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N o 2 25 de fevereiro de 2002.

N o 2 25 de fevereiro de 2002. Para entender a teoria dos jogos -I- (O

Para entender a teoria dos jogos -I-

(O filme “Uma mente brilhante” dá o pretexto)

-I- (O filme “ Uma mente brilhante ” dá o pretexto) G randes dilemas práticos da

Grandes dilemas práticos da vida em sociedade têm a ver com o conflito interesse individual X interesse coletivo. Quer dizer, é intuitivo e racional pensar: “se todo mundo está agindo em defesa do bem comum, eu me considero desobrigado de fazê-lo”. Por exemplo: “já que está todo mundo economizando energia, por quê eu preciso economizar? Se todo mundo paga impostos, eu não vou pagar. Já que todo mundo está deixando o carro na garagem para evitar engarrafamentos, eu vou sair no meu ”. Muito racional (você vai entender esse “racional” adiante), mas…, se todo mundo agir racionalmente a situação fica insustentável para todos. Questões desse tipo, têm a ver com políticas anti-poluição, preservação do meio ambiente em geral, desarmamento, acordos de comércio Apelos à colaboração, não dão resultado no mundo real se não vêm acompanhados por incentivos/penalidades. Lembra do racionamento de energia elétrica? Deu certo, mas será que foi mesmo por causa do tal “admirável espírito de colaboração do povo brasileiro”, como vários comentaristas enfatizaram, ou foi por temor das sobretaxas e cortes? A verdade é que quando não há perspectiva de punição não se vê muito altruísmo nessas coisas não. Nem no Brasil, nem fora. A intenção inicial do sistema socialista era substituir o incentivo econômico por apelos políticos e morais ao patriotismo e consciência social dos trabalhadores. Não funcionou. Qual a melhor forma de agir quando o interesse individual se choca com o coletivo ? Esse tema dominou o tabalho de John Nash, o matemático interpretado por Russel Crowe no filme “Uma mente brilhante”. O que é preciso para haver colaboração? Em quais circunstâncias o mais racional é não colaborar?

brilhante ”. O que é preciso para haver colaboração? Em quais circunstâncias o mais racional é

Mentes Brilhantes

John Nash, o matemático, é o personagem central de“Uma mente brilhante”.

O filme vale a pena apesar de muito desbalanceado; romanceia demais a vida

particular dele, e não dá qualquer dica sobre a originalidade e ousadia de seu trabalho.

O cara existiu (existe, está vivo), superou a esquizofrenia e ganhou um prêmio

Nobel, mas o resto, como em Titanic e outros

sonalidade muito interessante por seu trabalho e sua vida- usou a matemática

para iluminar comportamentos humanos em situações de conflito de interesses, trabalhando num assunto chamado teoria dos jogos. Mas, nesse campo, não foi o único, e nem foi o maior. Foi o segundo maior.

O grande craque foi o inventor da idéia: um outro John- o húngaro radicado nos

EUA, John Von Neumann (mesma universidade -Princeton). Nash ganhou o prêmio Nobel de Economia em 1994; Von Neumann, que morreu em 1958, nunca teve um filme dedicado à sua vida, mas, quem viu “Uma mente brilhante” e ficou querendo saber o que John Nash realmente fez, vai se interessar pela teoria dos jogos, e, certamente, gostará de saber um pouquinho sobre John Von Neumann também.

é puro cinema. Nash é uma per-

John Von Neumann

Dizem que o personagem Dr.Strangelove (interpretado por Peter Sellers) no filme “Dr. Fantástico ou Como deixei de me preocupar com a bomba atômica “ (de Stanley Kulbrick), foi inspirado em Von Neumann. Ele não ganhou prêmio Nobel, mas seu “conjunto da obra” é muito mais impressionante que o de Nash. Esteve metido ativamente em muitos (todos?) dos maiores desenvolvimentos

científicos e tecnológicos do século XX- da física quântica à bomba atômica e ao computador. Foi considerado o maior gênio da universidade de Princeton numa época em que Einstein em pessoa trabalhava lá. Antecipou a idéia de que

a vida, biológicamente, é um processo computacional, isto é: é algo que

acontece a partir do processamento de instruções codificadas-prevendo assim

a existência de uma estrutura como a do DNA que seria descoberta logo em

seguida. Era mimado pelo establishment militar americano, que o mantinha em sua folha de pagamento para ter idéias “enquanto se barbeava”. Sua vida

pessoal, nas mãos de um roteirista e um diretor competentes, também daria um filmaço. Mulherengo, cínico, hiper-racional, quando contraiu o câncer que o

talvez considerando essa a decisão mais

lógica, dadas as circunstâncias Mas, tirando essas coisas (que são o que dá assunto para os filmes) o que há de realmente notável em ambos os johns, é a “petulância” de usar matemática para modelar comportamentos humanos e, a partir disso, identificar “melhores” estratégias para tratar de certos conflitos do dia-a-dia (“melhor” para ambos é sinônomo de “racional” ou “lógico”).

matou, converteu-se ao catolicismo

Geralmente, cientistas chegados às “matemáticas” são teóricos puros, completamente desvinculados de resultados práticos. Nash era assim na vida real, já Von Neumann transitava com desenvoltura pelo campo da teoria, mas, ao mesmo tempo, procurava respostas práticas para problemas imediatos. Como conseqüência, trouxe um entendimento novo para questões como trair ou colaborar; ser egoísta ou altruísta. Tinha um zelo absoluto pela lógica. Jamais ficou prisioneiro de dilemas morais. Nunca (ao contrário de outros cientistas, como Einstein) demonstrou a menor culpa por ter participado ativamente do programa que levou à primeira bomba atômica. Até morrer foi um militante do establishment militar americano. Considerando a polarização EUA-União Soviética, no início da guerra fria–não teve escrúpulos para apontar a saída racional para evitar que se iniciasse um confronto de conseqüências imprevisíveis para a humanidade: era bombardear a União Soviética antes que ela atingisse a capacidade para fabricar bombas nucleares. Ele falou:

Se você me sugerir bombardear a UniãoSoviética amanhã, eu respondo, por que não hoje? Se você propuser hoje às cinco horas, eu respondo, por que não à uma?

A Teoria dos Jogos

Essa tal teoria foi inventada por Von Neumann na década de 1940 para ajudar na formulação de estratégias concretas para os EUA na guerra fria que se inciava. Ela trata do processo de tomada de decisão em situações de conflito de interesses. Pense em alguma polêmica atual- Alca, Protocolo de Kyoto, prote- cionismo comercial, formação de blocos à la Mercosul ou Zona do Euro etc Todas são situações em que conflitos de interesses têm de ser equacionados; são jogos no sentido em que os dois Johns trataram. Jogos assim, são profun- damente ligados à vida em sociedade. Sempre foram, mas hoje, num mundo hiper-conectado, é mais ainda. A teoria dos jogos têm ficado cada vez mais popular

Um jogo é uma situação em que você toma decisões, sabendo que elas implicarão em reações por parte de outro (s) jogador (es) que têm interesses conflitantes com os seus. Ao tomar sua decisão, você tem de levar em conta a cabeça do outro jogador e imaginar sua reação.

Pense no jogo particular que um goleiro joga contra um batedor de penalty. O batedor tem todo interesse em que o goleiro pense que ele vai chutar num certo canto, e então, chuta no outro. Fazer o goleiro acreditar que vai agir de certa forma, e depois enganá-lo é uma estratégia racional. O mesmo vale para o goleiro que tentará sempre fazer com que o batedor acredite que ele se atirará para um certo lado. Dissimulação e fingimento são parte do talento que eles têm que ter

Seria possível tratar racionalmente nossos conflitos de interesse, e obter, via matemática, algum insight útil sobre a forma mais racional de se decidir em situações concretas no mundo real?

A genialidade de Von Neumann, como nota William Poundstone–autor de uma biografia dele, e da melhor introdução à Teoria do Jogos que conheço (ver “Para ler mais”,no final)– foi perceber que a dissimulação não só é algo racional, mas também que é tratável matematicamente. Sua Teoria dos Jogos lida com seres racionais e desconfiados querendo vencer a todo custo. Ele estava interessado na trapaça, no blefe, nas pequenas táticas de dissimu-

Não estava interessado em jogos como

lação, na desconfiança, na traição

xadrez, porque segundo ele, esses jogos nada tem a ver “com a vida real”. Pôquer seria um jogo mais próximo daquilo que ele queria tratar porque no pôquer o blefe é algo mais fundamental.

A origem dessa coisa de “estratégias para lidar com conflito de interesses”, pode muito bem ter sido, no passado, a necessidade de se decidir rápida e agilmente. Pense num predador encurralando sua presa. Haverá truques de comportamento– estratégias – envolvidas nessa confronto. É como se, frente a frente, cada um pensasse: “o que será que ele está pensando que eu vou fazer”? Um animal que desenvolvesse capacidade para esse tipo de “raciocínio”, poderia tentar enganar deliberadamente, isto é: fazer com que o outro “acreditasse” que ele iria fazer algo que de fato não faria. Poderia blefar, e iria ter uma tremenda vantagem no jogo da sobre- vivência. Esse comportamento instintivo poderia evoluir e até (quem sabe?) virar elaboração consciente em algum momento no futuro distante… foi o que ocorreu com os humanos.

A grande contribuição de Von Neumann foi nos chamados jogos de soma zero. É quando a vitória de um significa necessariamente a derrota de outro. Interesses totalmente conflitantes. Em jogos de soma zero não há possibilidade de colaboração. Nessas circunstâncias, ele provou que há sempre um curso racional de ação para cada jogador. Há sempre uma melhor maneira de jogar em cada lance. Ninguém está dizendo que é fácil descobrir essa “melhor maneira”, mas sim que ela existe. John Nash, por sua vez, tratou de situações em que o mais racional é colaborar. A única menção a isso em “Uma mente brilhante” é uma cena, num bar, em que ele convence seus ultra-competitivos colegas, a não tentarem conquistar todos a mesma moça. O mais racional seria distribuirem seus esforços escolhendo alvos diferentes. Não se tratava de um jogo de soma zero, afinal

Matemática é uma forma especial de linguagem. É especial porque é a mais articulada de todas. Quando se consegue narrar algo através dela, pode-se chegar a certezas que nenhum outro tipo de linguagem permitiria.Imagine um debate entre adversários políticos, por exemplo. Usam efeitos retóricos, fazem cena, truques verbais, manipulam tudo na tentativa de causar uma impressão mais favorável, que se traduza em votos na próxima eleição. Matemática não tem nada disso. Com ela, o que você diz agora tem de ser conseqüência lógica do que você disse antes. Não cabem jogos de cena. Ela é tão potente que nos permite até descrever, com todo rigor, mundos hipotéticos, coisas fora de nossa experiência sensorial. Já pensou como seria bom se pudéssemos usar matemática para, de alguma forma, descrever comportamento humano? Foi isso que, em certa medida, Von Neumann e Nash tentaram.

Todo mundo joga

(não

precisa saber matemática

)

Sucesso, de alguma forma, tem a ver com solução de conflitos, e as estratégias que usamos para isso têm tudo a ver com esses pecados humanos nos quais Von

Neumann se interessava: dissimulação, trapaça

de se perguntar “o que será que ele está pensando que eu pretendo fazer”? Responder a essa pergunta mentalmente, e então agir. Jogadores de pôquer fazem assim. Batedores de penalty também. Empresas competindo no mercado, idem. Eles levam em conta as conclusões que os outros jogadores tirarão de suas ações, e tentam induzí-los a tirar conclusões erradas. Todo bom jogador de pôquer (assim como todo bom batedor de penalties), tem que ser bom dissimulador. Jogadores racionais, segundo Von Neumann, têm que blefar.

a ver com a habilidade

Tudo

Empresas, pessoas, países, organizações, envolvem-se em jogos. Sucesso depende da habilidade no jogo da estratégia- aquela arte de adotar cursos de ação melhores do que os de nossos competidores, sabendo que eles estão tentando fazer o mesmo com relação a nós. Estratégia é isso, certo? Conflito de interesses é só o que há. Se Neumann e Nash, usando seu talento matemático, conseguiram mesmo algo concreto com relação a isso, não seria bom sabermos o que foi, mesmo sem sabermos matemática? Claro. Chega de divagações sobre as personalidades de seus criadores. Vamos ver com mais detalhes nas próximas newsletters alguns desenvolvimentos e aplicações mais interessantes da teoria dos jogos .Vamos ver também, com detalhes, o jogo mais fundamental para entendermos muito dos problemas de hoje-“o dilema do prisioneiro”

Para ler mais:

1- “Prisoner’s Dilemma-John Von Neumann, game theory and the puzzle of the bomb”- William Poundstone; Double Day, 1992.

Este pequeno livro é ao mesmo tempo uma ótima biografia de Von Neumann, e uma exce- lente introdução à teoria dos jogos. De quebra, há um painel dos anos iniciais da guerra fria(conflito de interesses, certo?) histórias de Princeton onde trabalharam Nash,Von Neumann e outros craques, algumas histórias bem saborosas e referências históricas. Vários exemplos que aparecerão nas próximas newsletters foram retirados daqui.

2- “O Glorioso Acidente”- Clemente Nobrega-Editora Objetiva ,1998.

Meu segundo livro. Contém vários capítulos sobre a teoria do jogos. Boa parte do material que usei nesta e usarei em futuras newsletters sobre esse assunto, foi adaptada de lá.

3-“Coopetition”- Adam Brandenburger & Barry Nalebuff; Currency Double Day, 1996.

Este livro é sobre aplicações da teoria dos jogos ao mundo dos negócios.

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