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DIREITO PENAL ECONÔMICO E

TRIBUTÁRIO
Prof. Ramon Olímpio de Oliveira
INTRODUÇÃO
 O Direito Penal Econômico é comumente
definido como o ramo do Direito responsável pelo
estudo dos chamados “Crimes de colarinho
branco” (white collar crimes) ou “crimes dos
poderosos” (crime of the powerful)

 Edwin Sutherland, sociólogo proveniente dos


Estados Unidos foi o primeiro a utilizar a
terminologia “white collar crime” em 1939.
INTRODUÇÃO
 Apesar de correta, tal definição peca ao limitar o
Direito Penal econômico a um tipo específico de autor
(geralmente os magnatas e políticos), deixando em
aberto os crimes cometidos.

 Como não podemos limitar o Direito Penal Econômico


apenas aos autores, é necessário traçar uma definição
mais objetiva em relação aos fatos e crimes que
envolvem a matéria, observando suas características
objetivas.
DEFINIÇÃO DE DIREITO PENAL
ECONÔMICO
 Ramo do Direito Penal cujo intuito é o estudo de
crimes que ocorrem nas relações comerciais
ou decorrentes da atividade empresarial,
muitas vezes praticados pelos seus sócios,
diretores ou gestores de forma não violenta
(geralmente) e através de fraude ou violação da
relação de confiança;
DEFINIÇÃO DE DIREITO PENAL
ECONÔMICO
 Para Zygmunt Bauman, Direito Penal
Econômico pode ser definido como “conjunto de
normas que regulam a vida e as atividades
econômicas e dos preceitos que de alguma
forma se relacionam com a produção e
distribuição dos bens econômicos”
CONTEXTUALIZAÇÃO DO DIREITO PENAL
ECONÔMICO
 Como se desenvolve o estudo e o interesse acerca
do Direito Penal Econômico?

 O fortalecimento das relações econômicas


através da globalização e as transformações
sofridas pela sociedade e pelas Nações.
CONTEXTUALIZAÇÃO DO DIREITO PENAL
ECONÔMICO
 Uma das consequências da globalização é a
integração dos países em um nível
extremamente elevado, com a formação de redes
econômicas supranacionais, o que leva os países
a reprimirem atos e comportamentos que visem
lesar à ordem econômica atingida até então.
CONTEXTUALIZAÇÃO DO DIREITO PENAL
ECONÔMICO
 Além disso, a estruturação de grandes empresas
detentoras de forte poder econômico provoca o
Estado a formular um sistema jurídico que
pretende ser eficaz na proteção aos interesses de
uma sociedade de massas – a norma legal como
instrumento de proteção da economia nacional e
popular
CONTEXTUALIZAÇÃO DO DIREITO PENAL
ECONÔMICO
 Outra explicação para o crescimento do tema na
experiência jurídica contemporânea é a mudança
social que implicou uma alteração no paradigma
da criminalidade. Evoluímos de um modelo
clássico de criminalidade – onde o foco é a
delinqüência individual – para um paradigma de
criminalidade coletiva
CONTEXTUALIZAÇÃO DO DIREITO PENAL
ECONÔMICO
 Sobre a evolução do modelo de criminalidade, Edwin
Sutherland, em 1949, elaborou as seguintes teses:
 1. O crime não deriva de fatores como pobreza, lares
desfeitos nem fixações freudianas em violações de
regras, pois há pessoas absolutamente saudáveis e
bem criadas que praticam crimes. E mais: não
impediu que se verificassem vários ilícitos penais
praticados por pessoas em situação de poder.
CONTEXTUALIZAÇÃO DO DIREITO PENAL
ECONÔMICO
 2. As práticas negligentes adotadas por grandes
empresas ocorriam com a mesma freqüência e de
forma tão profissional como crimes praticados por
quadrilhas de assaltantes de bancos e de
estelionatários.
 3. Os delitos mais comuns nesse grupo eram as
violações anti-truste (ordem econômica), propagandas
enganosas (relações de consumo), roubo de segredos
industriais (propriedade industrial) e corrupção para
obtenção de favores especiais.
CONTEXTUALIZAÇÃO DO DIREITO PENAL
ECONÔMICO
 Como a influência das grandes empresas na vida
da sociedade é um fato sempre constante e
sempre crescente, nós temos o Estado
formulando normas para proteger a sociedade de
eventuais males causados pela ruptura do status
quo na ordem econômica, tendo como foco a
proteção da sociedade de forma geral, e não
apenas o s indivíduos.
CONTEXTUALIZAÇÃO DO DIREITO PENAL
ECONÔMICO
 Assim, as ações que se caracterizam como
concorrência desleal, fraudes ao fisco, o
contrabando, condutas contra a ordem
econômica, contra as relações de consumo, contra
os sistemas tributário, financeiro e
previdenciário, são exemplos de comportamentos
que se inserem nesse contexto do Direito Penal
Econômico.
FUNDAMENTAÇÃO DO DIREITO PENAL
ECONÔMICO
 Fundamentação Material:
 Pode-se fundamentar o D. Penal Econômico a partir
de uma noção quantitativa, ou seja, o crime
econômico é a expressão dos danos que ele causa, ou
também, a partir da natureza coletiva ou
supraindividual dos interesses ou bens jurídicos.
Enquanto os crimes contra o patrimônio atingem
interesses inscritos na esfera da livre disponibilidade
de seus portadores concretos, o crime contra a
economia atinge interesses que o legislador converte
em bens jurídicos supra-individuais, por isso, mesmo,
indisponíveis.
FUNDAMENTAÇÃO DO DIREITO PENAL
ECONÔMICO
 Fundamentação Legal: Tendo em vista que o
objetivo do Direito Penal é a defesa de bens
jurídicos e valores específicos, não seria diferente
com o Direito Penal Econômico.
 Todavia, devido à natureza supraindividual dos
valores protegidos por ele, há uma grande
dificuldade em definir, de forma exata, esses
valores.
FUNDAMENTAÇÃO DO DIREITO PENAL
ECONÔMICO
 O que se observa, e muitas vezes se critica, é que
em material de Direito Penal Econômico há um
caráter altamente criminalizador, visto que não
raro se erige à categoria de delito uma grande
quantidade de comportamentos que, a rigor, não
deveriam passar de meras infrações
administrativas, em dissonância, talvez, com os
princípios penais da intervenção mínima, da
ultima ratio, da insignificância, da
fragmentariedade etc.
BEM JURÍDICO E INTERESSES PROTEGIDOS
PELO DIREITO PENAL ECONÔMICO

 O bem jurídico tutelado pelo Direito Penal


Econômico é todo aquele que se relaciona com a
manutenção da ordem econômica, ou seja, a
economia popular, o sistema financeiro, o
sistema tributário, o sistema previdenciário, as
relações de consumo.
LEGISLAÇÃO ESPECÍFICA E SEUS
RESPECTIVOS BENS TUTELADOS
 - Lei 8.137, de 1990: Delitos contra a ordem econômica
(arts. 4º a 6º): BEM JURÍDICO: livre concorrência e
livre iniciativa, fundamentos basilares da ordem
econômica.

 - Lei 8.137, de 1990: Delitos contra as relações de consumo


(art. 7º): BEM JURIDICO: nos incisos I a IX, os
interesses econômicos ou sociais do consumidor
(indiretamente, a vida, a saúde, o patrimônio e o
mercado);

 - Lei 8.137, de 1990: Delitos contra a ordem tributária


(arts. 1º a 3º): BEM JURIDICO: erário público, como
bem supraindividual, de cunho institucional;
proteção da política socioeconômica do Estado.
LEGISLAÇÃO ESPECÍFICA E SEUS
RESPECTIVOS BENS TUTELADOS

 Lei 8.176, de 1991: Trata de delitos contra a


ordem econômica. BEM JURÍDICO: fontes
energéticas.

 Lei 8.078, de 1990: Trata dos crimes contra as


relações de consumo – Código de Defesa do
Consumidor; BEM JURÍDICO: relações de
consumo, relação jurídica de consumo.
LEGISLAÇÃO ESPECÍFICA E SEUS
RESPECTIVOS BENS TUTELADOS
 Lei 7.492, de 1986: Trata dos crimes contra o sistema
financeiro nacional; BEM JURÍDICO: proteção
pública aos valores mobiliários (públicos e das
empresas privadas que atuam nesse setor) e o
patrimônio de terceiros (investidores); a
higidez da gestão das instituições financeiras;
a fé pública; fé pública de documentos;
veracidade dos demonstrativos contábeis das
instituições; regular funcionamento do sistema
financeiro; reservas cambiais;
LEGISLAÇÃO ESPECÍFICA E SEUS
RESPECTIVOS BENS TUTELADOS
 Código Penal Brasileiro, de 1940: nos artigos
359-A a 359-H, trata dos crimes contra as
finanças públicas; BEM JURIDICO: finanças
públicas;

 Código Penal Brasileiro, de 1940: nos artigos


168-A e 337-A, trata dos crimes contra o sistema
previdenciário; BEM JURÍDICO: interesse
patrimonial da previdência social;
LEGISLAÇÃO ESPECÍFICA E SEUS
RESPECTIVOS BENS TUTELADOS
 Código Penal Brasileiro, de 1940: artigo 334;
BEM JURÍDICO: prestígio da
administração pública e o interesse
econômico do Estado;

 - Lei 9.613, de 1998: Lavagem ou ocultação de


bens. BEM JURÍDICO: administração da
justiça e a ordem socioeconômica (ordem
econômico-financeira);
TEORIA GERAL DO CRIME: TEORIA
TRIPARTITE (TRIPARTIDA)
 Como observa Rogério Greco (2011), para que um
fato constitua crime é necessário que atenda aos
seguintes requisitos quanto ao fato:
 Tipicidade;

 Culpabilidade;

 Ilicitude.
DA TIPICIDADE
 Tendo em vista que o Direito Penal Econômico
não possui autonomia científica, trata-se de
matéria cujas definições e construção jurídico-
legal encontra-se atrelada ao Direito Penal, seus
princípios e categorias, apresentando variações
específicas de acordo com os crimes.
DA TIPICIDADE
 O fato típico é o primeiro elemento que estrutura
o crime e que, portanto, condiciona à
responsabilidade penal. Nele estão integradas:
 Conduta;

 Nexo de causalidade;

 Resultado;

 Tipicidade.
CONDUTA
 A conduta, como pressuposto do fato típico, diz
respeito ao comportamento humano voluntário,
consciente e que objetiva determinado objetivo.

 Ela se traduz em ação (conduta positiva) e


omissão (conduta negativa).
CONDUTA
 A maioria dos crimes previstos na legislação penal
brasileira se constitui modalidade comissiva, ou seja, são
crimes de ação. Não obstante, há outros tantos que se
perfazem através da chamada omissão.

 No âmbito do Direito Penal a omissão é normativa, ou seja,


a possibilidade de imputar ao omitente um resultado
lesivo decorre da obrigação jurídica que se impõe ao sujeito
de, podendo, agir para evita qualquer tipo de resultado. O
nexo causal, assim, entre a omissão e o resultado não é
naturalístico, mas normativo.
RESULTADO
 O resultado diz respeito à consequência da
conduta, seja ela positiva (comissão) ou negativa
(omissão).

 Para que o fato seja típico, há a necessidade do


resultado estar diretamente conectado à conduta
do agente (Nexo de Causalidade).
NEXO DE CAUSALIDADE
 Na interligação do comportamento ao resultado,
outro instituto de D. Penal tem lugar: o nexo de
causalidade. A legislação penal brasileira adota,
quanto ao nexo causal, a Teoria da Equivalência
das causas ou da conditio sine qua non.
 Para esta teoria, o resultado de que depende a
existência do crime é imputável a quem lhe deu
causa, considerando-se como causa, toda a ação
ou omissão sem a qual o resultado não teria
ocorrido (artigo 13 do CPB).
DA TIPICIDADE
 A tipicidade, dessa forma, é a adequação do fato
ou conduta à norma jurídica penal previamente
estabelecida, de forma que, ao analisar a
conduta, o resultado e o nexo de causalidade,
temos um fato concreto.
 Caso esse fato encontre semelhança com aquilo
que está previsto na norma penal, considerar-se-
á típico.
CRIME DE DANO E DE PERIGO
 Diz-se crime de dano, quando da o resultado da
ação provoca algum tipo de prejuízo ou lesão ao
bem tutelado pela legislação.

 O crime é de perigo quando o resultado dele é a


ameaça de direito e a norma penal prevê essa
ameaça como sendo tipo penal punitivo.
TIPO PENAL ABERTO E FECHADO
 O tipo penal é considerado aberto quando a norma
institui como fato típico um resultado que pode ser
alcançado através de várias condutas diversas, tendo
em comum apenas a lesão ou ameaça de direito entre
elas.

 O tipo penal fechado, por sua vez, ocorre quando a


norma especifica a conduta que deve ser praticada
(ou ignorada) pelo agente de forma específica,
restringindo a punibilidade à especificidade do
comportamento do agente.
APLICAÇÃO DA TEORIA GERAL DO CRIME NO
DIREITO PENAL ECONÔMICO: TIPO ABERTO
 É bastante comum encontrar essa modalidade no
Direito Penal Econômico, o que gera uma tendência,
por parte desse ramo, na adoção de condutas amplas
para caracterização da norma incriminadora.

 Essa tendência tem como consequência uma menor


precisão na aplicação da norma, posto que a
amplitude do tipo penal acaba prejudicando a sua
aplicação e gerando uma instabilidade perigosa.
APLICAÇÃO DA TEORIA GERAL DO CRIME NO
DIREITO PENAL ECONÔMICO: TIPO ABERTO
 Como exemplo de tipo penal econômico aberto,
vemos o que sucede na Lei 8.137, no que pertine
ao crime contra a ordem econômica.
 Segundo o artigo 4º, inciso I, constitui
crime contra a ordem econômica abusar do
poder econômico, dominando o mercado ou
eliminando total ou parcialmente a
concorrência mediante alguma daquelas
condições estabelecidas nas letras “a” a “f”.
APLICAÇÃO DA TEORIA GERAL DO CRIME NO
DIREITO PENAL ECONÔMICO: TIPO ABERTO
 Como se observa, a expressão abuso de poder
econômico traz a ideia de mau uso do poder, de
certo desvirtuamento ou da aplicação ardilosa,
deformada de atitudes em detrimento de outrem.
 Esse tipo penal revela a finalidade da conduta,
mas deixa em aberto a forma como o agente irá
cumprir seus objetivos.
APLICAÇÃO DA TEORIA GERAL DO CRIME NO
DIREITO PENAL ECONÔMICO: TIPO ABERTO
 Outro exemplo interessante diz respeito ao
artigo 4º, parágrafo único, da Lei 7492/86, no que
tange à gestão temerária, cuja pena prevista é de
reclusão de dois a oito anos e multa.
 O tipo penal é a gestão temerária (arriscada de
forma exacerbada, ousada, pródiga), sem que
haja o devido aviso aos investidores sobre o risco
da operação de compra/venda de ações.
APLICAÇÃO DA TEORIA GERAL DO CRIME NO
DIREITO PENAL ECONÔMICO: TIPO ABERTO
 Deve-se observar que o tipo penal é aplicável à gestão
temerária, não especificando a necessidade de causar
prejuízo para os investidores ou para as relações de
consumo, ordem econômica e outros bens tutelados
pelo Direito Penal Econômico.

 Com isso, um negócio arriscado, mas que deu certo,


poderia, em tese, acarretar em prisão do sócio diretor
por gestão temerária de sua empresa.
APLICAÇÃO DA TEORIA GERAL DO CRIME NO
DIREITO PENAL ECONÔMICO: TIPO ABERTO
 Até mesmo a utilização de escrituração paralela lícita
poderia incidir em crime, posto que a Lei 7.492/86
prevê o chamado Caixa 2, com a seguinte redação:
“manter ou movimentar recurso ou valor
paralelamente à contabilidade exigida pela
legislação”
 O tipo penal aberto, com isso, prejudica a precisão
jurídica na adequação do fato à norma, o que pode
implicar em situações onde a tipicidade dos fatos
praticados pode ser contestada, e com razão.
APLICAÇÃO DA TEORIA GERAL DO CRIME NO
DIREITO PENAL ECONÔMICO: TIPO OMISSIVO
 São bastante presentes no Direito Penal
Econômico os crimes omissivos, caracterizados
pela conduta negativa do agente que resulta em
dano ou violação de direito de terceiro.
 Como exemplo podemos citar o Código de Defesa
do Consumidor, que prevê, entre seus arts. 61 e
80, crimes contra as relações de consumo, dentre
os quais 6 deles são omissivos próprios.
APLICAÇÃO DA TEORIA GERAL DO CRIME NO
DIREITO PENAL ECONÔMICO: TIPO OMISSIVO
 Art. 69. Deixar de organizar dados fáticos,
técnicos e científicos que dão base à publicidade;
 Art. 73. Deixar de corrigir imediatamente
informação sobre consumidor constante de
cadastro, banco de dados, fichas ou registros que
sabe ou deveria saber ser inexata;
 Art. 74. Deixar de entregar ao consumidor o
termo de garantia adequadamente preenchido e
com especificação clara de seu conteúdo
APLICAÇÃO DA TEORIA GERAL DO CRIME NO
DIREITO PENAL ECONÔMICO: CRIMES DE
PERIGO
 Não é incomum encontrar crimes de perigo no
Direito Penal Econômico. Isso ocorre devido à
sua característica de defesa de direitos difusos,
ou seja, que atingem um número indeterminado
de pessoas.
APLICAÇÃO DA TEORIA GERAL DO CRIME NO
DIREITO PENAL ECONÔMICO: CRIMES DE
PERIGO
 A doutrina e a jurisprudência majoritárias vêm
entendendo que os crimes de perigo abstrato ou
presumido são inconstitucionais. Se o juízo de
tipicidade exige que a ação do agente deva ter
promovido um dano ou um perigo efetivo de
dano, somente será possível punir alguém se
essa situação de risco se mostrar diagnóstica.
Caso contrário, o comportamento resta
irrelevante para o Direito Penal.
APLICAÇÃO DA TEORIA GERAL DO CRIME NO
DIREITO PENAL ECONÔMICO: CRIMES DE
PERIGO
 A questão é tormentosa, e divide opiniões na
doutrina e na jurisprudência. Para alguns a
aceitação dos tipos penais de perigo é condição
imperiosa para a responsabilidade por delitos
econômicos, porque as conseqüências da
criminalidade econômica nem sempre são
apreciáveis imediatamente.
APLICAÇÃO DA TEORIA GERAL DO CRIME NO
DIREITO PENAL ECONÔMICO: CRIMES DE
PERIGO
 Muitas vezes não há sequer como valorar, de
maneira objetiva, o resultado possivelmente
alcançado, ou provavelmente contraído pela ação
que atenta contra a ordem econômica e, assim, o
legislador tem necessidade de considerar como
típicos o mero perigo que as ações causam, ou
podem causar, a bens jurídicos tutelados pela
macrocriminalidade.
APLICAÇÃO DA TEORIA GERAL DO CRIME NO
DIREITO PENAL ECONÔMICO: CRIMES DE
PERIGO
 Exemplo: gestão temerária (Lei 7.492/86): a
simples possibilidade de risco de prejuízo aos
investidores ou ao bem estar econômico da
empresa pode ser punido, ainda que não haja
prejuízo efetivo ou mesmo quando há lucro;
APLICAÇÃO DA TEORIA GERAL DO CRIME NO
DIREITO PENAL ECONÔMICO: NORMAS PENAIS
EM BRANCO

 As normais penais em branco são aquelas que


dependem de legislação ou norma diversa para que
seu sentido se complete, devendo ser violado aquilo
que está disposto tanto no tipo contido na norma
penal como o que prevê a norma complementar.
 Exemplo: Lei 8176/91, no artigo 1º, inciso II, já citada
anteriormente, a utilização de gás liquefeito de
petróleo, em desacordo com as normas estabelecidas
na forma da lei
EXCLUDENTES DE TIPICIDADE
 Coação física irresistível – aquela que exclui o
controle dos movimentos do corpo – um empurrão por
exemplo. – exclui a conduta.
 Erro de tipo inevitável, invencível, escusável –
exclui tanto o dolo, quanto a culpa – torna o fato
atípico. Já o erro de tipo evitável, vencível ou
inescusável somente exclui a tipicidade dolosa,
mantém, se previsto em lei, o crime culposo.
EXCLUDENTES DE TIPICIDADE
 Arrependimento eficaz e desistência voluntária –
são excludentes de tipicidade mediata da tentativa,
permite que o agente seja punido pelo que ele causou.
 Crime impossível – exclui a tentativa quando por
ineficácia absoluta do meio ou absoluta
impropriedade do objeto o crime jamais se
consumaria.
 Princípio da insignificância – embora o fato
esteja formalmente previsto em lei, não será típico
materialmente, pois não houve lesão grave para o
bem jurídico tutelado. O fato é atípico.
EXCLUDENTES DE TIPICIDADE
 Para o Direito Penal Econômico, as excludentes
de tipicidade que o afetam diretamente são:
 Princípio da Insignificância (crime de
bagatela);
 Princípio da Adequação Social;

 Consentimento do ofendido.
PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA (CRIME DE
BAGATELA)
 As decisões do Supremo Tribunal Federal vem
adotando critérios bastante razoáveis para
aferição da insignificância ou bagatela que, é
casuística, sendo eles: a mínima ofensividade da
conduta do agente; nenhuma periculosidade
social da ação; o reduzido grau de
reprovabilidade do comportamento e a
inexpressividade da lesão jurídica provocada.
PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA (CRIME DE
BAGATELA)
 Na legislação criminal previdenciária – tanto no
que se refere ao crime de apropriação indébita
previdenciária, previsto no artigo 168-A, quanto
ao delito do artigo 337-A do Código Penal
Brasileiro, tem sido comum a utilização do
princípio para exclusão da tipicidade do
comportamento, quando a dívida ativa
previdenciária não ultrapassa R$ 10.000,00 (dez
mil reais).
PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA (CRIME DE
BAGATELA)
 Ou seja, dívidas até R$10.000,00 não executadas
e são “perdoadas”, do ponto de vista que não
constituírão crime.
ADEQUAÇÃO SOCIAL
 O Princípio da Adequação social é considerado
quando se está diante de uma conduta
formalmente típica, mas que materialmente não
se caracteriza como tal, porque não se verifica
desvalor social na ação e desvalor social no
resultado. São condutas que, formalmente
típicas, acabaram por atingir aceitação social.
 Ex: descriminação do descaminho através do
pagamento de tributo.
CONSENTIMENTO DO OFDENDIDO
 Consentimento do ofendido é causa que também
pode ser considerada como excludente da
tipicidade, especialmente quando o
dissentimento da vítima faz parte da estrutura
típica, como elemento expresso ou tácito da
descrição típica.
CONSENTIMENTO DO OFDENDIDO
 A Lei 8.137, em seu artigo 7º. Inciso IX menciona
o crime de quem entrega mercadoria em
condições impróprias para o consumo. Decisão
do Tribunal de Justiça de Minas Gerais
promoveu o reconhecimento do consentimento do
ofendido em matéria desta natureza, em situação
em que alguém aceitou doação de animal com
nível de gordura abaixo do indicado para
consumo.
CONSENTIMENTO DO OFDENDIDO
 A hipótese de consentimento do ofendido pode ser
observada na Lei 8176/91, na proteção da ordem
econômica. Em seu artigo 2º, parágrafo primeiro, a lei
estabelece que incorre na pena de 1 a 5 anos e multa
aquele que, sem autorização legal, adquirir, transportar,
industrializar, tiver consigo, consumir ou comercializar
produtos ou matéria prima obtida na forma prevista no
caput do artigo – constitui crime contra o patrimônio, na
modalidade de usurpação, produzir bens ou explorar
matéria-prima pertencentes à União, sem autorização
legal ou em desacordo com as obrigações impostas pelo
titulo autorizativo.
DESISTÊNCIA VOLUNTÁRIA
 Primeira causa legal de exclusão da tipicidade, a
desistência voluntária está presente quando o
agente, voluntariamente, desiste de prosseguir
na execução da conduta delitiva. Assim, segundo
o artigo 15 do CPB, o agente que podendo
prosseguir na execução desiste do seu intento,
voluntariamente, só responderá por aqueles atos
já alcançados pelo seu agir que, por si, já sejam
típicos.
ARREPENDIMENTO EFICAZ
 No mesmo artigo 15, a legislação penal prevê o
arrependimento eficaz como uma causa de exclusão
da tipicidade. Nesta situação, o agente, embora tenha
realizado a integralmente os atos executórios do
crime, impede que o resultado se produza. Ou seja, o
agente, arrependido pela sua conduta, outra realiza,
neutralizando, impedindo, mesmo, e eficazmente, a
produção do resultado. Neste caso, também só
responderá o agente pelo que logrou produzir, e não
por aquilo que pretendia e do qual, eficazmente,
impediu.
CRIME IMPOSSÍVEL
 Nesta excludente, o agente realiza uma conduta e
não atinge seu objeto, ou porque ele não existe
(absoluta impropriedade material), ou porque o meio
escolhido para atacá-lo é ineficaz (absoluta ineficácia
do meio).

 A hipótese é de tentativa impunível. O próprio artigo


17 do CPB diz que a tentativa não será punida,
configurando-se, assim, causa de exclusão da
adequação típica do crime tentado.
ERRO DE TIPO
 O artigo 20 está contemplado no artigo 20 do
CPB, e ocorre quando o agente erro sobre algum
dos elementos constitutivos do tipo penal.
Assim, há erro de tipo quando o agente tem uma
falsa percepção sobre a realidade que o circunda,
de modo que ele confunde-se. O erro, então recai
sobre dados da realidade. É a falsa percepção da
realidade.
ERRO DE TIPO
 Serve como situação exemplificativa de erro de
tipo em matéria de D. Penal Econômico o
desconhecimento de se tratar a matéria prima ou
a mercadoria imprópria ao consumo ( Lei
8137/90, artigo 7º, inciso IX).
ILICITUDE
 No Brasil, há quatro causas legais de exclusão da
ilicitude, ou seja, quatro hipóteses em que é
rompido o caráter indiciário de tipicidade,
ocasiões em que, mesmo um fato sendo típico,
não será antijurídico e, por conseguinte, não
haverá crime. Tais causas estão previstas no
artigo 23 do Código Penal, são elas: estado de
necessidade, legítima defesa, estrito
cumprimento do dever legal e exercício
regular de um direito.
ILICITUDE
 No âmbito do D. Penal Econômico a proteção se
dirige a bens jurídicos supra-individuais, ou a
bens jurídicos coletivos e difusos. Assim, há
algumas dificuldades em fazer-se uma definição
rigorosa e precisa do conteúdo destes direitos,
bens ou interesses. Há, como se sustenta,
imprecisão muitas vezes, na delimitação dos
bens protegidos pelo direito penal econômico.
ILICITUDE
 Veja-se, por exemplo, os já mencionados
crimes da Lei 8176/91, artigo 1º, inciso, II,
quando refere, “em desacordo com as normas
estabelecidas em lei”; ou, o artigo 2º do mesmo
diploma legal, na menção “sem autorização
legal”, em referências específicas à possível
concorrência de causa de justificação supra legal.
ILICITUDE
 No âmbito do Estado de Necessidade, por
exemplo, causa de exclusão da ilicitude
contemplada no artigo 24 do CPB, uma situação
de necessidade econômica poderá ser
considerada para eximir de responsabilidade um
agente.
ILICITUDE
 Não é desconhecida a enorme carga tributária que
recai sobre todos, especialmente para a sociedade
empresária. Sabe-se, por outro lado, que muitas vezes
os esforços do empresário são inúmeros no sentido de
viabilizar e manter o prosseguimento da sua
atividade empresarial.

 Assim, não raro, o empresário opta pela satisfação de


créditos de natureza trabalhista ou contratual em
detrimento dos de natureza tributária, por falta de
recursos para tanto.
ILICITUDE
 Assim, uma vez frágil a saúde financeira da
empresa, não se pode falar em infração
penal tributária, mas apenas a infração
administrativa tributária. Por isso, não
havendo desvio econômico por parte dos gestores
e/ou enriquecimento ilícito, não se pode cogitar a
existência do crime.
ILICITUDE
 Veja-se que as normas da legislação tributária
dispõem ex vi do art. 186 do Código Tributário
Nacional, que os créditos decorrentes da
legislação do trabalho precedem os créditos
tributários. Como então exigir e punir com
prisão, no campo penal, o empregador que
deixar de recolher a contribuição
previdenciária para pagar o salário? De um
lado o Direito determina que ele privilegie o
salário e de outro que ele privilegie o tributo?
A qual rumo deve obedecer?
CULPABILIDADE
 A culpabilidade que interessa ao conceito de
crime é a aquela cuja natureza está evidenciada
como fundamento da pena, composta por três
elementos normativos: a capacidade de
culpabilidade, ou imputabilidade; a consciência
da ilicitude e a exigibilidade da conduta
adequada ao direito.
CULPABILIDADE
 No finalismo a culpabilidade é o juízo de
reprovação dirigido ao autor do fato por não ter
obrado de acordo com o direito, quando lhe era
exigível uma conduta em tal direção.
CULPABILIDADE
 Também no que toca à culpabilidade, estão
presente as chamadas causa legais e extra legais
de exclusão. As causas legais estão elencadas na
legislação penal brasileira e são as
inimputabilidades - por menoridade ou patologia
mental - (arts. 26 e 27), a coação moral
irresistível (art. 22), a obediência hierárquica
(art. 22), o erro de proibição (art. 21) e as
descriminantes putativas (art. 20, parágrafo
primeiro).
CULPABILIDADE
 Na seara do D. Penal Econômico o conceito de
culpabilidade como fundamento da responsabilidade
penal, encontra discussões acirradas porque, como se
percebe, os elementos que integram a culpabilidade
são eminentemente pessoais e, não raro, a prática de
comportamentos delituosos, por exemplo, no âmbito
das empresas – sonegação fiscal, crimes
previdenciários ou mesmo os financeiros - são
resultantes de uma difusa impessoalidade no âmbito
das organizações, sejam elas públicas ou privadas
CULPABILIDADE
 Resulta, daí, muitas vezes, a dificuldade de
identificação do autor do fato criminoso e, por
conseguinte, da sua responsabilidade ou, noutra
vertente, da punição de gerentes, administradores,
diretores, pelas ilegalidades cometidas pela
‘empresa’.
 Ela está assentada na responsabilidade criminal das
pessoas jurídicas ou coletivas, eis que esse conceito de
responsabilidade/de culpabilidade, aliás, é
exclusivamente pessoal.
CULPABILIDADE
 No Brasil, apenas no âmbito das condutas
lesivas ao ambiente essa possibilidade existe. No
mais, não se reconhece tal forma de
responsabilização e, por isso, estão as empresas
sujeitas, apenas, a sanções administrativas.
CULPABILIDADE
 A sanção penal só pode ser imposta após aferida
em juízo a culpa do acusado, e a pena será
proporcional a reprovabilidade que incide sobre
sua conduta — por isso o Código Penal explicita
que, no concurso de agentes, cada qual será
punido na medida da sua culpabilidade.
CULPABILIDADE
 No Direito Penal Econômico, devido à
possibilidade de crimes cometidos por sociedades
(pessoas jurídicas) há uma dificuldade da
individualização da responsabilidade, tanto para
fins de culpabilidade como para aferição de pena.
 Isso leva o MP a realizar denúncias genéricas
nos chamados crimes societários, iniciando ações
penais contra quadros de sócios e possibilitando
a responsabilização objetiva e aplicação de
sanção penal a pessoas que podiam estar
completamente alheias à situação delituosa.
CULPABILIDADE
 A possibilidade de denúncia genérica é defendida por
aqueles que alegam que não afronta as garantias
individuais, uma vez que a denúncia em si não é mais
que a peça processual que aciona a jurisdição
criminal, mas que a averiguação da culpa dos réus
sempre se faz sempre no bojo do próprio processo
penal e que, independente de a denúncia ser genérica
ou não, se não for provada a culpa de um ou outros
envolvidos, o resultado não será outro senão sua
absolvição dos acusados.
TRIBUNAL NEGA SEGURANÇA A
ACUSADO DE CRIME FINANCEIRO
 Tribunal Regional Federal da 5ª Região — 27 de
Maio de 2009 — HC 3543 (RN)
 A Segunda Turma do Tribunal Regional Federal da
5ª Região (TRF5), em sessão de julgamento realizada
nesta terça-feira (26/05), negou segurança a Antonio
Cesar dos Reis Prestes, sócio da empresa ACTION,
que pretendia trancar ação penal investigativa da
suposta prática dos crimes de formação de quadrilha
e contra o sistema financeiro nacional (art. 288,
parágrafo único, do CP e art. 16, parágrafo 1º, da Lei
do Colarinho Branco).
TRIBUNAL NEGA SEGURANÇA A
ACUSADO DE CRIME FINANCEIRO
 MP acusa 17 membros so quadro societário da
empresa Action, dentre os quais Antônio César
estava presente.
 Tese de defesa foi baseada na falta de
individualização da responsabilidade e formulação de
denúncia genérica.
 HC negado pelo Relator devido à presença de provas
e indícios fortes de autoria de crimes contra sistema
financeiro e optando pela possibilidade de denúncia
genérica.
RESPONSABILIDADE OBJETIVA - É INÉPTA
A DENÚNCIA QUE NÃO INDIVIDUALIZA
CONDUTAS
 STJ - Habeas Corpus 115.244/2009
 O fato de uma pessoa pertencer à diretoria de uma
empresa não significa que ela participou do crime ali
cometido. A denúncia deve individualizar a conduta
de cada suspeito, sob pena de tornar-se inepta. Com
esse entendimento, a 6ª Turma do Superior Tribunal
de Justiça, por unanimidade, concedeu Habeas
Corpus para considerar inepta denúncia do
Ministério Público Federal contra diretores de uma
instituição de ensino do interior paulista e anular
todos os atos posteriores. Eles eram acusados de
crime tributário.
RESPONSABILIDADE OBJETIVA - É
INÉPTA A DENÚNCIA QUE NÃO
INDIVIDUALIZA CONDUTAS
 “Admite-se a denúncia geral, mas repudia-se a
denúncia genérica. Na primeira atribui-se um
determinado ato criminoso a todos os denunciados,
por tê-lo praticado em conjunto; na segunda, mostra-
se que ocorreram ações que levaram ao resultado
delituoso, atribuindo-o a todos os diretores, sem
estabelecer a correspondência concreta entre aquele e
as ações de cada um dos que as produziram,
impedindo-lhes a defesa, fulminando a denúncia da
inépcia formal”
QUESTÕES
 1) Os crimes contra o SFN, previstos na Lei
7.492/86, podem ser praticados por pessoas que
não estejam no rol do art. 25? Quais as
implicações de se ampliar o rol dos sujeitos
ativos por decisão jurisprudencial?
QUESTÕES
 2) Os crimes contra o SFN, previstos na Lei
7.492/86, podem ser praticados na modalidade
culposa? E na modalidade omissiva? Os membros
do Conselho de administração podem praticar
crimes na forma comissiva por omissão (crimes
omissivos impróprios) caso não supervisionem as
práticas de gestão da diretoria?
QUESTÕES
 3) Quais as mudanças estruturais que o Direito
Penal sofre em razão da tutela penal de bens
jurídicos supraindividuais? Como a proteção
desses bens jurídicos se relaciona com o uso de
tipos penais abertos e de tipos penais de perigo
abstrato?