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FUNCIONAMENTO DA LÍNGUA

PORTUGUESA

FORMAÇÃO DE PALAVRAS
FORMAÇÃO DE PALAVRAS

• «Chama-se FORMAÇÃO DE PALAVRAS o conjunto de


processos morfológicos que permitem a criação
de unidades novas com base em morfemas
lexicais. Utilizam-se assim, para formar as
palavras, os afixos de derivação ou os
procedimentos de composição»
(Jean Dubois, Dictionnaire de Linguistique, apud Celso Cunha & Lindley Cintra,
Nova Gramática do Português Contemporâneo, Lisboa, 1984, p. 85)

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MORFEMA
• O conceito de palavra não coincide com o conceito
de morfema
• O morfema é a unidade mínima significativa, isto é,
uma unidade que não pode ser dividida sem que se
lhe destrua ou altere o significado. Todas as palavras
de todas as línguas são formadas por um ou mais
morfemas.
• As palavras monomorfemáticas são constituídas
por um único morfema, comportam apenas uma
unidade mínima significativa (como pai, .feliz)

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• As palavras polimorfemáticas são palavras
constituídas por mais do que um morfema,
comportam duas ou mais unidades mínimas
significativas dispostas sucessivamente (pais,
infelizmente).
• Analisar a estrutura interna das palavras equivale a
descrever os morfemas que as constituem.

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TIPOS DE MORFEMAS

A
Segundo um critério semântico, isto é, ao nível
do seu significado, podemos distinguir
morfemas de significação lexical e
morfemas de significação gramatical.

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Morfemas de significação lexical

• remetem para a realidade extralinguística, para uma


significação externa ao discurso, enfim, para pessoas,
seres, objectos, ideias, estados de coisas, qualidades,
etc. Estes morfemas pertencem a inventários abertos.
O aparecimento das palavras que os designam
comprova que os morfemas que permitem representar
o mundo que nos rodeia pertencem a um conjunto não
fechado.

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Morfemas de significação gramatical

• remetem para uma significação interna ao discurso,


para as relações entre as unidades das frases e para as
funções dessas unidades nas frases. Estes morfemas
pertencem a inventários fechados.

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B
Segundo um critério formal, podemos distinguir
morfemas livres
e
morfemas presos.

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• Morfemas livres são aqueles que podem
ocorrer isoladamente (como mãe)

• Morfemas presos são aqueles que só ocorrem


agregados a outros morfemas (o morfema de
plural presente em mães, por exemplo).

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• A palavra monomorfemática feliz pode ocorrer
isoladamente; o morfema que a constitui é,
então, um morfema livre. Mas o prefixo in-,
que lhe podemos agregar, só pode ocorrer
juntamente com outro(s) morfema(s); logo,
trata-se de um morfema preso.
• Todos os prefixos e sufixos são, por definição,
morfemas presos, uma vez que não podem
ocorrer senão agregados a outro(s)
morfema(s).

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constituintes de palavras

• Radical
é o segmento do significante que permanece comum
numa família de palavras. Afixos são as unidades
que se agregam ao radical. Analisemos a seguinte
família de palavras (ou palavras cognatas, isto é, um
conjunto de palavras que se formaram em tomo de
um mesmo radical).
Barco barquinho embarcar embarcação
Barca barqueiro desembarcar reembarcar

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• Afixos
Incluem o que a gramática tradicional designava por: prefixos,
infixos e sufixos (isto é, morfemas derivacionais). mas
também as desinências verbais, as desinências nominais e a
vogal temática (ou seja, morfemas flexionais).
• Base
distingue-se do radical pelo seguinte: ela é o segmento do
significante da palavra que é susceptível de receber afixos.
Trata-se de um conceito mais abrangente porque uma base
pode ser constituída apenas por um radical, mas também por
um radical e um ou mais afixas. A partir de embarcar
formaram-se as palavras desembarcar e reemharcar. Logo,
embarcar é uma base (que inclui um radical e vários afixos).
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• tema.
A vogal temática é a vogal que se agrega ao
radical dando origem ao tema (tema do verbo,
por ex.)
O tema é constituído pelo radical e pela vogal
temática. Nos verbos regulares, o radical é o
segmento do significante que permanece
comum a todas as formas verbais flexionadas.

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Estrutura das palavras
PALAVRA

MORFO LOGI A
SIGNO LINGUÍSTICO
SIN TAXE
Si gn ifi ca nt e +significado
SEMÂNT ICA
Palavr as simp les
• Graç- a ris - o form – a
Palav ra s comple xas
• grac-inha
grac ris – onh - o forma - ador
• Grac-ios-
Grac idade ris – ada form – al
• Grac-ios -o ris – ível form –al - mente
MORFEMAS
Unidades significativas mínimas, com significado e forma fónica
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Palavras e seus constituintes
morfológicos

• Constituintes morfológicos da PALAVRA


[Ris]
radical
nominal
simples • Radical é o elemento principal da palavra, a base de
seu significado, e é comum às palavras da
mesma família etimológica.
[ris-o]
RN + • Tema radical + constituinte temático
tema em -o
• Afixos são os elementos significativos secundários que se
juntam ao radical para formar palavras novas.
Quando o afixo vem antes do radical, chama-se
[Ris] – ada prefixo, e quando vem depois, sufixo.
– ível

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Palavras e seus constituintes
morfológicos
• PALAVRAS SIMPLES – uma forma indecomponível
Ex. [class]radical
[sent] radical
[activ] radical
• PALAVRAS COMPLEXAS – integram dois ou mais constituintes
morfológicos, sendo um dos quais, obrigatoriamente, um
radical simples.
Ex. [[class] RN [e] IT] Tema Nominal TN
[ [sent+ar] RV [a] VT ] TemaVerbal TV
[parentetização]
[ [activ] RADJ [a] IT ] Tema Adjectival
UA 2006 TA
Palavras e seus constituintes
morfológicos
Diagrama em árvore
Levemente

leve TA -mentesufixo

Lev- radical -eIT

Parentetização

[[lev-+-e]+-mente]ADV
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Palavras e seus constituintes
morfológicos
Os CONSTITUINTES MORFOLÓGICOS são unidades que se associam entre
si, de acordo com as suas propriedades inerentes e com os princípios
gerais da morfologia, e pertencem a categorias morfológicas, como
radical, sufixo e prefixo.

Não é o RADICAL que atribui a categoria sintáctica à palavra:

Casa N
Casado ADJ
Casar V
Casamento N

O radical cas- não obriga a que as palavras de que ele faz parte
tenham uma categoria fixa.

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RADICAL
• O radical é portador de uma informação categorial; deve
indicar que se trata de um radical de um nome, de um
adjectivo, de um verbo, etc...

CarteirRN / Carteira
LindRADJ / Lindo
EstudRV / Estudar

• Os radicais são, porém, constituintes passivos.


lindaRADJ mente
*Lindamente (o sufixo –mente selecciona adjectivos
flexionados no feminino)
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ESTRUTURA MORFOLÓGICA

•Os VERBOS, os NOMES e os ADJECTIVOS distribuem-se


por diferentes CLASSES TEMÁTICAS.
– Constituintes temáticos
 VERBOS - Vogal temática
1ª Conj. 2º Conj. 3ª Conj.
IFINITIVO amar morrer fugir

 NOMES e ADJECTIVOS
ÍNDICE TEMÁTICO (IT) - tema em –a; tema em –e, tema em –o
e formas atemáticas
GÉNERO - formas variáveis e formas invariáveis
- formas masculinas e femininas
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ESTRUTURA MORFOLÓGICA
PALAVRA
(estudantes / estudamos)

TEMA Flexão Morfológica


Constituinte

Morfemas desinenciais
RADICAL Temático NOMES/ADJECTIVOS
estud*RADJ -ante*A
(número) -s plural

estud*RV -a*VT
VERBOS

(Tempo, modo,
aspecto, pessoa e
número) -mo-s1ª pessoa plural

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MORFOLOGIA DERIVACIONAL

• No âmbito da morfologia derivacional, procede-se


ao estudo dos mecanismos que permitem a formação
de novas palavras a partir das já existentes no léxico
de uma língua. Três tipos de operações permitem a
formação de novas palavras: I - operações aditivas,
II - operações subtractivas e III - operações
modificativas.

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I. Operações aditivas

a) Derivação (ou Afixação)


• A derivação é o processo mais enriquecedor do
léxico. Consiste na junção de afixos a uma
base. A afixação pode dar-se:
• por prefixação (quando o afixo precede o
radical: fazer> refazer, contente> descontente)
• por sufixação (quando o afixo está em posição
posterior em relação ao radical: fácil >
facilitar, ambiente> ambientar)

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• por circunfixação (ou parassíntese) (quando há,
simultânea e obrigatoriamente, a junção de um
prefixo e de um sufixo a uma base: manhã>
amanhecer, louco> enlouquecer).
Nota - Este processo verifica-se fundamentalmente na verbalização denominal
e deadjectival (verbos formados a partir de substantivos e de adjectivos).
Como excepção refira-se o adjectivo denominal desalmado, formado a
partir de alma.
A palavra infelizmente não constitui um caso de
derivação parassintética. Não houve a junção
simultânea e obrigatória do prefixo e do sufixo à
palavra primitiva, o que é comprovado pela existência
das palavras infeliz e felizmente.

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b) Composição
• Consiste a composição na junção de duas ou mais bases.
• -por justaposição (quando as bases mantêm a sua integridade
silábica e acentual: segunda-feira, luso-brasileiro)
• -por aglutinação (quando as bases perdem a sua integridade
silábica e acentual: aguardente. pernalta)
Nota - A composição por aglutinação revela casos de amálgama (quando não é
possível segmentar o significante de cada um dos morfemas constituintes
de uma palavra). Sublinhe-se que não nos devemos deixar enganar pela
ortografia: passatempo e girassol são palavras compostas por justaposição,
apesar de não terem hífen a separar as duas bases e de em girassol se ter
acrescentado uma consoante gráfica <s>. Na oralidade, as bases são
perfeitamente reconhecíveis, mantendo a sua integridade silábica e
acentual.

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• c) Reduplicação (repetição de um ou vários sons da
palavra primitiva; pode até ser repetida toda a palavra
primitiva: Lurdes > Lulu, avó> vovó, dói> dói-dói)

Nota - Este processo de criação lexical manifesta-se


sobretudo na linguagem infantil e familiar.

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II Operações subtractivas

• a) Derivação regressiva (ou regressão)


(processo de formação de palavras em que a vogal
temática e o morfema de infinitivo são substituídos
por uma marca de género; verifica-se a supressão dos
sufixos flexionais verbais e o acrescentamento de um
sufixo flexional de género: caçar> caça, chorar>
choro, tocar> toque; a derivação regressiva é,
portanto, um processo de nominalização deverbal)

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• Para se concluir que estamos em presença de um
processo de derivação regressiva, é necessário
efectuar uma investigação de carácter diacrónico, no
sentido de verificar qual a forma que surgiu em
primeiro lugar. Só no caso de o substantivo ter sido
criado a partir do verbo é que se verificou derivação
regressiva.

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b) Siglação (ou lexicalização de siglas) (siglas são palavras formadas com
recurso às letras iniciais de outras palavras: Polícia de Segurança Pública>
PSP)
É um processo que permite simplificar sequências linguísticas extensas.

c) Acronímía (acrónimos são palavras formadas com recurso às letras ou


sílabas iniciais de outras palavras: Países Africanos de Língua Oficial
Portuguesa> PALOP, síndrome de imuno-deficiência adquirida> SIDA)

Não há diferenças no processo de formação das siglas e dos acrónimos. A


distinção reside no resultado fónico obtido: as siglas lêem-se letra a letra,
os acrónimos lêem-se silabicamente.
d) Abreviação (ou truncamento) (supressão de uma parte da palavra
primitiva, na maior parte dos casos a parte final: exposição> expo,
otorrinolaringologista > otorrino. José> Zé)

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III . Outros processos de enriquecimento do léxico

a) Derivação imprópria (ou conversão) (mudança de classe


gramatical da palavra sem alteração formal)
• Não envolve modificações ao nível do significante mas apenas ao nível da
categoria gramatical. Ou seja, não envolve alterações formais mas funcionais.
Deste modo, é mais um processo de natureza sintáctica do que de natureza
morfológica, pois não há modificações na estrutura interna da palavra.

• (20) O carro azul é meu. (adjectivo)


• (21) O azul daquele carro é bonito. (substantivo)
• (22) Hoje ,vou jantar feijoada (verbo)
• (23) O jantar caiu-me mal (substantivo)

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b) Empréstimo (processo de importação de uma palavra de uma língua
para outra e de posterior integração -fonética, morfológica e gráfica -na
língua-alvo: futebol, croissant, cicerone, qficionado) O processo é
designado por empréstimo; a palavra importada por estrangeirismo.

• Resta-nos apontar as razões que estão subjacentes à criação de novas


palavras; elas são essencialmente duas:
• a) a necessidade de designar novas realidades, de nomear novos referentes
(uma inovação tecnológica ou uma nova doença, por exemplo, propiciam o
surgimento de novas palavras, como sucedeu com computador e sida);
• b) por simples fruição estética (assim se explica o aparecimento de
palavras como Lusíadas, neologismo de Camões, ou o verbo outrar-se -
isto é, "tornar-se outro" - usado por Fernando Pessoa).

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UNIDADES LEXICAIS

• FAMÍLIA DE PALAVRAS
 Conjunto de unidades lexicais que partilham o
mesmo RADICAL e que se ligam ao mesmo conceito,
mesmo pertencendo a classes de palavras diferentes
UNIDADES LEXICAIS

graça graça
desgraça
desgraçar
engraçar
engraçadinho
desgraçadinho
desgraçada
desgraçada
graçola
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UNIDADES LEXICAIS
• As unidades lexicais podem agrupar-se por
aspectos semânticos comuns, em torno de um
conceito-chave (graça) e, nesse caso,
constituem um CAMPO SEMÂNTICO.
CAMPO SEMÂNTICO UNIDADES LEXICAIS

graça gargalhada
rir
humor
piada
palhaço
gozar
anedotas
ironia/irónico
sorriso
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UNIDADES LEXICAIS
• As unidades lexicais podem agrupar-se pelas
relações semânticas que se verificam entre si
para referir um conceito lexical e, nesse caso,
partilham uma área de significação/referência
comum, o que constitui um CAMPO LEXICAL.
CAMPO LEXICAL UNIDADES LEXICAIS

graça
engraçar
engraçadinho gozar
graçola Rir
gargalhada
ironia/irónico
palhaço anedotas
humor sorriso
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