A Ovelha e o Dragão – a Consumação

Raquel Narra O TUMULTO

A chegada

Imagine um lugar onde bem a sua frente encontra-se um largo rio de águas tranquilas... Vislumbre a água turva, movimentando-se mansamente, e sinta uma sensação de paz perfeita. Ao contemplar melhor a imensidão daquele lugar e concentrar bem a visão na outra margem, podemos perceber a restinga; uma vegetação nativa, bem verde, ajudando a compor a harmonia. O cenário é o de um quadro pintado à mão, onde o pôr-do-sol mais belo que seus olhos puderam contemplar reina absoluto naquela “obra”. Um rio; muito verde em volta e um belo final de dia... E como se esse cenário bucólico e perfeito ainda fosse pouco, atracados um ao lado do outro, vários barcos descansam ancorados ali, numa mistura fascinante de cores e tamanhos. A junção perfeita da simplicidade da natureza com a habilidade humana, reunidas num só lugar. Ah, aquele pôr-do-sol! O céu azul claro começa a ser rasgado por um tom avermelhado, onde algumas nuvens complementam o primoroso retrato, nos dando uma visão perfeita da magnitude do nosso criador... Só alguém muito poderoso e caprichoso (o maior que há) poderia dar a nós, humildes pecadores mortais, algo tão lindo para apreciar! E enquanto aquela bola de fogo; agora aparentemente tão inofensiva; vai desaparecendo no horizonte, surge flutuando sobre as águas, entre tantos outros, um pequeno barco. Dele, um som esplendoroso é ecoado através de um hábil saxofonista. Imagine novamente: pôr-do-sol magnífico e bem no centro, um barco, guiado por um prático remador, com um músico experiente entoando o “Bolero de Ravel”, e anunciando que o dia se finda... Como um ritual para a despedida do astro rei. E o melhor: isso não é apenas sonho ou fruto da minha fértil imaginação; Esse lugar existe sim, chama-se praia do jacaré (fica exatamente no encontro do rio com o mar) e é um dos pontos turísticos mais lindos da Paraíba (no município vizinho, Cabedelo; a apenas vinte minutos do centro de João Pessoa). Agora, imagine também um casamento a ser realizado nesse cenário: a bênção de Deus dada a um casal, diante de um dos maiores espetáculos naturais... Um pôr-do-sol inigualável, em um lugar por si só maravilhoso. Seria o local do casamento dos sonhos de qualquer casal; inclusive dos meus sonhos. Seria, se eu não tivesse feito a insanidade de dizer NÃO ao pedido de casamento do Cristiano! É, exatamente isso que aconteceu: Eu disse não ao pedido de casamento do homem mais lindo e perfeito da face dessa terra. Burra é um elogio para mim nesse momento! *** - Amor, me perdoa, mas não posso aceitar! Foram essas palavras que pronunciei, ainda dentro do avião, enquanto voltávamos para João Pessoa. Onde eu estava com a cabeça nesse momento? Negar uma proposta de casamento do homem que eu amava de todo o meu coração? Eu só podia estar surtada, ou o efeito da altitude havia prejudicado o meu pouco juízo! - Cris, é claro que meu maior sonho é casar com você... - Então não consigo entender porque você não fala um sim, ao invés desse não! Comentava o meu grande amor, com cara de decepcionado e inconformado. - Cris, não fica assim... Meu sonho é casar com você sim; mas eu queria ter tempo pra preparar tudo. Não quero apenas uma cerimônia de cartório e um bolinho! Sempre imaginei como seria esse dia: Sonhei em poder, ao menos, fazer um coquetel com jantar para os convidados; em escolher um lindo vestido, convidar os padrinhos... Em quinze dias isso seria impossível! Além do que eu estou desempregada, você está respondendo processo; não quero começar nossa vida a dois em meio a esse caos. - Então, não há nenhuma chance de te levar para nossa própria casa em quinze dias? - Por enquanto não. Mas, prometo que assim que eu arrumar um emprego pensamos numa data razoável. Enquanto isso vou começar a pesquisar preço de buffet, decoração, essas coisas... Garanto que será ainda esse ano. O que você acha? - Tem certeza que quer esperar até o final do ano para dormir ao meu lado? Sou crente, mas não sou de ferro Raquel! E já falei que dinheiro não é problema: Temos um apartamento que pode ser vendido para adquirirmos outro de menor valor e ficarmos sem prestação. Temos também uma parte do dinheiro das joias da mamãe... Nesse momento, não vejo nenhum empecilho para isso! Disse ele, já emburrado. Ai que tentação! O pior, é que eu tinha consciência que fisicamente os instintos do Cristiano eram diferentes dos meus. Antes dele, eu nunca havia beijado ninguém, nem desejado do modo como me sentia com relação a ele (com o Felipe não valia comparar; estava mais para um sentimento de amizade). Entretanto, sabia que Cristiano era um

A Ovelha e o Dragão – a Consumação

A chegada

homem experiente e que já havia estado intimamente com várias mulheres... Isso de certo modo deveria mexer com a cabeça dele; não só com sua cabeça, mas também com outras partes do corpo! “Para de pensar nisso Raquel, ou então você vai terminar por concordar com essa loucura de casamento em quinze dias!” Me policiava na tentativa de não retroceder com meus planos. Até o final do ano era uma data mais que razoável. Certamente, até lá eu já estaria empregada novamente e poderia ajudar meu pai e o Cris com as despesas; e também, diante do tumulto em que se encontrava a vida do Cristiano, seria bom ter um salário certo para o caso das coisas piorarem ainda mais (mesmo eles tendo muitos bens e empresas, eles também estavam muito encrencados devido aos funcionários mortos no acidente da obra; a indenização poderia chegar a milhões...). Além disso, organizar um casamento decente levaria tempo e dinheiro; e sete meses era o prazo mínimo para que meus caprichos tomassem forma. E mesmo desejando um casamento “razoável”, ainda assim teríamos que enxugar a lista de convidados anterior (a lista com quatrocentos nomes era impraticável, e também após o escândalo do satanista infiltrado na igreja, muitos tinham deixado de ser nossos amigos.) e eu não poderia sonhar com nada exagerado: bolo, coquetel e no máximo um jantar bem simples. Essa era a minha realidade! E mesmo se quiséssemos seguir com os planos anteriores a minha fuga, certamente ainda teríamos dificuldades: o casamento havia sido planejado para meados de Setembro; porém antigamente não tínhamos os problemas de agora: desemprego e falta de recursos de ambas as partes! A situação mudara e não poderíamos cometer nenhuma loucura, até porque, eu era uma pessoa equilibrada e que costumava planejar detalhadamente cada passo meu (a viagem pra São Paulo não entra nessa história, foi surto!); e com o casamento não seria diferente. Tentava me convencer de que eu estava certa. Era isso: Aceitar casar com ele em quinze dias seria uma loucura sem precedentes, e até o fim do ano era o mínimo que eu precisava para organizar tudo. Isso sem falar que estávamos no início de Maio e que dali a poucos dias eu teria um aniversário para organizar (o do Cristiano). Esse não era o momento para pensarmos nisso. Depois que chegássemos e eu estivesse com minha vida de volta nos eixos, pensaríamos na data e em todas as preparações que viriam com ela. Ele não gostou da minha ideia, mas saber que até Dezembro estaríamos casados era melhor que nada. E enquanto eu tentava arrancar um sorriso daquela cara amarrada, o piloto comunicou que em dez minutos pousaríamos no aeroporto “Castro Pinto”. Assim que descemos e pegamos nossas malas na esteira, pude ver ao longe meus pais esperando por nós no corredor de desembarque: Alívio era pouco! A sensação de paz, de lar e aconchego era tudo o que percorria minha mente naquele momento. E senti tudo isso apenas ao ter olhado para eles! E enquanto Cristiano pegava um carrinho para empurrar nossas enormes malas (minhas, quero dizer), corri para abraçar papai e mamãe. E foi aí, nesse exato momento, que percebi algumas pessoas correrem em minha direção com microfones e câmeras nas mãos. Não entendi o que acontecia. Olhei para trás, para verificar se alguma celebridade estava por ali, mas não vi absolutamente ninguém! “Porque será que estão correndo em minha direção?” Foi a pergunta mais óbvia que me fiz, enquanto eles já se aproximavam estendendo o microfone próximo a minha boca... Isso sem falar nos flashs já sendo disparados à distância. Uma loucura total! Nem sequer pude abraçar e falar com meus pais. - Raquel; é verdade que você fugiu da cidade quando soube que namorava um satanista? - O que você fez nesse tempo em que esteve em São Paulo? - Você não tem medo de ser perseguida enquanto está ao lado do homem que é suspeito de ter matado um membro de sua igreja? Você concordou com as atitudes dele? Meu Deus, aquele tumulto todo era por nossa causa? Como essas pessoas sabiam que nós estaríamos de volta hoje e nesse horário? Questionava-me desnorteada enquanto tentava alcançar papai e mamãe. Aqueles jornalistas de plantão me enchiam das mais variadas perguntas, enquanto o pastor Carlos (meu pai), veio de imediato ao meu encontro e tentava afastá-los educadamente. Coisa essa que estava difícil de acontecer, pois praticamente eles empurravam o microfone em minha boca. Enquanto essa agonia toda me cercava, percebi que outro bando de jornalistas já estava ao lado do Cristiano, fazendo outras tantas perguntas descabidas, impedindo igualmente sua passagem. Aquilo sim era um inferno! Meus pais continuaram a me cercar e apenas me orientavam a permanecer calada. Qualquer coisa dita por mim naquele instante estaria, de forma “deturpada”, estampada no outro dia em todos os jornais. Infelizmente, sensacionalismo era algo que vendia muito! A única maneira de não criar mais polêmica seria andar rapidamente até o carro e continuar em silêncio. Enquanto passávamos voando por entre “meus colegas de profissão”, meu coração doeu não só pelo constrangimento, mas principalmente por pena do Cris: Eu tinha absoluta certeza de que ele se culparia eternamente por essa cena bem na nossa chegada. E para piorar a situação, eu estava amparada pelos meus pais, mas ele estava sozinho empurrando aqueles trezentos quilos de malas que eu tinha trazido comigo na bendita viagem.

A Ovelha e o Dragão – a Consumação

A chegada

“Jesus, não permita que ele venha a se abalar; o Cristiano já tem sofrido demais com tudo isso! O fortaleça Espírito Santo, e que toda seta de acusação lançada pelo diabo não possa ter nenhum efeito em sua vida...” Eu orava em silêncio enquanto era colocada dentro do carro. No momento em que me senti segura, passei a procurá-lo com o olhar e vi meu pai o amparando tal qual fizera comigo. Mamãe também os ajudava a guardar rapidamente as malas enquanto aqueles insensíveis continuavam a fotografar e tentar uma entrevista a todo o custo. Fatidicamente lembrei-me da última vez em que pratiquei minha profissão, naquela reportagem sobre tráfico de órgãos infantis realizada em Recife... Instantaneamente o ar quis faltar, e agora eu me sentia culpada por tudo aquilo. Por um dia já ter agido tal quais aqueles jornalista; e mesmo sabendo que nosso papel era correr atrás das notícias, não posso negar que muitos exageravam e não respeitavam o momento de dor em que muitas pessoas se encontravam. E se após dois meses do ocorrido conosco os jornalistas ainda estavam em cima de nós, que dirá quando a bomba estourou? E eu deixei meus pais e Cristiano aqui, enfrentando tudo sozinhos! Não; jamais me perdoaria por tê-los abandonado daquele modo. Contudo, ao passo que me remoía pelas minhas atitudes anteriores, olhar para os meus pais apoiarem o Cris daquela forma carinhosa, só trouxe mais confirmação em meu coração dos planos de Deus para nós: Ele já fazia parte da nossa família e grupo satanista nenhum poderia roubar aquilo! Era o meu varão separado por Deus para ser o “cabeça” do nosso lar; do lar que construiríamos juntos. “Mas só em Dezembro!” Pensei, trazendo de volta os planos que estavam traçados em minha mente. Dessa vez, tudo seria como eu estava planejando: vestido, testemunhas, festa... Ao menos a isso eu teria direito! - Vamos embora rápido Carlos! – Mamãe pedia enquanto colocava o cinto, e o papai e o Cristiano entravam e sentavam de forma afobada. Não escutei absolutamente nada do que meus pais conversavam ali dentro do carro. Minha atenção estava toda voltada para a forma como o Cristiano agiria a partir de agora. No momento em que o papai arrancava com o carro dali, o Cris sequer olhou para mim. Não entendi o motivo daquele comportamento; quer dizer suspeitava que ele estivesse a se sentir culpado; mas daí a sequer a me olhar? Tentei não pensar naquilo e achei melhor, cumprimentar meus pais (coisa que eu ainda não havia feito) e quebrar o clima chato que o tumulto havia causado. – E aí gente; que saudades de vocês! E as novidades por aqui, quais são? - Nós quem queremos saber as novidades de lá garota! – Mamãe falou indignada. – Você ficou maluca? E aí a sessão sermão teve início: Foi um tal de: O que deu em você? Seguidos por um: Quase enlouquecemos com suas atitudes! ...E mesmo tendo pedido para o Cristiano aliviar minha barra pelo telefone (o que ele havia feito), eu sabia que não escaparia da bronca deles (e bem que eu merecia). - Me perdoem! Arrependimento é pouco diante do que eu sinto... Se eu pudesse apagar o passado, com certeza faria isso; mas não posso. E garanto que não aconteceu nada demais entre mim e o Rafael. As fotos foram tiradas em meio a situações que depois eu explico; mas garanto que não aconteceu nada! Mas, agora só tenho que agradecer a vocês por terem enviado esse homem abençoado para me resgatar! Segurei a mão do Cristiano, enquanto falava já na intenção de deixar claro que a situação no aeroporto em nada havia me abalado. Ela foi constrangedora sim, mas nada que pudesse me afetar. Apenas um constrangimento; nada mais que isso! Aquele tumulto em nada influenciaria meu desejo de permanecer ao seu lado. Porém, Cristiano apenas olhou para meus pais e deu um leve sorriso para mim. Não falou absolutamente nada, e nós entendemos que a “recepção oferecida” havia mexido muito com ele. Papai tentou reanimá-lo lembrando de que como uma nova criatura e filho de Deus, esses sentimentos de derrota não podiam mais cercar sua vida. Do mesmo modo mamãe lembrou que coisas piores nós já havíamos passado; que no início da crise, tudo parecia sem solução... Mas nem assim ele pareceu melhorar. Percebi de imediato que as coisas não seriam fáceis para nós, e em especial para ele. Minha volta aparentemente passou a trazer mais problemas para todos (como se os que já tivemos não fossem suficientes...) e confusões diárias seria uma rotina constante por aqui! Resolvi permanecer em silêncio e deixar apenas que o Espírito Santo de Deus pudesse convencer o coração dele. Havia momentos em que só o tempo e o silêncio eram bem-vindos e esse era um desses momentos. Contudo, continuei a segurar sua mão e a acariciá-lo... Esperava que ao menos essa atitude minha pudesse reconfortá-lo um pouco. A viagem até em casa foi rápida e como já passava das nove da noite, o trânsito calmo ajudou bastante; graças a Deus chegamos rápido! Respirei fundo e de modo aliviado quando descemos na garagem. “Minha casa; finalmente estou no meu lugar!” Pensei enquanto abraçava mamãe. Meu pai e Cristiano cuidavam das malas e subiram pelo elevador de serviço, enquanto isso, mamãe e eu subimos pelo social. E foi só a porta se abrir no nosso andar, para que um batalhão de pessoas pulasse em cima de mim: Ana Luisa com seus pais, Rosa, a Amanda, a Rafaela... Irmãos queridos em Cristo que fizeram questão em vir me receber, e aquilo encheu meu coração de alegria. E enquanto eu cumprimentava todos e recebia muitos abraços, a Rafaela entregou-me uma caixa de presentes.

A Ovelha e o Dragão – a Consumação

A chegada

- Raquelzinha alguém deixou essa caixa pra você na portaria. Deve ser um presente de boas vindas de algum membro da igreja... O porteiro me pediu pra te entregar. Enquanto agradecia, abri a embalagem tão bonita com curiosidade. – Nossa, de quem pode ser essa surpresa? – Me perguntava ao passo que desfazia o laço preto da linda caixa branca. - Meu Deus! Que coisa terrível é essa? Mamãe exclamava aterrorizada, enquanto eu, chocada olhava estática para o conteúdo da tal embalagem. - Rosas negras? ...Que brincadeira de mau gosto! – Falava, tentando não aparentar o pânico que já percorria cada terminação nervosa do meu corpo. “Que recepção me prepararam!” Pensava enquanto pegava o cartão colocado bem em cima delas. Confesso que estava tão apavorada com aquele gesto fúnebre que nem consegui ler o cartão direito. Lembro apenas de ter visto os nomes “caminho, morte, e um desejo de bem-vinda”. “Outra surpresa dos Escolhidos para mim!” – Pensava enquanto mamãe tentava pegar o cartão das minhas mãos. - Não! Ninguém vai ler isso aqui; já sabemos que é obra daqueles loucos e não vamos mais dar cabimentos às ameaças deles... “Aquele que está em mim é maior do que o que está no mundo”, não é isso o que a bíblia diz? Vamos só repreender essa atitude em nome de Jesus e encerrar esse assunto. Não quero que o Cristiano fique sabendo sobre isso; ele já estava tão pra baixo com o tumulto no aeroporto, e isso só pioraria as coisas... Eu disse enquanto todos se entreolhavam angustiados. O clima ali na sala era péssimo. A coitada da Rafaela pedia milhões de desculpas alegando que se imaginasse o conteúdo do presente, ela mesma o teria jogado fora. E foi em meio a esse clima de terrorismo total que papai e Cristiano entraram pela porta de serviço. “Essa não! Eu preciso me livrar dessa porcaria de caixa antes que o Cris desconfie de algo.” Pensei, enquanto papai olhava desconfiado para nós e comentava sobre nossas “caras de velório”. Bem que o pessoal podia ter disfarçado a expressão de espanto total! – Rosa, por favor joga essa caixa lá fora! Pedi calmamente enquanto tentava disfarçar o nervosismo. O pior, é que tentando disfarçar ou não, o Cristiano terminou ligando o clima constrangedor, à embalagem presente em minhas mãos. E enquanto eu passava “aquela coisa” às mãos da Rosa, ele automaticamente já arrancava a embalagem das mãos dela, no intuito de conferir o qu e de tão terrível podia haver lá dentro. - Cris, por favor... Isso não é nada! – Argumentei enquanto tentava impedi-lo. Tudo em vão; lógico! - Isso não vai acabar nunca? A cara de indignação e espanto que ele fez ao abrir a caixa certamente foi bem pior que a minha. Tudo o que eu mais temia acabava de acontecer: Cristiano voltava a ser atingido mais uma vez pelos Escolhidos! A ameaça era para mim, mas no fundo eu sabia que tudo aquilo era preparado para feri-lo, gerar pânico e mais culpa em sua vida... Dar ao Cristiano a sensação de que qualquer mal que se abatesse sobre minha vida seria devido a tudo o que ele havia feito em seu passado. E aquilo não era verdade. Eu escolhi voltar com ele e para ele. Culpa minha também! Após devolver a caixa para a Rosa e sair em direção ao quarto sem falar com absolutamente ninguém, constatei imediatamente que “os loucos” estavam conseguindo ter sucesso em sua mais nova missão: estavam abalando o meu Cristiano emocionalmente. Aquilo era uma droga realmente! Aquele “presente surpresa” somado ao caos no aeroporto, só estava intensificando o ataque a sua mente... Suas emoções deveriam estar por um fio! - Ele ficou muito mal! – Foi o comentário do meu pai, enquanto fazia sinal para que eu o acompanhasse até o quarto. - Débora, ore com os irmãos e repreenda toda obra de feitiçaria feita por esses satanistas. Repreenda também o espírito de medo que tem tentando se instalar sobre o Cristiano e sobre nós também. Se temos o Deus todo poderoso ao nosso lado, não há o que temer, não é mesmo? Passei direto ao quarto de visitas onde o Cris estava instalado; e para minha total agonia, assim que entrei no recinto o vi arrumando sua mala dando o claro sinal de que iria embora naquele exato momento. Ok; eu já sabia que Cristiano iria embora a qualquer instante, principalmente porque seria inaceitável que morássemos juntos na mesma casa sendo apenas comprometidos e não casados (e ainda por cima tendo eu recusado o pedido de casamento)... Contudo, não permitiria jamais que ele saísse de casa nessas circunstâncias: totalmente abalado por causa de uma ameaça idiota daqueles safados. Não mesmo! Cristiano precisava entender que a culpa não era dele, afinal, antes mesmo que ele entrasse nessa história nós já éramos alvo daqueles loucos. Com ou sem Cristiano, nossa segurança já estava ameaçada e aquilo era um fato. Aqueles satanistas malditos só estavam usando a “culpa” do Cris para amedrontá-lo (e a nós também, claro) e fazê-lo bater em retirada, dando a falsa impressão que ele estando longe seria mais seguro para nós. Tratei de deixar claro que nada do que ele fizesse (como afastar-se), traria resultados. – Nossa luta não é contra carne ou sangue meu amor; é contra o reino das trevas!... E só pode ser vencida com santidade, jejum, oração e confiança total no Senhor!

A Ovelha e o Dragão – a Consumação

A chegada

Tentava convencê-lo de que sua estadia entre nós não nos colocava em risco; nós vivíamos num eterno risco com ou sem ele ali. Além do que, nada do que ele fizesse poderia nos proteger. Só Deus nesse instante poderia ser o nosso “escudo e fortaleza” e o Cristiano precisava entender e confiar nessa promessa. - E aí, o que está acontecendo por aqui? - Papai nos interrompeu, e após vê-lo de malas arrumadas, assustou-se com a cena. – Isso é dramático da sua parte Cristiano! - Foi a repreensão dada, enquanto eu concordava plenamente com aquilo. Rosas negras não mereciam tanto drama! - Não foi isso o que te ensinei rapaz: Te treinei todo esse tempo para lutar, não para correr! Você foi apenas uma pequena peça usada pelo diabo para destruir nosso ministério... E caso você não tivesse aceitado, eles teriam levantado outro; aliás teriam levantado não: levantaram! Você saiu de cena e o Thiago entrou. O problema não é você; somos nós! E graças à Deus papai estava tão certo quanto eu de que o Cris era apenas uma pequena peça daquele macabro quebra-cabeças espiritual. – Leia todo o Salmo noventa e um antes de dormir. Precisamos de você para lutar ao nosso lado... E aí, vai encarar ou vai pedir pra sair? – Disse, brincando, fazendo referência ao filme “Tropa de Elite”. Meu pai conseguia ser doce até em momentos de tensão como aquele! O Cris finalmente pareceu entender que não seria fugindo (como eu) que as coisas se resolveriam. “Resistir ao diabo e ELE fugirá de vós”; não nós fugirmos dele! Era isso o que a bíblia ensinava e era o que faríamos até o fim. Passado o “momento crise”, voltamos para a sala e oramos juntos repreendendo todo laço maligno contido naquela ameaça. Agora sim, revestidos e nos livrando daquela “assombração”, pudemos curtir o restante da noite com nossos amigos e de maneira adequada. Enquanto eu beliscava alguns petiscos, procurei me inteirar de todas as novidades ocorridas em minha ausência, afinal foram quase dois meses longe dos meus preciosos irmãos e da vida deles. - E aí Ana, cadê o Rick; ele tinha algum compromisso hoje? Perguntei enquanto comíamos no sofá uma torta de chocolate maravilhosa. Rosa não tinha perdido a mão mesmo! Em minha fase “rebelde”, muito pouco conversava com a Ana (evitando o assunto Cristiano), e para falar a verdade, há algum tempo já não tinha notícias dela e do Ricardo. Para minha surpresa (mais uma dessa noite), ela fez uma cara estranha e percebi que as coisas não estavam tão bem quanto eu havia imaginado. – Raquelzinha, podemos falar sobre isso amanhã? Você acabou de chegar de viagem; com certeza está morrendo de cansada, precisa tomar um banho; e esse assunto é um pouco longo... Prometo que amanhã te conto tudo. - Não acredito que você vai me deixar morrer de curiosidade a noite inteira? - Claro que vou! Minha vida pessoal é um assunto para amanhã; Até porque está tarde e preciso colocar todas essas pessoas para fora daqui! Amanhã, prometo que passarei minha hora do almoço aqui com você e conto tudo o que aconteceu em sua ausência. E mesmo estando doente de curiosidade para saber o motivo daquela cara dela, eu concordava que precisava de um bom banho e de um descanso. Ana Luisa sabia o momento exato para uma saída estratégica. - Vamos embora gente; a família Oliveira precisa descansar e já passa das dez da noite! Ana sabia ser “discreta e delicada” quando queria. Porém, antes que todos saíssem, fui a busca do Cristiano. Ele não estava na sala junto conosco e seria indelicado ele não aparecer para agradecer a visita de pessoas tão especiais para nós. “Hummm... Dormindo ele não deve estar; não sem se despedir de mim!” Pensava, enquanto entrava e saia do seu quarto sem encontrá-lo. Porém, foi só colocar a cabeça dentro dos meus aposentos para pegá-lo num lindo flagra: Cristiano estava concentradíssimo olhando admirado para meu mural de fotos. E bem ali, ao meio, uma foto nossa, tirada no pôr-do-sol do jacaré, reinava, demonstrando exatamente o lugar em que ele cabia em minha vida: Quase no centro! Jesus era o centro total da minha vida, por isso o Cris estava ali, quase no centro, mas certamente bem ao lado, colado mesmo. E a foto, “quase” no centro do mural refletia isso! Imediatamente relembrei esse dia: Enquanto tirávamos a fotografia e ele declarava que eu resplandecia mais que o pôr-do-sol (ai... fofo demais!); e comentei com ele o quão seria lindo um casamento naquele cenário... “Seria... Mas, o sonho fica só para o final do Ano, não é Raquel?” O meu “eu” tratava de recordar a loucura que eu tinha cometido em pleno vôo, ao negar o pedido dele. “Vai te catar!” Foi o desaforo respondido mentalmente, para mim mesma, enquanto arrastava o Cris para que ele se despedisse de todos. - Amanhã mesmo procuro um lugar para ficar. Foi o que ele disse após as últimas pessoas finalmente entrarem no elevador. E mesmo já sentindo um profundo arrependimento por não mudar nossa realidade de: solteiros vivendo sob um mesmo teto (a cara dele de cachorro abandonado era de partir o coração!), mantive-me firme a respeito de que aquela era a atitude mais correta a se tomar. E já que eu queria um casamento à altura, eu não poderia deixar me abalar por aquela carinha linda e inconformada que ele fazia agora. Teria que deixa-lo partir. Tudo bem que não seria hoje, mas no outro dia não teria jeito... O Cristiano iria para um novo lugar sim, e ambos teríamos que nos conformar.

A Ovelha e o Dragão – a Consumação

A chegada

Despedimo-nos um do outro na sala, com um abraço de boa-noite, e só após isso cada um foi para o seu quarto. Assim que tomei banho, me troquei e deitei, percebi que Rosa entrava em meus aposentos, munida de colchão, lençol e tudo mais. - Vai acampar aqui Rosa? – Não vou acampar não dona Raquel; só vim te vigiar mesmo! Achei melhor dormir por aqui enquanto você e Cristiano estão na mesma casa... Vai que você ficou muito moderninha lá em São Paulo e decide atacar o pobrezinho no meio da noite? - Comentou “brincando” aquela engraçadinha... – Agora, eu quero que você me conte tudo o que aprontou por lá, principalmente a parte sobre o Rafael... Ele até que podia ser um safado, mas bem que era um safado bonito! Percebi que não dormiria em paz enquanto não satisfizesse toda a curiosidade daquela criatura. Nenhuma das duas dormiria caso eu ficasse de bico fechado! Resolvi atender seu pedido e fui fazendo um resumo sobre “As aventuras da Raquel na terra da garoa”... E mesmo sem sossego, estar com ela ali no fundo era uma proteção para mim: Sem Rosa a me perturbar, eu provavelmente iria ficar imaginando o Cristiano deitado no quarto bem em frente ao meu... E talvez terminasse por pensar em muita besteira; e crente pensando besteira sempre terminava em pecado! E ao passo em que eu resumia minhas peripécias, lembrava que muitas decisões teriam que ser tomadas nos próximos dias: Um novo emprego; voltar às minhas antigas atividades na igreja e tentar recuperar minha vida de antes... Eram novas etapas a serem seguidas, muitas decisões e atitudes a serem tomadas e eu precisava estar bem ciente de que nada me faria desistir de nenhuma delas. Eu precisava cumprir firmemente cada atitude que estava planejada em minha fértil mente!

Conta Cristiano O CAOS - Não! Ela disse não! Era isso o que minha mente repetia o tempo inteiro, enquanto Raquel achava que eu escutava seus argumentos para o fato dela ter rejeitado meu pedido de casamento. – Raquel não quer se casar comigo! Ok; tudo bem que ela deixou claro que o “não” era momentâneo. Que não poderia casar dentro de quinze dias porque queria ao menos uma comemoração digna... E que isso levaria tempo para organizar. Porém, final do ano? Como eu me aguentaria até lá? A última vez em que havia tido intimidade física com uma mulher foi a cerca de... – Uau, sete meses! – E essa informação era realmente de assustar! Antes, nunca havia passado mais que dois meses sem esse tipo de “relacionamento”; e mulher não faltava para concretizar o acontecimento! Se bem me lembrava, a última vez em que isso tinha ocorrido havia sido com a amaldiçoada da Sheila (que Deus tenha misericórdia da vida dela como teve da minha, mas ainda sim era amaldiçoada!) e foi pouco antes do Felipe terminar tudo com a Raquel. Após o rompimento deles, minha satisfação era tanta que só pensava em conquistá-la de uma vez por todas. Sendo assim, acabei por deixar meu lado “físico” adormecido. Contudo, após sete meses de jejum e voltando a conviver com ela diariamente, eu sabia que meu autocontrole terminaria indo por água a baixo, e isso eu não poderia permitir de modo algum! Agora eu era crente de verdade e futuro genro de pastor; não seria admissível “escorregar” nessa área da minha vida. Além do que, eu já tinha problemas demais por conta dos Escolhidos; e viver em santidade era um pré-requisito básico para que demônio nenhum pudesse agir em minha vida. Aprendi nas aulas de introdução bíblica, que todo pecado cometido abre “brechas espirituais” onde os demônios têm permissão minha para atuar (posso dizer assim). Minhas atitudes pecaminosas abriam portas para os espíritos malignos agirem de acordo com a área afetada. Seria mais ou menos desse modo: se eu não dizimasse (roubasse a Deus), o demônio devorador poderia atuar sobre as minhas finanças me trazendo vários prejuízos materiais... E se não tratasse de me manter bem santo na minha área sexual, os demônios responsáveis por destruir relacionamentos podiam atuar sobre mim e a Raquel; por isso eu não poderia vacilar de jeito nenhum! Daí, todo o meu desespero em casar dentro de quinze dias: Ao rever a Raquel e passar o dia inteiro ao seu lado, posso dizer que eu estava à beira de um colapso nervoso. No avião, seu cheiro me inundava totalmente e já me fazia pensar em um monte de besteiras... Oh, se demorássemos mais que quinze dias para casar, ficar próximo a ela certamente viraria uma tortura! E pior: sua recusa com o casamento imediato deixou-me contrariado e mais desesperado fisicamente. E falando sério, eu não poderia contar a verdade a ela: - Raquel você precisa casar comigo nesse prazo, por que além de ter amar e ter a certeza de que você é a mulher que Deus separou para estar ao meu lado, também necessito urgentemente ter uma relação sexual!

A Ovelha e o Dragão – a Consumação

A chegada

Nem morto eu faria uma coisa dessas! E nem para o meu orientador cristão (discipulador) eu poderia contar: para quem não lembra, esse cara era o meu sogro; o próprio pastor Carlos. Já imaginou: - Ei pastor, convença sua filha a casar rápido comigo ou então poderei atacá-la a qualquer momento... – Isso, nem em pensamentos! Definitivamente, estava num mato sem cachorro (nem gato, nem coelho...) e a negativa da Raquel, só aumentava meu drama. Entretanto, o mais sábio seria tentar me acalmar e com o passar dos dias tentar convencer ela e os pastores, aos poucos... Nós estávamos chegando de viagem e ambos tínhamos várias preocupações em mente: ela queria arranjar um novo emprego (para poder me ajudar com as despesas, vê se pode!) e eu precisava encontrar um lugar para me instalar. Esse certamente não era o momento para insistir no assunto e tratei de me conformar momentaneamente. “Nossa, porque tem tanto jornalista à uma hora dessas aqui no aeroporto? E porque todos eles estão correndo em direção à Raquel?” Foi o que fiquei a me indagar enquanto pegava nossas bagagens. “E porque agora muitos correm pra cima de mim?” Foi tudo em que pensei enquanto máquinas fotográficas e microfones eram lançados em minha direção. - Cristiano Cavalcanti, é verdade que você abandonou seu pai em coma no hospital só para tentar reconquistar sua ex-noiva lá em São Paulo? - Você não acha que reatar esse relacionamento prejudicará mais ainda a comunidade evangélica pastoreada pelo pastor Carlos? - E quanto ao acidente no resort; você está respondendo como homicídio culposo. Você acha que vai conseguir se safar dessa? Essa não! Respirei fundo pra não jogar o carrinho das malas por cima daqueles babacas. Como é que esses jornalistas sabiam que eu havia viajado e estaria retornando hoje? Nós não contamos para absolutamente ninguém; na verdade só para alguns intercessores... Ah, isso só podia ser obra de algum demônio espião! Bem que o Thiago havia comentado “no fatídico dia” de sua morte, que muitos desses demônios estavam espalhados pela avenida da casa do Waldeck. Provavelmente “eles” devem ter dado uma passeada pela casa de alguns irmãos da comunidade e devem ter levado a informação para a Alice e o Waldeck. Cheguei a essa conclusão enquanto tentava me controlar e andava rápido em direção ao carro. Porém, o grande problema não estava nas perguntas cretinas que eles me faziam; após tanta humilhação e rejeição por parte da sociedade, diante da descoberta de quem eu fui um dia, diria que aquilo já não me afetava tanto. O que me magoou profundamente foi o modo em como eles partiram para cima da Raquel. Quando ainda estávamos no avião, deixei claro para ela que as coisas não seriam fáceis por aqui; que enfrentaríamos muita perseguição e todo o tipo de lutas... Mas isso acontecer exatamente no momento da nossa chegada? Eles estavam pegando pesado mesmo! E o pior: Raquel não deveria passar por aquele constrangimento. EU era o ex satanista! Se eles queriam matéria, que viessem até mim e a deixassem em paz! Entretanto, eu também já havia aprendido (durante meu pouco tempo de convertido) que as coisas que fazemos não atingem apenas a nós, mas também afetam pessoas que amamos e que estão ao nosso redor. É como uma onda radioativa: ela é disparada em direção a um alvo, mas quem está próximo também é afetado; em proporções menores, mas ainda assim não escapa das ondas e das consequências... E espiritualmente não era diferente: eu fiz, o pastor foi atingido, a igreja, Raquel... E por aí a onda radioativa de destruição foi avançando. E infelizmente eu não sabia quando as consequências disso teriam fim. Agora começava a entender que ela tinha todos os motivos para recusar o pedido de casamento: Talvez Deus já estivesse a falar ao seu coração (e ao meu também) que casar com um ex-satanista só dificultaria mais ainda sua vida. E trazer mais problemas para Raquel era tudo o que eu não queria! De problemas já bastava o fato dela ter largado o emprego e ter fugido da cidade; ter alterado o curso da sua vida devido ao constrangimento que causei a ela e a seus pais. O meu amor insano por Raquel a havia prejudicado de todas as maneiras possíveis. E era por isso; por mais esse constrangimento da chegada; que não seria justo continuar a submetê-la a tantas complicações. Enquanto Raquel entrava no carro e os pastores me ajudavam a guardar as malas, eles aproveitaram para me dar algumas palavras (poucas, afinal “a galera dos flashs” continuava por ali): sobre o quanto deveria manter a calma e não me abalar por aquele momento chato. E aí, para mim as coisas pioraram ainda mais, pois ao invés de estarem chateados pelo constrangimento que eu continuava a causar a sua única filha, os dois estavam ali: me aconselhando e protegendo! “Eles não merecem continuar passando por isso. Eu preciso sumir dessa cidade e da vida deles de uma vez por todas!” Era em que eu pensava, enquanto entrávamos no carro e o pastor dava partida. E para completar, Raquel ainda fez questão de comentar o quanto estava feliz por eu ter ido buscá-la em São Paulo. “Ela continua surtada! Quem poderia estar feliz sendo exposta desse modo, assim que desce do avião? Tudo conversa fiada! No fundo Raquel deve estar morta de vergonha e só está me dizendo isso para que eu não me sinta pior do que já estou!” Pensei enquanto os pastores também tentavam amenizar o clima de constrangimento total (meu) dentro do carro.

A Ovelha e o Dragão – a Consumação

A chegada

Sem prestar muita atenção ao que eles falavam, senti apenas quando Raquel pegou uma das minhas mãos e começou a acariciá-la. Ah... A sensação deveria ser muito boa; após um transtorno daqueles, sentir seu toque a me acariciar... Deveria se não me sentisse o responsável pelo constante caos em sua vida! A impressão que eu tinha era que cada atitude minha; mesmo as com boa intenção (como trazê-la de volta); só geravam problemas. E para falar a verdade, não ouvi praticamente nada do que eles conversavam dentro do carro, durante nosso percurso. Só me lembrava das acusações de “ter abandonado meu pai no hospital para reatar o namoro”... Isso, sem contar na maneira maldosa em c omo a Raquel foi interceptada; como se ela fosse uma espécie de criminosa. “Hei! O criminoso aqui sou eu; deixem-na em paz!” Era o que eu deveria ter gritado naquele momento. Talvez me sentisse menos culpado se tivesse feito isso. O problema era que naquele instante eu estava contrariado por demais, aborrecido ao extremo, para concentrar-me em algo... Tal qual como agora. No momento, só queria chegar à casa dos pastores, pegar minhas coisas e ir para um lugar tranquilo. Um hotelzinho barato, um flat; qualquer lugar que me fizesse esquecer os problemas e me mantivesse afastado da Raquel, dando a nós dois a chance de pensar melhor sobre nossos futuros atos... Com Raquel por aqui tudo seria diferente; inclusive haveria uma chance maior dos Escolhidos intensificarem seus ataques. Agora, ela, e não eu (percebi de cara) seria o instrumento principal de destruição da igreja; era através dela que o pastor deveria ser atingido; e os Escolhidos jamais permitiriam que Raquel (e eu consequentemente) estivesse de volta, incólume e feliz. E eu deveria ter pensado nisso antes de buscá-la: sua volta poderia se transformar numa grande tragédia! Ao passo em que chegávamos ao prédio deles, parei de pensar um pouco no assunto no intuito de não enlouquecer. Raquel estava em casa e no momento todos deveriam estar felizes com isso, inclusive eu. Na verdade eu estava radiante com sua presença; só não havia pensado nos riscos que ela poderia correr ao voltar. Achei que o pior estava acontecendo com ela lá em São Paulo, longe da família e nas garras do Rafael. Nunca havia pensado na possibilidade real do maior perigo estar no seu retorno; estando ao meu lado. O pastor e eu subimos pelo elevador de serviço (por causa das malas), enquanto Raquel e a pastora Débora subiram pelo social. E assim que adentramos o apartamento, encontramos muita gente reunida lá à nossa espera: os velhos irmãos em Cristo decidiram recepcionar a Raquel e comemorar sua volta... E o momento era pra ser de descontração e alegria, porém, um clima esquisito; uma estranha tensão pairava no ar no instante em que eu e o pastor nos achegamos até a sala. - Nossa, que cara de velório é essa a de vocês? ...Até parece que vocês não estão felizes com a chegada da Raquel! Comentou o pastor que tal qual eu, não entendia o motivo para tanto silêncio e precaução. Enquanto todos se entreolhavam e Raquel esclarecia que não acontecia nada demais, vi que em suas mãos havia uma caixa de presentes que ela não havia trazido consigo na viagem. E enquanto ela solicitava à Rosa que jogasse a caixa fora, percebi claramente que havia algo de muito errado naquela embalagem. O motivo de toda a “tensão” estava dentro do pacote e eu iria descobrir o que tinha lá dentro; ah, eu iria... - Dá licença Rosa, me deixa dar uma olhadinha nesse “presente” que a Raquel quer jogar fora. – Pedi enquanto já tomava o pacote das mãos da pobre mulher, que não pôde fazer nada ante minha iniciativa. Raquel só faltou implorar para que eu não abrisse; e estava na cara que o “presente” era a razão para o clima tenso: rosas, muitas rosas cuidadosamente embaladas dentro de uma bonita caixa... O problema é que não eram simples rosas enviadas por alguém que a admirava ou amava: eram rosas negras, com aparência de mortas, e junto a elas um bilhete ameaçador destacava-se: Como diz sua estimada bíblia: “Há um caminho que ao homem parece correto, mas o fim dele conduz à morte”. Bem-vinda ao seu caminho! Um ódio e um frio na espinha me percorreram nesse instante. Aquilo era demais para mim! Se o “problema no aeroporto” deixou dúvidas, o “presente” era bem claro: a vida da Raquel estava em risco novamente por minha culpa! E eu não poderia conviver com essa possibilidade. Entreguei a caixa para alguém que não lembro quem era; estava tão desnorteado que não me atentei a mais nada; enquanto isso parti feito louco em direção ao quarto para buscar minhas coisas. Desaparecer de sua vida; era isso o que eu precisava fazer antes que ela se machucasse. E eu faria isso agora! Todos os planos ao ir buscá-la haviam sido frustrados; não haveria mais “nós”, nem infelizmente eu poderia continuar a ajudar os pastores no processo de restauração da igreja... Não porque eu não quisesse; ou tampouco eles; mas porque não era mais seguro nem prudente. Enquanto Raquel esteve fora, tivemos que administrar o caos que havia ficado por conta de tudo que eu e papai havíamos feito. Contudo, até o presente momento não havia mais ameaça contra a segurança de ninguém. Eram

A Ovelha e o Dragão – a Consumação

A chegada

apenas “reflexos” de problemas com a justiça e coisa e tal. Porém a volta da mulher que eu mais amava trouxe também o retorno da insegurança física dela, e no que dependesse de mim, eu impediria isso a todo custo. “Nem que eu tenha que procurar o Waldeck e a Alice e me oferecer como sacrifício para que eles parem de ameaçá-la! Será uma morte terrível, mas ao menos será justa!” Era nisso em que eu pensava enquanto pegava minha mala e jogava minhas coisas dentro dela. - Pode para por aí Cris, você não vai a lugar nenhum! – Raquel segurava em meu braço, tirando das minhas mãos as roupas que insistiam em entrar na mala. - As ameaças contra nós não irão parar simplesmente se você for embora... E aí o pastor também apareceu... Pronto, a reunião em meu quarto agora estava completa! – O que você está fazendo Cris? ...Lembre-se que o intuito dos Escolhidos sempre foi de destruir nossa igreja... A mim, a Raquel... O motivo do ataque deles, sempre será sobre nós; você foi apenas uma marionete na mão deles. Não se iluda que caso você se vá, tudo acabará. É exatamente isso que eles querem: menos um na luta! Olhei para Raquel que nesse momento estava com os olhos cheios de lágrimas e praticamente suplicando para que eu ficasse. – Cris, a bíblia diz que nossa luta não é contra carne ou sangue, mas sim contra os principados e potestades do mundo das trevas! Sua ausência não influenciará em nada. Entenda que com suas forças, ou com sua “ausência”, você não poderá me proteger nunca! Esse papel é de Deus! – Ela praticamente gritava cada palavra para mim. - É verdade Cristiano a bíblia também fala lá no Salmo noventa e um versículo onze que “Deus dá ordem aos anjos ao nosso respeito, para que nos protejam em todos os nossos caminhos”... E agora mesmo, lá na sala, a Débora já começou a orar e repreender junto com os irmãos, para que toda seta lançada contra Raquel e contra nós seja desfeita. Tenho certeza que no mundo espiritual, mais anjos já estão sendo enviados para nos guardar. Isso não cabe a você meu filho; ou confiamos no poder e na proteção de Deus, ou... Confiamos! Não há outra alternativa, Cris. Sendo assim, diante daquelas palavras, o que mais eu poderia fazer? Se fugir não era opção... Achei melhor me render de uma vez por todas (aos apelos dos dois) e nos juntamos ao círculo de oração que fora feito na sala. E foi debaixo da autoridade do nome de Jesus, que juntos repreendemos toda e qualquer obra de feitiçaria feita contra a Raquel, nós, e a igreja... E já que nossa luta não era contra carne e sangue, mais uma vez tomamos posse da “armadura de Deus” e passamos a guerrear no mundo espiritual. Quem estava ali certamente sentiu o fogo do Espírito Santo a nos envolver. E só assim senti que Deus estava totalmente no controle da situação! Após a oração e bem mais animado agora, fui jantar enquanto Raquel ficou na sala, matando a saudades de todos. Na realidade, eu permanecia de jejum desde a noite do dia anterior (já estava até começando a passar mal de fome), e comeria agora, para recomeçar todo o processo de ausência de alimentos no outro dia. Estávamos em plena Terça-feira e eu só encerraria esse jejum (agora pela segurança física da Raquel) no domingo. Ao passo que me acalmava um pouco mais e comia junto com os pastores na cozinha, deixei Raquel um pouco livre; ela precisava daquele momento “normal e a sós com os amigos”. E pelo visto, após a oração e as comidas, percebi que nossa noite (apesar do cansaço), ainda seria bem longa... Eram muitas novidades (as nossas) para serem divididas com todos! Assim que terminei de comer levei as coisas da Raquel para o seu quarto (a mala ainda estava na cozinha!) e pela primeira vez desde que havia chegado ali, entrei naquele lugar: Seu quarto. Só agora havia parado para pensar que em todo o tempo em que ela esteve fora, evitei ao máximo aproximar-me dessa porta. O cheiro dela, suas fotos, suas coisas, sua cama, seriam muita tortura para um coração que não podia sequer vê-la... Fiz bem em evitar o momento, e só agora, com sua volta, pude observar cada canto daquele lugar... O edredom floral que harmonizava com a cortina cor de terra (Raquel tinha um gosto diferente para cores. Enquanto as moças normais da sua idade gostavam de lilás, rosa, laranja, ou coisa parecida, ela investia mais em tons neutros como o bege, o marrom... Sempre diferente!) e também com o tom pastel das paredes. Bem acima da cama, uma foto perfeita produzida em estúdio, retratava sua adolescência; Digna de um belo quadro realmente! Á frente uma escrivaninha onde o notebook deveria ficar; uma tevê com dvd... E o que dizer do mural de fotos na parede lateral? Bem no meio dele e em tamanho bem superior às outras que ali se encontravam, uma foto nossa resplandecia o ambiente: Era uma foto que havia sido tirada algumas dias antes do “fatídico dia”. Um dos lugares mais lindos do Brasil, com um pôr-do-sol capaz de deslumbrar até o mais insensível dos homens. – Sabia que esse pôr-do-sol não chega nem aos pés da sua beleza? – Lembro de falar isso bem ao pé do seu ouvido, no instante em que ela juntava nossas cabeças para tirar a foto. E foi exatamente assim que a foto saíra: ela de frente, e eu de perfil com a boca colada ao seu ouvido. Não posso negar que a imagem ficara belíssima, principalmente pelo adorno dado pelo sol se pondo atrás. Uma sensação indescritível tomou conta de mim nesse momento: saber que eu estava ali, em meio ao seu quarto, espalhado junto as suas recordações, trouxe um novo surto de esperança para mim. Eu não tinha o direito de bagunçar mais ainda sua vida; não tinha o direito de obrigá-la a casar comigo, nem de pô-la novamente em risco... Porém, se Raquel tinha a certeza de que sua proteção ficaria totalmente por conta de Deus, e como continuava a demonstrar que ainda me queria (como havia feito durante esse dia inteiro); eu tentaria conviver com esses riscos. Como eu poderia deixá-la?

A Ovelha e o Dragão – a Consumação

A chegada

- Enquanto todos eles me quiserem por perto, permanecerei aqui! – Foi o que eu disse baixinho no exato momento em que ela entrava no quarto e me surpreendia olhando o mural. - Hei rapazinho; Se acha que olhar pra você dentro desse quarto vai me fazer mudar de ideia quanto ao casamento, você está muito enganado... Não nego que é uma tentação, mas cerimônia em quinze dias continua fora de cogitação! Disse ela brincando, enquanto pegava em minhas mãos e me arrastava até a sala no intuito de que me despedisse do pessoal que já se preparavam para partir. - Eu nem quero mais casar mesmo! – Disse agora, eu brincando, enquanto ela me beliscava indignada com minha cara de pau! Chegamos rindo na sala e a impressão que eu tinha era que nem jornalistas, nem rosas negras, jamais existiram nessa noite... O Espírito Santo era realmente ajudador e consolador; me fez esquecer de todo o tormento de momentos atrás. O clima naquela casa era outro e tenho absoluta certeza que o resultado daquele milagre foi a oração feita ali. Aproveitei enquanto os pastores ainda estavam ali na sala para comunicar que no outro dia bem cedo, trataria de procurar um lugar para mudar. – Já chegam os escândalos anteriores; amanhã mesmo procuro um lugar para alugar. E mesmo diante de todos os avisos de: “Não há pressa alguma pra isso!”; eu sabia que meu tempo naquela casa havia chegado ao fim. Novas etapas a serem iniciadas e novas lutas a serem travadas. Definitivamente tédio não existia em nossas vidas. O amanhã certamente traria um novo início e eu precisava repor minhas energias para dar prosseguimento a cada uma delas.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful