios do Espírito Santo, mas eles também podem ser
playgrounds para o ego. Eles podem ser o céu, ou o inferno. Eles são repletos de amor ou de
medo.
A maior parte do tempo, eles são um pouco de ambos.
O ego fala primeiro e mais alto, e ele vai advogar a causa da separação: a outra pessoa
fez isso ou aquilo e, portanto, não merece nosso amor*. E em qualquer momento que
escolhamos ouvir o ego – negando amor a outra pessoa – então, nessa extensão, ele nos
será negado. Sabendo que a mente trabalha dessa forma, podemos pedir ajuda. Podemos
rezar para um poder maior do que o nosso para repelir a tempestade do pensamento
neurótico.
Para o ego, o propósito de um relacionamento é servir às nossas necessidades da
maneira que as definimos. Eu quero esse emprego; Eu quero que ele ou ela case comigo; Eu
quero que essa pessoa veja as coisas da mesma maneira que eu. Para o Espírito Santo, o
propósito de um relacionamento é servir a Deus.
Cada relacionamento é parte de um currículo divino planejado pelo Espírito Santo. Ele
está lá por uma razão, mas a razão pode não ser aquela que lhe atribuímos. O ego e Deus
têm intenções diametralmente opostas.
A única maneira de termos certeza de que não estamos jogando jogos mentais doentios
e destrutivos em uma situação – particularmente nos relacionamentos onde o ego investiu
muito – é convidarmos o Espírito Santo para entrar lá e prevalecer. Tão logo você pense em
fazer isso, coloque o relacionamento no altar de Deus dentro da sua mente.

Querido Deus,
Eu coloco meu relacionamento com...
Em Suas mãos.

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Que minha presença possa ser uma benção para sua vida.
Que meus pensamentos em relação a ele(a) possam ser de inocência e amor,
E que meus pensamentos em relação a mim mesma sejam de inocência e amor.
Que tudo mais possa ser banido.
Que nosso relacionamento seja elevado
A uma ordem divina correta,
E tome a forma
Que melhor sirva aos Seus propósitos.
Que tudo possa desabrochar,
Nisso e em todas as coisas,
De acordo com Sua vontade.
Amém.

Das Mágoas para a Cura


Algumas vezes, tentamos tirar o pincel das mãos de Deus, presumindo erroneamente
que podemos fazer uma pintura melhor do que Ele. O ego vai tentar conseguir um
relacionamento para se adequar à nossa idéia de como ele deveria ser, ao invés de permitir
que ele se revele organicamente. Temos imagens e idealizações que tentamos impingir aos
outros pensando, “Isso deveria ser assim”, ou “Eles deveriam agir assim”. Entretanto, no
nível mais profundo, nós somos simplesmente almas encontrando outras almas, e
relacionamentos deveriam ser locais onde libertamos uns aos outros, não aprisionamos uns
aos outros. Quando nossa consciência é simplesmente a da criança de Deus honrando outra
– não importando a aparência das coisas no mundo exterior – nós exalamos uma paz e
aceitação que impulsiona as pessoas ao seu potencial máximo. Quando estamos calmos, as
pessoas ao nosso redor ficarão mais calmas; quando somos gentis, as pessoas ao nosso
redor serão mais gentis; quando somos pacíficos, as pessoas ao nosso redor serão mais
pacíficas. Uma vez que encontremos o amor dentro de nós, inspirá-lo em nossos
relacionamentos se torna muito mais fácil.
Até mesmo quando os relacionamentos são bons, o ego está sempre alerta para
maneiras de poder manter dois corações separados. O ego nos direciona para o amor, mas
então, o sabota assim que chegamos lá. Você pensa que está tão apaixonado, mas, então,
age de maneira carente e o repele. Você pensa que está se sentindo em paz, mas, então, o
amor se aproxima e você fica neurótico. Você quer causar uma boa impressão, e, então, sai
e age como um idiota.
O ego está sempre procurando maneiras de minar nossos relacionamentos porque
relacionamentos genuínos significam a morte para ele. Onde nós nos unimos com outra
pessoa, Deus está; e onde Deus está, o ego não pode estar. Para o ego, portanto, minar
nossos relacionamentos é um ato de auto-preservação. A única maneira de repelirmos sua
destrutibilidade é permanecermos firmes em nosso compromisso com o amor – não apenas
como um compromisso com outra pessoa, que, para o ego, pode ou não “merecê-lo” – mas
como um compromisso com Deus e conosco.
Pensamentos amorosos podem se tornar um hábito mental. Algumas vezes, quando
somos impacientes uns com os outros, é útil pensarmos sobre a pessoa com a qual estamos
lidando como se ela fosse uma criança. Pois todos nós somos crianças aos olhos de Deus.
Quando as crianças são pequenas, sabemos que estão crescendo, e levamos isso em
consideração ao lidarmos com elas. Não esperamos que uma criança de doze anos de idade
tenha a maturidade que terá aos dezoito anos.

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E, como adultos, ainda estamos crescendo também, embora nem sempre consigamos
ver isso uns nos outros. Não estamos prontos uma vez que atinjamos uma determinada
idade; ao invés disso, continuamos a crescer e a nos desenvolver enquanto estamos vivos.
Nós aprendemos, assim como as crianças. Nós erramos, assim como as crianças. E,
algumas vezes, também caímos como as crianças. Deus vê todos nós dessa maneira, não
importando que idade tenhamos. Ele tem misericórdia infinita em relação a nós, e nós
poderíamos ter misericórdia também.
Nenhum de nós chega a qualquer relacionamento já curado, já perfeito. Em um
relacionamento santo, compreende-se que todos nós estamos magoados, mas estamos aqui
para nos curarmos juntos*. Quando o relacionamento é visto como um templo para a cura,
com doação mútua e pró-ativa de nosso medicamento diário, o ego, então, terá muito menos
poder para tirar nossa alegria.

Categorias de Amor
Não existe amor além do amor de Deus*.
Para o ego, existem diferentes categorias de amor – entre os pais e os filhos, entre
amigos, entre amantes, e assim por diante. Mas, essas categorias são feitas por nós: em
Deus, só existe um amor. Em cada relacionamento, as coisas fundamentais se sobrepõem.
Quando minha filha era pequena, eu me surpreendia de vez em quando, com o quanto
suas percepções eram sofisticadas. Uma vez, eu disse algo ligeiramente irônico sobre um
livro que ela estava lendo, e ela respondeu, deixando claro para mim que havia achado meus
comentários desrespeitosos. E ela estava certa; o fato de que ela tinha nove anos não
significa que não tinha direito às suas preferências, opiniões e sentimentos. (Agora que ela é
adolescente, é claro, eu tenho que lembrá-la de que também tenho direito às mesmas
coisas!).
Um pouco de respeito, um pouco de honra, podem ir longe. Algumas vezes, não é a
questão filosófica mais ampla da inocência cósmica versus a culpa mundial, mas as
maneiras simples através das quais nos comunicamos com outra pessoa que determina se o
amor ou o medo vai prevalecer em um relacionamento.
Uma pessoa que estava trabalhando para mim uma vez, disse que ia telefonar para o
gerente de um hotel onde eu tinha feito uma palestra no dia anterior.
“Por quê?”, perguntei.
“Preciso contar a ele sobre todos os erros que cometeram no domingo”.
“Ah”, eu disse, “Não vamos fazer isso!”.
“O que você quer dizer?”, ela disse. “Você se lembra de todas as coisas que eles
esqueceram de fazer – o estacionamento, o piano, os cartazes?”.
“Claro, eu me lembro”, eu disse. “Mas é isso que aprendi: se você começar esse
telefonema apenas dizendo a eles o que fizeram de errado, então, isso, no final das contas,
não vai nos levar a lugar algum. Eles podem aquiescer às suas reclamações, mas estarão se
sentindo ofendidos e magoados, e essa mágoa vai aparecer de outras maneiras com o
tempo. Quando as pessoas não têm condições de serem diretamente agressivas, elas
geralmente se tornam passivamente agressivas. Se as pessoas se ressentirem de você, vão
encontrar uma maneira de mostrar isso”.
“Então, vamos tentar de outro jeito. Eles não fizeram várias coisas boas?”.
“Claro”, ela disse.
Eu continuei. “Quero dizer, a sala estava linda, o som estava ótimo, eles providenciaram
refrescos ótimos, criaram uma atmosfera caseira – realmente tentaram muito fazer com que
nós nos sentíssemos bem vindos. Não é verdade?”.

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“Certo, vou deixar Alex telefonar. Ela é realmente ótima em coisas como essa”.
“Não, Maggie”, eu disse. “Isso é mais do que apenas ser gentil. Não estou falando
apenas sobre modificação no comportamento; estou falando sobre transformação. Estou
falando sobre entregarmos nossa necessidade de nos focalizarmos na culpa de alguém. Se
alguém em nossa equipe estiver pensando desse jeito, isso afeta toda a equipe”.
“Nós somos responsáveis não apenas por nosso próprio comportamento, mas por
nossas atitudes, porque elas afetam uma situação tanto quanto nosso comportamento. Tudo
o que fazemos, incluindo – algumas vezes especialmente! – o trabalho, é uma jornada de
transformação”.
Mais tarde, naquele dia, ouvi Maggie no telefone com o gerente do hotel. “Oi, eu queria
agradecer a você por todas as coisas que vocês fizeram para tornar tudo ótimo no domingo!”,
ela começou. Eu os ouvi conversando de maneira gentil durante os próximos minutos. E,
depois, a ouvi dizer, em uma voz muito gentil, “Ei, eu estava pensando se poderia examinar
algumas coisas com você”. Ela continuou, mencionando, de maneiras polidas e
compreensivas, as questões que ainda precisavam ser tratadas.
E elas foram.
Eu tive situações em minha vida, onde alguém teve um problema com algo que eu disse
e, olhando para a pessoa, afirmei, “Mas eu estava certa! Eu disse a coisa certa!”. E, então,
voltei para a resposta proverbial: “Não é aquilo que você disse, é a maneira com que você
falou”. Um tom de voz pode curar, e um tom de voz pode magoar.
O que o ego não quer que nós percebamos é a natureza prática do amor. Nós
recebemos a experiência da compaixão na extensão em que estendemos a experiência da
compaixão. E você nunca sabe onde ela é mais importante.
Martha Stewart trouxe toda sua vida à beira do desastre, tanto quanto qualquer coisa,
por suas maneiras. O fato de ela ter ofendido seu agente iria afetar toda sua vida. Aqui está
uma mulher cujos talentos prodigiosos fazem as conquistas da vida de uma pessoa média
parecerem desprezíveis, e, ainda assim, ela foi barrada pelas questões da sua própria
personalidade. Nenhuma quantidade de dinheiro, nenhuma conquista profissional, e nenhum
poder externo pode compensar totalmente a falta de habilidade de uma pessoa. No nível
mais profundo, nossos relacionamentos e questões pessoais definem nossas vidas.
Por trás de cada problema está um relacionamento rompido. E, por trás de cada
milagre, existe um relacionamento curado.

Transformando Questões em Milagres


Cada relacionamento é um exercício de ensino-aprendizado. Todos os que estamos
destinados a encontrar, encontraremos. Somos atraídos uns para os outros para ensinarmos
e aprendermos, conforme cada um de nós recebe a chance de aprender a próxima lição na
jornada de nossa própria alma. Cada encontro é um encontro santo se o usarmos para
demonstrar amor*. E cada encontro é um projeto para uma possível dor se não estivermos
abertos à oportunidade de fazer isso. Qualquer um que encontremos, estávamos destinados
a encontrar, mas, o que fazemos com o relacionamento está inteiramente a nosso cargo.
Algumas vezes, uma pessoa é trazida para nossas vidas para nos ajudar a aprender
uma lição que deixamos de aprender antes: a sermos receptivos ao invés de controladores, a
sermos aprovadores ao invés de críticos, ou até mesmo para sairmos do comportamento
tóxico, quando antes teríamos feito um caminho direto até ele. Não é por acaso que certos
padrões nos incomodam ano após ano, até que finalmente os curemos. Não existe sentido
em você tentar ir até a Mongólia distante para tentar escapar das suas questões; elas vão
encontrá-lo lá, porque elas vivem dentro da sua cabeça. As pessoas de quem você precisa

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serão trazidas até você; você vai atraí-las subconscientemente; não existe escapatória do
currículo do Espírito Santo.
Se nós tivermos um problema específico nos relacionamentos, então, vamos encontrar
a questão novamente até que seja resolvida. Ela representa um local onde nos tornamos
inconscientes, incapazes de viver na plenitude de nosso ser. Nesse lugar, nós nos dividimos
em um fragmento de nós mesmos, um impostor que coloca uma máscara na frente da nossa
verdadeira face. Estamos perdidos lá, não reconhecendo o ambiente hostil que criamos;
estamos sôfregos por ar emocional, inconscientes de que nós mesmos estamos nos
privando dele. Isso, com certeza, é o significado do inferno.
É extremamente difícil, em tais momentos, usar a mera vontade própria para mudar a
nós mesmos. Se pedirmos um milagre, vamos receber um. Pois Deus é tão claro no Instante
Santo como nós gostaríamos que Ele fosse*. Sua mente, unida à nossa, pode brilhar até
fazer o ego desaparecer*. Quando nós nos perdemos nas nossas ilusões, Seu Espírito está
lá para nos trazer de volta.
Ainda assim, nós não podemos simplesmente rezar e meditar, esperando que todas as
nossas questões pessoais se resolvam por si mesmas, sem qualquer esforço da nossa parte.
Nós temos que usar nossos momentos de oração e meditação para liberar conscientemente
nossas questões de relacionamento para Deus, para que elas possam ser transformadas.
Nossa escuridão precisa ser trazida à luz; ela não pode simplesmente ser vencida pela luz.
É interessante notar que as diferenças entre uma abordagem psicoterapeutica
tradicional a essas questões, e uma mais espiritual. Na psicoterapia, em sua maior parte, o
foco é colocado na fraqueza da personalidade e em como resolvê-la. Por que agimos dessa
forma? Quais experiências da infância nos levaram a esse problema? E, algumas vezes,
essa discussão pode ser útil. Mas, quando uma dimensão mais espiritual é introduzida ao
processo terapêutico, nós não apenas focalizamos o problema, mas também rezamos por
uma reposta divina.
No ponto em que nossas personalidades são fracas, nós somos impedidos de usar
nossa habilidade para manifestar a gloria de nossos verdadeiros seres. Procurar quem ou o
que nos bloqueia pode ser como olhar para trás, para a praia da qual você acabou de sair,
quando você está perdido no rio e não pode achar um caminho para sair dele. Seria melhor
olhar para o lugar para onde você está indo (como Jesus ou Buda), e pedir orientação para
chegar lá. Nós superamos o ego conforme ficamos mais próximos de Deus.
A cada vez que tivermos um problema em um relacionamento, vamos repeti-lo, a menos
que aprendamos o que precisamos com ele. Esse aprendizado é parte do processo de
Expiação, conforme admitimos para Deus os erros que nós agora percebemos que
cometemos, e rezamos por Sua ajuda para nos modificar. Nós também rezamos para que
Ele nos ajude a curar quaisquer danos que já tenhamos causado em nossas próprias vidas,
ou na vida de outra pessoa.
Algumas vezes, quando erramos, não há nada específico a se fazer para que as coisas
fiquem melhores; não iria ajudar telefonarmos, mandar um e-mail, ou qualquer outra coisa.
Mas, o que podemos mudar é nosso pensamento, e resultado virá. Talvez tenhamos que
esperar até que uma situação apareça novamente, tanto nesse relacionamento quando em
um outro, e tirarmos vantagem da oportunidade de agir de modo diferente da próxima vez.
Ao fazermos isso, o novo padrão comportamental se fixa em nosso repertorio psíquico. Com
o tempo, ele substitui o antigo.
Quando especialistas em pedras preciosas querem polir uma safira ou esmeralda
áspera, eles fazem isso esfregando duas pedras uma contra a outra. E, geralmente, é assim

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que são os nossos relacionamentos: suas pontas ásperas se esfregam contra as minhas, e,
finalmente, depois de sofrermos o suficiente, nós nos tornamos polidos.

Ilusões Românticas
Em nenhuma outra situação nós temos mais idéias ilusórias do que significa o amor do
que na área do romance. Nós somos treinados por um mundo de fantasias culturais a
acreditar que existe alguém, uma pessoa especial, que vai nos completar e nos tornar
inteiros.
Entretanto, o que vai nos tornar inteiros é um amor mais profundo por todos. O amor
exclusivo não é o prêmio que parece ser, e, na verdade, o amor romântico funciona
muitíssimo melhor quando está alicerçado em um amor mais amplo, mais inclusivo. O
romance é uma forma que o amor assume – certamente uma forma magnífica – e, ainda
assim, é seu conteúdo, não sua forma, que determina o significado do amor. Se nós
estivermos apegados a uma forma particular de amor, então estamos em um terreno
escorregadio em direção ao fogo do inferno. O que é esse fogo? É a ansiedade que sentimos
quando aquela pessoa não telefona ou age de uma maneira que interpretamos como não
amorosa, ou quando ela não nos quer mais.
Um dos maiores erros que cometemos em relacionamentos é quanto temos uma noção
fixa de como o amor deveria parecer. Se ele me amar, vai fazer isso. Se ela quiser ser minha
amiga, vai fazer aquilo. Mas, se os sentimentos que quisermos que as outras pessoas
tenham simplesmente não se expressarem da maneira que pensamos que deveriam? Vamos
desistir de um amor porque ele não vem na embalagem que esperávamos que viesse?
Relacionamentos não são preto e branco, e as pessoas não são boas ou más. Nós somos
complicados. Estamos tentando ao máximo. Quando mais vivemos, mais percebemos que a
falha dos outros em nos amar da maneira que gostaríamos que fizessem é tão não
intencional quanto nossas próprias falhas. Quem entre nós não está fazendo o melhor de
que é capaz, com a compreensão que tem?
O ego argumenta que o relacionamento romântico certo iria acabar com toda a dor da
separação, embora isso seja ilusório. A intimidade não é uma categoria especial, mas uma
camada mais profunda da existência. Quando primeiro seguramos um bebê em nossos
braços, esse é um momento íntimo. Quando nos sentamos com alguém que está morrendo,
esse é um momento íntimo. Quando compartilhamos profundamente, do âmago de nós
mesmos, nossos sentimentos genuínos, esse é um momento íntimo. Nossa obsessão pelo
amor romântico como a fonte primária de intimidade freqüentemente tem nos impedido de
encontrá-lo. São dois corações, não dois corpos, que fazem uma conexão santa. Quando o
corpo vem junto, é fantástico. Mas qualquer um com um pouco de experiência sabe que o
sexo em si mesmo não garante uma conexão profunda. E, algumas vezes, ele pode obstruí-
la.
Um Curso em Milagres ensina a diferença entre o amor “especial” e o “amor santo”. O
amor “Especial” significa que estamos apegados à idéia de uma pessoa ser de determinada
maneira. Pensamos que sabemos o que precisamos dela, e colocamos nosso foco em tentar
fazer isso acontecer. Sem perceber que estamos procurando um relacionamento humano
para preencher um espaço que apenas Deus pode preencher, estamos prontos a ir a
extremos extraordinários para fazer a outra pessoa, ou a nós mesmos, se encaixar na
imagem que nosso ego pensa ser perfeita.
O problema com isso é que o controle e a manipulação, ainda que sutis, não são amor.
O amor é afastado por qualquer esforço para nos agarrarmos demais a ele. A resposta de
Deus ao relacionamento “especial” do ego é a criação do relacionamento “santo”, no qual

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nós permitimos que o relacionamento seja o que quiser ser, e revele seu significado a nós,
ao invés de tentarmos determinar seu significado primeiro.
Amor “santo” permite que a outra pessoa simplesmente seja o que ela é. Ele nos ajuda
a nos desapegarmos da necessidade de controlar o comportamento de outra pessoa.
Embora tudo isso seja muitos mais fácil de falar do que de fazer. O amor santo é um objetivo
espantoso para aqueles de nós que estão presos a nossos corpos, em um mundo imperfeito.
Nós não devemos ter quaisquer expectativas nos relacionamentos? Enquanto é o corpo que
nos prende ao reino material, esse reino é onde estamos vivendo, e nós temos necessidades
apropriadas e válidas aqui.
Eu tive uma lição interessante sobre o amor não apegado quando me mudei para uma
casa com um amigo. Ele é uma pessoa engraçada e ama a agitação, viajar daqui para lá,
sair com sua motocicleta. Ele é acessível quando está em casa, mas nunca tente ligar para
seu celular quando ele está em algum outro lugar. Eu uma vez disse a ele, “Casey, entendo
que você não ouça com freqüência suas mensagens telefônicas, mas o que aconteceria se a
casa pegasse fogo?”.
Ele respondeu, “Acho que eu voltaria para um monte de cinzas!”.
Consigo gostar de Casey, até mesmo rir de seu comportamento engraçado, e apreciar
suas saídas e entradas dramáticas, por uma razão principal: nós não temos um
relacionamento físico, pois o ego usa o corpo para nos prender a percepções de
necessidade e controle. Sempre que nos identificamos com a vida do corpo ao invés da vida
do espírito, o ego está no comando.
Uma vez, perguntei a ele, “E se estivéssemos envolvidos em um relacionamento
romântico? Seu comportamento certamente me deixaria maluca!”. E ele respondeu, “Se nós
estivéssemos romanticamente envolvidos, eu não agiria dessa forma!”. Isso é razoável, e
espero que verdadeiro, pelo bem das mulheres na vida dele, mas não sei se é assim. Sexo e
desapego é uma mistura difícil, e o maior desafio no amor romântico.
Há vários meses, jantei com um homem com quem tinha me encontrado uma vez, mas
não tinha visto mais durante vários anos. O assunto da política veio à tona, e nenhum de nós
havia se voltado muito para a direita ou para a esquerda na última década. Nós estivemos
em lados opostos do espectro político naquela época, e ainda estávamos agora. O que tinha
mudado, entretanto, é que não estávamos mais tentando modificar um ao outro.
Ainda estávamos jantando quando eu disse a ele, “Você percebe que se estivéssemos
há dez anos, nós dois estaríamos totalmente arranhados quando a salada chegasse?!”.
Estávamos dizendo as mesmas coisas que costumávamos dizer, com tanta convicção
quanto antes, mas nenhum de nós estava reagindo mais da mesma maneira. Finalmente
tinha ficado claro para nós que outra pessoa poderia ter opiniões diferentes, e o jantar ainda
podia ser bom!
Eu me lembro, quando era criança, do quanto o material de leitura empilhado do lado do
meu pai na cama era diferente do material de leitura do lado da minha mãe. Ele lia Goethe e
Aristóteles, ela lia Judith Krantz e Velva Plain. Nunca pareceu estranho para eles que
pudessem ler coisas tão diferentes, e eu me transformei em uma adulta que não hesitaria em
perguntar, “Por que você está lendo aquilo?”. E para isso, um homem uma vez respondeu
para mim, com um sorriso doce e um beijo fabuloso, “Não é da sua maldita conta!”.
Quando vejo uma mulher tentando controlar um homem, mesmo de leve, penso comigo
mesma, “Querida, isso pode funcionar para você, mas nunca funcionou nem de leve para
mim!”.
O que aprendi é que está tudo certo em procurar entrar em acordo e compartilhar meus
sentimentos, desde que eu contenha meu julgamento e culpa. Desse ponto – desde que eu

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evite a tentação de tentar dirigir o comportamento de outra pessoa – os milagres realmente
acontecem. É espantoso o quando as pessoas respondem de maneira positiva quando se
sentem respeitadas por seus pensamentos e sentimentos. Aprender a sentir esse respeito –
e realmente a demonstrá-lo – é a chave para o poder de um trabalhador de milagres.

Níveis de Ensinamento
Existem três níveis de “situações de ensino” em um relacionamento*. O primeiro é o que
consideraríamos um encontro casual, no qual realmente não parece que alguma coisa está
acontecendo*. Uma criança acidentalmente joga uma bola na nossa frente, ou nós dividimos
o elevador com alguém. Nós vamos jogar a bola de volta para a criança de maneira
amigável, ou sorrir para a pessoa no elevador? Esses encontros supostamente casuais não
são casuais de maneira alguma*.
O segundo nível de ensinamento acontece quando somos levados para junto de alguém
para uma experiência de aprendizado razoavelmente intensa, provavelmente durante
semanas, meses ou anos*. E ficamos juntos enquanto a proximidade física servir para a mais
elevada oportunidade de aprendizado para as duas pessoas*.
O terceiro nível envolve uma “situação para a vida toda”*. Isso poder acontecer com um
amigo, um parente, um amor com o qual o relacionamento dure uma vida. Algumas vezes,
essa é uma situação feliz, como um maravilhoso caso de amor que dure a vida toda. E
outras vezes, é dolorosa – parentes que provocam mágoas uns aos outros durante toda a
vida. Seja o que for, entretanto, é parte do currículo designado pelo Espírito Santo.
Uma vez que estejamos reunidos em um relacionamento genuíno, ele nunca termina.
Aqueles que Deus reuniu, ninguém e nada pode separar. Embora uma forma particular de
um relacionamento possa mudar – através da separação ou da morte – o relacionamento
nunca termina, porque ele é do espírito, e o espírito é eterno. Nós ficamos em conexão física
pelo período de tempo que sirva para a maior oportunidade de aprendizado para as duas
pessoas, e, depois, meramente parecemos nos separar*. O amor sobrevive, porque o amor
não morre.
Quando perguntaram a Yoko Ono como ela podia suportar estar sem John Lennon
agora, uma vez que eles passavam noventa por cento do seu tempo juntos, ela respondeu,
“Agora, nós passamos cem por cento de nosso tempo juntos”. A morte do corpo não é a
morte do amor.
Esse não é apenas um conceito superficial, e não quer dizer que não choremos, nos
sintamos magoados, ou lamentemos a perda de um amor. Mas significa que temos um
contexto para superar a perda. Quando nossos corações permanecem abertos para o fluxo
da Verdade, o espírito pode nos compensar pelas perdas materiais. É isso o que acontece,
por exemplo, quando as pessoas passam por um divórcio com intenção amorosa, rezando
para Deus curar todos os corações envolvidos. O divórcio é uma questão espiritual com
profundas conseqüências emocionais. Quantas crianças foram prejudicadas por pais que se
divorciaram de maneira amarga? Quantos adultos passam anos magoados, ou até mesmo a
vida inteira, sem perceber a natureza eterna do amor que eles pensam ter perdido
permanentemente? Ao entregarmos um divórcio nas mãos de Deus, estamos pedindo que o
relacionamento continue a ser abençoado em espírito, embora esteja dissolvido no físico.
Todos os que encontramos vamos encontrar novamente um dia, até que esse
relacionamento se torne santo*. Quer se encontrem nessa vida ou não, aqueles que se
encontraram e se amaram estão unidos pela eternidade. Se nós já amamos alguém, será
essa pessoa que encontraremos em primeiro lugar no céu. E é para o céu que todos nós
vamos voltar.

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Forma versus Conteúdo
Uma vez, uma pessoa me mandou uma fotografia que foi tirada por um pescador em
Newfoundland. Era a foto de um iceberg, não apenas da parte dele que se projetava para
fora da água, mas também da que estava sob a superfície. Todos nós sabemos, é claro, que
o que vemos acima da água é aproximadamente dez por cento do iceberg. Ainda assim, ver
a imagem foi enlouquecedor. É chocante reconhecer o quanto das nossas vidas nossos
olhos não vêem.
E cada situação da vida é como um iceberg, repleta de forças que não são visíveis aos
olhos físicos. Baseando nosso senso da realidade no que os sentidos físicos percebem – o
que as pessoas fizeram ou disseram – nós o baseamos em uma pequena fração da sua
totalidade. Isso significa, é claro, que dificilmente entramos mesmo em contato com a
realidade.
O que é visível ao olho físico é o mundo da forma, enquanto a realidade maior da
situação não é sua forma, mas seu conteúdo*. O casamento é a forma, o amor é o conteúdo;
a idade é a forma, enquanto o espírito é o conteúdo. A única realidade eterna repousa no
reino do conteúdo, e ele nunca muda. Nosso poder espiritual está em viajarmos por um
mundo mutável com a perspectiva daquilo que não muda. Quanto mais sabemos sobre o que
está oculto sob a água, mais poder temos sobre isso.
Nós pensamos que se isso ou aquilo acontecer no mundo da forma, então nossas vidas
serão ótimas. Mas, enquanto olhamos habitualmente para o reino material, procurando algo
para nos completar, nossa real completude está em sabermos que o reino material em si
mesmo é apenas um aspecto da nossa vida maior.
Vivendo no reino da identificação com o corpo ao invés da identificação com o espírito,
estamos constantemente arriscados a passar pela experiência da perda. Nós pensamos que
perdemos todas as vezes que algo no mundo da forma não se desenrola da maneira que
gostaríamos que fizesse. Vamos dizer que eu estou apaixonada por um homem, ficamos
juntos por algum tempo, então, um de nós decide que a ligação romântica não está
funcionando. Para o ego, isso significa que o relacionamento terminou; para o espírito, isso
significa que o relacionamento simplesmente mudou de forma. E o espírito está certo. Não
importa o quanto uma situação como essa possa ferir o coração, uma visão mais elevada do
que realmente aconteceu pode nos curar. O amor é o conteúdo eterno, e ele está a salvo e
seguro nas mãos de Deus.

Quando Sentimos Pesar


O pesar é um mecanismo importante de cura, uma maneira da psique fazer a transição
de uma situação para outra. Nossa mania contemporânea de nos esforçarmos para nos
colocarmos para cima, voltando ao trabalho logo que possível depois de uma perda, e
continuando ativos de qualquer maneira, nem sempre é um antídoto perfeito para a dor. Em
nossa tendência moderna de nos “sentirmos bem”, nós geralmente nos consideramos
errados por nos sentimos mal. Se o pesar é um sentimento ruim, sem ele nunca voltaremos
aos bons sentimentos.
Uma vez, eu estava sentindo pesar por uma situação dolorosa em minha vida. Seis
semanas depois do fato, enquanto eu estava falando com um amigo sobre isso, outra amiga
entrou na sala e disse, “Vou embora. Vocês podem continuar falando sobre isso
obsessivamente”. Eu disse, “Susan, daqui a um ano, você pode chamar isso de obsessão.
Depois de seis semanas, ainda é chamado de processar”. Embora nós geralmente

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lamentemos o fato de que as pessoas não sintam suas emoções com profundidade
suficiente, ainda somos tentados a culpá-las quando elas fazem isso.
E, então, ao invés de nos permitirmos sentir pesar, nós geralmente nos forçamos a
suprimi-lo, confundindo-o com negatividade ou auto-indulgência. Ainda assim, é perigoso
excluirmos ou suprimirmos nossa dor, porque os acontecimentos que não processamos,
estamos condenados a repetir, ou pelo menos encenar de maneiras disfuncionais. O tempo
para chorar é quando precisamos chorar. Apenas então, nós finalmente não precisaremos
chorar mais.
Quando um relacionamento acaba, seja através da separação ou da morte, nosso
centro de gravidade emocional muda. Nós vemos a vida de um ponto de vista diferente
quando alguém que costumava estar próximo de nós não está mais lá. É uma boa idéia fazer
uma vigília de trinta dias de oração pela pessoa que não está mais fisicamente presente
conosco, sejam nossos sentimentos conscientes por aquela pessoa amorosos ou não. A
oração vai neutralizar os sentimentos, elevando-os à serenidade e à paz. Sair para fazer
compras não vai fazer isso; sair com uma pessoa ou casar novamente o mais rápido possível
não vai fazer isso. Apenas ficar consigo mesmo, com seus entes queridos e com Deus vai
fazer isso. Você vai internalizara mudança, suas feridas internas vão se curar, e você vai, vai
mesmo, se sentir melhor do que antes.

Os Intervalos
Existe um mistério nos intervalos entre os relacionamentos, quando temos a
oportunidade de entender mais profundamente, de corrigir nosso curso, e de redirecionarmos
nosso navio se necessário. Quando um relacionamento termina, podemos olhar para ele
honestamente, avaliar nossa parte nele, e perdoar a nós mesmos e aos outros se
necessário. Eu me mostrei ou não de maneira tão autêntica e honrada para o relacionamento
quanto deveria? Eu estava nele pelas razões corretas? Fiquei demais? Saí depressa
demais? Eu permiti que Deus o guiasse?
Pode ser útil fazer uma lista de cada pessoa e situação associada com o que está
acontecendo agora. Abençoe-as silenciosamente. Peça perdão, e perdoe. Coloque essa
situação nas mãos de Deus, e saiba que Ele está lá.

O Amor está em todos os lugares


O amor de Deus sempre vai encontrar uma maneira para se expressar. Uma das razões
pelas quais nos agarramos às coisas boas é que pensamos que se não o fizermos,
ficaremos de fora da alegria na vida. Mas, é claro, o comportamento controlador e carente
que resulta de uma crença dessas é a garantia de que vamos manter nosso bem longe de
nós. É quando nos firmamos nas profundezas de quem somos, sabendo que isso é
suficiente, e deixamos que as outras pessoas sejam o que precisarem ser e irem onde
precisarem ir, é que o universo entrega nosso bem ideal de uma maneira que possamos
recebê-lo.
O amor está em todos os lugares, mas, se nossos olhos não estiverem abertos para vê-
lo, vamos perdê-lo. Quem entre nós já não perdeu um amor porque estava procurando por
ele em uma embalagem, e ele veio em outra? Nosso problema raramente é nossa falta de
amor, mas nosso bloqueio mental à nossa consciência da sua presença*.
Uma vez, eu estava falando com uma adolescente sobre seus problemas com seus
amigos na escola. Ela estava triste porque um grupo de meninas que eram muito próximas
dela no ano anterior, agora não era mais, e Hayley se sentia deixada de fora do novo grupo.
Ela se sentia rejeitada e em falta, pensando que não tinha mais boas amigas.

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“Ei, Hayley!”, eu disse. “Você tem que diversificar!”.
“O que você quer dizer?”, ela perguntou, fitando-me através de adoráveis olhos cheios
de lágrimas.
“Quero dizer que o amor está em todos os lugares! Quero dizer que existem outros
relacionamentos a experimentar – não apenas aqueles! Isso significa que você está mais
presa ao fato daquelas garotas em particular serem a fonte de amor na sua vida do que
precisaria. As pessoas são livres, e você deve querer deixá-las ir quando elas não estiverem
mais inclinadas a ficar perto de você. Mas isso não diminui a quantidade de amor que está
disponível para você. Libere-as, abençoe-as, sinta sua perda, e entregue-a a Deus. Eu
garanto a você que um milagre está logo à frente”.
Nós fizemos uma oração na qual entregamos a Deus o relacionamento dela com
aquelas meninas, e pedimos que seu coração se abrisse para receber o amor que Deus
planejara para ela. Alguns meses mais tarde, vi Hayley quando ela correu para dentro da sua
casa, falando alto, obviamente feliz. Ela estava falando com sua mãe sobre ir ao cinema com
duas amigas. Perguntei se tinha havido algumas mudanças na sua coleção de amigos.
“Bem, um pouco!”, ela disse. “Mas principalmente, tenho essas novas amigas! É
fantástico!”. Conversei um pouco com ela sobre como a primeira situação, uma perda
aparente, havia levado a algo bom. Ela aprendeu a liberar o que aparentemente não era
mais dela, para que algo novo e maravilhoso pudesse entrar em sua vida.
Ela concordou e disse, “Acho que tive um milagre”.
Sei que teve.

Relacionamentos que Consertam o Coração


O Espírito Santo tem muitas maneiras de aplainar o caminho para nós, nos salvando da
dor das nossas desilusões. Algumas vezes, é um professor ou um livro, e, com freqüência, é
simplesmente outro ser humano.
Eu geralmente sou grata por quanta ajuda recebo das pessoas ao meu redor que
podem ver algo que eu não vejo, no momento em que mais preciso fazê-lo. Alguém
simplesmente telefona, e eu lhe conto o que está acontecendo, e ele compartilha seus
pensamentos de uma maneira que traz a clareza que minha mente estava buscando, ou a
paz pela qual minha alma estava ansiando.
Quanto mais crescemos em direção a Deus, mais crescemos em direção ao nosso
talento natural de proteger nossos irmãos*. Quanto mais alinhados ficamos com o amor de
Deus, melhores nos tornamos em ser amigos verdadeiros. Sabemos como estar lá, as coisas
certas a dizer, o conselho casual a dar para as pessoas que amamos.
Existem três pessoas com quem eu freqüentemente converso pelo telefone tarde da
noite. Se alguém me pedisse para escrever em um pedaço de papel minhas atividades mais
significativas, eu provavelmente não escreveria “Conversar com Richard, Victoria e
Suzannah, e contar tudo a eles”. Ainda assim, essa é uma das minhas atividades mais
importantes, porque clareia minha cabeça para tudo o mais. Na verdade, acho que esses
telefonemas são mais importantes do que parecem.
Sociólogos agora aperfeiçoaram uma teoria tradicional sobre como as pessoas
respondem ao estresse. Como foi constatado, a síndrome do “lutar ou fugir” que foi tomada
como verdade absoluta durante as ultimas décadas, veio de uma pesquisa baseada apenas
nas reações dos homens. Quando as mulheres foram acrescentadas à pesquisa, os
pesquisadores descobriram outro tipo de reação: “cuidar ou consertar”. Em outras palavras,
as mulheres tendem a construir relacionamentos como sua resposta principal ao estresse.

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Todos nós temos aspectos masculinos e femininos em nossa psique; todos nós lutamos
ou fugimos algumas vezes, e todos nós cuidamos ou consertamos algumas vezes. Mas,
quando telefonamos uns para os outros para processar nossos pensamentos e sentimentos,
não é por acaso que esses telefonemas geralmente aconteçam tarde da noite, quando uma
quietude mais profunda está disponível para a alma. Desde os primórdios da história escrita,
as pessoas contavam histórias ao redor de fogueiras noturnas. Nós compartilhamos histórias
como uma maneira de manter nossas psiques – na verdade, nossa cultura – juntas. É difícil
sentir o amor de Deus quando o amor aos outros está indisponível. Os momentos em que
trazemos Seu conforto uns aos outros, dificilmente é a parte menos importante do dia.

Onde Estamos Agora


Nós estamos em uma posição onde poucos de nós podem continuar sem ajudar outra
pessoa. Não porque não sejamos completos, mas finalmente – pelo menos – porque somos.
Não somos mais frações de nós mesmos buscando outras para nos completar. Somos
totalmente inteiros – e agora?
Agora, precisamos conceber uma nova vida a partir do mais profundo de nós mesmos.
Para que isso aconteça, precisamos ter relacionamentos. Para co-criar a vida, nós
precisamos uns dos outros e da ajuda de Deus.
O milagre do amor nos atrai uns para os outros. E nessa união, Deus derrama a Si
Mesmo. Nós vamos nos tornar, uns nos braços dos outros e também nos de Deus, uma nova
humanidade. Vamos conceber algo novo. Vamos criar as asas da compaixão e da
inteligência divinas, e o mundo inteiro vai mudar. O Próprio Deus vai se rejubilar.
E a vida vai continuar.

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Capítulo Nove

Da Morte Espiritual
Para o Renascimento

Quando eu estava no início do ensino médio, gostava muito de química. Por outro lado,
era uma péssima aluna de química. Minha professora não conseguia pensar em alguém que
fosse um aluno terrível, mas que realmente gostasse da matéria. Na mente dela, existiam os
“bons alunos de química” e os “maus alunos de química”. E ela me mostrava qual dos dois
eu era.
Puxa! Qualquer crença em mim mesma como uma aluna de ciências morreu bem ali.
Talvez um de seus pais tenha lhe dito que você nunca seria bonito, e qualquer crença
em sua beleza tenha morrido ali mesmo. Talvez alguém tenha lhe dito que você era estúpido
e nunca daria em nada, e sua autoconfiança morreu ali. Ou alguém tenha lhe dito que você
não tinha talento e nunca seria capaz de tocar em uma orquestra, e sua crença em sua
habilidade musical tenha morrido ali.
Para a maioria de nós, não existe sepultura grande o suficiente para guardar os ossos
das partes de nós mesmos que morreram ao longo do caminho.
O você que foi invalidado, depreciado, suprimido, violado, magoado, colocado em
perigo, prejudicado, humilhado, escarnecido, brutalizado, abandonado, para quem se mentiu
ou foi roubado – e a lista continua, para deleite do ego – é seu ser crucificado.
A crucificação não é especialmente um conceito cristão; metafisicamente, é um padrão
de energia, demonstrado fisicamente na vida de Jesus, mas experimentado psiquicamente
na vida de todos nós. Energeticamente, ele representa um padrão de pensamento. A morte é
sua missão e a vida é sua inimiga, pois ele é a mente trabalhando contra Deus.
Portanto, este é o drama de cada vida humana, enquanto o amor nasce nesse mundo e
depois é crucificado pelo medo. Mas a história não para aí. A ressurreição, como a
crucificação, é uma verdade metafísica: é a resposta de Deus ao ego, ou o triunfo último do
amor. Tudo o que sempre acontece, em qualquer situação, é que o amor aparece, é
crucificado e, finalmente, jogado fora.
Uma noite, eu estava assistindo Dançando com Lobos na televisão com minha filha.
Nós duas estávamos profundamente tocadas pelas vidas dos índios sioux – sua harmonia
com a natureza e o espírito, a maneira com que eles permitiam que a verdade, o ser
essencial ordenasse suas vidas e abençoasse seu mundo. Eles tratavam a própria vida
como um tesouro sagrado. Ainda assim, o ego coletivo do mundo ocidental tentaria destruir,
e finalmente conseguiria, sua civilização naquela época.
Essa é a tragédia da história humana. Existe uma força negra, não fora de nós, mas
aqui dentro, sempre trabalhando para destruir o amor que Deus cria. Essa força, ou ego, é
mantida no lugar por nossa crença de que somos separados de Deus e uns dos outros; ela
se expressa constantemente através do julgamento e da culpa. É cada palavra grosseira,
ataque, pensamento, ou ação violenta. Algumas vezes, ela sussurra, como em vislumbre
malvado; outras vezes ela grita, como no genocídio de uma pessoa. Mas ela está sempre
ativa, enquanto tiver medo como combustível. E hoje, ela está de olho no maior prêmio de
todos – a perspectiva da aniquilação global.

99
Algumas vezes, são outras pessoas que nos colocam na cruz, e outras vezes, fazemos
isso sozinhos. Freqüentemente, parece ser uma combinação de ambos. O ego não faz
diferença entre ninguém, buscando ferir quem puder alcançar. Mas a parte de nós que pode
ser crucificada não é parte de nós que realmente somos. O ego pode destruir o corpo, mas
não pode destruir o espírito.
A crucificação toma muitas formas: material, mental, emocional, e espiritual.
Mentalmente, ela é uma doença progressiva trabalhando dentro das nossas mentes. Ela
algumas vezes é chamada de segunda força, o anti-Cristo, o diabo. Ela é o elemento
destrutivo, contra a vida, na experiência humana.
Todas as formas do ego têm a destruição total como o seu objetivo. O vicio em álcool e
drogas não quer simplesmente incomodar você; ele quer matá-lo. Uma doença terminal não
quer simplesmente perturbá-lo; ela quer matá-lo. A escalada da violência não quer perturbá-
lo, ela quer matá-lo. Deus sabe disso, e Ele respondeu: Ele nos mandou Sua santidade para
nos salvar de nós mesmos. E, conforme abraçamos nossa santidade e as mudanças que ela
provoca dentro de nós, Ele tem um plano para o que virá a seguir.
A ressurreição é a resposta de Deus para a crucificação; é Seu ato de elevar nossas
consciências ao ponto onde os efeitos do medo são cancelados. Nossa santidade – o amor
de Deus dentro de nós – é a única maneira pela qual a humanidade já transcendeu a
escuridão, e sempre será.
“Jesus chorou”, como todos nós fazemos, desafiados em nossos diferentes caminhos
pelas mentiras e projeções do ego. A crucificação de Jesus – a tortura e o assassinato de um
homem inocente – é um exemplo radical de ensinamento, uma demonstração da força do
medo, e, depois, do poder do amor para transcendê-lo. Jesus morreu, então, jazeu em seu
túmulo por três dias. E, durante aquele período de tempo, é claro, pareceu para aqueles que
o amaram, que todas as esperanças estavam perdidas. Ainda assim, a esperança é de
Deus, e o que é de Deus nunca é perdido.
Jesus transcendeu a crucificação por vê-la como era. Confrontado com as projeções
assassinas dos outros, ele continuou a amar com o coração aberto. E, por permitir que seu
coração se tornasse tão grande quanto o universo, ele se tornou o vértice do milagroso.
Assim como na presença de Moisés as leis do tempo e do espaço foram suspensas na
divisão do Mar Vermelho, na presença de Jesus, as leis da morte também foram suspensas.
O que Jesus tinha que nós não temos? Nada. A questão não é que ele tinha algo que
nós não temos, mas que ele não tinha nada mais*. Seu amor a Deus expulsou tudo o mais,
deixando apenas a verdade eterna.

Escuridão Coletiva
Hoje em dia, nossas crucificações pessoais são particularmente intensas, conforme nós
aceitamos pedaços individuais de uma imensa e cósmica escuridão. É um padrão universal
que a escuridão busca destruir a luz, e ninguém já disse, “Exceto no seu caso”. E a
escuridão é mais intensa quando sente a invasão da luz. Se você estiver fazendo coisas
boas e estendendo energias amorosas, então, a segunda força estará a caminho. Mas isso
não significa que é sobre você.
No mundo de hoje, ficar realmente firme na santidade, no amor universal, está, na
maioria dos casos, tão distante do status quo que você tem que decidir o quanto quer
comprometer seu coração para ir em frente. O mundo como o conhecemos é dominado pelo
medo, e algumas das nossas maiores instituições são seus novos quartéis generais. Pense
dessa maneira, não daquela. Vá nessa direção, não naquela. Ainda assim, o espírito não é

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conhecido por sua conformidade. Onde não existe lugar para o impulso extasiante, não
existe lugar real para a revelação do amor.
Se você puder se elevar acima do medo em sua vida e viver o amor dentro de você, e
se você puder se elevar acima do meu medo e viver o amor em mim – se esse drama for
restabelecido vezes suficientes por um número suficiente de pessoas no mundo – então,
vamos romper a escuridão cósmica e vamos inclinar o mundo em direção à luz. Cada um de
nós conta, e não existe algo como pensamento neutro*. Cada percepção leva a mais medo
ou a mais amor, para nós e para o mundo ao nosso redor. Com cada oração, cada ato de
gentileza, e cada pensamento de perdão, estamos construindo uma onda de amor que vai
mandar o medo embora.
Mas nós não podemos cuidar do medo do mundo enquanto não cuidarmos do medo
dentro de nós. E isso nós podemos fazer sozinhos. Nós não podemos curar a nós mesmos
de uma neurose profunda, simplesmente nos decidindo intelectualmente a mudar. Muitos de
nós tentaram e falharam.
Deus pode fazer por nós, entretanto, o que nós não podemos fazer por nós mesmos.
Quando Seu espírito desce sobre nós, o medo é silenciado. Ele é anulado. Ele se vai. Uma
vez que tenhamos abraçado a completude do nosso espírito, então, os efeitos do nosso
estado danificado anterior desaparecem. De doenças físicas a relacionamentos dolorosos,
da fome mundial ao conflito mundial, uma vez que tenhamos nos elevado ao nosso potencial
divino, vamos nos tornar pessoas com a coragem e a inteligência para banir a escuridão.
Com Deus no comando, vamos nos elevar acima dos pensamentos que nos mantêm presos.
E, portanto, o mundo será modificado. Nós podemos desistir de um Armagedon coletivo se
aprendermos nossas próprias lições.

Tempo do Túmulo
Existe um significado metafísico nos três dias entre a crucificação e a ressurreição. Ele
simboliza o tempo necessário para que o mundo físico possa alcançar uma mudança na
consciência, para que a luz ascenda novamente depois da escuridão que nos subjugou. A
ressurreição acontece quando nós nos mantemos firmes no amor ao invés de nas
aparências, e, portanto, invocamos um milagre.
Algumas vezes, quando fomos profundamente magoados, existe um tempo no qual
temos que deixar nossas almas sangrarem, aceitarmos a dor, e esperar até que o ciclo se
complete por si mesmo. Você não pode apressar um rio ou um coração partido. Apenas
saiba que “isso também vai passar”.
Os três dias são citados por um amigo meu como “o tempo do túmulo”, durante os quais
pode parecer que toda esperança está perdida, quando, na verdade, o milagre já está
virando a esquina. Cada noite é seguida por um novo dia. O ego se manifesta em nós de
maneiras viciosas e cruéis, com certeza, e, ainda assim, recebemos de Deus a cada dia uma
nova manhã – a “terra prometida” da nossa paz interior.
Todos nós já conhecemos a crucificação, e, então, passamos por um tempo da túmulo,
quando parecia que a luz em nossas vidas poderia nunca voltar. Ainda assim, o movimento
do universo é sempre na direção do amor máximo; nas palavras de Martin Luther King Jr., “O
arco do universo moral é longo, mas ele se curva em direção à justiça”. O ego urra, mas
Deus sempre vai ter a palavra final.
Nossa crucificação provoca em nós uma explosão material, mas, nas mãos de Deus, a
explosão pode se tornar um dom espiritual. Não importando o que aconteça em nossas
vidas, nós podemos nos tornar pessoas melhores por causa disso. Se nós não tivéssemos
tropeçado, não poderíamos ter nos endireitado. E agora que nós nos endireitamos, nossas

101
costas estão um pouco mais retas, e nossas cabeças um pouco mais altas. Não há nada
mais lindo do que o manto do sobrevivente. Não há nada mais iluminado do que o corpo
ressuscitado; a nova personalidade que emerge quando a velha foi deixada de lado.
Nas palavras de Charles Swindoll, um pastor e professor da Bíblia do rádio, no meio do
século vinte, “Eu tentei e não consegui encontrar, tanto na escritura quanto na história, um
indivíduo enérgico que Deus tenha usado bastante até permitir que fosse ferido
profundamente”.
Eu me lembro que uma vez estava assistindo Richard Nixon em uma entrevista na
televisão, alguns anos depois de ele ter deixado a Casa Branca. Ele falava com uma
sabedoria e compaixão que eu nunca tinha visto nele durante seu tempo na política. Um
presidente por quem eu antes tinha sentido um enorme desdém tinha se tornado uma
pessoa diferente. E como poderia não ter feito isso? Dada a crucificação que ele enfrentou –
provocada por ele mesmo – como ele poderia ter feito outra coisa além de morrido ou
atravessado para outro lugar? Claramente, ele tinha feito a última coisa. Um fracasso que em
termos mundiais é quase impossível de vencer levou a um sucesso espiritual.
A crucificação nos leva para a escuridão da alma, onde nós lutamos com os demônios
da vergonha e da aversão, da raiva e do ódio. Somos solicitados a morrer para tantas partes
de nós mesmos – para baixarmos tanto a espada quanto o escudo, para desistirmos do
julgamento, da obstinação e do ódio. Ainda assim, quando estamos lá, nus, tendo perdoado
tanto, podemos sentir a iluminação voltando aos nossos corações, e sabemos que fizemos a
transição para outro lugar. A crucificação nunca é o fim; de certa forma, é apenas o início.
Com cada cicatriz, nós nos tornamos portadores da ferida universal assim como
transmissores de uma cura universal. Quando sofremos e transcendemos nosso sofrimento,
emergimos com o conhecimento sagrado incrustado em nossas células. Em nossa vida pelo
menos, um pouco de escuridão foi vencida. E nós seremos levados a outros que venceram
de maneira similar, assim como àqueles que ainda não o fizeram, mas que serão inspirados
a isso em nossa presença. Juntos, vamos formar um campo unificado de possibilidades de
ressurreição, uma abertura que não abençoa apenas as nossas próprias vidas, mas o mundo
todo. E é isso o que está acontecendo no mundo hoje. As pessoas estão sentindo a dor do
mundo quase como uma inoculação. Estamos correndo para nos elevar para podermos criar
um campo mais elevado para todos.
As mulheres ao redor de Jesus esperaram e rezaram aos seus pés enquanto ele estava
crucificado. Essas mulheres simbolizam os amigos que testemunham nossa crucificação e se
preocupam com nosso sofrimento. Quando eles vão até o túmulo para reclamar o corpo –
que é, quando eles sentiram empatia por nossa dor e agora nos acompanham em nossa
jornada psíquica de volta à completude – eles geralmente descobrem que a pessoa que nós
éramos antes não existe mais.
Eles descobrem, quando o espírito de Deus desceu em nós, que nós não fomos
derrotados, mas, ao invés disso, nos tornamos seres melhores. Nós morremos para quem
costumávamos ser, isso é verdade, mas quem vamos ser agora é um espírito renascido e
renovado. A febre cedeu, as lágrimas secaram, e nós emergimos novamente para a luz do
nosso verdadeiro ser. Assim é a ressurreição, a luz de Deus sobre nossas almas.

Renascimento
Existe a paixão da crucificação, mas existe também a paixão da ressurreição. Ela não
pode ser vista com os olhos físicos, entretanto, pois a emergência de um ser renascido não é
um acontecimento material. Você tem os mesmos olhos, mas existe uma nova luz neles.
Você tem o mesmo cérebro, mas ele funciona de maneira diferente. Você tem o mesmo

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coração, mas ele bate com o Dele agora. E a ressurreição não é um momento, mas um
padrão, pois a cada dois passos na luz, nós podemos dar um de volta na escuridão. Mas,
uma vez que estejamos no caminho ascendente, uma vez que tenhamos tido um vislumbre
Daquele que prometeu nos levar lá, não existe um retorno real.
Não importa o que qualquer pessoa diga ou faça para tentar deter você. Você está em
um caminho para uma vida totalmente nova, não apenas para si mesmo, mas para os outros
também. Você não é um mártir, você é um professor de amor. Você viu a luz, e está andando
em direção a ela.
Apenas saiba quem você é e Quem vive dentro de você. Ele é elevado, e você também.

O Poder da Fé
Tanto na Bíblia quanto no Um Curso em Milagres é afirmado, “Abençoados sejam
aqueles que não vêem e crêem”. É fácil acreditar no amor quando você está rodeado pela
gentileza; não é fácil quando você é confrontado com julgamentos e ataques do mundo.
A fé é um aspecto da consciência. Ou nós temos fé no amor que é eternamente
verdadeiro, ou na ilusão do ego. Nesse sentido, não existe algo como uma pessoa sem fé.
Se você tem fé na realidade do desastre, então, o desastre será real para você. Se você tem
fé na realidade do amor que está por trás do desastre, então, você se torna uma abertura
para sua transformação. O trabalhador de milagres não olha para longe da escuridão, mas
através dela para a luz que está além. A fé é um tipo de negação positiva: nós não negamos
que algo está acontecendo no mundo físico, nós simplesmente temos fé em que essa
realidade não é nada além de mera ilusão diante do amor de Deus. Nós negamos a
realidade última do próprio mundo.
Sua fé repousa na realidade da crucificação ou na realidade da ressurreição?
Nós tendemos a ter mais fé nas limitações do mundo do que na ausência de limites do
poder de Deus. Quando os discípulos de Jesus pensaram que iriam se afogar, sua fé estava
no poder da tempestade. Quando Jesus saiu e andou sobre a água, Ele não disse aos Seus
discípulos, “Oh vocês, homens com pouca prática em andar sobre as águas; vocês não
leram as instruções?”. Ele disse, “Oh, vocês, homens de pouca fé”.
A fé significa que nós estamos abertos à possibilidade dos milagres, sabendo que,
quando ficamos firmes no solo do amor, dentro do espaço da santidade, então, todas as
forças materiais são automaticamente programadas para trabalhar em nosso favor. Nós não
temos que fazer nada novo, tanto quanto temos que nos tornar alguém novo para mudarmos
fundamentalmente nossas vidas. E, então, nós não apenas acreditamos na ressurreição,
mas nós compartilhamos a ressurreição. Ao nos tornamos humildes e darmos um passo
atrás com nosso ego, permitindo que Deus lidere, os milagres acontecem naturalmente. Sem
estresse, sem esforço.

Uma Mudança no Coração


Enquanto eu estava viajando por Amsterdã há vários meses, percebi que algo em mim
tinha mudado. Eu tinha viajado muito desde que era criança e visitado muitos museus por
todo o mundo. Eu sempre tinha me deliciado com retratos, paisagens, esculturas, telas
orientais, arte decorativa, design de jóias, e todas as outras delícias visuais que são
oferecidas em tais lugares. Mas uma categoria de pintura em particular nunca me motivou, e
eu sempre passei por ela sem prestar muita atenção. Era a arte náutica: barcos no porto,
barcos no mar, barcos em qualquer lugar. Isso simplesmente não era comigo.
Mas, se você está visitando museus na Holanda, vai ver pinturas de barcos. E, dessa
vez, seja por qual razão for, eles me tocaram de maneira diferente. Dessa vez, quando vi

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uma pintura de um barco em um mar revolto, encarando a clara possibilidade de um
naufrágio, minha mente foi até os marinheiros que estavam no barco, as razões pelas quais
eles estavam lá, o terror que estavam sentindo, e se iriam ou não sobreviver. Pensei sobre
os seres amados deles na terra e no que eles sentiram quando ouviram falar que havia uma
tempestade no mar. Pensei se o pintor já tinha visto um oceano agitado, e se não tinha,
como ele sabia qual a aparência dele? Percebi que durante muitos anos eu tinha olhado para
aquelas pinturas, e, ainda assim, eu realmente não as tinha visto de verdade, pois eu não
tinha trazido nem um pouco do meu coração para a experiência.
Na mesma viagem, eu visitei a casa de Anne Frank. Já faz muitos anos que eu li O
Diário de Anne Frank, e eu achava que tinha internalizado sua história e seu significado.
Ainda assim, ao visitar o museu Anne Frank com minha filha nessa viagem, eu mal podia
parar de chorar – na verdade, eu não pude parar de chorar – conforme andava através dos
cômodos da casa da sua família. Vendo onde ela dormia, incapaz de correr para fora, de
brincar, ou até de olhar a luz do sol através da janela; vendo os lugares na parede onde seu
pai colou fotografias de revistas para que não parecesse tão triste; pensando na tensão
diária extraordinária e no medo que aqueles que se esconderam naqueles cômodos
sentiram, assim como seus amigos que os estavam escondendo; pensando em todos os
anos em que eles sobreviveram daquela maneira, apenas para terem se esconderijo
denunciado um ano antes do fim da guerra; e pensando nos dias apavorantes de Anne no
campo de concentração de Bergen-Belsen, apenas para morrerem um mês antes da
libertação dos campos – mal pude suportar o peso de tal pesar, misturado aos profundos e
compassivos insights de Anne sobre a natureza do coração humano. Pensei na
sobrevivência do seu pai, na sua descoberta da morte da sua família, em seu ato de publicar
os diários de Anne – e sempre sabendo que esse mesmo conto de sofrimento foi
experimentado não uma, mas seis milhões de vezes.
Ao andarmos através dos cômodos e lermos os documentos, eu falei a minha filha
sobre o quanto é importante testemunharmos o sofrimento dos outros, pois essa dor como a
da família de Frank ainda é experimentada por todo o mundo, por pessoas tão infelizes hoje
quanto eles foram naquela época. E, apenas se nos permitirmos chorar por eles, vamos nos
devotar, como Deus gostaria que fizéssemos, a criar um tipo diferente de mundo.
Em um determinado momento, minha filha disse para mim docemente, “Ah, mamãe, por
favor, não chore”. E eu pensei, “Ah, Emma, por favor, chore”.
Existem aqueles que não visitariam um museu desse tipo, que, ao invés disso, iriam se
fechar e não sentir a agonia ou a face do horror de todo sofrimento no mundo. Nós fazemos
o que podemos para nos distanciar disso, mas, quando Jesus disse aos discípulos que
estavam adormecendo no Jardim de Gethsemane, “O que? Vocês não podem ficar
acordados durante uma hora?”, acho que ele estava se referindo à nossa necessidade de
permanecermos despertos enquanto outros sofrem. Se não for nada a mais, fazer isso nos
lembra o quão extraordinariamente afortunados nós somos – e eu quero mesmo dizer
extraordinariamente afortunados – por termos um telhado sobre nossas cabeças, comida em
nossos estômagos, e o direito simples de vermos a luz do sol a cada dia. Uma vez que isso
não é verdadeiro para todos, existe muito trabalho a ser feito na Terra. E, se nós não o
fizermos, quem o fará?
Mesmo quando não existe nada específico que possamos fazer para ajudar os que
sofrem, permanecer despertos às suas dificuldades exsuda seu próprio tipo de força moral.
Existem pessoas no mundo – presas, sofrendo – para quem a diferença entre escolher a vida
ou a morte está em simplesmente saber que alguém se importa.

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Depois de visitar a casa de Anne Frank, eu me sentei para tomar um café em uma
lanchonete do outro lado do canal. Na mesma rua na qual ela tanto queria correr e brincar,
mas não podia, eu estava livre para perambular, fazer comprar, bebericar café e rir alto. Por
qual dádiva do destino eu sou tão afortunada?
Existe um prédio em Amsterdã onde todos os judeus eram arrebanhados pelos nazistas
para a deportação para os campos de concentração, onde muitos deles seriam mortos com
gás imediatamente depois de chegarem. Uma placa no prédio diz que deveríamos parar um
momento e nos lembrarmos deles. Naquele momento, pensei que as almas que partiram
sentem nossa benção: e espero que, de alguma forma, isso traga paz a elas.
Para nós, isso pode trazer profundidade. Que nossos corações possam explodir com a
pureza disso tudo. Pois, dentro deles, repousa a única esperança real para a humanidade.

Ressurreição
É a consciência da paz, não o comportamento da guerra, que, no final das contas, vai
mudar o fluxo do medo. E está a cargo de cada um de nós promover essa consciência. Não
estou me referindo apenas a tornarmos as coisas melhores, mas a transcendermos todos as
leis físicas, torcendo as regras do tempo e do espaço, e nos tornando vivos onde antes
estávamos mortos. Chegou a hora de vermos milagres em nossas próprias vidas, de
ressuscitarmos da pequenez de nossos seres anteriores. Através de Deus, essas coisas são
possíveis. Esses milagres estão disponíveis, e são necessários agora.
Não importa o que alguém disse quando você era criança; você agora sabe que é
esperto e atraente. Não importa o que aconteceu antes; você pode se levantar e começar de
novo. Não importa o que fizeram a você; o perdão o purificou.
Meninos que se tornaram homens, agora vão se tornar grandes homens; meninas que
se tornaram mulheres, agora vão se tornar grandes mulheres. Nós vamos dar à luz a nossos
seres melhores. Aqueles que se elevam às maiores alturas do seu potencial não serão a
exceção; eles serão a regra. Através deles – e por eles, eu quero dizer nós – vai emergir um
plano para a salvação do mundo.
Um novo mundo espera por todos nós, conforme nossas mentes são curadas pelo
amor.

105
CAPÍTULO DEZ

Do Seu Plano
para o Plano de Deus

Uma revolução subterrânea está se espalhando pelos corações e mentes das pessoas
do mundo, e isso está acontecendo apesar das guerras e do terror que nos confrontam. Essa
revolução é uma mudança fundamental da visão de mundo, e ela traz consigo o potencial de
reorganizar a estrutura da civilização humana. Ela traz uma mudança básica nos
pensamentos que dominam o mundo. Ela promove a paz que vai acabar com a guerra. É um
fenômeno global que vai mudar a estrutura celular da raça humana. Para aqueles que são
parte dela, que se sentem chamados, sua realidade é um crescimento, senão uma verdade
óbvia. Para outros ainda, é uma noção grandiosa, mas ridícula, uma idéia irracional e
ignorante.
Ainda assim, nenhuma revolução social de qualquer importância emergiu porque todos
um dia acordaram e disseram, “Entendi! Entendi!”. Essas revoluções emergiram, ao invés
disso, do que a antropóloga Margaret Mead descreveu como “um pequeno grupo de
cidadãos interessados”. Não apenas esses grupos são capazes de mudar o mundo, de
acordo com Mead, mas, na realidade, eles são a única coisa que sempre o fez. E eles estão
fazendo isso agora.
Uma contracultura espiritualmente sintonizada já está entre nós. Ela é marcada não por
roupas ou música, drogas ou sexo, como foi a contracultura dos anos sessenta, mas pelas
atitudes internas daqueles que a percebem. Eles fazem sugestões e comentários que são
apenas um pouco mais sábios; eles trazem novos insights a áreas previamente fechadas
pelo status quo. Eles vêem alguma estrela no céu que nem todos vêem. E, em sua presença,
nós começamos a vê-la também.

Assumindo a Responsabilidade
Nós assumimos a responsabilidade por participar dessa revolução, através do desejo
sincero de sermos usados por algo maior do que nós mesmos, com o propósito de curarmos
o mundo. Nem mesmo importa se nós não chamarmos esse “algo maior” pelo nome de
Deus, pois algumas pessoas conspiram com Deus e nem mesmo acreditam Nele*. No fim
das contas, não é nossa crença, mas nossa experiência que importa*. Deus não tem ego
através do qual ser insultado se nós não tomarmos Seu nome corretamente.
Mas, seja por qual nome nós O chamemos, acabamos percebendo que nós somos o
exercito, mas Ele está no comando. Ele não pode nos usar para mudar o mundo
profundamente antes de sermos mudados por Ele primeiro. Para entregarmos o mundo a
Ele, primeiro precisamos nos entregar a Ele.
A mudança começa com uma troca das lentes através das quais nós percebemos o
mundo. Ela cresce dentro de nós para afetar não apenas as nossas próprias vidas, mas
também as vidas dos que estão ao nosso redor. Ela nos leva a nos conectar com os outros
que estão, da mesma forma, provocando uma transformação em suas estruturas egóicas, da
velha perspectiva para algo novo. E, através de nossos esforços individuais e coletivos,
divinamente inspirados, nós vamos mudar o mundo com o tempo. Logo que pensarmos que
toda esperança se foi, ela vai reaparecer.

106
Para aqueles que nós que são cínicos, que estão exaustos demais agora, que estão
cansados da maneira que as coisas sempre aconteceram, que costumavam se importar, mas
que agora estão ocupados demais apenas em continuar, existe uma mudança em
andamento. Ela começa no coração. E, conforme ela sobe à superfície, vai mudar todas as
coisas.

Imagine que Deus perguntou a você se poderia usar suas mãos e seus pés para ir
aonde Ele gostaria que você fosse, e para fazer o que Ele gostaria que você fizesse.
Imagine que Deus perguntou se Ele poderia usar sua boca para dizer o que Ele gostaria
que você dissesse e a quem.
Imagine essas coisas porque Ele as tem.
“Muitos são chamados, mas poucos são escolhidos” significa que todos são chamados,
mas poucos escolhem escutar*. O chamado vem para todos nós, o tempo todo. Nenhum de
nós tem mais ou menos capacidade de contribuir com a salvação do mundo.
Escolhendo servir a Deus, estamos escolhendo o caminho em direção à grandeza de
Deus dentro de nós. Quando vemos pessoas que estão claramente permitindo que o espírito
trabalhe através delas – que encontraram seu talento, seu poder, sua paixão – não estamos
vendo alguma força especial trabalhando, que os escolheu ao invés dos outros. O poder não
as escolheu mais do que elas o escolheram.
Aqueles entre nós que conseguiram o máximo, alcançaram apenas uma fração do que
todos nós somos capazes de fazer*. Os “dons do Espírito Santo” estão esperando por todos
nós, quando nossas vidas são dedicadas aos planos de Deus.
A cada manhã, nós temos uma escolha: Eu vou buscar o plano de Deus hoje, ou vou
passar pelo meu dia como um escravo dos compromissos do ego?”. Escolher o plano de
Deus é escolher a opção com a melhor oportunidade de transformar sua vida em um canal
para os milagres. Logo que começarmos a perguntar a Ele como poderemos ajudar com Seu
plano, ao invés de apenas pedirmos a Ele para nos ajudar com nossos planos, tudo vai
melhorar para todo mundo.
Nós estamos aqui para sermos professores de Deus – o que significa aqueles que
demonstram o amor. Deus tem um plano para a salvação do mundo, chamado de ‘o plano
para os professores de Deus”*. Seus professores vêm de todas as religiões, e de nenhuma
religião*. Não existe nada para nos afiliarmos, nenhuma organização ou instituição mundial a
qual pertencermos. Isso simplesmente se refere a uma inspiração no coração, que, então,
ativa um sistema de orientação interno que já está presente dentro de nós. Se nós
perguntarmos como ajudar, Ele vai nos mostrar.
Enquanto existem pessoas cheias de ódio planejando maneiras de disseminar a
violência e a destruição na Terra, Deus tem um projeto para criar a paz na Terra. Não é um
projeto físico, mas, ao invés disso, um plano que existe na Sua Mente, e cujas partes estão
prontas para serem baixadas na mente de qualquer pessoa que peça para receber sua parte.
Cada um de nós carrega o potencial máximo para ser usado por Deus para curar o mundo.
Ele tem um plano. E ele não pode deixar de funcionar.

Os Negócios do Nosso Pai


Algumas vezes, cuidar dos “negócios do nosso Pai” envolve tanto algo que fazemos
quanto algo que não fazemos. Pode ser nossa resistência passiva, até mais do que um
desafio direto, que subverte uma influência injusta.
Eu conheço um sacerdote cujo trabalho terminou injustamente, e a direção da sua igreja
escolheu assassinar sua reputação para evitar qualquer desafio de sua congregação. Ele

107
estava compreensivelmente aborrecido, embora as ações de muitos amigos que o apoiaram
tenham tocado seu coração.
Uma dessas pessoas foi uma mulher que cortava o cabelo dele todos os meses. Depois
da destituição do sacerdote da igreja, um dos membros da direção, um homem que tinha
sido em grande parte responsável pela campanha contra ele, começou a ir ao seu salão para
que ela cortasse seu cabelo também. Todos os meses, o homem vinha, sentava na cadeira,
e repetia a mesma caracterização errônea dos fatos, mergulhado em mentiras e negações
em benefício próprio.
Depois de alguns meses, a mulher simplesmente não queria mais cortar o cabelo do
membro da diretoria. Ela não mais se sentia bem em fazer negócios com ele. Sua lealdade
ao seu amigo, e o ato de ficar firme em um princípio de honradez como ela a compreendia,
importou mais para ela do que seus negócios. Ela não podia entender, como ela mesma
disse, como um lugar podia abusar das pessoas e ainda se chamar de igreja. Ela chamou o
membro da diretoria para dizer que não queria mais cortar seu cabelo.
A ação da mulher foi uma demonstração do princípio de não violência de Mahatma
Gandhi, que declara que uma força moral emana de uma ação honrada. Embora essa força
possa não ter efeitos observáveis, ela realmente tem efeitos em um plano invisível.
Simplesmente por permanecermos na Verdade – não apenas em nossas palavras, mas
também em nosso comportamento – ajudamos a criar uma onda de poder que vai curar o
mundo.
Em 1955, Rosa Parks inspirou o movimento de direitos civis, simplesmente por dizer
não para o motorista de ônibus que disse a ela para dar seu lugar para um homem branco.
Quando o dr. Martin Luther King Jr pediu um boicote à companhia de ônibus Montgomery,
ele estava pedindo um sacrifício imenso da parte de centenas de pessoas. Durante 381 dias,
as pessoas andaram quilômetros até o trabalho, algumas vezes, enfrentando o terrorismo e o
assédio, ao invés de continuarem a participar de um sistema de ônibus de segregação.
Simplesmente por dizer não para o que ela sabia que era injusto, a sra. Parks demonstrou os
poderes tremendos que tais atitudes colocam em movimento.
Nós nunca sabemos que efeito o fato de simplesmente permanecermos na verdade
pode ter. Nós pensamos, “Eu sou apenas uma pessoa; que diferença eu posso fazer?”. Mas
nenhum de nós é “apenas uma pessoa”. Todas as mentes são unidas, e cada um de nós tem
uma chance, todos os dias, de dizer sim a algo que poderia tornar o mundo um lugar melhor,
e não a algo que o degrade. Nós, algumas vezes, estamos procurando o grande plano que
vai salvar o mundo, e, ao mesmo tempo, não reconhecemos nossa parte nele. O plano que
vai nos salvar envolve pequenas maneiras de cada um de nós se tornar mais honrado a cada
dia. E pequeninas gotas em quantidade suficiente, com o tempo, criam um oceano.
A mulher que se recusou a cortar o cabelo de alguém que ela sabia que havia sido
injusto com seu amigo não ajudou apenas seu amigo. Ela ajudou a si mesma também.
Reforçando as forças da lealdade e da integridade, ela gerou um poder moral que se somou
à sua própria estatura espiritual.
Nenhuma ação fica sem registro no universo. O filósofo político Edmund Burke
escreveu, “A única coisa necessária para que o mal triunfe, é que o número suficiente de
pessoas boas não faça nada”. E a única coisa que vai triunfar sobre o mal é que o número
suficiente de pessoas boas realmente faça o bem.
Não é suficiente simplesmente falar sobre a bondade. O fato de eu dizer que amo você
significa pouco, a menos que seja colocado em prática. O fato de eu dizer que amo você
significa pouco a menos que você tenha a experiência de mim como uma amiga leal e ética.
O fato de eu dizer que amo você não torna tudo certo se meu comportamento demonstra

108
outra coisa. Esse geralmente é o problema com uma visão de mundo chamada de espiritual;
existem aqueles que agem como se o uso da palavra amor tornasse um esforço autêntico na
ética, na integridade, na lealdade, ou até na honestidade desnecessário, mas, certamente,
Deus se impressiona menos com suas palavras do que com seus atos.
No filme Encontro com a Morte, existe uma cena onde a Morte diz ao pai de uma mulher
que planeja levá-la com ele quando deixar a Terra, pois tinha se apaixonado por ela e não
queria ficar sem ela. Nesse ponto, o pai dela argumenta que o amor real é mais do que
apenas um apetite ou até uma necessidade; ele é um cuidado ativo pelo bem-estar último de
outro ser humano.
O amor nem sempre é fácil; e, se ele não o amplia pessoalmente, então, provavelmente
não é amor.

O Objetivo da Vontade de Deus


Para muitos de nós, o problema não é que não acreditamos em Deus, ou que não
queremos ser canais para Seu amor; o problema é simplesmente que também temos alguns
outros objetivos*. Nós não reconhecemos o quando nossos objetivos separados, individuais,
podem realmente ficar no caminho dos objetivos de Deus.
O trabalhador de milagres é solicitado a fazer duas coisas: ver o perdão como nossa
função no mundo, e renunciar a todos os outros objetivos que inventamos para nós mesmos.
Algumas vezes, as pessoas me perguntam sobre meus primeiros anos dando palestras
sobre Um Curso em Milagres, e sobre o caminho interessante que eu trilhei
profissionalmente. Já se passaram vinte anos desde que dei minha primeira palestra, e,
desse ponto de vista vantajoso, posso ver claramente porque minhas primeiras realizações
foram livres de esforço; eu tinha muito pouco e queria um pouco mais. Eu estava deliciada
com meu apartamento, meu trabalho, meus amigos, minha vida. Eu era tão completamente
inocente em relação a conceitos como status de best-seller, direitos autorais, datas de
palestras, pagamentos de editoras, percepções públicas, e tudo o mais do mundo material,
que dedicava energia total ao trabalho que me sentia impelida a fazer. Minha ingenuidade
era um recurso.
Andar por uma butique nunca costumava me provocar estresse. Eu não podia comprar
nada, e sabia disso, então, era como se eu estivesse andando por um museu. É quando
você pode comprar um bom vestido, mas não mais, que o estresse irrompe!
Agora, quando eu leio que como uma trabalhadora de milagres devo abrir mão de
quaisquer objetivos que tenha inventado para mim mesma, isso definitivamente me detém
logo. Datas de palestras, economias, o suficiente para Emma, contratos para livros – e a lista
continua. O mundo tanto me recompensou quanto me aprisionou. Como muitos de nós, eu
construí uma prisão ao redor de mim, e agora tenho a audácia de reclamar.
Então, ficamos presos em um círculo: estamos tentando escapar da dor de um mundo
que é a dor. A inocência da ignorância – quando éramos puros de coração simplesmente
porque não conhecíamos nada mais – certamente deve ser linda para Deus. Mas existe
outro tipo de inocência também: uma inocência perdida e depois recuperada, tendo sido
conscientemente escolhida por alguém que realmente conhece algo mais. É uma coisa não
cobiçarmos algo porque nem sabemos o que existe para ser cobiçado, e outra coisa não
cobiçarmos porque estivemos lá, fizemos aquilo, e isso não se adequou a nós de maneira
alguma. Pense no quanto somos úteis a Deus então, quando nossos objetivos tiverem sido
substituídos pelos Dele.
Com freqüência, tentamos ser claros sobre quais são nossos objetivos, formulando um
plano de cinco ou de dez anos, fazendo mapas do tesouro, identificando aqueles que

109
queremos emular. Mas, nós também deveríamos pensar sobre nossos objetivos espirituais.
A questão não deveria ser apenas, “Onde quero estar em cinco ou dez anos?”. Ela também
deveria ser, “Quem eu quero ser em cinco ou dez anos?”. Quanto tempo vai levar até que eu
ultrapasse o julgamento e a culpa? Quanto tempo vai levar até que eu pare de encenar o
papel de vítima? Quanto tempo vai levar até que eu perdoe a mim mesmo e faça o máximo
da vida que tenho?
Nosso objetivo em qualquer situação deveria ser que a Vontade de Deus seja feita*.
Tudo o que precisamos saber exatamente a cada instante nos será dito quando nossos
corações estiverem abertos*. Deus fala a nós através do que é chamado de “a pequena e
quieta voz por Deus”. Através do perdão, da oração, e da meditação, nós podemos aquietar
nossas mentes o suficiente para podermos ouvi-la.
Uma de minhas orações preferidas no Um Curso em Milagres é a seguinte:

Aonde você quer que eu vá?


O que você quer que eu faça?
O que você quer que eu diga, e a quem?

Com essa oração, estamos pedindo a Deus para nos usar – para usar nossas mãos e
pés, pensamentos e sentimentos. E, uma vez que tenhamos nos entregado para ser usados
para um propósito maior, abrimos mão da obsessão de fazer planos que domina a maior
parte da civilização ocidental. Nós agora não podemos saber o que está do outro lado de
uma curva específica da estrada. Nós escolhemos andar através da ponte da percepção do
Espírito Santo ao invés disso, sabendo que o destino não é tão importante quanto quem nós
somos enquanto estamos caminhando.
A paz interior traz mais experiências positivas às nossas vidas porque ela nos alinha
com os aspectos superiores de nossa própria personalidade. Nós mudamos da
grandiosidade para a grandeza, e da pequenez para a magnitude*. Nós atraímos, ao invés
de repelir, afeição e confiança e, - tão importante quanto isso - nós desenvolvemos o poder
de retê-las. Não traz muita vantagem atrair nosso bem se formos frenéticos ou fora de centro
demais para conservá-lo depois de tê-lo atraído.

Nossa Magnitude Espiritual


O que vai acontecer conforme crescermos para a magnitude espiritual? Em cada uma
de nossas vidas, vamos parecer diferentes. Cada momento contém infinitas possibilidades, e
a quantidade de magnificência que nós permitirmos que penetre em nós e através de nós é
determinada por nossa vontade e receptividade. Em qualquer extensão em que os bloqueios
à consciência e à nossa natureza divina forem removidos, nessa mesma extensão estaremos
magnetizados para os eventos e situações – e eles estarão magnetizados para nós – que
ressoam com nossa grandeza. Se estivermos vibrando em uma baixa freqüência, vamos
atrair situações de baixa energia (quantas vezes nós demos uma topada com o dedo do pé,
ou batemos um dedo quando estávamos irritados?); se nós estivermos vibrando em uma
freqüência elevada, vamos atrair milagres.
As pessoas vão telefonar inesperadamente, as situações vão parecer apenas melhorar,
a abundância de todos os tipos vai aparecer. E, quando elas fizerem isso, é bom reconhecê-
las. Nós geralmente construímos um altar para nossos desastres, dando a eles tanto tempo,
atenção e energia. Mas, nós fazemos o mesmo com nossas bênçãos? Nossas mentes estão
realmente disciplinadas para invocar e aceitar o bem?

110
Nós estamos vivendo durante uma “aceleração celestial” na qual tudo está se movendo
rapidamente – incluindo a nós mesmos!* Nossas questões não estão mais vindo através de
brisas lentas e gentis, mas em enormes tempestades torrenciais! E isso não é porque
estamos falando, mas porque estamos disponíveis, Deus sabe disso, e isso é o que é. Eu me
lembro de estar assistindo a televisão uma noite, sobre a invasão do dia D, de como as
forças Aliadas treinaram isso durante meses, e, então, em uma manhã, as coisas estavam
diferentes: isso era real.
Essa é uma época crítica em nossas vidas porque é uma época crítica para a Terra.
Cada um de nós tem a oportunidade agora de crescer para a plenitude de nosso potencial
divino para assumirmos nosso lugar no plano de Deus. O plano existe na Mente de Deus, e,
na extensão em que entregarmos nosso pensamento a Ele, vamos assumir nossa parte.
Nossa função primária é permanecermos na luz de quem somos, e nos tornarmos a pessoa
que somos capazes de ser. À partir disso, todo bem seguirá.
E nós damos um passo nessa luz em qualquer momento que escolhermos. Quando
nossos corações estão fechados para o amor – quando somos julgadores, quando nos
seguramos, não perdoamos – estamos literalmente não sendo nós mesmos. Nós estamos,
nesses momentos, escolhendo ser reféns do ego, ao invés de anfitriões de Deus.
Nossa função, nossa felicidade, e nosso propósito emanam todos do mesmo ponto de
poder: nossa capacidade de incorporar o amor em qualquer momento específico. E o amor é
mais do que “ser gentil”. É a entrega de um sentido separado do ser, uma afirmação da
totalidade da vida como uma parte de nós mesmos. Sabendo que somos partes do todo, nós
mudamos nossa perspectiva de um senso de identidade individual, para um senso de
conexão universal. Torna-se impossível agir apenas para você mesmo quando você sabe
que seu ser inclui todos.
Se alguém sofre do outro lado do mundo, ele ou ela não é menos parte de nós mesmos.
E quando uma massa crítica da humanidade perceber isso, então, os obstáculos para a
paz mundial vão cair. No reino do espírito, nós vemos nosso objetivo plenamente realizado:
nós queremos um mundo refeito à imagem do amor. No reino do corpo, nós alcançamos isso
gradualmente; nós vamos fazer o que pudermos para tornar o mundo um lugar melhor.
Entretanto, o poder da visão mantém o processo nos trilhos corretos. Nós sabemos que
através de nossos esforços individuais, estamos contribuindo para um sentido maior. Nosso
objetivo não é apenas criar um mundo no qual as coisas sem amor sejam banidas; nossa
visão é um mundo no qual tais coisas tenham se tornado literalmente impensáveis. Esse é o
papel do trabalhador de milagres: pensar com tanto amor que o medo comece a perder a
falsa autoridade com a qual ele governa o mundo. Pense em um mundo no qual exista
apenas amor, e mantenha esse pensamento por vários minutos a cada dia. Chegará o dia
em que nosso pensamento vai levar à nossa crença, que vai levar à nossa ação para criar
isso.

Nós Estamos Realmente Tentando?


Todas as pessoas que eu conheço querem que o mundo mude. Todos nós queremos
ser uma parte da solução. Nós consideramos o pensamento da completa revolução dos
valores humanos uma idéia muito atraente. Todos estão prontos para assinar embaixo.
Vamos!
Mas, espere. Você começa a ouvir algumas pequenas reclamações. “Nós podemos
fazer isso enquanto a Ala Ocidental não está fazendo?”. “Eu poderia assinar embaixo por um
intervalo de tempo das duas às quatro no sábado, quando as crianças estão jogando
futebol?”. “Nós não poderíamos nos encontrar em um local mais agradável?”. Nós somos a

111
única geração na história do mundo que quer reinventar a sociedade com vinho tinto e
queijo.
Apenas na América alguém iria esperar que mudar o mundo possa ser conveniente!
Olá. Confira a realidade: As sufragistas não tinham telefones celulares. Os abolicionistas não
tinham faxes.
Mas eles realmente tinham muito amor em seus corações, entretanto. Assim como você
e eu.
Eu perguntei a um amigo sobre o que deveria falar em uma palestra que eu ir dar em
sua livraria e ele disse, “Fale sobre os desafios de viver uma vida espiritual hoje em dia –
quero dizer, todos nós tentamos tanto!”.
E eu pensei comigo mesma, “Não, nós não tentamos!”.
Seja por qual razão for, nós continuamos dizendo a nós mesmos que o fazemos. Somos
todos revisionistas hoje em dia, e não estamos satisfeitos em apenas revisar nosso passado
– nós revisamos até o presente. Nós parecemos ter uma crença mágica de que, se nos
descrevermos de uma certa maneira, então, deverá ser verdade.
Nós conversamos sobre o quanto é difícil viver uma vida espiritual quando nem estamos
meditando regularmente, ou fazendo os esforços mais profundos para perdoar aqueles que
nos magoaram. Talvez, tenhamos passado tantos anos na sala de aula que o “modo
estudante” tenha se tornado um hábito.
Chegou a hora de nos formarmos. O número suficiente de nós conhece princípios
espirituais agora; nós lemos os mesmos livros e ouvimos às mesmas fitas. Chegou a hora de
nos tornarmos os princípios agora, de incorporá-los e demonstrá-los em nossas vidas diárias.
Até que o façamos, não vamos realmente compreendê-los no nível mais profundo. Eles não
vão informar nossas almas ou transformar o mundo.
E, se esse for o caso, vamos ficar para a história como a geração que sabia o que
precisava saber e, ainda assim, não fez o que precisava. Nem posso imaginar como seria
morrer com essa percepção.
Nós nos subscrevemos a um tipo de noção de torre de marfim sobre educação
espiritual: mantenha isso abstrato, intelectual e seguro. Ainda assim, os espólios da história
geralmente vão para aqueles que querem acabar com sujeira embaixo das suas unhas.
Eu ouvi uma mulher falando recentemente sobre sua frustração com a política: “Nós
tentamos tanto, e nada parece mudar!”. Eu pensei que ela deveria estar brincando.
“Ah, não, nós não tentamos. Quantos de nós já votou?”, eu perguntei a ela. “E se o
fizermos, o que isso significa – nós vamos às urnas a cada dois ou quatro anos? De onde
tiramos a idéia de que tentamos tanto?”. Nós pensamos que fizemos algum esforço nobre e
supremo para mudar o mundo, e isso não funcionou?! Nós fomos tão treinados por seriados
de televisão de trinta minutos que, se não conseguimos o que queremos em meia hora, é
como se tivéssemos tentado e falhado. Muito ruim. Terminou. Próximo.
Madre Teresa fez um esforço nobre e supremo. Martin Luther King Jr. fez um esforço
nobre e supremo. Susan B. Anthony fez um esforço nobre e supremo. Nós não fizemos um
esforço nobre e supremo. Na verdade, a maioria de nós fez muito pouco esforço para mudar
o mundo. Mas, então, nos sentimos frustrados quando vemos que nada está mudando!
Geralmente, quando as pessoas dizem, “Nós tentamos tanto!”, não estão realmente
falando sobre si mesmas. É mais como, “Bem, existem outras pessoas que eu conheço que
fizeram isso!”. É engraçado quando você pensa sobre isso. Talvez nós não percebamos o
grande segredo que está entre nós – que não é o quão pouco poder nós temos para mudar
as coisas, mas, ao invés disso, quanto poder nós temos e não estamos usando! Nós somos
como pássaros que nunca foram informados, ou que se esqueceram, de que têm asas!

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Mas uma grande lembrança está reverberando entre nós, e seja o que quer que
tenhamos feito ou não, no que tenhamos sido bem sucedidos ou no que tenhamos falhado,
que tempo tenhamos usado bem ou que tenhamos desperdiçado, nós estamos aqui,
estamos disponíveis, estamos presentes nesse momento e aptos à mudança.
Tudo o que nós precisamos nos lembrar é isso? Se Deus nos deu um trabalho a fazer,
Ele vai nos prover com os meios pelos quais possamos cumpri-lo*. Tudo o que temos que
fazer é perguntar a Ele o que Ele quer que nós façamos e, então, querermos fazê-lo.

Objetivos
Antes de um despertar espiritual, nós vivemos nossas vidas muito por nossa conta. Nós
passamos pelas situações com nossas formas-pensamento mundiais, geralmente centrados
em nossos próprios compromissos, nossos objetivos individuais, e nossas necessidades
como as definimos. Entretanto, quando nós estamos no caminho do trabalhador de milagres,
começamos a entregar nossos objetivos a Deus.
Algumas vezes, eu me vi completamente entregue ao decidir o que fazer, e, ainda
assim, agarrei os controles quando pensei aonde chegaria fazendo isso. Não é suficiente
permitir que Deus decida que ação vamos tomar. Nós também temos que permitir que o
Espírito de Deus influencie profundamente quem somos dentro da ação.
Você poderia se sentir guiado para um determinado encontro, mas, se seus
pensamentos durante o encontro forem arrogantes e julgadores, se seu comportamento for
controlador ou imaturo, então, mesmo que você estiver onde “deveria” estar, ainda vai
estragar tudo logo que estiver lá! Nossa energia pessoal tanto atrai quanto repele nosso
bem. As pessoas sentem telepaticamente o teor dos nossos pensamentos, e pouquíssimas
pessoas ficam entusiasmadas para estar com uma pessoa negativa.
Se eu entro em uma sala e silenciosamente abençôo todos nela, ninguém vai saber
exatamente porque se sente mais pacífico, mas vão se sentir assim. Quando nossos
pensamentos estão alinhados com os de Deus, somos elevados a um reino superior de
possibilidade do que nosso pensamento baseado no ego pode prover. Não é suficiente rezar,
“Querido Deus, eu devo ir a esse encontro?”. Também é útil se lembrar, antes de entrar, de
rezar, “Querido Deus, agora que estou aqui, entrego esse encontro a Você. Que eu possa
ser um instrumento para sua paz. Amém”.
Nós geralmente ignoramos o poder espantoso da oração, e por uma razão igualmente
espantosa: nós não acreditamos que possa ser tão fácil. Ainda assim, é difícil para o botão
de rosa florescer? É difícil para as estrelas brilharem? Parte do gênio de Deus é que ele faz
tudo isso parecer fácil. Nós ficamos buscando as asas de um pardal, quando as asas de uma
águia já foram dadas a nós*. Nós ficamos agarrados à nossa fraqueza, enquanto nossa
verdadeira força é imensa.

Trocando Ambição por Inspiração


O ponto não é fazer alguma coisa ou não. O ponto é fazer algo se formos guiados
interiormente para fazê-lo, e não fazer algo se não formos guiados a isso. Algumas vezes, as
pessoas pensam que têm uma grande idéia e, então, ela desmorona. Entretanto, se o plano
foi auto-induzido ao invés de divinamente inspirado, então, ele pode não ter refletido o
melhor uso de seus talentos em uma área específica.
Os trabalhadores de milagres são avisados para “evitar planos auto-induzidos”*. Isso
significa que idéias a que chegamos por nós mesmos – idéias que vêm não do nosso sentido
de profunda orientação e inspiração, mas, ao invés disso, de um senso de ambição e de um
desejo por controle – vêm do ego e não são apoiados pelos céus. De maneira bem simples,

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eles não são abençoados. Poderiam ser boas idéias, e muito bem intencionados, mas, se
elas não emanarem do Espírito Santo, então, representam “minha vontade” e não “Sua
vontade”. Nossas boas intenções não são suficientes; nossa prontidão é tudo*.
Com freqüência, tenho ouvido as pessoas reclamarem sobre um plano que falhou. “Mas
era uma boa idéia! Não sei porque não deu certo!”. Mas, embora nós possamos ter pensado
que algo era uma boa idéia, a mente mortal tem uma perspectiva limitada sobre “boas
idéias”. Por qual critério nós podemos discernir uma idéia realmente boa, dada nossa
incapacidade de saber o que vai acontecer no futuro, que lições precisam ser aprendidas por
quem, e como nossas ações se encaixam no plano mais amplo de Deus? Uma idéia
abençoada não vem da mente mortal, que não tem noção de como nossos talentos e
habilidades iriam funcionar melhor dentro de um bem em expansão mais amplo. E, de uma
perspectiva espiritual, existe um plano maior de bem em expansão, uma vontade de curar
que é construída dentro do funcionamento do universo. Tudo o que precisamos saber nos
será dito, e tudo o que precisamos ver nos será mostrado. A Mente (Espírito) Completa
(Santo) de Deus se imprime sobre nós quando rezamos, meditamos e procuramos seguir
princípios espirituais. Ao nos abrirmos para receber Sua orientação, nossos pensamentos e
sentimentos caem em padrões que levam todas as coisas, dentro de nós e ao nosso redor, a
reinos de uma correta ordem divina.

O Ministério Não É Apenas para Ministros


Quando eu era jovem, lembro-me de me sentir sobrecarregada com o pensamento de
que eu não sabia o que deveria fazer com minha vida. Eu não tinha idéia de que já poderia
existir um plano divinamente ordenado, algum trilho pelo qual eu simplesmente tivesse que
dirigir meu trem. Eu pensava que era responsável pelo trem e pelo trilho, não importando que
ambos fossem tão pobremente construídos de vez em quando.
Seguir o caminho de Deus não é tão difícil quanto é diferente*. O que é difícil é treinar
novamente nossas mentes, ultrapassando nossa resistência a pensarmos de maneira tão
diferente da que fomos ensinados. Na verdade, nossa única função é o amor e o perdão,
então, o mundo todo como o conhecemos está errado. E está. O pensamento do mundo está
a 180 graus de distância do pensamento de Deus*.
É preciso uma certa humildade para nos apresentarmos verdadeiramente vazios e
disponíveis para Deus. Mas, quando o fazemos, nos tornamos preenchidos com a
informação que de outra forma não possuímos. Como o que fazer com nossas vidas – que é
uma informação significativa para estar faltando.
Nós sempre estamos imaginando se deveríamos fazer isso ou aquilo, quando, de uma
perspectiva espiritual, o que é mais importante não é tanto o que fazemos, mas quem nos
tornamos. Algumas coisas Deus realmente gostaria que fizéssemos, mas, primeiro,
precisamos nos tornar pessoas diferentes para podermos saber como fazê-lo ou como
sermos capazes disso. Deus não pode trabalhar para nós até que possa trabalhar através de
nós.
Uma vez, eu ia tirar umas férias e estava em contato com uma agente de viagens
chamada Connie. No último minuto, por causa de um compromisso de trabalho, eu precisei
mudar a data da minha partida. Quando Connie conferiu, entretanto, ela descobriu que tinha
me vendido uma passagem completamente não reembolsável e que não poderia ser
mudada.
Fique aborrecida porque não teria comprado a passagem se soubesse disso. Mas eu
também sabia que essa era uma grande oportunidade para alcançar o equilíbrio entre
mostrar um desprazer apropriado em relação ao desempenho profissional de alguém, e

114
demonstrar graça e compaixão em relação a alguém que simplesmente tinha cometido um
erro. Conforme minha filha de quatorze anos disse depois de ouvir o final da minha ligação
telefônica, “Você foi ótima, mãe. Você fez com que ela soubesse que tinha cometido um erro,
mas não a envergonhou’.
De uma perspectiva puramente mortal, o plano de Deus poderia ter sido que eu tirasse
umas férias, mas, em um nível mais profundo, o plano de Deus tinha a ver com que tanto
Connie quanto eu aprendêssemos com aquela experiência: ela a ser mais cuidadosa no
trabalho que estava fazendo para seus clientes, e eu, a lidar com uma situação dessas sem
ser indulgente ou rígida demais com alguém ao meu lado.
Não importa que grandeza poderia, de outra maneira, se desdobrar na vida de Connie,
estará bloqueada se ela não estiver tendo seu melhor desempenho. E, não importa qual
grandeza poderia se desdobrar em minha vida, estará bloqueada por quaisquer questões
que eu possa ter ao lidar com as pessoas. E esse é o plano de Deus – que os bloqueios à
nossa luz interior sejam removidos, para que Sua luz possa então brilhar através de nós.
O exercício do livro de exercícios do Curso em Milagres “Eu estou entre os ministros de
Deus” diz, “A nossa parte não é julgar o nosso valor, nem podemos saber qual é o melhor
papel para nós; o que podemos fazer dentro de um plano maior, nós não podemos ver
inteiramente...” Ele continua,

Qualquer que seja o papel que te foi designado, foi selecionado pela Voz por Deus,
Cuja função é a de falar por ti também. Vendo as tuas forças exatamente como são e
também ciente de onde podem ser melhor aplicadas, para quê, para quem e quando, Ele
escolhe e aceita o teu papel por ti. Ele não trabalha sem o teu próprio consentimento.
...tu vens a ser enfim ciente de que há uma única Voz em ti mesmo. E aquela única Voz
te designa a tua função e a entrega a ti, dando-te forças para compreendê-la, fazer o que ela
acarreta e ter sucesso em tudo o que fazes que seja relacionado com ela. (UCEM-LE-p.304)

Algumas vezes, alguém diz, “Bem,eu adoraria sair por aí fazendo o trabalho de Deus,
mas tenho três filhos em casa – não posso ir a lugar algum!”. Entretanto, o ministério é
determinado por seu conteúdo, não por sua forma. Certamente não existe ministério mais
importante do que cuidar dos filhos. Permanecer consciente e atento ao lidar com um
adolescente de quinze anos que está tentando entender como passar pelo ensino médio é
tão importante quanto alimentar pacientes com AIDS na África. Se mais pessoas que andam
pelo mundo hoje em dia tivessem sido criadas com uma consciência espiritual mais ampla
quando tinha quinze anos de idade, talvez o mundo não estivesse na confusão que está
agora.
O Espírito Santo coloca cada um de nós no lugar onde nossos talentos e habilidades
possam ser melhor usados, e nossas lições possam ser aprendidas de maneira mais
poderosa*. Não duvide do plano; apenas se torne disponível para ele.
Há algum tempo atrás, eu estava visitando minha mãe, falando com ela e com sua
enfermeira. Alguns anos antes, eu teria ficado impaciente, pensando que precisava estar no
mundo, tentando fazer algo importante. O que eu sei agora é que o mundo está onde eu
estiver, e minhas lições tanto de ensino quanto de aprendizado estão bem aqui, bem agora,
nesse caso, com minha mãe e sua enfermeira, pois eu poderia ter coisas a ensinar a elas,
mas, ainda mais importante, elas certamente deveriam ter coisas a ensinar para mim. Como
vencer a mim mesma. Como ser mais paciente. Como demonstrar gratidão pela mulher que
me deu a vida. Só pequenas coisas como essas, ah, ah.....

115
Meu companheiro de casa (aquele com a motocicleta, que raramente conferia suas
mensagens) uma vez telefonou de umas férias, e me contou que tinha conhecido uma
mulher de quem tinha gostado muito, e a estava trazendo para casa para uma visita. Eu
estava feliz por ele ter encontrado alguém, mas senti um pouco de medo em relação ao
nosso arranjo de vida. Ela iria viver na casa conosco? Eu ainda me sentiria confortável em
casa? E se ela não gostasse de nós e quisesse que nós nos mudássemos?
Eu permiti que minha mente travessa fizesse o que precisava fazer, entretanto, me
lembrei de que minha única missão é amar. Durante horas antes de encontrá-la, eu
simplesmente rezei para que nosso encontro fosse abençoado. Pedi para ser um instrumento
do amor em sua vida. Pedi que meu coração se abrisse para ela, que nosso relacionamento
alcançasse sua mais elevada possibilidade. Eu sabia que se colocasse meu coração e minha
mente no lugar certo, o futuro atingiria sua mais elevada expressão. Eu não estou aqui para
projetar o universo de Deus, mas para permitir que Ele me mostre o projeto que já criou. Ele
foi criado em total amor, para mim e para todas as coisas vivas. Minha missão é confiar
nisso.
O amor é infinito, e infinitamente criativo. Se aquela mulher estava vindo para casa,
então, essa era minha benção para o dia. Era parte de meu currículo espiritual. Era o que
estava em pauta, e era assim que eu sabia que era importante. A realidade desse momento
é a que importa. O que estiver acontecendo é nossa oportunidade de curarmos nossas
partes feridas, desde que nossos corações e mentes estejam abertos para o amor de Deus.
Essa seria uma lição de qualquer tipo: ou uma lição para me abrir para uma situação
nova, ou para estabelecer limites com compaixão. Mas a chave para aprender a lição
repousava em abrir meu coração. Só dessa forma eu estaria fazendo minha parte para
mover o universo e a mim mesma em direção à correta ordem divina.
Colocando minha mente nos trilhos, eu preparei o caminho para que coisas elevadas se
desenrolassem. E assim foi. Nós nos tornamos amigas lá pelo final da noite.

Deus Não É Seu Empregado


Algumas vezes, nós falamos com Deus como se estivéssemos dando a Ele uma lista de
compras. Por favor, faça isso e aquilo para mim. Amém.
Não quero dizer que não deveríamos pedir o que queremos, mas, ainda mais
importante, deveríamos perguntar a Deus o que Ele quer. Nos colocar a serviço de Deus é a
única chave mais importante para encontrarmos um relacionamento correto com tudo e com
todos.
Nós não podemos salvar o mundo sem Deus, mas Deus não pode salvar o mundo sem
nós. Ao nos tornarmos disponíveis para Seu plano, nem sempre podemos ver como nossa
parte se encaixa no esquema geral das coisas, mas não precisamos fazê-lo. O que
precisamos, talvez mais do que qualquer outra coisa, é fé suficiente em nós mesmos para
apreciarmos Sua fé em nós. Ele não cria espíritos pequenos, e Ele não tem planos
pequenos. Ele nos criou em grandeza, e Ele tem grandeza em Mente para nós. A
mediocridade não tem lugar na criação de Deus.
Tem havido épocas em minha vida em que eu saí de algo extraordinário pensando
“Quem sou eu para fazer algo assim?”. Mas, na realidade, quem não era eu para fazer algo
se Deus o colocou à minha frente? Como tudo o mais, nós entendemos a humildade e a
arrogância de maneira completamente invertida. Não é humilde pensar que você não pode
fazer o que Deus está pedindo que faça; é arrogância pensar que você conhece a si mesmo
melhor do que Aquele que o criou através do pensamento*.

116
Seja o que for que você seja guiado a fazer, não se preocupe com sua prontidão;
apenas torne-se consistentemente consciente da Dele*. Uma vez que você seja solicitado a
ser o canal através do qual Deus opera, seu único trabalho é relaxar dentro do Instante
Santo e permitir que o Espírito Santo guie seus pensamentos e atos. Nós somos apenas a
torneira; Deus é a água.
A presença do medo é um sinal claro de que estamos confiando em nossa própria
força*. Mais uma vez, é nos glorificando que nos jogamos no medo. Você não é a glória;
Deus dentro de você é.
Uma vez que você saiba disso, estará bem longe do jogo.

Tomando Decisões
O mundo nos diz todo tipo de maneiras para tomarmos decisões inteligentes, mas não
existe inteligência como a Inteligência Divina. Ela emana de um lugar no qual todas as coisas
passadas, presentes e futuras são conhecidas e abençoadas. Ela toma decisões baseada no
bem maior de todas as coisas vivas. Entregar todas as decisões nas mãos de Deus não é
abdicar de nossa responsabilidade pessoal; é a forma mais elevada de assumirmos
responsabilidade.
Quando decidimos as coisas por conta própria, não apenas estamos nos tornando
cegos – incapazes de ver depois da próxima curva na estrada – como também estamos
tentando nos compensar por seja lá o que for que pensamos estar faltando no passado. O
passado é uma ferramenta de navegação pobre. Você não pode dirigir seu carro para frente
olhando fixamente no espelho retrovisor. Uma vez que a percepção da falta, então, forma
nossa crença essencial, nós inevitável e subconscientemente a repetimos. Tomar decisões
com a mente do ego só vai resultar em mais ego, fazendo com que seu aperto seja ainda
mais firme em nossas mentes e em nossas vidas.
Quando colocamos uma questão nas mãos do Espírito Santo, entretanto, Ele eleva e
reajusta nossas percepções. Quando nós colocamos uma questão no altar, Ele altera nosso
pensamento.
Eu tenho freqüentemente recebido orientação direta depois de pedi-la através da
oração antes de ir dormir à noite. Se nós rezarmos nesse momento, - “Eu devo fazer isso?”
ou “Eu devo fazer aquilo?” – geralmente, sonhos relevantes aparecem durante nosso sono, a
orientação pode nos despertar durante a noite, ou podemos acordar pela manhã com um
senso de compreensão.
Esses momentos podem ser importantes porque o ego não teve uma chance de colocar
seu filtro mental e amortecer a voz de Deus. É estranho que ensinemos as crianças a
rezarem à noite, mas, de alguma forma, pensemos que, uma vez que ficamos adultos, não
precisamos disso. O que isso quer dizer, que uma vez que cresçamos, nós já sabemos de
tudo e então não precisamos de ajuda?
Quando minha filha nasceu, eu coloquei o nome Índia em sua certidão de nascimento;
esse era o nome que eu tinha escolhido nos meses anteriores. Ainda assim, quando eu a
trouxe para casa do hospital, não tinha certeza. Muitos nomes ficaram aparecendo. Então, na
primeira noite em que estávamos em casa, rezei antes de ir dormir e perguntei a Deus qual
deveria ser o nome dela. Acordei na manhã seguinte com uma imagem vivida em mente,
como um sonho claro logo que acordei, no qual uma menina loira estava segurando um
cartaz branco com grandes e claras letras pretas: E M M A. Eu fiquei espantada e a
menininha disse, “Mamãe, meu nome é Emma”. Nada sutil.
A voz por Deus é como um sinal de rádio espiritual, e tarde da noite e nas primeiras
horas da manhã, é quando é mais fácil conseguirmos uma recepção clara – nesses

117
momentos, e quando meditamos. Esses são tempos em que o mundo não está muito ao
nosso lado, quando a ofuscação dos planos mundiais está queimando nossas mentes.
Seja em que horário for, podemos nos sintonizar para receber a orientação que nós
sabemos vir de além de nossa mente mortal.
No início de 1984, eu estava trabalhando como secretária temporária no World Savings
Building em Los Angeles, e tinha acabado de começar a dar palestra sobre Um Curso em
Milagres na sociedade Filosófica de Pesquisa. Enquanto algumas poucas pessoas estavam
vindo às minhas palestras, eu não tinha a mínima noção de que isso iria se tornar uma
carreira de tempo integral. Enquanto eu estava esperando o elevador no trabalho um dia,
ouvi uma voz, dentro da minha cabeça, mas tão clara quanto um sino, dizer, “Esse será seu
último emprego de secretária”. E outra orientação muito pessoal iluminou meu caminho
outras vezes. O mesmo é verdadeiro para muitas pessoas que eu conheço. Existem mais
dimensões de consciência do que a visão de mundo do ego julga ser possível ou real.
A voz por Deus não ignora as realidades da existência prática. O Espírito Santo entende
o mundo, entretanto, entende também o lugar dele no esquema Divino das coisas. Ele é
como um embaixador de Deus, entrando no mundo da ilusão com a função de nos guiar para
além dele*. Ele nos mostra como viver na Terra, e ainda mantermos os princípios do Céu.
Ele não nos ensina a ignorar o mundo ou nossas responsabilidades terrenas. Ele
simplesmente nos ensina como vivermos nossas vidas com um significado mais profundo, e
de uma maneira que melhor sirva ao mundo. Dessa forma, nós participamos de um esforço
coletivo para reclamar esse reino para o amor.
Muitas vezes, nós realmente ouvimos a orientação de Deus, mas simplesmente não
podemos enquadrá-la no que a mente mortal acredita. “Por que o Espírito iria me guiar a ir
para Chicago, se Seatle é onde está aquele trabalho?”. E um ano depois você vai saber
porque, e vai se sentir amargamente desapontado se perdeu algo grande em Chicago, e se
descobre dizendo, “Eu senti que deveria ter ido para lá!”. Depois que você tiver estragado
tudo o número de vezes suficiente porque não seguiu sua orientação interior, vai se tornar
muito mais obediente. Deus tem apenas a nossa felicidade em mente – e a felicidade de toda
coisa viva. Uma vez que percebamos isso, Seu caminho se torna muito mais fácil de seguir.

Seguindo o Amor
Obediência a Deus significa uma vontade de seguir os ditames do amor: pensamentos
e comportamentos prescritos para nós por uma força que quer apenas nosso bem e
felicidade, em oposição a pensamentos e comportamentos mascarados como nosso auto-
interesse, mas que, na verdade, são nossa própria auto-destrutibilidade.
Isso determina uma mudança radical de uma noção tradicional de Deus como rígido,
carrancudo, julgador ou mesquinho. O propósito das nossas vidas é ser feliz; Deus quer que
nós sejamos felizes, muito mais do que parecemos querer para nós mesmos. É contrário à
maioria dos ensinamentos religiosos acreditar que nos entregarmos a Deus é nos
entregarmos a algo apenas com nosso maior bem em mente. Para o ego, sofrer parece, de
algum modo, mais importante, mais substancial do que a felicidade. O ego percebe que o
sofrimento modifica as coisas, mas o Espírito Santo percebe que a alegria também as
modifica. Ao observarmos bebês brincando, não somos levados a sorrir? Ao completarmos
uma tarefa criativa, não somos levados a sorrir? O que poderia ser mais natural do que a
alegria?
Sob a influência do discurso do ego, somos tentados a pensar, “Eu quero a vontade de
Deus, ou eu quero ser feliz?”*. Quando duvidamos que a felicidade e a vontade de Deus são
a mesma coisa, tendemos a decidir contra nós mesmos. Como seria fácil nos entregarmos

118
se não estamos convencidos de que aquilo a que estamos nos entregando realmente quer
nossa felicidade?
Basear nossas decisões nos negócios do mundo deveria ser equilibrado com os
negócios do coração. Uma vez que tenhamos somado as leis, opiniões médicas, registros
contábeis, e outras perspectivas pessoais; uma vez que todas as opções tenham sido
pesquisadas e analisadas; então, todas as decisões deveriam ser colocadas nas mãos de
Deus. A maneira mais poderosa de tomar uma decisão é pedir a Deus para tomá-la por
você*.

Querido Deus,
Por favor, tome essa decisão por mim.
Eu não vejo o futuro,
Mas Você sim.
Eu não sei o que é melhor para todos,
Mas Você sim.
Eu não posso ver o sentido disso,
Mas Você sim.
Querido Deus,
Por favor, decida isso para mim.
Amém.

Uma oração dessas autoriza as forças espirituais a moverem montanhas em seu


benefício. E elas irão.
Algumas vezes, sinto que perguntei e perguntei, e a resposta não veio. Nesses
momentos, sei qual é realmente a resposta: como é dito com freqüência no AA, “Mais será
revelado”. Algumas vezes, a resposta não é tão simples quanto “Faça isso”, ou “Faça aquilo”.
Algumas vezes, ela é nos tornarmos mais pacientes – sabendo que, conforme continuarmos
a crescer em profundidade e compreensão, ou vamos saber o que fazer, ou a questão vai se
resolver por si mesma. Apenas a paciência infinita produz resultados imediatos*. Quando
nossa fé é forte o suficiente, não ficamos preocupados que Deus não tenha nos escutado, ou
que Ele poderia não responder.
E existe outra questão que pode nos tentar a tomar decisões que apenas Deus deveria
estar tomando: nossa falsa crença de que sabemos o que é melhor para os outros.
Pensamentos como “Eu não posso deixá-lo porque ele precisa de mim”, ou “Tenho que ficar
nesse trabalho porque as pessoas aqui não seriam capazes de fazê-lo sem mim” são
exemplos.
Na verdade, é um universo ganha-ganha – quando o Espírito Santo entra em uma
situação, ela vai ser uma “vitória” para todos os envolvidos*. Nós temos medo de tomar uma
decisão que poderia magoar alguém, e ficamos, com a melhor das intenções, tentando evitar
isso. Entretanto, se simplesmente pedirmos a Deus para tomar a decisão por nós, então, Ele,
que sabe o que é o melhor de tudo para todos, vai decidir de um ponto de vista vantajoso
muito mais sábio do que nossa mente mortal poderia divisar.
Na verdade, seja qual for a orientação de Deus para você, será a melhor para os outros
no final das contas.
Permitir que Deus tome nossas decisões é apenas outra forma de entrega profunda.
Quando Deus é convidado a escolher, mais insights se tornam disponíveis para nós. Mais
dimensões de conhecimento começam a brotar. Nós nos tornamos tão plenos, logo que nos

119
esvaziamos; nós nos tornamos tão espertos uma vez que percebamos que não o somos; e
nos tornamos tão poderosos uma vez que compreendamos que não temos poder.
Trocando nossa inteligência mortal pela inteligência divina, vamos começar a ver além
das aparências. E nada será o mesmo novamente.

120
CAPÍTULO ONZE

De Quem Nós Éramos


para Quem Estamos Nos Tornando

Nós com freqüência ouvimos pessoas dizendo que têm medo da mudança. Mas, eu sou
uma pessoa que fica nervosa quando as coisas não mudam. Acho que muitas vezes eu
prospero nela.
As pessoas estão sempre entrando na minha casa e dizendo, “Espere, esse quadro não
costumava ficar na outra sala?”. Sou tão obsessiva em mudar os móveis (particularmente as
almofadas) de lugar, que uma vez, realmente levantei uma cadeira enquanto um amigo ainda
estava sentado nela!
Mas, eu também fico exausta com as mudanças, sobrecarregada por mudanças que eu
mesma comecei, acidentalmente liberando energias que não eram nada casuais. Já julguei
que certas mudanças seriam uma leve chuva de primavera, e elas se transformaram em
furacões. Eu subestimei a força da mudança. E, portanto, eu me curvei a esse assunto,
tendo aprendido da maneira mais difícil o quanto é importante nos movermos vagarosamente
interiormente quando as coisas estão se movendo rápido exteriormente. Embora eu não
tema a mudança em si mesma, temo a mim mesma quando não estou devagar, consciente e
compenetrada enquanto ela está acontecendo.
Em 1992, meu primeiro livro, Um Retorno ao Amor, foi publicado. Graças a Oprah
Winfrey e seu generoso entusiasmo pelo livro, meu mundo mudou. Recebi um dinheiro que
nunca tinha tido antes, junto com a atenção da imprensa e um leve status de celebridade. Eu
não encarei isso como incrível; apenas pensei nisso como muita coisa a se fazer! Virei uma
galinha com a cabeça cortada, não tendo mais tempo para ouvir, refletir, meditar pensar. Em
uma época em que eu mais precisava consertar meu quarto interior, pedir a Deus para entrar
e explicar as coisas para mim, eu estava começando a esquecer. Eu estava indo rápido
demais. Coloquei algumas coisas secundárias em primeiro lugar, e algumas coisas principais
em segundo lugar, de maneiras que eu viria a lamentar.
Eu me lembro de quando recebi meu primeiro cheque de honorários; mais dinheiro do
que eu já tinha visto. E, talvez, particularmente por eu estar vivendo em Los Angeles naquela
época, aceitei a noção de que se você tem a boa sorte de ter dinheiro, precisa comprar uma
casa. Mas eu me lembro de ter rezado sobre isso, e minha orientação era clara, embora
parecesse estranha para mim: “Decore novamente seu condomínio”.
Fiquei tendo esse pensamento: “Decore novamente seu condomínio”. Mas, as pessoas
ao meu redor riram desse pensamento. Por que eu iria decorar novamente meu condomínio
quando podia ter uma casa? Um Curso em Milagres afirma que o Espírito Santo muitas
vezes dá uma orientação que parece surpreendente no momento, mas acho que eu esqueci
dessa parte. Eu segui a voz do mundo, ao invés das vozes do meu coração.
No esquema mais amplo das coisas, ter ou não uma casa não é o que importa. Mas
realmente importa quando a voz em seu coração baixa seu volume na sua cabeça. Por que o
Espírito Santo estava me guiando a redecorar meu condomínio? Porque eu precisava de
tempo para me ajustar ao novo rumo que minha vida tinha tomado. Eu precisava de tempo
para crescer para minhas novas circunstâncias, para habitar emocionalmente o espaço que
eu já estava habitando materialmente. Eu precisava de tempo para pensar sobre o que as

121
coisas significavam, e como lidar com as novas situações da maneira mais madura. Algumas
vezes, a mudança o levanta como um tornado, e o coloca em algum lugar onde você nunca
esteve antes. Os tornados são rápidos, e também são destrutivos. A velocidade pode ser a
inimiga da mudança construtiva.
Outra razão pela qual eu estava sendo interiormente dirigida a permanecer em meu
condomínio, eu acho, era para poder dizer adeus. Eu precisava dizer adeus a partes de mim
mesma que estavam sendo chamadas a se transformarem em algo novo, eu precisava dizer
olá para partes de mim mesma que estavam nascendo. Os maiores erros que cometi na
minha vida, eu não teria cometido se tivesse levado mais tempo. Tempo para pensar. Para
meditar. Para rezar.
Talvez você estivesse fazendo uma coisa, e agora esteja fazendo outra; talvez você
estivesse no ensino médio e agora esteja entrando na faculdade; talvez você fosse solteiro e
agora esteja se casando; talvez você fosse casado, e agora esteja solteiro; talvez você não
tivesse filhos, e agora seja pai; talvez você tivesse um filho em casa e agora não tenha mais.
Seja qual for a porta que você tenha atravessado, sua vida não será mais a mesma de antes.
A sala onde você estava ficou para trás agora.
O chão emocional sob seus pés é diferente, e você precisa de tempo para se orientar
novamente. Correr através da mudança é se mover de maneira inconsciente, e isso é uma
situação ideal para os erros.

Mudança de Rumo
Quando um estágio da vida dá lugar a outro, é o fim de uma era e o começo de outra.
Como navegamos espiritualmente por essas transições vai determinar a alegria ou o
desespero que virá a seguir. Ao navegarmos por qualquer mudança, podemos ser tentados
em relação a dois extremos – resistir à mudança, de um lado, ou irmos precipitadamente em
direção a ela de outro. Esses extremos são realmente os dois lados de uma resposta à
mudança baseada no ego. A tarefa espiritual mais profunda é alcançar a moderação,
evitando os dois extremos.
A moderação é sobriedade emocional, trazendo uma profundidade e consciência
estimada de ambas as armadilhas e oportunidades inerentes a cada situação. Ela implica em
uma capacidade de reflexão, uma habilidade de permanecer consciente e agir de maneira
responsável, não importando o que está acontecendo. Sem moderação, a mudança pode ser
mais destrutiva do que milagrosa. Mas, não importando se a mudança for feliz ou triste, ela
pode ser uma experiência sagrada se nós estivermos espiritualmente despertos.
Se uma mudança for feliz, você permanece desperto sendo grato a Deus e às pessoas
que ajudaram para que ela acontecesse, literal e figurativamente. Em seu olho mental, veja
um quadro na nova situação, e imagine-se funcionando ao seu melhor potencial nela. Agora,
de olhos fechados, respire profundamente e sinta-se expandindo interiormente para essas
possibilidades dentro de si mesmo. Esses exercícios não são fantasias vãs, mas poderes
reais da mente.
Se você não fizer esse esforço, o ego fará tudo o que puder para sabotá-lo. Essa, afinal
de contas, é sua razão de ser. A menos que você estabeleça firmemente seu centro
emocional no meio da nova condição, vai continuar psicologicamente fora dela, embora
esteja dentro. Se você ainda não está vivendo dentro dela à partir de seu próprio centro
espiritual, nem vai tirar plena vantagem da situação, nem vai se comportar da maneira mais
centrada e poderosa. O espaço psíquico é completamente real – e, em certo nível, ainda
mais real – do que o espaço físico. Se você estiver aqui, e, psicologicamente, uma condição
estiver lá, então, a divisão entre as duas vai se refletir nas circunstâncias da sua vida.

122
Usando um Ritual
Uma das maneiras de alinhar poderosamente uma circunstância material com a
realidade interna é através de um ritual. Nós podemos usar uma cerimônia simples para
imbuir qualquer transição com uma compreensão iluminada.
Nós podemos fazer mais do que simplesmente dar à luz nossos filhos; nós podemos
elevar a experiência da sua infância e nosso relacionamento com eles através do batismo,
bris, uma cerimônia de dar nome ao bebê, e assim por diante.
Nós podemos fazer mais do que simplesmente assistir nossos filhos crescerem para a
adolescência; podemos dar adeus à sua infância e acolhê-los como adultos, elevando essa
nova fase das suas vidas através de cerimônias de idade, bar e bat mitzvahs, e assim por
diante.
Com o ritual, fazemos mais do que simplesmente começar um novo emprego; nós
pedimos devotamente que ele sirva para os propósitos de Deus, e invocamos as forças
espirituais para nos apoiarem no esforço. Nós fazemos mais do que simplesmente nos casar;
nós rezamos para Deus unir nossos corações, para entrar no casamento e torná-lo uma
benção para o mundo. Nós não só nos divorciamos; nós pedimos a ajuda de Deus para curar
nossos corações, preenchendo-nos de perdão, e pavimentando o caminho para novos
começos. Nós fazemos mais do que perder um emprego; nós fazemos um ritual para pedir a
ajuda de Deus para transformar essa situação em uma benção, provendo uma forma mais
elevada de abundância e serviço. Nós fazemos mais do que enterrar nossos seres amados;
nós fazemos um serviço em memória deles para levar às suas almas, e às nossas, o
conforto e a paz nos braços de Deus.
No verão de 2004, os Estados Unidos oficialmente inauguraram o Memorial à Segunda
Guerra Mundial, honrando os homens e mulheres que lutaram de maneira valente pela
liberdade naquela guerra. Um memorial em Washington tem mais do que um significado
simbólico; ele se torna parte do panorama de uma nação, conforme nós conservamos como
uma relíquia a memória daqueles que sacrificaram tanto por nós. E ainda, para ter seu maior
poder, um memorial precisa ser recebido emocional e espiritualmente por aqueles que o
visitam. Ao visitar os Memoriais de Lincoln, Jefferson ou de Washington, você pode sentir
que algumas pessoas os estão visitando com uma mentalidade turística, mas também pode
sentir a presença daqueles que trazem com eles uma profundeza espiritual que faz com que
sua visita seja uma peregrinação cívica. Seus corações e mentes estão abertos para um
contato sagrado com os grandes seres que viveram antes de nós, a quem nunca vamos
encontrar, e, entretanto, afetaram profundamente as vidas que vivemos. Você pode ler as
citações de Jéferson ou Lincoln no lado dos seus memoriais com um interesse meramente
histórico, ou com uma imersão anímica no poder, significado e bênçãos das suas vidas.
Viajar tem um grande potencial ritualístico. Se você visitar a Esfinge e as pirâmides no
Egito, ou o Parthenon na Grécia, o Templo da Mãe em Bali ou a Catedral Glastonbury, quem
você é quando chegar lá – que consciência você leva à experiência – vai determinar a
profundidade em que a visita vai afetar sua vida.
O ritual é tão instintivo dentro dos seres humanos que nós o criamos espontaneamente
quando ele é necessário. De pessoas deixando milhares de flores em Kesington Palace
depois da morte da princesa Diana, às flores, ursinhos de pelúcia e fotografias deixadas na
porta do apartamento do último John F. Kennedy Jr; das fotos – e orações – e da cerca de
poemas espalhados ao redor local bombardeado do Oklahoma City Murrah Federal Building,
à reunião feita à luz de velas na cidade de Nova Iorque, na qual milhares de pessoas
rezaram pelas vítimas do desastre do World Trade Center, as pessoas sabem que nós

123
precisamos de um instrumento para os nossos sentimentos – para ordená-los, dar-lhes
significado e elevá-los espiritualmente.
Alguns rituais são coletivos, tal como a posse de um presidente, ou a coroação de um
monarca. O rito psíquico de passagem é tão importante quanto o legal, no fato de que toca o
coração não apenas dos líderes, mas também das pessoas que eles vão liderar.
Se alguém em quem eu não votei ganha uma eleição, então, meu coração pode não
aquiescer facilmente à sua liderança. Uma inauguração, entretanto, invoca a afirmação
psicológica, emocional e espiritual que eu, de outra maneira, poderia reter. O relacionamento
de um povo com seu líder é uma conexão ancestral, arquetípica, impressa na psique
humana; um começo ritualístico convoca a boa vontade do coração.
Se as coisas estiverem boas, façam um ritual para rezar e agradecer a Deus. Se as
coisas estiverem tristes, faça um ritual para invocar os anjos para ajudá-lo a suportar. De
qualquer forma, um ritual vai envolvê-lo em uma luz que nenhuma força material tem o poder
de conceder. É um evento exterior que realinha as forças internas, elevando-as de volta para
o lugar de onde vieram, e ao qual pertencem. O ritual santo une o céu e a Terra.
Então, um mundo dividido se torna inteiro novamente pelo que fizemos.

Preparando o Coração para a Mudança


Antes de saber que estava grávida de minha filha, passei dias com um forte senso de
que tudo ia mudar. Isso era tudo o que eu sabia. Foi só com o tempo que a percepção do
que exatamente ia mudar entrou em minha consciência. Quando isso aconteceu, não havia
meio de eu saber – nunca tendo dado à luz antes – que transição profunda e fundamental
estava a caminho.
Quando minha filha nasceu, eu a amei, é claro, mas minha psique tanto foi revirada
quanto exaltada pela experiência. Eu vejo agora que a gravidez e o nascimento de uma
criança são cheios de mudanças emocionais e psicológicas tão significativas quanto as
mudanças que acontecem dentro do corpo de uma mulher. Em uma cultura materialmente
orientada, é claro, nós tendemos a dar mais crédito às mudanças físicas do que às
emocionais, e isso nos causa danos. “Ela está grávida, então, está um pouco perturbada
agora” dificilmente é uma descrição profunda da condição psicológica de uma mulher
grávida. Eu gostaria de ter me preparado interiormente para a maternidade tanto quanto
preparei minha vida externamente. Deveria ter tido um quarto para ela dentro de mim
mesma, projetado de maneira tão cuidadosa quanto o lindo quarto de bebê para ela em meu
apartamento. Seu quarto foi pintado com preciosas nuvens rosas e brancas, com azulões
segurando fitas amarelas perto do teto. Mas, olhando para trás, eu gostaria de ter prestado
mais atenção ao quarto dentro do meu coração, onde as dinâmicas internas da maternidade
tinham apenas começado a reverberar.
Como eu poderia ter feito isso de maneira diferente? Eu me lembro do chá de bebê que
minha amiga Victoria fez para mim em sua casa. Tenho uma foto minha – com aqueles
dezoito quilos adicionais da gravidez – sentada no sofá de Victoria (se você puder chamar o
que está fazendo naquele ponto de “sentar”), rodeada por minhas amigas apenas uma
semana mais ou menos antes de Emma nascer. Os presentes que elas trouxeram para mim
eram maravilhosos, e eu senti muito amor. Mas eu vejo agora algo muito mais sério naquele
momento da minha vida, e se eu soubesse então o que sei agora, eu teria feito uma
cerimônia, um círculo de mulheres, algum processo ritualístico para marcar esse
extraordinário momento na vida de duas mulheres – minha filha e eu. A maternidade é um
mistério, que não é ajudado nem auxiliado por uma loja de brinquedos.

124
Quando uma mulher dá à luz, nascem duas pessoas: um bebê nasce do útero da sua
mãe, e uma mulher nasce do útero de sua experiência anterior. O nascimento físico mais ou
menos toma conta de si mesmo, enquanto um renascimento espiritual é uma experiência que
precisamos cultivar conscientemente.
A depressão pós-parto, eu suspeito, é uma experiência que não emerge em uma
sociedade devotada ao sagrado. Na verdade, o que a sociedade considera depressão pós-
parto é a conseqüência emocional de um negócio não acabado: uma mulher que ainda não
cortou o cordão umbilical com a mulher que ela costumava ser. A transição para a
maternidade inclui chorar pela vida que agora precisa ser psicologicamente colocada de
lado, não apenas para abrir espaço para uma criança, mas para abrir espaço para uma nova
dimensão da consciência e da experiência de vida de uma mulher. Com cada novo estágio
de vida, existem coisas para lamentar, assim como coisas para celebrar.
Quando minha filha chegou à adolescência, eu já estava mais esclarecida sobre muitas
dessas coisas. Eu me certifiquei de que tanto eu quanto ela fizéssemos seu bat mitzvah sob
a luz mais elevada possível. Era uma transição de uma vida como uma menina judia para a
vida de uma mulher judia, e eu sabia que, assim como tudo o mais, nós podíamos fazê-lo de
modo profundo ou superficial. Eu quis colocar um tapete de rosas para ela, levando-a da
infância para a juventude, e depois para a maturidade que está além. Muitas mulheres, e
homens também, estariam menos magoados se alguém tivesse feito isso para eles.
Eu disse a ela que iria lhe dar a parte engraçada e fantasiosa, mas apenas se ela
fizesse o trabalho real. E nada disso era memorizar algumas poucas linhas de hebreu, e
fingir que esse era o trabalho real.
Um dia, ela me perguntou qual eu achava que deveria ser o tema de seu bat mitzvah.
Eu disse, “O que você quer dizer com tema?”.
“Ah, os garotos têm um tema”, ela disse. “Como nas festas. Algumas pessoas têm um
tema de Detroit Pistons, ou de Britney Spears...”. Eu achei que iria desmaiar, e disse de
maneira muito clara e distinta, “O tema de seu bat mitzvah é que você está se tornando uma
mulher aos olhos de Deus. Ponto final”.
Par seu próprio crédito, minha filha compreendeu. Ela estudou assiduamente durante
meses com um grande precentar (*solista de sinagoga hebraica) que a ensinou bem, e,
conforme o bat mitzvah se aproximou, nós tivemos conversas maravilhosas sobre o que sua
transição iria significar para nós duas. Para ela, isso significava que não seria mais uma
criança. Ela também não seria uma mulher, mas, ao invés disso, estaria entrando em uma
fase de sua vida subestimada pela cultura contemporânea: tornar-se o que aqueles antes de
nós chamaram de uma donzela (ou, para os meninos, um rapaz). Sem honrar
conscientemente esse período, os jovens muitas vezes o desempenham como um circo
psíquico, com piercings no umbigo substituindo os rosários, e o sexo casual substituindo uma
conexão com o divino. Eu queria que Emma tivesse um contexto sagrado para esses anos
extraordinários. Eu queria que ela se separasse apropriadamente de sua infância ligada a
mim, e que nós duas passássemos graciosamente para novas dimensões de nós mesmas e
de nosso relacionamento uma com a outra.
Durante o bat mitzvah, eu cerimoniosamente entreguei minha filha à Deus e ao mundo.
Depois de dizer orações no bima com ela, eu, como milhares de mulheres judias antes de
mim, tomei meu lugar na congregação, e assisti minha filha conduzir o resto do serviço
sozinha. Conforme ela leu a Tora em hebreu, a presença de Deus era como brilho que
preencheu a sala. E, depois de ela carregar a Tora em seus ombros e colocá-la de volta na
arca, o precentar a levou até mim e disse, “Você a trouxe aqui como uma criança. Eu a
devolvo a você como uma mulher”.

125
Eu nunca senti mais poder, ou mais amor, em minha vida.

Passando a Tocha
Algumas vezes, nós fazemos um ritual sem nem mesmo saber que o estamos fazendo.
Quando eu era uma estudante universitária de dezoito anos, fui assistir a uma palestra do
autor já falecido Norman O. Brown, cujo livro Love’s Body tinha me inspirado muito. Depois
da palestra, entrei em uma filha para perguntar a ele com toda seriedade se ele tinha
qualquer conselho para mim. Ele me falou o princípio talmúdico que diz que, em meio à mais
escura das noites, nós deveríamos agir como se a manhã já tivesse chegado. E, depois, ele
beijou minha testa. Um sentimento de êxtase completo, que durou horas, desceu sobre mim.
Um beijo na testa é um gesto cheio de poder: alguém beija (dá amor a) sua testa (seu
terceiro olho, ou morada da alma). Que ritual mais profundo poderia haver para mandar
alguém embora com sua benção?
Durante o mesmo período, eu recebi outro, igualmente maravilhoso, alento de energia.
Eu estava caminhando com um de meus professores – agora, o crítico de jazz Stanley
Crouch – para assistir a uma palestra de Jane Fonda. Isso foi por volta de 1970 ou 1971, e
Jane estava visitando os campi da faculdade para discutir seu ativismo anti-guerra. Ela
estava maravilhosa, esbelta, usando jeans e uma camisa, com o corte de cabelo em
camadas que ela tornou famoso no filme Klute. E ela parecia elevada interiormente. A
combinação de sua estonteante beleza física e de seu esplendor quase espiritual me atingiu
então, e ainda o faz quando eu penso sobre isso. E, enquanto ela estava indo para a
palestra, fez algo que mudou minha vida.
Crouch, que é afro-americano, e eu estávamos andando por uma calçada perpendicular
àquela por onde ela estava caminhando. Ao cruzar nosso caminho, ela voltou sua cabeça e
olhou para nós de relance. Eu não sei o que fez seu rosto se iluminar – uma mulher jovem
andando com um professor negro? (lembre-se, isso foi em 1970) – mas, ela então enviou um
sorriso em minha direção que se igualou em poder com as transmissões de energia que eu
recebi anos depois de um mestre espiritual. Ela pareceu estar maravilhada com o simples
fato de Stanley e eu estamos andando juntos, e sua aprovação me atingiu como uma onda
de energia positiva. Daquele momento em diante, eu me senti como se tivesse sido
abençoada por Jane Fonda.
Eu queria mencionar esse incidente quando encontrei Jane quase trinta anos depois,
mas não o fiz. Eu teria me sentido idiota. O que eu iria dizer: “Eu vi você há trinta anos, e
existia uma luz se irradiando ao redor da sua cabeça, e quando você sorriu para mim, eu
senti como se um raio tivesse atingido meu peito, e eu sabia que estava bem?”. Aquele
momento definitivamente passou, mas eu recebi uma dádiva que iria continuar comigo por
que minhas escolhas – ou, pelo menos, uma de minhas escolhas, em algum nível,
simbolizando muitas outras – tinham sido validadas por uma mulher de poder.
Hoje, muitas mulheres jovens vêm até mim nas minhas palestras, e eu vejo nelas a
jovem que eu fui. Elas me contam que querem fazer o que eu faço, e eu estou certa de que o
farão – apenas melhor. Uma tocha está sendo passada de uma geração para a próxima.
Minhas palavras podem ter acendido alguma estrela em seu céu, da mesma forma que
outras mulheres acenderam estrelas no meu. Todos nós estamos passando de um estado
para outro o tempo todo, e Deus nos envia guias e anjos, inspiradores e mentores, para
iluminar nosso caminho. Ele está sempre, sempre, preparando uma nova vida.

Os Momentos Intermediários

126
Algumas vezes, nós estamos vivendo nos momentos intermediários: quando nós não
somos mais quem costumávamos ser, mas também ainda não atingimos nosso próximo
estágio.
Em janeiro de 2004, eu levei minha filha para assistir à apresentação de Bette Midler;
para mim, era a terceira vez. Eu me lembro de ter visto sua apresentação em Nova Iorque,
nos anos setenta, e, depois novamente, em Los Angeles, no inicio dos anos noventa. Os
anos passaram e tanto mudou. Levando minha filha para ver o show, eu me senti como se
estivesse dando a ela um lindo presente que havia significado muito para mim. A música de
Midler havia encorajado minha alma, e agora, talvez encorajasse a dela.
Foi interessante ver como Bette tinha mudado, e como ela não tinha mudado. Por um
lado, piadas que funcionaram bem dez ou vinte anos antes, não tinham o mesmo efeito
agora: o mundo está inteiramente diferente, e nós também. Mas, a mudança que eu mais
notei foi na própria Bette. Ela claramente se importa profundamente com as pessoas, e é, ela
própria, uma pessoa muito séria; seu comentário no palco sobre o mundo – particularmente
sobre a política americana – foi firme e real. (Foi até mesmo corajoso, uma vez que algumas
pessoas no auditório certamente não teriam concordado com ela!). Entretanto, eu pude sentir
uma angústia nela que me pareceu um reflexo pungente da nossa geração. Nós ainda
estamos contando piadas, mas nada parece mais tão engraçado.
A impressão que a noite deixou em mim foi que nós não podemos mais ir para casa. Os
anos setenta, oitenta e noventa da divina Senhorita Midler não existem mais. Eles foram
engraçados em determinada época, como uma festa muito bacana. Mas, a festa acabou, e o
mundo, como ela mostrou, não é mais seguro para nenhum de nós. Nós éramos como
crianças naqueles dias, e agora não somos mais. Eu senti que ela não estava realmente
brincando quando disse que havia tirado um par de anos para sofrer sua menopausa em
silêncio.
Midler realmente não parecia capaz de entrar de coração e alma nas antigas piadas.
Como poderia? Posso imaginá-la argumentando com alguém de sua equipe de produção:
“Ah, vamos lá, Bette, essas piadas ainda são engraçadas! Essa fórmula ainda funciona!
Existe um auditório todo novo lá fora que não ouviu nada disso ainda, e eles vão adorar!”.
Sua resposta – pelo menos em minha imaginação – seria que está desgostosa demais em
relação ao estado do mundo para continuar a dizer essas piadas. Como podemos continuar
rindo como antes, quando o mundo está tão confuso? Bette Midler se iluminou apenas duas
vezes durante a noite: quando ela estava mortalmente séria sobre a política e o estado do
mundo, e quando ela estava cantando canções musicalmente profundas.
Eu pude ver seu enigma, porque ela – como muitos de nós – não está aqui nem lá. Ela
não é mais quem era (embora consiga imitá-lo de maneira brilhante) – mas ainda não é
quem está se tornando. Ela ainda pode fazer as outras coisas – Dolores, o Peixe, Clementine
e Ernie – mas eu senti que eles não eram mais tão verdadeiros para sua alma. Talvez, tudo
isso seja projeção minha, mas foi assim que senti. Ela, como muitos de nós, agora parece
estar na zona intermediária, onde a verdadeira mudança acontece. Nós somos
espiritualmente grandes demais nesse ponto para nos encaixarmos em vestimentas
atitudinais que costumávamos usar, entretanto, as novas ainda estão penduradas no closet.
Quando você se despe, fica nu durante um minuto antes de vestir outras roupas.
Quando a idade é vista em um contexto puramente material, você começa a imaginar se
existem outras roupas. Entretanto, em um contexto espiritual, não existe fase na vida –
porque não existe intervalo no universo – onde Deus não esteja. Nós estamos sempre a
caminho de um novo estágio, tenhamos alguns dias de vida ou décadas. O espírito da vida
não é diminuído pelo tempo. No momento atual, nossa tarefa é deixar ir o que era, com amor

127
ou até pesar, e abraçar o que emerge a seguir da Mente de Deus. Quando tivermos visto o
mundo e o compreendido, e sentido nossas almas ficando doentes com o mundo, é hora de
nos tornarmos crianças novamente. Nós olhamos para Deus para nos dar uma nova vida
quando a antiga começa a morrer.
Eu iria ver o esplendor de Midler a qualquer momento, mas tenho a impressão nítida de
que na próxima vez em que a vir, Clementine e Ernie poderão ter se transformado em algo
novo. Ela já demonstrou grandeza teatral, e agora parece estar direcionada para o destino da
nossa geração: uma grandeza que será a coroação da glória de todas as suas aquisições até
agora, que vai pavimentar o caminho para a transformação do nosso mundo. Shakespeare
disse que o mundo é um palco, e todos nós somos atores nele. Hoje – quer sejamos atores
famosos ou pessoas comuns – parece que os anos de ensaio finalmente terminaram, e a
maior performance de nossas vidas está para começar.

Desempenhando Nossa Parte


Existiu um tempo quando o pensamento de mudar o mundo não parecia tão difícil.
Quando se é jovem, é fácil abraçar a noção de que nós, alguma dia, vamos nos livrar de
todos os problemas do mundo. Nossos corpos são jovens e voluptuosos, nossa energia
infindável, nossas oportunidades parecem infinitas; nós pensamos que é apenas uma
questão de tempo antes de todos os problemas se dobrem diante dos nossos esforços (que
são, afinal, tão impressionantes). Entretanto, a vida tem uma maneira de nos esgotar. Nós
aprendemos com freqüência através de meios dolorosos, que, diante dos nossos prodigiosos
intelecto e energia, o mal não vai simplesmente dar um passo para o lado. Somos induzidos
a sucumbir ao cinismo da nossa época quando vemos com que freqüência as coisas não
mudam. Especialmente quando os fatores mais recalcitrantes, as montanhas mais imutáveis,
parecem estar dentro de nós.
Como eu posso acreditar que o mundo todo vai mudar seus padrões neuróticos quando
continuo me casando com a mesma pessoa vezes sem conta? Como posso acreditar que
duas nações que continuam matando os cidadãos uma da outra vão encontrar a paz em
breve, quando eu ainda não estou conversando com meus pais?
Nossos músculos atitudinais, não apenas físicos, se tornam menos flexíveis com a
idade. É espantoso quanta fadiga uma quantidade suficiente de desapontamentos pode
provocar. É preciso energia para mudar, e, algumas vezes, nossa energia tem um
suprimento muito escasso. Você pode sentir a pressão, tão logo atinge a meia idade, para
simplesmente concordar com um status quo que dificilmente é o que você queria, mas que
está aqui, então, que diabos.
Jesus disse sobre Lázaro, “Ele não está morto. Ele está apenas dormindo”. E assim
estamos nós. Existe na maioria de nós a frustração acumulada de nossos sonhos não
realizados, e o desejo esmagador de abrir nossas asas e voar sobre as limitações do mundo
que nos mantêm presos. Essas energias dolorosas não são automaticamente transmutadas
exceto através da oração, da entrega e dos relacionamentos Santos. Elas se agarram a
nossos órgãos espirituais da fé e da esperança, escarnecendo de nós com frases como
“Você é velho demais”, ou “Você estragou tudo”, ou “Você já era”. E, de vez em quando, elas
podem ser endossadas pelas evidências.
Dizer a essas vozes, “Vade retro Satanás” não é uma asneira, ou uma criação ilusória.
Espiritualmente, é nosso poder e nossa força.

Anjos e Demônios

128
Durante as primeiras horas da manhã, tanto os anjos quanto os demônios tomam forma.
As glórias de uma vida, tanto quanto seu terror, são mais claras antes do romper da aurora.
Uma vez que a luz do dia nos enfeitice, os significados mais profundos – algumas vezes
óbvios apenas algumas horas antes – são facilmente esquecidos. Nós caímos presos dos
padrões mentais do mundo.
Como nossos modernos relacionamentos ocidentais são não naturais para o ritmo da
natureza. Edison percebeu a destruição que estava oculta em sua dádiva para a
humanidade? A lâmpada elétrica iria mudar o mundo. À serviço da era industrial e de sua
demanda por produtividade, nós nos treinamos a dormir quando o sistema precisa que nós
durmamos, e a ficar acordados quando é necessário que fiquemos. Com que freqüência,
então, nós perdemos o nascer do sol e suas simples bênçãos. Essas bênçãos não são
metafóricas. Elas são mais do que meramente lindas: elas são um lembrete de Deus: “Vejam
o que eu crio à partir de cada noite escura; esse é o trabalho que eu farei dentro de vocês”.
Amadurecer é uma forma de noite, cheia de anjos e demônios também. Nós estamos
mais próximos da sabedoria, entretanto, ficamos mais próximos da morte. É preciso escalar
muito para atingir uma perspectiva clara: escalar sobre os pensamentos e sentimentos que
nos manteriam presos ao chão no qual caminhamos antes. O chão de ontem é estéril agora.
Seu drama terminou. Apenas o presente, vivido em plenitude e intensidade, contém a
promessa de um novo amanhã.
Quantas noites eu permaneci acordada, meus olhos arregalados por nenhuma razão
aparente, meu corpo recusando-se a cair no sono, meus hormônios não mais parecendo
meus. Por um momento, eu disse as coisas costumeiras para mim mesma: “Odeio isso;
preciso conferir meu estrogênio outra vez; preciso comprar mais melatonina; vou me sentir
péssima amanhã”. Entretanto, finalmente eu percebi que algo mais estava acontecendo: “Eu
tenho essa díade, então estou tendo dificuldade para dormir” era uma noção passada para
mim, tão destituída de dimensão, tão superficial em sua interpretação da minha própria
experiência. De uma perspectiva espiritual, aquelas horas não eram um esgotamento, elas
eram um despertar profundo. O descanso que buscamos não será encontrado no adormecer,
mas no despertar*. Naquelas horas em que eu permaneci acordada de maneira tão
inconveniente, comecei finalmente a perceber o que significava despertar. Percebendo a
hora encantada – 4:15 – na qual eu acordava com mais freqüência, saindo para olhar as
estrelas e me maravilhar com a lua, eu voltei ao meu ser ancestral. Nessas horas, eu não
tenho um desequilíbrio da menopausa, eu sou uma bruxa mágica, e posso senti-lo em meus
ossos.

Quando aspectos de você que costumavam funcionar chegam ao seu apogeu, quando
as situações que costumavam parecer excitantes perderam seu encanto – assim como você
– quando uma frase como “sobre a colina” subitamente significa algo afinal, então, você está
pronto para o renascimento. É hora de encarar o vazio aterrorizante – não com resignação,
mas com fé. Pois esse vazio é o útero para um novo ser emergente. Das profundezas do
arrependimento sobre as coisas que aconteceram ou não, às nossas tenazes esperanças do
que ainda pode acontecer, uma profunda alquimia transformadora está acontecendo dentro
de nós. Nós não estamos prontos – não até que Deus toque o sino.
E esse sino, como nós sabemos, pode estar muito, muito distante. Um entrevistador de
televisão uma vez perguntou a Clint Eastwood sobre seu casamento com uma mulher
décadas mais jovem do que ele, e eu adorei sua resposta atravessada “Se ela morrer,
morreu!”. Na verdade, quem sabe quem está deixando quem? Em 1994, minha irmã morreu

129
com quarenta e quatro anos. No ano seguinte, meu pai morreu com oitenta e cinco. Vá
entender.
Então, o que devemos fazer com o resto das nossas vidas se escolhermos um caminho
de renascimento espiritual? Em primeiro lugar, precisamos escolher conscientemente viver
nele. Crenças ocultas são perigosas, e a crença em que “os melhores anos da minha vida já
passaram” é um agente poderoso – não de mudança, mas de inércia. Quer nós abracemos
ou não conscientemente esse pensamento, muitos de nós realmente pensam assim. E
pensamentos como esse podem ser mudados.
Se nós nos identificarmos primariamente com a realidade externa, como fomos
treinados a fazer pelo sistema de pensamento do ego, então, é difícil olhar para frente
procurando anos melhores, depois que um certo número deles já passou. Entretanto, esse é
nosso desafio: vermos além do mundo e, portanto, invocarmos novos começos. Uma criança
cresce, escolha isso ou não. Em certo ponto da vida, entretanto, nós crescemos apenas se
escolhemos fazê-lo. E, nessa escolha, repousa uma escolha não apenas para nós mesmos,
mas, na realidade, para todos.

Mais Profundo Com os Anos


Ao visitar Londres no outono de 2003, eu fui à Real Academia de Artes para ver a
coleção de Andrew Lloyd Webber de pinturas pré-rafaelistas. Uma delas, uma pintura
chamada Prata e Ouro, mostra uma mulher jovem caminhando com uma mulher mais velha.
Eu olhei fixamente a pintura durante algum tempo, me lembrando de como era ser a mulher
jovem na pintura, como um ato que eu encenei em uma peça que tinha terminado e que não
iria começar outra vez. Eu certamente ainda não sou a mulher mais velha, mas, ao invés
disso, estou precariamente em algum lugar entre as duas. Eu agora posso me relacionar
com a mulher mais velha que eu espero ser algum dia, tanto quanto com a mulher mais
jovem que não sou mais. E o que é surpreendente sobre a pintura, para mim, é a seriedade
com a qual a mulher mais velha está ouvindo a mulher mais jovem. A mulher mais jovem é
sua neta? Sua protegida? Não se sabe, mas ela claramente se preocupa com a mulher mais
jovem, que parece estar bebendo sua atenção. É uma parte da iniciação da mulher mais
jovem nos mistérios, que ela experimente a boa vontade de uma mulher que passou através
de sua própria juventude, e agora se preocupa com a de outra pessoa.
Minha mãe uma vez me disse, “Você sabe, Marianne, seja que idade você tiver, você
experimentou todas as idades antes disso”. Ela provavelmente falou isso em resposta a algo
que eu disse de modo condescendente, indicando que a juventude era algo que ela não
podia compreender! E meu pai, por volta dos oitenta anos, disse para mim, “É engraçado,
quando você é velho, não se sente velho”. Minha conclusão é que a idade, que num sentido
eterno realmente não é nada, em um sentido material realmente é algo. E eu honro ambos,
pois ambos são meus.
Eu tive uma assistente pessoal que era vinte anos mais jovem do que eu e, algumas
vezes, quando eu a via descendo o corredor, poderia jurar que estava olhando para uma
versão mais jovem de mim mesma. Eu apreciava sua alegria diante de coisas que eu
dificilmente novata mais – seu espanto de que Cameron Diaz ganhou mais de dois milhões
de dólares para estrelar um filme, e seu entusiasmo sobre ir a Paris pela primeira vez.
Observá-la era como uma chance de dizer olá para a pessoa que eu não era mais. E eu
sabia que ela também se sentia perturbada em olhar para uma mulher que ela poderia ser
um dia.
Eu uma vez tive uma amiga que estava morrendo de câncer, e, depois da sua morte,
comecei a sair com seu namorado. Ele me disse que durante os últimos meses da vida dela,

130
suas sessões de terapia freqüentemente se concentraram em seu sentido intuitivo de que,
um dia, eu e ele estaríamos juntos. Ela teve que lidar com o fato de que o arco da sua vida
estava se encerrando, enquanto em certo nível, o meu estava apenas começando. Doeu-me
pensar no que ela deveria ter sentido. E agora, tendo entrado na segunda metade da minha
vida, eu percebo cada vez mais o que ela estava deixando ir.
Nenhum de nós tem controle sobre os papéis para os quais estamos escalados durante
o sempre mutável drama da vida. Você é o jovem turco quando é o jovem turco; você é o
idoso quando tem que ser; você é o inocente apaixonado quando tem que ser; e está
esgotado quando estiver esgotado. Entretanto, algo dentro de nós não é nada disso; quem
nós realmente somos é imutável na Mente de Deus. Nós só estamos experimentando cantos
diferentes do universo, para aprendermos suas dimensões, suas lições, antes de irmos para
outro. Eu não acho que a morte seja o fim de nossas vidas, pois, tão seguramente quando
estamos sendo guiados para fora daqui, estamos sendo guiados em direção a alguma nova
aventura. Presumo que a roda do karma continue girando até que cada ponto que Deus quer
atingir, Ele tenha a chance de atingir, e Ele possa nos ver atingindo todos.
É importante desistirmos do ano passado quando ele terminar. Eu me lembro de
reclamar com meu melhor amigo de que, quando dou palestras, não sou tão rápida quanto
era, tão tiro-e-queda no que transmito. Sua resposta foi útil: que muitos na minha platéia
também não são mais tão rápidos, que eles também não são mais tão tiro-e-queda, e que
seria falso se eu tentasse sê-lo. A idade nos desacelera, mas nos leva mais para dentro,
para reinos não menos férteis espiritualmente, do que aqueles no qual habitamos antes.
Conforme os anos passam, nós perdemos um pouco do brilho exterior que inundou tão
gloriosamente nossa juventude – mas, um brilho interior que nós nunca tivemos emerge.
Ralph Waldo Emerson escreveu, “Conforme envelheço, minha beleza se esconde dentro de
mim”.
E é mais do que justo que nossa beleza se esconda dentro de nós. Toda a riqueza da
vida começa esconder-se no subsolo conforme envelhecemos; não menos mágica, mas
apenas não tão visível para o olho físico. Na verdade, de certa forma, a vida se torna mais
mágica, pois a mágica está nos planos invisíveis.
Pensando sobre o entusiasmo de minha jovem assistente sobre ir para Paris pela
primeira vez, pensei sobre minha história face a face com os homens que eu conheci. Os
anos que levam uma mulher da juventude à maturidade são marcados emocionalmente por
sua história amorosa. Existem fases de Paris, assim como existem fases de certos
relacionamentos: nos prepararmos para ela, estarmos lá, e nos lembrarmos de como era.
Quando eu era jovem, uma vez fui a Paris com um homem que me encantou tanto
quanto a cidade. Nossos esforços para que a viagem acontecesse, e os momentos que
tivemos lá logo que conseguimos, são memórias que eu vou acalentar para sempre, mas,
décadas depois, existiu outro homem. E, quando o assunto de Paris veio à tona entre nós,
um rápido olhar disse tudo.
Nós dois tínhamos estado lá, eu poderia afirmar, e nós dois tínhamos amado lá; eu
podia sentir isso. Nós dois tínhamos realizado sonhos lá, e tínhamos tido sonhos que
terminaram lá. Nós nem tivemos que conversar sobre isso, tão claro ficou, com um só olhar,
que nós dois conhecíamos todos os lados daquilo. Eu percebi então, que o lugar onde nós
tínhamos ido naquele momento – não a despeito dos anos que vivemos, mas claramente por
causa deles – era um lugar mais encantador do que Paris.

Um Novo Futuro Começa

131
E sobre aqueles que dizem, “Bem, talvez possamos mudar o mundo, mas não durante
minha vida. Então, porque eu deveria tentar?”.
De acordo com o budismo, não é o que conseguimos em nossas vidas, mas o que pelo
menos morremos tentando alcançar que dá significado à nossa existência. Susan B. Anthony
não viveu para ver a aprovação da Décima Nona Emenda, entretanto, milhares de mulheres
vivem vidas infinitamente mais cheias de poder por causa dela. Seus esforços incansáveis
por gerações de mulheres que ela nunca conheceria proveu metade de todos os americanos
– e acho que a outra metade também – com uma capacidade maior de expressar a si
mesmos plenamente. Certamente, em um nível celestial, sua alma recebe a benção que ela
deu.
E agora, em nossa época, e através de nossos esforços, nós também somos chamados
a uma visão maior: a pensar os pensamentos de um mundo de paz, preenchido de amor
total, pois, até que pensemos os pensamentos de paz, ela não vai ser nossa. Não vamos
acabar com a guerra porque a odiamos demais; vamos acabar com ela amando muito mais a
paz. Vamos amá-la o suficiente para tentarmos vivenciá-la em nossas próprias vidas. Nós
podemos promover uma paz premente, em nossos corações e em nossa política. E, então,
um dia, vamos perceber que a guerra desapareceu.
Daqui a vários anos, quando nós não formos mais lembrados, as pessoas vão viver em
um planeta pacífico, não sabendo a quem abençoar, mas sabendo a quem agradecer. As
crianças vão perguntar aos seus pais, “É verdade que existiu um tempo onde as pessoas
tinham guerras?”. E seus pais vão dizer, “Sim, existiu um tempo assim, mas foi há muito
tempo. As guerras não existem mais”.
E, quando isso acontecer, certamente, em algum nível, nossas almas vão receber a
benção que demos. Vamos levantar nossos copos ao céu no qual já estaremos, e, rindo e
chorando, vamos bradar, “Nós conseguimos!”.

Não importa quem você seja ou que tenha feito, Deus sabe se você não quer trabalhar
em Seu favor. Se você deu um passo em falso e então voltou atrás – tenha você tropeçado
por seus próprios atos, ou pela intenção de outra pessoa de prejudicá-lo, ou ambos – você
vai se levantar agora com um novo poder. Você vai falar com uma credibilidade maior, e
carregar uma compaixão mais profunda por aqueles que sofrem. Você terá alcançado
sabedoria e humildade, e nunca mais vai ser tão facilmente enganado pelo ego. Você estará
mais preparado para o serviço de Deus.
Essa é uma época na vida de todos nós para lidarmos com aquelas questões que
empurramos para o fundo de uma gaveta, que nos mantêm com um desempenho menor do
que cem por cento. Essa é a época de provocarmos uma ruptura radical com nossos seres
mais fracos, devotando cada dia à eliminação total de quaisquer energias egóicas que
permaneçam presas à nossas psiques para arruinar nossas vidas. Isso não pode ser feito
sem oração. Isso não pode ser feito em trabalho. Isso não pode ser feito sem uma auto-
honestidade brutal. Isso não pode ser feito sem perdoar a nós mesmos e aos outros. Isso
não pode ser feito sem amor. Mas, quando for feito, alcançaremos a mestria espiritual. A
rocha à frente da nossa sepultura será removida. Nosso espírito ressuscitará, e estaremos
prontos para a luz. Nós estaremos prontos no sentido de podermos conter isso agora:
Chegamos finalmente a viver no conforto de nossa própria pele.
Percebemos o imenso chamado da história nessa época. Temos sido chamados para
uma força espiritual coletiva, e cada um de nós está sendo preparado a desempenhar sua
parte. Nosso mundo precisa de gigantes espirituais; é necessário não o ego, mas humildade
para assinarmos a lista para o esforço. Muitos de nossos problemas vieram porque

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escolhemos agir pequeno, pensando que iríamos encontrar segurança. Mas, nós nascemos
com asas, e estamos destinados a abri-las. Qualquer coisa menor do que isso vai nos
machucar, vai negar o amor a nós mesmos e aos outros, e vai significar que terminaremos
nossas vidas não tendo voado o vôo da glória espiritual.
Vamos voar.

Querido Deus,
se deixadas à sua própria conta,
minhas percepções serão distorcidas.
Eu entrego a Você tudo o que penso e sinto.
Por favor, leve meu passado, e planeje meu futuro.
Mande Seu Espírito para redimir minha mente,
para que eu possa ser livre.
Que eu possa ser Seu instrumento,
e servir ao mundo.
Que eu possa me tornar quem Você quer que eu seja,
que eu possa fazer o que Você quer que eu faça.
E eu farei, querido Deus.
Amém.

Agora imagine-se como você gostaria de ser. Feche seus olhos e veja-se como
elegante, digno e calmo. Veja-se como esperto, compreensivo, humilde e gentil. Imagine
todas as suas fraquezas substituídas pela força. E não pare. Permaneça em quietude, com
seus olhos fechados, pelo tempo que puder, pois você está idealizando uma nova vida. Peça
ao Espírito de Deus para vir até você e fazê-lo nascer para a plenitude de seu ser possível.
Seja qual for o portal através do qual você entre na casa de Deus, saiba que Sua casa é
onde você está verdadeiramente em casa. É onde você vai encontrar quem é, ter sua alma
reparada, receber a cura do mundo, e começar outra vez. Você vai voltar para a escuridão
do mundo e trazer a ele sua luz. Você vai ter experimentado um milagre, e, através de você,
outros vão experimentar milagres também.
Deus ama tanto você e ao mundo, que está enviando a ele a pessoa que Ele criou você
para ser.
Lembre-se de que em qualquer situação, só o que você não está dando pode estar
faltando. Traga o amor de Deus, e você vai abençoar todas as coisas. Ele estará do seu lado
esquerdo, e Ele estará do seu lado direito. Ele estará à sua fronte, e Ele estará atrás de
você. Aonde você for, Ele estará lá com você.
E, juntos, vocês vão mudar o mundo.

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