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TEMPO É DINHEIRO

Teofrasto (372-287 a.C.), filósofo grego, foi um grande divulgador da


ciência. Dos seus muitos escritos destacam-se “Historia plantarum” (História
das plantas) e “De causis plantarum” (Sobre as causas das plantas), tratados
que constituem a mais importante contribuição à ciência botânica de toda a
antiguidade até ao Renascimento, além de “O Caráter”, obra que não só
descreve os tipos de moral que orientam a conduta dos seres humanos, como
também faz uma valiosa e mordaz descrição de como era vida em sua época.
Atribui-se a ele a autoria da frase “O tempo é muito caro”, primeira menção
que se conhece sobre a relação entre o espaço temporal que separa os fatos
acontecidos na vida de cada um, e o valor pecuniário que a ele pode ser
atribuído. Mais de mil anos depois, o norte-americano Benjamim Franklin
(1706-1790), inventor do pára-raios, também teria chegado a essa mesma
conclusão após ler os livros do filósofo da antiguidade, criando, então, a frase
“tempo é dinheiro”, que se transformaria mais adiante em uma das regras
básicas do capitalismo.

Mas o que tempo e dinheiro representam para o ser humano?

No início, como a moeda não existia, o que se praticava era a troca de


mercadoria por mercadoria (escambo). Assim, quem tivesse caçado ou
pescado mais do que precisava, trocava esse excesso com quem, por
exemplo, tivesse colhido mais milho do que fosse precisar, sem que, no
entanto, houvesse uma medida comum de correspondência entre os
elementos a serem permutados. De repente, alguém percebeu que por um
peixe grande ele não poderia receber apenas seis espigas de milho, mas no
mínimo dez, e dessa constatação surgiu, então, a noção de valor, ou seja, o
conhecimento de que cada coisa tem o seu preço. Daí em diante esse novo
conceito passou a regular todas as atividades humanas, inclusive o trabalho.

Antigamente, nossos ancestrais tinham como bem comum tudo aquilo


que produziam, de modo que cada qual trabalhava na medida em que isto era
necessário para a manutenção da coletividade. Todavia, a fixação do homem
ao solo deu início à exploração agrícola, fazendo surgir daí a necessidade de
mais braços para a atividade na lavoura, e por causa dela o trabalho em
cativeiro, para o qual homens eram capturados por outros e tornavam-se seus
escravos, a fim de lhes prestar serviços. Decorridos mais alguns séculos,
novas condições de vida fizeram surgir o trabalhador servil, indivíduo
prisioneiro de um sistema que o vinculava à terra da mesma forma como
acontecia com o gado e os bens imóveis, mas posteriormente, com o
surgimento da indústria numa escala considerável, e a ascensão ao poder da
burguesia, em substituição aos nobres e possuidores de grandes extensões
territoriais, passou a prevalecer o trabalho assalariado, cuja diretriz era, como
continua sendo, a remuneração dos prestadores de serviço conforme o tempo
gasto por eles na execução das tarefas recebidas.

Até então o tempo, na opinião dos filósofos, era apenas o período


decorrido entre um acontecimento anterior a outro posterior, uma mudança
continuada e permanente capaz de dar às coisas uma duração limitada, e em
conseqüência transformando, num piscar de olhos, o instante presente em
passado a ser lembrado. Aceitando essa visão abstrata o poeta português,
frei Antônio das Chagas (1631-1682), fez um belo poema sobre o tempo que
todos temos, ao mesmo tempo em que não o temos:
Deus pede estrita conta do meu tempo / e eu vou do meu tempo dar-
lhe conta. / Mas como dar, sem tempo, tanta conta, / eu que gastei, sem
conta, tanto tempo? / Para ter minha conta feita a tempo, / o tempo me foi
dado e não fiz conta. / Não quis, sobrando tempo, fazer conta, / hoje quero
acertar conta e não há tempo. / Ó vós que tendes tempo sem ter conta, / não
gasteis vosso tempo em passa-tempo. / Cuidai, enquanto é tempo, de vossa
conta, / pois aqueles que sem conta gastam o tempo, / quando o tempo
chegar de prestar contas, / chorarão, como eu, o não ter tempo.

Hoje em dia todos pensam no tempo como algo a ser gasto no


trabalho necessário para se "ganhar a vida". Tempo, trabalho e dinheiro
parecem ser três aspectos de uma mesma realidade, razão pela qual o tempo
do trabalho é visto como o tempo que se vende, e não parte da vida livre,
enquanto o trabalho é considerado como um encargo necessário, não uma
contribuição espontânea ou algo que acrescente alguma coisa, uma atitude
que mude alguma coisa. Abordando esse tema controvertido a revista Vencer
(www.vencer.com.br) publicou em 2005 o texto “Metas para 2006 - + tempo +
dinheiro), que diz a certa altura:

As riquezas mais desejadas de nossos dias - tempo e dinheiro - estão


intensamente ligadas por nossas ações. Acreditamos que ganhamos pouco.
Por isso, trabalhamos além do que gostaríamos, para um dia ganhar mais.
Conseqüentemente, sobra pouco tempo para nossos momentos de lazer e,
na ânsia de aproveitar melhor nosso tempo, não medimos esforços para
conquistar mais bem-estar e, assim, gastamos mais dinheiro do que
deveríamos, criando problemas financeiros. O resultado dessa receita é uma
vida sem tempo e sem dinheiro, pois quanto menos tempo temos, mais
gastamos, e mais distantes ficam nossos objetivos financeiros.

O fato é que trabalhamos demais porque aproveitamos mal nosso


escasso tempo. E temos problemas financeiros porque aproveitamos mal
nosso escasso dinheiro. Você certamente já se arrependeu de ter
desperdiçado seu tempo após algumas horas de devaneio na frente da
televisão ou do computador, ou por ter gastado seu dinheiro após uma
compra por impulso. Curiosamente, esses arrependimentos são freqüentes
em nossa vida. A sensação de culpa é forte, mas são poucos os que
efetivamente agem contra o desperdício de tempo ou de dinheiro. Parece fora
de controle, como se fôssemos vítimas de nossas ações.

Reparar esse tipo de comportamento é mais simples do que muitos


imaginam. As vítimas da falta de tempo e de dinheiro reconhecem que são
desorganizadas e não sabem por onde começar a organização. Mas, não há
muito segredo: reúna método e disciplina, com objetivos bem definidos e
persiga suas metas.

Estava certo o filósofo Teofrasto quando afirmou, há mais de dois mil


anos, que “o tempo custa muito caro”. Ou será que alguém discorda?

FERNANDO KITZINGER DANNEMANN