Você está na página 1de 14
Manuel Antônio de Almeida M M E E M M Ó Ó R R I
Manuel Antônio de Almeida M M E E M M Ó Ó R R I
Manuel Antônio de Almeida M M E E M M Ó Ó R R I

Manuel Antônio de Almeida

MMEEMMÓÓRRIIAASSDDEEUUMMSSAARRGGEENNTTOODDEEMMIILLÍÍCCIIAASS

´

ANALISE DA OBRA

IVAN TEIXEIRA

PPRREELLIIMMIINNAARREESS

As Memórias de um Sargento de Milícias são um dos livros mais singulares da literatura brasileira. Situadas nos primórdios do gênero romanesco entre nós, surgem logo após as experiências de Teixeira e Sousa (O Filho do Pes- cador, 1843) e Joaquim Manuel de Macedo (A Moreninha, 1844). Isso explica alguns traços primitivos de seu estilo e de sua estrutura. Trata-se, basicamente, de um romance de humor popular, fundado nas aventuras de tipos da socie- dade carioca do começo do século passado. O humor explo- rado por Manuel Antônio de Almeida é semelhante ao das peças de Martins Pena, autor de O Noviço (encenada em 1845, sete anos antes do início das Memórias) e o maior dramaturgo do Romantismo brasileiro. Destinadas às páginas de um jornal, as Memórias apresentam capítulos unitários, contendo quase todos um episódio completo, cujo conjunto reconstitui a vida de Leonardo Pataca e de seu filho Leonardo, em meio a um vivo retrato das cama- das baixas do Rio de D. João VI. Além de se concentrar nas proezas (sobretudo amorosas) desses dois arquétipos da malandragem carioca, o romance dá muita atenção às festas, encontros, instituições e profissões populares da

cidade, cujas ruas são descritas com a animação de uma verdadeira narrativa de costumes. Trata-se, enfim, de um romance muito agitado e festivo, em que não há praticamente nenhuma página sem um incidente ou surpresa espantosa. Todavia, para que se perceba toda essa movimentação é preciso vencer primeiro o problema da linguagem, que é meio estranha aos leitores de hoje, pois o autor preocupou-se em utilizar o português coloquial de seu tempo, que apresenta, evidentemente, muitas palavras e construções difíceis para a sensibili- dade atual. As Memórias de um Sargento de Milícias foram publicadas em folhetins anônimos entre 1852 e 1853, no suplemento dominical do Correio Mercantil, a Pacotilha, época em que Manuel Antônio de Almeida ainda era estudante de medicina. Os capítulos foram publicados à proporção que eram es- critos, semanalmente. Em livro, a obra saiu nos anos de 1854 e 1855, em dois volumes, sob a indica- ção autoral de Por Um Brasileiro, como a indicar que não se tratava, como era então mais comum entre nós, de romance traduzido. Cada volume correspondia a uma das partes da obra. A omissão do nome do autor nas duas edições em vida revela que ele não possuía pretensões à carreira literá- ria. De fato, Manuel Antônio era um rapaz (tinha então vinte e dois anos) muito talentoso, pois além de estudante de medicina e escritor, demonstrava franca inclinação para a música, a tradução e a pintura, atividades em que deixou também produções. Depois de formado, ingressou no funcionalis- mo público e na política, tendo sido vítima (fatal) de naufrágio quando fazia campanha a uma vaga na Câmara dos Deputados.

quando fazia campanha a uma vaga na Câmara dos Deputados. Manuel Antônio de Almeida SISTEMA ANGLO

Manuel Antônio de Almeida

EEXXCCEENNTTRRIICCIIDDAADDEE DDAASS MMEEMMÓÓRRIIAASS

No final do século XIX, o crítico José Veríssimo interpretou as Memórias de um Sargento de Milícias como um romance pré-realista, em virtude de sua inclinação para o retrato social. 1 Depois, Mário de Andrade aproximou-as do romance picaresco espa- nhol, principalmente de Lazarillo de Tormes, atribuí- do a Hurtado de Mendonza. 2 Mais recentemente, An- tonio Candido demonstrou que se trata de um ro- mance propriamente romântico, com a particulari- dade de apresentar uma certa excentricidade relati- vamente à média dos romances do Romantismo Bra- sileiro. 3 Assim como Noite na Taverna é excêntrico pelo excesso de imaginação e fantasia e Iracema, pelo excesso de recursos poéticos, as Memórias dis- tanciam-se da média da sensibilidade romântica pe- las seguintes razões:

1. A estória não envolve personagens da classe do- minante, mas sim pessoas de baixa renda.

2. A personagem central não é herói nem vilão, tra- ta-se de um anti-herói malandro, de natureza pi- caresca, isto é, próximo do pícaro espanhol.

3. As cenas não são idealizadas, mas reais, e apre- sentam aspectos pouco poéticos da existência.

4. Ausência de moralismo e recusa da idéia de que as ações humanas se dividem necessariamente entre boas e más.

5. Troca do sentimentalismo pelo humorismo, do estilo elevado e poético pelo estilo tosco e direto, sem torneios embelezadores.

6. O estilo é oral e descontraído, diretamente deriva- do da conversa ou do estilo jornalístico do tempo.

Essa originalidade com relação ao romance ro- mântico limitou a penetração da obra na época em que foi escrita, mas, de alguma forma, a aproximou do Realismo, do Modernismo e do folclore nacional. Mário de Andrade buscou sugestão no protagonista Leonardo para compor Macunaíma, em 1928. As Memórias possuem também conexões com Serafim Ponte Grande (1933), de Oswald de Andrade. No fol- clore, vinculam-se à tradição das diabruras de Pedro Malazarte. 4 Estudos recentes contrariam a tese da excentri- cidade das Memórias. O professor Mamed Mustafá

BIBLIOGRAFIA

1 “Um Velho Romance Brasileiro” In: VERÍSSIMO, José. Estu- dos Brasileiros; segunda série. Rio / São Paulo, Laemert, 1894. Hoje, esse ensaio encontra-se em LARA, Cecília de. Memórias de um Sargento de Milícias; edição crítica. São Paulo, Livros Técnicos e Científicos Editora, 1978.

2 ANDRADE, Mário de. “Introdução” In: Memórias de um Sar- gento de Milícias. São Paulo, Martins, 1941.

3 CANDIDO, Antonio. Formação da Literatura Brasileira. 2. ed. São Paulo, Martins, 1964.

4 Cf. CANDIDO, Antonio. “Dialética da Malandragem” In: O Discurso e a Cidade. São Paulo, Duas Cidades, 1993.

Jarouch 5 , em excelente edição do romance, defen- deu o princípio de que o humor e a descontração das Memórias não representam um desvio do padrão romântico, mas a incorporação do estilo humorísti- co dominante nos textos do suplemento A Pacotilha, em que se publicavam textos que também parti- lhavam do variado repertório do período. Assim, em vez de imaginar um autor solitário que inventa uma obra genial e singular, ter-se-ia um escritor igualmen- te interessante, mas integrado à realidade histórica de seu tempo, filiando-se ao viés satírico da época.

EESSTTIILLOO

Manuel Antônio de Almeida foi o primeiro escri- tor brasileiro a aplicar o estilo descontraído do jornal ao romance, procedimento que seria mais tarde um dos principais traços pré-modernistas de Lima Bar- reto. Desse processo de simplificação estilística de- corre a oralidade das Memórias. Como todas as suas personagens pertencem às camadas populares, o au- tor achou que sua linguagem da obra não poderia ser elevada. Por isso, ela é simples, direta, praticamente sem metáforas ou refinamentos retóricos. Ou melhor, há uma sabedoria retórica em tudo isso, pois a im- pressão da espontaneidade depende de uma organi- zação específica da frase e do enredo. Apesar de sua feição espontânea, há no roman- ce inúmeras palavras e estruturas frasais que já no tempo do autor eram antiquadas. A adoção dessas fórmulas, nesse caso, harmoniza a linguagem do ro- mance (Segundo Reinado) com o tempo da ação (épo- ca de D. João VI). As descrições da obra apontam, sobretudo, para duas direções: ora para um retrato vivo da indumen- tária, costumes, logradouros públicos e instituições do velho Rio; ora para a exageração dos traços físicos das pessoas e das situações. Nestes últimos casos, encontram-se as caricaturas, tão abundantes quanto expressivas nas Memórias de um Sargento de Milícias. Elas tornam o estilo do romance um tanto popular, mas nem por isso menos humorístico. Há, por outro lado, uma infinidade de alusões irônicas e passagens insinuantes, mas nunca com a fineza que se encontra, por exemplo, em Machado de Assis.

Em artigo recente, o autor do presente estudo 6 apresentou a hipótese de que, contrariamente ao que afirma a tradição crítica, Manuel Antônio de Al- meida não teria imitado propriamente o Rio de Ja- neiro joanino. Teria incorporado ao romance um dis-

5 Apresentação das Memórias de um Sargento de Milícias. Co- tia, Ateliê Editorial, 2000.

6 Ivan Teixeira. “Hermenêutica, Poética e Retórica nas Letras da América Portuguesa”. São Paulo, Coordenadoria de Comunicação Social da Universidade de São Paulo, Revista USP, Nº- 57, março, abril, maio de 2003, pp. 138-159.

curso cultural existente sobre a cidade. Segundo essa perspectiva, o autor não teria extraído a confi- guração urbana e social de seu romance da obser- vação empírica dos fatos, mas do estudo de textos, de gravuras, de relatos populares e da memória co- letiva da cidade. O conjunto dessas representações formam o que a teoria da comunicação chama de dis- curso. Assim, em vez ser entendido como fonte para o conhecimento da vida social em sentido amplo, o romance deveria ser tomado como exemplo de uma maneira específica de representação da vida cul- tural, aquela fundada na rearticulação de discursos sociais para a formulação do discurso artístico.

sociais para a formulação do discurso artístico. T T É É C C N N I

TTÉÉCCNNIICCAA DDOO EENNRREEDDOO EE PPEERRSSOONNAAGGEENNSS

As Memórias de um Sargento de Milícias não são um romance escrito em primeira pessoa, como faz supor o título. O foco narrativo é em terceira pessoa. A palavra memórias, nesse caso, equivale a apon- tamento histórico ou relato ditado pela lembrança. Tendo sido escrito no Segundo Reinado e exploran- do o Rio joanino, é evidente que o romance possui al- gumas propriedades de romance histórico, na medi- da em que se detém na captação de cenas e costu- mes do passado. Nesse sentido é que se deve enten- der o termo memórias do título. Por outro lado, trata-se também de um romance de costumes com propriedades picarescas. Fala-se

em propriedades picarescas porque sua ação é epi- sódica, parcelada. A tênue estória central (encontro, separação e união dos protagonistas) funciona co- mo pretexto para a apresentação das diabruras e apertos em que se metem os dois Leonardos. A ação incorpora a variedade, a energia e o curto fôlego das travessuras da infância, da juventude desajustada (fi- lho) e da senilidade precoce (pai). Com efeito, as aven- turas dos protagonistas envolvem os mais variados tipos (a Cigana, o Mestre-de-Cerimônias, o Mestre de Reza, o Chico-Juca, o Teotônio, etc.), os quais partici- pam de cenas isoladas e somem, sem maiores con- seqüências para a trama central. Assim é o romance picaresco, expressão derivada do termo pícaro, es- pécie de personagem marginal que vive ao sabor do acaso. Por ser um romance de costumes, as Memórias recompõem hábitos, fornecendo um animado retra- to de época. Por essa razão, o autor surpreende as personagens naquele que as caracteriza como parte de um grupo, esquecendo a individualidade psico- lógica. Como nas peças de Gil Vicente, suas perso- nagens são tipos sociais, cuja ação personaliza a fun- ção que exercem na comunidade. Assim, várias per- sonagens não possuem nome no livro, designam-se pela profissão ou condição social que possuem: o barbeiro, a parteira, a cigana, o fidalgo, o mestre-de- cerimônias, o toma largura, etc. Quando uma perso- nagem dessas fala ou age, tem-se a impressão de um grande movimento, pois nelas vislumbra-se todo o grupo social a que pertencem. Essa é uma das razões por que se consideram as Memórias um dos livros mais vivos e dinâmicos da literatura brasileira.

UUMM CCUURRIIOOSSOO TTRRAAÇÇOO CCOOMMPPOOSSIITTIIVVOO

Toda vez que o narrador das Memórias apresen-

ta um episódio da vida de Leonardo ou de outra per-

sonagem, ele traça, antes, o painel social do cenário em que se desenvolverá a peripécia. Nessa opera- ção, gasta geralmente dois ou três parágrafos, nos quais se fornecem os componentes do quadro em que se desenvolve a aventura. Veja-se, como exemplo, o esboço do contexto de uma diabrura de Leonardi- nho, no tempo em que era sacristão na igreja da Sé.

O episódio desenrola-se durante uma festa religiosa,

em que o Mestre-de-Cerimônias deveria fazer um importante sermão:

As festas daquele tempo eram feitas com tanta ri- queza e com muito mais propriedade, a certos respei- tos, do que as de hoje: tinham entretanto alguns lados cômicos; um deles era música de barbeiros à porta. Não havia festa em que se passasse sem isso; era coisa reputada quase tão essencial como o sermão; o que valia porém é que nada havia mais fácil de arranjar-se; meia dúzia de aprendizes ou oficiais de barbeiro, ordi- nariamente negros, armados, este com um pistão desafinado, aquele com uma trompa diabolicamente

rouca, formavam uma orquestra desconcertada, porém estrondosa, que fazia as delícias dos que não cabiam ou não queriam estar dentro da igreja.

Cap. 14, 1ª- parte.

Há muitas passagens desse tipo nas Memórias. Quando surge um registro social como esse, o leitor deve saber de antemão que se trata da moldura de um episódio que está por acontecer. Assim como o elemento pitoresco desse exemplo completa o qua- dro da festa em que Leonardinho vai aprontar uma de suas peraltices, as demais descrições dessa espé- cie são sempre integradas organicamente ao enre- do da estória. Embora tais descrições possam ser li- das como lances de humor ou como flagrantes so- ciais independentes do que vem antes ou depois, não se pode esquecer que sempre se integram ao corpo da ação romanesca. Essa integração do pito- resco à estrutura do enredo contribui para a quali- dade artística do livro, que quase nunca se perde no meramente documental, pois as coisas e costumes do tempo encontram sempre o seu preciso lugar no desenvolvimento da estória. São integrados à ela, e não exteriores ao seu andamento. Nesse sentido, convém destacar que um dos tra- ços de psicologia coletiva que Manuel Antônio regis- trou com mais vivacidade é a vocação musical e fes- tiva do povo carioca, como se percebe no fragmen- to transcrito. Registre-se ainda que há, em seu livro, constantes alusões a instrumentos, danças e mo- dinhas da época retratada. Chega mesmo a transcrever três trechos de modinhas populares no tempo: uma cantada por Leonardo, durante a festa de batizado do filho; duas outras cantadas por Vidinha, numa de suas patuscadas com os primos e amigos. Em mais de uma passagem, fornece detalhes sobre o fado, apresentado como dança típica do Brasil.

DDOOCCUUMMEENNTTOO LLIINNGGÜÜÍÍSSTTIICCOO

Os namorados das Memórias tratam-se por se- nhor e senhora, como se pode ver pela declaração de amor de Leonardinho à Luisinha, no capítulo 23 da primeira parte do romance. A mãe de Vidinha, no ca- pítulo 8 da segunda parte, dirige-se informalmente à filha na segunda pessoa do plural, dizendo: Ai, criatu- ra, quereis que vos reze um responso para cantardes uma modinha? Hoje, esse tratamento só é observado em ocasiões extremamente solenes. Afirmou-se acima que a linguagem do narrador é descontraída, mas o seu registro lingüístico não deixa de obedecer à nor- ma culta do idioma. Todavia, quando as personagens se expressam, elas o fazem pelo padrão popular, que deforma as palavras do idioma. Há registro disso no romance. No capítulo 5 da segunda parte, tratando da doença do Compadre, o narrador refere-se às pílulas que ele deveria tomar. Referindo ao mesmo remédio,

a Comadre diz pírolas. Quanto ao diálogo, Mário de Andrade observou que Leonardinho praticamente não faz uso dele em todo o livro. De fato, ele age mais do que fala.

IINNCCLLUUSSÃÃOO DDOO LLEEIITTOORR

Um dos importantes traços estilísticos das Me- mórias é a constante referência do narrador ao leitor. Isso certamente tem a ver com o propósito de estabe- lecer um suposto diálogo amigável com o público do jornal, isto é, esse traço revela o interesse em facili- tar a recepção da obra, como deixa ver o seguinte fragmento do capítulo 11 da primeira parte:

Dadas as explicações do capítulo precedente, vol- temos ao nosso memorando, de quem por um pouco nos esquecemos. Apressemo-nos a dar ao leitor uma boa notícia: o menino desempacara do F, e já se acha- va no P, onde por uma infelicidade empacou de novo. Conforme se percebe por este fragmento, o narra- dor demonstra o propósito de aproximar o leitor do texto. Essa é a razão de suas constantes referências metalingüísticas, chamando a atenção do leitor para acontecimentos apresentados anteriormente ou para os que está prestes a apresentar. Em alguns casos, ele fornece um verdadeiro resumo de seqüências pas- sadas, na suposição de que o leitor tenha se esqueci- do do conteúdo delas, como acontece na abertura do capítulo 13 da segunda parte, apresentado adiante, no presente trabalho, como texto para leitura e exer- cícios.

CCOONNTTRRAA OO RROOMMAANNTTIISSMMOO

O livro de Manuel Antônio de Almeida é românti- co, não há dúvida. Todavia, sua sensibilidade não se derramava tanto quanto a dos ultra-românticos, que constituíam a grande novidade na poesia brasileira da época das Memórias. De fato, o melhor de nossa poesia ultra-romântica foi publicado na década de 1850: A Nebulosa, Joaquim Manuel de Macedo — 1850 (edição parcial na revista Guanabara); Lira dos Vinte Anos, Álvares de Azevedo — 1853; Inspirações do Claustro, Junqueira Freire — 1855; As Primaveras, Casimiro de Abreu — 1859. Não obstante, Manuel Antônio faz questão de manter o equilíbrio emocional, primando pela clareza e ridicularizando todo e qual- quer transbordamento emotivo em suas persona- gens. Em duas ocasiões, manifesta-se claramente con- tra a moda do sentimentalismo:

Tratava-se de uma cigana; o Leonardo a vira pou- co tempo depois da fuga da Maria, e das cinzas ainda quentes de um amor mal pago nascera outro que também não foi a este respeito melhor aquinhoado; mas o homem era romântico, como se diz hoje, e ba- bão, como se dizia naquele tempo; não podia passar sem uma paixãozinha.

Cap. 4, 1ª- parte.

Dizem todos, e os poetas juram e tresjuram, que o verdadeiro amor é o primeiro: temos estudado a ma- téria, e acreditamos hoje que não há que fiar em poe- tas: chegamos por nossas investigações à conclusão de que o verdadeiro amor, ou são todos ou é um só, e neste caso não é o primeiro, é o último. O último é que é o verdadeiro, porque é o único que não muda. As leitoras que não concordarem com esta doutrina convençam-me do contrário, se são disso capazes.

Cap. 22, 2ª- parte

Essa postura de independência relativamente à moda do sentimentalismo deve ter contribuído para que o livro de Manuel Antônio de Almeida caísse no esquecimento junto aos leitores e à crítica do tem- po. A segunda edição da obra só saiu um ano de- pois de sua morte, em 1862. Em vida, nenhum estu- dioso lhe deu atenção. Parece mesmo que não hou- ve nem resenhas jornalísticas acerca de seu livro. O grande prestígio dele começaria bem mais tarde, a partir do Realismo.

EENNRREEDDOO OOrriiggeennss ee IInnffâânncciiaa ddoo MMeemmoorraannddoo

Ao vir para o Brasil, em 1808, D. João VI trouxe consigo mais de dez mil pessoas, ligadas à nobreza, ao funcionalismo e ao exército. Às vésperas da par- tida, um de seus capitães enfrentou um problema fa- miliar: seu filho, que era cadete e permaneceria em Portugal, desvirginou uma jovem feirante de Lisboa, cuja mãe exigiu reparo através do casamento imedia- to. 7 Em vez de consentir no casamento, o capitão si- lenciou a família ofendida mediante uma quantia em dinheiro. Essa moça chamava-se Mariazinha. Tem- pos depois, quando já era conhecida como Maria da Hortaliça, ela também embarcou para o Brasil. Du- rante a viagem, travou namoro com outro imigran- te, chamado Leonardo, que até ali vivera da feitura e comércio de roupas baratas em Lisboa. 8 O contato entre ambos seguiu um ritual do tempo e lugar: ele dera-lhe uma pisadela no pé direito e ela retribuiu-

7 Poucos dias antes de embarcar para o Brasil em companhia del-rei, estando o infeliz pai em preparativos de viagem, viu entrar-lhe pela porta dentro uma mulher velha, baixa, gorda, vermelha, vestida segundo o costume das mulheres da baixa classe do país, com uma saia de ganga azul por cima de um vestido de chita, um lenço branco dobrado triangularmente posto sobre a cabeça e preso embaixo do queixo, e uns grossos sapatões nos pés. Parecia presa de grande agitação e de raiva: seus olhos pequenos e azuis faiscavam de dentro das órbitas afundadas pela idade, suas faces estavam rubras e reluzentes, seus lábios franzinos e franzidos apertavam-se vio- lentamente um contra o outro como prendendo uma torrente de injúrias, e tornando mais sensíveis ainda seu queixo pontu- do e um pouco revirado. Cap. 10, 1ª- parte.

8 Maria era saloia: mulher rústica da feira ou do campo; nos úl- timos tempos tinha sido quitandeira. Leonardo era algibebe:

alfaiate ou vendedor de roupas inferiores.

lhe com um beliscão nas costas da mão esquerda. Ao desembarcarem no Rio, foram morar juntos. Leo- nardo conseguiu o emprego de meirinho. 9 Alguns meses depois, nasceu um menino robusto e chorão, que recebeu o nome do pai. No batizado, houve uma festa com música e dança, na qual se conheceram os compadres do casal: para madrinha, escolheu-se a parteira; para padrinho, o barbeiro, que morava em frente à casa de Leonardo. Leonardinho tornou-se uma criança endiabrada. Não parava quieto, demonstrando preferência pelo

chapéu do uniforme do pai, com o qual varria o chão

e as paredes da casa. Quando tinha sete anos, o pai

pegou a mãe em flagrante adultério com o capitão do navio em que vieram para o Brasil. Depois de uma briga feia com Leonardo, ela abandonou a casa e fu- giu para Portugal com o capitão do navio. O pai, por sua vez, depois de dar-lhe um tremendo pontapé no traseiro, deixou o menino com o barbeiro e não apa- receu mais por aquelas bandas. Leonardinho desper- tou a maior ternura no velho solteirão, que não con- seguia ver no afilhado os defeitos notados por todos

os vizinhos. Aos nove anos, suas diabruras alastraram-se pa- ra fora de casa. Uma noite, ao acompanhar uma pro- cissão, fez amizade com dois ciganinhos. Juntos, não deram sossego aos fiéis. Depois de expulsos da igre- ja, no fim da procissão, os amigos recentes levaram-

no para casa deles. Lá, ele passou a noite, entretido com a maravilhosa dança dos ciganos. Enquanto isso,

o padrinho desesperava-se pela cidade, sem saber on- de encontrar o afilhado.

LLeeoonnaarrddoo PPaattaaccaa,, aa CCiiggaannaa ee oo VViiddiiggaall

Enquanto essas coisas se passavam com Leo- nardinho, seu pai entregava-se aos amores de uma cigana, que logo o abandonou em favor de outro. Mortificado pela paixão, Leonardo Pataca busca as artes de um feiticeiro como último recurso para ob- ter a volta da amada. Naquele tempo, a necroman- cia era proibida no Rio. O major Vidigal, o chefe de polícia, punia sua prática com o mesmo rigor com que vigiava a cidade, prendendo malandros e des- fazendo arruaças de qualquer espécie. Como a jus- tiça estivesse ainda num estágio primitivo no Rio da- quele tempo, cabia ao Vidigal toda a ação repressi- va. Prendia, julgava, condenava e aplicava a pena aos réus, numa ação sumária de poucos minutos. Apesar disso, era consciencioso e equilibrado. Sabendo da última inclinação de Leonardo Pataca, Vidigal e seus granadeiros cercaram a casa do feiti- ceiro a que recorrera o amante da Cigana. Quando ir- romperam dentro, estava-se no melhor da cerimônia:

o

suplicante, acompanhado por um coro, dançava em

9

Oficial de justiça.

trajes menores ao redor de uma fogueira, no centro da sala. Depois de os fazer dançar por mais um bom tempo, Vidigal mandou os soldados açoitar os pra- ticantes de feitiçaria. Em seguida, após um sermão, levou Leonardo para a cadeia. Na manhã seguinte, ao receber o apelo de Leo- nardo, a Comadre correu em seu auxílio, procuran- do no palácio real o pai do moço que desvirginara Maria, agora Tenente-Coronel a serviço do rei. O Te- nente-Coronel atendeu prontamente ao pedido da família daquela com quem se considerava em dívi- da: dirigiu-se à casa de um amigo fidalgo, que obte- ve a soltura do meirinho em poucos dias.

OO PPaaddrriinnhhoo ee aa VViizziinnhhaa

O padrinho, chamado de Compadre no romance, desconhecia a própria origem. Aprendera o ofício de barbeiro com o homem que o criara. Depois de ra- paz, desligou-se da família e embarcou para a África como médico num navio negreiro, pois fazia sangrias com eficiência. 10 Na volta ao Brasil, tendo ganho a con- fiança da tripulação, foi chamado ao leito de morte do capitão, que lhe confiou um baú de dinheiro para que o entregasse a uma filha residente no Rio. O bar- beiro ficou com o dinheiro, em vez de entregá-lo à su- posta herdeira. Depois, tornou-se um homem de bem. Agora, demonstra extrema paciência com o enteado, que sempre frustra suas expectativas. É também muito tolerante com a Vizinha, que não perde chance em provocá-lo por causa das diabruras do afilhado. Motivado exclusivamente por seu amor, o barbeiro decidiu preparar o menino para enviá-lo à Coimbra. Queria fazer dele um padre. Logo que soube disso, a Vizinha ridicularizou a incrível pretensão, provocan- do o padrinho da janela. Depois de muito empenho, o Compadre conse- guiu ensinar o abecedário a Leonardo. Na escola, ele levava bolos de palmatória todos os dias, pois não deixava em paz os colegas. Logo no início, derra- mou o conteúdo do tinteiro na cabeça de um meni- no. Com o tempo, aprendeu a matar aulas, indo pas- sar as tardes na igreja da Sé, onde fez camarada- gem com um sacristão de sua idade. Ali, divertia-se com o caniço de acender velas e roubava o vinho das galhetas. 11 Esse tipo de divertimento levou-o a con- vencer o padrinho a tirá-lo da escola e substituí-la pelo emprego de sacristão na igreja. Era um jeito de preparar seu futuro. Assim foi feito.

10 No tempo em que se passa esta estória, acreditava-se que a saída artificial de certa quantidade de sangue duma veia pro- vocava melhoras súbitas no paciente. Tal função era, em par- te, atribuída aos barbeiros. Nesse caso, sangrar é sinônimo de lancetar.

11 Galheta: pequeno vaso de vidro que contém vinho para a missa.

Na primeira oportunidade, Leonardo, em combi- nação com o outro pequeno sacristão, organizou uma

desforra contra a Vizinha, que freqüentava a igreja da Sé. Numa missa muito concorrida, ambos pres- sionaram a mulher na multidão e, colocando-se um na frente e outro atrás, deram-lhe um banho de ce-

ra derretida em meio a rolos de fumaça de incenso.

A Vizinha deu queixa ao Mestre-de-Cerimônias,

que era o padre responsável pela igreja, e isso cus- tou aos dois uma enorme bronca diante da reclaman- te. Juraram vingança contra o padre.

diante da reclaman- te. Juraram vingança contra o padre. O O M M e e s

OO MMeessttrree--ddee--CCeerriimmôônniiaass

Esse padre era um santo na aparência e um las-

civo na essência. Fora ele quem roubara a Cigana do Leonardo. Em casa dela, passava boa parte do tem- po. Lá, quando preparava um dos sermões mais im- portantes do ano, foi interrompido pelo auxiliar Leonardinho, que fora incumbido de avisá-lo sobre

o horário da festa no dia seguinte. Sabendo que o

sermão estava marcado para as nove horas, o meni- no informou ao padre que seria às dez. Pretendia, com isso, desmascará-lo em público. À hora marca- da, a multidão de fiéis começou a estranhar a demo- ra do pregador. Depois de muita espera, elegeram um capuchinho italiano para substituir o Mestre-de- Cerimônias. Mal começou o sermão, as velhotas pu- seram-se a reclamar, dizendo que não entendiam latim, embora o padre pregasse em italiano. Depois de um tempo, chegou o pregador oficial e travou-se entre ambos uma verdadeira disputa pela primazia à palavra. Ambos falavam ao mesmo tempo, o que causou riso e indignação nos fiéis. Depois de vencer o capuchinho no púlpito, o Mes- tre-de-Cerimônias foi repreender os dois sacristãos na sacristia, então repleta de fiéis. Segurando os me- ninos pelas orelhas, perguntou-lhes pela hora certa do sermão. Leonardo alegou que dissera nove horas. Afirmou em seguida que a Cigana tinha ouvido. Era sua testemunha. A multidão espantou-se diante da declaração, e o padre ficou sem saber onde escon- der a cara. Em seguida, despediu Leonardinho dos serviços da igreja.

Ao saber que fora preterido pela Cigana por causa do padre, Leonardo Pataca voltou a insistir com a ex- amante, ameaçando-a com os castigos da vida eterna. Ela nem ligou. Extremamente ofendido, Leonardo pro- curou meios de castigá-la nesta vida mesmo. Ao saber que a Cigana ia dar uma festa de aniversário e supon- do que o reverendo haveria de estar presente, correu em busca do arruaceiro Chico-Juca e o contratou para provocar uma desordem. Em seguida, avisou o Vidi- gal. Na noite da festa, escondeu-se em lugar conve- niente e ficou observando o resultado de sua intriga. O padre, de fato, participava da festa, só que trancado no quarto, para onde, de vez em quando, a Cigana levava uma amiga e deixava-se ficar lá por uns minutos. De- pois de armada a algazarra, Chico-Juca fugiu. Imedia- tamente em seguida, entrou Vidigal com seus grana- deiros. O padre foi pego em flagrante delito de amor:

de cuecas, meias pretas, sapatos de fivela e um gorri- nho na cabeça. Trazido assim para a sala, todos desata- ram a rir. Em seguida, o padre foi conduzido à Casa da Guarda na Sé. Depois disso, Leonardo conseguiu unir- se à Cigana por mais uns tempos.

LLuuiissiinnhhaa

Poucos dias depois desses acontecimentos, o Compadre levou o afilhado à casa de D. Maria, uma mulher rica que tinha mania de demandas judiciais. Ela morava na Rua dos Ourives, por onde passava a procissão consagrada a esses artesãos. A procissão dos ourives era a mais apreciada dentre todas as pro- cissões cariocas. Havia nela uma ala de baianas que chamava a atenção de todos. Além disso, havia se- ções alegóricas de grande apelo popular, como foi o caso do sacrifício de Isaac. 12 Além do Compadre e do Leonardinho, estavam em casa de D. Maria a Coma- dre e a Vizinha. Enquanto aguardavam a procissão, conversavam: D. Maria passava em revista suas últi- mas demandas; o Compadre resumia a estória do afi- lhado; a Vizinha maldizia o menino. Este, por desfor- ra, colocou-se ao lado dela, tramando alguma coisa. Ela, ao percebê-lo por perto, levantou-se imediata- mente. Rapidinho, ele pisou-lhe na barra do vestido, que se rasgou ao longo de quatro palmos. Depois desta, seguiram-se muitas visitas do pa- drinho e do afilhado à casa de D. Maria. Depois das diabruras iniciais nesta casa, o menino passou a en- cher-se de tédio, ficando sentado a um canto da sala. Assim passaram-se os anos, até que chegou a idade dos amores. 13 D. Maria vencera mais uma de-

12 A descrição desse cortejo faz supor que ele pode ser uma das origens remotas do carnaval carioca.

13 Os leitores devem já estar fatigados de histórias de travessuras de criança; já conhecem suficientemente o que foi o nosso me- morando em sua meninice, as esperanças que deu, e o futuro que prometeu. Agora vamos saltar por cima de alguns anos, e vamos ver realizadas algumas dessas esperanças. Agora co- meçam histórias, senão mais importantes, pelos menos um pouco mais sisudas. Cap. 18, 1ª- parte.

manda: desta vez, contra um compadre de seu re- cém-falecido irmão. Este deixara uma boa herança a uma filha única, razão pela qual o compadre do fale- cido reivindicava a tutoria da menina. Com o fim da demanda, esta, que se chamava Luisinha, veio para o convívio de D. Maria, que a apresentou ao Com- padre e a Leonardo. Ao vê-la, o menino não pôde re- primir o riso. Supôs que a tivesse achado feia, mas foi o impulso amoroso que o levou ao riso. O narra- dor, todavia, não deixa de apresentá-la como feia, pois acabava de perder as graças de menina, sem atingir ainda os encantos de mulher. Por ocasião da festa do Espírito Santo, Leonar- do voltou à casa de D. Maria, sempre acompanhado do padrinho. Pelo caminho, foram observando a Fo- lia, formada por meninos vestidos de pastores e ir- mãos de confrarias religiosas tocando instrumentos atrás deles. No meio de todos, ia o Imperador do Di- vino, representado por um menino, com calças de ve- ludo verde e outros adereços. Em casa de D. Maria, Leonardo achou Luisinha menos feia. Ela, contudo, ainda não sorria nem tirava os olhos do chão. 14 De tardinha, foram ao Campo ver a queima de fo- gos. Diante do esplendor colorido dos foguetes, a menina descontraiu-se e chegou a abraçar Leonar- do pelas costas. Terminada a festa, voltaram para ca- sa de mãos dadas, na maior intimidade. Na visita seguinte, contudo, a menina retraiu-se de novo. Leonardo chegou a ter raiva dela. Mais tar- de, um novo elemento veio inquietar o menino apai- xonado: era José Manuel, um sujeito com os seus trinta e cinco anos, que ficou encantado não propria- mente com Luisinha, mas por sua condição. Com efeito, além da herança do pai, ela era a única herdei- ra de D. Maria. Por essa razão, o interesseiro procu- rava agradar à velha senhora sem tirar os olhos da menina. Quando o Compadre percebeu que José Manuel poderia estragar o futuro do afilhado, procu- rou apoio na Comadre, que logo se empenhou em co- locar o intruso fora de combate. Enquanto isso, Leonardo tentava conquistar di- retamente a menina, fazendo-lhe uma declaração de amor. Saiu-se tão sem jeito, que ela não fez outra coisa senão corar e correr para o interior da casa. Todavia, ficou claro que ela também gostava dele. Por outro lado, a Comadre iniciou uma verdadeira batalha de difamação contra José Manuel. A ação da madrinha traduzia-se em constantes censuras ao caráter dele perante D. Maria. A partir daí, a tia de Lui-

14 Era a sobrinha de D. Maria já muito desenvolvida, porém que, tendo perdido as graças de menina, ainda não tinha adquirido a beleza de moça: era alta, magra, pálida; andava com o queixo enterrado no peito, trazia as pálpebras sempre baixas, e olhava a furto; tinha os braços finos e compridos; o cabelo, cortado, dava- lhe apenas até o pescoço, e como andava mal penteada e trazia a cabeça sempre baixa, uma grande porção lhe caía sobre a testa e olhos, como uma viseira. Cap. 18, 1ª- parte.

sinha pôde perceber que realmente se tratava de uma pessoa mentirosa e maledicente. Além disso, a Coma- dre inventou uma complicada história para afastar o intruso do coração da menina: na ocasião, tinha havi- do um rapto de moça no Rio de Janeiro, em meio a uma oração coletiva num lugar afastado chamado Oratório de Pedra. O rapto tornara-se famoso, por dois motivos: a moça levara consigo uma meia cheia de dinheiro e não se chegou a saber quem tinha sido o raptor. Ciente do mistério, a Comadre não teve dúvida em dizer à D. Maria que tinha presenciado tudo e pudera ver que o raptor tinha sido José Manuel. Co- mo, por coincidência, ele andara afastado uns dias do convívio de D. Maria, esta acabou por acreditar na mentira e dispôs-se a expulsar o vilão de sua casa. Mas as coisas não se deram assim. O difamado perce- beu a trapaça e contratou o Mestre de Rezas para des- fazer a calúnia. Como o Mestre de Rezas tinha acesso ao interior da casa de D. Maria, não lhe foi muito difí- cil desfazer a mentira. Disso resultou no afastamento temporário da Comadre, que ficou desacreditada pe- rante a amiga rica.

GGrraavveess IInnffoorrttúúnniiooss

Enquanto o filho crescia sob os cuidados alheios, Leonardo Pataca dera novo rumo à sua vida. Tendo sido novamente traído pela Cigana, abandonou-a em definitivo, juntando-se com Chiquinha, filha da Comadre. 15 Logo depois da união, nasceu uma filha do casal, a quem o velho meirinho encheu de aten- ção e ternura. Nessa ocasião, o Compadre caiu gra- vemente enfermo e morreu. Por arranjos da Coma- dre, Leonardo foi reaproximado do pai, que se in- cumbiu de preservar a significativa herança que o padrinho lhe deixara. Assim, foram todos morar jun- tos: o novo casal, a Comadre e o Leonardo. Todavia, um incidente veio quebrar a harmonia inicial da fa- mília: Leonardo não se entendia com a mulher do pai, que tinha mais ou menos sua idade. A princípio, as brigas eram amenas. Depois, tornaram-se sérias, e o velho Leonardo, tomando as dores da jovem companheira, acabou por correr atrás do filho de es- pada em punho. Este, que jamais esquecera o pon- tapé recebido na infância, fugiu desesperado lá para as bandas dos Cajueiros, sem jamais pensar em vol- tar para o convívio do pai.

VViiddiinnhhaa eemm CCeennaa

Afastado de todos, o moço permaneceu pensati- vo sobre umas pedras, dominado pela saudade de Luisinha. De repente, foi atraído por risadas atrás de si. Minutos depois, estava em franca amizade com

15 Nos capítulos 16 e 18 da primeira parte, o narrador anuncia esta personagem como sobrinha da Comadre. No capítulo 1 da segunda parte, afirma tratar-se de sua filha e assim é tratada até o fim do romance.

uma súcia 16 que fazia um piquenique ao redor de uma esteira. Dentre os suciantes, Leonardo descobriu o antigo sacristão da Sé, seu amigo de infância. De- pois de comer, ouviu Vidinha cantar e tocar violão. Ficou apaixonado. Vidinha era uma mulatinha com cerca de vinte anos, muito dengosa e insinuante. 17 Leonardo recolheu-se com os novos amigos e ficou morando com eles, numa casa da Rua da Vala. A família dos novos amigos era composta por duas quarentonas viúvas e seus filhos: uma tinha três moços e a outra, três moças. Uma das moças era amasiada com o amigo de infância de Leonardo, cha- mado Tomás da Sé. Vidinha, a mais bonita das três, era disputada por dois primos. Um deles tinha chan- ce; o outro, não. Todavia, com a chegada do novo hós- pede, Vidinha só tinha olhos para ele. Tornaram-se amantes e não saíam mais de casa, passando o tem- po todo em intimidades amorosas. 18 Depois de mui- tas brigas e discussões, os primos preteridos cor- reram ao major Vidigal e apresentaram queixa con- tra o intruso, alegando que trazia discórdia para a família, tirando proveito de duas velhas ingênuas. Logo depois, numa patuscada 19 preparada como armadilha, Leonardo foi preso pelo Vidigal, sob acusação de vadiagem. Todavia, no caminho para a prisão, ele logrou o major e seus granadeiros, pondo-se a correr pelas ruas povoadas do Rio. A multidão admirou a astúcia do moço e zombou do Vidigal. Este, vendo-se moti- vo de chacota pública por causa de Leonardo, jurou vingança contra ele. Enquanto o major esperava ocasião de pôr as mãos no fugitivo, a Comadre empe- nhava-se em arranjar um emprego para ele. Por fim, conseguiu empregá-lo na ucharia, onde trabalha também o Toma Largura. 20 Logo depois de se em- pregar, Leonardo envolveu-se amorosamente com

16 Súcia é termo muito usado no romance. Designa grupo de malandros, folgazões ou vagabundos.

17 Vidinha era uma mulatinha de dezoito a vinte anos, de altura re- gular, ombros largos, peitos alteados, cintura fina e pés peque- ninos; tinha os olhos muito pretos e muito vivos, os lábios gros- sos e úmidos, os dentes alvíssimos, a fala um pouco descansada, doce e afinada. // Cada frase que proferia era interrompida com uma risada prolongada e sonora, e com um certo caído de cabe- ça para trás, talvez gracioso se não tivesse muito de afetado. Cap. 7, 2ª- parte. Além do costume das risadas tinha Vidinha um outro, e era o de começar sempre tudo o que tinha a dizer por um “qual” muito acentuado. Cap. 8, 2ª- parte.

18 Leonardo passava vida completa de vadio, metido em casa to- do o santo dia, sem lhe dar o menor abalo o que se passava lá fora pelo mundo. O seu mundo consistia unicamente nos olhos, nos sorrisos e nos requebros de Vidinha. Cap. 11, 2ª- parte.

19 Patuscada é termo muito usado no romance. Designa ajunta- mento de pessoas para comer e beber. Pândega, farra.

20 Ucharia é a despensa do rei. Toma Largura é designação para qualquer pessoa empregada no serviço real. Não se deve esquecer que muitas personagens das Memórias são desig- nadas pelo nome do ofício que desempenham. No romance, Toma Largura é grafado com minúsculas e com hífen.

a mulher do Toma Largura, que era um sujeito muito

grande e forte. Um dia, quando estava servindo um caldo à nova amante (caldo cuja porção central se destinava ao rei), Leonardo viu-se perseguido e es- murrado pelo marido agravado. No dia seguinte, foi despedido da ucharia real. Quando Vidinha soube do motivo porque o namorado perdera o emprego, desacatou-o de toda forma. Em seguida, correu à ucharia para desaforar com a mulher do Toma Lar- gura. Leonardo seguiu-a, com o propósito de dis- suadi-la daquela provocação. Todavia, quando Vi- dinha já se encontrava nas dependências do palácio, Leonardo foi apanhado pelo Vidigal na porta do mes- mo palácio. Enquanto este era levado para a cadeia, Vidinha desfeiteava o casal na própria casa deles.

Ocorre que, durante a gritaria da mulatinha, o To- ma Largura deixou-se cativar por seus encantos e, no dia seguinte, iniciou uma verdadeira campanha para conquistar seu coração, rodeando-lhe regular- mente a casa. Depois de um tempo, Vidinha come-

çou a interpretar a ausência do namorado como des- forra das últimas brigas. Por isso, rendeu-se à insis- tência do Toma Largura. Entregando-se a ele, a me- nina vingava-se ao mesmo tempo do Leonardo e da mulher com quem este a traíra. Assim, a paz voltou para a casa de Vidinha. Enquanto isso, Leonardo, for- çado pela polícia, alistava-se no exército, de onde foi destacado para servir de granadeiro ao major Vi- digal. Passados uns dias, o pessoal da casa de Vidi- nha resolveu fazer uma patuscada para comemorar

o retorno da paz à família. No meio da festa, Toma

Largura, que bebera muito, começou a fazer bagun- ça, agredindo os companheiros e jogando o conteú- do das esteiras para o ar. No apogeu de sua fúria de bêbado, surge o major Vidigal, que escolhe justa- mente o novo granadeiro para o prender. Todos se espantaram com tamanha novidade. Todavia, não foi possível levar o arruaceiro até a cadeia, pois des- maiou no caminho e tiveram que o deixar na calçada.

DDiiaabbrruurraass ddoo NNoovvoo GGrraannaaddeeiirroo

Vidigal requereu Leonardo para o batalhão de granadeiros, não apenas por desforra, mas também por julgá-lo apto no combate aos malandros do Rio. Mas as coisas não saíram exatamente como ele espe- rava, porque o novato continuou aprontando dentro do próprio quadro da polícia. Havia um grupo de desocupados que organizou

o enterro simbólico do major, para cuja solenidade

inventaram um fado que incluía a seguinte dramati- zação: um dos malandros envolvia-se num lençol e deitava-se no chão, enquanto os demais dançavam em redor, entoando uma cantiga com o refrão de pa- pai lêlê seculorum. Como o major descobrisse que, numa determinada noite, o grupo ia executar a dan- ça, destacou o granadeiro Leonardo para espreitar

a casa e dar o devido sinal para que a casa fosse in-

vadida. Todavia, em vez do sinal positivo, Leonardo

enviou um sinal negativo, e os soldados, julgando que

a dança tinha sido cancelada, dispersaram-se. Passa-

ram-se os minutos, e Leonardo não aparecia para se reintegrar ao comando do major, que, desconfiado, retornou à casa sob suspeita e a invadiu: lá estava, no chão, figurando de morto, o próprio Leonardo, en- quanto os arruaceiros dançavam e cantavam ao seu redor. O major mandou sentar a borracha nele, mas depois lhe perdoou, por ser a primeira vez que des-

respeitava a disciplina militar. Logo depois, o granadeiro Leonardo incorreu novamente em indisciplina: havia no Rio um deso- cupado chamado Teotônio, cujo prazer era animar festas, nas quais fazia caretas e imitava as pessoas. Além disso, bancava o jogo no sótão de sua casa. Ul- timamente, vinha caricaturando Vidigal durante as

festas. Por essas razões, o major andava à espreita do valdevinos, sem conseguir prendê-lo. Um dia, surgiu

a oportunidade de surpreender Teotônio: Leonardo

Pataca ia dar uma festa, por ocasião do batizado de sua filha com Chiquinha, e o major pôde apurar que lá estaria o moço das caretas. Por isso, designou o granadeiro Leonardo para o vigiar, de modo a facili-

tar sua captura no final da função 21 . Todavia, o gra- nadeiro envolveu-se com as graças de Teotônio e aca- bou por compadecer-se dele, avisando-o do perigo que corria. Assim, ao sair da casa, fingiu de aleijado

e pôde passar pelo major sem ser preso. Depois,

este veio a descobrir a traição de Leonardo e, por isso, o prendeu sob o juramento de algumas chiba- tadas como punição.

A comadre soube do anúncio da surra e correu

ao major, que se mostrou inflexível em seu propósi- to de chibatar o insubordinado. Ela, então, foi bus- car apoio com a D. Maria, que a conduziu à casa de Maria Regalada, antiga amante de Vidigal. Dali, as três dirigiram-se à casa do major, que as recebeu de roupa civil da cintura para baixo e de farda da cin- tura para cima. Ali, em comissão, as três senhoras

fizeram tudo para demover o velho policial de seu

ele tinha uma antiga paixão pela Rega-

dever. Mas

lada e, agora, comoveu-se todo com sua visita. Esta chamou-o a um canto e propôs um acordo: volta- riam a viver juntos, se Leonardo fosse perdoado. Depois de alguns negaceios, o major consentiu no perdão e ainda prometeu promover o granadeiro a

sargento do exército.

A esta altura, Luisinha já tinha se casado com Jo-

sé Manuel, que a tratava mal e não lhe tinha amor. Preocupava-se unicamente com seu dinheiro. D. Ma- ria apercebera-se disso e preparava-se para mover uma ação judicial contra ele. Mas não foi necessário,

pois ele foi acometido de um ataque apopléctico 22 e

21 Função: termo usado no romance com a acepção de festa.

22 Ataque apopléctico é relativo à apoplexia: uma espécie de derrame.

morreu em seguida. Embora tivesse chorado, Luisi- nha não sentiu a perda do marido. Leonardo compa- receu ao velório e, no cumprimento de ambos, ficou claro que ainda se amavam. Ela tinha perdido o aca- nhamento de solteira, ficara bonita e desenvolta. Ele, além de bonito, estava muito elegante com sua nova farda de sargento. Após o enterro, preparou-se tudo para o casamento. Como os soldados da ativa no exército não podiam se casar naquele tempo, o major Vidigal transferiu Leonardo do exército para a milí-

cia. 23 A cerimônia realizou-se logo após o término do

luto, e eles viveram felizes para sempre. Após a união,

D. Maria e Leonardo Pataca morreram. Assim, o

jovem casal juntou às outras mais duas heranças.

LLEEIITTUURRAA EE EEXXEERRCC´´IICCIIOOSS

CCaappííttuulloo XXIIIIII

EEssccááppuullaa

1. Deixemos aos noivos o gozo tranqüilo da sua lua de mel; deixemos D. Maria desfazer-se em carinhos e conselhos à sua sobrinha, que os recebia indiferen- temente, e em atenções para com José Manuel, cu- ja cabeça se tinha tornado repentinamente uma arit- mética completa, toda algarismos, toda cálculos, to- da multiplicações; e voltemos a saber o que foi fei- to do Leonardo, a quem deixamos na ocasião em que fora arrancado pelo Vidigal dos braços do amor e da folia.

2. O Vidigal tinha-o posto diante de si, ao lado de um granadeiro, e marchava poucos passos atrás. En- quanto caminhavam, o granadeiro pretendeu dar- lhe conversa; mas ele a nada respondia, parecen- do absorto em grave cogitação.

3. Quem estivesse muito atento havia de notar que al- gumas vezes o Leonardo parecia, ainda que muito ligeiramente, apressar o passo, que outras vezes o retardava, que seu olhar e sua cabeça voltavam-se de vez em quando, quase imperceptivelmente, pa- ra a esquerda ou para a direita. O Vidigal, a quem nada disto escapava, achava em todas estas oca- siões pretextos para dar sinais de si; tossia, pisava mais forte, arrastava no chão o chapéu de sol que sempre trazia na mão, como quem queria dizer ao Leonardo, respondendo aos seus pensamentos ín- timos — Cuidado! eu aqui estou. E o Leonardo en- tendia tudo aquilo às mil maravilhas; contraía os lá- bios de raiva e de impaciência. Entretanto nem por isso abandonava a sua idéia: queria fugir. Desconfia- va que ia para a Casa da Guarda, e pedia interior- mente aos seus deuses que alongassem de muitas léguas as ruas que tinha de percorrer. Quando via

23 Milícia é a guarda civil.

de longe uma esquina dizia consigo: — É agora; quebro por ali fora, e bato pernas. Porém ao che- gar perto da esquina, o Vidigal achava alguma cousa que dizer ao granadeiro, e passava-se a es- quina. Se lhe aparecia à direita ou à esquerda um corredor aberto, pensava consigo: — Embarafusto por ali a dentro, e sumo-me. Mas no momento em que ia tomar a última decisão, parecia-lhe sentir a mão do Vidigal que o agarrava pela gola da jaque- ta, e esfriava. Não eram os granadeiros que lhe me- tiam medo; nunca em todos os planos de fugir que lhe passavam naquela ocasião pela cabeça contou uma só vez com eles; mas o Vidigal, o cruel major, era a quantidade constante de seu cálculos.

4. O pobre rapaz, durante aqueles combates íntimos, suava mais do que no dia em que fez a primeira declaração de amor à Luisinha. Só havia na sua vi- da um transe a que se assemelhava aquele em que então se achava, era o que se havia passado, quan- do criança, naquele meio segundo que levara a percorrer o espaço nas asas do tremendo pontapé que lhe dera seu pai.

5. Repentinamente uma circunstância veio favorecê- lo. Não sabemos por que causa ouviu-se um gran- de alarido na rua: gritos, assovios e carreiras. O Leonardo teve uma espécie de vertigem: zuniram- lhe os ouvidos, escureceram-se-lhe os olhos, e dando um encontrão no granadeiro que estava perto dele, desatou a correr. O Vidigal deu um sal- to, e estendeu o braço para o agarrar; mas apenas roçou-lhe com a ponta dos dedos pelas costas. O rapaz tinha calculado bem: o Vidigal distraiu-se com o ruído que se fizera na rua, e aproveitou a ocasião. O Vidigal e os granadeiros soltaram-se imediatamente em seu alcance: o Leonardo emba- rafustou pelo primeiro corredor que achou aberto; os seus perseguidores entraram incontinente atrás dele, e subiram em tropel o primeiro lance da es- cada. Apenas o haviam dobrado, e subiam o se- gundo, abriram-se as cortinas de uma cadeirinha que se achava na entrada, e pela qual tinham eles passado, sai dela Leonardo, e de um pulo ganha a rua. Ao entrar, tendo dado com aquele refúgio, metera-se dentro; os granadeiros e o Vidigal não haviam reparado em tal com a precipitação com que entraram, e isso lhe valeu.

6. É impossível descrever o que sentiu o Leonardo quando por entre as cortinas da cadeirinha viu-os passar e subir a escada. Foi uma rápida alternativa de frio e de calor, de tremor e de imobilidade, de medo e de coragem; veio-lhe outra vez à lembran- ça o pontapé paterno: era o termo constante de comparação para todos os seus sofrimentos.

7. Enquanto o Vidigal e os granadeiros varejavam a casa em que haviam entrado, Leonardo punha-se longe, e em quatro pulos achava-se em casa de Vi- dinha, que o recebeu com um abraço, exclamando:

8. — Qual! aí está ele.

9. Um raio de alegria iluminou todos os semblantes, menos os dos dous irmãos rivais que ficaram hor- rivelmente desapontados. As duas velhas tiraram da cabeça as mantilhas que já haviam tomado para dar providências sobre o caso. A presença de Leo- nardo foi uma aura benfazeja que espalhou as nuvens de uma grossa tormenta, que tendo come- çado a roncar quando Leonardo foi preso com aquelas palavras — foi malsinação — viera desabar de todo em casa, e prometia durar muito tempo.

10.

Vidinha, tendo a princípio trocado com os primos algumas indiretas a respeito da prisão de Leonar- do, julgara conveniente deixar-se de panos quen- tes, e fora direto a eles, como se diz, com quatro pedras na mão, atribuindo-lhes o que acabava de suceder.

11.

Eles denegaram, e travaram-se com ela de ra- zões. À princípio as duas velhas estavam ambas da parte de Vidinha, porém tendo esta atirado três ou quatro ditos forte demais aos primos, a tia ofendeu-se, e tomou o partido dos dous filhos: a outra velha, mãe de Vidinha, protesta contra a parcialidade de sua irmã, e reforça ainda mais, acompanhada dos que restavam, o partido de Vi- dinha. Divididos e extremados assim os dous campos, com terríveis campeões de lado a lado, fácil é prever-se o que teria sucedido se o Leonar- do não viesse tão a tempo para acalmar tudo.

12.

Tomado pelo prazer de ver-se livre, nem teve ele tempo de fazer recriminações aos seus inimigos: já sabia com certeza quem fora a causa do que aca- bava de sofrer, pois que o tinha percebido pela conversa que com ele tentara travar o granadeiro.

13.

O

major Vidigal fora às nuvens com o caso: nunca

um só garoto, a quem uma vez tivesse posto a

mão, lhe havia podido escapar; e entretanto aque-

le

lhe viera pôr sal na moleira; ofendê-lo em sua

vaidade de bom comandante de polícia, e degra- dá-lo diante dos granadeiros. Quem pregava ao major Vidigal um logro, fosse qual fosse a sua na- tureza, ficava-lhe sob a proteção, e tinha-o consi- go em todas as ocasiões. Se o Leonardo não tives-

se fugido, e arranjasse a soltura por qualquer meio,

o

Vidigal era até capaz, por fim de contas, de ser

seu amigo; mas tendo-o deixado mal, tinha-o por seu inimigo irreconciliável enquanto não lhe des- se desforra completa.

14.

Já se vê pois que as fortunas do Leonardo redun- davam-lhe sempre em mal; era realmente um mal naquele tempo ter por inimigo o major Vidi- gal, principalmente quando se tinha, como o Leo- nardo, uma vida tão regular e tão lícita.

15.

Veremos agora o que passou na casa em que en- trara o Vidigal com os granadeiros em procura do Leonardo.

1. O texto como um todo apresenta três partes bem distintas. Assinale a alternativa que as indique corretamente, observando a ordem adequada:

a) referência ao futuro imediato da persona- gem, cena de rua e cena interna

b) alusão ao passado imediato da personagem, cena interna e cena externa

c) alusão ao passado imediato da personagem, cena doméstica e cena de rua

d) alusão a antecedentes do romance, cena de rua e cena doméstica

e) resumo de capítulos antecedentes, cena de rua, cena da fuga

2. Observe o primeiro parágrafo do texto e assina- le a alternativa que apresente os nomes dos noi- vos ali aludidos:

a) José Manuel e Vidinha

b) Leonardo e Luisinha

c) José Manuel e Luisinha

d) José Manuel e D. Maria

e) Leonardo Pataca e Chiquinha

3. Além de apresentar um entretenimento, este ca- pítulo pode funcionar como elemento caracteri- zador da personagem. Nele, ressalta-se a seguin- te propriedade de Leonardo:

a) infidelidade

b) interesse

c) esperteza

d) ingenuidade

e) sentimentalidade

4. Observe o primeiro parágrafo do texto e assina- le a alternativa que justifique o fato de a cabeça de José Manuel ter-se, metaforicamente, trans- formado numa completa aritmética:

a) ele era contador

b) só pensava na herança de Luisinha

c) tinha ganho uma demanda

d) pensava em juros

e) era muito sincero

5. No texto há duas referências a um mesmo even- to do passado da personagem. Trata-se:

a) da declaração de amor à Luisinha

b) da prisão anterior

c) de um encontro com D. Maria

d) da denúncia dos primos de Vidinha ao major Vidigal

e) do pontapé recebido do pai

6. Assinale a alternativa que contenha o elemento que favoreceu a fuga de Leonardo:

a) desatenção de Vidigal

b) alarido na rua

c) rapidez do prisioneiro

d) conversa com o granadeiro

e) presença da cadeirinha

7. No quinto parágrafo alude-se a “uma cadeirinha”. Assinale a alternativa que apresenta o seu signifi- cado no contexto:

a) meio de transporte movido por escravos

b) diminutivo de cadeira, com sentido de móvel grande

c) transporte puxado por cavalos

d) reentrância na parede

e) altar com cortinas

8. A exclamação de Vidinha ao ver Leonardo de vol- ta a casa, além de indicar seu contentamento, re- mete para:

a) a indignação de que se viu tomada

b) um traço típico de sua expressão verbal

c) o despeito dos primos

d) um traço de seu amor

e) um traço de seu fingimento

9. Assinale a alternativa que apresente a síntese da situação da família de Vidinha no momento em que Leonardo retornou a casa:

a) ameaçava uma tempestade

b) iniciava-se um verdadeiro luto pela ausência dele

c) iniciava-se uma briga

d) terminava uma briga

e) acabava uma tempestade iniciada dias antes.

10. No parágrafo 12, Leonardo descobre a causa da prisão de que acaba de fugir. Ela foi devida a:

a) intriga do granadeiro

b) intriga do Vidigal

c) denúncia de Vidinha

d) denúncia dos primos de Vidinha

e) mal-entendido dos primos de Vidinha

11. No parágrafo 9, há uma alusão figurada ao que está ocorrendo. Observe-o e responda.

a) Qual o recurso poético ou figura de linguagem utilizada na passagem?

b) Quais são os dois elementos em jogo nessa fi- gura?

12. Além de humor declarado, as Memórias apre- sentam diversas passagens irônicas.

a) O que é ironia?

b) Indique uma passagem irônica no texto.

13. Observe o primeiro e o último parágrafos do ca- pítulo para responder.

a) O que ambos têm em comum?

b) O ponto comum entre eles relaciona-se à es- trutura folhetinesca do romance. Como expli- car isso em breves palavras?

14. No parágrafo 12, alude-se a dois inimigos de Leonardo.

a) Quem são eles?

b) Por que são considerados inimigos?

15. Nos parágrafos 4 e 6, refere-se ao pontapé que Leonardo recebera na infância.

a) A permanência dessa ofensa na memória da personagem deve-se apenas à dor física? Ex- plique.

b) Houve uma outra tentativa de agressão física do pai contra o filho. Em que época da vida de Leonardo se deu a ofensa e qual foi ela?

(FUVEST/2002) Texto para as questões de 16 a 19 Sua história tem pouca coisa de notável. Fora Leo- nardo algibebe 1 em Lisboa, sua pátria; aborrecera-se porém do negócio, e viera ao Brasil. Aqui chegando, não se sabe por proteção de quem, alcançou o empre- go de que o vemos empossado, e que exercia, como dissemos, desde tempos remotos. Mas viera com ele no mesmo navio, não sei fazer o quê, uma certa Maria da hortaliça, quitandeira das praças de Lisboa, saloia 2 rechonchuda e bonitota. O Leonardo, fazendo-se-lhe justiça, não era nesse tempo de sua mocidade mal apessoado, e sobretudo era maganão 3 . Ao sair do Tejo, estando a Maria encostada à borda do navio, o Leo- nardo fingiu que passava distraído por junto dela, e com o ferrado sapatão assentou-lhe uma valente pisa- dela no pé direito. A Maria, como se já esperasse por aquilo, sorriu-se como envergonhada do gracejo, e deu-lhe também em ar de disfarce um tremendo belis- cão nas costas da mão esquerda. Era isto uma declara- ção em forma, segundo os usos da terra: levaram o resto do dia de namoro cerrado; ao anoitecer passou- se a mesma cena de pisadela e beliscão, com a diferen- ça de serem desta vez um pouco mais fortes; e no dia seguinte estavam os dois amantes tão extremosos e fa- miliares, que pareciam sê-lo de muitos anos.

(Manuel Antônio de Almeida, Memórias de um Sargento de Milícias)

Glossário:

1 algibebe: mascate, vendedor ambulante.

2 saloia: aldeã das imediações de Lisboa.

3 maganão: brincalhão, jovial, divertido.

16. Neste excerto, o modo pelo qual é relatado o iní- cio do relacionamento entre Leonardo e Maria

a) manifesta os sentimentos antilusitanos do au- tor, que enfatiza a grosseria dos portugueses em oposição ao refinamento dos brasileiros.

b) revela os preconceitos sociais do autor, que retrata de maneira cômica as classes popula- res, mas de maneira respeitosa a aristocracia e o clero.

c) reduz as relações amorosas a seus aspectos se- xuais e fisiológicos, conforme os ditames do Naturalismo.

d) opõe-se ao tratamento idealizante e sentimen- tal das relações amorosas, dominante no Ro- mantismo.

e) evidencia a brutalidade das relações inter-ra- ciais, própria do contexto colonial-escravista.

17. (FUVEST/2002) No excerto, o narrador incorpo- ra elementos da linguagem usada pela maioria das personagens da obra, como se verifica em:

a) aborrecera-se porém do negócio.

b) de que o vemos empossado.

c) rechonchuda e bonitota.

d) envergonhada do gracejo.

e) amantes tão extremosos.

18. (FUVEST/2002) No excerto, as personagens ma- nifestam uma característica que também estará presente na personagem Macunaíma. Essa ca- racterística é a

a) disposição permanentemente alegre e bem- humorada.

b) discrepância entre a condição social humilde

e a complexidade psicológica.

c) busca da satisfação imediata dos desejos.

d) mistura das raças formadoras da identidade nacional brasileira.

e) oposição entre o físico harmonioso e o com- portamento agressivo.

19. (FUVEST/2002) O trecho “fazendo-se-lhe justiça” mantém com o restante do período em que apa- rece uma relação de

a) causa.

d) contradição.

b) conseqüência.

e) condição.

c) tempo.

20. (PUC-SP/2002) Das alternativas abaixo, indique a que CONTRARIA as características mais signi- ficativas do romance Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida.

a) Romance de costumes que descreve a vida da coletividade urbana do Rio de Janeiro, na época de D. João VI.

b) Narrativa de malandragem, já que Leonardo, personagem principal, encarna o tipo do ma- landro amoral que vive o presente, sem qual- quer preocupação com o futuro.

c) Livro que se liga aos romances de aventura, marcado por intenção crítica contra a hipocrisia,

a venalidade, a injustiça e a corrupção social.

d) Obra considerada de transição para um novo estilo de época, ou seja, o Realismo/Naturalismo.

e) Romance histórico que pretende narrar fatos de tonalidade heróica da vida brasileira, como os vividos pelo Major Vidigal, ambientados no tempo do rei.

RREESSPPOOSSTTAASS

1. D

2. C

3. C

4. B

5. E

6. B

7. A

8. B

9. C

10. D

11. Trata-se de uma metáfora.

a)

b) Metáfora é uma comparação abreviada entre um termo real e um ideal. Neste caso, compa- ra-se uma briga familiar (termo real) com uma tempestade (termo ideal).

12. A ironia consiste em dizer uma coisa e suge- rir o seu contrário.

b) Nos parágrafos 12 e 13, há, em cada um, uma passagem irônica. A primeira consiste na afir- mação de que quem enganasse o Vidigal fica- ria, daí por diante, sob sua proteção. Na ver- dade, tal indivíduo ficaria sob sua vigilância policial. A segunda consiste na afirmação de que Leonardo tinha uma vida regular e lícita, com o propósito de sugerir que era irregular e ilícita.

13. Tanto o primeiro quanto o último parágrafos são metalingüísticos, pois aludem a elemen- tos da própria linguagem romanesca. No pri- meiro, há um rápido resumo dos anteceden- tes imediatos da trama. No segundo, anuncia- se o assunto do próximo capítulo.

b) Tal procedimento metalingüístico tinha, no romance publicado parceladamente em jor- nais, a função de auxiliar o leitor, situando-o relativamente à trama do folhetim anterior e do próximo.

14. Os dois primos de Vidinha, que aparecem sem nome no romance.

b) Ambos disputavam entre si o amor de Vidinha. Com a vinda de Leonardo para a casa deles, uniram-se para derrotar o “inimigo” comum.

15. O pontapé dado pelo pai em Leonardo cons- titui-se num verdadeiro trauma de infância, não só pela dor física, mas também pela dor moral, pois trazia-lhe à lembrança a briga do pai com a mãe e a fuga desta para Portugal.

b) Leonardo Pataca tentou bater no filho com sua espada de meirinho. A espada estava na bai- nha. Isso deu-se quando Leonardo já era moço, logo após a morte do padrinho, quando teve de morar com o pai, que então vivia com sua nova mulher, Chiquinha.

16. D Ao apresentar o encontro entre o algibebe Leo- nardo e a saloia Maria, o narrador das Memó- rias de um Sargento de Milícias opõe-se frontal- mente ao “tratamento idealizante e sentimental

a)

a)

a)

a)

das relações amorosas” que prevalece na litera- tura romântica. A irônica qualificação da pisa- dela como “gracejo” e do beliscão como uma “declaração” desfaz qualquer sentimentalismo e traz a cena para o terreno do prosaico, impedin- do a idealização do encontro amoroso.

17.

C

A

leitura da obra revela uma novidade: a maio-

ria das personagens utiliza uma variante lin-

güística que se situa entre o irreverente e o in- formal. Assim, a variante popularesca, prosaica, repleta de marcas de oralidade contrasta com a linguagem literária da época, mais formal.

A

alternativa c apresenta a variante das perso-

nagens, sobretudo pela escolha de um léxico in- formal, como rechonchuda e bonitota.

18.

C

O

comportamento de Leonardo e de Maria da

Hortaliça, no excerto, é caracterizado pela au-

sência de freios morais. Ambos dão imediata expansão a seus desejos sensuais: tornam-se amantes desde o primeiro encontro. Algo aná- logo pode ser verificado no caso de Macunaíma, personagem que parece não possuir qualquer espécie de censura capaz de impedir a pronta manifestação de seus desejos.

19. E

O trecho fazendo-se-lhe justiça constitui uma

oração subordinada adverbial reduzida. Desen- volvendo-a, tem-se: se se lhe fizer justiça ou caso lhe seja feita justiça. Essa oração esta- belece um sentido de condição com o restante do período. A afirmação de que Leonardo na moci- dade não era mal apessoado depende de que

lhe seja feita justiça; em outros termos, que não

se tenha má vontade em relação a ele.

20. E Não se pode dizer que a obra Memórias de um Sargento de Milícias pretenda narrar “fatos de tonalidade heróica”,posto que é, antes, um ro- mance de costumes que focaliza o cotidiano ur- bano carioca do tempo de D. João VI. O Major Vidigal, chefe da milícia da época, é um tipo se- vero, com rigoroso senso de justiça, mas suas atividades nada têm de heróicas: sua função é reprimir a “vadiagem”.

Observação: É interessante salientar que a al- ternativa c também não é de todo pertinente, dado o alto grau de diluição da crítica social em- butida no romance.