EXCLUDENTES DE RESPONSABILIDADE CIVIL

Existem fatos que interferem na relação entre a vítima e o suposto agente causador do dano que têm o condão de excluir o nexo causal. São os chamados fatos excludentes da responsabilidade. A responsabilidade civil existe quando restar comprovado o vínculo entre o dano e a ação ou omissão provocada, ou seja, é imprescindível haver o nexo causal, o liame entre a ação e o dano provocado. As excludentes são exatamente a não existência do nexo causal, como nos ensina Silvio de Salvo Venosa (2003, p. 40): “São excludentes de responsabilidade, que impedem que se caracterize o nexo causal, a culpa exclusiva da vítima, o fato de terceiro, o caso fortuito e a força maior e, no campo contratual, a cláusula de não indenizar”. Nesse sentido ensina Sérgio Cavalieri Filho (2007, p. 63):
Se ninguém pode responder por um resultado a que não tenha dado causa, ganham especial relevo as causas de exclusão do nexo causal, também chamadas de exclusão de responsabilidade. É que, não raro, pessoas que estavam jungidas a determinados deveres jurídicos são chamadas a responder por eventos a que apenas aparentemente deram causas, pois quando examinada tecnicamente a relação de causalidade, consta-se que o dano decorreu efetivamente de outra causa, ou de circunstância que as impedia de cumprir a obrigação a que estavam vinculadas. E, no caso concreto, não foi possível, não se pode dizer que o dever foi violado.

Nota-se que as excludentes são causas especialíssimas que excluem o nexo causal. São causas supervenientes do dever de indenização do agente, pois este não foi o causador do dano, estando deste modo, desobrigado a referida reparação. De grande importância no reconhecimento da responsabilidade civil, as excludentes serão expostas, a seguir, num breve estudo.

2.4.1 Culpa exclusiva da vítima Num primeiro instante, o agente figura aparentemente como causador do dano. Porém, em análise posterior dos fatos apura-se que não foi ele quem causou tal dano, mas sim, a vítima que agiu com culpa ou dolo. Conseqüentemente, não existe o nexo causal do agente, supostamente causador do dano. Assim, desaparece a responsabilidade. Se restar demonstrado que a vítima quem agiu com culpa, deve ser ela

Conforme jurisprudência do Supremo Tribunal de Justiça: RECURSO ESPECIAL PENAL. eis que o agente foi apenas um instrumento do dano.2 Culpa concorrente Haverá a culpa concorrente quando a vítima e o agente tiverem participação na realização do dano. não existindo vínculo. Neste caso. o suposto agente causador fica isento da responsabilidade. não há como se imputar ao condutor do automóvel o delito de homicídio culposo na direção de veículo automotor (art. ou seja. (REsp 873353 / AC). não teve culpa do acidente.Recurso desprovido. Nesse caso. haverá repartição da responsabilidade. agindo com culpa somente a própria vítima. sendo de rigor. Se o acidente se deu por culpa exclusiva da vítima. pela qual fica eliminada a causalidade em relação ao terceiro interveniente no ato danoso. a sua indenização será fixada tendo-se em conta a gravidade de sua culpa em confronto com a do autor”. 313) “Admite-se como causa de isenção de responsabilidade o que se chama culpa exclusiva da vítima. Com a culpa exclusiva da vítima. p. caracterizando desse modo. 2. O Código Civil Brasileiro no artigo 945 reza que: “se a vítima tiver concorrido culposamente para o evento danoso. aconteceria uma injustiça jurídica. obrigado a pagar a indenização. 302. liame entre sua conduta e o evento danoso. sua absolvição. Nota-se que nesse caso. no qual um indivíduo tenta o suicídio atirando-se sobre um veículo que estava passando na rua. Como ressalva José de Aguiar Dias (1997. o ato da vítima. CULPA EXCLUSIVA DA VÍTIMA. Caso contrário. o motorista não teve culpa pela morte da vítima. HOMICÍDIO CULPOSO NA DIREÇÃO DE VEÍCULO AUTOMOTOR. não ficando deste modo. conforme bem delineado no v. do CTB).4. passa a ser a única causa que levou ao resultado danoso.” Não existe nexo causal quando. acórdão vergastado. Um clássico exemplo encontrado na doutrina é do acidente de trânsito. . Nota-se que no exemplo não existe o nexo causal entre o dano e a ação do agente. o motorista não está vinculado ao resultado do dano. pois estava trafegando adequadamente. eis que quem deu a causa para o resultado foi a vítima. o motorista suposto causador do dano. ABSOLVIÇÃO. causa de excludente de culpabilidade.responsabilizada exclusivamente pelo dano. não tendo nenhuma parcela de culpa o suposto causador.

112) [. 2.3 Fato de terceiro Quando um terceiro. sendo assim vão repartir o respectivo grau de responsabilidade. a relação de causalidade entre o dano e o desempenho do contrato”. Por outro lado. vier a concorrer para o prejuízo que sofreu. Portanto. na qual só admite como excludente da responsabilidade. expressamente. A culpa concorrente está prevista no artigo 945 do Código Civil vigente. será analisado o grau de responsabilidade do agente causador e da vítima para fixar o valor da indenizações. Assim.4. na fixação do quantum indenizatório. à conduta culposa da vítima. confrontando-a com a do lesante. paralelamente. haverá uma divisão ou diminuição da responsabilidade. não existindo indenização por perdas e danos. de sorte que se abaterá a quota-parte que for imputável à culpa da vítima [. deverá levar em consideração a gravidade de sua culpa. A culpa concorrente é o resultado da conduta culposa do agente causador. não esteja ligado ao agente supostamente causador. “o fato de terceiro só exonera quando constitui causa estranha ao devedor. artigo 17.] se o lesado. se um veículo que estava em alta velocidade.. o magistrado.681 de 1912. balizando o valor das indenizações. que não o agente aparentemente causador e nem a vítima efetuaram o ato danoso. Na culpa concorrente ainda deverá restar demonstrada a presença do nexo causal entre o agente e o ato danoso. então haverá uma indenização de acordo com o grau da culpa de cada agente. se forem diferente. a culpa exclusiva da vítima. e. afastando o nexo causal entre o agente aparentemente causador e a vítima.Assim. bateu em outro veículo que também estava em alta velocidade. De acordo com o registro de Maria Helena Diniz (2005.. é evidente que os dois concorreram para o resultado. Para a caracterização da excludente da culpa de terceiro se faz necessário que o fato do dano seja inevitável. na culpa concorrente.679). será ato exclusivo de terceiro. que regula o transporte nas estradas de ferro. e ainda que.. quando elimine. Entretanto. Como entende José de Aguiar Dias (1997. isto é. como por exemplo. p. no Decreto nº 2. p. Existem casos em que a lei.]. não reconhece a excludente da culpa concorrente. por ato culposo. se as responsabilidades forem iguais os danos se compensam. .. imprevisível.

ficando a responsabilidade exclusiva do terceiro. Não obstante.. 48). se “A”. Neste caso. responderão solidariamente pelo acidente. o ofensor ficará isento de qualquer responsabilidade. a vítima poderá entrar com ação contra qualquer um deles. o veículo “C”. cujos efeitos são impossíveis de evitar ou impedir”. tendo o autor da ação o direito de regresso da sua cota parte. [. no caso. Já no exemplo. conforme reza o artigo 942 do Código Civil. por exemplo. De acordo com o artigo 930. ficando obrigado a pagar a indenização pleiteada pela vítima. havendo a culpa de terceiro. condutor de um veículo. Ele será o responsável pelo dano. não caracterizará a excludente. se o fato for inevitável e imprevisível. um estranho a relação foi quem efetivamente deu causa ao resultado lesivo. pleiteando a totalidade do prejuízo sofrido. caracterizando a excludente de culpabilidade por fato de terceiro. No exemplo acima o fornecedor não teve culpa do furto ocorrido. a doutrina se encarregou de diferenciar as duas excludentes. devendo se equivaler à força maior. e seu parágrafo único do Código Civil.4. 2. ou seja. p. mas não o faz.Se o agente tiver qualquer participação de culpa ou até mesmo se puder prever o resultado.4 Caso fortuito ou força maior A legislação não faz distinção entre caso fortuito e força maior de acordo com o artigo 393. 113) ensina que: “A força excludente da responsabilidade por fato de terceiro dependerá da prova de que o dano foi resultante de ato de terceiro. . É o que acontece. A tendência da doutrina é apenas admitir excepcionalmente o fato de terceiro como excludente de culpa. Maria Helena Diniz (2005. só será tido como causa excludente. ou seja. parágrafo único do Código Civil: “O caso fortuito ou força maior verificase no fato necessário. caso em que. que perdeu a direção. Em eventual ação contra o suposto agente causador. o veículo “B” foi somente um instrumento para o acidente. atropela “B” em razão do veículo “C”.]” O fato de terceiro. para se isentar da responsabilidade de reparação. p.. em que dois veículos colidem e atropelam uma pessoa. Nesse caso. competirá a este demonstrar que não deu causa ao evento danoso. de acordo com o autor Silvio de Salvo Venosa (2003. o autor da ação terá o direito de ação de regresso contra o terceiro causador do dano.

3. a causa é excludente da responsabilidade. ao Ato n. 2. É unânime na doutrina que. Assim. exclui o nexo de causalidade entre o ato do agente e o dano causado à vítima. evitáveis com a manutenção adequada. como por exemplo. conforme explica Sílvio de Salvo Venosa (2003. negou referendo. só haverá a obrigação de indenizar no caso fortuito interno ante a sua previsibilidade.GU/AGU. existe a culpa do motorista. de 29 de janeiro de 2008. Por outro lado. Se os pneus estavam gastos e vieram a estourar. Ademais. 63/2008. o externo está ligado coisa natural. o terremoto. Já no fortuito externo. Já a força maior é a ação que decorre da força humana. A flexibilidade das excludentes de responsabilidade. a teor dessa orientação. A Corte Especial. à coisa ou à empresa do agente. estranha ao agente ou à coisa. Visa-se a proteção dos direitos da vítima. por motivo de força maior (art. p. Nota-se a jurisprudência que trata de força maior: PROCESSUAL CIVIL – SUSPENSÃO DE PRAZO PROCESSUAL EM RAZÃO DO MOVIMENTO GREVISTA DOS MEMBROS DA ADVOCACIA DA UNIÃO – NÃOCONFIGURAÇÃO DE FORÇA MAIOR . em caso similar ao presente. mesmo se estivesse conservados. tanto um como o outro. no qual a Presidência do STJ suspendia a contagem dos prazos em favor da Fazenda Pública. V. do CPC). indeferiu pedido similar. A jurisprudência do STJ . imprevisível. 1.3. eis que se verifica a ausência de culpa pelo suposto responsável. por maioria. é imprevisível como. O interno está ligado à pessoa. por exemplo. pois.006. é inevitável.33/2. caso fortuito e força maior. O caso fortuito ainda admite uma divisão.2006. 265. p.42). 44). pois era sua responsabilidade cuidá-los. a guerra de acordo com Silvio de Salvo Venosa (2003. o agente teria a responsabilidade. Pode ser interno e externo. na sessão realizada no dia 6. A tendência atualmente da responsabilidade civil é a de que a vítima deve ser ressarcida.Caso fortuito é ação que decorre da força da natureza.SUSPENSÃO DE PRAZOS INDEFERIDA PRECEDENTE DA CORTE ESPECIAL. em atenção ao Ofício n. o Presidente deste Tribunal. não excluindo a responsabilidade. portanto. A jurisprudência vem entendendo que defeitos mecânicos em veículos são previsíveis e. Essa tendência é reflexa da responsabilidade objetiva. dependerão de cada caso e das ponderações do julgador. ele está ligado à máquina (caso fortuito interno).

Com a cláusula de não indenização a um dano que deveria ser ressarcido pelo agente..3. p. pois tornaria o contrato ineficaz. [. eis que não está satisfazendo o interesse social. isto é. AgRg no REsp 855. respeitando a ordem pública e os bons costumes conforme expõe Maria Helena Diniz (2005. de acordo com Maria Helena Diniz (2005.. não excluindo.2008.06. DJ 25. Min. Ainda.. a responsabilidade.. essa cláusula é válida em razão do princípio da autonomia entre as partes. É necessário que esteja estipulado no contrato que um dos contratantes ficará desobrigado da responsabilidade que eventualmente vier a gerar como conseqüência à não indenização.entende que o movimento grevista não caracteriza força maior. a referida cláusula só é aceita se respeitadas às limitações impostas pelo legislador.5 Cláusula de não indenizar ou de irresponsabilidade A cláusula atua na matéria dos contratos. ficará estipulado nessa cláusula.070/PR. só é válida se houver a concordância entre eles. o risco é transferido para vítima. DJ 17.]. Min. Existe uma posição na doutrina de que essa cláusula deve ser considerada imoral. dentre outros. Portanto. a vantagem não poderá ser indevida sendo . Francisco Falcão.2008. DJ 18. AgRg no Ag 454. tendo o contrato força de lei.2008. 116-117): Para ter validade. pois.]. 2. No julgamento restou evidenciado que. DJ 14. Mas. Criada pelos contratantes. portanto. além disso. Luiz Fux. significa dizer que as partes podem contratar como lhes for conveniente. de modo que será ineficaz declaração unilateral de vontade sem anuência de outra parte. que não contrarie a ordem pública e os costumes. Felix Fischer.089/RS. o movimento grevista não caracterizou força maior. Min. tais como: a bilateralidade da concordância.4. ela só seria eficaz se correspondesse a uma vantagem paralela em benefício de outro contraente.[. Ag 964502. ou seja. Para a outra corrente.3. que não haverá ressarcimento. para que a cláusula de irresponsabilidade seja considerada legítima é preciso observar alguns requisitos.2008. A cláusula de não indenizar. PETREQ no REsp 1003454.2006. Nesse sentido: EREsp 639575. Não poderá existir dolo por parte do contratante.3. DJ 13. a limitação convencional da responsabilidade não poderá eximir o dono do estipulante e. Peçanha Martins. Agravo regimental improvido. 116). será imprescindível a bilateralidade do consentimento.3. Min. p. Hamilton Carvalhido. Min.

que se submeteu a essa cláusula. crimes delituosos. e também não poderá ser afastada a responsabilidade das obrigações principais do contrato.paralela à vantagem do contratante. 24. 25 e 51). . em contratos de transportes conforme súmula 161 do STF. Exemplos da não validade: no Código do Consumidor (artigos. cláusula de adesão entre outros.

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