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Aulas práticas:

26 de fevereiro de 2014

26/02/2014

14:07

Caso n° 12: Cumprimento/Não cumprimento

Compra e Venda de um automóvel, celebrada no Porto. A que vende mora em Lisboa e tem o carro em Cascais. B compra e mora no Porto.

10 000em 4 prestações, a primeira delas a cumprir a 10 de Março, data em que o carro seria

entregue.

Compra e Venda de uma vivenda por 500,000. B ficou devedor de metade.

1ª Hipótese: B quer pagar; onde o deve fazer? Aplica-se uma regra específica da compra e venda, nomeadamente a do artigo 885°: só se consegue saber onde se paga o preço quando se souber onde se vai entregar a coisa vendida.

Ora por força do artigo 773° a coisa, que quando foi vendida estava em Cascais, deve ser entregue no lugar onde se encontrava ao tempo da celebração do negócio.

Em conclusão o carro, bem como o preço, terão se der entregues por A e B respetivamente em Cascais (arts. 773° e 885°/1 do CC);

2ªHipótese A não quer entregar o automóvel, mas exige o pagamento da prestação.

Trata-se de uma situação em que é aplicável a excepção de não cumprimento do contrato (art.

428°).

Só se aplica a contratos sinalagmáticos;

É uma causa de exclusão da ilicitude;

Pressupõem que não há prazos diferentes estipulados para o cumprimento de cada uma das prestações;

É suscetível de interpretação enunciativa, permitindo que, havendo prazos diferentes, a parte

que estiver adstrita ao prazo mais longo invoque a exceção se a contraparte com o prazo mais curto não tiver cumprido;

Havendo um contrato sinalagmático com dois lugares para cumprimento simultâneo temos um caso de complicada solução, devendo recorrer-se à boa fé, sob pena de haver incumprimento lícito à luz do 428° ad eternum.

3ªHipótese: 10 de Março B paga a prestação, e recebe o carro. Chega a 10 de Abril e B não paga a nova prestação.

Está em causa uma obrigação com prazo certo, estabelecido em benefício do devedor (art. 779°).

Os prazos acabam às 23:59:59 do dia (art. 279°). Segundo o art. 781° a falta de pagamento importa a perda do benefício do prazo, que corria a favor

do devedor (B) e assim, A pode exigir o pagamento completo logo em Abril.

A obrigação torna-se antecipadamente exigível, pelo que é necessária interpelação do devedor, mas

a doutrina não é unânime neste ponto.

Mas uma vez que se trata de um contrato de compra e venda, o artigo 781° não é aplicável, sendo-o

antes o artigo 934°, norma especial da venda a prestações.

Diferenças:

Reserva de propriedade;

Oitava parte;

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A norma do 934° é supletiva ou injuntiva? Pelo elemento literal não é possível descortinar esta

questão.

À luz da autonomia privada é possível afirmar esta norma como supletiva, pois as partes são

livres de estabelecer o que entenderem e em caso de dúvida caímos para o lado da supletividade;

regra poderá ser injuntiva se interpretarmos a ratio da lei e nos perguntarmos porque é que

A

o

legislador se deu ao trabalho de consagrar uma norma especial como a do 934°; o legislador

pretendeu com este preceito proteger o comprador de bens a prestações (o consumidor, a parte tipicamente mais débil da relação jurídica), pelo que se permitirmos que a norma seja supletiva essa proteção desaparece;

4ª Hipótese: A exige de B os 7,500nos termos da hipótese anterior. C apresenta-se oferecendo apenas 5,000.

A está a interpelar B nos termos do artigo 805°/1, para que a obrigação se vença de modo a que seja possível ao credor exigir todas as prestações de uma só vez, nos termos do artigo 781°.

Há aqui um problema de integralidade da prestação. O artigo 763° impõe que esta o obrigação seja realizada no integra, pelo que A pode recusar o pagamento dos 5,000licitamente, sem entrar em mora.

Se A recusar quem entra em mora é o devedor, iniciando-se de imediato a capitalização de juros moratórios nos termos do artigo 806°.

Quanto à legitimidade ativa para realizar a prestação aplica-se o artigo 767°, segundo o qual

qualquer pessoa pode realizar a prestação, a menos que esta seja infungível que não é o caso, uma vez que qualquer um pode realizar a prestação sem prejudicar o interesse do credor.

Se A recusar por este motivo é ele que entra em mora (art. 813°).

Se A aceitar a prestação de C pode haver:

Sub-rogação, passando C para o lugar do credor;

Enriquecimento sem causa se C estiver em erro;

Mandato sem representação;

Gestão de negócios;

Ou doação indireta.

5ª Hipótese: B paga a A 7,500no final de Março. Em abril A exige o pagamento da segunda prestação do carro, B diz que já tinha pago a totalidade. A contrapõe -lhe que imputara os 7,500na dívida da vivenda.

B deve a A 260,000: 10,000do carro e 250,000da vivenda.

Este é um problema de imputação do cumprimento: artigos 783° e ss. Critérios de imputação:

Acordo das partes;

Declaração de devedor;

Lei, nomeadamente nos termos do artigo 784°;

Não é admitida em caso algum a designação de imputação pelo credor.

Uma vez que as parte não acordaram nada, e o devedor não especificou, vamos ver os critérios de imputação legal: são duplamentesupletivos; só se aplicam se não houver outro critério e só se aplicam pela ordem estabelecida no artigo;

Primeiro imputa-se às dívidas vencidas, mas neste caso concreto estavam ambas vencidas;

Na que oferece menor garantia: a garantia das obrigações é o património do devedor, pelo que esta norma se refere apenas a garantias especiais (hipotecas, fianças, etc.); continuamos empatados, porque nenhum dos bens tem garantias especiais;

Na mais onerosa para o devedor, mas neste caso nenhuma delas o é; mais onerosa não quer

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dizer mais alta, pois o resultado prático é exatamente o mesmo: mais onerosa significa mais gravosa para o devedor a título de qualquer critério jurídico;

Na que primeiro se tenha vencido;

Na mais antiga em data.

Uma vez que nenhum destes critério desempata, há que aplicar o 784°/2: rateada quer dizer proporcionalmente.

Caso nº 16: A obriga-se a reparar um muro, prestação na qual gasta 1,500. Em contrapartida, B obriga-se a trazer do Brasil a jiboia 666 (infungível).

Atenção: não há contrariedade nem à lei, nem à ordem pública, nem aos bons costumes, não podendo ser invalidado. Quando muito seria um problema do artigo 281°, mas a ilicitude de fim só é relevante se for bilateral, logo o contrato é válido.

1ª Hipótese: A traz a jiboia numa jaula, mas um passageiro envenena -a à sucapa.

Trata-se de um problema de impossibilidade:

Não culposa;

Objetiva;

Total;

Superveniente;

Aplica-se o artigo 790° e a obrigação extingue-se. Este contrato é porém sinalagmático, pelo que a contraprestação deve ser restituída nos termos do enriquecimento sem causa, uma vez que já foi realizada (art. 795°).

O contrato caduca, extinguindo-se automaticamente por desaparecimento das prestações nele

acordadas.

Temos ainda, obviamente, um problema de responsabilidade do terceiro que impossibilitou o cumprimento desta obrigação. Trata-se de responsabilidade extra-contratual e de eficácia externa das obrigações. (matéria de direito das obrigações 1).

2ª Hipótese: A traz a jiboia e envenena-a, por medo dos outros passageiros.

Estamos perante impossibilidade novamente, exceto que desta vez o regime é o da impossibilidade culposa imputável ao devedor (arts. 801° e ss.)

A obrigação do devedor extingue-se e o devedor responde em sede de responsabilidade

obrigacional, nos termos do artigo 798°: o facto ilícito é o incumprimento, a culpa presume -se nos

termos do artigo 799°/1.

O credor tem direito a uma indemnização e pode resolver o contrato (art. 801°/2 e 432°) e se já tiver

realizado a sua prestação, que é o caso, pode ainda exigir a sua restituição por inteiro.

A resolução faz-se mediantedeclaração à outra parte (art. 436°) e tem em regra efeito retroativo

(arts. 433° e 434°), sem prejuízo da indemnização e da restituição (que está pensada para a restituição de prestações de coisa, pelo que tem que entrar, neste caso por a prestação realizada ser

de facto, o regime do enriquecimento sem causa).

Resta saber se a indemnização é pelo interesse contratual positivo ou negativo:

Se o credor resolver o contrato não poderá pedir uma indemnização pelo interesse contratual positivo, devido ao cariz retroativo da resolução do contrato: se ele foi destruído retroativamente não pode exigir que se compensem os danos pelo incumprimento do contrato que "não existiu"; ainda por cima o contrato pode ser resolvido ou executado, à laia de decisão unilateral do credor, pelo que ele tem o direito de escolher, não fazendo sentido que se indemnize o dano positivo quando o credor resolva o contrato;

Há no entanto doutrinas mais recentes que intentam que todos os danos são indemnizáveis, incluindo os positivos de incumprimento do contrato.

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3ª Hipótese: B é deparado com custos elevados (3,500) para trazer a jiboia e por isso abandona-a no aeroporto.

Estamos perante um problema de excessiva onerosidade (de realização) da prestação ou impossibilidade relativa e esta não exonera o devedor.

Esta situação é então irrelevantes, pelo que B incumpre o contrato, mas há no entanto dois limites:

Alteração superveniente das circunstâncias (art. 437°);

Erro sobre o objeto do negócio (art. 251° e 247°).

Ou, sob o ponto de vista do credor, abuso de direito na exigência da prestação.

4ª Hipótese: A só pode levantar a jiboia dali a 15 dias pelo que chega à terra natal sem o animal.

Estamos perante um caso de impossibilidade temporária ou retardamento casual: artigo 792° Falta o pressuposto da culpa pelo que não há responsabilidade do devedor. O vínculo obrigacional suspende-se, sob ambos os pontos de vista do credor e do devedor, com o limite do nº 2, e é retomado assim que terminar a impossibilidade.

5ª Hipótese: A não se preocupa mais com a jiboia e não a traz porque acha que transportá -la dá muito trabalho.

Requisitos da Mora:

Obrigação vencida;

Cumprimento possível;

Culpa (presumida 799°);

Manutenção do interesse do credor (objetivo 808°);

Todos estes requisitos estão reunidos nos dados da hipótese, pelo que A terá de indemnizar B (art. 804°). A indemnização moratória calcula-se nos termos gerais do artigo 566°.

10/03/2014

Caso n°14: contrato de compra e venda de um computador por 1000, em 4 prestações. A primeira

prestação vence no momento de celebração do contrato e o computador deve ser entregue no dia imediato à celebração, na casa de A (domicílio do credor).

A

convenção de entrega no domicílio do credor desvia-se da solução legal supletiva do artigo 773°/1.

O

computador tem características específicas pelo que daqui em dianteserá considerado uma coisa

infungível.

1ªHipótese:

Se for infungível: 790° e a obrigação extingue-se; Se for fungível: impossibilidade temporária e a obrigação suspende -se.

2ªHipótese: B esquece -se da data da entrega e três dias depois envia -o por C que escorrega e parte o computador.

B já está constituído em mora (art. 804°).

Não há dados na hipótese para aplicar o artigo 797° que tem por requisitos:

Uma convenção das partes;

Um envio para local diferente do local de cumprimento.

Assim sendo, este é um caso de aplicação do artigo 800°. Os requisitos são:

Utilização pelo devedor de um representante legal ou um auxiliar;

Um nexo de funcionalidade entre o ato e o incumprimento: só há responsabilidade do devedor se o incumprimento resultar de atos de não cumprimento ou cumprimento defeituoso do auxiliar;

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Quanto à culpa do terceiro há divergência doutrinária;

Fica por tratar a questão do risco pelo perecimento da coisa.

3ª Hipótese: o devedor pede a terceiro que pague a 2ª prestação. O terceiro confundiu-se e entregou a E, invés de B, o credor.

A prestação feita a terceiro não extingue a obrigação, nem desonera o devedor (art. 770°). E por via

do artigo 800° é como se o erro tivesse sido de A, pelo que este se encontra constituído em mora, nos termos do artigo 804°.

Para recuperar o dinheiro haverá que aplicar o regime do enriquecimento sem causa, nomeadamente o artigo 476°/2.

4ª Hipótese: o credor, B, envia D a casa de A para receber a quantia correspondente à 2ª prestação. A recusa e B exige todas as restantes prestações.

O artigo 769° só diz respeito ao representante legal, logo aplica-se o artigo 771° pois D é

representante voluntário e portanto a A é lícito recusar o pagamento da prestação a D, sem entrar em mora, não perdendo o benefício do prazo.

Mesmo quanto ao lugar da prestação bate tudo certo. As partes acordaram que a entrega do computador seria feita no domicílio do A, e pelo 885° o pagamento do preço é devido no mesmo local de entrega da coisa.

5ª Hipótese: F, amigo de A, paga a 2ª prestação em nome de A, porque este está mal de finanças. B refere que tem direito a exigir a totalidade e não quer que F cumpra o restante.

Pode ser F a apresentar-se para pagar (art. 767°).

A questão fulcral é de perda de benefício do prazo, nos termos do artigo 780°.

Insolvência é diferente de falência. Estar insolvente é uma ideia de passivo superior ao ativo, ter mais dívidas do que património.

Na insolvência temos duas hipóteses:

Insolvência judicialmente declarada;

Insolvência simples.

Se o "esta mal de finanças" corresponder à insolvência, então o caso entra na previsão do artigo do 780° e então a exigência de B é lícita.

O 780°/2 só se aplica a garantias especiais das obrigações.

6ª Hipótese: quando B entrega o computador, G diz que A vai reconsiderar. Transtornado, A cai e destrói o computador.

Trata-se de uma hipótese de mora do credor pelo artigo 813°. Para resolver a questão aplicam-se os regimes da responsabilidade do devedor e do risco em sede de mora do credor, arts. 814° e 815°.

Caso nº 15: promessa de compra e venda de um corta relva, com entrega de metade do preço 1000 . O definitivo era para celebrar em junho, no escritório de A.

Contrato de prestação de serviços (transporte) de um contentor que chegava no dia 15 e devia ser

feito imediatamente após o desalfandegamento e em contrapartida eram entregues umas laranjas.

1. O barco atrasa-se e o contentor só chega a dia 20. É impossibilidade temporária (art. 792°), suspendendo-se o vínculo obrigacional: o credor não pode exigir e o devedor não entra em mora pois o atraso não lhe é imputável.

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Dia 21 o contentor foi desalfandegado, mas não foi transportado. Uma vez que a chegada de um barco não é um facto futuro e certo, esta preforma uma

condição suspensiva e nesses termos a obrigação em apreço não vence automaticamente, mas sim pela interpelação do devedor.

O que A faz, ao telefonar a B é precisamente a interpelação requerida no artigo 805°/1, pelo

que a partir de dia 22 (ou prazo razoável de acordo com a boa fé), se a prestação não for

cumprida, o devedor entra em mora do devedor (art. 804°/2).

No dia 25 o contentor ardeu, gerando a impossibilidade da prestação. O incêndio não é imputável ao devedor, no entanto, nos termos do artigo 807° o devedor é na mesma responsável pelos prejuízos.

O devedor argumenta dizendo que tinha o camião avariado: não é válido, pois a

impossibilidade com base nesse argumento é-lhe na mesma imputável;

O segundo argumento também não é válido pois o 807° não responsabiliza o devedor pelo

facto ilícito que deu origem ao incêndio, mas sim pela mora.

A única coisa que pode perdoar o devedor é o mecanismo do artigo 807°/2: a relevância

negativa da causalidade virtual (mesmo que a obrigação tivesse sido cumprida a tempo, o

contentor tinha ardido porque o incêndio também atingiu o armazém do credor).

2. Em junho, B diz que não está em condições de entregar o corta relvas, pelo que o credor pede uma indemnização no valor de 2000e quer resolver o contrato, uma vez que já não tem interesse pois saiu um novo modelo.

A perda do interesse relevante para efeitos de aplicação do artigo 808° tem de ser

consequente da mora e tem de ser aferida objetivamente, pelo que não é aplicável.

A resolução do contrato opera nos termos do artigo 432°, mas não é aplicável mora. O credor

tem direito à indemnização moratória e pode fixar um novo prazo admonitório que, ao não ser cumprido, transforma a mora em incumprimento definitivo.

Uma vez em incumprimento definitivo, o credor já pode resolver o contrato.

Caso nº 19: Contrato para realizar um projeto de engenharia por 5000. A paga de imediato 50% do preço e de seguida estabelecem-se duas cláusulas:

Pena de 10% por cada mês de atraso - cláusula penal moratória, pois visa compensar o credor pelo atraso na prestação (arts. 810° e 811°);

30% acrescidos em caso de incumprimento definitivo- cláusula penal compensatória (art.

811°);

Não se fala em pena convencional pois esta visa essencialmente uma função sancionatória, enquanto que a cláusula penal tem um caráter essencialmente compensatório.

Uma cláusula penal de valor zero, ou quase zero, é uma cláusula de exclusão da responsabilidade que envolve a renúncia antecipada dos direitos do credor, e logo é nula (art. 809°).

Se pelo contrário, a cláusula penal tiver um valor excessivo (relativamente à prestação ou ao dano??? A doutrina diverge!!!) o tribunal pode, segundo juízos de equidade, reduzi -la, nos termos do artigo 812°.

O legislador não refere a hipótese da cláusula penal fixada ser manifestamente diminuta, mas não seja justificado aplicar o artigo 809°; a doutrina propõe então duas soluções:

Ou não se faz nada, levando as partes a acatar o acordado;

Ou aplica-se o regime 812°, a contrario, por analogia; esta solução é admitida por influência do

regime do código italiano, que consagra as duas soluções expressamente e de onde o legislador português retirou a solução consagrada no 812°.

Atenção que a redução proposta pelo 812°, não deve ser feita para o valor do dano: só se requer

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que a cláusula não seja MANIFESTAMENTE excessiva, podendo ser meramente excessiva.

A cláusula penal tem a mesma forma que o contrato, sob pena de nulidade (810°/2, não obstante a

má formulação do preceito); e a cláusula penal, como é acessória, sofre as mesmas vicissitudes que

a obrigação principal, sendo que se esta for nula a cláusula penal também o será.

1ª hipótese: passaram seis meses e o B ainda não cumpriu o projeto. A diz que perdeu o interesse.

A perda do interesse averigua-se objetivamente,pelo que se houver verdadeira perda de interesse

há incumprimento e A tem direito ao funcionamento da cláusula penal compensatória (30%); de outra forma, B encontra-se em mora e apenas haverá funcionamento da cláusula penal moratória.

A cláusula penal, após o incumprimento, dispensa o credor da prova do dano, sendo por isso

extremamente vantajosa, mesmo que o seu montante seja de valor igual ao do dano sofrido. A vantagem será menor para a doutrina que apenas liberar o credor de provar o montante do dano.

2ª Hipótese: B está em mora, A mantem o interesse, mas exige o cumprimento da prestação, o funcionamento da cláusula penal moratória e a aplicação de uma sanção pecuniária compulsória

Tudo isto é exigível nos termos dos artigos 811°/1 porque o devedor só está em mora, e do 829° A/2, que ressalva a indemnização a que haja lugar, nomeadamente a da cláusula penal.

Caso nº 28: A deve 1000a B. A obrigação vence-se em 31 de Outubro.

Hipótese 1: A propõe a B a cessação do crédito a C, com vista à total extinção do débito. B aceita, mas poucos dias depois afirma que a dívida de A se mantém porque C invocara, justificadamentea prescrição da sua dívida.

A propõe a B uma dação em cumprimento, pois invés de prestar o dinheiro, presta um crédito que

detinha sobre C (art. 837°). O credor não é obrigada a aceitar (art. 762°), mas pode fazê -lo, se assim entender pois a tentativa de prestar coisa diversa, sem assentimento do credor, equivale a incumprimento.

Porém, a dação em cumprimento que tenha por objeto a cessão de um crédito resolve -se pelo artigo 840°, sendo que a obrigação de A só se extinguiria quando o credor fosse satisfeito, e como C invocou a prescrição não houve tal satisfação, logo pelo artigo 804°/1, ex vi nº2 por se tratar de um crédito, a dívida não se extinguiu e A continua a dever os 1000.

No entanto, atenção pois o nº2 utiliza a palavra "presume-se", pelo que no caso da cessão de crédito podemos não estar perante uma dação pro solvendo, mas sim uma dação in solutum, e nesse caso a extinção extingue-se de imediato, não podendo B exigir nada de A. (é o caso dos cheques visados).

2ª Hipótese: em julho A perde o benefício do prazo e é interpelado por B para pagar os 1000 . Entretanto também aparecem os credores C, D e E, que interpelam A para pagar as vultuosas dívidas que tinha para com eles.

Face a esta situação B emigra para o Brasil após mandatar B para vender todo o seu património e reparti-lo rateadamente pelos vários credores. Aparece entretanto F, que pretende anular o mandato porque também é credor mas não está nele comtemplado.

Está aqui em causa uma hipótese de cessão de bens aos credores (art. 831°): o devedor encarrega os credores de liquidar o seu património e com o respetivo produto satisfazer os respetivos créditos.

Na base desta figura está um mandato: alguém fica encarregado de praticar um ato jurídico (vender

o património) por conta de outrem. Atualmente não tem muita aplicação prática, pois os devedores

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que não estão em condições de pagar não optam pela figura.

As exigências formais são: 832°

Pelo menos documento escrito;

Forma exigida para a validade da transmissão dos bens nela compreendidos;

A divisão do produto da liquidação deve ser feita de forma proporcional às dívidas, e o facto de haver credores que não estejam contemplados na cessão não prejudica que os bens cedidos sejam

executados também por estes (art. 833°).

4ª Hipótese: B interpela A, porque A está em mora e avisa que este vai ter de pagar juros moratórios. Contudo A afirma que é credor de B em 2000por violação do direito ao bom nome, operada em agosto.

B está constituído em mora automaticamente: 805°/2, al. B porque o seu crédito provém do 484°.

A também, a partir do momento da interpelação que vem na hipótese, nos termos do artigo 805°.

A está a pedir a compensação, e os requisitos estão todos preenchidos: 847°, bem como a sua

efetivação: 848°

Porém, para haver interpretação temos de fazer uma interpretação da alínea a) do artigo 853°, pois de outra forma haveria exclusão da compensação por o crédito ser provenientede facto ilícito doloso. Mas não se aplica porque quem pede a compensação é o lesado, e não o praticante do ato ilícito doloso.

A compensação tem efeitos retroativos ao momento em que os crédito se tornaram compensáveis,

que neste caso será a 31 de Outubro, porque só aí é que se vence a segunda dívida: 854°.

Caso 27: B deve 1000e juros a A. A obrigação vence -se em 31 de Dezembro.

2ª Hipótese: em 31 de outubro, C pretende pagar os 1000em vez de B, com juros até dezembro. A não aceita. C quer consignar em depósito extinguindo a dívida. A proíbe.

Consignação em depósito por terceiro 842° Requisitos do 841°: aplica-se a parte da mora porque o A rejeitou a prestação licitamente oferecida por terceiro (arts. 767°/1 e 813°).

A consignação em depósito faz-se por via judicial. Há legislação especial para consignação em

depósito direta na Caixa Geral de Depósitos, para prestações pecuniárias, mas é uma mera

excepção.

Em mora do credor fora das prestações de coisa a extinção da obrigação poderá operar pela aplicação analógica do 411° ou do prazo admonitório do 808°.

3ª Hipótese: afinal a dívida era não só de B, mas também de C. A combina com B que não lhos vai exigir, mas sim a C, na totalidade. C paga a totalidade da dívida e exige os 90% do que pagara, já que essa era a proporção das relações internas. B opõe-lhe o acordo com A.

A e B contrataram uma remissão (863°), pelo que a sua obrigação relativamentea A está extinta.

Porém aplica-se aqui a excepção do 864°, já que B não prescinde de pedir a totalidade a C e a

obrigação é solidária, pelo que continua a haver direito de regresso de C sobre B (864°/2).

A questão ao contrário, solidariedade de credores, está resolvida no 864°/3.

5ª Hipótese: a dívida era de B e C em solidariedade. B morre, sendo A o seu único herdeiro.

É uma hipótese de confusão (868°), mas na vertente das obrigações solidárias, pelo que a situação

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de resolve nos termos do 869°/1. C fica exonerado na parte da dívida relativa a B, que nos termos do 516° se presume ser metade. Isto porque a confusão extingue o crédito e a dívida, quando estes se reúnam na mesma pessoa.

O 869°/2 opera para solidariedade de credores. O 872° ressalva que não há confusão quando o

crédito e a dívida pertençam a patrimónios separados, como será o caso da herança antes da

partilha e da meação comum e individual dos bens do casal.

Caso Nº9: A, proprietário de um carro, incumprira um contrato-promessa de compra e venda do mesmo que tinha celebrado com B. Como consequência ficou devedor de 5000que era o valor do sinal em dobro. Por não ter dinheiro e querer evitar uma ação constituiu uma hipoteca do carro a favor de B, para garantia do pagamento dos 5000no prazo de um ano, com juros legais que em caso de incumprimento capitalizariam na dívida. O acordo foi celebrado a 31 de Janeiro de 2004.

1ª Hipótese: B que deve a C 6000, acorda com este a extinção de dívida, mas ficando C credor de A nos exatos termos em que o é B. Em Janeiro de 2006 C dirige -se a A, exigindo os 5000mais juros capitalizados e ainda juros normais, ameaçando penhorar o automóvel. A refere que não sabe quem

é C, que o automóvel só foi dado como garantia a B e que a capitalização de juros é ilegal.

Cláusula de juros sobre juros é regulada pelo artigo 560° sobre anatocismo, só seria válida se a convenção fosse posterior ao vencimento dos mesmos.

Está em causa uma cessão de créditos (art. 577°). Requisitos:

A cessão não ser proibida, por lei ou convenção das partes; o 579° explicita algumas proibições legais;

O crédito não esteja ligado à pessoa do credor, pela própria natureza da prestação;

Negócio base: a cessão de créditos é um efeito de um outro negócio que lhe serve de base

(578°);

não se exige o conhecimento nem o consentimento do devedor, porque em regras as prestações são fungíveis;

Assim sendo, o contrato entre B e C é plenamente válido, tendo por base uma dação em cumprimento. (não é pro solvendo porque o texto permite deduzir que a presunção do 840°/2 foi ilidida).

Quanto aos efeitos relativos ao devedor, requer-se que o A seja notificado (583°/1) para que a cessão produza efeitos em relação a este. Desta forma, até que A seja notificado, e a boa fé impõe que seja B a fazê-lo pois tem um dever de informação para com A, C não pode exigir o cumprimento por parte de A, pois formalmente o credor continua a ser B. Após a notificação a cessão operada entre B e C torna-se plenamente eficaz, em relação a todas as partes, e aí sim C poderá exigir o cumprimento a A.

Quanto às garantias (hipoteca) e à cláusula de juros, aplica-se o 582°, pelo que estas são transmitidas para C, juntamente com o crédito sobre A, já que não houve convenção em contrário.

2ª Hipótese: D compromete -se para com B, que aceita, a pagar a dívida de A. Em janeiro de 2006, B, perante a insolvência de D, escreve a A exigindo o pagamento da dívida, sob pena de imediata execução e penhora do automóvel. A responde que o devedor é D.

Estamos aqui perante uma assunção de dívida, nos termos do 595°/1, al. B, por contrato entre o credor e o novo devedor. Neste caso é irrelevante o consentimento do antigo devedor.

Atenção que o antigo devedor só fica exonerado se o credor o afirmar expressamente; ora o texto não nos dá dados para saber se tal declaração existiu pelo que é de presumir que A e D passaram a

ser devedores solidários (art. 595°/2). É com base nesta distinção que se distingue a assunção cumulativa da liberatória; além disso só há transmissão das obrigações quando a transmissão seja liberatória, pois na cumulativa não há transmissão, mas sim uma modificação subjetiva.

Como a obrigação se torna solidária, cada devedor responde pela totalidade da dívida, aplicando -se

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o regime dos artigos 512° e ss.

Em matéria de insolvência, o regime da assunção de dívidas tem um preceito específico: no caso da assunção liberatória, o credor não pode opor ao antigo devedor a insolvência do novo devedor, a menos que o tenha ressalvado expressamente. Mas não é o caso, porque a assunção não foi liberatória e a dívida é solidária, logo A é responsável pela dívida na mesma.

A hipoteca constituída por A mantém-se porque A nunca deixa de ser parte na relação jurídica, pelo

que a penhora seria válida e eficaz. No entanto, para o caso da assunção liberatória há um regime especial do artigo 599°.

Atenção que, embora as obrigações se tornem solidárias o regime de solidariedade do 595°/2 é imperfeito, pois só opera unilateralmente. Se o devedor novo paga não tem direito de regresso sobre o antigo devedor, uma vez que se obrigou a assumir a sua dívida; mas na hipótese inversa, de

o devedor antigo pagar a totalidade, há um direito de regresso sobre a totalidade, porque o contrato entre o antigo e o novo devedor (595°/1, al.a)) ilide a presunção do artigo 516°.

3ªHipótese: o automóvel de A é destruído, pelo que B exige um nova garantia. A consegue que E lhe preste fiança. B interpela então E que em janeiro de 2006 paga na totalidade, pretendendo agora ser reembolsado por A, que se recusa.

Caso nº 7: A deve ao banco 2 000 000e tem dívidas aos fornecedores no valor de 1 000 000. B para instaurar uma ação executiva, apurou o seguinte:

6ª Hipótese: o A prepara-se para ir para o Brasil, mas quer encontrar comprador secretamente para as jóias valiosas que tem num cofre de J.

A hipótese mais viável é a do arresto (619°).

Requisitos:

Receio fundado é suficiente; não é preciso esperar pela dissipação do património pois é uma

figura preventiva;

O tribunal pode exigir, ou não que o requerente do arresto preste caução, consoante as condições

do caso concreto. É um travão ao requerimento desmedido do arresto.

O artigo 621° estabelece que se o arresto for julgado injustificado ou caduque, o requerente pode

ser responsabilizado pelos danos causados.

Pelo 622°/2 são extensíveis ao arresto as disposições da penhora. Ou seja, o requerente vai ficar com prioridade sobre os demais credores no resultado da venda dos bens arrestados.

Mas se o arrestado vender os bens, a venda não produz efeitos, podendo o arrestante executar os bens no património do terceiro, como se do arrestado se tratasse (621°). Mesmo o adquirente de boa fé não está tutelado pela figura, tendo que recorrer ao enriquecimento sem causa e à responsabilidade civil pré-contratual por violação de deveres da informação por parte do arrestado.

2ª Hipótese: A tinha um apartamento na Lapa, que fora vendido dois anos antes a D, amigo íntimo de A, por 500 000(dobro do preço real). Mas já no ano antes, A tinha vendido a E por 300 000.

Haverá aqui, eventual, compra por um preço simulado, logo nula (240°/2). A melhor hipótese de B é declarar a nulidade da venda nos termos do 605°, com base em simulação, sendo que esta terá efeitos retroativos (289°), voltando o bem ao património de A, pelo que a garantia patrimonial se manteria.

O artigo 605° não acrescenta nada ao 286°, regime geral da nulidade. A sua razão de ser está

relacionada com o código de Seabra, tendo efeitos meramenteconfirmativos.

Requisitos:

Ato seja nulo;

O credor tenha interesse na declaração de nulidade;

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Porém temos o problema da segundo compra e venda a E, que admitimos não ser simulada. A única hipótese aqui é intentar uma ação de impugnação pauliana.

Requisitos 610°:

Ato que envolva diminuição da garantia;

Ato não pessoal;

Crédito anterior ou, em sendo posterior, tenha o ato sido dolosamente praticado;

Resultar do ato a impossibilidade de satisfação integral do credor, ou o agravamento dessa

impossibilidade;

Se o ato for oneroso, os devedor e o terceiro têm de estar de má fé (612°/1), e essa má fé manifesta-se pela consciência do prejuízo que o ato causa ao terceiro (612°/2).

O artigo 613° admite a impugnação pauliana de segundo grau.

Requisitos:

Que a primeira venda seja impugnável;

Que, em caso de segunda alienação onerosa, o terceiro adquirente esteja de má fé, nos

termos do 612°/2.

O artigo 615° permite ao credor escolher entre o regime da nulidade e da impugnação pauliana, mas

a impugnação é mais vantajosa pois só aproveita ao credor que utilize esse meio de conservação da garantia, enquanto que o regime da nulidade aproveita a todos.

5/05/2014

Continuação do caso Nº7:

1ª Hipótese: em 1996 o devedor doou a casa ao filho.

O facto de a alienação ser anterior ao crédito não é relevante, mas a hipótese não nos dá indicação

de mais datas. Assumindo que a hipótese se passa na data presente, passaram 18 anos desde a data do ato, e o regime da impugnação pauliana tem um prazo de caducidade de 5 anos por razões de segurança jurídica (art. 618°), pelo que mesmo verificados os requisitos todos do 610° e 612° o credor nada podia fazer em relação a este ato.

A

impugnação pauliana só aproveita ao credor impugnante, pelo que a procedência da mesma torna

o

ato de alienação ineficaz apenas em relação a este (616°/1). O facto de o obrigado à restituição ser

o terceiro e de o credor poder executar o bem no património deste indica que a sentença não tem efeitos anulatórios nem nulatórios, pois o bem não regressa ao património do devedor original.

4ª Hipótese: A que é devedor do B, é credor de G em 500 000. A dívida está vencida mas nunca foi exigida, nem há tensões de o ser. A sabe que G tem um crédito sobre H, de montante superior, também vencido e em vias de prescrição, que G não tem exigido por inércia.

Esta é uma hipótese de sub-rogação do credor ao devedor: arts. 606° e ss.

Os seus requisitos são:

Uma omissão/inércia do devedor; ele podia exigir o cumprimento e não o faz;

Exigência de um direito de crédito de conteúdo patrimonial, o que afasta os direitos de natureza pessoal do costume;

Que o direito não esteja sujeito à exclusividade de exercício pelo respetivo titular;

Essencialidade à satisfação ou garantia do direito do credor (606°/2), estando este ponto

sujeito a prova pelo credor;

O artigo 608° afirma que sendo exercida judicialmente, a sub-rogação exige citação do devedor; mas

pode ser feita por via extrajudicial.

Na prática, a sub-rogação, permite ao credor exigir o cumprimento do crédito de conteúdo

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patrimonial que compete ao devedor, por forma a satisfazer o seu crédito. A sub -rogação pode, no entanto, ser:

Direta, se o credor exigir para si o conteúdo do cumprimento diretamente;

Indireta ou oblíqua, se o cumprimento se inscrever na esfera jurídica do devedor para depois

satisfazer o crédito do credor sub-rogante.

O artigo 609°, ao afirmar que a sub-rogação aproveita a todos os credores, consagra a via indireta,

pois só quando o conteúdo se inscreva na esfera do devedor é que tal situação é possível.

A sub-rogação de segundo grau também é permitida por aplicação analógica do 613°, relativo à

impugnação pauliana, mas há que ter em especial atenção o requisito da essencialidade, pois se o

primeiro devedor a quem seja exigido o cumprimento tenha dinheiro para pagar sem exigir o cumprimento do crédito do segundo devedor, já não se pode sub-rogar a sua posição: esta é a solução consagrada pela doutrina para a falta de previsão legal.

3ª hipótese:

O bem não é arrestável porque devido à reserva da propriedade, o bem ainda não é do devedor

(619°/1).

Também não há lugar à impugnação pauliana porque o A não alienou nada.

Trata-se de uma questão de sub-rogação misturada com o instituto da reserva de propriedade, nomeadamentecom o artigo 409°.

É preciso saber se a cláusula de reserva de propriedade foi ou não registada, sob pena de não ser

oponível a terceiro, ou seja ao B, podendo então este arrestar o bem como se a cláusula não existisse.

Admitindo que a reserva foi registada e é oponível a terceiros, o que o A teria é uma expectativa de adquirir a propriedade, e não um direito pelo que o B não se lhe poderia sub-rogar pois o artigo 606°

só admite o exercício de direitos em substituição do devedor.

A hipótese só seria resolvida mediante o pagamento de B a F (767°), para que A recebesse a

propriedade do imóvel e depois poder exigir o cumprimento do seu crédito por A, pela via geral.

12/05/2014

Caso nº 8: contrato de mútuo entre A e B de 2500, que foi garantido pessoalmente por C (fiança é a figura paradigmática das garantias pessoais; no teste sai de modo expresso).

1ª Hipótese: por acordo verbal com A, e sem o conhecimento de B, C garantiu pessoalmente, e de modo expresso, o pagamento.

628°/2 a fiança pode ser instituída completamente à margem do devedor, por acordo entre o credor

e o pretendente a fiador.

628°/1 e 1143°: o contrato de mútuo até 2500está sujeito à liberdade de forma nos termos do 219°, e a fiança segue a forma da obrigação principal. É a acessoriedade da fiança.

2ªHipótese: por acordo escrito com B, C garantiu pessoalmente e de modo expresso, o pagamento dos 2500, bem como de toda e qualquer dívida, presente e/ou futura, de B perante A.

O facto do acordo ser escrito não traz problema algum à luz do que ficou dito acima (628°/1, 1143° e

219°).

A fiança também pode ser celebrada por acordo entre o fiador e o devedor, imperando a liberdade

contratual (405°). Além disso, tal contrato beneficia o credor e é perfeitamente possível que duas

pessoas celebrem um contrato para beneficiar terceiro (contrato a favor de terceiro). Se o credor não quiser a existência de um fiador pode rejeitar, nos termos do artigo 447°.

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Estamos aqui perante uma fiança omnibus ou genérica, pois C obriga-se a garantir toda e qualquer

dívida de B perante A. A fiança de obrigações futuras é admissível (628°/1e 654°), mas é necessária

a sua determinabilidade, ou será nula, como é esta, por indeterminação (280°/1).

Nestes termos, pode apenas haver redução (292°) para que a fiança abarque apenas as obrigações presentes, pois assim já ficaria determinada a obrigação sobre a qual é constituída a fiança, sendo

apenas necessário averiguar se esta seria a vontade das partes.

Atenção, quanto à forma, na questão da fiança de obrigações futuras, pois se não se souber qual o contrato a celebrar, qual a obrigação principal, mercê da acessoriedade da fiança, pode haver invalidade da mesma por falta de forma, quando o contrato principal requeira registo ou forma especial.

3ª Hipótese: C obrigou-se, pessoal e subsidiariamente, à realização da prestação devida por B, ficando convencionado que em caso de incumprimento,C pagaria uma indemnização de 5000.

A subsidiariedade reporta-se ao benefício da excussão (638°): o fiador pode recusar-se a pagar

enquanto o credor não esgotar o património penhorável do devedor principal. Isto é uma faculdade que assiste ao fiador, não operando automaticamente, tendo caráter tendencial, pois há fianças que operam automaticamente e porque em não havendo este benefício o fiador responde solidariamente com o devedor.

Os 5000consubstanciam uma cláusula penal. Mas segundo o artigo 631° a fiança não pode exceder

o montante da dívida principal, que não é o caso, nem ser contraída em condições mais onerosas, como é o caso da cláusula penal estabelecida apenas para o fiador.

Nestes termos, teríamos que reduzir esta fiança ao valor da dívida principal, ignorando a cláusula

penal, pois o B não tinja cláusula penal nenhuma.

Isto não contunde com a previsão do 634°, que se aplica aos juros de mora e a cláusulas penais

moratórias que sejam estipuladas para o devedor principal.

4ª Hipótese: o mútuo foi judicialmente anulado, após ficar provado que B contratara em erro, qualificado por dolo, provenienteda atuação de C. Este sustenta agora a sua desvinculação enquanto fiador.

O mútuo foi anulado por vício da vontade, e assim é aplicável o 632°/2. Mas em bom rigor já não há aqui fiança pois já não há dívida a pagar, no entanto o fiador continua obrigado perante o credor se na altura em que prestou a fiança conhecia a causa da anulabilidade, muito embora o devedor tenha sido desvinculado, por força do 289°, retroativamente.

5ª Hipótese:

O fiador pode usar, quando seja demandado primeiro, do benefício da excussão (art. 638°). Mas este

é um direito renunciável, embora não tenhamos informação na hipótese para afirmar com toda a

certeza que tenha havido renúncia.

Importante é saber que o benefício da excussão, embora possa ser recusado, não opera automaticamente, sendo requerida a sua invocação pelo fiador.

O fiador pode depois requerer a quantia paga ao devedor por sub-rogação legal (art. 644°). Mesmo

sem este artigo chegaríamos à mesma conclusão via artigo 592°. A obrigação do devedor não se

extingue,há apenas uma transmissão do crédito do credor para o fiador.

6ª Hipótese:

Não há benefício da excussão prévia por via do artigo 640°, al. a). Assim o fiador não pode, com pretende, fazer valer o direito decorrente do artigo 639°/1, sendo que o credor não tem que executar primeiramente as coisas sobre as quais recai a garantia real, nomeadamente, no caso, o

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penhor constituído por D.

O fiador, após pagar, tem direito de regresso nos termos gerais da solidariedade. Se não pagar, o

fiador entra em mora (art. 804°), aplicando-se depois as consequência decorrentes desse regime.

É um caso de fiança não subsidiária, mas é uma não subsidiariedade convencional, já que foi declarada pelo próprio fiador, na formação da mesma.

7ª Hipótese:

O fiador quer invocar a compensação. Admitindo que os requisitos estão reunidos ele pode fazê -lo,

via artigo 642°.

A compensação não opera imediatamente,só se torna efetiva mediante a declaração de uma parte

à outra, sendo que o 642° permite ao fiador não pagar enquanto A ou B não efetuem a compensação, já que, neste caso, ambos podem fazê -lo.

Atenção à escrita do 642° quando apenas uma das partes possa invocar a compensação.

8ª Hipótese:

Nada obsta a que o C, querendo, pague a dívida de B. Ou porque não há benefício da excussão ou porque renunciou a este.

No entanto, C violou o dever de informar o devedor inicial do artigo 645°. Assim perdeu o direito de

regresso sobre este, podendo apenas repetir de volta a prestação feita ao credor, como se fosse indevida (645°/2), porque senão haveria enriquecimento sem causa.

9ª Hipótese:

Este problema resolve-se pelo 652°/2. Requisitos:

Haver benefício da excussão;

A obrigação ser pura, sendo necessária a interpelação do devedor para o seu vencimento;

Haver decorrido mais de um ano sobre a assunção da fiança.

Reunidos estes requisitos o fiador pode exigir a tal interpelação, mas na hipótese em causa só passaram dois meses, logo o fiador nada pode exigir ao credor.

A única solução será, preventivamente afastar o prazo de um ano do 645°/2, mediante cláusula em

contrário; ou via abuso de direito.

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