Dissertao Corrigida Ps-Defesa
Dissertao Corrigida Ps-Defesa
NATAL
2025
JÉSSICA CAROLINE MEDEIROS SILVA
NATAL
2025
Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN
Sistema de Bibliotecas - SISBI
Catalogação de Publicação na Fonte. UFRN - Biblioteca Setorial Prof. Ronaldo Xavier de Arruda – CCET
BANCA EXAMINADORA
____________________________________________________________________
Prof. Dr. Thiago Emmanuel Araújo Severo
Universidade Federal Do Rio Grande Do Norte (UFRN)
Orientador
____________________________________________________________________
Profª. Dra. Bettina Heerdt
Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO)
Membro Titular Externo
____________________________________________________________________
Prof. Dr. Wilson Elmer Nascimento
Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)
Membro Titular Interno
Natal/RN
2025
Agradecimentos
Esta dissertação talvez nunca tivesse ganhado forma, permanecendo apenas como uma ideia,
se não fosse pela presença das pessoas que caminharam comigo ao longo dessa trajetória. É
justamente por isso que o agradecimento se torna tão essencial. Por isso, agradeço
Aos meus pais, pelo amor imensurável e pela compreensão diária, mesmo nos dias em que eu
não saía do quarto nem para almoçar à mesa, por estar fazendo 'as coisas do mestrado', como
eles dizem.
À minha mãe. Eu não tenho palavras para descrever por tudo que sou grata. Jamais esquecerei
todas as noites em que passou pelo meu quarto para me dar boa noite com um afago e abraço
carinhoso que me dava forças para continuar as madrugadas em frente ao computador.
Ao meu pai, que todos os dias me lembra da importância de seguir o caminho dos estudos e,
com toda a sua dedicação de um pai presente, torna possível a minha trajetória acadêmica.
À minha irmã Bianca, por todos os lanchinhos preparados com carinho e pela companhia nas
longas noites de estudo.
Ao meu orientador, Thiago Severo, pela orientação cuidadosa, pela escuta atenta e paciente,
por acreditar em mim mesmo quando eu quis desistir ou não acreditei em meu potencial. Pelo
incentivo a cada passo desde nosso primeiro encontro em 2019, ainda na Iniciação Científica.
Ao Laboratório de Popularização das Ciências (LabPOP) e seus integrantes por todas as tardes
de reunião com muito café e bolo fazendo ciências juntos.
À Sarah, minha inseparável dupla acadêmica desde a iniciação científica, e à Amanda, por
compor nosso trio de apoio e escuta durante o mestrado. Vocês foram essenciais para que eu
pudesse concluir esta etapa.
Às minhas amigas Melissa, Marília, Jordana, Fernanda, Alanna e Alice, que ouviram meus
lamentos e reclamações, mas também celebraram comigo cada conquista. Vocês representam
um porto seguro na minha vida.
Ao meu companheiro, Thiago Nathan, pelo amor e apoio constantes, por abrir mão das
maratonas de séries e da pipoca nos domingos em que eu não estava presente, e por todo o afeto
e cuidado nos momentos de caos.
À escola Instituto Reis Magos pelo espaço de trabalho que permitiu, desde os meus primeiros
estágios na graduação, a construção da minha formação como professora e pesquisadora.
Às minhas coordenadoras pedagógicas Cidinha, Ângela e Cláudia por todo suporte quando eu
precisei, por diversas vezes, me ausentar para os eventos do mestrado.
A José Hamilton, meu aluno do 9º ano, ilustrador das capas desta dissertação. Obrigada por
tanto empenho desde os primeiros rascunhos e por dar vida e cor ao trabalho da professora
Jéssica.
Aos membros da banca avaliadora, professor Wilson Elmer Nascimento e professora Bettina
Heerdt pela dedicação na avaliação, pelos questionamentos e pelas orientações valiosas.
E, finalmente, a todas as mulheres cientistas que aceitaram participar desta pesquisa, pela
generosidade em compartilhar experiências e pelo afeto presente em cada encontro.
A todos e todas que, de forma direta ou indireta, puderam estar presentes nessa caminhada, o
meu muito obrigada!
Resumo
A participação das mulheres na ciência tem sido, historicamente, marcada por desafios
estruturais que limitaram sua presença e reconhecimento em ambientes acadêmicos e
científicos. Embora a presença de mulheres no ambiente acadêmico brasileiro tenha crescido,
ainda persistem desigualdades significativas de gênero. Este estudo teve como objetivo analisar
as trajetórias acadêmicas de mulheres cientistas na área das ciências da natureza, a fim de
ampliar o debate sobre a participação feminina nas ciências. A pesquisa, desenvolvida em
parceria com o Laboratório de Popularização das Ciências da UFRN (LabPOP), possui caráter
qualitativo e está estruturada no formato multipaper. Os resultados da dissertação se desdobram
a partir de um estado do conhecimento, de um referencial teórico acerca das temáticas
emergentes (ensino de ciências, mulheres nas ciências e divulgação científica) e da análise
temática das entrevistas com as cientistas participantes. O estado do conhecimento realizado
consiste em uma revisão de literatura com 206 produções dos últimos dez anos sobre mulheres
na ciência e ensino de ciências. A análise evidenciou uma tendência crescente de publicações
sobre o tema, com destaque para a invisibilidade feminina nos livros didáticos, que reforçam
estereótipos androcêntricos. Um resultado notório foi a escassez de trabalhos que articulam a
DC à temática de gênero, apontando uma importante lacuna na área. O referencial teórico foi
construído a partir das temáticas emergentes para a tessitura dos dados: mulheres nas ciências,
ensino de ciências e DC. O campo de pesquisa foi o campus da Universidade Federal do Rio
Grande do Norte, em Natal. As participantes foram 21 mulheres cientistas da grande área das
ciências da natureza atuando no mestrado, doutorado, pós-doutorado, iniciação científica e
docência. Os dados foram construídos por meio de entrevistas guiadas por um roteiro
semiestruturado e gravadas em vídeo. A análise dos dados foi realizada por meio da análise
temática e revelou que as trajetórias são moldadas por quatro eixos centrais: despertar científico,
permanência na universidade, obstáculos e dificuldades, e trajetórias em transformação. O
produto educacional derivado desta pesquisa, validado pela banca examinadora durante o
exame de qualificação, é um documentário intitulado A ciência veste cropped: trajetórias e
reflexões, veiculado na plataforma YouTube. O documentário visa dar maior visibilidade às
trajetórias das cientistas entrevistadas, fomentar o interesse de jovens mulheres pelas carreiras
científicas e servir como material didático para discussões sobre gênero e ciência em diferentes
contextos educacionais.
The participation of women in science has historically been marked by structural challenges
that have limited their presence and recognition in academic and scientific environments.
Although the presence of women in the Brazilian academic setting has grown, significant
gender inequalities still persist. This study aimed to analyze the academic trajectories of women
scientists in the field of natural sciences, in order to broaden the debate on female participation
in science. The research, developed in partnership with the Laboratório de Popularização das
Ciências da UFRN (LabPOP), has a qualitative character and is structured in a multipaper
format. The results of the dissertation unfold from a state-of-the-art review, a theoretical
framework on emerging themes (science education, women in science, and science
communication), and a thematic analysis of interviews with participating scientists. The state-
of-the-art review consists of a literature review of 206 publications from the past ten years on
women in science and science education. The analysis revealed a growing trend in publications
on the subject, highlighting the invisibility of women in textbooks, which reinforce androcentric
stereotypes. A notable result was the scarcity of studies that connect science communication to
gender issues, pointing to an important gap in the field. The theoretical framework was built
around the emerging themes used to weave the data: women in science, science education, and
science communication. The research field was the campus of the Universidade Federal do Rio
Grande do Norte, in Natal. The participants were 21 women scientists from the broad field of
natural sciences, working at the master’s, doctoral, and postdoctoral levels, as well as in
undergraduate research and teaching. Data were collected through interviews guided by a semi-
structured script and recorded on video. Data analysis was carried out through thematic analysis
and revealed that the trajectories are shaped by four central axes: scientific awakening,
permanence in the university, obstacles and difficulties, and transforming trajectories. The
educational product derived from this research, validated by the examination committee during
the qualification defense, is a documentary entitled A ciência veste cropped: trajetórias e
reflexões, released on the YouTube platform. The documentary aims to give greater visibility
to the trajectories of the interviewed scientists, foster young women’s interest in scientific
careers, and serve as educational material for discussions on gender and science in various
educational contexts.
Notas introdutórias
Figura 1: Representação das etapas da pesquisa
Figura 2: Teses e dissertações sobre gênero e mulheres nas ciências dos últimos 10 anos
Figura 3: Estudos sobre gênero e mulheres nas ciências publicados nos Anais do ENPEC
Produto educacional
Figura 1: Registros do produto educacional publicado na plataforma Youtube
LISTA DE TABELAS
Ensino de Ciências e gênero
Tabela 1: Quantidade de artigos, teses e dissertações distribuídos e organizados por eixos
temáticos
Apresentação ........................................................................................................................... 14
1 Notas introdutórias .............................................................................................................. 17
1.1 Objetivos............................................................................................................................. 21
1.1.1 Objetivo geral .................................................................................................................. 21
1.1.2 Objetivos específicos ....................................................................................................... 21
1.2 Metodologia ........................................................................................................................ 21
1.2.1 Natureza da pesquisa ....................................................................................................... 21
1.2.2 Campo de pesquisa e participantes .................................................................................. 22
1.2.3 Etapas da Pesquisa ........................................................................................................... 23
1.2.4 Instrumentos de construção de dados .............................................................................. 24
1.2.5 Organização e análise dos dados ..................................................................................... 24
1.3 Organização da dissertação ................................................................................................ 25
2 Ensino de Ciências e gênero: um estado do conhecimento a partir da produção
brasileira sobre mulheres nas ciências ao longo de 10 anos ............................................... 27
3 Mulheres nas ciências e os desafios da equidade de gênero na Divulgação Científica e
no Ensino De Ciências ............................................................................................................ 44
4 Mulheres, permanência e resistência: reflexões sobre as trajetórias femininas na
pesquisa científica na UFRN .................................................................................................. 57
5 Continuaremos de cropped ................................................................................................. 79
6 Produto educacional ............................................................................................................ 82
REFERÊNCIAS .................................................................................................................. 86
ANEXO 1 – PARECER DO COMITÊ DE ÉTICA ......................................................... 89
ANEXO 2 – ROTEIRO DE ENTREVISTAS .................................................................. 90
APRESENTAÇÃO
1 NOTAS INTRODUTÓRIAS
A presença de mulheres nas ciências é marcada por um histórico de lutas e resistências.
Por muito tempo, a mulher foi considerada como inferior, sendo essa ideia construída pelos
homens e mulheres ao longo da história (Carrara, 2009). A própria ciência moderna “é um
produto de centenas de anos de exclusão das mulheres” (Schiebinger, 2001, p. 37). Durante
séculos, as mulheres foram excluídas dos espaços de produção do conhecimento, uma vez que
eram atividades consideradas imprópria para as mulheres (Chassot, 2004).
A exclusão das mulheres do ambiente científico foi construída por uma sociedade
androcêntrica que definiu quais espaços e atividades eram apropriados para cada gênero,
definindo que para as mulheres restavam os cuidados do lar – a vida privada (Carrara, 2009),
além dos cuidados da saúde da família e comunidade (Trindade; Beltran; Tonetto, 2016).
Na virada do século XIX para o século XX, as reivindicações femininas contra a
discriminação começam a ganhar força, a princípio, por causas sociais e políticas como o direito
ao voto (Louro, 1997). Do ponto de vista histórico, é a partir do final do século XX que as
relações de superioridade e inferioridade entre os gêneros começam a sofrer abalos em sua
estrutura pela rejeição feminina a essas noções consolidadas (Almeida, 2011). Para Louro
(1997)
O argumento de que homens e mulheres são biologicamente distintos e que a
relação entre ambos decorre dessa distinção, que é complementar e na qual
cada um deve desempenhar um papel determinado secularmente, acaba por
ter o caráter de argumento final, irrecorrível. Seja no âmbito do senso comum,
seja revestido por uma linguagem "científica", a distinção biológica, ou
melhor, a distinção sexual, serve para compreender — e justificar — a
desigualdade social (Louro, 1997, p. 21).
Essa sub-representação feminina não pode ser considerada como uma seleção natural
(Barros; Mourão, 2018), visto que estereótipos de gênero são reforçados desde a infância.
Estudos apontam para o tratamento diferenciado para mulheres e homens desde a escola (Bello;
Estébanez, 2022; Louro, 1997; Pinto; Carvalho; Rabay, 2017). Desde cedo, as brincadeiras e as
filas são separados por gênero, e, nos anos finais do ensino básico, algumas disciplinas passam
a ser classificadas como masculinas ou femininas. A matemática, por exemplo, é
frequentemente percebida por professores como uma área em que os meninos têm melhor
desempenho (Santos, 2013). As autoras Pinto, Carvalho e Rabay (2017) consideram que “é
preciso desconstruir estereótipos de feminilidade e masculinidade que ainda influenciam o
gosto pelas matérias escolares e as escolhas de cursos superiores de estudantes do ensino
médio” (Pinto; Carvalho; Rabay, 2017, p. 56).
Esse processo é fundamental não apenas para corrigir distorções históricas, mas também
para oferecer às novas gerações de meninas referenciais femininos nas ciências, incentivando
seu interesse e permanência nesse campo. A ausência de referências femininas contribui para a
perpetuação de estereótipos e afasta as meninas da percepção de que podem ocupar espaços na
produção do conhecimento (Barros; Mourão, 2018). Grande parte da produção científica
permanece restrita ao meio acadêmico sem alcançar efetivamente as salas de aula e voltada
principalmente para especialistas da área (Trindade; Beltran; Tonetto, 2016). Portanto, tornar
visível o trabalho e a trajetória das mulheres na ciência ainda é um desafio. Embora as mulheres
19
na DC, as mulheres têm recebido menos destaque em comparação aos homens (Campos;
Ribeiro, 2019).
Estudos recentes mostram que os livros didáticos utilizados em sala de aula reforçam essa
invisibilidade, uma vez que as referências a cientistas são, em sua maioria, masculinas
(Bandeira; Velozo, 2019; Skumra; Kamanski; Muchen, 2020). Portanto, é imprescindível
pensar em estratégias que integrem a Divulgação Científica à ampliação da disseminação de
conhecimento científico produzido por mulheres. Segundo as autoras Conceição e Teixeira
(2020)
A divulgação científica tem a função de popularizar a ciência, democratizar o
acesso ao conhecimento científico e estabelecer condições para a
alfabetização científica, colaborando para a inclusão de cidadãos em debates
sobre temas especializados, que podem impactar em seu cotidiano
(Conceição; Teixeira, 2020, p. 283).
Diante disso, é pertinente destacar algumas pesquisas que tem se preocupado em levar
essas discussões para o contexto escolar, por meio de estratégias que envolvem a Divulgação
Científica e oficinas nas aulas de ciências como forma de ampliar a visibilidade feminina e suas
contribuições nos ambientes para além dos muros da academia (Banckes; Heerdt, 2023;
Kossatz; Heerdt; Mattioli, 2024).
Nesse contexto, diferentes plataformas, como redes sociais, podcasts e eventos de
popularização da ciência, tornam-se ferramentas fundamentais para dar voz às mulheres
cientistas e destacar suas contribuições. Algumas iniciativas de DC já são realidade, como o
podcast She Science, da UFRN, documentários disponibilizados em plataformas de vídeo, como
a série Mulheres Cientistas, da UFMG, e ações de DC em museus e por meio de materiais
lúdico-educativos voltados à valorização do trabalho das mulheres no Brasil (Silveira et al.,
2021). Outro projeto é canal "Nunca Vi 1 Cientista", fundado por Ana Bonassa e Laura Marise.
Com divulgação no YouTube e redes sociais, o canal desmistifica a imagem do cientista
isolado, explica conceitos científicos de forma simples e crítica, e dialoga diretamente com o
público.
Além dessas iniciativas, destacam-se também políticas públicas implementadas pelo
governo brasileiro, como o programa Mulher e Ciência, desenvolvido pelo CNPq em parceria
com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI). O programa tem como finalidade
fomentar pesquisas voltadas para as relações de gênero, mulheres e feminismo. Como um dos
resultados dessa iniciativa, foram lançadas sete edições da publicação Pioneiras da Ciência no
Brasil, disponibilizadas no Portal Gov, com o propósito de divulgar e valorizar a atuação de
mulheres cientistas brasileiras.
21
1.1 Objetivos
1.1.1 Objetivo geral
Analisar os sentidos atribuídos às trajetórias acadêmicas de mulheres cientistas na área
das ciências da natureza, a fim de ampliar o debate sobre a participação feminina nas
ciências.
1.1.2 Objetivos específicos
• Realizar levantamento bibliográfico acerca da participação de mulheres na pesquisa
científica na área de Ciências da Natureza;
• Construir bases teóricas sobre equidade de gênero no ensino de ciências e Divulgação
científica a fim de embasar teoricamente a pesquisa e definir seus eixos estruturantes;
• Compreender os sentidos atribuídos às narrativas de vida de mulheres cientistas na
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, com foco nos processos envolvidos em
suas trajetórias profissionais, acadêmicas e experiências na pesquisa;
• Construir e um produto de Divulgação das Ciências na plataforma digital YouTube
como ferramenta de popularização da atuação das mulheres nas ciências.
1.2 Metodologia
Natureza da pesquisa
A pesquisa apresenta um caráter qualitativo (Stake, 2011), visto que se estabelece de
maneira “interpretativa, experiencial, situacional e personalística” (Stake, 2011, p. 25).
Buscando estudar sobre as “experiências em um local que influencia o funcionamento das
coisas” (Stake, 2011, p. 69). A pesquisa qualitativa difere da quantitativa devido a sua
capacidade de representar as perspectivas dos participantes, bem como suas visões para o estudo
(Yin, 2016).
22
Além de seu caráter qualitativo, a pesquisa caracteriza-se também como uma investigação
narrativa, em que os sujeitos pesquisados narram e reconstroem suas histórias em um espaço
tridimensional: pessoal e social, de continuidade entre o passado, o presente e o futuro, e em
uma determinada situação ou local (Clandinin; Connely, 2011). Nesse contexto, os autores
Clandinin e Connely (2011) definem que
[...] o pesquisador encontra-se sempre num “entremeio”, isso porque os participantes
da pesquisa, os contextos pesquisados e os próprios pesquisadores constituem-se a
partir de dimensões temporais, espaciais, pessoais e sociais. São vidas e histórias em
movimento – tanto dos participantes da pesquisa quanto dos pesquisadores
(Clandinin; Connely, 2011, p. 665).
Essa descrição tridimensional ocorre uma vez que a pesquisa narrativa possui como
característica essencial a construção de significados por meio das relações expressas
narrativamente.
Etapas da Pesquisa
A pesquisa foi desenvolvida junto ao Laboratório de Popularização das Ciências
(LabPOP), da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Sendo dividida em três
etapas, como representada na figura 1.
A dissertação está organizada no formato multipaper. Esse formato vem sendo adotado
nos programas de mestrado e doutorado das áreas de Educação e Ensino (Costa, 2014;
Damasceno, 2024; Mutti; Klüber, 2018) e é constituído por “uma coletânea de artigos
publicáveis” (Mutti; Klüber, 2018, p. 12), orientados pela questão de pesquisa.
Os artigos dessa dissertação estão organizados nos capítulos seguindo a formatação
específica de cada revista em que foram publicados ou para as quais foram submetidos. Sendo
eles:
Capítulo 2 – Composto por um artigo de revisão bibliográfica que buscou por artigos, teses e
dissertação sobre a produção científica dos últimos 10 anos que abordam a temática de mulheres
nas ciências e o ensino de ciências. As bases de dados utilizadas para esse estudo foram a
BDTD, o portal de periódicos da CAPES e Atas do ENPEC. O estado do conhecimento
abrangeu 206 produções a serem analisadas. O artigo foi submetido para publicação no
periódico: Revista Ciências & Ideias em dezembro de 2024. Em setembro de 2025 encontra-
se em avaliação.
Capítulo 3 – Composto por um artigo de fundamentação teórica das bases de estudo que
alicerçam esta dissertação, dividido em 3 eixos: mulheres nas ciências, divulgação científica e
ensino de ciências. Os eixos foram definidos a partir de estudos realizados por: Guacira Louro,
Sergio Carrara, Londa Schiebinger, Attico Chassot, Luisa Massarani, Adina Nerghes, Bettina
Heerdt e Joan Scott. O artigo a seguir foi apresentado no XV ENPEC - Encontro Nacional de
Pesquisa em Educação em Ciências no dia 05 de agosto de 2025. Sua versão final será publicada
nas Atas do XV ENPEC.
Capítulo 4 – Composto por um artigo construído a partir dos resultados obtidos na pesquisa,
após a realização das entrevistas narrativas e análise temática dos sentidos atribuídos às
trajetórias individuais das mulheres cientistas na UFRN. O artigo a seguir foi submetido à
26
Revista Investigações em Ensino de Ciências (IENCI) em Agosto de 2025, foi aprovado pelo
editorial e se encontra em avaliação entre pares.
Capítulo 5 – Esse capítulo é composto pelas considerações finais escritas na terceira etapa da
pesquisa, após a finalização das análises dos resultados obtidos para a construção do capítulo
4.
5 CONTINUAREMOS DE CROPPED
80
CONTINUAREMOS DE CROPPED
Certa vez, ao longo da disciplina sobre gênero e ensino de ciências que cursei no
PPGECNM antes de ingressar no mestrado, realizei uma atividade na escola pedindo que os
meus alunos desenhassem a imagem de cientista que tinham em mente. O momento em que
recebi o desenho de uma aluna me representando como a figura de cientista dela foi quase
mágico. Ali, foi meu grande despertar para o fato de que, além de professora, também sou
cientista. Embora eu não tenha percebido de imediato a importância desse momento, sempre
que faço uma retrospectiva de quando comecei a me reconhecer como cientista, esse dia
memorável vem à minha mente.
Naquela época, eu já trilhava os primeiros caminhos para desmistificar minha própria ideia
de cientista e imagem estereotipada do fazer científico. Ora, que culpa tem a Jéssica criança
que cresceu assistindo programas de TV que demonstravam a ciência como um show de
explosões feito por homens? Hoje, sei que ser cientista, é mais do que experiências explosivas
e resultados de experimentos realizados em laboratório. Ser cientista é habitar um espaço de
constantes tensões entre tradição e mudança, exclusão e reconhecimento, silêncio e voz. Para
as mulheres, essa experiência carrega marcas profundas de trajetórias que, por muito tempo,
foram invisibilizadas, mas que hoje se escrevem, pouco a pouco, na história das ciências.
O início da trajetória dessa pesquisa se deu pelo capítulo dedicado ao estado do
conhecimento, que permitiu mapear a produção acadêmica sobre mulheres na ciência e ensino
de ciências na última década. A análise das produções evidenciou um crescimento consistente
das pesquisas na área, mas também revelou a escassez de trabalhos que articulem gênero e
Divulgação Científica, indicando uma lacuna importante a ser explorada em futuras
investigações.
Perceber a importância da articulação entre DC e estudos sobre mulheres nas ciências
foi fundamental para construção de um referencial teórico de base para a pesquisa. A partir das
temáticas emergentes como mulheres nas ciências, ensino de ciências e Divulgação Científica,
foi possível construir a tessitura conceitual necessária para analisar os dados empíricos. Esse
arcabouço possibilitou compreender a ciência como um espaço atravessado por desigualdades
estruturais de gênero e raça, mas também como campo de ressignificações, no qual a presença
feminina tem permitido seguir novos caminhos.
O estudo das narrativas trouxe à tona as vozes de 21 mulheres cientistas. Conhecer a
história de cada uma que percorre os corredores da universidade onde venho me consolidando
como pesquisadora foi fundamental para perceber que não estou sozinha, que existem outras
mulheres, assim como eu, seguindo suas trajetórias, mesmo enfrentando obstáculos financeiros,
81
dificuldades em disciplinas e momentos de dúvida sobre suas próprias capacidades, como tantas
vezes eu também duvidei.
Os relatos dessas pesquisadoras, que também são mães, alunas, filhas, esposas, namoradas
e orientandas, evidenciaram que, apesar dos avanços no acesso e na presença das mulheres no
Ensino Superior, ainda persistem barreiras e obstáculos, como a desvalorização da mulher
cientista, o racismo, a ausência de referências femininas e negras na pesquisa e a limitada
presença feminina em posições de tomada de decisão.
Refletir sobre a relação entre a Divulgação Científica e as mulheres nas ciências permitiu
perceber que esse é um espaço ainda marcado por desafios estruturais e oportunidades
desiguais. Para que a DC contribua de forma efetiva para a equidade de gênero, é fundamental
adotar práticas inclusivas que promovam ativamente a visibilidade das mulheres cientistas, não
apenas transmita o conhecimento produzido por estas mulheres invisibilizando-as. Avalio como
pertinente e necessário aprofundar a investigação na interseção entre gênero e DC, explorando
o impacto e a ampliação de iniciativas protagonizadas por mulheres.
Ao convidar mulheres para participar desta pesquisa, eu não tinha como afirmar com
certeza que receberia o aceite das pesquisadoras das três grandes áreas: Ciências Biológicas,
Física e Química. A predominância de mulheres das Ciências Biológicas confirmou o que
diversos estudos consultados já apontavam: ainda há uma significativa ausência de mulheres
atuantes na Química e, principalmente, na Física. A baixa representatividade nesses cursos de
formação evidencia a necessidade de estudos voltados às barreiras específicas enfrentadas por
mulheres nessas áreas.
Dessa forma, esta dissertação evidencia a importância de incorporar a perspectiva de
gênero à Divulgação Científica e ao Ensino de Ciências, ampliando as possibilidades de debates
sobre ciências para além dos estereótipos, tanto na arena midiática quanto na sala de aula. Além
disso, estudos comparativos entre diferentes áreas do conhecimento e instituições podem
ampliar e enriquecer o debate, oferecendo um panorama mais plural sobre a presença e a
contribuição das mulheres no campo científico.
Portanto, escutar, registrar e divulgar as narrativas de mulheres cientistas é um passo
fundamental para romper o ciclo de invisibilidade histórica, fortalecer o sentimento de
pertencimento e contribuir para a construção de uma ciência mais plural, equitativa e
representativa da diversidade de pessoas que diariamente constroem as ciências juntas.
82
PRODUTO EDUCACIONAL
Produtos educacionais são definidos pelo documento da área de ensino da CAPES como
[...] o resultado de um processo criativo gerado a partir de uma atividade de
pesquisa, com vistas a responder a uma pergunta ou a um problema ou, ainda,
a uma necessidade concreta associados ao campo de prática profissional,
podendo ser um artefato real ou virtual, ou ainda, um processo (Brasil, 2019,
p. 16).
Ficha técnica
Público Livre para todos os públicos
Partes/Episódios 2
Duração Primeira parte: 21:30 Segunda parte: 17:19
Total: [Link]
Formato 16:9 Horizontal
Mídia Vídeo
Plataforma Youtube
Equipamentos de Microfones de Lapela, Câmera de celular, tripé e gravador
gravação portátil
Softwares utilizados Canva, Capcut e Adobe Premiere Pro
Personagens/Sujeitos Mulheres cientistas entrevistadas e Jéssica Medeiros
(mestranda)
Locação de gravação Universidade Federal do Rio Grande do Norte (diversas
localidades)
Licença Creative Commons 4.0 BY-NC-SA
86
REFERÊNCIAS
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na sociedade. Série-Estudos - Periódico do Programa de Pós-Graduação em Educação da
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89
IDENTIFICAÇÃO
Nome da
Entrevistada
Formação
Data da Entrevista
Tempo de Duração
8.4. Em sua área, você consegue ver mais mulheres ou homens como
referências de pesquisa? Você poderia dizer porque acha que isso
acontece?