O ASSISTENTE SOCIAL NO ATENDIMENTO A VITIMAS DE TENTATIVAS DE SUICÍDIO
Santos, Luciana Dias dos; Braga, Rosely de Paula Sales Cunha;
Melquiades, Vanessa Nobre
Associação Saúde da Família/UPA III Parelheiros-Serviço Social
Palavras-chave: Tentativa de Suicídio. Gestão Saúde. Violência
INTRODUÇÃO
O suicídio tornou-se nos últimos anos um grande problema de saúde pública. Estima se que os casos de tentativas sejam dez vezes
superiores aos dos suicídios exitosos, sendo que entre 15% e 25% das pessoas que tentaram se suicidar, farão nova tentativa nos próximos
anos (SANTOS, et al. 2017).
Suicídio segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) é o ato pelo qual o indivíduo de forma consciente infringe-se a auto agressão com
intenção de morte (s/d). No Brasil 2002 e 2012 esta taxa teve um aumento de 33,6%,.
A OMS estima que 800 mil pessoas cometem suicídio anualmente, sendo a segunda maior causa de morte entre jovens da faixa etária entre
15 e 29 anos. Segundo Ministério da Saúde homens apresentam um risco 3,8 vezes maior de cometer suicídio que as mulheres.
O Manual de Prevenção ao Suicídio, elaborado em 2000 pela OMS relata que 40 a 60% das pessoas que tentam suicídio procuraram
atendimento médico no mês anterior. O risco de suicídio é de 6 a 15% em pessoas com transtornos de humor (principalmente a depressão),
7 a 15% a pessoas alcoolistas, 4 a 10% em pessoas com esquizofrenia e 20 a 50% em pessoas com transtorno de personalidade.
Os motivos que levam um indivíduo ao suicídio são multifatoriais, entre ele aspectos psicológicos, econômicos, sociais, podemos citar ainda
transtornos mentais, abuso de álcool e drogas, histórico prévio de violências, problemas financeiros, dificuldade de inserção nos serviços de
saúde, influência da mídia, uma certa fantasia e romantização do suicídio (PINTO, et al. 2017).
Durante o atendimento no serviço de urgência e emergência vemos primeira oportunidade da equipe multiprofissional de identificar a
amplitude do agravo e intervir de maneira eficaz para a minimização dos riscos de futuras reincidências, porém essa oportunidade muitas
vezes não é aproveitada pelas características dinâmicas dos serviços ou despreparo dos profissionais (ARMOND, et al. 2013). Faz-se
necessário o encaminhamento efetivo deste paciente para a rede de recursos, como unidades básicas de saúde, serviços de apoio psico-
sociais, e possibilitando a busca ativa do paciente caso esse não procure o tratamento.
O Assistente Social é um profissional que tem conhecimento dos recursos da comunidade, que trabalha na interlocução com a rede de
serviço para efetivar a garantia de direitos e inserção do usuário no sistema de saúde
A tentativa de suicídio está inclusa Lista de Agravos de Notificação Compulsória do município, de acordo com o art. 4º da portaria GM/MS
1.271/2014. A notificação deve ser feita através do SINAN (Sistema de Informação de Agravos de Notificação). O preenchimento da
notificação possibilita a existência de uma base de dados epidemiológicos sobre este complexo e importante fenômeno, que vem a contribuir
com o planejamento e implantação de politicas públicas voltadas à saúde mental, permitindo ações de enfrentamentos a violências.
Novas ações de saúde relacionadas ao tema, medidas de prevenção e tratamento, são necessárias e o Assistente Social lança novo olhar
para a questão, vista anteriormente apenas como uma decisão particular e que tornou-se um problema de saúde pública, trazendo para a
rede de serviços a discussão e corresponsabilidade com o tratamento.
OBJETIVO
O objetivo deste estudo é analisar na literatura relatos de os encaminhamentos dos casos de tentativa de suicídio atendidos em serviços de
urgência e emergência.
METODOLOGIA
O presente trabalho é fruto de uma revisão bibliográfica, onde foram estudados artigos cientifico que abordassem especificamente sobre
encaminhamentos pós alta de pessoas que tentaram suicídio.
RESULTADOS
O comportamento suicida é fenômeno complexo influenciado por múltiplos fatores, por isso sua dinâmica precisa ser mais bem
compreendida, para que sejam propostas novas estratégias de encaminhamentos e atendimentos pós alta (MAGALHÃES, et al. 2014),
pensando na prevenção de novas tentativas, no acolhimento. Para tanto os serviços precisam estabelecer novos fluxos, com objetivo de
atender de maneira eficaz o paciente após a alta, pois a não inserção em serviços de saúde pode causar a desesperança e agravar a
situação (BERTOLOTE, MELLO-SANTOS, BOTEGA, 2010). Os autores citam ainda a dicotomia quando pacientes tentam suicídio e acionam
amigos e familiares:
“Atos estereotipados de tomar psicotrópicos e telefonar em seguida para conhecidos solicitando ajuda expressam ambas as faces do
ato. A maioria dos pacientes suicidas é ambivalente, incorpora uma batalha interna entre o desejo de viver e o desejo de morrer.”
É necessário a articulação em rede dos serviços, o treinamento dos profissionais e a quebra do tabu acerca do suicídio. O governo tem
apoiado ações de enfrentamento à violência e referente ao suicídio foram redigido manuais de prevenção e atendimento.
O encaminhamento burocrático entregue em mãos ao paciente já não cabe mais como ação profissional, é imperioso o vinculo com o
paciente, articulação com a rede, corresponsabilização da família, a fim de garantir o seguimento do cuidado.
A literatura mostra a necessidade de novas estratégias de encaminhamento. Freitas e Borges (2015) narram que há “dificuldade nos
encaminhamento pós-alta para a rede de saúde” e que serviços de emergências são espaços “privilegiados para o cuidado e também para a
avaliação de risco de novas tentativas, este nem sempre é aproveitado em todas as suas potencialidades e os pacientes liberados (...) sem
qualquer outro tipo de encaminhamento”.
Os autores defendem que seja construída uma rede de atendimento com os serviços disponíveis, para que seja garantida a continuidade do
cuidado pós-alta, o acolhimento e atendimento interdisciplinar, buscando assim diminuição de novas tentativas (MAGALHÃES, et al. 2014).
Gutierrez (2014) expressa que o paciente após uma tentativa de suicídio deve ser visto em sua integralidade, contexto histórico, social, político e
familiar, não apenas de saúde, visando a amplitude da construção de um cuidado compartilhado entre o paciente, a equipe de urgência, a família
e a equipe de saúde mental, sendo essa construção iniciada através do olhar crítico do Assistente Social.
Heck et. al (2012), coloca que instituições que atendem casos de suicídios pós alta devem ser parte integrante e essencial do tratamento.
Realizando busca ativa, visitas domiciliares conhecendo a realidade do paciente e seu contexto familiar. O Assistente Social trabalha como
interlocutor do serviço de urgência e emergência, com a família e a rede de serviços ambulatoriais e socio assistenciais pois permeia estes
espaços de socio ocupacionais.
Notamos que há uma fragilidade no número de profissionais nas redes de urgência e emergência, para acolher, atender e encaminhar todos os
casos.
É importante a revisão dos fluxos, encaminhamento, bem como da conscientização dos profissionais que foi instituído o Núcleo de Prevenção
em Violência (NPV), de acordo com a portaria 1300/2015 publicada em Diário Oficial em 15 de julho de 2015. O núcleo discute casos de
violência em geral, elabora propostas de acompanhamento, educação continuada, criando estratégias para o cuidado integral e ampliado ao
paciente.
É de suma importância que o Assistente Social faça parte deste núcleo trabalhando na criação de fluxos atendimento, buscando políticas
públicas e trabalhando na vinculação do paciente em serviços de saúde mental.
A tentativa de suicídio tem impacto sócio econômicos na sociedade, como uso dos serviços de saúde, psicológico e social, não só do individuo,
mas também de seus familiares e pessoas próximas, que podem necessitar de suporte. O Assistente Social deve atender o indivíduo em todo
seu contexto, incluindo sua família no apoio ao tratamento.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Observamos que o atendimento de urgência e emergência e o acompanhamento ambulatorial são de suma importância para o paciente, porém
se não houver um fluxo adequado, informações e trabalho em rede corremos o risco deste paciente perder-se no território.
Nossa experiência profissional nos mostra que casos encaminhados dos serviços de urgência e emergência para os serviços de atenção básica
e saúde mental, sem que haja contato se perde, pois muitas vezes o paciente não busca o tratamento por manter a ideação suicida. Co
responsabilizar a rede de apoio sócio/familiar é importante, mas não pode ser a única estratégia utilizada. O Assistente Social deve promover o
primeiro atendimento pós alta, busca ativa das equipes de saúde mental que darão seguimento ao cuidado, diminuindo o risco de nova
tentativas.
Há necessidade de ampliar a capacitação dos profissionais de saúde para o acolhimento e atendimento humanizado dos pacientes, sem
julgamentos ou imposição de valores morais. Faz-se necessário ainda criar-se o dimensionamento dos profissionais de Serviço Social em
instituições de saúde, afim de garantir qualidade no atendimento.
É imprescindível o adequado preenchimento da ficha do SINAN, para que os dados mostrem as necessidades do território e possam ser
construídas políticas públicas para acolher tais demandas.
Diante do exposto o Assistente Social deve se aprofundar nas discussões de saúde mental, nas expressões da violência auto infligida, para não
só fomentar as abordagens feitas nas unidades, mas reconstruí-las com maior eficácia. O profissional carece de pensamento critico e propositivo
sobre a temática que potencialize ações alternativas no cuidado e na prevenção ao suicídio.
REFERÊNCIAS
ARMOND, Jane de Eston et al. Autoagressões e tentativas de suicídio entre crianças e adolescente na cidade de São Paulo no ano de 2013.
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[Link] Acesso em 05 de maio de 2018.
BERTOLOTE, José Manoel; MELLO-SANTOS, Carolina de; BOTEGA, Neury José. Detecção do risco de suicídio nos serviços de emergência psiquiátrica. Rev. Bras. Psiquiatr., São Paulo , v. 32, supl. 2, p. S87-S95, Oct. 2010 [Link]
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[Link] acesso em 07 de junho de 2022.
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