Você está na página 1de 3

O “Mundo sem mulheres” e o Macho Alpha editado

Estreou neste último domingo, (7/4), o quadro “Mundo Sem Mulheres”, que será exibido no programa “Fantástico”. Em uma aparente estética e edição modernas, o que se viu no primeiro episódio nada mais foi do que a reedição de todos os códigos masculinistas que constroem a figura das “mulheres” há séculos, ou, melhor dizendo, desde a configuração do lar grego: a polis aos machos viris, ao lar as fêmeas sensíveis e retraídas. Na apresentação do quadro no programa, a jornalista Renata Ceribelli introduz: “elas partiram de férias, por uma semana, mas, é claro, com o coração na mão”, pois, onde já se viu “mulher” deixar a casa para o macho do lar cuidar durante sete dias! E na sequência, nada mais clichê e direcionado: os machos alfas com o seu reino livre das mulheres fizeram... Churrasco, festa e tomaram cerveja! Aquele ser abjeto (desumanizado e invisível), a “mulher”, que coloca limites e é a “verdadeira chefa” do lar está fora... E a jornalista acaba com a festa: “mas, logo os maridos caíram em si, pois, um mundo sem mulheres não é para amadores”, ou seja, o reduto da cozinha, da panela, da fralda cagada é das profissionais donas de casa, é dá “mulher”, objeto desde sempre construído a partir do prisma masculinista, viril e reprodutor. Após deixarem a casa, a narração do programa avisa: “as mulheres, mães e donas de casa vão curtir as regalias...” Claro, onde já se viu mulher ficar no spá e homem cuidar do lar? E posteriormente, a grande pergunta: como viver e sobreviver num mundo sem mulheres? Aí, pra coisa não ficar tão feia, o programa relaxa a partir do seu narrador, o ator Alexandre Borges: “muitas mulheres nunca tinham ficado longe de seus maridos e filhos, será que elas sabem descansar?”, ou seja, nenhuma “mulher” pode descansar e ser “feliz” fora do reduto doméstico. Faz-se necessário destacar o recorte social feito pelo programa: trata-se de “mulheres” e “homens” moradores do Parque Leopoldina, no Bangu, região popular da do estado do Rio de Janeiro... É claro, “mulheres” ricas não trabalham, não cuidam do lar, não cuidam dos seus filhos e os machos alfas ricos também não fazem nada, apenas tomam uísque e saem com prostitutas. Pedagogia domiciliar transada com biocapitalismo de classe. Aí é que devemos perguntar: homens e mulheres existem? Do que se trata esse recorte de gênero sob essas duas espécies que foram nomeadas medicinalmente a parte de suas genitálias? Novamente, existem ou não? Ou, tudo não passa de uma

com o seu ar de descontração. Por fim. obviamente. seja exibido um programa altamente equivocado e que transmite uma ideia pra lá de arcaica: o destino compulsório domiciliar reprodutivo às mulheres e o reforço do macho alfa enquanto sujeito incapaz de realizar afazeres domésticos e. é obrigação da “mulher”. o vídeo mostra um dos machos alfas sem controle algum sobre as crianças que se revoltam frente à péssima comida que ele as oferece.construção patriarcal que é também trabalhada pelos dispositivos da Indústria Cultural. Enquanto as “mulheres” combatem. aliviado. tudo pode ficar pior: pra aliviar o stress das “mulheres” longe do habitat “natural”. coisa que. nada como uma atividade entendida como masculina para “domesticar” estas mulheres fo ra de seus lares. com um aparente toque de humor e de desafio (mundo sem mulheres). pois. não reclamem se o destino de vocês é o lar e a maternidade. mas. O que o programa pretende deixar claro com isso? Mulheres. e claro. trata-se de uma equação impossível de realizar. e o título do programa também diz muita coisa: um “Mundo sem mulher” (sempre pensando na mulher construída a partir do macho) não pode existir. o narrador. está combatendo na rua. pais e filhos deram um jeito de ter um dia em família”. se deram um jeito é porque improvisaram. como este programa? O campo de batalha Sim. Mais uma vez. O narrador. que pelo visto ainda ecoam. tão defendido pelas campanhas eugenistas do século do XIX e XX. o lar. num momento que o mundo ocidental debate novas configurações familiares e de parentesco. avisa: “mesmo sem as mulheres. só que em novas estéticas e meios de comunicação. logo. de maneira subliminar (ou não). mas admira que em pleno século XXI. avisa: “Esporte de combate”. obviamente. demarca novamente qual é o lugar da mulher (e nós estamos em 2013): botar ordem na criançada e discipliná-las. oferecer uma excelente refeição. o programa as leva para um campo de paintball. o programa. a defesa do familismo reprodutor. excitado. E depois das duas batalhas. e principalmente. Que a televisão edita e intenta ditar o modo de viver não é novidade nenhuma. nenhuma “família” é completa sem a “mulher”. . mas é claro. o que o programa faz é editar vidas de maneira que simbolicamente fique demarcado o lugar de cada um. quando o macho alfa está fora do seu reino.

Interesses relacionados