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A CONSTRUÇÃO DO MITO DO VAMPIRO NO SÉCULO XIX

A CONSTRUÇÃO DO MITO DO VAMPIRO NO SÉCULO XIX

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Monografia sobre a construção do mito do vampiro a partir da obra "Drácula", de Bram Stoker, no século XIX.
Monografia sobre a construção do mito do vampiro a partir da obra "Drácula", de Bram Stoker, no século XIX.

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FACULDADE SABERES CURSO DE HISTÓRIA

ANDRÉ CARLOS LUZ GUIMARÃES

A CONSTRUÇÃO DO MITO DO VAMPIRO NO SÉCULO XIX

VITÓRIA 2012

ANDRÉ CARLOS LUZ GUIMARÃES

A CONSTRUÇÃO DO MITO DO VAMPIRO NO SÉCULO XIX

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de História da Faculdade Saberes, como requisito parcial para a obtenção do grau de Licenciatura em História. Orientador(a): Prof. Me. Roney Marcos Pavani

VITÓRIA 2012

ANDRÉ CARLOS LUZ GUIMARÃES

A CONSTRUÇÃO DO MITO DO VAMPIRO NO SÉCULO XIX

NOTA OBTIDA = ______ (______)

Monografia apresentada à Faculdade Saberes como requisito parcial para a obtenção da licenciatura plena em História.

Aprovada em ____ de _____________ de 2012.

____________________________ Prof. Me. Roney Marcos Pavani Professor orientador

____________________________ Prof. Me. Alessandra André Chiminazzo Coordenadora do Curso de História

A Athena, minha deusa guardiã e madrinha, que sempre esteve ao meu lado. A minha mãe Aédyla, meu pai, Armando, e meu irmão, Armando Junior, que sempre foram meus aliados, mesmo nas maiores dificuldades. Aos meus aliados em estudos: Adriana, Breno, Guilherme, Luciana, Marco Antonio Damaceno, Marcos Torrigo e Ricardo. A Graziela Menezes, que foi a primeira a acreditar que seria possível realizar este trabalho. E a Katia, Janayna, Daniella, Marcelle, Vinicius, Antonio, Thuanny, Renata, Lucio , Celso, Sérgio, Douglas, Saúde, Dinny, Moisés, Rondinele e Gilberto, por terem sido amigos e colegas. Por terem me aguentado, me apoiado, e “sobrevivido” como eu.

AGRADECIMENTOS Ao corpo docente de História da Faculdade Saberes: Alessandra André Chiminazzo, Arlene Batista, Jorge Vinicius Monteiro Vianna, Vera Lucia Soares de Toledo, Claudia Soares Della Fonte e Wolmyr Alcantara. Em especial para Roney Marcos Pavani, por ter acreditado e me apoiado neste trabalho.

“[...] ouvi passos fortes aproximando-se do outro lado da porta, e vi através das frestas o brilho de uma luz. Em seguida, ouvi o som de correntes e pesados pregos sendo puxados. Uma chave foi inserida e girada, produzindo o ranger característico de muito tempo em desuso, e a porta se abriu. Um homem alto e velho estava ali, bem barbeado exceto por um longo bigode branco, e vestido de preto da cabeça aos pés, sem uma única mostra de cor em parte alguma. Na mão, trazia uma antiga lâmpada de prata, na qual a chama queimava, trepidante, na corrente de ar que entrava pela porta, sem candeeiro ou globo de espécie alguma, projetando sombras que se mexiam. Cortês, com um gesto da mão direita, o velho indicou que eu entrasse, dizendo em inglês excelente, ainda que com uma estranha entonação: ‘Bem-vindo à minha casa! Entre livremente e por sua própria vontade!’.” Dracula. Bram Stoker

RESUMO
Drácula, romance escrito pelo irlandês Bram Stoker e publicado pela primeira vez em 1897, se tornou um marco por ser a obra sobre vampiros mais cultuada de todos os tempos. Drácula dá interpretação aos sentimentos de Stoker no Reino Unido da era Vitoriana. Mesmo tendo nascido em Dublin, devido seu tempo de convivência com o ator inglês Henry Irving, ele sentia o mesmo incômodo que o povo britânico com a superlotação de Londres e da degradação dos bairros operários, localizados no distrito de East End. As pragas da sociedade britânica ganharam forma com o vampirismo de Drácula, assim como o preconceito com os imigrantes, que chegavam as montes na capital britânica, tomando o trabalho dos próprios londrinos, que precisavam caçar empregos no cais. Dessa forma, o trabalho A construção do mito do vampiro no século XIX procura relacionar a obra romântica com as várias características desse período, além de mostrar como Stoker veio a dar sua própria interpretação para o vampiro, sendo imitado e mencionado por várias vezes no passar dos anos. O trabalho também buscou situar a obra vampírica no contexto do movimento romântico, devido suas interpretações da sociedade, sempre buscando localizar um herói que poderia redimir todos os males, como Abraham Van Helsing. Bram Stoker tinha uma visão minimalista dos povos supersticiosos da Europa Central e Oriental, mas mesmo com isso não perde sua majestade, tornando-se o “divisor de águas” do mito do vampiro, e deixando um legado que até hoje pode ser visto nas mais variadas formas midiáticas, como o cinema, a TV, os quadrinhos, o teatro e a literatura. Palavras-chave: Bram Stoker; Drácula; Reino Unido; Romantismo; Século XIX; Vampiro.

ABSTRACT
Dracula, novel written by the Irish Bram Stoker and first published in 1897, became a reference for being the most revered title about vampires of all time. Dracula gives interpretation to Stoker feelings in the United Kingdom during the Victorian era. Even having been born in Dublin, because of the time he spent together with the English actor Henry Irving, he used to feel the same discomfort that the British people with overcrowding in London and the degradation of worker’s districts, located in the district of East End. Pests of the British society took shape with the vampirism of Dracula, as well as the prejudice to the immigrants, who arrived in British capital in packs, taking the work of Londoners themselves, which needed to hunt for jobs in the docks. Thus, the work constructing the myth of the vampire in the nineteenth century seeks to relate the romantic work with the various features of this period, besides showing how Stoker came to give his own interpretation about the vampire, being imitated and mentioned several times over the years. The study also sought to situate the title in the context of the Romantic Movement, because of its interpretations of society, always seeking to find a hero who could redeem all evils, as Abraham Van Helsing. Bram Stoker had a minimalist view of superstitious people of Central and Easter Europe, but even with that does not lose its majesty, becoming the “watershed” of the vampire myth, and leaving a legacy which can still be seen in various media forms such as cinema, TV, comics, theater and literature. Keywords: Bram Stoker; Dracula; United Kingdom; Romanticism; Nineteenth Century; Vampire.

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 9 1. A GRÃ-BRETANHA DO SÉCULO XIX ............................................................ 12

2. O ROMANTISMO, BRAM STOKER E DRÁCULA ........................................... 24 2.1 O ROMANTISMO NO SÉCULO XIX ........................................................... 24 2.2 BRAM STOKER .......................................................................................... 28 2.3 DRÁCULA ................................................................................................... 40 3. DRÁCULA, DE BRAM STOKER ...................................................................... 45 3.1 NA TRANSILVÂNIA .................................................................................... 48 3.2 NA INGLATERRA ....................................................................................... 64 3.3 UM FINAL FELIZ ........................................................................................ 70 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS .............................................................................. 74 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ..................................................................... 82

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INTRODUÇÃO Em 1988, eu loquei pela primeira vez um livro sobre vampiros intitulado Entrevista com o Vampiro, escrito pela norte-americana Anne Rice. Eu desejava locar Drácula, mas não estava disponível. Então eu li aquele livro que contava a história de um vampiro francês que transformava um jovem orleanino, para viverem juntos. Eles, como muitos outros vampiros que eu havia visto em filmes, tinham problemas com o sol, que poderia transformá-los em cinzas, como os vampiros de O Vampiro da Noite, Conde Drácula e tantos outros. Mas os vampiros de Rice não tinham medo de crucifixos ou alho, não viravam morcegos ou lobos, não morriam somente de terem uma estaca fincada no coração. Eles eram bem diferentes dos filmes que eu havia visto como A Dança dos Vampiros – o primeiro filme que eu vi –, Garotos Perdidos, A Hora do Espanto e A Hora do Espanto II, e isso atiçou minha curiosidade. Por que existiam tantas formas diferentes de interpretar um vampiro na literatura, no cinema e nos quadrinhos? De onde surgiram as histórias desses seres notívagos, que adoravam beber sangue? Quem foi o primeiro? A última pergunta sempre foi a mais difícil de ser respondida, pois o bebedor de sangue, que hoje todos chamam de vampiros, têm mitos e lendas nos quatro cantos do mundo. Das Américas a Ásia e Austrália, e da África a Europa, todos tinham seus bebedores de sangue. Comecei então a me aprofundar em uma pesquisa autodidata do assunto, tentando localizar cada mito e compreender suas tradições, vendo que algumas tinham semelhanças a tudo que eu vira e lera. Descobri que haviam existido, inicialmente na Alemanha, poemas que se baseavam em vampiros, indo posteriormente para a França e Inglaterra, onde o vampiro ganhou seu primeiro conto e logo depois seu primeiro romance, mas que nenhum desses teve a importância que Drácula teve. Publicado pela primeira vez em 1897, Drácula, escrito pelo irlandês Bram Stoker, se tornou um marco nos romances góticos. Ele mostrava o vampiro como um ser poderoso, sem remorsos, capaz de qualquer coisa para conseguir o que desejava. Mas Lorde Ruthven, de John Polidori, também era assim, como Carmilla de Sheridan Le Fanu, então o que diferenciava Drácula desses outros? Ele era baseado em uma pessoa real.

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Drácula era baseado no príncipe valáquio Vlad III o Empalador1, que lutará contra o Império Turco no século XV. Ele havia sido um guerreiro sanguinário, que tinha imagens colocando-o ceando em uma floresta de corpos empalados2. Haviam lendas que contavam que ele molhava o pão no sangue de suas vítimas, o que tornou Drácula o personagem certo para o romance. Mas por que o nome Drácula? Qual o motivo desse nome? O nome era uma derivação do romeno Drăculea, que traduzido poderia significar filho do dragão ou demônio. Vlad ganhara essa alcunha por causa de seu pai, Vlad II Dracul, que inicialmente servira ao Sacro Império Romano Germânico, sendo membro da Ordem do Dragão 3, fundada pelo imperador Sigismundo de Luxemburgo em 1408. Mas por que Bram Stoker criaria um romance de vampiros, se já existiam outras pessoas que haviam trabalhado com o assunto? Inicialmente Bram Stoker queria somente contar a sua versão do vampiro, ainda mais depois do pesadelo que tivera ao ler Carmilla de Sheridan Le Fanu, mas com o devido estudo e pesquisa, percebi que havia algo mais por trás de Drácula. Stoker vivia com sua família em uma Londres que vivera a Revolução Industrial e um crescimento tecnológico e científico sem proporções. A Grã-Bretanha havia ampliado suas fronteiras para fora da Europa, dominando estados e países asiáticos, africanos e oceânicos, fazendo com que o Reino Unido se tornasse uma terra das oportunidades para imigrantes de vários cantos do mundo, superlotando a sua capital, Londres, e tornando bairros operários, redutos de pestes e crimes. Essa era a época que Stoker vivia e ele precisava se expressar de alguma forma da sua insatisfação quanto aquilo tudo, pois percebia que mudanças estavam por vir, mas demoravam em acontecer. Pessoas lutavam por seus direitos, a ciência buscava soluções para as epidemias e as doenças, que pareciam sem solução. Então através de Drácula, Bram Stoker pode se expressar e ao mesmo tempo lançar um fenômeno.

Țepeş, em romeno. O empalamento é quando enfiam uma enorme estaca entre as pernas da vítima, com o objetivo de sair pela boca ou pelo pescoço. 3 Ordinul Dragonului, em romeno, e Societas Draconistrarum, em latim.
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Hoje Drácula é considerado um divisor de águas, pois o que existia antes da obra, teve seu lugar, mas ficou no passado, já que ninguém considerou pensar que um vampiro poderia ser transformado a luz do luar, caso fosse assassinado numa noite de lua cheia e terminar impune pelos seus crimes de vampiro como ocorre em O Vampiro de Polidori, ou mesmo ter uma história cujo fim ficou a desejar e totalmente inexplicável, como no caso de Varney o Vampiro de James Malcolm Rymer 4. Mesmo Carmilla de Le Fanu só ganhou importância depois de Drácula, ganhando um filme pela produtora inglesa Hammer Films. Este trabalho procura colocar Drácula no panorama da Grã-Bretanha do século XIX, mostrando a situação que o país se encontrava e os problemas que enfrentava, política e socialmente. Posiciona a obra no panorama do Romantismo, que tivera inicio no final do século XVIII e permanecera no século XIX, sendo desenvolvido por vários escritores que, como Bram Stoker, buscavam mostrar suas insatisfações e suas expectativas a respeito do Reino Unido e da Europa. O autor e o personagem-título, o príncipe valáquio que viveu no século XV, também são apresentados nesse trabalho, sendo finalizado com uma fragmentação da obra, analisando a construção do mito através das explicações que Bram Stoker disponibiliza e mostrando as suas críticas e ponderações sobre a sua época e o contexto em que vivia.

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Acredita-se que Rymer nunca tenha terminado a história, sendo ela contada por outras pessoas, nunca antes identificadas.

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1. A GRÃ-BRETANHA DO SÉCULO XIX. A Grã Bretanha no século XIX se tornou um dos novos impérios que dominavam o mundo, integralizando ao seu território, em 1801, a Irlanda do Norte através do Ato de União que surgiu graças a uma tentativa fracassada de independência, em 1789, liderada pela união de católicos e protestantes episcopais, que culminou com a revogação do parlamento irlandês. Já o domínio sobre Hong Kong, território chinês que se tornou colônia inglesa em 1842, aconteceu após o Tratado de Nanjing. Esse tratado surgiu após a derrota da China para as frotas inglesas, durante a Guerra do Ópio (1839-1842). Já em 1857, integrou a Índia, tendo total domínio sobre o país após uma tentativa desesperada dos indianos de “interromper a ocidentalização” (DRUCKER, 1997, p.24) de seu país através da Rebelião dos Sipaios, mas fracassaram ao perceber que apesar de vencerem, não teriam como substituir o domínio britânico. Além dessa expansão territorial, a exportação de algodão crescera exponencialmente na metade do século XIX, tornando o país em uma grande potência industrial que rivalizava com outras como a Áustria, a França, a Prússia e a Rússia. Mas o reflexo deste crescimento fora negativo para Londres, capital da Grã Bretanha, posto que a vida urbana tornava-se cada vez mais perigosa. Percy Shelley (1792-1822), escritor inglês, chegou a mencionar que “o inferno é uma cidade semelhante a Londres, uma cidade esfumaçada e populosa. Existe aí todo tipo de pessoas arruinadas e pouca diversão, ou melhor, nenhuma, e muito pouca justiça e menos ainda compaixão.” (SHELLEY apud BRESCIANI, 1982, p. 22). Shelley se referia ao excesso de imigrantes que começavam a chegar à Londres, em sua maioria em busca de novas oportunidades. Os irlandeses, que fugiam do próprio país que fora atingido por uma praga da batata, ocasionando a Grande Fome de 1845, como menciona em sua tese O mito de Sísifo: a mediação do processo de paz na Irlanda do Norte e a assinatura do Acordo de Sexta Feira Santa, do pós-graduado em Relações Internacionais, Ivi Vanconcelos Elias (2009, p. 68) se destacavam entre os outros imigrantes e os próprios ingleses, mas não – como Friedrich Engels (1820-1895) menciona em A

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situação da classe trabalhadora em Inglaterra (1892) – por serem “grosseiros, bebedores e não se importando com o futuro” (ENGELS, 1975, p. 130), e sim porque conseguiam se destacar nos trabalhos braçais nas fábricas têxteis e nas minas. Os problemas irlandeses com a Fome que assolou seu país entre os anos de 1845 a 1852 têm poucas abordagens históricas, às vezes ficando esquecida pelos próprios irlandeses, como cita a doutora em literatura em literatura inglesa, Melissa Fegan (2002, p. 10): “the Famine has never been far from the surface of Irish History-writing since 1847, and a study such as Liam de Paor’s Milestones of Irish History, cited by [Cormac] Ó Gráda for ignoring the Famine completely, is an anomaly” 5. A professora de História da Drew University, em Nova Jersey, nos Estados Unidos, a irlandesa Christine Kinealy (PhD), é mais explicita sobre a Grande Fome.
The appearance in 1845 of a mysterious disease which destroyed almost half the Irish potato crop heralded a prolonged crop failure the human consequences of which were without parallel in modern Europe. The extent of the potato blight was difficult to gauge initially. By the end of 1845, it appeared to have peaked. Furthermore, its greatest impact had been in the eastern counties of Ireland, away from the west, where a high level of dependence on the potato by a densely settled rural community represented 6 a highly vulnerable situation (KINEALY, 1997, p. 41; grifo nosso).

Portanto, os irlandeses que residiam nas regiões das cidades de Manchester, Liverpool, Bristol, Glasgow e Edimburgo, que eram totalmente industriais, eram, na sua maioria, da região da Irlanda Oriental. O povo da Índia chegava ao Reino Unido como pajens dos aristocratas que visitavam o país. Essas aglomerações de estrangeiros, mais as ruas lotadas de prostitutas, bêbados, marginais que iam desde trombadinhas a assassinos em série 7, faziam o cenário “infernal” ao qual Shelley se referiu.

“a Fome nunca foi muito longe da superfície da história irlandesa escrita desde 1847, em um estudo como Marcos da História Irlandesa de Liam de Paor, citado por [Cormac] O’Gráda por ignorar a Fome, é uma anomalia”. 6 O aparecimento em 1845 de uma moléstia misteriosa que destruiu quase a metade da colheita da batata irlandesa anunciou uma quebra prolongada de safra às consequências humanas das quais sem paralelo na Europa moderna. A extensão da praga da batata era difícil avaliar inicialmente. Até o final de 1845, parecia ter atingido o pico. Além disso, o seu maior impacto foi nos condados do leste da Irlanda, longe do oeste, onde um alto nível de dependência da batata por uma comunidade densamente povoada rural representou uma situação altamente vulnerável. 7 Jack o Estripador matou prostitutas no distrito de Whitechapel, em Londres, durante o ano de 1888.

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Em contraponto ao escritor Percy Shelley, o historiador George Macaulay Trevelyan era mais otimista. Em seu livro A História Concisa da Inglaterra, a chamada Era Vitoriana 8 era vista como “um período de paz e de segurança externa” (1990, p. 195196), pois a última revolução que ocorrera no país havia sido em 1688 – a chamada Revolução Gloriosa 9, e no século XIX, a Grã Bretanha já havia expandido a comercialização, fazendo exportações para países fora do continente europeu, além de um crescimento da modernidade política, de modo que os direitos políticos eram estendidos a todos os cidadãos ingleses, no que Trevelyan chamou de “latente progressão em direção à democracia” (1990, p.195). Essa progressão iniciara-se com um aperfeiçoamento no sistema de governar entre os tories e os whigs 10, baseando-se no Gabinete e no primeiro-ministro, conferindo maior eficiência ao domínio do Parlamento. Trevelyan menciona que isso
[...] consistiam adaptar-se este sistema parlamentar de governo de Gabinete as novas realidades sociais criadas pela Revolução Industrial. Esta necessidade implicava a admissão da classe média, e a seguir a das classes trabalhadoras, como parceiros fiscalizadores da máquina política. Se estes ajustamentos não se tornassem uma realidade, o sistema parlamentar resultaria destruído e a Inglaterra teria de enfrentar uma guerra de classes (TREVELYAN, 1990, p. 195).

Mas essa guerra nunca aconteceu, já que os problemas que pareciam insolúveis, eram resolvidos, graças ao “espírito positivo da política inglesa” (TREVELYAN, 1990, p.195). Mas Londres era uma cidade infecciosa, suas ruas sempre estavam sujas e as mais diversificadas atividades, já mencionadas acima, aconteciam nas regiões portuárias do rio Tâmisa e nos bairros operários, demonstrando uma degradação da sociedade londrina nesta região. Ao longo das margens do rio, navios a vapor se acumulavam nas duas margens do caudal.

Período correspondente com o reinado de Alexandrina Vitória como rainha do reino da GrãBretanha e Irlanda e imperatriz da Índia (1837-1901) 9 A Revolução Gloriosa (1688-1689) foi uma revolução que estabeleceu a monarquia constitucional e a democracia parlamentar, ao depor o rei James II da Inglaterra (1633-1701), colocando sua filha, a princesa protestante Mary II da Inglaterra (1662-1694) e seu marido, o príncipe holandês William III de Orange, em uma manobra se combate dos whigs (que se opunham a sucessão católica no trono). 10 Grupos de aristocratas britânicos que surgiram no reinado de Carlos II da Inglaterra (1630-1685) e representavam o liberalismo (whigs), a favor do parlamento, e o conservadorismo (tories), a favor da monarquia.

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Eric J. Hobsbawm (1917-2012) menciona em A Era do Capital: 1848-1875 (1977) que observadores do panorama mundial do final do ano de 1890 consideravam a criação das colônias imperiais como uma nova fase do padrão geral de desenvolvimento nacional e internacional. Já a população inglesa não aceitava muito bem esses grupos imigrantes, visto que alguns desses terminavam sendo considerados mais valorosos pelos donos de fábricas do que o verdadeiro londrino, o que feria o orgulho nacionalista inglês. Para o inglês no século XIX era complicado ter o senso nacionalista ferido. Hobsbawm, ao citar Walter Bagehot (1826-1877), fala um pouco sobre o conceito de nacionalismo para aqueles que o usam, dizendo que “Não podemos imaginar aqueles para os quais isto é uma dificuldade: sabemos do que se trata quando vocês não nos perguntam, mas não conseguimos explicá-la ou defini-la rapidamente” (1977, p.99), ou seja, o nacionalismo era algo ao qual o inglês estava familiarizado, mas não sabia explicar o que era. Uma melhor definição de nacionalismo é dada pelo professor de Teoria da Política da Cardiff University, em Cardiff, no Reino Unido, Andrew Vincent em seu livro Ideologias Políticas Modernas (1995, p. 238), dizendo que “O termo ‘nação’ geralmente denota um grupo de pessoas que tem ancestrais, história, cultura e língua comuns, o que supõe um foco de lealdade e afeição”. Mesmo ela não sendo a definitiva noção, podendo ter outros sentidos, podemos ver que era nesse conceito de nacionalismo que os ingleses se prendiam com a chegada dos imigrantes nas cidades britânicas. Mas para não sofrer com o preconceito, alguns imigrantes tentavam se adaptar ao estilo de vida inglês, no que Nobert Elias (1897-1990) em seu livro Os Estabelecidos e os Outsiders (2000) definiu como submissão:
[...] os grupos dominantes com uma elevada superioridade de forças atribuem a si mesmos, como coletividades, e também àqueles que o integram, como as famílias e os indivíduos, um carisma grupal característico. Todos os que “estão inseridos” neles participam desse carisma. Porém têm que pagar um preço. A participação na superioridade de um grupo e em seu carisma grupal singular é, por assim dizer, a recompensa pela submissão às normas específicas do grupo. Esse preço tem que ser individualmente pago por cada um de seus membros, através da sujeição de sua conduta a padrões específicos de controle dos afetos [...] (ELIAS, 2000, p. 26).

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Não que Londres não fosse uma cidade com problemas, já que nas ruas da capital britânica poderia se encontrar os mais variados tipos de pessoas, como menciona o escritor norte-americano Edgar Allan Poe (1809-1849). Em uma visita à Londres, ele menciona que ao adentrar
[...] “nas camadas mais baixas da multidão onde encontra temas de meditação mais negros e mais profundos. Vi revendedores judeus com olhos de gavião; atrevidos mendigos de rua, profissionais; fracos e lívidos inválidos andando de viés e cambaleando por entre a multidão, fitando a todos suplicantemente; mocinhas humildes, de volta de um trabalho longo e tardio, para um lar sem alegria; prostitutas de todas as espécies; ébrios inumeráveis e indescritíveis; além desses, vendedores de empadas, tocadores de realejo, exibidores de macacos, vendedores de modinha, os que vendiam com os que cantavam, artífices esfarrapados e operários exaustos de toda a casta e todos cheios de uma vivacidade desnorteada e barulhenta que atormentava os ouvidos e levava aos olhos uma sensação dolorosa” (POE apud BRESCIANI, 1992, p. 20-21).

Essa visão de Poe, que muito se assemelha ao que Shelley chamou de “inferno”, era devido à constante degradação do povo inglês. Bresciani fala que os donos de empresas da região norte da Inglaterra achavam inconvenientes os trabalhadores nascidos em Londres, citando o professor Gareth Stedman Jones (1982, p. 31), “nós nunca empregamos um homem londrino. Se um trabalhador adoece e precisa deixar seu emprego junto a nós, preenchemos seu lugar com alguém do campo”. Os empresários davam preferência às pessoas de fora da capital, da qual consideravam eles mais responsáveis, levando os londrinos a trabalhos subalternos nas docas. Todos os problemas com desemprego tinham certo motivo devido à recessão das indústrias de seda, que decaíra o comércio com a importação do tecido vindo da China, que tinha melhor qualidade, pois com o domínio do mercado chinês, a GrãBretanha dava preferência aos produtos manufaturados por lá, como a porcelana também, que tinham um preço muito mais baixo do que as indústrias britânicas. Com isso, os donos das fábricas de seda começaram a fechar suas portas e mandar empregados embora, enchendo as ruas de mendigos. Isso, somado as péssimas condições de vida da classe trabalhadora, fosse ela estrangeira ou britânica, fez com que os ingleses gerassem violentas manifestações nas ruas de Londres. As revoltas ocasionavam na reinvindicação das classes operárias e rurais pelo melhor preço do pão, fazendo com que invadissem locais públicos, com o Hyde Park, no centro de Londres, para exigir trabalho e melhores condições de vida,

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principalmente em East End, região essa, como menciona Bresciani em Londres e Paris no século XIX (1982, p. 28), os londrinos “não se aventuravam por suas ruas”, pois temiam serem abordados pelos mendigos que se avolumavam nas ruas sujas. Oscar Wilde (1854-1900), em seu romance O Retrato de Dorian Grey, coloca o personagem-título em constante contato com o distrito de East End. Inicialmente prestaria serviços beneficentes com a filantropa Lady Agatha:
De momento, estou na lista negra de Lady Agatha – respondeu Dorian Gray, com um ar cômico de penitência. – Tinha prometido ir com ela terçafeira passada a um clube em Whitechapel, e acabei por me esquecer completamente. Era para termos tocado um dueto juntos – três, parece-me. Não sei o que ela vai dizer, e estou demasiado apreensivo para a ir visitar (WILDE, 2000, p. 33; grifo nosso).

Para depois vir a se envolver em problemas com a escória da sociedade londrina:
Corriam boatos de que fora visto [Dorian Gray] envolvido numa rixa com marinheiros estrangeiros num antro abjecto [sic] das cercanias de 11 Whitechapel, e que convivia com os ladrões e moedeiros falsos , conhecendo mesmo os segredos do seu ofício. As suas inexplicáveis ausências tornaram-se conhecidas de todos e, quando voltava a aparecer em sociedade, os homens cochichavam pelos cantos, ou passavam por ele com um sorriso sardônico, ou fitavam-no com um olhar frio e perscrutador, como se pretendessem descobrir seu segredo (WILDE, 2000, p. 226).

As ruas do bairro inglês sempre se encontravam sujas, as pessoas que não conseguiam empregos para poder pagar por uma moradia, se acumulando em alojamentos, porões úmidos e igrejas. Homens cometiam assaltos, enquanto as mulheres se prostituíam nas ruas, dando àqueles que trabalhavam e no intervalo deste buscavam um prazer rápido, exatamente o que desejavam. Já as classes médias e, às vezes, a burguesia, iam aos bairros operários atrás dos prostíbulos e casas de ópio 12, buscando nestes lugares o que Wilde chamou de “loucura do prazer” (2000, p. 241). O acúmulo de pessoas, a prostituição e o abuso de drogas, ocasionou nas doenças infectocontagiosas e hemofílicas, que se proliferaram por todo o Reino Unido. Tuberculose, anemia, sífilis, gonorreia e a varíola, eram exemplos das doenças que se espalhavam entre os britânicos, devido às condições precárias de vida e a falta de higiene.
Pessoas que praticavam a falsificação de moedas. Locais onde o consumo de ópio e outras drogas derivadas da papoula, como a morfina, eram permitidos.
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Mesmo com os problemas internos de desemprego e saúde, a Grã-Bretanha veio a se envolver em conflitos externos, como a Guerra da Criméia (1854-1856), contra a Rússia e em defesa da Turquia. Trevelyan explica que vários foram os motivos dessa guerra ocorrer, mas o principal era o medo do crescente poderio russo. Ele fala que
[...] a Áustria, a Prússia e a Rússia mantinham-se unidas dentro do velho esquema da Santa Aliança, o qual há bem pouco tempo reprimira severamente as sublevações de 1848, enquanto a Grã-Bretanha da rainha Vitória e a França de Napoleão III defendiam, cada uma à sua maneira, uma política mais liberal. Em Inglaterra, os sentimentos liberais sentiam-se ofendidos pelo tratamento dado à Polônia e pela ajuda à Áustria pelo czar Nicolau aquando da revolta húngara de 1849 (TREVELYAN, 1990, p. 217218).

Henry John Temple, 3º visconde de Palmerston (1784-1865), que nessa época era Ministro do Interior, e Lorde John Russel (1792-1878), que possuía o cargo de Ministro de Estado dos Negócios Estrangeiros, tinham como objetivo na participação da Grã-Bretanha, neste conflito, defender a Turquia contra o domínio russo, que já havia conquistado os territórios da Moldávia e Valáquia, hoje localizadas na Romênia. Apesar de a Rússia ter aceitado os termos de paz decretados em uma conferência em Viena (1853), onde ficaria com o controle da região dos Balcãs, Constantinopla e o estreito de Dardanelos, garantindo-lhe o acesso ao Mediterrâneo, o Império Otomano recusou, pois perderia uma boa parte de seu território para o domínio russo. Com isso a Grã-Bretanha se une a França de Napoleão III (1808-1873), em defesa da Turquia e enviam navios pelo mar Egeu. Trevelyan chamou a isso de “exibição de incompetência diplomática” (1990, p. 218) e a política de apoiar os turcos foi duramente criticado na Câmara dos Comuns pelo estadista britânico radical e liberal John Bright (1811-1889), mas em vista das investidas do império russo em domínio de território, a Turquia era a única barreira existente. Sendo assim, a Grã-Bretanha permaneceu unida a França e buscaram na Áustria um aliado, mas devido aos anos de aliança com a Rússia e não pretendendo perder sua autonomia ao enfrentar a união anglo-francesa, tanto a Áustria como a Prússia permaneceram-se neutras. Então foi na Itália sob o governo do primeiro-ministro

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Camilo Benso, Conde de Cavour, de Isolabella e de Leri (1810-1861), que a aliança dos britânicos e franceses conseguiu apoio. Como Trevelyan nota, a França e a Inglaterra, inicialmente, não pretendiam apoiar a independência da Itália, mas o apoio desta no conflito acelerou o processo de libertação do domínio austríaco. A participação da Grã-Bretanha demonstrou sua excelência nas tradições e treinos dos regimentos britânicos para guerras, mas, conforme menciona Trevelyan, demonstrou “a total incompetência dos altos comandos, a inaceitável falta de organização e de preparação logística e as deficiências dos cuidados médicos” (1990, p. 218). Mas dessa guerra nasceu à enfermagem moderna na Grã-Bretanha, graças a Florence Nightingale (1820-1910), que enviou ao The Times 13 uma carta, falando das condições dos feridos que estavam sendo mal cuidados devido ao descaso dos oficiais militares, que negligenciavam a higiene, deixavam faltar medicamentos, causando infecções que em sua maior parte eram fatais. Essa ação de Miss Nightingale – como Trevelyan se refere a ela – fez com que o governo britânico contratasse o engenheiro civil Isambard Kingdom Brunel (1806-1859) para que desenhasse um hospital pré-fabricado que fosse feito na Inglaterra e enviado ao quartel de Selimyie, em Scutari14. Dessa forma fez-se o Renkioi Hospital (1855), que ficou sob gestão do Dr. Edmund Alexander Parkes (1819-1876). Dessas ações de Miss Nightingale nasceu à formulação de uma “nova concepção das potencialidades e do papel na sociedade do elemento feminino treinado e culto” (TREVELYAN, 1990, p. 219). Por conta disso, o filósofo britânico John Stuart Mill (1806-1873) iniciou um movimento para a aprovação da mulher na sociedade da Grã-Bretanha, assim como a criação de colégios femininos e melhorias nas escolas femininas, tendo total apoio de Florence Nightingale. Ele intencionava que a mulher tivesse direito ao voto, além de sua inclusão junto aos intelectuais, já que várias mulheres já se destacavam, como Florence Nightingale. Podemos citar as escritoras Jane Austen (1775-1817) e Mary Shelley (1797-1851), Ada Lovelace (1815-1852), filha ilegítima de Lorde Byron
Jornal londrino publicado pela primeira vez em 1785 com o nome The Daily Universal Register, alterando seu nome para The Times em 1788. 14 Hoje conhecida como Üsküdar, distrito de Istambul, na Turquia.
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(1788-1824)

com

Annabella

Milbanke

(1792-1860),

considera

a

primeira

programadora de computadores por ter criado o primeiro algoritmo a ser processado por um computador, a máquina analítica de Charles Babbage (1791-1871), Dra. Elizabeth Garrett Anderson (1836-1917), que além de médica e cirurgiã, foi à primeira mulher a ser prefeita da cidade de Aldeburgh, na região costeira de Suffolk, na Inglaterra, Dame Elizabeth Wordsworth (1840-1932), que fundou na cidade de Oxford, na Inglaterra, o Lady Margareth Hall, no ano de 1878, que foi a primeira faculdade para mulheres, a ativista Annie Besant (1847-1933), que além de lutar pelos direito das mulheres, lutou pelo autogoverno indiano, entre várias outras. Outro conflito que a Grã-Bretanha se envolvera foi a Independência da Itália. Em 1859, Lorde Palmerston – como Henry John Temple era mais conhecido – se preparava para iniciar seu segundo mandato como primeiro ministro britânico 15 (1859-1865), quando a situação da Itália começou a tornar-se violenta. Nomeou John Russel para o cargo de Ministro de Estado dos Negócios Estrangeiros, ao qual este havia abdicado em 1854, ainda na Guerra da Criméia, por não concordar mais com as investidas contra o império russo que já se encontrava fragilizado, e o estadista liberal britânico William Ewart Gladstone (1809-1898) como Ministro das Finanças. Os três dominavam o Gabinete e nem sempre concordavam em todas as questões, mas quanto à questão da independência italiana, estavam de total acordo. Neste ínterim, conhecendo a fundo as questões da Itália, atuaram de forma calma, enérgica e criativa na crise italiana, que durou somente de 1859 a 1860, tendo os resultados mais favoráveis possíveis, pois ao contrário dos desejos de Napoleão III de tornar certo número de Estados italianos dependentes da França, a Inglaterra possuía a chave para a total independência italiana, como desejava Cavour 16. Mesmo com apoio da Prússia e da Rússia, que perdera um pouco do poder depois da Guerra da Criméia, a Áustria não conseguiu manter sua hegemonia sobre a Itália, e de forma bem resumida, a Grã-Bretanha conseguiu auxiliou Cavour a marcar o ritmo mais favorável à evolução da crise e se tornou um excelente aliado britânico.

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O primeiro mandato durou de 1855 a 1858 Apelido ao qual ficara conhecido Camilo Benso, primeiro ministro italiano.

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O parlamento britânico, assim como boa parte do povo a quem representava, , apoiou as ações do Gabinete no auxílio à libertação italiana da influência austríaca. Então em 1860, Giuseppe Garibaldi (1807-1882) liberta a Sicília, cai o retrógrado reino napolitano e o governo papal sobre a maior parte da Itália central, com condescendência forçada de Napoleão III, pois não poderia permitir uma reconquista por parte dos austríacos e, depois da Guerra da Criméia, estreitara os laços de amizade com a Grã-Bretanha e, ao contrário de seu tio 17, não pretendia criar um antagonismo contra o reino britânico e as “potências despóticas da Europa ocidental” (TREVELYAN, 1990, p. 218). Os laços feitos com a França e a Itália unificada favoreceram o Reino Unido de certa forma, pois permitia que ingleses e irlandeses, devido ao desemprego, buscassem oportunidades nesses países. Após a morte de Lorde Palmerston, seus sucessores vieram a tomar decisões contrárias as ideias do visconde. Russell assumiu a liderança do partido whig-liberal e começou a pensar no favorecimento de uma maior extensão dos direitos de votos para os cidadãos ingleses, além de desenvolver a saída do partido do “whiguismo aristocrático” (TREVELYAN, 1990, p. 222) para o liberalismo democrático. Quando assumiu o cargo de primeiro ministro, no qual ficou somente oito meses, passou a liderança do partido para Gladstone. William Gladstone se tornou uma das figuras mais importantes no cenário politico britânico, principalmente quando se aliou a John Bright, após o término da Guerra Civil Americana (1861-1865). Gladstone apoiava os sulistas, enquanto Bright adquirira notório prestígio pelo julgamento acertado quanto aos motivos da Guerra Civil nos Estado Unidos, defendendo com “firmeza e conhecimento de causa o lado do Nortistas” (TREVELYAN, 1990, p. 222). Mas ambos desejavam o mesmo de Russell, a extensão dos direitos de votos, principalmente para os artesãos citadinos e a classe média baixa, que foi fortalecida pelo movimento das classes trabalhadoras do Reino Unido. Mas foi Benjamim Disraeli (1804-1881), que na época era Ministro das Finanças, que homologou a Segunda Lei da Reforma em 1867. Essa lei ampliou o número de eleitores masculinos, mas não garantia ainda o direito

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Louis-Napoleão Bonaparte era sobrinho de Napoleão Bonaparte (1769-1821)

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da mulher e nem dos trabalhadores agrícolas e dos mineiros. E como haviam sido os conservadores que assumiram a medida, a reforma foi rapidamente aceita pela Câmara de Lordes, mas para a surpresa de todos, em 1868, nas eleições gerais, Gladstone se tornou Primeiro Ministro. Entretanto, ele e seu partido liberal precisavam “executar um programa de reformas há muito desejadas antes que se estabelecesse uma verdadeira era de conservadorismo”, ou seja, precisava ampliar ainda mais os direitos de votos, algo que só viria a conseguir no seu segundo mandato, quando em 1884 redigiu o Terceiro Ato da Reforma, ampliando o direito de votos para os trabalhadores agrícolas e os mineiros. No final do século XIX, alguns problemas eram ainda visíveis, como o desemprego, que mesmo com as workhouses e os asilos para pobres, era bem visível nas ruas de Londres. Mas nas últimas décadas, o governo britânico, para evitar o crescimento populacional ainda maior, começou a travar a entrada de estrangeiro em solo inglês. As melhorias começaram mesmo em 1875, quando o primeiro ministro Benjamim Disraeli aprovou o Ato de Saúde Pública, que visava às melhorias nas condições das salubridades públicas, e o Ato de Habitação dos Artesãos, que providenciava moradia para os artesãos citadinos. Tanto Gladstone como Disraeli fizeram muito pela Grã-Bretanha, mas entre os anos de 1876-1878, entraram em conflitos opositivos por causa das guerras que ocorriam na Europa Central e Oriental. Disraeli se tornou o principal apoiador da Turquia contra a Rússia, enquanto Gladstone tentou mostrar para a população inglesa as atrocidades turcas contra a Bulgária. Isso criou um grande impasse, pois enquanto Disraeli apoiava uma nação mulçumana, Gladstone mostrava para a opinião pública britânica que eles seriam a “principal esperança para as raças cristãs oprimidas do Leste” (TREVELYAN, 1990, p. 247), mas tudo terminou resolvido com o Tratado de Berlim de 1878, ao qual Disraeli chamou de “paz honrosa” (apud TREVELYAN, 1990, p. 247). O último conflito que ocorreria entre o partido liberal de Gladstone e os conservadores teve responsabilidade da Lei Interna, de 1886. Essa lei fora criada por Gladstone, em entendimento com o líder político irlandês Charles Stewart Parnell (1846-1891), e visava dar mais autonomia governativa a

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Irlanda. Trevelyan (1990, p. 251), opinando sobre as atitudes de Gladstone, disse que “a aceitação por parte de Gladstone das exigências de Parnell sobre a inclusão do Ulster protestante na nova Irlanda foi muito mais do que um erro tático: foi um recuo perante hipotéticas consequências raciais e políticas”. Mas Trevelyan tem razão em uma coisa: “muitos (...) estarão dispostos a considerar essa decisão como natural e até como óbvia” (TREVELYAN, 1990, p. 251). O Reino Unido, no século XIX, era um local de mudanças constantes, fossem nos panoramas políticos ou nas suas ruas, com os vai e vens de trabalhadores, de imigrantes, prostitutas, assaltantes, assassinos, até mesmo da classe média. Era um turbilhão em constante movimento, palco perfeito para qualquer escritor poder desenvolver um trabalho, na intenção de criticar o que via acontecendo, dando uma ideia do que não gostava naquela sociedade pungente.

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2. O ROMANTISMO, BRAM STOKER e DRÁCULA 2.1 O ROMANTISMO NO SÉCULO XIX O professor Domício Proença Filho em seu livro Estilos de Época da Literatura (1994, p. 211) define o romantismo como “um movimento estético que configura um estilo de vida e de arte predominante na civilização ocidental”, ou seja, era um movimento que buscava interpretar os acontecimentos de sua época através da arte – neste caso – literária, colocando os problemas que eram visíveis, de forma a ser compreendido pelo público. Enquanto Michael Löwy e Robert Sayre explicitam que o romantismo é
[...] uma forma indecifrável, verdadeiro quebra-cabeça chinês, o fato romântico parece desafiar a análise científica não apenas porque sua vasta diversidade resiste aparentemente a qualquer tentativa de redução a um denominador comum, mas também e sobretudo por seu caráter fabulosamente contraditório, sua natureza de coincidentia oppositorium: a um só tempo (ou ora) revolucionário e contra-revolucionário [sic], cosmopolita e nacionalista, realista e fantástico, restitucionista e utopista, democrático e aristocrático, republicano e monarquista, vermelho e branco, místico e sensual... Contradições que atravessam não apenas o “movimento romântico”, mas a vida e obra de um único e mesmo autor e, às vezes, de um único e mesmo texto (LÖWY; SAYRE, 1993, p. 11).

Os autores falam sobre uma dualidade, cujas interpretações poderiam ser variadas, dependendo do que o autor iriar passar para o seu público. O Romantismo teve seu início no final do século XVIII, na região que hoje corresponde a Alemanha e no Reino Unido da Grã-Bretanha, mas como Proença Filho diz, nenhum movimento começa do dia para a noite. As manifestações pré-românticas como Proença Filho a chama no livro Estilos de Época da Literatura, teve escritores alemães como Friedrich Gottlieb Klopstock (1724-1803), que escreveu o poema épico Der Messias, ao qual dedicou vinte anos de sua vida (1748-1773), Johann Gottfried von Herder (1744-1803), que além de escritor, também era filósofo e teólogo, e escrevera vários trabalhos ligados a essas duas correntes, mas já no começo do final do século XVIII, escreveu Antikone (1800), temos também Johann Wolfgang von Goethe, que já na juventude demonstrava interesse por escrever, e aos 24 anos já escrevera Götz von Berlichingen (1773) e Johann Christoph Friedrich von Schiller (1759-1805), que

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escreveu além de poesias como Ode an die Freude (1785), que viria a servir de inspiração ao compositor alemão Ludwig van Beethoven (1770-1827) e escrever peças de teatro como Turandot (1801), que viria a inspirar o compositor italiano Giacomo Puccini (1858-1924), teve uma forte amizade com Goethe. No Reino Unido da Grã-Bretanha, mais exatamente na Escócia, viria a surgir um dos grandes nomes do romantismo britânico, Sir Walter Scott (1771-1832). O autor e crítico americano John Albert Macy (1877-1932), em História da literatura mundial (1967, p. 234) diz que “Scott viveu nas suas novelas e poemas – ampla arena de ação romântica, e em sua vida social fêz-se [sic] o centro dum mundo encantado de fama, riqueza e consideração pública”. Scott escreveu Rob Roy (1817) e o épico Ivanhoe (1819), que conta a história do nobre saxão Willfred de Ivanhoé, que por apoiar o rei normando Ricardo I da Inglaterra – também conhecido como Ricardo Coração de Leão (1157-1199) –, cai em desgraça com seu pai. Dentre os personagens que surgem na obra, temos Robin de Locksley, mais conhecido como Robin Hood, personagem folclórico que surgiu no século XIV. Existem outros personagens, como o guardador de porco Gurth, Lady Rowena, Cedric de Rotherwood, pai de Ivanhoé, e o judeu Isaac de York. Mas o principal objetivo da história, como menciona John Macy em História da literatura mundial, era retratar a expansão judaica no Reino Unido, que vinha acontecendo no século XIX. Assim podemos ver que sir Walter Scott em Ivanhoé usava-se de personagens históricos, folclore popular e fatos históricos – ao qual, de acordo com Macy, ele tinha extenso conhecimento –, para retratar acontecimentos do seu período. Uma contemporânea de Scott foi Jane Austen (1775-1817) que escreveu duas obras que ficaram eternizadas, Razão e Sensibilidade (1811), Orgulho e Preconceito (1813) e Emma (1816), obras essas que retratavam a aristocracia do interior do Reino Unido do século XIX. Sir Walter Scott chegou a comentar que
[...] “O talento desta môça [sic] no descrever o ambiente, sentimento e caracteres de personagens tomados à vida comum é o mais notável que ainda encontrei. O espetaculoso eu o faço como outro qualquer, mas o toque exato que torna os caracteres e as coisas mais vulgares interessantes pela verdade, pelo descritivo e pelo sentimento, isso me escapa” (SCOTT apud MACY, 1967, p. 234).

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A forma como Austen retratava a sociedade aristocrata do interior britânico tinham toques de ironia calma e uma análise delicada dos indivíduos em suas obras. A Inglaterra tinha uma extensa produção romântica no século XIX, e muitos desses romancistas, por vezes, viajavam o mundo para poder ter um panorama maior para suas obras. Autores como Lorde George Gordon Byron e Percy Bysshe Shelley. Lorde Byron era de uma família nobre da Inglaterra, e no decurso de sua vida escrevera mais de quarenta trabalhos, podendo destacar The Bride of Abydos e The Giaour (1813), The Corsair (1814), The Siege of Corinth (1816), Childe Harold's Pilgrimage (1818) e a incompleto Don Juan, que Byron iniciou em 1819. Percy Shelley era um grande crítico da sociedade britânica de sua época. Suas obras eram imensamente conhecidas dentro do Reino Unido e dela podemos destacar Alastor, or The Spirit of Solitude (1816), Ozymandias e The Revolt of Islam (1818), The Cenci, A Tragedy, in Five Acts (1819), Prometheus Unbound (1820) e o inacabado The Triumph of Life, que ele começara a escrever em 1822, quando veio a falecer após uma forte tempestade que afundou seu barco. Shelley também fora o escritor da introdução da obra da sua segunda esposa, Mary Shelley, o conhecido romance gótico Frankenstein (1818). Shelley chega a ser citado por Michael Löwy e Robert Sayre em seu livro Romantismo e Política como um exemplo de romantismo jacobino-democrático
[...] que constrói uma crítica, a um só tempo, ao feudalismo e à nova aristocracia do dinheiro, em nome dos valores igualitários da ala radical da Revolução Francesa. No mais das vezes encontra suas referências précapitalistas na Cidade grega e na República romana [...] (LÖWY; SAYRE, 1993, p.31-32).

Mostrando que a insatisfação de Shelley, que era filho de um parlamentar whig 18 e assumidamente ateu, estava contida em todas as suas obras. Já a obra da segunda esposa de Percy Shelley, Mary Shelley, que tinha como pano de fundo o galvanismo 19, buscava retratar o individualismo. Outro escritor que usa a

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Termo usado para definir o partido liberal do Reino Unido, que surgiu no reinado de Carlos II da Inglaterra.

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ciência como pano de fundo é Robert Louis Stevenson (1850-1894), que em 1886 viria a escrever O Médico e o Monstro, obra que interpretava a dualidade do ser humano, sempre buscando se outra pessoa. A obra de Mary Shelley veio a ser concebida depois de um encontro em 1816 em Villa Diodati, próxima ao Lago Genebra, na cidade de Cologny, na Suíça. A mansão serviu de residência de verão para Lorde Byron, que pertencia a mesma roda de pensadores que Percy Shelley. No mesmo dia em que Mary Shelley começou a esboçar Frankenstein, o médico particular de Byron, John William Polidori, fez nota do conto que o barão 20 e, após se desentenderem na Grécia, Polidori retorna a Inglaterra e escreve o seu conto, baseado nas anotações do que Byron escrevera. O conto O Vampiro é publicado em 1819 na revista New Monthly Magazine. O personagem central da história é o jovem Aubrey, que segue viagem com Lorde Ruthven, um homem sem escrúpulos que faz uso da agiotagem para conseguir seus ganhos. O nome Ruthven vem de um apelido sem intenções carinhosas de um dos casos amorosos de Byron, Lady Caroline Lamb (1785-1828). Ela escreveu o romance gótico Glenarvon (1816), que retratava Ruthven como um libertino, além de criticar toda a sociedade aristocrata inglesa, fazendo-a ser banida do meio deles. Polidori fez uso do personagem de Lamb para criar o primeiro vampiro literário do Reino Unido. No romance curto de Polidori podemos notar que apesar de ter como ideia um conto de terror, ele interpreta o preconceito da sociedade aristocrata inglesa com a classe trabalhadora, e o descaso da sociedade londrina com a aristocracia do interior da Inglaterra, através do relacionamento de Aubrey e Ruthven. Outro escritor, mas de origem irlandesa, que também crítica à sociedade aristocrata britânica é Oscar Wilde. Em sua obra O Retrato de Dorian Gray (1890), ele conta a história do jovem Dorian Gray, que conhece os prazeres da vida através de Lorde Henry Wottom. Mas esses prazeres são vícios que toda a sociedade britânica faz
Teoria de Luigi Galvani (1737-1798) que acredita que o cérebro emite ondas elétricas para o corpo, fazendo movimentar os membros, sendo assim, através de descargas de eletricidade, poderia curar a paralisia e reanimar um corpo morto. 20 Lorde Byron era o 6º barão Byron como Membro Externo da Sociedade Real.
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uso. Ópio, prostituição, que podem ser conseguidas nas casas do mais baixo escalão em Londres. Löwy e Sayre veem Wilde como um romântico libertário, dizendo
[...] que se inspira em certas tradições coletivistas pré-capitalistas dos camponeses  ou artesãos e operários qualificados  para travar um combate revolucionário contra o capitalismo e o Estado moderno, sob todas as suas formas. O que distingue esta corrente de outras parecidas é a oposição irreconciliável com o Estado centralizado, visto como a quintessência e a aspiração a uma federação decentralizada de comunidades locais [...] (LÖWY; SAYRE, 1993, p. 32-33).

Contemporâneo e conterrâneo de Wilde, temos o escritor Bram Stoker. Stoker, apesar de ter escrito várias obras, desde literatura de terror infantil a romances góticos, teve como trabalho principal, que lhe custou sete anos, pesquisando e escrevendo, a obra Dracula, que ele publicou em 1897. Em sua obra, Stoker critica os movimentos imigratórios que acontecem constantemente de países da Europa Oriental e Central para o Reino Unido da GrãBretanha. Mostra que considera existir uma superioridade da Europa Ocidental sobre a Europa Oriental, fosse dizendo sobre o atraso do trem, fosse usando o personagem de Abraham Van Helsing, que fora concebido como um holandês, para falar que Drácula tinha um “raciocínio infantil”, numa clara alusão da juventude dos países romenos, que ainda encontravam-se em um sistema que os aproximava do feudalismo 2.2 BRAM STOKER O escritor irlandês Bram Stoker nasceu em 1847, na cidade de Clontarf, em Dublin. Com uma infância difícil devido a uma enfermidade que o manteve doente nos seus primeiros oito anos, criou um fascínio pelo fantástico cedo, graças a sua mãe, Charlotte Mathilda Blake Thornley (1818–1901), uma astuciosa contadora de histórias que o introduziu nas lendas e mitos do reino das fadas, magia e mistério da Irlanda. Nesse período de enfermidades recebeu instrução do Reverendo William Woods (1776-1839), mas da mesma forma que ficou doente, Stoker ficou curado. Raymond T. McNally e Radu Florescu no livro Em busca de Drácula e outros vampiros (1995, p. 143) dizem que “a exata natureza da sua doença foi um mistério

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para ele e para seus médicos, como foi sua completa cura – não é de estranhar que Bram [Stoker] tivesse toda vida um agudo interesse por doenças misteriosas e diagnósticos”. Aos 16 anos, Stoker ingressou no Trinity College 21 da Universidade de Dublin, onde se tornou um atleta de sucesso. Demonstrou enorme interesse pelo teatro, como seu pai, Abraham C. Stoker (1799–1876), e por várias vezes foi ao Theater Royal 22, em Dublin. Em uma noite de agosto de 1867 Stoker foi assistir a peça The Rival, com o ator inglês Henry Irving (1838-1905) no papel principal, e então surgiu seu fascínio pelo trabalho do ator. Um ano depois se formou com honras em Bacharelado de Ciências 23 e se tornou funcionário público do Castelo de Dublin. Henry Irving retornou a Dublin com a comédia Two Roses, escrita pelo dramaturgo inglês James Albery (1838-1839), e Stoker estava na plateia ao lado do dramaturgo irlandês George Bernard Shaw (1856-1950), e como este decide se tornar crítico teatral. Sendo assim, em 1871, inicia seu trabalho como crítico no jornal Dublin Evening Mail 24, sem remuneração. Suas críticas foram bem recebidas pelos círculos sociais de Dublin, que o levou a conhecer os pais do escritor e poeta irlandês. Em 1872 Bram Stoker tornou-se auditor da College Historical Society 25 da Trinity College, ficando no cargo por um ano, e publicou A Taça Cristal no London Society, periódico ilustrado publicado entre 1862 e 1898 pela W. Clowes and Sons 26, de Londres. Neste mesmo ano, Joseph Sheridan Le Fanu (1814-1873) publica Carmilla em dezesseis capítulos na coleção intitulada In a Glass Darkly 27. O período era de ascensão da literatura fantástica, e Le Fanu, como outros escritores, buscavam dar sua interpretação ao mito do vampiro que surgira através de histórias que vinham da Europa Central e Oriental, no século XVIII de pessoas
Escola incorporada à Universidade em 1592, após carta da Rainha Elizabeth I (1533-1603) aos cidadãos de Dublin, autorizando a junção. 22 Foi inaugurado em 1637, depois fechado pelos puritanos em 1641. Em 1662 foi reaberto pelo seu primeiro mestre de cerimônias, o empresário escocês John Ogilby (1600-1676). 23 Em O Livro dos Vampíros: A enciclopédia dos Mortos-Vivos (2003, p. 753), o americano J. Gordon Melton menciona que Bram Stoker se formou em 1870. 24 Jornal que circulava a noite em Dublin. Funcionou entre 1823 e 1962, todavia em 1928 mudou para Evening Mail. 25 Fundado pelo filósofo Edmund Burke (1729-1797) em 1747. 26 Empresa fundada por William Clowes (1779-1847) em 1803. 27 Coleção de cinco contos publicados por Sheridan Le Fanu em 1872.
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sendo atacadas por esses seres, que vinham dos mortos para beber o sangue de pessoas próximas. Em O livro dos Vampiros: A enciclopédia dos Mortos-Vivos (2003) podemos ler que as histórias haviam iniciado na Sérvia, país da Europa Central, sob domínio – na época – do Sacro Império Romano-Germânico. Os acontecimentos ocorreram na vila de Medvedja, em 1727, quando um soldado miliciano voltou para sua terra natal e após um acidente fatal que ocasionou em sua morte, fora visto por pessoas no vilarejo. Uma semana antes de morrer, o soldado que se chamava Arnold Paole (170?-1727) contou a sua noiva que havia sido atormentado por um vampiro durante seu período de serviço. Esse vampiro o mordera, mas ele dizia ter se curado após seguir o ser até sua tumba, e depois de matá-lo, comeu a terra do solo do túmulo. As pessoas que juraram ter visto Paole, depois de dez dias após a visão, morreram. Por temerem o pior, os líderes do vilarejo chamaram o exército, que ordenou o desenterro do corpo, que já tinha quarenta dias de enterrado. Após tirarem o caixão do túmulo e abrirem, perceberam que o corpo de Paole encontrava-se como se tivesse sido enterrado recentemente. Com isso, perfuraram-no com uma longa estaca e o sangue jorrou, depois então o decapitaram e queimaram. O procedimento foi feito com as possíveis vítimas do vampiro. Mas aparentemente não parara por ali, pois três anos após o caso, cerca de dezessete pessoas haviam sido mortas com alegação de que tinham sido vampirizadas. Com isso, o sacro imperador RomanoGermânico Carlos VI (1685-1740) ordenou instaurar um inquérito e envia um cirurgião de regimento de campo que investigue o caso na região. Após desenterrar o possível causador do novo surto e agir da mesma forma que haviam agido com Paole, os moradores de Medvedja creem que tudo havia ocorrido por causa do gado, que criam eles ter sido vampirizado também. Assim sendo, foram desenterrados quarenta corpos, dos quais dezessete aparentavam ter as mesmas características de Paole, ou seja, pareciam ter sido enterrados há pouco tempo. Esses foram então estaqueados e queimados. Um relatório foi feito e enviado ao sacro imperador, em 1732. Essas histórias se tornaram de conhecimento do arcebispo italiano Giuseppe Davanzati (1665-1755) em 1738, quando foi convidado a participar das discussões

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sobre o assunto em Olmütz, na Alemanha. Foram seis anos de pesquisa sobre assunto que resultaram na sua Dissertazione sopra I Vampiri (1744), aonde ele conclui que os relatos não passavam de fantasias humanas, com possibilidades de origem diabólica, e que essas aparições tendenciavam a acontecer para pessoas analfabetas e camponeses das classes mais baixas, pois eram mais fáceis de serem enganadas do que pessoas mais letradas. Seu trabalho recebeu uma reimpressão em 1789, mas terminou ofuscado pelo trabalho do padre beneditino, Dom Augustin Calmet (1672-1757). Dois anos após a publicação do trabalho de Davanzati, o acadêmico católico Dom Augustin Calmet iniciou sua pesquisa sobre o assunto. Após a conclusão, em sua Dissertations sur les apparitions des anges, des démons ET des esprits ET sur les revenans ET vampires de Hongrie, de Boheme, de Moravie ET de Silesie (1746), Calmet concluiu que os vampiros eram seres que voltavam do túmulo para perturbar os vivos, sugando-lhes o sangue e causando suas mortes. Condenou os atos necrofílicos ocorridos em Medvedja, na Sérvia, mas não concluiu se os relatos eram naturais, deixando o assunto em aberto. Mas nenhum desses dois trabalhos impediu que poemas alemães e ingleses fossem escritos, dando mais interpretações ao vampiro. O vampiro chega ao Reino Unido através dos poemas alemães Lenora (1773), de Gottfried August Bürger (1747-1794), e A Noiva de Corinto (1797) de Johann Wolfgang von Goethe 28 (1749-1832), influenciando os escritores britânicos Samuel Taylor Coleridge a escrever Christabel (1801) e John Keats29 (1795-1821) que escreveu Lamia (1819). A influência de Coleridge havia sido o poema de Bürger, que

Goethe ficou mais conhecido pela sua obra Fausto, que teve três publicações. A primeira foi em 1775, com o título Urfaust, depois em 1791, entitulada Faust, ein Fragment, e em definitivo no ano de 1808 com o título Faust, eine Tragödie. Dos seus outros trabalhos temos: Götz von Berlichingen (1773), Clavigo, Os Sofrimentos do Jovem Werther e Prometheus (1774), Egmont (1775), Iphigenie auf Tauris (1779), Torquato Tasso (1780), Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister (1795), Hermann e Dorotéia (1796-1797), O Aprendiz de Feiticeiro (poema) (1797), As Afinidades Eletivas (1809), Teoria das Cores (1810), Aus meinem Leben. Dichtung und Wahrheit (1811-1833). Além disso, Goethe teceu uma crítica elogiosa a obra O Vampiro, que na época fora creditada a Lorde Byron. 29 Keats foi uma figura de enorme importância para o movimento romântico inglês no século XIX, pois escreveu mais de 140 poemas entre os anos de 1814 a 1819. Entre suas obras mais importantes estão Ode to Apollo (1815), Isabella or The Pot of Basil, Hyperion e Ode to Fanny (1818), Lamia, A vigília de Saint Agnes, Ode on a Grecian Urn, Ode on Indolence, Ode on Melancholy, Ode to a Nightingale e Ode to Psyche (1819).

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também entusiasmou Percy Shelley e Lorde George Gordon Byron 30 (1788-1824), dois dos grandes nomes do movimento romancista inglês no século XIX. Em 1813, Byron finalizou e publicou seu poema O Giaour, que mostrava sua familiaridade com o assunto. Byron, em 1816, após um casamento fracassado com Annabella Milbanke (17921860), parte em uma viagem pelo continente europeu com a companhia do jovem médico John Polidori (1795-1821). Ambos chegam a maio do mesmo ano à Genebra, na Suíça, e alugam a Villa Diodati, próxima ao Lago Genebra. Na residência, se juntam a eles o escritor Percy Shelley, Mary Wollstonecraft Godwin (1797-1851) e a meia-irmã de Mary, Claire Clairmont (1798-1879). Em junho, por conta de uma tempestade que os faz permanecer dentro de casa, Byron sugestiona que cada um crie uma história sobre fantasmas, logo que, dois dias depois eles contam, sendo a que ganha destaque é escrita por Godwin, que em dezembro daquele ano se tornaria esposa de Shelley, e viria a tornar sua história na obra Frankenstein ou O Moderno Prometeu. Byron fez sua contribuição também, mas diferente de Mary Shelley, não dera continuidade a sua história, mas John Polidori anotara toda a história e ao retornar à Londres, em 1819, publica na revista New Monthly Magazine 31 o conto O Vampiro. Inicialmente o conto é creditado a Lorde Byron, mas este desmente ter escrito o conto e pede à revista que faça uma retratação desmentindo ser ele o autor. O conto se torna conhecido no Reino Unido e na França, aonde ganha montagens teatrais, sendo a última feita pelo escritor Alexandre Dumas (pai) (1802-1870). O conto de Polidori motiva outro escritor, James Malcolm Rymer (1804-1884), que em meados de 1840 inicia a publicação de Varney, O Vampiro ou O Festim de Sangue, um romance, que em 1847 ganhou um volume único com 220 capítulos e 868 páginas.

Byron escreveu vários poemas e obras, mas uma das mais conhecidas foi Don Juan (1819-1824), por ter ficado inacabada. Outro de seus trabalhos mais conhecidos são os Fugitive Pieces (1806), Hours of Idleness (1807), Cantos I a IV de Peregrinação de Childe Harold (1812-1816-1818), O Giaour (1813), O corsário e Lara (1814), O cerco de Corinto (1816), Manfred (1817), Beppo, uma história veneziana (1818) e O deformado transformado (1824). 31 Revista britânica que circulou entre os anos de 1814 a 1889.

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As histórias de vampiros, no Reino Unido, teriam um intervalo de vinte e cinco anos, quando Le Fanu escreveria Carmilla e reiniciaria todo o imaginário novamente, vindo a influenciar principalmente Bram Stoker. Melton conta a história do romance de Sheridan Le Fanu da seguinte forma:
[...] A história se passa na Styria rural , onde morava Laura, a heroína e narradora. Seu pai, um funcionário público aposentado, consegue comprar um castelo abandonado por um bom preço. Carmilla aparece pela primeira vez na abertura da história quando entra na cama de Laura, de seis anos de idade. Laura adormece em seus braços, mas é acordada subitamente com a sensação de duas agulhas perfurando-lhe o peito. A menina grita e a pessoa que ela apenas descreve como “a mulher” sai da cama para o chão e desaparece, possivelmente para debaixo da cama. Sua babá e a criada entram no quarto, respondendo a seus chamados, mas não encontram ninguém nem sinais no seu peito. Carmilla reaparece quando Laura tem 19 anos. A carruagem em que Carmilla está viajando sofre um acidente na entrada do castelo. A mãe de Carmilla, aparentemente ansiosa para chegar ao destino, deixa-a no castelo para se recuperar do acidente. Quando Laura finalmente se encontra com sua nova hóspede, reconhece imediatamente Carmilla como sendo a pessoa que a tinha visitado treze anos antes: assim, o vampiro está novamente à solta, no encalço de Laura. Sua identidade foi revelada aos poucos. Começa a visitar Laura na forma de um gato e de um fantasma do sexo feminino. Laura também nota que ela se parecia exatamente com o retrato da Condessa Mircalla Karnstein, de 1698. Por parte de sua mãe, Laura é uma descendente dos Karnstein. A essa altura, um velho amigo faz família, o General Spilsdorf, chega ao castelo para relatar a morte de sua filha. Ela estava se esvaindo e sua condição não tinha causa aparente. Um médico deduziu que ela era vítima de um vampiro. O general, cético, ficou escondido no quarto da filha e conseguiu pegar a vampira, uma jovem conhecida como Millarca, no ato. Tentou matá-la [sic] com sua espada, mas a vampira escapou. Carmilla entra quando o general terminava seu relato. O general reconhecea como Millarca, mas ela escapa antes que ele pudesse acossá-la. Todos os presentes, então, conseguem rastreá-la até o castelo dos Karnstein, a cerca de cinco quilômetros de distância, onde a encontram repousando em seu túmulo. Seu corpo tinha a aparência de uma pessoa viva, sendo detectada uma tênue pulsação. O caixão flutuava em sangue fresco. Enfiam uma estaca em seu coração e a reação de Carmilla é emitir um grito estridente. Terminam sua lúgubre tarefa ao decepar-lhe a cabeça, queimar seu corpo e espalhar as cinzas (MELTON, 2003, p. 117-118).
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As tradições que viriam a fazer parte do romance de Drácula, como estaquear o corpo do vampiro, cortar a cabeça, queimar e espalhar as cinzas, já fazia parte do romance de Le Fanu. Melton chega a comentar que a atração de Carmilla por Laura e a filha do general tinha conotações bem superficiais de lesbianismo, mas devido à época em que fora escrito, dificilmente Sheridan Le Fanu tenha tido pretensões de trabalhar o lesbianismo no seu romance, algo que terminou sendo abordado no filme

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Estíria, localizada na Áustria.

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de 1970, cujo título era Carmilla, a vampira de Karnstein 33, com direção de Roy Ward Baker. Mas antes disso, Bram Stoker foi eleito presidente da University Philosofical Society 34 do Trinity College (18??). Nesta época desenvolveu seu primeiro ensaio Sensationalism in Fiction and Society (18??). Em 1875, já morando sozinho, visto que seus pais haviam se mudado para Itália devido às condições financeiras, situação muito comum no período conhecido como era vitoriana, em que as pessoas, devido a uma falta de estrutura financeira que se encontravam, buscavam novas opções fora do Reino Unido. Stoker conclui seu mestrado no Trinity College e neste ano publica sua primeira história de terror, A Cadeia do Destino, em quatro partes, na revista dublinense The Shamrock 35. Em 1876, Henry Irving retorna a Dublin com a peça Hamlet, de William Shakespeare (1564-1616), e recebe uma ótima crítica de Stoker, o que faz com que o ator marque o encontro entre os dois. O segundo encontro ocorre quando Irving retorna em uma reunião social fazendo o monólogo do dramaturgo William Gorman Wills (18281891), adaptado da balada The Dream of Eugene Aram, do poeta Thomas Hood (1799-1845). Stoker escreve em sua crítica algo que Raymond T. McNally e Radu Florescu no livro Em busca de Drácula e outros vampiros (1995, p. 145) consideraram como “prelibação de Drácula”: “O horror medonho ... do espírito do duende sanguinário – olhos tão inflexíveis quanto o Destino -, mãos eloqüentes [sic], movimentos lentos espalhados, como em leque” (STOKER apud MCNALLY; FLORESCU, 1995, p. 145). Depois dessa apresentação a amizade de Stoker e Irving se tornou intensa. Neste período Bram Stoker reencontra Florence Anne Lemon Balcombe (18381937), a quem conhecia desde a infância. Assediada por Oscar Wilde, ela dispensa a proposta de casamento do poeta para aceitar a de Stoker, com quem se casar em 1878. Neste mesmo ano, Henry Irving assume a direção de Lyceum Theater36 e devido à amizade que possui com Bram Stoker, o convida para ser gerente do
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The Vampire lovers, em inglês. Sociedade fundada pelo escritor e filósofo irlandês William Molyneux (1656-1698) em 1683. 35 Revista semanal de ficção científica publicada de 1866 a 1913. 36 Teatro localizado na cidade de Westminster, construído em 1834 do arquiteto inglês Samuel Beazley (1786-1851)

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teatro, o que o escritor aceita de imediato. Assim sendo, ele e Florence vão morar em Chelsea, região central de Londres. No ano seguinte, nasce o filho único de Bram Stoker e Florence Stoker, Irving Noel Thornley Stoker (1879-1961). Em 1882, ainda trabalhando para Irving, cuidando de sua agenda de espetáculos, Bram Stoker cria uma coletânea de histórias infantis de terror intituladas Under the Sunset. A época era muito propensa para contos e histórias voltadas para os medos dos seres humanos, logo que na Grã-Bretanha muitos escritores buscavam através das suas histórias interpretar o crescente medo que surgia com a chegada dos imigrantes dos países do leste europeu e da Ásia, e com eles vinham suas lendas e mitos. O Reino Unido da Grã-Bretanha não tinha um passado com história de vampiros, mas com o livre comércio de algodão, eles importavam dos outros países, entre várias coisas, o conhecimento dessas histórias. Roland Barthes (1915-1980) menciona em sua obra Mitologias (2010, p. 199) que “o mito é um sistema de comunicação, uma mensagem”, dessa forma, os mitos transmitidos oralmente, podem se tornar trabalhos escritos, como os poemas alemães do século XVIII, que fora o formato que os britânicos tomaram conhecimento sobre os vampiros, que eram seres míticos da região da Europa Central e Oriental. Os mitos existentes na região do centro e do norte europeu remontam do século I d.C. Neste período, o escritor grego Flavius Philostratus (170-250) escreve A vida de Apolônio de Tiana, onde menciona pela primeira vez sobre a lamia de Corinto, um ser demoníaco que sugava o sangue das crianças, mas também se transformava em uma linda donzela para atrair e seduzir jovens homens, na intenção de drenarlhes o sangue, também. Séculos mais tarde veríamos a retratação da lamia novamente nas obras A Noiva de Corinto de Goethe (1797, p.5)
[...] Por isso, fui banida do meu túmulo, Para reconquistar o bem perdido, Para amar ainda o homem que me era destinado E sugar o sangue do seu coração. Sucumbindo ele, a outros terei de procurar: E a raça dos jovens mortais será vencida pela minha sanha! [...]

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e Lamia de John Keats (1819, p. 8)
[...] Whither fled Lamia, now a lady bright, A full-born beauty new and exquisite? She fled into that valley they pass o'er Who go to Corinth from Cenchreas' shore; And rested at the foot of those wild hills, The rugged founts of the Peraean rills, And of that other ridge whose barren back Stretches, with all its mist and cloudy rack, South-westward to Cleone. There she stood About a young bird's flutter from a wood, Fair, on a sloping green of mossy tread, By a clear pool, wherein she passioned To see herself escap'd from so sore ills, 37 While her robes flaunted with the daffodils. […]

Em 1885, após uma excursão pelos Estados Unidos, Stoker fez uma conferência no Instituto Birkbeck, em Londres, e desta palestra surgiu o livro A Glimpse of America, que teve grande sucesso, devido sua simpatia com os norte-americanos e, por causa disso, escrevera com grande entusiasmo sobre sua temporada no país, sendo o primeiro escritor britânico que o fazia. Dois anos depois retornaria aos Estados Unidos, para organizar a excursão da peça Fausto, baseada no livro homônimo de Goethe que, como já citado, no século XVII já fizera uma incursão no universo dos mitos vampíricos. Irving interpretou na peça o personagem Mefistófeles, que para McNally & Florescu foi o incentivo para o desenvolvimento do Drácula literário de Stoker, devido ao tom sombrio que o ator dera ao personagem. O autor Thomas Henry Hall Caine (1853-1931), amigo de Bram Stoker e que – no original – recebeu uma dedicatória no livro Drácula, percebeu que muitos personagens interpretados por Henry Irving, como nas peças A Lenda do Holandês Voador (1878), Os Sinos (1871), Fausto (1887) e O Demônio Amante (1888), serviram para caracterização do Drácula literário.
[...] Para onde fugiu Lamia, agora uma senhora brilhante,/Uma beleza nascida nova e requintada?/Ela fugiu para o vale por onde passam/Aqueles que vão para Corinto da costa de Cencreia;/E descansou aos pés dos montes selvagens,/As fontes acidentadas dos sulcos de Peraean,/E daquele outro cume cujo trecho estéril/Se estende, com toda sua névoa e tormenta nublada,/De sul-oeste para Cleone. Lá estava ela/Sobre o tremular de um pássaro jovem em uma árvore,/Bela, em um solo inclinado coberto de musgo,/Perto de uma poça clara, onde se sentia passional/Por ver a si própria escapado de males tão doloridos,/Enquanto suas vestes ostentavam narcisos. [...]
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O historiador brasileiro Roney Marcos Pavani, ao interpretar a obra Fausto de Goethe em sua dissertação Repensando o conservadorismo católico: política, religião e história em Juan Donoso Cortés (2010, p. 177) chegou a citar que “a modernidade européia [sic] está repleta de ambigüidades [sic] e paradoxos. Ao mesmo tempo em que traz inovações e respostas, procura destruir e lançar ao abismo o espírito humano”, algo que Stoker enxergara na interpretação de Irving e desenvolvera para seu personagem-título. Em 1889, Stoker publicou o que viria a ser seu primeiro romance de terror. Inicialmente publicado em forma de seriado no The People 38, O Castelo da Serpente 39 teve razoável sucesso, tendo críticas favoráveis e comparando-o ao trabalho de Sheridan Le Fanu, e em 1891, quando o escritor irlandês já havia iniciado sua pesquisa para criar seu romance vampiresco, o seriado se tornou um livro. Em O Livro dos Vampiros: A Enciclopédia dos Mortos-Vivos, John Gordon Melton (2003, p. 754) menciona que Stoker teve um pesadelo sobre vampiros após ler a obra de Le Fanu, o que o motivou a pesquisar sobre o assunto. Um ano antes de O Castelo da Serpente ser publicado, ele se tornou um frequentador assíduo do Museu Britânico, aonde pesquisava mapas e informações sobre a região de onde surgira os mitos dos vampiros, na Europa Central e Oriental. No museu encontrou um folheto datado de 1485 da cidade de Lübeck, na Alemanha setentrional, que descrevia as atrocidades causadas por um príncipe romeno chamado Vlad Tepes (1431-1476 40), mas também conhecido como Drácula 41, título que recebera por ser filho de Vlad Dracul (1393-1447). Este ganhara o título por ter servido a Ordem do Dragão, uma fraternidade secreta criada em 1387 pelo sacro imperador romano-germânico Sigismundo de Luxemburgo (1368-1437) e sua segunda esposa Barbara Von Cilli (1392-1451), cujo intento era militar e religioso e tinha como fim proteger a Igreja Católica contra os hussitas e organizar uma cruzada para expulsão dos turcosotomanos da península balcânica.

Jornal britânico fundado em 1881. The Snake Pass, no original. 40 J. Gordon Melton em O Livro dos Vampiros: A Enciclopédia dos Mortos Vivos (2003, p. 869) cita que Vlad III o Empalador pode ter sido assassinado em algum momento entre dezembro de 1476 ou janeiro de 1477. 41 Drácula (Drăculea) significa “filho do diabo”, em romeno.
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Foram sete anos de pesquisa sobre o personagem e o assunto, tanto que ainda em 1890 encontrou com o professor orientalista húngaro Arminius Vambery (18321913), que ganhara certa notoriedade com espião britânico e escrevera o livro História da Hungria (1887). Vambery tinha extenso conhecimento sobre o território que correspondera com o Império Turco-Otomano. Mas as informações sobre Vlad foram adquiridas mesmo na biblioteca do Museu Britânico. McNally & Florescu chegaram a encontrar um livro sobre a Romênia que continha a seguinte afirmação:
[...] “Na Valáquia, Vlad V [?], filho de Vlad o Demônio, abriu seu caminho para o trono com o sabre na mão, e o manteve pelo terror e pela tirania”, e “Vlad foi criado para o papel que desempenhava; odiava estrangeiros, odiava os boiardos! Odiava as pessoas! E massacrou, empalou e assassinou sem distinção, para seu próprio prazer e segurança” [...] (MCNALLY; FLORESCU, 1995, p. 154).

A palavra Dracul 42 tem uma tradução ambígua, podendo significar Dragão ou Demônio, sendo esta a que os historiadores preferiram usar. Outra fonte importante para a pesquisa de Stoker foi o livro The Land Beyond the Forest: Facts, Figures, and Fancies from Transylvania (1888), escrito pela autora escocesa Emily de Laszowska Gerard (1849-1905), que graças à descritiva narração dos mitos romenos, auxiliou Stoker a ambientar o começo de sua história. Inicialmente, graças ao romance de Le Fanu, Stoker colocaria sua história na região da Styria, localiza a nordeste da Republica da Eslovênia, mas com o livro de Emily Gerard, o ambiente foi mudado para a Transilvânia, localizada na região central da Romênia, devido à riqueza do folclore e mitos sobre vampiros da região dos Cárpatos Em 1893, durante um feriado, Stoker descobre o balneário de Cruden Bay, na Escócia, e lá escreve os primeiros capítulos de Drácula. Inicialmente Bram Stoker e sua esposa, Florence Stoker, se instalaram em um quarto do Hotel Kilmarnock Arms, mas como voltaram a ir em outros verões para a região na costa escocesa, compraram uma casa, próxima às ruínas do Castelo Sains, que McNally & Florescu acreditam ter servido de inspiração para o Castelo de Drácula, já que Stoker só conhecia a região da Transilvânia através dos escritos de Gerard e Vambery. Então entre os verões de 1893 e 1896, Stoker se dedicou arduamente a escrever sua

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Nos dias de hoje, Dracul significa “diabo” em romeno.

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história “com o som do mar na costa escocesa” (MCNALLY; FLORESCU, 1995, p. 154). Em 20 de março de 1897, Bram Stoker assinou contrato com um editor de Londres e lhe entregou The Un-Dead, título inicial da obra. Todavia, depois da fase de provas do título, viria a mudar para Dracula. McNally & Florescu comentam que nada indicava a Bram Stoker que Dracula não seria como O Castelo da Serpente, ou melhor, mais uma história de terror. As críticas que o romance recebeu foram mistas, tendo até comparações a obra Frankenstein, escrito por Mary Shelley quase oitenta anos antes. Para garantir a autenticidade de sua obra, Bram Stoker decidiu fazer uma montagem cênica de Drácula para o palco do Lyceum Theater. Intitulada Dracula, or The UnDead, ele levou para o palco toda a obra, tendo Irving como Drácula. A peça durava cansáveis quatro horas e só teve uma encenação em 17 de maio de 1897. O próprio Henry Irving a definiu como pavorosa, devido sua duração absurda, só aceita para óperas wagnerianas. Depois disso, Stoker viu um declínio em sua carreira. O Lyceum, após um incêndio que destruiu todos os adereços, cenários, guarda-roupa e equipamentos, foi passado para um sindicato, e em 1902 foi fechado de vez. Em 1905, Sir Henry Irving faleceu em 13 de outubro de 1905, devido a um acidente vascular cerebral. Neste mesmo ano, Bram Stoker teve um derrame cerebral e logo depois veio a contrair a doença de Bright, que afeta os rins. Em 1906, Bram Stoker, com muita dificuldade, escreveu e publicou The Personal Reminiscenes of Henry Irving, como tributo ao seu amigo e chefe. Stoker chegou a escrever mais seis romances, sendo somente The Lady of the Shroud (1909) que teve algum sucesso aparente. Já em 1910, escreveu o livro de não ficção Impostores Famosos, que falava sobre a impostura moral de algumas pessoas, como o crítico catalão José A. Muñoz fala no site Revista de Letras:
Famosos impostores se presenta como un ensayo sobre la impostura. Sobre la apropiación de personalidad. Sobre la “posesión del alma”. Pero no va de vampiros. O sí, pero de otro tipo de vampiros, más falsos, más interesados, menos torturados. Algunos han perdurado en el tiempo, otros

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se evaporaron, pero forman parte de ese grupo de entidades que corroen a la sociedad. Falsos miembros de estirpes reales, estafadores, adivinadoras, cazadores de brujas, ladrones de fortunas, travestidos… Un catálogo de secuestradores de vidas ajenas que concluye con la famosa historia de “El muchacho de Bisley” quien, se dice, llegó a convertirse en Isabel I de Inglaterra. Desde herederos al trono a casos conocidos, como el del profeta Cagliostro o el del cazador de brujas Matthew Hopkins, sin olvidar la curiosa leyenda del judío errante, toman forma en este catálogo de pequeñas sabandijas que, aun logrando en algunas ocasiones sus objetivos, acabaron sus tristes vidas en la cárcel o condenados a muerte […] (MUÑOZ, 2009).

Em 1911, bem debilitado de saúde, escreve e publica The Lair of the White Worm, sendo esta sua última obra, que recebeu várias reimpressões e um filme em 1988, com direção do inglês Ken Russel (1927-2011), com Hugh Grant (1960) fazendo um dos papéis. A história era sobre o arqueologista escocês Angus Flint que descobre um estranho crânio nas ruínas de um convento que está explorando. Tempos depois, em uma festa na aldeia, Angus conhece Lorde James D’Ampton, que herdara as terras ao lado da Temple House, uma mansão pertencente à Lady Sylvia Marsh. Angus descobre que um ancestral de Lorde D’Ampton havia matado um enorme dragão-serpente que ganhara o nome “O Verme D’Ampton”. Então pessoas começam a desaparecer e o crânio que estava no escritório de Angus desaparece, fazendo ele se juntar a Lorde D’Ampton para descobrir que é o ladrão e aonde foram parar as pessoas desaparecidas. Em 20 de abril de 1912, com sessenta e cinco anos, o criador daquele que viria a ser um marco no mito do vampiro, Bram Stoker, veio a falecer. Quase na pobreza, ele morava em uma casa de frente para a praça Saint George, em Londres, na Inglaterra. Infelizmente, Bram Stoker nunca veio a conhecer o sucesso que sua obra e seu personagem viriam a fazer e até hoje fazem. 2.3 DRÁCULA Não podemos dizer que Drácula seja um personagem de ficção, já que o escritor irlandês Bram Stoker se baseou em uma personalidade que viveu no século XV, mas as ideias que Stoker teve são ficcionais, pois o vampiro de Stoker se baseia em um ser mítico da região da Europa Central e Oriental, região essa em que Drácula viveu.

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Vlad III, também conhecido como O Empalador – como era conhecido o Drácula histórico – nascera na cidade de Schassburg 43, na Transilvânia, no ano de 1431. Filho de Vlad II Dracul, que no ano de seu nascimento tornara-se membro da Ordem do Dragão e príncipe da Valáquia, na Romênia. Em 1442, após uma batalha que fora derrotado pelo sultão do Império Turco-Otomano Murad II (1404-1451), Vlad Dracul, para provar sua fidelidade ao sultão, deixou seu filho Vlad III e Radu III, o Belo (1435-1475) como reféns. Vlad e seu irmão foram colocados em prisão domiciliar e depois levados para a Ásia Menor. Radu III, o Belo terminou se tornando um aliado de Murad II e o favorito de Mehmed II (1432-1481) – sucessor ao sultanato – como candidato oficial ao trono valaquiano, sob domínio turco. McNally & Florescu fazem uma descrição sobre como Vlad reagiu a esse período:
[...] A reação de Drácula a esses anos perigosos foi exatamente oposta. De fato, esse tempo como prisioneiro dos turcos ofereceu um bom estímulo à sua personalidade ardilosa e perversa. A partir dessa época, Drácula passou a ter a natureza humana em baixa estima. A vida era coisa desprezível – além do mais, sua própria vida estaria em perigo se seu pai se mostrasse desleal ao sultão – e a moralidade não era essencial em assuntos de estado. Ele não precisou de Maquiavel para se informar sobre a moralidade dos políticos. Os turcos ensinaram a Drácula a língua turca, entre outras coisas, e ele a manejava como um nativo; ele foi aproximado dos prazeres do harém, porque suas condições de confinamento não eram tão estritas; e complementaram seu treinamento no cinismo bizantino, que os turcos herdaram dos gregos (MCNALLY; FLORESCU, 1995, p. 31).

Em 1447, Vlad Dracul e assassinado a mando do líder militar húngaro Johann Hunyadi (14??-1456), que se irritara com as ligações assumidas por Dracul com os turcos-otomanos. Quem assumiria o trono seria o filho mais velho de Dracul, Mircea II (1428-1447), mas este fora queimado vivo pelos inimigos políticos de seu pai, em Trgovište, uma cidade pequena da Sérvia. Em 1448, os turcos tentaram colocar Vlad III no trono de Valáquia, enquanto Vladislav II (14??-1456) e Johann Hunyadi encontravam-se em uma batalha na região ao sul do rio Danúbio, na Romênia. Mas a permanência de Vlad III no trono durou apenas dois meses, pois ciente do que ocorrera com seu irmão e seu pai, se refugiou em Moldávia, que era governada pelo príncipe Stefan III da Moldávia (14331504), que era seu primo. Essa convivência estreitou o laço de amizade de ambos,
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Hoje Sighisoara, na Romênia.

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que fizeram promessas de ajudar um ao outro, caso algum deles viesse a ascender ao poder primeiro. Três anos depois de seu refúgio, Vlad se entrega a Hunyadi, após o assassinato de Bogdan II (1409-1451), regente da Moldávia e pai de Stefan III. Quando Vladislav II começou a favorecer os turcos no território da Valáquia, suas ações fizeram com que Johann Hunyadi começasse a enxergar em Vlad III um possível aliado. Logicamente que tudo não passava de interesses mútuos, pois Vlad III não esquecera do assassinato de seu pai pela mãos de Hunyadi. Johann Hunyadi se tornou tutor de Vlad e assim permaneceu até o ano de 1456, quando veio a morrer em sua tenda devido a uma peste que atingiu a região de Belgrado, na Sérvia. O Papa Calisto II (1378-1458), após a morte de Hunyadi, deulhe o título de “O mais poderoso campeão de Cristo”. Mas antes de sua morte, Hunyadi se tornou o mentor político e educador militar de Vlad III, além de inseri-lo na corte de Ladislav V, o Póstumo (1440-1457), rei da Hungria e Boêmia e chefe da Casa de Habsburgo, e apresentar-lhe seu filho, Mattias Corvinus (1443-1490), futuro rei da Hungria, Croácia e Boêmia, e inimigo político de Vlad III. Vlad III chegou a participar de várias campanhas ao lado de tutor, contra os turcos, principalmente na região em que hoje existe a Iugoslávia, mas não participara da campanha a Belgrado, pois recebera permissão para ir à Valáquia e depor Vladislav II, que se aliara aos turcos. Nesse tempo, Vlad III já no trono da Valáquia, que ele conquistara após matar Vladislav II, foi informado da tomada de Constantinopla pelos turcos e que o sultão Mehmed II pretendia conquistar a Transilvânia e atacar a cidade de Sibiu, pois tinha um posicionamento estratégico e poderia servir de base para a futura conquista da Hungria. O que viria a seguir definiria a personalidade de Vlad, por isso recebera o título de o Empalador:
[...] em 1460, apenas quatro anos depois que ele deixara a cidade de Sibiu, Drácula devastou impiedosamente essa região com um contingente valáquio de vinte mil homens e matou, mutilou, empalou e torturou cerca de dez mil dos seus antigos companheiros, cidadãos e vizinhos. Ele achava que os alemães [sic] de Sibiu haviam-se envolvido em práticas de comércio desonesto às expensas dos marcadores valáquios. A pilhagem e o saque tiveram lugar em escala mais feroz do que a feita pelos turcos em 1438 (MCNALLY; FLORESCU, 1995, p. 35; grifo nosso).

Isso levou Vlad III de aliado a inimigo para seus concidadãos e coligados, de modo que, durante três anos de seu governo no trono valáquio (1457-1460) foram de

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conflitos violentos. O primeiro ocorreu na região próxima à Sibiu, quando Vlad III queimou e pilhou vilarejos, destruindo tudo em seu caminho. McNally & Florescu acreditam que tal ataque ocorrera para a captura do seu meio-irmão, Vlad o Monge (1425-1495), que também era seu inimigo político, e na intenção de advertir aos cidadãos para não darem abrigo e proteção aos inimigos de Vlad III. Outra cidade ligada ao nome de Vlad era Braşov, na Romênia, devido sua proximidade com Sibiu.
[...] Uma narrativa russa fala de um boiardo que tendo chegado para uma festa em Brasov, e não suportando o horrível cheiro de sangue coagulado, fechou com os dedos suas narinas num gesto de repulsa. Drácula mandou que se trouxesse uma grande estaca e a exibiu ao visitante, dizendo: “Fica ali, bem afastado, onde o mau cheiro não vai incomodar-te”. E mandou empalar imediatamente o boiardo [...] (MCNALLY; FLORESCU, 1995, p. 35).
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Quando não conseguiu conquistar a Fortaleza de Zeiden (hoje Codlea), na Romênia, mandou executar o capitão responsável pelo fracasso. Vlad III continuou sua violência capturando e matando seu oponente ao trono valáquio, Dan III (14??-1460) e conquistando Făgăraș, cidade próxima de Brasov, na Romênia, aonde empalou homens, mulheres e crianças. Na noite de São Bartolomeu, na cidade de Almaş, na Romênia, Vlad III matou vinte mil pessoas. A queda de Vlad III se iniciou em 1461, quando os turcos iniciaram um contraataque, em resposta a campanha do príncipe valáquio de expulsá-los do território romeno. Com isso, sem aliados, Vlad III teve de retirar-se, mesmo tendo duas breves vitórias sobre os turcos. Na primeira, tentou capturar o sultão, mas foi mal sucedido, na segunda, foi quando o sultão chegou à cidade de Trgovište e viu, do lado de fora da cidade, vários corpos de pessoas empaladas, fazendo-o recuar para Adrianople (hoje Edirne), cidade turca pertencente ao Império Otomano, para meditar sobre o que faria em seguida. Assim sendo, passou o comando para Radu III, irmão de Vlad III. Radu III era o favorito dos turcos para suceder Vlad III no trono valáquio. E com o apoio dos depreciadores romenos, Radu perseguiu seu irmão até o castelo que servia de residência para Vlad no Rio Argeş, na Romênia. Com o exército extenuado
senhor feudal, grande proprietário de terras nos países eslavos, nas províncias danubianas da Europa central, cujo título nobiliárquico era inferior apenas ao dos príncipes reinantes. (HOUAISS, 2009)
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e em imensa desigualdade contra o exército turco, Vlad fugiu por um túnel secreto até os Montes Cárpatos, na região da Transilvânia, e de lá, foi se apresentar a Mattias Corvinus, que o prendeu. Vlad III foi aprisionado na cidade de Višegrad 45, na época território otomano, onde permaneceu em situação razoavelmente confortável até ser considerado novamente o candidato ideal para o trono da Valáquia, no qual assumiu, mas nunca em situação estável, pois sofrera muitos ataques dos próprios valáquios, aliados aos turcos. Não se tem certeza da data exata da morte de Vlad III, mas acredita-se que ele foi assassinado entre dezembro de 1476 e janeiro de 1477, durante uma última batalha pelo trono da Valáquia contra Basarab III, o velho (13??-14??). De acordo com McNally & Florescu
[...] A morte de Drácula indubitavelmente teve lugar durante a batalha, e provavelmente seu assassino foi um besarabiano ou um dos seus boiardos, ou ainda um soldado turco. De acordo com Bonífius e com um cronista turco, Drácula foi então decapitado. Sua cabeça foi mandada para Constantinopla onde permaneceu exposta como prova de que o terrível Empalador estava realmente morto. Levou cerca de um mês para que a notícia calamitosa atingisse a Europa Ocidental; só em fevereiro de 1477 o enviado do duque de Milão em Buda, Leonardo Botta, escreveu a seu senhor Ludovico Sforza contando que os turcos haviam consquistado a Valáquia e que Drácula fora morto (MCNALLY; FLORESCU, 1995, p. 110).

Muitas das informações acima mencionada devem ter sido lidas por Bram Stoker em suas visitas ao Museu Britânico em 1889, o que o motivou a tornar Vlad III o Empalador no Conde Drácula do romance que viria a publicar 1897. A sua decisão de usar a Transilvânia como foco do início e do fim do livro, se torna perfeita, pois foi à região que Vlad III governou e se estabeleceu devido à ligação com a região, como menciona McNally & Florescu (1995, p. 37) “Drácula amava seu lugar de nascimento” e, fatalmente, de morte.

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Hoje localizada na Bósnia-Herzegovina

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3. DRÁCULA, DE BRAM STOKER Em 1985, o jornalista norte-americano Bill Moyers fez uma entrevista com o mitologista Joseph Campbell (1904-1987), que resultou no livro O poder do mito (1990). Durante a entrevista Moyers questiona Campbell sobre o mito ser o sonho de outra pessoa, no que ele responde
[...] Oh, não, são não. São os sonhos do mundo. São sonhos arquetípicos e lidam com os magnos problemas humanos. Eu hoje sei quando chego a um desses limiares. O mito me fala a esse respeito, como reagir diante de certas crises de decepção, maravilhamento, fracasso e sucesso. Os mitos me dizem onde estou (CAMPBELL, 1990, p. 29; grifo nosso).

A interpretação de mito de Campbell se faz entender bem quando pensamos no século XIX, principalmente na Inglaterra, em especial em Dracula do escritor irlandês Bram Stoker. A obra pode muito bem ser este “sonho arquetípico”, pois trabalha o modelo do vampiro que surgira anos antes através das obras de John Polidori e, como principal motivador, Sheridan Le Fanu. E também tem essa busca de “lidar com os problemas humanos maiores”, que para Stoker eram as doenças e a imigração de povos que ele considerava atrasados, devido às informações que ele tinha a respeito dos romenos e povos da Europa Oriental e Central. Stoker também deveria ter tido conhecimento das guerras que o Reino Unido participara como a Guerra da Criméia (1854-1856) e a Independência da Itália (1859-1860). Ambos os conflitos tiveram ampla participação da Grã-Bretanha. Na Guerra da Criméia, regiões como Valáquia e Moldávia, que hoje fazem parte do território da Romênia, pertenciam ao Império Turco, mas haviam sido tomados pela Rússia, e por isso a Grã-Bretanha, junto com a França e a Sardenha, antes de ser vinculada à Itália, decidem combater o Império Russo, pois temiam a ampliação de território czarista. O desenvolvimento tardio do território romeno pode ter sido ocasionado pelos constantes conflitos do território, que vivia sendo disputado pelos impérios desde o século XV, passando pelas mãos do Sacro Império Romano Germânico e dos Impérios Turco-Otomano, Austro-húngaro e Russo.

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A Independência da Itália, que desejava ser desvinculada da Áustria, aconteceu de forma mais calma, já que boa parte do que viria a fazer parte do território italiano já havia sido conquistado. O Reino Unido, novamente contando com o apoio militar da França de Napoleão III, que tinha outras pretensões com alguns reinos da Itália, mas teve de aceitar as decisões impostas pelos britânicos para que não sofresse problemas como acontecera com seu tio, entregou os Estados italianos a Camilo Benso, Conde de Cavour, de Isolabelle e Leri, em 1860. Esses vínculos que a GrãBretanha estabeleceu permitiram que ampliasse seus negócios, além de garantir que emigrantes, como os pais de Stoker, pudessem ir para a Itália, em busca de empregos. A Londres do final do século XIX tinha alcançado certas mudanças, mas os problemas de desemprego, a marginalidade, a prostituição e as doenças que existiam, e outras que surgiram nos campos de batalha, como a tifo, ainda faziam parte do cotidiano britânica, alcançando as regiões portuárias mais distantes de Londres, como a própria Whitby, localizada no condado de North Yorkshire, que se torna o cenário inglês da ação de Drácula na Inglaterra. A cidade é portuária, tem um manicômio, mas vive de forma pacata e sem grandes alardes, até o dia – na ficção – em que o navio russo Deméter aporta por lá (2002, p. 67-71) e toda a vida da cidade se modifica, numa bela alusão da perda da inocência, da transformação. A chegada de Drácula em Whitby representou a imigração indesejada e as doenças que se proliferavam de forma assustadora, como doenças sexualmente

transmissíveis, hemofílicas e infectocontagiosas. No filme Drácula de Bram Stoker (1992), dirigido por Francis Ford Copolla e roteiro de James V. Hart, o ator inglês sir Anthony Hopkins, que interpreta o professor Abraham Van Helsing, durante uma aula em uma universidade menciona sobre a sífilis, dizendo que
O sangue e suas doenças tais como a sífilis, nos interessam. O próprio nome doenças venéreas, as doenças de Vênus imputam a elas origens divinas. Envolvem problemas sexuais que dizem respeito às éticas e ideais 46 da civilização cristã. De fato, a civilização e a sifilização avançaram juntas.

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DRÁCULA DE BRAM STOKER, 1992.

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A sífilis é uma doença que pode ser contraída de forma sexual como por uma transfusão de sangue, e por ser de origem desconhecida, os britânicos – incluindo Stoker entre eles – preferiam acreditar ter vindo do estrangeiro, junto com a leva de imigrantes que surgiam no Reino Unido. Os problemas aos quais os britânicos não podiam sanar, eles culpavam àqueles que vinham do oriente, de fora do círculo ocidental, ao qual o Reino Unido, a França, a Alemanha, a Itália e os Países Baixos, na Europa, e os Estados Unidos, estavam integrados. Um bom exemplo disso é quando o filósofo Friedrich Engels menciona em A condição da classe trabalhadora em Inglaterra, que na sua visita a capital britânica, entre os operários, não sofreu nenhuma discriminação por ser estrangeiro, mas vale lembrar que a Alemanha 47 fazia parte do núcleo econômico da Europa Ocidental, bem diferente de países como a Romênia, que por anos migrou das mãos do Império Otomano para o Sacro Império Romano Germânico, posteriormente o Austro-húngaro, em especial a região usada por Stoker em seu romance, a Transilvânia, localizada na parte romena dos Montes Cárpatos. Países como a Romênia eram vistos como retrógrados, sem possuírem a mesma infraestrutura dos países do oeste europeu para serem desenvolvidos. O progresso já havia lhes chegado, mas ainda estava atrasado. Eram regiões que tinham estradas ferroviárias, mas não tinham energia elétrica, usando ainda candeeiros, velas e lampiões. Eram bem religiosos, mais suas superstições eram mais fortes do que qualquer crença, pois eram pessoas do campo, que viam com desconfiança o que não podiam explicar. Doenças como a catalepsia 48 e a porfiria 49, que foram descobertas no século XIX, eram possíveis de serem as motivações da criação do mito, mas mesmo associadas, não eram de fácil conhecimento. Alguns escritores chegaram a fazer
Engels nasceu na cidade de Barmen É um distúrbio neurológico em que a pessoa permanece com os músculos enrijecidos como uma estátua, podendo inclusive ser confundida com um cadáver, devido a semelhança com o rigor mortis, que por sua vez é causado por uma mudança química que acontece nos músculos depois de certo tempo que a pessoa morre, causando um endurecimento e impossibilidade de mexer as partes do corpo, principalmente as pernas e braços (PATRÍCIA, acesso em 16 nov. 2012). 49 Essa doença é uma alteração do metabolismo das porfirinas (pigmentos orgânicos que formam o núcleo de base para a síntese da hemoglobina), cujo sintoma mais característico é a fotofobia, uma extrema foto-sensibilidade da pele à luz solar, causando esfoliação que forma pústulas doloridas quando expostas ao sol, e urina avermelhada, que escurece em contato com a luz (SALLES, acesso em 16 nov. 2012). Podendo, em certos casos, necessitar da transfusão de sangue.
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uso da catalepsia, como Alexandre Dumas [pai] em O Conde de Monte Cristo (1844). Quando Edmond Dantès chega ao Castelo de Sif, conhece o Abade Faria, que planejava fugir do cárcere e encontrar seu tesouro na Ilha de Monte Cristo. Ele então conta com a ajuda de Dantès para finalizar o túnel e quando estavam perto do fim, Edmond houve o abade chama-lo de forma angustiante, quando ele chega o vê pálido e é instruído por Faria a administrar-lhe um remédio, pois sofreria um ataque de catalepsia:
O acesso foi tão súbito e tão violento que o pobre prisioneiro nem sequer teve tempo de acabar a frase começada. Passou-lhe uma nuvem pela testa, rápida e escura como as das tempestades no mar, a crise dilatou-lhe os olhos, torceu-lhe a boca e congestionou-lhe as faces. Agitou-se, espumou, gritou. Mas tal como ele próprio recomendara, Dantès abafou-lhe os gritos debaixo do cobertor. O ataque durou duas horas. Então, mais inerte do que uma massa, mais pálido e frio do que o mármore, mais quebrado do que uma cana calcada aos pés, caiu, retesou-se ainda numa derradeira convulsão e ficou lívido. Edmond esperou que a morte aparente invadisse o corpo e gelasse até ao coração. Nessa altura; pegou na faca, introduziu a lâmina entre os dentes do abade, descerrou com infinito cuidado os maxilares contraídos, contou uma após outras dez gotas do licor vermelho e esperou. Passou uma hora sem que o velhote fizesse o mais pequeno movimento. Dantès receava ter agido demasiado tarde e olhava-o, com as mãos enterradas no cabelo. Por fim, surgiu uma leve coloração nas faces do abade, os seus olhos, que tinham permanecido constantemente abertos e átonos, recuperaram a expressão, saiu-lhe da boca um suspiro fraco e tez um movimento (DUMAS, 1999, p. 194).

Já a porfiria, que é mais conhecido como doença do vampiro, só veio a ser associada ao vampirismo em 1973 no livro Vampiros, onde a autora norte-americana Nancy Garden defende a associação do vampirismo a doença. Mas foi o químico e fisiologista alemão Ernst Felix Immanuel Hope-Seyler que a identificou de forma bioquímica, em 1871. 3.1 NA TRANSILVÂNIA Stoker, na primeira parte do livro (relatos do Diário de Jonathan Harker), narra a chegada do jovem advogado ao distrito de Bistritz50, demonstrando seu encanto com o local aonde tivera de ser mandado para fechar um acordo de venda da mansão Carfax, em Purfleet, no Distrito de Thurrock, na Inglaterra. “A impressão que tive é que estávamos deixando o Ocidente e entrando no Oriente” (STOKER, 2002, p. 13), menciona Harker ao chegar à região dos Cárpatos. A
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Nome germânico de Bistriţa, na Romênia.

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pesquisa de Stoker sobre a região é fascinante. Podemos perceber que ele pesquisou o suficiente para tomar conhecimento de um local ao qual nunca fora antes, com perfeita riqueza até na caracterização dos povos localizados na região da Romênia
Na população da Transilvânia, há quatro nacionalidades distintas: saxões 51 no sul, e misturados a eles valáquios, que são descendentes dos dacos ; 52 magiares no oeste, e szekes no leste e no norte. Deter-me-ei nos últimos, que alegam descender de Átila e dos hunos. Pode ser verdade, pois quando os magiares conquistaram o país, no século XI, descobriram que os hunos haviam se estabelecido lá. Li que todas as superstições conhecidas no mundo se encontram na região em forma de ferradura das montanhas Cárpatos, como se a área fosse o centro de algum redemoinho imaginativo; se for verdade, minha estada por aqui pode ser muito interessante [...] (STOKER, 2002, p. 13-14; grifo nosso).

A pesquisa de Stoker voltada para o imaginário dos romenos, principalmente fazendo uso do livro The Land Beyond the Forest: Facts, Figures, and Fancies from Transylvania de Emily de Laszowska Gerard, demonstra a interesse em mostrar a influência desses para o desenrolar de Dracula, que chega aos ingleses através dos poemas alemães do século XVIII, mas que só veio a ter importância para Stoker com a leitura de Carmilla de Le Fanu. A superstição continua presente em Dracula quando Harker está para pegar o coche e seguir viagem, mas agora vem associada à religião, quando a esposa do dono do hotel em que Jonathan Harker se hospeda lhe oferece um crucifixo, um objeto ao qual Harker considera desnecessário devido sua criação religiosa protestante do advogado, que considera ícones e artefatos religiosos como símbolos de idolatria. A religião se faz presente constantemente no romance de Bram Stoker. Ele, que foi criado dentro em um ambiente protestante, sabia que a igreja cristão-católica havia adquirido bastante conhecimento sobre o assunto dos vampiros na metade do século XVIII, então com isso a introdução de objetos religiosos como o crucifixo, a hóstia, terminaram tendo necessidade. Mas além de objetos religiosos, Stoker faz uso de artifícios que estão contidos nas superstições romenas, como a flor de alho, rosas silvestres e estacas, que eram objetos usados para afastar ou matar o vampiro.

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Ou dácios. Povo originário da Dácia (hoje Romênia). Possivelmente eram os tchecos, como hoje são conhecidos.

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Melton em O Livro dos Vampiros menciona sobre cada um desses elementos que fazem parte do romance de Stoker, colocando suas devidas associações que desencadearam o desenvolvimento do mito, começando pelo alho, que
[...] era um elemento crucial para se matar o vampiro. Depois de enfiar uma estaca no corpo do vampiro e de lhe remover a cabeça, era colocado alho em sua boca. (...) Entretanto, esse tratamento era eficiente somente no caso de vampiros recém-criados [...]. O alho (...). Desenvolveu uma reputação como poderoso agente restaurador, e havia rumores de que possuía poderes mágicos como agente protetor contra a peste e vários males sobrenaturais [...] (MELTON, 2003, p. 15).

Depois o crucifixo, que é
[...] símbolo maior da fé cristã, é uma cruz latina com a figura de Jesus sobreposta. (...) A cruz representa Jesus como foi executado na Sexta-Feira Santa original. O crucifixo é usado basicamente pelos cristãos da Igreja Católica Romana, pelas várias ramificações da Igreja ortodoxa oriental e por outras Igrejas que seguem o estilo de liturgia similar do cristianismo. (...) as Igrejas protestantes é independentes não utilizam o crucifixo, preferindo uma cruz simples sem o corpo, às vezes interpretado como uma cruz vazia, um símbolo do Cristo ressuscitado (MELTON, 2003, p. 188; grifo nosso).

Nesse ponto podemos ver que, possivelmente o crucifixo entregue a Harker pela senhora idosa (“old lady”, no original), deveria possuir a imagem de Jesus crucificado, por isso ele consideraria como uma forma de idolatria desnecessária. Temos também a estaca, que poderia ser de madeira, de ferro ou uma longa agulha, mas todas tinham “A idéia [sic] de estaquear o cadáver de um suspeito vampiro ou de um morto retornado” (MELTON, 2003, p. 291). O objetivo da estaca era manter o corpo das pessoas suspeitas de retorno presas ao chão, por isso muitas vezes a estaca era enfiada no estômago, pois manteria o princípio de estaquear de uma só vez, já que era a parte mais macia do corpo. Em alguns locais, a estaca de madeira era feita de árvores específicas como uma soveira, choupo, junípeiro e espinheiro, todos da região da Europa Central e Oriental. Já a hóstia, era usada no ritual mais sagrado do cristianismo, a Comunhão eucarística. A primeira pessoa a mencionar o uso da hóstia como objeto para a destruição de vampiros foi Dom Augustin Calmet na sua Dissertations sur les apparitions des anges, des démons ET des esprits ET sur les revenans ET vampires

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de Hongrie, de Boheme, de Moravie ET de Silesie. Já Stoker fez uso da hóstia como uma barreira contra vampiros. Já o espinheiro (ou rosa selvagem ou espinho-preto), como cita J. Gordon Melton, era um tipo de amuleto contra a bruxaria, além de simbolizar a esperança. Pode ser encontrada em todo o sul europeu. A tradição do uso do espinheiro como objeto de afastamento das bruxas é usado desde a Antiga Grécia, aonde se colocava no caixilho da porta. Melton explica que
O espinheiro unia duas práticas antigas. Primeiro para proteger a própria casa ou um outro lugar qualquer, as pessoas costumavam erguer uma barreira simbólica com o espinheiro, Conquanto fosse incapaz de evitar ou mesmo diminuir as forças físicas, o espinheiro, acreditava-se, podia bloquear forças sobrenaturais ou espíritos intrusos. Segunda a crença de 53 muitas pessoas , o espinheiro tinha uma qualidade sagrada, pois era uma das várias plantas escolhidas para a confecção da coroa de espinhos de Cristo. Galhos de espinheiro eram comumente colocados do lado de fora do caixão, nas meias do cadáver ou em cima do corpo (MELTON, 2003, p. 289).

Antes mesmo da entrega do crucifixo e da partida de Jonathan, a esposa do dono do hotel questiona o advogado quanto ao dia que se encontram no que ele responde 4 de maio, mas ela persiste no questionamento, e quando Jonathan nega, ela lhe diz: “É véspera do dia de São Jorge. O senhor sabe que quando soar a meia-noite de hoje, todas as coisas malignas no mundo ganharão poder? O senhor sabe aonde vai e o que vai fazer lá?” (STOKER, 2002, p. 15-16; grifo nosso). No calendário gregoriano 54 a data é comemorada em 6 de maio 55, o que foi um equivoco de Stoker ao coloca-lo no dia 5 de maio. Melton fala em O livro dos vampiros sobre a data comemorativa:
[...] é um dia de festa pelo calendário da Igreja ortodoxa oriental na Romênia, incluindo a Transilvânia. Era geralmente o dia em que o rebanho de carneiros saía de suas acomodações de inverno e era passado ao pasto. No romance Dracula, Jonathan Harker chega a Bistritz na véspera de São Jorge [...] Emily Gerard, a maior fonte de informações usadas por Bram Stoker ao pesquisar a Transilvânia, assinalou que o dia de São Jorge era uma das datas mais importantes do ano com inúmeras associações ocultas. À meianoite, as bruxas se reuniam para sua assembleia noturna e os camponeses colocavam barreiras como espinheiro e alho para proteger suas casas e
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Em geral, no cristianismo. Também conhecido como calendário ocidental ou calendário cristão, foi introduzido pelo Papa Gregório XIII (1502-1585) e assumiu o nome após a publicação na bula papal de 1582. 55 Em alguns países, como o Reino Unido, é comemorado no dia 24 de abril.

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estábulos contra as bruxas. Muitos dormiam com seus animais para uma vigília durante a noite inteira. Mais do que no Dia de Todos os Santos, o dia de São Jorge, acreditava-se, era quando havia a maior atividade dos espíritos dos mortos (MELTON, 2003, p. 221-222).

Muitas das crenças romenas são citadas até a partida de Harker de Bistritz. Ele houve uma conversa entre o cocheiro, a senhoria e alguns moradores da cidade, e palavras como Ordog 56, Pokol57, stregoica e vrolok e vlkoslak são ouvidas por ele na conversa. As variações de origens dessas palavras sempre situam-se na região da Europa Oriental. Ordog e Pokol têm origem húngara. Já vrolok, de acordo com Stoker, tinha origem eslovaca, enquanto vlkoslak tinha origem sérvia, mas ambas possuíam o mesmo significado, que poderia ser lobisomem ou vampiro. Já a palavra stregoica que Bram Stoker identificou com o significado de bruxa, pode originar-se do latim strix ou do grego strige, que possuem o mesmo significado da palavra citada pelo escritor. Toda a narrativa que Jonathan Harker faz neste momento é dentro do castelo de Drácula, para onde ele se dirigia. Mas antes de chegar ali, muitas coisas aconteceram, que mostram que o ceticismo ocidental se sobressaía as crenças orientais, mas que tudo faz parte de uma aprendizagem ao costume da região, tanto que constantemente ele coloca lembrete para estar perguntando ao Conde 58. O medo do desconhecido se apoderava de Harker, ainda mais que sua partida fora exaltada por simpatias em sua direção: “Quando o coche começou a andar, todos na multidão – já bem maior – em frente à porta da hospedaria começaram a fazer o sinal-da-cruz e apontar dois dedos em minha direção” (STOKER, 2002, p. 17; grifos nossos). A doutora em História Econômica Sandra Jatahy Pesavento, em seu trabalho Em Busca de uma Outra História: Imaginando o Imaginário (1995) menciona que
[...] quando se afirmava que o atributo por excelência do homo sapiens era o pensamento racional (cogito, ergo sum), tudo aquilo que escapasse aos critérios e rigores da lógica formal e que se baseasse em razões relativas era praticamente desprezado (PESAVENTO, 1995, P. 11).

Significa diabo, em húngaro. Significa inferno, em húngaro. 58 Em inglês Count, que poderia significar contar, era usado no século VII para definir um comandante de 200 homens.
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Ou seja, o que era real para os romenos, para Harker era assustador e medonho. Mas o caminho para o Passo Borgo fê-lo esquecer de tudo, pois apreciava a paisagem transilvânica, até chegar ao seu destino, demonstrando que aquela região da Europa Oriental causava grande fascínio, mesmo para Stoker que só havia a conhecido pelo livro de Gerard. Ao chegar, antes da hora marcada, o cocheiro tentou convencê-lo de seguir para Bukovina, localizada na parte norte da Romênia, mas uma carruagem aproximou-se rapidamente. Harker o cita em seu diário:
Sob a luz de nossas lanternas, pude ver que os cavalos eram negros como carvão e de aparência esplêndida. Eram conduzidos por um homem alto, com uma longa barba castanha e um chapéu alto e preto, que parecia esconder-lhe o rosto. Só pude distinguir um par de olhos muito brilhantes, que pareciam vermelhos à luz de querosene [...] (STOKER, 2002, p. 19).

O conhecimento de Bram Stoker sobre as outras literaturas que se basearam no mito do vampiro do centro e leste europeu, vêm quando ele cita o poema do alemão Gottfried August Bürger (1747-1794), Lenora (1773): “Denn die Todten reiten Schnell”
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(STOKER apud BÜRGER, 2002, p. 20).

Lenora, junto com o poema alemão Der Vampir (1748) de Heinrich August Ossenfelder (1725-1801), são considerados os primeiros registros de vampiros na literatura mundial. O trecho ao qual Stoker se refere em Dracula é:
[...] "Ach, wollest hundert Meilen noch Mich heut ins Brautbett' tragen? Und horch! Es brummt die Glocke noch, Die elf schon angeschlagen." – "Sieh hin, sieh her! Der Mond scheint hell. Wir und die Toten reiten schnell. Ich bringe dich, zur Wette, 60 Noch heut ins Hochzeitsbette." – [...] (BÜRGER, acesso em 13 nov. 2012)

Já os trechos de Der Vampir em que o vampiro é mencionado pela primeira vez são:
[...] “Pois os mortos viajam depressa”. “O quê! Viaje cem milhas esta noite,/conduzido por essas fantasias loucas/Você não ouve o sino com seu lamento,/enquanto toca as onze?/Olha, olha! Olha! A lua brilha:/Nós e os mortos viajamos depressa à noite!/Essa é uma aposta que vou levar/ ao local do casamento cada vez que nascer o dia.”
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Als Völker an der Theyse An tödtliche Vampire Heydukisch feste glauben. [...] Ich will mich an dir rächen, Und heute in Tockayer Zu einen Vampir trinken. [...] Als denn wirst du erschrecken, Wenn ich dich werde küssen Und als ein Vampir küssen: Wann du dann recht erzitterst Und matt in mein Arme, Gleich einer Todten sinkest Als denn will ich dich fragen, Sind meine Lehren besser, 61 Als deiner guten Mutter? (OSSENFELDER, 1748, apud MELTON, 2003, p. 638-639)

A viagem de Harker até o castelo de Drácula foi longa e cheia de surpresas. A primeira foi ver que o jovem advogado começara a adentrar no imaginário do povo romeno, influenciado pelas histórias que ouvira antes de partir. “Faltavam poucos minutos para a meia-noite. Essa descoberta foi como um choque, pois suponho que a superstição geral sobre a meia-noite havia aumentado por causa das minhas recentes experiências” (STOKER, 2002, p. 20). Pesavento cita o sociólogo francês Pierre Bourdieu em seu trabalho Em Busca de uma Outra História: Imaginando o Imaginário, para falar sobre as representações mentais:
[...] as representações mentais envolvem atos de apreciação, conhecimento e reconhecimento e constituem um campo onde os agentes sociais investem seus interesses e sua bagagem cultural. As representações objetais, expressas em coisas ou atos, são produtos de estratégias de interesse e manipulação (BOURDIEU apud PESAVENTO, 1995, p. 15).

Assim sendo, Harker fora influenciado pelo imaginário coletivo sobre o Dia de São Jorge, ficando apreensivo com a chegada da meia-noite. Ele também nota que o cocheiro por várias vezes para a carruagem para ir em direção a uma tremeluzente chama azul. Quando já está no castelo, Harker questiona com Drácula sobre o fato, e ele responde que a chama representa tesouros enterrados no caminho para a ida ao castelo. Os tesouros existem por conta das inumeráveis batalhas que o solo romeno conhecera no passado. Intrigado
[...] Como as gentes do Theyse/que em vampiros mortais/creem firmes como heiduques [antigos mercenários húngaros]./[...] anseio de te vingar-me/ e hei hoje de um tócai [vinho húngaro]/beber à saúde de um vampiro/[...] E enquanto te amedrontares/conforme eu te for beijando/tal como um vampiro beija;/e quando enfim tu tremeres/ e enfraquecida em meus braços/caíres qual foras morta;/então te perguntarei:/não são minhas lições melhores/que as de tua boa mãe?
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com aquilo, Harker questiona que se é tão fácil, por que ficara tanto tempo enterrado, no que Drácula lhe responde: “Porque o camponês é um homem tolo e covarde! Aquelas chamas só aparecem uma noite, e nessa noite nenhum homem desta região sai de casa, se puder evitar” (STOKER, 2002, p. 28; grifo nosso). A crítica de Stoker é clara aqui às superstições dos povos da Europa Central e Oriental. A sociedade britânica, principalmente em Londres, onde Bram Stoker vivia com sua esposa e filho, do final do século XIX era movida por ideias de desenvolvimento e progresso, incompatíveis com a mentalidade camponesa romena. Assim sendo, aceitar as superstições sobre mortos saírem dos túmulos era algo inconcebível. O professor da Università di Bologna, Saffo Testoni Binetti, em O Dicionário da Política (1983, p. 1009-1010) define progresso
[...] como idéia [sic] de que o curso das coisas, especialmente da civilização, conta desde o início com um gradual crescimento do bem-estar ou da felicidade, com uma melhora do individuo e da humanidade, constituindo um movimento em direção a um objetivo desejável [...] (grifo nosso).

Podemos ver então que a ideia de progresso visa uma melhora, mas não deve se determinar modelos, pois Binetti diz que “a aceitação de um determinado modelo pode gerar uma atitude conservadora ou de todo reacionária, se ele não se adequar à mutação das situações históricas” (1983, p. 1010), ou seja, por mais que a mentalidade romena não acompanhasse a britânica, ela não necessariamente se encontrava atrasada, mas ainda em busca de “um objetivo desejável”. A Europa Oriental passará por várias situações nas quais não possuía uma forma de seguir o mesmo ritmo do restante do continente europeu, como já mostrado acima. As informações que chegavam eram tardias, e a constante alteração de domínios nunca permitiu que fosse gerado mais investimento do que na região rural. O que restava para os povos da região dos Balcãs eram suas crenças e sua história, que era rica em mitos e heróis. Outra coisa que Harker notara durante a viagem fora o domínio do cocheiro com os animais. Em certa altura do caminho, ouvia os uivos dos lobos, que amedrontaram ele e os cavalos, foi então que o cocheiro parou a carruagem e falou ao pé dos

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ouvidos dos equinos, afagando-os. Então Harker anotou: “como já vi outros adestradores de cavalo fazerem, e com um efeito extraordinário, pois sob seus carinhos eles ficaram perfeitamente controláveis novamente, embora ainda tremessem” (STOKER, 2002, p. 21). Mais a frente na viagem, o cocheiro desceu e sumiu na escuridão, quando a lua sai detrás das nuvens, Harker percebe estar cercado por uma alcateia, tenta afugentalos, batendo na lateral da carruagem, para que o cocheiro se aproximasse, então ouve uma voz elevar-se e quando olha, percebe o cocheiro em pé no meio dos lobos e “Conforme ele estendia os longos braços, como se quisesse afastar um obstáculo impalpável, os lobos foram se afastando cada vez mais” (STOKER, 2002, p. 22). Melton em O Livro dos Vampiros faz um verbete para o assunto e menciona que os vampiros, além de metamorfosearem em alguns animais, também possuíam domínio sobre o rato, a coruja, o morcego, a traça, a raposa e o lobo. Além desses, também teria o cavalo relacionado, mas de acordo com J. Gordon Melton, o cavalo era usado para localizar o vampiro. “Trazido para a beira das sepulturas, o animal era guiado por vários túmulos na crença que hesitaria e se recusaria a passar por cima do corpo de um vampiro” (MELTON, 2003, p. 23). Já no castelo de Drácula, Jonathan Harker vai tomando conhecimento sobre o seu anfitrião. Assim que chega e recepcionado por Drácula e o chama de conde, no que lhe é respondido: “Sou Drácula, e lhe dou boas vindas” (STOKER, 2002, p. 24). Nesse momento vê-se a recusa de Drácula ao aceitar o título de conde, o que mais tarde Stoker mostrara, através do personagem Abraham Van Helsing o motivo dessa recusa. Mais para frente, enquanto Drácula e Harker conversam, na biblioteca, Drácula fala do prazer de conhecer finalmente Londres, na qual só conhecia pelos livros, e Harker se mantem lisonjeiro, elogiando seu anfitrião na forma de falar perfeitamente o idioma inglês, no que este responde: “Aqui sou um nobre, Sou um Boyar. As pessoas comuns me conhecem, sou um mestre. Mas um estranho em uma terra estranha não é ninguém. Os homens não o conhecem, e não conhecer é não se importar” (STOKER, 2002, p. 27; grifos nossos).

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O termo boyar, para o período do século XIX, é anacrônico. A Britannica Online Encyclopedia refere-se ao termo como
[…] member of the upper stratum of medieval Russian society and state administration. In Kievan Rus during the 10th–12th century, the boyars constituted the senior group in the prince’s retinue (…) and occupied the 62 higher posts in the armed forces and in the civil administration (acesso em 13 nov. 2012).

Ao usar o termo para definir a formação política de Drácula, Stoker coloca mais uma vez o povo romeno como retrógrado e sem nenhum progresso, nem na divisão social, pois o personagem se considera um membro de uma monarquia bem anterior, até mesmo, ao Drácula histórico. Percebe-se também que Drácula não deseja ser diferenciado pelos ingleses, por causa do seu sotaque e modo de agir. Ele não deseja ser discriminado Nobert Elias, em seu trabalho Os Estabelecidos e os Outsiders, define isso como um established, que em melhores palavras seria um indivíduo que ocupa uma posição de prestígio e poder, fazendo parte da “boa sociedade” (1994, p. 7). Estrangeiros, em geral, eram considerados como membros do grupo dos outsiders, pois não faziam parte daquela sociedade homogênea britânica. Eram pessoas que chegavam ao Reino Unido buscando uma nova oportunidade de vida, mas mesmo que fosse detentor de posses, dificilmente seria aceito, pois o identificariam como alguém de fora, fosse pelas vestimentas, pela cor da pele, do cabelo ou pela forma de falar. Drácula então pede que Harker lhe apresente sua propriedade em Purfleet, em um distrito próximo a Londres, algo que o advogado faz com imenso prazer. Após isso feito, Drácula se retira e, ao olhar em cima da mesa, Harker percebe que existem outras propriedades marcadas em um mapa, uma localizada em Exeter, ao sul do Reino Unido, e outra em Whitby, em North Yorkshire, ao norte do país britânico. Podemos concluir nesse trecho do livro que o personagem faz um mapa de suas ações, quase semelhante ao mapeamento das áreas industriais do Reino Unido,

[...] membro do estrato superior da sociedade medieval russa e administração do Estado. No Principado de Kiev durante o século X e XII, os boiardos constituíram o grupo sênior de comitiva do príncipe (...) e ocupou os postos mais altos nas Forças Armadas e na administração civil (tradução nossa).

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onde existiam uma maior aglomeração de pessoas, como Cardiff, ao norte, Sheffield, ao sul, e Londres, no centro. Harker também termina percebendo que Drácula sempre inventa desculpa para não cear. Na mitologia, o vampiro é uma pessoa morta que volta a vida, por conseguinte, todos seus órgãos deixaram de funcionar, não havendo necessidade se alimentar, a não ser por sangue, alimento este que sustenta o vampiro por um tempo exíguo. Nas anotações do diário de Harker termina acontecendo um fato estranho. Enquanto estava fazendo a barba de frente para um espelho, sente uma mão fria tocar seu ombro e ouve a voz de Drácula cumprimentando-o. Termina se cortando, mas o que lhe causou estranheza foi o fato de não ter visto o seu anfitrião no reflexo do espelho, já que este mostrava todo o quarto.
[...] Assustei-me, pois estava surpreso por não tê-lo visto, já que o reflexo do vidro mostrava tudo do quarto, atrás de mim. (...) Respondendo ao cumprimento do Conde, virei-me novamente para o espelho a fim de verificar o resultado do erro. Não podia estar enganado agora, pois o homem estava ao meu lado, e podia vê-lo sobre os ombros. Mas seu reflexo não aparecia no espelho! Via todo o quarto, mas nem sinal de um pessoa, exceto eu mesmo [...] (STOKER, 2002, p. 31)

Como Melton menciona em O Livro dos Vampiros, a relação do espelho com o mito do vampiro só vem a aparecer, pela primeira vez, no romance de Stoker. Em nenhum país que tenha relação às histórias de vampiros, possuía relação ao espelho. Acredita-se então que Stoker veio a fazer uso de um folclore sobre espelhos.
[...] Os espelhos eram vistos como reveladores, de certa forma, do alter ego da pessoa, a alma. Ao se virem refletidos num espelho, os indivíduos encontravam a confirmação de que havia uma alma e que portanto a vida tinha continuidade. (...) A noção de que a imagem refletida no espelho era de certa forma a alma enfatizava a idéia de que ao quebrar os espelhos haveria sete anos de azar. Quebrar o espelho também danificava a alma. Assim, pode-se especular que o vampiro não tinha alma e portanto nada tinha a refletir no espelho [...] (MELTON, 2003, p. 288-289)

O corte provocado pela navalha, faz com que um risco de sangue corra pelo pescoço de Harker, o que instiga o apetite de Drácula.
[...] Quando o Conde viu meu rosto, seus olhos brilharam com uma espécie de fúria demoníaca, e ele avançou, segurando-me pela garganta. Afasteime e a mão dele tocou o rosário com o crucifixo que eu ainda usava em volta do pescoço. Aquilo provocou uma mudança imediata nele, pois a fúria

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passou tão rapidamente que eu mal pude acreditar que a tivesse visto (STOKER, 2003, p. 31)

Em várias culturas o sangue é uma fonte essencial de vida. Na América latina, existiam monstros como o asema no Suriname, o loogaroo no Haiti e o sukuyan em Trindad, que eram retratadas como mulheres, fossem idosas ou jovens, que viviam durante o dia em comunidades e à noite, tiravam a pele e se tornavam uma grande bola azul que entrava nas casas e bebia o sangue de seus vizinhos. Na cultura asteca, os sacrifícios de sangue eram comuns. O Doutor em História Social Jorge Luiz Ferreira, em seu livro Incas e Astecas: culturas pré-colombianas (1988) fala que os sacrifícios de sangue, para os astecas, eram dedicados ao movimento do sol.
[...] No mito do surgimento da Quinta Era, os deuses teriam criado o sol a partir do mortal Nanáhuatl, mas sem o menor controle do seu movimento. O movimento solar era de responsabilidade dos homens que, por meio dos sacrifícios humanos, injetavam no astro o “líquido precioso”, o sangue. Era a ameaça permanente do mundo que explicava os sacrifícios humanos, e a cada sacrifício, o fim do mundo era adiado (FERREIRA, 1988, p. 32-33; grifo nosso).

Nos povos da Europa Central e Oriental, monstros bebedores de sangue, como da América latina, também existiam. A Romênia, em específico, tinha grande influência dos povos eslavos. Os strigoi (plural de strigoi vii, ou seja, vampiro vivo) era uma bruxa que depois de morrer virava uma vampira. A palavra deriva do romeno striga, que por sua vez procede do latim strix, que fazia referência a um “espírito maligno que atacava as crianças durante a noite” (MELTON, 2003, p. 692). Os romenos também usavam o termo vircolac, que era uma variação da palavra grega vrykolakas 63. J. Gordon Melton faz uso da transcrição da autora escocesa Emily de Laszowska Gerard em The Land Beyond the Forest: Facts, Figures, and Fancies from Transylvania para falar sobre os vampiros romenos:
Decididamente o mal é o nosferatu , ou vampiro, no qual todo camponês romeno acredita piamente como acredita no céu e no inferno. Existem dois tipos de vampiros, os vivos e os mortos. O vampiro vivo é geralmente um filho ilegítimo de duas pessoas ilegítimas; porém mesmo em um pedigree impecável não é uma segurança contra a entrada de um vampiro na residência da família, visto que toda pessoa morta por um nosferatu se torna num vampiro após a morte e continuará a sugar o sangue de outras Ou do servo-croata vukodlak. Palavra derivada do eslavo antigo nosufuratu, que fora extraída do grego nosophoros, que significava portador de pragas.
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pessoas inocentes até que o espírito tenha sido exorcizado pela abertura do túmulo da pessoa suspeita, enfiando uma estaca em seu corpo ou metendo uma bala no caixão. Andar em torno da sepultura fumando em cada aniversário de morte também supõe-se que seja eficaz para confinar o vampiro. Em casos muito obstinados de vampirismo, recomenda-se cortar fora a cabeça, recolocando-a no caixão com a boca cheia de alho, ou extrair e queimar o coração, espalhando as cinzas sobre o túmulo (GERARD, 1888, apud MELTON, 2003, p. 689).

A Romênia possuía um imaginário rico e que despertara o interesse de muitos. Não somente Emily Gerard, mas também o orientalista Arminius Vambery (1832-1913), que escrevera o livro Story of Hungary (1888) e tinha um extenso conhecimento do território pertencente aos Impérios Austro-húngaro e Turco-Otomano, servindo a Bram Stoker como consultor pessoal a respeito da cultura da Transilvânia. Depois dos acontecimentos com o espelho – que Drácula jogou fora, fazendo-o em pedaços – e o corte, Harker percebe que estava feito prisioneiro por seu anfitrião, pois os acessos à maioria das portas do castelo se encontravam fechadas, ficando com muitas poucas, como seu quarto e a biblioteca, por exemplo. Naquele mesmo dia, à noite, Harker transcreve no seu diário a conversa que tivera com Drácula a respeito da Transilvânia e nota que o entusiasmo do “Conde” é tão grande e eloquente que aparenta ter vivido na época, o que ele justifica novamente usando a expressão de ser um boyar, e por isso tem orgulho dos feitos do seu povo. Harker então cita a história que Drácula lhe conta:
“Nós, szekes, temos direito ao orgulho, pois em nossas veias corre o sangue de muitas bravas raças que lutaram como luta um leão, para dominar. Aqui, no cerne das raças europeias, a tribo dos ugros trouxe da Islândia o maior lutador que lhes fora legado por Thor e Odin, e com o qual caíram com tamanha fúria e intento sobre a costa da Europa, da Ásia e até da África, que os povos acreditavam estar sendo atacados por verdadeiros lobisomens. Aqui, também, quando chegaram, encontraram os hunos, cuja fúria de guerra varrera a terra como uma chama viva, fazendo que as pessoas pensassem que em suas veias corria o sangue de velhas bruxas que, expulsas de Cítia, haviam conspurcado com os demônios no deserto. Tolos, tolos! Que demônio ou bruxa poderia ser tão grande quanto Átila, cujo sangue está nestas veias?” Ele ergueu os braços [...] (STOKER, 2002, p. 33).

Lobisomens, bruxas e demônios, constantemente têm sido associados ao vampiro. Desde a primeira dissertação de Davanzati, a ligação entre esses quatro vêm sido usadas. Como já mencionado, crê-se que bruxas depois de mortas voltavam como vampiros. Havia também, como já descrito, que o vampiro possuía a capacidade de se metamorfosear “em vários animais, especialmente um morcego, um lobo ou um

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cachorro” (MELTON, 2003, p. 781), por conta da transformação em lobo, em algumas regiões da Europa Oriental, fazia-se uma associação com o lobisomem, e neste interim, este era associado ao demônio, também. Já no Ocidente buscava-se uma explicação científica para qualquer fato sobrenatural inexplicável, tentando identifica-lo com alguma doença. O lobisomem era um homem que sofria de um distúrbio psicológico conhecido como licantropia, que fazia o homem crer ser um lobo ou se metamorfosear em um, bruxarias e feitiços eram ligados às medicinas natural e alopática e ao curandeirismo, e os vampiros poderiam ser pessoas que sofriam de catalepsia ou porfiria. Mas mesmo que viessem a ser explicadas, o sobrenatural nunca deixou de ser interessante. Harker, com o passar do tempo no castelo, buscando algo para se distrair, observa pela janela de um dos vários corredores do castelo a vista que dali poderia se ter, quando nota, em um andar abaixo de onde estava, a cabeça de Drácula saindo pela janela. Ele cita que acha divertido, mas que depois fica horrorizado com o que vê.
[...] vi o Conde lentamente emergir da janela e começar a se rastejar para baixo, pela parede do castelo, acima do terrível abismo, de cabeça para baixo e com a capa se abrindo ao seu redor, como grandes asas. (...) Vi os dedos e os artelhos se agarrarem às quinas das pedras, sem argamassa, por causa dos desgastes dos anos; e, aproveitando-se de todas as protuberâncias e irregularidades, o Conde descia a uma velocidade vertiginosa, como um lagarto correndo pela parede. Que tipo de homem é este, ou que tipo de criatura parecida com homem? [...] (STOKER, 2002, p. 37).

Não era a primeira demonstração de Drácula de ser algo diferente do ser humano comum que Harker conhecera, mas foi a que mais o espantou. Jonathan Harker já notara que no castelo só estavam ele e Drácula, tanto que já sabia que fora seu anfitrião que conduzira a carruagem que o levou ao castelo. Dessa forma, sabia que Drácula que domara os lobos na floresta, e que ele possuía uma força que não se assemelhava a sua idade. Enquanto o advogado fazia a barba, Drácula não refletira em seu espelho, e ficara colérico ao ver o sangue de Harker escorrer pelo pescoço, somente acalmando quando tocou o crucifixo. Avaliara que o “Conde” tinha um extenso conhecimento sobre a história do seu país, como se tivesse vivenciado cada momento.

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Podemos notar que, com o passar do tempo de Jonathan Harker no castelo de Drácula, Bram Stoker construía o seu vampiro, uma pessoa imortal, com força estupenda, domínio sobre os animais, como o lobo e o cavalo, que não reflete no espelho, venera o sangue e rejeita símbolos religiosos, como o crucifixo. Depois de uma conversa referente aos trâmites legais da Inglaterra, Drácula obriga Harker a escrever duas cartas para avisar que ele ficaria mais um mês. Uma das cartas deveria ser para o seu chefe, o Sr. Peter Hawkins, e a outra para quem ele desejasse, portanto ele escreveu para sua noiva, Mina Murray. Mina é mencionada desde o começo do livro, nas anotações de Harker sobre receitas de pratos que experimenta, mas ela se torna muito mais do que uma mera nota de rodapé. Mina representava o desejo de Harker estar com alguém, de ter alguém para compartilhar suas alegrias e tristezas, algo que Drácula não tinha, como menciona um das mulheres quando Drácula as interrompe de atacar Jonathan (2002, p. 40): “Você mesmo jamais amou. Você nunca ama!”, ao que ele respondeu: “Sim, eu também sei amar”. Raymond T. McNally e Radu Florescu, dois professores da Universidade de Boston, em seu trabalho Em Busca de Drácula e outros vampiros, menciona que o Drácula histórico havia tido uma esposa. Eles narram:
[...] A esposa de Drácula informou o marido sobre o aviso. Ela lhe disse que preferia ter seu corpo devorado por peixes lá embaixo do rio Arges a ser capturada pelos turcos. Drácula sabia por sua própria experiência em Egrigoz o que, no caso, significava ser prisioneiro. Percebendo o quanto desesperadora era sua situação, e antes de qualquer outra interferência, a mulher de Drácula subiu correndo as escadas e se atirou da torre. Esse ponto do rio é hoje conhecido como Riul Doannei, rio da Princesa. Essa narrativa trágica é praticamente a única menção à primeira mulher de Drácula (FLORESCU; MCNALLY, 1995, p. 65).

Em algumas mídias posteriores a metade do século XX, esse elemento veio a ser inserido. A primeira vez foi em um filme para a TV de 1974, intitulado Bram Stoker’s Dracula, com direção de Dan Curtis e com o ator norte-americano Jack Palance vivendo o personagem-título. No filme, no salão principal do castelo de Drácula, existe um quadro de Drácula montado em um cavalo de forma imponente, com uma mulher ao fundo a admira-lo. No filme ela seria a sósia da jovem Lucy Westenra.

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Em 1985, no Brasil, dois artistas inovam nos quadrinhos a lançar a série Drácula – A Sombra da Noite. A história era escrita pelo pernambucano Ataide Braz e desenhada pela paulista Neide Harue. Na história vimos sinais da esposa de Drácula, que é vampirizada, fazendo-o mata-la. Depois disso ele termina amaldiçoado por uma bruxa magiar e se torna um vampiro. Já no século XIX, em busca da reencarnação de sua esposa, Drácula termina reencontrando-a na Inglaterra, a confunde com a jovem Lucy Westenra, que tem semelhança física com sua Catherine, mas descobre que na verdade era Mina Harker a reencarnação de sua amada. No filme de 1992, Drácula de Bram Stoker, o roteirista James V. Hart faz uso das informações de McNally e Florescu e apresenta Elisabeta, vivida no filme pela atriz Winona Ryder, que após receber uma carta avisando sobre a morte do marido, Vlad o Empalador, em um campo de batalha, decide tirar a própria vida. Como suicidas, nas crenças católicas, não têm direito a ser enterrado em solo sagrado, Vlad amaldiçoa a Igreja e penetra sua espada na cruz, de onde jorra sangue, ao qual ele bebe efusivamente. Já em 2000, também fazendo uso do trabalho dos historiadores da Universidade de Boston, Thomas Baum escreve o roteiro do filme para TV Dark Prince: The True Story of Dracula, dando uma reinterpretação para biografia do príncipe valáquio. No filme , dirigido por Joe Chapelle, com Rudolf Martin fazendo o papel de Vlad o Empalador, este se casa com Lidia, uma jovem por quem se apaixona, filha de um dos traidores de seu pai, Vlad Dracul. No decorrer do filme, Lidia termina enlouquecendo devido às atrocidades que testemunha do marido cometer, e em um último ato, sobre pedidos veementes de Vlad para que não o fizesse, ela se joga no abismo que daria no rio, que recebe a referência de rio da Princesa. Os acontecimentos que se sucederam no castelo de Drácula mostram que o imaginário de um povo se torna real quanto mais convivemos com ele. As crenças em que somos inseridos começam a fazer parte do nosso íntimo, da nossa vida. Elas se tornam nossos pesadelos, nossos temores. Bram Stoker vivenciou isso após ler Carmilla de Sheridan Le Fanu, assim como acontecera com os vários leitores da obra de Stoker, Dracula.

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Pesavento no Em Busca de uma Outra História: Imaginando o Imaginário, explica melhor essa ideia do imaginário tomar forma de real ao dizer que
[...] o real e, ao mesmo tempo, concretude e representação. Nesta medida, a sociedade é instituída imaginariamente, uma vez que ela se expressa simbolicamente por um sistema de idéias-imagens que constituem a representação do real. Portanto, o imaginário, enquanto representação, revela um sentido ou envolve uma significação para além do aparente. É, pois, epifania, aparição de um mistério, de algo ausente e que se evoca pela imagem e discurso (PESAVENTO, 1995, p. 16).

Podemos concluir que nas primeiras partes de Dracula, Bram Stoker tenta passar o fascínio que o Oriente pode ser com suas paisagens pitorescas e seu povo ainda em vias de desenvolvimento, mas também que guarda grandes perigos com seus folclores e mitos, que podem gerar grande temor e preconceitos graças ao ceticismo. 3.2 NA INGLATERRA Terminada a parte que buscava construir o seu vampiro, Bram Stoker o leva para o seu país, a Inglaterra do século XIX. Como já comentado, inicialmente Stoker localizaria sua história na Hungria, como fizera Le Fanu com Carmilla, mas após tomar conhecimento do trabalho de M. me Emily Gerard sobre a Transilvânia, decidiu por localizar o castelo de Drácula e toda a estrutura do mito naquela região ao norte da Romênia, que aparentava ser bem mais rica, de acordo com a narrativa da escritora. A Romênia era um país de pouca importância para o Reino Unido, a não ser quando a Rússia entrou em conflito com o Império Turco para adquirir aquela região e a Bulgária, intencionando ter acesso ao Mar Mediterrâneo. Mas muitos escritores como M.me Gerard, que era casada um oficial da cavalaria do Império Austrohúngaro, e o orientalista húngaro Arminius Vambery, tinham grande interesse na cultura, costumes, mitos e folclores da região romena. Assim como Bram Stoker viria a ter também, usando os trabalhos e consultas de ambos os autores. Mas ao levar Drácula para a Inglaterra, mais exatamente na cidade de Whitby, na região costeira de North Yorkshire, Stoker quis mostrar a forma violenta que aquela

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cultura entrara na Grã-Bretanha, e fez isso através do relato da chegada do navio Deméter no atracadouro de Tate Hill Pier.
[...] o farol já havia focalizado uma escuna, com todas as velas içadas, provavelmente a mesma vista no início da noite. O vento soprava agora para o oeste, e a multidão de observadores estremeceu ao compreender o perigo que o barco enfrentava. Entre ele e o porto, existia um grande recife onde tantos navios já tinham sofrido maus pedaços; e com a velocidade e violência do vento, seria impossível alcançar a entrada do porto. Estava quase na hora da maré alta, mas as ondas eram tão gigantescas que deixavam à mostra os baixios e as depressões; e a estranha escuna se movia com tamanha velocidade que um velho lobo do mar chegou a exclamar: “Para algum lugar ele vai, ainda que seja o inferno”. Veio, então, uma massa de nevoeiro, ou uma verdadeira nuvem da qual jorrava tanta água que parecia deixar todos os sentidos físicos dormentes, exceto o da audição, pois o ribombar da tormenta já estava mais alto e ensurdecedor do que nunca. O foco do farol se fixara agora na barra do porto a leste, aonde o choque viria a qualquer momento, deixando todos paralisados na expectativa. O vento mais uma vez mudou de rumo, soprando para nordeste e dissipando o restante do nevoeiro marítimo. E então, o milagre aconteceu: a escuna ressurgiu, impulsionada pelo mar revolto até escorarse na areia e ganhar o porto. Um grito de horror, porém, ecoou dos observadores: preso ao leme, estava um cadáver. Sua cabeça pendia para o lado, enquanto o corpo balançava a cada movimento do navio. Milagre, sem dúvida, que aquela nau desgovernada tivesse chegado à segurança da terra, pelas mãos de um corpo inanimado. Mas a rapidez dos eventos não parou por aí. A escuna continuou se movendo e foi se chocar contra o saliente atracadouro sob o Penhasco Leste, conhecido pela população local como Tate Hill Pier. O impacto do navio contra a areia foi violento. Todos os mastros e velas 65 caiu. O mais estranho de tudo, sofreram abalo, e o “cesto da gávea” porém, foi que, no momento da colisão, um enorme cão saltou sobre o convés, como se tivesse sido expelido de dentro do navio, pelo próprio choque. Logo em seguida, pulou para a areia e desceu o íngreme penhasco que cerca todo o cemitério (...) e desapareceu na escuridão, que parecia mais intensa fora do foco do farol (STOKER, 2002, p. 69; grifo nosso).

A narrativa de Stoker usa a metamorfose de Drácula e cão para mostrar como este grande mal adentrou na Inglaterra, trazendo sua pestilência. Mas antes dele chegar, nos são apresentadas Mina Murray e Lucy Westenra. Uma , que era professora, representava o determinismo, a segurança, a objetividade e a força da mulher em uma época na qual o filósofo liberal John Stuart Mill, a enfermeira Florence Nightingale e a ativista Annie Besant, brigavam pela emancipação feminina, garantindo-lhe o direito ao voto e melhores estudos, e a outra representava a fragilidade e a inocência feminina, com suas inseguranças e indecisões.

Local mais elevado das antigas embarcações, aonde ficava um vigia examinando o horizonte em busca de terra.

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Enquanto Mina já estava noiva do advogado Jonathan Harker, lecionava e fazia planos para o futuro, Lucy permanecia resoluta quanto a quem escolheria como noivo: o jovem aristocrata Arthur Holmwood, filho de Lorde Godalming, o médico John Seward, proprietário do manicômio local, ou o texano Quincey P. Morris, que era um rico empresário norte-americano, sendo assim, todos possuidores de grande riqueza ou de vasta herança. Ela também não tinha um futuro em vista, já que sua família era da burguesia inglesa. Estava acostumada as pessoas fazerem as coisas para ela, sem nunca precisar fazer mais do que acordar, comer e se divertir. Em Drácula de Bram Stoker (1992), o roteirista James V. Hart dá uma visão mais hedonista 66 a Lucy, dando uma visão da sociedade britânica mais como busca de prazer do que de preservar a inocência. Mas a inocência é mais fácil de ser pervertida, dessa forma a personagem Lucy é facilmente seduzida e contaminada com o mal do Oriente. Ela é salva pela determinação e força de Mina, que a socorre quando Lucy levanta durante uma crise de sonambulismo, mas em um único vacilo termina por acontecer o mau agouro.
Quando cheguei ao alto, vi o banco e a figura de branco, pois já estava suficientemente perto para distinguir detalhes mesmo entre as sombras. Sem dúvida, havia algo ali, longo e negro, curvando-se sobre a figura quase reclinada. Gritei apavorada: “Lucy! Lucy!” e a sombra levantou a cabeça, mostrando um rosto branco, com olhos vermelhos e brilhantes (STOKER, 2002, p. 78).

No momento em que Lucy é atacada por Drácula, vemos a corrupção da inocência ser retratada no livro. É a perda da esperança de algo bom continue a existir. Podemos ver isso quando alguém termina infectado por alguma das doenças que assolavam a Grã-Bretanha nesse período. Doenças como sífilis, hepatite, anemia, eram comuns e faziam muitos britânicos perderem a esperança. O escritor Oscar Wilde foi assolado pela sífilis. Bram Stoker, que já nascera com problemas de saúde aos quais nenhum médico sabia exatamente quais eram.
Criança, Bram era tão doentio e frágil que não se esperava que sobrevivesse, ficando confinado em seu leito nos primeiros oito anos de vida. Mais tarde ele se recordaria de que nunca havia experimentado levantar-se e caminhar antes dessa época. (...) A exata natureza da sua doença foi um mistério para ele e para seus médicos, como também foi sua Teoria segundo a qual o comportamento (...) humano é motivado pelo desejo de prazer e pelo de evitar o desprazer (HOUAISS, 2009).
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cura – não é de estranhar que Bram tivesse toda vida um agudo interesse por doenças misteriosas e diagnósticos (FLORESCU; MCNALLY, 1995, p. 143).

Bram Stoker, em 1905, adquiriu a doença de Bright, que afeta os rins, mas existem afirmações que como Wilde, Stoker também tinha sífilis, que veio a debilitar seu corpo e causar-lhe a morte em 1912. Uma das pessoas que alega isso é o biógrafo e sobrinho-neto de Stoker, Daniel Farson, mas fora contestado pelo especialista em Drácula, Leslie Alan Shepard, que escrevera The Library of Bram Stoker/A Note on the Death Certificate of Bram Stoker, integrado ao livro Bram Stoker’s Dracula: Sucking through the Century: 1897-1997 (1997), editado por Carol Margaret Davison, mas a alegação de que morrera de sífilis terciária foi reafirmada pelos escritores Peter Haining e Peter Tremayne. Florescu e McNally preferem a abordagem que Bram Stoker morreu de “exaustão” (1995, p. 160). Antes de Lucy morrer do mal que adquira, um dos seus pretendes, John Seward convoca o holandês Abraham Van Helsing para ajudar a desvendar o mal que estava afligindo a jovem. A ligação da Inglaterra com a Holanda vinha desde o século XVII, quando ocorrera a Revolução Gloriosa (1688-1689), então a entrada de Van Helsing tinha sido a mais acertada, pois como William III de Orange salvara a Grã-Bretanha das mãos do rei James II da Inglaterra, Van Helsing salvaria a jovem Lucy do destino fatal. Abraham Van Helsing chega como um especialista no assunto, como vários outros vampirólogos 67 desse período. Entre eles, o mais conhecido é Montague Summers (1880-1940), que escrevera várias obras sobre o assunto. Van Helsing já surge trazendo artefatos para combater o mal que assola Lucy Westenra, demonstrando ser extenso conhecedor das crenças sobre vampiros, ele faz uma transfusão de sangue imediata na jovem, contando com Arthur Holmwood e John Seward. Quando inicia a transfusão de sangue, Van Helsing enaltece Holmwood como homem e cavaleiro: “Venha! (...) O senhor é um homem, e é de um homem que precisamos. Você é melhor do que eu, melhor do que meu amigo John” (STOKER,
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Termo usado para as pessoas que estudam os fenômenos dos vampiros.

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2002, p. 104). Essa elevação do nobre aristocrata tinha dois motivos, primeiro por ter sido o escolhido como nubente da jovem Lucy Westenra, e em segundo porque, com certeza, Bram Stoker considerava as pessoas ligadas à realeza com sangue mais puro do que nas outras camadas sociais. Tanto é fato que, ele vai, na medida em que Lucy definha, decaindo a qualidade do sangue que a alimenta. Primeiro do jovem Dr. John Seward, depois do nobre professor Van Helsing, fechando com o sangue do milionário norte-americano Quincey P. Morris. Nobert Elias, em Os Estabelecidos e os Outsiders (2000) coloca da seguinte forma a diferenciação dos grupos sociais:
[...] o grupo estabelecido atribuía a seus membros características humanas superiores; excluía todos os membros do outro grupo do contato social não profissional com seus próprios membros; e o tabu em torno desses contatos era mantido através de meios de controle social como a fofoca elogiosa [...] (ELIAS, 2000, p.20; grifo nosso).

Isso nos leva a ver que Bram Stoker sempre buscava uma diferenciação entre as classes sociais e os estrangeiros. Holmwood por seu um nobre tinha sangue melhor do que Seward, que era um burguês, mas este por sua vez tinha um sangue melhor do que Van Helsing, que ela um holandês, enquanto este tinha um sangue melhor do que Quincey Morris, pois era um europeu. Apesar de Stoker ter um grande apreço pelos norte-americanos, não podemos negar a diferenciação, tanto que o sangue de Morris não é suficientemente bom para reestabelecer à saúde da jovem Lucy, que morre. O teórico cultural jamaicano Stuart Hall, em seu trabalho A identidade cultural na pós-modernidade (2002), escreveu:
[...] A lealdade e a identificação que, numa era pré-moderna ou em sociedades mais tradicionais, eram dadas à tribo, ao povo, à religião e à região, foram transferidas, gradualmente, nas sociedades ocidentais, à cultura nacional. As diferenças regionais e étnicas foram gradualmente sendo colocadas, de forma subordinada, sob aquilo que [Ernest] Gellner chama de “teto político” do estado-nação, que se tornou, assim, uma fonte poderosa de significados para as identidades culturais modernas (HALL, 2002, p. 49).

Podemos ver então que a fidelidade de Bram Stoker para os britânicos, sendo ele um irlandês, era a mesma de Van Helsing, e futuramente será a do texano Quincey Morris.

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No desenrolar das tentativas de curar Lucy, Stoker começa a criar as formas de combater esse mal. Além das transfusões de sangue, ele leva para a moça flores de alho (p. 38), e adorna todo o quarto de Lucy com elas, não intenção de espantar o mal. Depois do falecimento de Lucy, para prender o mal que ela carregava dentro de seu sepulcro, Van Helsing sela a porta com hóstia eucarística (p. 39) e um crucifixo. Ao fim, vendo que mantê-la confinada não seria o suficiente, convence Arthur Holmwood, que se tornara Lorde Godalming, após o falecimento do pai, que um mal avassalador tomara conta de Lucy e que somente ele, como noivo dela, poderia lhe dar o sossego eterno. Este então, munido de uma estaca, com um golpe de martelo sobre o artefato, ele deu fim a maldição que sua jovem noiva tinha sido acometida. Então o professor corta a cabeça de Lucy e enche sua boca com alho. Mas o mal não tem descanso, e enquanto o grupo de homens, unidos agora ao jovem advogado Jonathan Harker, que conseguira retornar do seu martírio na Transilvânia, caçavam o vampiro, a jovem Mina seria a próxima vítima de Drácula. Apesar da força e do determinismo que Mina Harker expressava, ela ainda era uma mulher, e na compreensão de Bram Stoker, não teria força o bastante para resistir aos males do vampiro, seria uma vítima fácil, mas não esmoreceria, e mesma atingida pelo mal, continuaria a lutar. No Reino Unido, por vezes Mill, unido a Florence Nightingale, tentaram que a Câmara dos Comuns, quando ocorreram os dois primeiros Atos de Reformas (1832 e 1867), que permitiram a classe média e as classes trabalhadoras o direito ao voto, homologar os direitos da mulher de votar, mas sempre fora negado. Isso não quis dizer que desistiriam, mas infelizmente não viveram para ver a garantia dos direitos do voto feminino serem decretados em 1918, pois John Stuart Mill faleceu em 1873 e Florence Nightingale faleceu em 1910. A luta de Mina poderia ser diferente, mas ela lutava pelo direito de viver. Mesmo marcada pela hóstia que Van Helsing colocou em sua testa, mostrando sua impureza, por ser sido atacado por um mal, como ocorria com as pessoas com sífilis.

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Mas a cura existia e viria com a eliminação do vampiro, de forma que Van Helsing conhecia, diferente da sífilis que só veio a ter uma cura já no século XX. Primeiramente, Van Helsing e os homens visitaram os locais que Drácula havia deixado suas caixas com solo de seu país, pois como explica J. Gordon Melton em O Livro do Vampiros:
No folclore da Europa oriental, acreditava-se que vampiros eram os corpos reavivados de algum membro recém-falecido da comunidade. Moravam em seus túmulos no cemitério local. Eram comumente cercados pelo seu solo nativo [...] (MELTON, 2003, p. 743).

Não que no folclore destaque-se a necessidade do solo nativo, mas Melton tem outra teoria sobre o assunto:
O transporte do solo nativo de Drácula para Londres também teve um propósito útil no que muitos críticos viam como um tema fundamental em Dracula – o medo que existia entre os civilizados ingleses (...) com relação à invasão de sua sociedade por representantes das culturas “incivilizadas” que tinham conquistado [...] MELTON, 2003, p. 743; grifo nosso).

Podendo destacar então que ao atacarem as caixas contendo o solo nativo de Drácula, seria um ataque aos povos “invasores” do solo britânico, na tentativa de descontaminar as terras da Grã-Bretanha do mal do estrangeiro. Assim, após eliminarem todas as caixas, o próximo passo seria eliminar o próprio mal e garantir a saúde de Mina e sua recuperação. 3.3 UM FINAL FELIZ Radu Florescu e Raymond T. McNally no trabalho Em busca de Drácula e outros vampiros (1995, p. 159), menciona que o personagem-título da obra foge sozinho para suas terras, como fizera quando se viu cercado pelo seu irmão, Radu III o Belo, e o exército turco. Enquanto Drácula viajava, na última caixa que lhe restara de solo nativo, para a Transilvânia em uma escuna 68, Van Helsing, Seward, Godalming, Jonathan e Mina Harker viajavam de trem, em mais uma demonstração do desenvolvimento ocidental para as tecnologias orientais tardias.

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Embarcações marítimas movidas à vela.

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Bram Stoker cria uma forma própria para citar o atraso dos povos orientais através de Drácula. Ele chama de “a mentalidade infantil do conde” (2002, p. 273), como se infantil quisesse dizer inexperiente, incapaz de poder vencer a mentalidade ocidental. Antes de iniciarem a caçada que terá como objetivo a destruição de Drácula, Stoker, através do seu caçador de vampiro Abraham Van Helsing, constrói seu mito do vampiro, citando a todos os artifícios já precitados, como o crucifixo, a hóstia, o espelho, o solo nativo, o espinheiro, o domínio sobre os animais, como o lobo e o cavalo, a capacidade de se transformar em morcego ou cão, além de citar a capacidade de poder diminuir de tamanho ou mesmo de fazer surgir uma bruma a sua volta ou se transformar em uma poeira natural a luz do luar, mas menciona também a limitação de seus poderes, que quase cessam “com a chegada do dia” (2002, p. 197), que é preciso estar próximo ao local que está ligado para transformar-se, mas sendo possível somente ao meio-dia, ou no nascer ou pôr-dosol. Stoker tenta enfatizar essas características para que o seu leitor possa ter ideia de como lidar com um mal, que mesmo ele tendo força, sempre possui fraquezas. A caçada a Drácula, já na Romênia, toma três vertentes, uma pelo mar, quando Godalming aluga uma lancha a vapor e segue junto com Jonathan Harker, já Quincey Morris e John Seward seguem a cavalo, por terra, e Mina e Van Helsing continuam a viagem de trem, pois a própria Sra. Harker criara um esquema para alcançarem Drácula. A certa altura, Van Helsing “elogia” Mina dizendo que “Ela tem o cérebro de um homem, um cérebro de um homem muito dotado, e o coração de uma mulher” (STOKER, 2002, p. 193). Bram Stoker tinha conhecimento da busca da emancipação da mulher no ambiente masculino britânico, mas isso não queria dizer que ele a consideraria superior em raciocínio, sendo assim, ao considerar Mina Harker brilhante, ele precisava caracterizá-la com um cérebro masculinizado, pois os homens raciocinavam, enquanto as mulheres sentiam.

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Por vezes Mina demonstrou sua capacidade intelectual e sua percepção, fosse no esquema de como perseguiriam Drácula, fosse na capacidade de decorar os horários de trem. Não que fosse uma mulher fútil e sem nada para fazer, já que, como citado, era uma professora, mas no raciocínio de Stoker, através de Van Helsing, porque ela tinha um “cérebro de homem”. Van Helsing e Mina, como viajavam de trem, chegaram antes de Drácula e dos outros. E à noite terminam sendo molestados pelas vampiras que residem no castelo de Drácula. Elas tentam Mina, mas esta é salva por Van Helsing que os cerca com a hóstia eucarística pulverizada, mantendo o mal do lado de fora do círculo. Pode-se notar que o tempo todo Bram Stoker tenta tornar a crença cristã mais forte do que qualquer outra força sobrenatural. Por vezes vimos Van Helsing clamando aos céus, ou a Deus, fazendo orações, pulverizando hóstia, flagelando Mina com uma, pregando crucifixos. Ele coloca a fé cristã acima de qualquer mal, algo presente no século XIX. A fé a qual Stoker tanto prega em todo livro é posta em constante em contraste aos males que a humanidade eram assolada, que ele mesmo – possivelmente – fora atingido, como se essa fé curasse esses males e não o crescimento científico. Mas para combater o mal, o desenvolvimento se fez necessário, pois como ele e Mina alcançariam o castelo antes de Drácula se não fosse a viagem de trem, que segue mais rápido do que uma escuna ou uma carruagem ou cavalos ou uma lancha a vapor? O desenvolvimento é necessário até certo ponto, mas nada substitui a fé, na compreensão de Stoker. Após terem sido assolados pelas três vampiras e terem seus cavalos mortos por elas, logo de manhã, Van Helsing procura o esconderijo delas e as mata, como fizera com Lucy Westenra, dando um fim ao que Drácula poderia considerar como um reforço. O combate chega ao seu ápice quando a carroça que carregava a caixa de Drácula adentra os portões do castelo. Cercado de todos os lados, o vampiro tenta fugir, mas é atingido pela faca do jovem texano Quincey Morris, que havia sido ferido mortalmente. Drácula então termina se esvaindo em pó, confirmando a passagem do Livro Santo que diz: “Pois tu és pó, e ao pó retornarás” (Gênesis, 3, 19).

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E em um ato heroico de um estrangeiro aliado, o mal do Oriente chega ao seu fim. A marca que estigmatizava Mina Harker desaparece, como um momento glorioso, mas existem suas perdas, como em todas as batalhas. Para Stoker, a morte de Drácula é um fim dado a todos os males que assolavam a Inglaterra do século XIX, desde suas doenças pestilentas, até a invasão desenfreada de imigrantes que vinham de regiões dominadas pelos impérios europeus. A parte mais fraca da aliança, o norteamericano, morre de uma ferida causada por um dos szgany 69 que protegiam a caixa que carregava Drácula, mas é homenageado posteriormente, dando nome ao filho de Mina e Jonathan Harker, como Stoker fizera com seu filho ao dar-lhe o nome do ator e amigo de Stoker, Henry Irving. O mal chega ao fim e todos ganham a paz merecida, vivendo suas vidas sem temperança que possam novamente ser assolados pela praga que Drácula tentara disseminar. Tanto que Mina e Jonathan voltam a visitar a Transilvânia, devido às belezas e encantos que aquela terra de cultura campesina e folclore rico tinham.

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Cigano romeno.

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4. CONSIDERAÇÕES FINAIS Em 1897, Bram Stoker publicou sua obra máxima, Dracula. Nenhum outro trabalho dele chegou ao sucesso que esse romance alcançou. Um ano depois ele buscou imortalizar sua obra através do teatro, montando uma peça teatral de quatro horas de duração, que – até mesmo para a época – era impensável. Infelizmente ele veio a morrer na pobreza, sem conhecer o grande sucesso que Dracula viria a fazer. Os problemas que ele cita na obra, as pestilências, a constante imigração, não terminaram, mas conseguiram diminuir com os constantes avanços científicos e tecnológicos que chegavam aos países dominados pelos impérios europeus, alguns, na medida do tempo, até decretando sua independência. Acha-se que Stoker veio a morrer de sífilis terciária (alguns preferem outras alegações), algo presente no filme de Francis Ford Copolla, Drácula de Bram Stoker (1992), mas o que importa é que ele desconheceu o sucesso de Dracula. Muitos filmes de vampiros surgiram na onda do lançamento de Dracula fora do circuito britânico, entre eles The Vampire of the Coast (1909), considerado o primeiro filme sobre vampiros da história, mas em geral curtas que eram apresentados em cafés. Só que em 1921, o diretor romeno Károly Lajthay (1885-1945) decide dirigir Drakula hálala, que conta a história uma jovem que começa a ter pesadelos depois de visitar um asilo de loucos, onde um dos internos afirma ser o famigerado vampiro Drácula. O filme não tem nada a ver com a história do livro, mas foi o primeiro a mencionar o nome de Drácula, fazendo relação ao romance. Com mais relevância, e gerando mais polêmica, em 1922, o diretor Friedrich Wilhelm Murnau decide lançar Nosferatu, eine symphonie des grauens. No filme ele altera a locação da Transilvânia para a cidade de Bremen, na Alemanha. Além disso, também altera os nomes dos personagens para não ter associações a obra de Bram Stoker, pois ele havia pedido a esposa do escritor, Florence Stoker, para fazer um filme baseado no livro, mas recebera autorização. Assim Max Schreck interpreta Conde Orlock, um ser de aparência extremamente aterradora. No filme também, pela primeira vez é visto a luz do sol como uma forma de eliminar o vampiro. Mas o filme terminou impugnado pela esposa de Stoker, que vivia dos royalties das vendas

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dos livros do autor. Com isso o filme foi proibido de circulação e teve quase todos seus negativos queimados. Um ano após o incidente com o filme de Murnau, o ator e diretor Hamilton Deane (1880-1958) iniciou a intensa tarefa de adaptar Dracula para os palcos de teatro. Com autorização da Sra. Stoker, ele apresentou a peça em 1924 no palco do Grand Theatre, em Derby, na Inglaterra. A peça foi um sucesso imediato e durou muitas temporadas. Para um melhorar desenrolar da peça, Deane havia excluído a cena da Transilvânia e toda a perseguição final do romance, além de transformar o texano Quincey Morris em uma mulher. Vendo o estrondoso sucesso que a peça fazia na Inglaterra, tanto que ficara várias temporadas em cartaz em Londres, o produtor da Broadway, Horace Liveright, a compra em 1927. Ele leva o roteiro para os Estados Unidos e pede para o dramaturgo e roteirista norte-americano John L. Balderston (1889-1954) revisá-lo para os palcos norte-americanos. Balderston não somente revisa como faz suas mudanças, tirando Arthur Holmwood e Quincey Morris da história, matando Mina no começo da peça, tornando o Dr. Seward no pai de Lucy, com John (não Jonathan) Harker como pretendente a sua mão, que nunca foi a Transilvânia, já que Drácula já reside na Inglaterra, tendo Renfield como seu lacaio, que sobrevive ao final da peça. A peça norte-americana lançou o húngaro Bela Lugosi (1882-1956) como Drácula. Lugosi havia chegado aos Estados Unidos como um marinheiro mercante e a peça era seu primeiro trabalho no país. Lugosi decidiu tomar a atitude de não aprender o idioma inglês antes de fazer a peça, pois achava desnecessário, somente decorando as falas. Mesmo

desconhecendo o que dizia, ele tornou o personagem um grande sucesso nos palcos norte-americanos, mas o uso dos trajes não fora por parte dele e nem de Balderston, mas sim de Deane. Na composição dos personagens na Inglaterra, Deane quis dar um ar aristocrático ao Conde Drácula, assim colocou-lhe um smoking e capa de teatro com a gola alta.

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Sucesso na Broadway, Hollywood se interessou por fazer um filme de Drácula, e em 1931, Tom Browning dirigiria Dracula, com Bela Lugosi reprisando o papel que fizera nos palcos. O filme era uma adaptação à peça da Broadway, que ficou conhecida como versão de Drácula de Balderston-Deane, apesar de ambos nunca terem se dado bem. Na adaptação para o cinema, Renfield vai para a Transilvânia fechar o negócio com o Conde Drácula a respeito da Abadia de Carfax e lá é submetido ao hipnotismo se tornando servo de Drácula e o protegendo na sua ida a Inglaterra. Ao chegar nas terras britânicas, Drácula seduz e bebe do sangue da jovem Mina Weston, transformando-a em vampira, e depois parte para fazer o mesmo com a jovem Mina Seward, filha do Dr. Seward e noiva de John Harker. Percebendo que sua filha está com a saúde debilitada, Seward chama o professor Abraham Van Helsing, que identifica o assédio de um vampiro sobre Mina e prepara Seward e Harker para combater o monstro. O filme é até hoje considerado um clássico do cinema de horror, sendo às vezes elogiado ou criticado. O próprio Tom Browning era um crítico do filme, pois desejava como Drácula o ator Lon Chaney [pai] (1883-1930), mas esse veio há falecer um ano antes das filmagens. Mesmo não sendo o escolhido de Browning, Lugosi voltaria a interpretar outros personagens vampíricos no cinema, como em A Marca do Vampiro (1935), onde interpretava o Conde Mora, The Return of the Vampire (1944), interpretando Armand Tesla ou Dr. Hugo Bruckner e a comédia Abbott e Costello às voltas com fantasmas (1948), onde volta a vestir o smoking e a capa do Conde Drácula. O último filme de Lugosi foi Plano 9 do Espaço Sideral (1959) do diretor de filmes B Ed Wood (19241978). O filho de Lugosi e sua esposa Lilian o enterraram vestindo o smoking e a capa de Drácula, que o imortalizou. No mesmo ano em que Browning dirigiu Dracula nos Estados Unidos, a Universal Pictures, detentora dos direitos de filmagem na época, produziu na Espanha um filme usando o mesmo roteiro, mas com atores espanhóis. Isso porque, como a empresa tinha aderido há pouco tempo aos filmes falados, ela precisaria estar

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distribuindo para outros países, e como o custo poderia ser bem alto, decidiu por uma refilmagem. Assim sendo, a Universal lançou no mesmo ano Drácula (1931), na Espanha, com o ator Carlos Villarías no papel de Conde Drácula. Demorou dez anos para se ver o nome Drácula em um novo filme nos cinemas. Em 1958 a empresa inglesa Hammer Films lançou O Vampiro da Noite 70, com direção do inglês Terence Fisher (1904-1980) e roteiro do galês Jimmy Sangster (19272011), e trazia os atores ingleses sir Christopher Lee 71 como Drácula, Peter Cushing 72 (1913-1994) como Van Helsing e o ator malásio Michael Gough 73 (19162011) como Arthur Holmwood. A Hammer ainda investiu em seis filmes com o personagem Drácula: Drácula: O Príncipe das Trevas (1966), Drácula, o perfil do diabo (1968), O Sangue de Drácula (1970), O Conde Drácula (1970), a comédia Drácula no mundo da minissaia (1972) e Os Ritos Satânicos de Drácula (1973), conta sempre com Christopher Lee no papel de Drácula e às vezes com Peter Cushing no papel de Van Helsing. Além disso, o nome de Drácula serviu para intitular os filmes As Noivas de Drácula (1960) e A Condessa Drácula (1971). Christopher Lee também viveu Drácula fora dos filmes da Hammer. No filme Conde Drácula (1970), da Corona Filmproduktion, e Dracula père et fils (1976), da Gaumont. Klaus Kinski (1926-1991), que trabalhou com Christopher Lee no filme de 1970, fazendo o louco Renfield, chegou a interpretar Drácula em uma adaptação do filme de 1922, de Murnau. Nosferatu, o vampiro da noite (1979), dirigido por Werner Herzog, refilmava o trabalho de Murnau. Em 1978, o ator norte-americano Michael Pataki (1938-2010) faz o papel de Drácula em Zoltan, o cão vampiro de Drácula (1978).

Dracula, no original. Interpretou Saruman em Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel (2001), As Duas Torres (2002) e O Retorno do Rei (2003) e o Conde Dookan/Darth Tyranus em Guerra nas Estrelas II: O Ataque dos Clones (2002) e Guerra nas Estrelas III: A Vingança dos Sith (2005). 72 Interpretou o Grand Moff Tarkin no filme Guerra nas Estrelas IV: Uma Nova esperança (1977). 73 Interpretou Alfred Pennyworth em Batman (1989), Batman – O Retorno (1992), Batman Eternamente (1995) e Batman & Robin (1997).
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Todos os filmes tinham como base central a peça teatral de Balderston-Deane, tendo algumas modificações aqui e ali, e às vezes usando personagens do romance de Stoker. Mas em 1992, a atriz norte-americana Winona Ryder 74 apresentou ao diretor Francis Ford Copolla 75 o roteiro do filme Drácula de Bram Stoker. A história escrita pelo roteirista James V. Hart era a primeira a pegar o conteúdo literário de Drácula, escrito pelo irlandês Bram Stoker. Mas Hart foi mais além ao usar informações dos trabalhos dos historiadores Raymond T. McNally e Radu Florescu, quanto ao passado de Drácula como Vlad III o Empalador na Valáquia e sobre sua primeira esposa que se suicidara. No elenco desse que foi o filme mais fiel à obra, além de Winona Ryder nos papéis de Mina (Murray) Harker e Elisabeta, temos Gary Oldman 76 como Drácula, sir Anthony Hopkins77 como Abraham Van Helsing e Keanu Reeves 78 como Jonathan Harker. Em 2000, o diretor Joe Chapelle e o roteirista Thomas Baum juntaram-se para adaptar o trabalho de McNally e Florescu em Dark Prince: The True Story of Dracula, podendo ser considerado um filme biográfico, apesar do final fantástico. No filme o ator e historiador Peter Weller 79 faz o Padre Stefan, que não permite o enterro da esposa de Vlad, por ter se suicidado. Em 2012, o diretor italiano Dario Argento dirigiu e co-roteirizou uma nova versão de Drácula para os cinemas. Dracula 3D trás o ator alemão Thomas Kretschmann 80 como Drácula e Rutger Hauer 81 como Abraham Van Helsing.

Interpretou Amanda Grayson, a mãe de Spock, em Jornadas nas Estrelas (2009). Diretor da trilogia O Poderoso Chefão (1972, 1974, 1990) e Apocalipse Now (1979). 76 Interpretou o Comissário Gordon em Batman Begins (2005), The Dark Knight (2008) e The Dark Knight Rises (2012), além de fazer Sirius Black nos filmes Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (2004) e Harry Potter e a Ordem da Fênix (2007). 77 Deu vida ao psicopata Hannibal Lecter em Silêncio dos Inocentes (1991), Hannibal (2001) e O Dragão Vermelho (2002), interpretou Sir John Talbot em O Lobisomem (2010), o deus nórdico Odin em Thor (2011) e Alfred Hitchcock em Hitchcock (2012). 78 Interpretou o personagem Neo em Matrix (1999), Matrix Reloaded (2003) e Matrix Revolutions (2003), além de atuar como John Constantine no filme Constantine (2005). 79 Atuou no filme Robocop – O Policial do Futuro (1987) e Robocop 2 (1990), como personagem principal. 80 Interpretou o Major Tom Cain em Resident Evil 2 – Apocalipse (2004) e o Capitão Eglehorn em King Kong (2005). 81 Interpretou Roy Batty em Blade Runner – O Caçador de Andróides (1982), Capitão Etienne Navarre em O Feitiço de Áquila (1985), Lothos no filme Buffy – A Caça-Vampiros (1992), SS-Sturmbannführer Xavier March em Nação do Medo (994), Morgan Edge na série de TV Smallville (2003), Cardeal
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Vários outros filmes fizeram referência a Drácula, sem pensar na obra de Stoker, mas pensando no personagem-título. Desses filmes temos The Legend of the 7 Golden Vampires (1974), com John Forbes-Robertson no papel de Drácula, Amor à Primeira Mordida (1979), com o ator George Hamilton fazendo o Conde Vladimir Drácula, Deu a Louca nos Monstros (1987), com Duncan Regehr interpretando o Conde Drácula, o indiano Dracula (1999), Sombra do Vampiro (2000), que revisita as filmagens do filme de 1922 de Murnau, tendo Willem Dafoe 82 como Max Schreck/Conde Orlock, Drácula 2000 (2000), aonde Gerard Butler interpreta Drácula, Blade: Trinity (2004), no qual Dominic Purcell interpreta Drake, Van Helsing – O Caçador de Monstros (2004), com o ator australiano Richard Roxburgh interpretando o Conde Vladislaus Dracula. Na televisão, Drácula ganhou as mais variadas adaptações, fossem em séries televisivas ou em filmes para a TV. Dentre alguns temos no seriado Os Monstros (1964-1966), o personagem do Vovô, interpretado pelo ator Al Lewis (1923-2006), depois em The Munsters Today (1988-1991), o ator Howard Morton (1925-1997) vive o Vovô Vladimir Drácula. Participou de séries como Mistery and Imagination (1966-1970), com o ator Denholm Elliott no papel de Drácula, Night Gallery (19691973), com Francis Lederer (1899-2000) no papel de Drácula, em Great Performances (1970) com o ator francês Louis Jourdan de Conde Drácula, Buffy: A Caça-Vampiros (1997-2003), com o ator Rudolf Martin interpretando Drácula. Drácula chegou até a ganhar uma série própria intitulada Dracula – The Series (1990) que tinha o ator Geordie Johnson interpretando Alexander Alucard. Nos filmes para TV, todos recebiam o título Drácula, alguns intencionando adaptar o livro ou a peça teatral ou mesmo dar sua visão da obra de Bram Stoker, como o filme Dracula 3000, uma ficção científica com o ator Langley Kirkwood interpretando Orlock, numa homenagem ao personagem de Max Schreck no filme de 1922. Até nas animações Drácula teve suas adaptações. Temos os desenhos animados Conde Quacula que fazia parte de As Novas Aventuras de Super Mouse e Faísca e Fumaça (1979-1982), Família Drácula (1980), Conde Duckula (1988-1993), e
Roark em Sin City – A Cidade do Pecado (2005), o inescrupuloso Earle de Batman Begins (2005) e Drácula no filme Drácula 3: O Legado Final. 82 Interpretou Norman Osborn/Duende Verde em Homem-Aranha (2002) e Lionel “Elvis” Cormack em 2019 – O Ano da Extinção (2009)

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aparições nos desenhos Scooby Doo, Cade Você! (1969-1972), The new Scooby Doo Mysteries (1984-1985), Scooby-Doo e o Lobisomem (1988), Scooby-Doo e a Escola Assombrada (1988), The Batman Vs. Dracula (2005), e animes83 como Don Dracula (1982) e Hellsing (2001-2002). Nos quadrinhos, a empresa norte-americana na Marvel Comics lançou a revista The Tomb of Dracula (1972-1979), além de fazer aparições nas revistas do X-Men. Drácula também faz aparições nas revistas Batman & Dracula: Chuva Rubra, da DC Comics. Além de adaptações do romance de Bram Stoker em Great Illustrated Classics: Dracula (1995) e Illustrated Classics: Dracula (2012). Em jogos eletrônicos, houve várias referências a Drácula, como Castlevania, da empresa Konami, e até mesmo uma adaptação do filme de Francis Ford Copolla, Bram Stoker’s Dracula, desenvolvidos pelas empresas Traveller’s Tale e SCE Studio Liverpool para vários tipos de consoles. Além disso, também surgiram versões de vários trabalhos referentes a vampiros nos Role-Playing Games (RPG). Vampiro, A Máscara (1991) foi um trabalho iniciado por Mark Hein-Ragen para sua empresa, a Whit Wolf Publishing, e trazia a divisão dos vampiros em clãs com citações de várias versões de vampiros, fossem baseados em lendas, na literatura ou em filmes. O legado deixado por Bram Stoker e seu personagem é amplo e interminável. Hoje podemos ver vampiros dos mais diversos tipos, sejam eles bons ou maus. Podemos ver vampiros andróginos como os de Anne Rice nas suas Crônicas Vampirescas84 e As Novas Crônicas 85·, ou podemos ver vampiros mais modernizados como os da escritora Charlaine Harris em As Crônicas de Sookie Stackhouse ou vampiros com problemas adolescentes como a série Diários do Vampiro de Lisa Jane Smith e os livros de Stephenie Meyer 86 ou mesmo vampiros com poderes místicos como os de

Animações japonesas. Entrevista com o Vampiro (1976), O Vampiro Lestat (1985), A Rainha dos Condenados (1988), A História do Ladrão de Corpos (1992), Memnoch o Demônio (1995), O vampiro Armand (1998), Merrick (2000), Sangue e Ouro (2001), A Fazenda Blackwood (2002) e Cântico de Sangue (2003). 85 Pandora (1998) e Vittorio o Vampiro (1999). 86 Crepúsculo (2005), Lua Nova (2006), Eclipse (2007) e Amanhecer (2008).
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André Vianco 87 e vampiras bissexuais como Marcelle Anthemimus do escritor Sestro Marsden 88 em A Grega. Existem as mais diversas séries de TV com vampiros como Mortícia Addams d’A Família Addams (1964-1966, 1973-1975, 1991, 1992-1995, 1998-1999), Barnabas Collins de Sombras da Noite (1966-1971, 1991, 2012), Nick Knight da série Maldição Eterna (1989-1998), Mick St. John de Moonlight (2007-2008). Bram Stoker quando quis retratar os problemas sociais e as epidemias que existiam no Reino Unido da Grã-Bretanha no final do século XIX, nunca imaginou que deixaria uma herança na qual todos, de certa forma, fazem uso até os dias de hoje e continuarão fazendo.

Os Sete (1999), O Senhor da Chuva (2001), Sétimo (2002), Bento (2003), O Vampiro – Rei Vol. 1 (2004), O Vampiro – Rei Vol. 2 (2005), O Turno Da Noite, Os Filhos De Setimo Vol.1 (2006), O Turno Da Noite, Revelações Vol.2 (2006), O Turno Da Noite, O Livro de Jó Vol.3 (2007), Vampiros do Rio Douro Vol. 1 (2007), Vampiros do Rio Douro Vol. 2 (2007), O Caminho do Poço das Lágrimas (2008) e O Caso Laura (2011). 88 Pseudônimo do escritor André Luz.

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