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A NOÇÃO DE VERDADE E A PESQUISA EM

LINGUÍSTICA APLICADA: BAKHTIN COMO


UM POSSÍVEL INTERLOCUTOR
Maria Bernadete Fernandes de Oliveira
Introdução...
• Relevância de problematizar os modos de produzir conhecimento na área das
Ciências Humanas;

• Ato de conhecer como busca pela compreensão dos problemas da vida;

• Diálogo da ciência com a vida concreta – ciência como prática social;

• Politização dos estudos das práticas discursivas - constitui dessas práticas a relação
ideológica e de poder;

• Propõem construção de uma epistemologia no campo da L.A.

 Objetivo: ultrapassar fronteiras disciplinares de narrativas únicas e universais como forma de


responder as mudanças sociais.
Introdução...
• Escopo conceitual de pesquisa da LA: Opção por um modo de fazer
pesquisa;
• Pautado em um paradigma qualitativo questionador da:
 cientificidade da verdade absoluta;
pautada por uma racionalidade única e definidora do ser humano;
Da compreensão idealista do indivíduo.
• A L.A propõe-se ao paradigma que remete a ideia daquilo que está
sempre em mudança;
• Capacidade de refletir e refratar a exterioridade de si mesmo.
Introdução...
• Produção de conhecimento que considera como processo de
investigação relacionados:
Modelo dominante da Ciências Humanas

 ao sujeito;
O ser humano
Ao tempo;
À historicidade;
À subjetividade;
(objeto das ciências humanas )
Às relações de poder e ética.
Multifacetado, resultante de
multicausalidades.

• Problematização da verdade abstrata e generalizante a fim de dialogar com o


posicionamento de Bakhtin.
1. A CONSTRUÇÃO E A DESCONTRUÇÃO DA
NOÇÃO DE VERDADE
• Noção antiga da verdade: Fiel ao fato, sinônimo de evidência, da ordem do
visível e transparente:

Palavras corporificadas – ocupação de determinadas funções sociais – representação


da palavra divina;

Compromisso se estabelece apenas com quem enuncia( a palavra de autoridades das


esferas das atividades humanas).

• Discurso científico:

Exigência normativa; mecanismo de generalização resultantes de modo de produção


do conhecimento que não atentam para a natureza singular.
• Essa noção de verdade abstrata e universal se torna objeto de
questionamento:

Escola de Frankfurt - iluminismo - conhecer e comprender algo que pudesse


controlar - "iluminismo é totaltário".

• A verdade construída não é a mesma para todos, sendo que o mundo


é atravessado por visões plurais, conflitantes e contraditórias:

a ciência, cuja matriz tem raízes na verdade absoluta, em um rigor metodológico


assentado em mecanismos estatísticos e matemáticos, não consegue fazer compreender
os eventos singulares, a natureza fluída e movente dos acontecimentos e do sujeito
contemporâneo, em suas relações com o mundo e com os outros. (Santos, 2007 apud
Oiliveira, 2013).
• Questionamento emergido da L.A:
o processo investigativo tradicional, pautado na crença de uma racionalidade que conduz
a verdades universais, obscurece o modo como os seres humanos vivem suas vidas
cotidianas, seus sofrimentos, seus projetos políticos, seus desejos. (Moita Lopes, 2006,
2009).
2. DIALOGANDO COM A NOÇÃO DE VERDADE
EM M. BAKHTIN
• Para uma filosofia do ato responsável;
• Teoreticismo;
• Empobrecimento da singularidade individual:
Por estar próximo da unidade teórica;
Da constância de conteúdo e da repetibilidade;
Separação do conteúdo do ato do momento em que esse ato foi produzido e
de quem produziu.
tentar superar a dicotomia entre conhecimento e vida a partir do interior do
conhecimento teórico, como o fazem a maioria das teorias, é praticamente impossível,
porque o mundo teórico, ao se fechar em suas próprias fronteiras, não comporta o ser em
sua existência, “nele, por principio não tenho lugar ” (Bakhtin 1919/2010, p.52).
• Bakhtin posiciona-se em face de uma ciência interessada;

• Eixo axiológico: todo e qualquer conhecimento atravessado por visões


de mundo.

Defendendo a posição de que qualquer investigação ou qualquer formulação teórica que


pretenda dar conta da existência do ser e apresentar orientações para sua vida teria
necessariamente como ponto de partida o mundo da vida, “o único mundo em que cada
um de nós cria, conhece, contempla, vive e morre” (BAKHTIN, 1919/2010, p. 43).

• Dimensão de um sujeito em dimensão epistemológica da pesquisa;

• Eu e um tu singulares e concretos: “eu-para mim, o outro-para-mim e


eu-para-o-outro”.
A relação do pesquisador com o objeto pesquisado.

• Na formulação bakhtiniana, a ciência em si não entra em relação direta com a


realidade concreta nem com a realidade do ser, mas ao pesquisador, como
sujeito ético.

• pesquisador é duplamente responsável, pelo conhecimento produzido e pelo


objeto a ser conhecido (BAKHTIN, 1990/1924, BOHN, 2013).

• Ética da responsabilidade - observador humano da condição humana, um


sujeito ético:
Responsabilidade técnica;
Responsabilidade moral.

• É pela linguagem que temos acesso a verdades dos atos. Palavra privilegiada.
• Em resumo, ao propor uma semiotização do ato ético, o pensamento
bakhtiniano partilha a noção de que as práticas sociais, realizadas
pelos seres humanos, apresentam-se discursivamente, reafirmando o
ponto de vista de que, através da linguagem, é possível o processo
investigativo dessas práticas, vez que “a língua passa a integrar a vida
através de enunciados concretos; é igualmente através de enunciados
concretos que a vida entra na língua” (BAKHTIN, 1952/2003, p.265).
Projeto de pesquisa
O FACEBOOK: CONSTRUÇÕES HETEROGLASSÍCAS EM COMENTÁRIOS DA NOTÍCIA MODELO
BRASILEIRA TRANSEXUAL ELEITA PORTA-VOZ DE MARCA INTERNACIONAL

2.1. GERAL
• Analisar o processo de construção heteroglássica nas interação-discursivas em
comentários de uma página de notícia da Revista VEJA da Rede Social Facebook.

2.2. ESPECÍFICOS
• Discutir, a partir dos conceitos de polifonia e heteroglossia, como ocorre o processo de
interação-discursiva nessa página de notícia.

• Investigar as complexidades envolvidas em fazer gênero por meio dos processos de


heteroglossia da linguagem.

• Apontar modos de (re) produção de discurso em situações de conflitos (heteroglossia).


3. Gênero, sexualidade, raça em contextos de
letramentos escolares
• Moita Lopes () discute o discurso e identidade/performances nas temáticas
supracitadas no contexto brasileiro de letramentos escolares no campo da
LA.

• O autor faz uma comparação com a Sociolinguística Variacionista (SV) que


observou os marcadores de frequência de variantes específicas que
identificam o grupo social do falante e a formalidade situacional.

• Contudo, Rampton (2006) faz pensar diferente ao estudar


etnograficamente a interação contemporânea, o qual num estudo com
adolescentes numa escola londrina, estes estilizam sua fala, ora falam uma
variante mais bem aceita socialmente, ora uma não aceita, sem ligação
direta com uma classe social.
Nesse sentido...
• Surge a necessidade de defender novas ferramentas de teoria e
análise para lidar com a linguagem no universo contemporâneo com
portas mais entreabertas e circulação de pesquisadores e saberes.
• Modernidade recente;
• Segunda mordernidade;
• Hipermodernidade;
• Modernidade tardia.

• Segundo Moita Lopes (p.230), os usos da linguagem têm sido


teorizados por abordagens pós-modernistas que criticam visões
homogêneas, essencialistas, purificadores de línguas de produção de
conhecimento.
• Isso vai de encontro, por exemplo, as análises estatísticas (grande
instrumental na SV) que, segundo Bauman (1992), é irrelevante para
a compreensão do mundo social contemporâneo e sua respectiva
dinâmica.

• Moita Lopes ainda ressalta que a persistência da sociolinguística


quantitativa atual é surreal ao ignorar teorizações em outros campos
de estudo da linguagem, como a LA, invalidando qualquer tipo de
trabalho com gênero, sexualidade, raça e etc.

gênero PADRÃO ESSENCIALISTA


raça
METODOLÓGICO

sexualidade
• Entretanto, há um aumento de compreensão do social,
gênero, raça, idade, sexualidade e etc., como móveis,
transitórias, fragmentas e perfomativas.

• O aumento dessa visão considera como construções sociais


operando em performances, o que só pode ser
dimensionado em estudos de discurso/interação.
4. Linguística Aplicada: construção de
conhecimento e política.

• Moita Lopes considera a LA do emergente (2009), juntamente com


Santos (2006), que prefere opções intencionais, significados e
discursos latentes na sociedade.

• Essa visão não nasce de uma “cabeça isolada”, como se isso fosse
possível.
5. Letramento como prática social: uma
episteme
• Uma episteme pode ser compreendida como “a ordem cultural de
ideias e conceitos que definem, em dado momento da história, o que
o conhecimento é e como o conseguimos e transmitimos.”

• Uma episteme passa a considerar os letramentos como locais de


construção da vida social.

• Isso significa que a construção dos significados em eventos de


letramento é parte constituitiva na performance de quem somos em
eventos sociais.
5. Letramento como prática social: uma
episteme
• Uma episteme pode ser compreendida como “a ordem cultural de
ideias e conceitos que definem, em dado momento da história, o que
o conhecimento é e como o conseguimos e transmitimos.”

• Uma episteme passa a considerar os letramentos como locais de


construção da vida social.

• Isso significa que a construção dos significados em eventos de


letramento é parte constituitiva na performance de quem somos em
eventos sociais.
6. Discurso e construção de identidades sociais
em contextos de letramentos escolares
• Moita Lopes adota uma posição crítica à noção de legitimidade identitária
centrais e hegemônicas.
• Ilustrar posicionamentos interacionais que produzem a construção discursiva do que
é natural e legítimo.

• Bauman & Briggs (2003) abordam que por trás da visão do que é um ser
humano legítimo, está uma pureza linguística, que constituem as “vozes da
modernidade”.

• Moita Lopes afirma que, como seres do discurso que somos, podemos nos
analisar nas interações e narrativas cotidianas situadas no aqui e agora,
traçando laços entre modos microssociais e natureza macrossocial.
• As intravissões para o trabalho do professor são claras, uma vez que
existe a necessidade de operar uma percepção socioconstrucionista
do discurso de quem somos e como somos constituídos.

• Pela posição do professor em sala de aula, os discursos que ele


dissemina ou legitima têm implicações cruciais para quem vamos ser.

• Isso chama a atenção para a natureza socioconstrucionista do


discurso como lugar de construção de vida social em discursos em
disputa na vida institucional.
6. Discurso e performances identitárias nos
letramentos escolares: teorias queer.
• As teorias queer abraçam uma posição de desnormalização de
qualquer projeto identitário entendido como natural, dado ou
legitimo de como devemos agir e etc.

• Isso não quer dizer que estejamos fadados a repetir performances já


estruturalizadas, mas que vivemos sobre regulamentos bem explícitos
de função regulatória.